domingo, 14 de fevereiro de 2021

Aos 20 anos, genoma beneficia mais os brancos e ricos, Marcelo Leite, FSP

 


Nesta segunda-feira (15) completam-se 20 anos da publicação da sequência do DNA da espécie pela revista Nature. A soletração de 3 bilhões de caracteres genéticos foi façanha do Projeto Genoma Humano (PGH), iniciativa de instituições públicas lançada uma década antes.

No dia seguinte, a concorrente Science divulgou outro sequenciamento, realizado pela empresa Celera. Quase oito meses antes, as duas iniciativas tinham acordado encerrar uma concorrência predatória e fazer a divulgação simultaneamente.

O investimento público na empreitada somou US$ 5,4 bilhões (em valores atualizados). Ao celebrar o acordo entre PGH e Celera, o então presidente dos EUA, Bill Clinton, justificou-o dizendo que os netos só ouviriam falar de câncer como um signo do zodíaco. Estamos perto disso?

Três homens, um ao lado do outro
Da esq. para a dir., Craig Venter, da Celera, Bill Clinton, ex-presidente dos EUA, e Francis Collins, do Projeto Genoma Humano, durante anúncio, em Washington (EUA), do trabalho na decodificação do genoma humano - Joyce Naltchayan/AFP

Resposta curta: não. As hipérboles foram deixadas de lado, em favor de uma visão mais proporcional aos avanços realmente alcançáveis com base no sequenciamento. Ninguém mais fala em Livro da Vida nem em Manual de Instruções.

Muito se aprendeu, claro. Mas pessoas familiarizadas com o assunto já sabiam, na época, que o translado da informação genômica para a prática clínica —a chamada medicina de precisão, personalizada— iria demorar. Demorou e demorará.

A busca pelo gene disso e daquilo —câncer, esquizofrenia, obesidade etc.— era um conceito útil para propaganda, porém equivocado. Tais condições resultam da interação entre muitos genes e proteínas do corpo com o ambiente, e a pesquisa evoluiu para os estudos de associação no genoma todo (GWAS, na sigla em inglês).

Funciona assim: comparando as sequências de um monte de gente com determinada característica ou moléstia, computadores pescam entre zilhões de letrinhas aquelas que essas pessoas compartilham. Podem ser genes inteiros ou até letras isoladas, os polimorfismos de nucleotídeo único (SNP, em inglês).

Começa aí o trabalho duro de investigar o que essas variantes genéticas possam ter a ver com a doença. Com sorte se descobrirão as funções (ou disfunções) em que estão envolvidas, e com mais sorte ainda se chegará a uma droga ou tratamento.

O processo depende de haver muitas pessoas com genomas disponíveis em bancos de dados. Só que as diversas bases com acervos de informações não falam bem umas com as outras; além disso, para proteger a privacidade de quem forneceu DNA, há barreiras burocráticas para um pesquisador baixar os dados.

Poucos genes são muito estudados, como o TP53, envolvido em vários tumores. Outra estrela é o TNF, ligado a 160 doenças. Pesquisadores preferem apostar nos cavalos premiados em vez de arriscar suas carreiras. Só 10% das 20 mil proteínas que o corpo fabrica a partir do genoma foram identificadas como alvos de medicamentos.

Há ainda um problema de equidade: entre os genomas acessíveis, a diversidade é baixíssima. Menos de 5% das sequências provêm de pessoas com ancestralidade africana. Ou seja, os resultados colhidos podem limitar-se a beneficiar os mais ricos e brancos.

Resta muito caminho por percorrer. Na mesma Nature, há poucos dias, Albert-László Barabási anotou com humildade:

“Um levantamento acurado dos componentes é necessário —mas não suficiente— para entender qualquer sistema. A complexidade emerge da diversidade das interações entre componentes. Após 20 anos de pesquisa construída sobre o PGH, biólogos agora têm um vislumbre da dinâmica e da estrutura da rede que define a vida.”​

Marcelo Leite

Jornalista especializado em ciência e ambiente, autor de “Ciência - Use com Cuidado”.

A nova lei da gasolina de Bolsonaro e as velhas mentiras sobre combustíveis, VTF< FSP

 O projeto de lei do governo Jair Bolsonaro que propõe mudar o ICMS sobre combustíveis é razoável. Ou melhor, seria razoável em um mundo em que:

1) Bolsonaro não fosse o demagogo Bolsonaro: a lei não mexe necessariamente com o nível do preço dos combustíveis;

2) os estados se dispusessem a perder receita do ICMS sobre combustíveis, o que é politicamente inviável se não houver compensações que, em um futuro remoto, talvez sejam decididas em uma reforma tributária.

O projeto prevê que o ICMS sobre cada tipo de combustível seja idêntico em todos os estados e que o tributo tenha um valor fixo por quantidade (litro ou quilo), em vez de uma porcentagem. Parece inviável.

A alíquota de ICMS varia de 12% a 34% entre os estados. Ninguém vai querer perder receita se não houver alguma compensação. O ICMS sobre combustíveis equivale a quase 15% da arrecadação dos estados, na média.

O ICMS é cobrado como um percentual do preço de referência dos combustíveis. Quanto maior o preço, maior a receita de imposto, pois. Se o imposto fosse fixo por litro, digamos, o preço final de venda subiria menos em caso de aumento do combustível. Em tese, cairia menos também. Tudo depende da inclinação dos estados de mexer periodicamente nesse valor fixo de imposto por quantidade.

É verdade que o projeto de lei pode limitar a sonegação e também acabar com uma outra mutreta. O ICMS é cobrado sobre um valor estadual de referência do combustível, em geral uma média de preços em algum período. A fim de arrecadar mais, alguns estados mexem pouco nessa média (quando esse valor é alto).

Mas não está aí o problema central. Gasolina ou diesel ficam mais caros porque o dólar aqui está caro e porque o preço do petróleo está aumentando. Deve aumentar mais caso a economia mundial saia da lama da epidemia. O dólar está aparentemente caro demais em parte por causa do estado de avacalhação da economia e da política.

O preço nas refinarias é “livre”: nesse setor ainda dominado pela Petrobras, desde 2017 segue o mercado mundial (ou quase isso, pois a petroleira tem atrasado reajustes). Caso o governo tabelasse o preço dos combustíveis, o prejuízo acabaria na conta da Petrobras, como no governo Dilma Rousseff (tudo mais constante, a empresa tem receita menor, dívida relativamente maior, paga juros mais altos e investe menos). Com a venda das refinarias da Petrobras, vai ser difícil controlar preços.

O preço dos combustíveis tem impacto social sério, como no caso do gás de cozinha. É possível subsidiá-lo com verba do Orçamento (mas seria preciso também cortar outra despesa ou aumentar impostos). Subsidiar gasolina e diesel incentiva a poluição e arruinou a indústria do etanol.

É também possível reduzir a variação excessiva de preços cobrando um imposto regulador (como a Cide). Esse imposto aumenta quando os combustíveis estão em baixa e diminui quando estão em alta. Assim, é possível manter o custo do combustível dentro de uma faixa mais estreita de variação (desde que baixas e altas no mercado mundial não sejam muito grandes). O governo não cuidou de implementar tal política.

Essa conversa toda é bem velha. Já foi objeto de muita discussão sob Michel Temer, em 2018. Mas não houve solução alguma para o problema a não ser subsidiar o diesel dos caminhoneiros a fim de evitar um colapso de abastecimento ou coisa pior durante o caminhonaço, tumulto aliás apoiado por Bolsonaro, que volta agora a fazer demagogia.

A gente está cada vez mais rodada, mas não sai do lugar

Vinicius Torres Freire

Jornalista, foi secretário de Redação da Folha. É mestre em administração pública pela Universidade Harvard (EUA).