quarta-feira, 1 de abril de 2026

Rui Tavares, Trump é um presidente pós-metafórico: descrevê-lo desafia o cronista- FSP

 Ao longo dos anos, comparei Donald Trump com Calígula, com vantagem para o último. Dizer que Trump ("uma versão pós-moderna de um imperador julio-cláudio tardio") enlouqueceu é hoje uma banalidade. Lembro-me de ter escrito que, com Trump, vivíamos no "esplendor grotesco da ideologia do egoísmo e da ignorância". Se for perguntar a alguma IA e ela devolver essa, saiba que fui eu que escrevi primeiro.


Toda a gente sabe que Trump é uma pessoa horrível. Ainda assim, ele faz questão de nos lembrar regularmente do que isso quer dizer, sobretudo quando morre alguém de quem não gosta e ele celebra. Quando o casal de atores Rob Reiner e Michele Singer foram assassinados pelo filho, Trump preferiu ironizar as vítimas.

Sombra de uma pessoa de terno com braço direito levantado projetada em parede de madeira. Na parede, 13 estrelas douradas formam um círculo ao redor do número 1776, também em dourado.
A sombra do presidente Donald Trump durante evento do comitê republicano do Congresso, em Washington - Chip Somodevilla - 25.mar.26/Getty Images via AFP

Toda a gente sabe que Trump mente. Sobre tudo e sobre nada. "Mente sobre coisas importantes, sobre coisas banais, sobre coisas facilmente verificáveis, mente por necessidade e mente desnecessariamente", escrevi em 2020, para terminar desejando que "as nossas melhores esperanças sobre ele possam ser apenas que ele seja muito venal, muito corrupto, muito incompetente, muitíssimo vaidoso —e não mais do que isso".

Pois bem, Trump é hoje mais do que alguém muito venal, muito corrupto, muito incompetente e muitíssimo vaidoso. Ele é sobretudo muitíssimo perigoso. Perguntem às meninas da escola de Minab, no Irã. Perguntem aos milhares de iranianos a quem ele traiu. E, de caminho, perguntem à economia mundial. Já passou o tempo em que Trump era insólito, mas pelo menos não tinha invadido nenhum país. Só desde o início do ano, já lá vão dois. Com promessas e ameaças sobre Cuba e até, pasme-se, parte da Dinamarca.

Trump é por si mesmo uma refutação das teorias deterministas, ou "necessitárias" da história. Aquelas que dizem que as guerras acontecem porque "tem mesmo de ser assim", porque as grandes tendências ou as contradições históricas o determinam. O atual presidente dos Estados Unidos está aí para provar que um único indivíduo pode provocar grandes estragos. Podemos até argumentar que o declínio dos EUA era previsível. Mas até agora não vi ninguém dizer que tinha adivinhado este declínio. Nenhum romancista se aproximou disto.

E parte do grande perigo de Trump está em que ele agora já disparou para um território pós-metafórico, para lá da barreira da comparação. Já chamei Trump de autocrata. Já chamei de oligarca. Já decidi inventar palavras e chamar de "autoligarca". Não creio que tenha exagerado de vez nenhuma. Mas Trump desafia o cronista a declarar a falência das palavras; um dia desses vai ser preciso fazer caretas ao espelho e mandar para publicar na coluna.

Porque hoje é Dia das Mentiras: quem não acredita que vá ver as ameaças aos aliados europeus, os insultos ao aliado saudita, as danças ridículas nas cerimônias militares —e parem para ver os planos da nova biblioteca presidencial, completa com uma estátua dourada colossal de Trump com o punho no ar, uma coisa para fazer a Coreia do Norte corar de modéstia.

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O mais incrível é ver sempre Trump acompanhado de uma multidão de sicofantas proclamando a sua genialidade. Ele passará e um dia a gente não acreditará que foi assim. Mas haverá escárnio que chegue para os que bajularam e apoiaram?

Deirdre Nansen McCloskey - Inovação é jazz, FSP


Wynton Marsalis (n. 1962) é um grande trompetista, tanto no jazz quanto na música clássica, e um brilhante intérprete dos métodos e encantos desses estilos. Ele frequentemente aponta a improvisação como a definição de jazz. O saxofonista apresenta um tema, imediatamente o baixista o ouve e acompanha, o pianista escuta atentamente e responde, e o baterista, o tempo todo, oferece apoio, contrastes ou comentários sobre cada um. Mesmo no jazz composto, com música escrita, como nas bandas de swing de Duke Ellington, a improvisação tinha um papel, era muitas vezes ensaiada depois que acontecia e então escrita no papel.

Marsalis compara a improvisação a uma conversa entre amigos. Não é apenas "fazer o que você quiser". Não é um individualismo descuidado, ansioso para falar, mas não para ouvir. Quando o jazz segue esse caminho, como aconteceu em alguns momentos na década de 1970, ele deixa de ser jazz e torna-se um ruído autoindulgente. Uma conversa entre marido e mulher é produtiva em amor e respeito quando cada um escuta atentamente o outro, generosamente, de forma amorosa e cooperativa.

As melhores conversas científicas ou acadêmicas são assim e, portanto, altamente criativas. Suspeito que todos os avanços no conhecimento surgem de conversas reais, entre duas pessoas como Watson e Crick ou dentro de uma cabeça com duas vozes como Einstein. Conversar é uma maneira de experimentar coisas, improvisar, desenvolver um tema que seu interlocutor acaba de apresentar. Se tudo o que fazemos é trocar discursos pré-elaborados, na política ou no jazz, nada de criativo está acontecendo. Informações estão sendo trocadas, pode-se dizer, e isso é bom. Mas se não escutamos e depois respondemos, nada de novo está sendo criado.

Escutar atentamente o que o outro diz é raro, de modo deprimente, entre acadêmicos e outros escritores, ansiosos para falar, mas não para ouvir. O monge americano Thomas Merton escreveu em 1949: "Se eu insistir em lhe dar a minha verdade e nunca parar para receber a sua verdade em troca, não pode haver verdade entre nós". Recentemente, citei Merton para alguns amigos economistas, e eles se entreolharam, perplexos. "Como podem existir duas verdades?" Ora...

Marsalis e Geoffrey Ward escreveram um livro em 2008 que você deveria ler, "Moving to Higher Ground: How Jazz Can Change Your Life" [Subindo a um nível mais elevado: como o jazz pode mudar sua vida]. O jazz, disseram eles, é uma "explosão de criatividade consensual". O mesmo acontece com a inovação na economia. Os líderes da antiga União Soviética detestavam o jazz, por considerá-lo uma manifestação da igualdade de permissão imposta de baixo para cima, que eles tanto odiavam. Eles impediam a importação de discos de jazz, que, assim como as calças jeans Levi's, eram anticomunistas e liberais-permissivos, e, de todo modo, americanos.

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Por outro lado, os comunistas adoravam o balé imposto de cima para baixo, maravilhoso, mas nada improvisado, desde que os bailarinos não se esbarrassem. E também adoravam a música orquestral imposta de cima para baixo, igualmente maravilhosa, mas que era apenas "ruído branco" se não fosse conduzida de um pódio mais elevado.

Nós precisamos de uma economia como o jazz –vibrante, não coreografada ou orquestrada de cima para baixo. Podemos anotá-la no papel mais tarde, para capturar a beleza noite após noite.

Mas sem improvisação está morta.


Caiado entrou na disputa, Elio Gaspari, FSP

 Ao oferecer a anistia para os condenados pela trama golpista de 2022/2023, Ronaldo Caiado saltou atrás das linhas de Flávio Bolsonaro. É lá que estão os votos capazes de viabilizar uma terceira via. Os próximos meses dirão se esse caminho existe. Coberto de razão, o atual governador de Goiás disse que "você só alimenta um projeto político da polarização quando você se beneficia dele".

Com 88% de aprovação em seu estado e fala mansa, Caiado é uma esperança para quem não quer Lula ou um Bolsonaro no Palácio do Planalto. Pelas pesquisas, ele patina com um só dígito. Faltam sete meses para a eleição e nada impede que tente chegar ao segundo turno. Afinal, ao seu lado está o clarividente Gilberto Kassab.

Homem de cabelos grisalhos e terno azul claro sorri enquanto sai de carro preto com porta aberta. Ao fundo, ônibus e edifícios urbanos.
Ronaldo Caiado (PSD), em São Paulo, para o anúncio de sua pré-candidatura à Presidência - Jorge Silva - 30.mar.26/Reuters

Caiado critica o PT, mas seu alvo é Flávio Bolsonaro. Oferece um passado de democrata, gestor com militância conservadora e mais de 80% de aprovação.

Se Caiado não conseguir colocar a terceira via de pé, isso demonstrará que, para o bem ou para o mal, ela não existe. A polarização estaria encravada na sociedade brasileira, como o trumpismo está encravado na sociedade americana.

Qualquer previsão mecânica feita em abril para uma eleição marcada para outubro é um exercício fútil.

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Caiado foi candidato a presidente em 1989 carregando a bandeira do agronegócio, quando a palavra mal existia. Havia outros 21 candidatos e ele ficou com magros 488 mil votos. Naquele ano, tudo indicava que a disputa ficaria entre Fernando Collor e Leonel Brizola. Em agosto, Lula tinha 5% nas pesquisas. Em novembro, foi Lula quem chegou ao segundo turno contra Collor, que o derrotaria na votação seguinte.

Aos 76 anos, com meio século de vida pública, Caiado parece uma colagem dos políticos desse período. Quando fala da segurança pública, ecoa Paulo Maluf. Se trata da polarização, ecoa Tancredo Neves. Como gestor, ecoa Juscelino Kubitschek (sem o sorriso no rosto e o otimismo nas veias). Ao defender a anistia, Caiado repetiu a decisão de JK ao patrocinar a anistia dos militares rebelados de Jacareacanga e Aragarças. O paralelo mostra que JK pacificou seu governo, mas não pacificou os insurretos, que ressurgiram em 1964.

Com uma direita pendurada no estilo de confrontos e irracionalismo dos Bolsonaro, Flávio Bolsonaro copia o pai. (A triste piada em que comparou Lula a um Opala comprova essa suspeita.) Só o tempo dirá a consistência dessa ligação.

Uma coisa é certa: com a entrada de Caiado na disputa, a campanha eleitoral perdeu o gosto ruim da monotonia. Lula x Bolsonaro pai ou filho é uma disputa velha.

Na mesma segunda-feira em que Caiado anunciou sua candidatura, o deputado petista Kiko Celeguim, presidente do partido em São Paulo, propôs que Gilberto Kassab entre como candidato a vice no lugar de Geraldo Alckmin.

Pareceu uma excentricidade, mas mostrou que o PT tem um pé na capacidade de articulação de Kassab que, por sua vez, tem um pé no PT. Celeguim foi contestado, mas explicou: "O PSD [de Kassab] é o partido-chave para ganhar a eleição".