quarta-feira, 1 de janeiro de 2025

Uma reforma previdenciária para cada ano, Rômulo Saraiva, FSP

 A última reforma previdenciária completou cinco anos de existência, mas deixou herança futura de a cada ano se reiniciar automaticamente uma nova reforma. Criada em 2019, a emenda constitucional nº 103 só vai terminar de exigir novo requisito de aposentadoria em 2033.

De forma programática, reformas anuais são feitas silenciosamente. Não precisa de mobilização política ou desgaste popular. Com a chegada de 2025, duas regras de transição que disciplinam o acesso à aposentadoria no INSS serão alteradas, exigindo mais idade e/ou tempo de contribuição.

Fachada de prédio do INSS no centro de São Paulo - Rafaela Araujo - 18.jul.2024/Folhapress

A primeira regra de transição que sofre ajuste no primeiro dia de 2025 é a do sistema de pontos. Um ano de pagamento de contribuição previdenciária e um ano festejado no aniversário são, nessa engrenagem, contabilizados como pontos.

Além dessa peculiaridade, o homem e a mulher que quiserem se aposentar por esse caminho precisam também ter no mínimo 35 e 30 anos de contribuição, respectivamente. Fixados tais parâmetros, em 2025 a pontuação do homem eleva-se para 102 pontos e a da mulher, para 92 pontos.

Outra regra de transição que muda no novo ano é a da idade mínima progressiva. Por essa regra, as mulheres poderão se aposentar aos 59 anos, desde que tenham pelo menos 30 anos de contribuição em 2025. Já para os homens a idade mínima será de 64 anos e 35 anos de contribuição.

Além dos trabalhadores comuns, os professores da educação básica que comprovarem exercício da função de magistério na educação infantil e nos ensinos fundamental e médio terão redução de cinco anos na idade e no tempo de contribuição.

No sistema de pontos, as professoras poderão em 2025 se aposentar a partir da soma de 87 pontos, desde que tenham o mínimo de 25 anos de contribuição; os professores, com 97 pontos e, no mínimo, 30 anos de contribuição.

Na regra da idade mínima progressiva, o volume contributivo mencionado também é exigido, além da idade de 59 anos para o professor e de 54 anos para a mulher.

Tais regras de transição foram concebidas para proporcionar diversidade na acomodação jurídica de quem anseia se aposentar. Se o segurado não alcança o requisito de uma regra, tenta a outra. Apesar de existir outras regras de transição, o problema dessas duas é que ambas ficam sendo alteradas anualmente, num hiato temporal relativamente demorado (de 2019 até 2033).

Isso confere a sensação ao trabalhador —que almeja se aposentar— de participar de uma corrida, cuja reta de chegada se distancia toda vez que ele está perto de cruzá-la. Embora as reformas previdenciárias costumem ter regras de transição com efeitos duradouros, esta caprichou em se protrair e se alongar.

Graças à última reforma previdenciária, nunca foi tão engenhoso saciar requisitos mutantes. Muitas vezes se faz necessário adiar as novas metas, frustrando o acesso ao benefício.

É preciso lembrar que adiar a aposentadoria não significa que ela seja maior. Fórmulas no sistema de cálculo tratam de depreciá-la. Além do tolhimento, o segurado muitas vezes recebe o mesmo valor, acaso não tivesse adiado.

Engana-se quem pensou que a reforma previdenciária findou em 2019. Ela teve a capacidade de criar novas reformas a cada ano. Em 2025, não será diferente.

Carter foi um grande presidente, Elio Gaspari, FSP

Faltando poucas semanas para o retorno de Donald Trump à Casa Branca, lá se foi Jimmy Carter. Tinha 100 anos e governou os Estados Unidos de 1977 a 1981. Batido por Ronald Reagan, teve um só mandato. Assumiu empunhando a bandeira da democracia e dos direitos humanos, mas foi moído por uma inflação de 9,9% e por suas virtudes de homem simples.

O balanço de sua presidência acompanhou os necrológios que lhe deram os créditos negados na eleição de 1980. O Brasil deveu a Carter o corte do cordão umbilical que ligava a ditadura ao beneplácito de Washington.

Jimmy Carter, então presidente dos EUA, discursa na Casa Branca e anuncia novas sanções contra o Irã
Jimmy Carter, então presidente dos EUA, discursa na Casa Branca e anuncia novas sanções contra o Irã - Marion S. Trikosko - 7.abr.80/Library of Congress via Reuters

Em 1971, quando o general Emílio Médici visitou Washington, o presidente Richard Nixon disse: "Nós sabemos que, para onde for o Brasil, para lá irá o resto da América Latina". Dois anos depois, os militares governavam o Uruguai e o Chile. Em 1976, foi a vez da Argentina.

Carter governou o pequeno estado da Geórgia e sua experiência nacional era nula. Em março de 1976, numa palestra no Council of Foreign Relations, associou seu futuro político à defesa dos direitos humanos, mas ninguém prestou atenção. Meses depois, deu nome a um dos bois: "O Brasil não tem um governo democrático. É uma ditadura militar. Em muitos aspectos, é altamente repressiva para os presos políticos. Nosso governo deve corresponder ao caráter e aos princípios morais do povo americano, e nossa política externa não pode contorná-los em troca de vantagens temporárias".

A charanga da ditadura orientou-se pela sabedoria convencional. Aquilo era conversa de candidato. Ele se elegeu, botou na área de direitos humanos do Departamento de Estado a enfermeira Patricia Derian, militante histórica da luta dos negros americanos e como alto funcionário de delegação na ONU, o professor Brady Tyson. Nos anos 60, ele havia sido convidado a deixar o Brasil. Se isso fosse pouco, Carter, que se dizia engenheiro nuclear (coisa que nunca foi), opunha-se a um acordo assinado pelo Brasil com a Alemanha. Se ele fosse em frente, seriam construídas centrais nucleares e também uma usina de reprocessamento de urânio.

Carter desossou o Acordo Nuclear e, em 1977, mandou ao Brasil sua mulher, Rosalynn. Passando pelo Recife, ela entrevistou-se, ao vivo e a cores, com dois missionários americanos que viviam com os pobres da cidade e haviam sido presos.

Em março de 1978, foi a vez de Carter vir ao Brasil. Teve uma recepção cordial, porém fria. Como ele queria ouvir pessoas da sociedade civil, marcou-se um encontro, no Rio, depois de encerrada a parte oficial da visita. Carter encontrou-se, entre outros, com o presidente da OAB, Raymundo Faoro, com o diretor de O Estado de S. Paulo, Julio de Mesquita Neto, e com o cardeal d. Paulo Evaristo Arns. A coreografia da conversa prenunciava uma estudada irrelevância: todos de pé.

O esquema falhou. Carter convidou d. Paulo para acompanhá-lo ao aeroporto e, sentados, conversaram por boa meia hora.

Nota de pé de página: Anos depois, quando Carter e Geisel haviam deixado os governos, ele voltou ao Brasil. Tentou marcar um encontro e não conseguiu. Ligou para Teresópolis, onde vivia o ex-presidente, e ele não atendeu. Era o troco devido por ter mandado a mulher para sabatiná-lo. 

Túnel do tempo, Ruy Castro FSP (belíssimo)

 

Já contei parte dessa história. Perto da meia-noite de 31 de dezembro de 1967, saímos em turma do Solar da Fossa, do outro lado do Túnel Novo, para assistir à passagem do ano em Copacabana, ali perto. Era diferente. Não havia shows de artistas nem fogos nem dois milhões de pessoas na praia. Ia-se jogar flores para Iemanjá e brindar ao Ano Novo com alguma coisa.

Às cinco para a meia-noite, os bacanas desciam de smoking dos edifícios na avenida Atlântica. Jogavam suas flores, tomavam champanhe à beira-mar e, à meia-noite e cinco, voltavam para seus apartamentos onde rolavam as festas de verdade, com as deusas do momento e as celebridades internacionais.

Nossa expedição era mais modesta, mas com algo que eles nunca poderiam superar: éramos jovens. Eu tinha 19 anos, era repórter da revista Manchete e morava no Solar, lugar difícil de definir —um ex-convento, de propriedade dos padres, transformado numa espécie de república para atores, compositores, cantores, poetas e jornalistas duros. Já então havia uma lenda sobre o Solar, e com razão.

Nele campeavam a liberdade, o talento, a contestação. Caetano Veloso, um dos moradores, mudara-se pouco antes, para São Paulo, por causa de um programa na Rádio Record.

A ideia era atravessar o túnel a pé e seguir pela avenida Princesa Isabel até a praia. Foi o que fizemos. Não me lembro se essa foi a ideia original ou se apenas calculamos mal, mas, em meio aos 300 metros do túnel, ouvimos os foguetes lá fora. E concluímos: tínhamos entrado nele em 1967 e sairíamos dele em 1968.

Ninguém se importou, e por que se importaria? Era como atravessar o túnel do tempo. Se 1967 já fora um ano de conquistas —as passeatas dos estudantes contra a ditadura, a disseminação da pílula, o começo da revolução sexual, o estouro dos festivais da canção—, 1968 seria melhor ainda. E foi mesmo —só que terminou mais cedo, no dia 13 de dezembro, e muito mal, com o AI-5. Não esperou chegar ao dia 31.
A travessia do túnel foi um marco. Quando se tem 19 anos, há tanto futuro pela frente que o ano que ficou para trás vai disparado para a pré-história.

Vista noturna da praia de Copacabana - 27.abr.1995/Reprodução