quarta-feira, 14 de novembro de 2018

Salvar a indústria, Antonio Delfim Netto, FSP (pauta AL)

Terminada a eleição, é preciso aceitar os seus resultados e conformar-se. Ao vencedor, caberá o exercício do governo de 2019 a 2022. Enquanto ele respeitar os princípios fundamentais e garantir os direitos e deveres individuais e coletivos da Constituição de 1988, deve merecer um voto de confiança de todos os cidadãos.
O que se espera dele é que priorize as linhas mestras do discurso com o qual ganhou as eleições:
1) enfrentar com seriedade e inteligência o desesperador problema da "segurança" pessoal e resolver o embaraçoso incesto posto a nu pela Lava Jato e 2) o cumprimento do art. 173 da Constituição, no qual se afirma que a "exploração direta da atividade econômica pelo Estado só será permitida quando necessária aos imperativos de segurança nacional ou a relevante interesse coletivo, conforme definido em lei", o que dá suporte às privatizações. As missões foram entregues, respectivamente, a Sergio Moro e Paulo Guedes, dois obstinados e inteligentes operadores.
Por outro lado, circulam sugestões na área de comércio exterior que são puras fantasias. Precisamos mesmo voltar a nos abrir para o exterior e reconectar nossa indústria às cadeias globais de valor, mas com ponderação e firmeza.
Lembremos, desde logo, que "vantagem comparativa" não é destino. Principalmente num país com 210 milhões de habitantes e renda média que pode abrigar economias de escala em muitos setores.
O Brasil já fez isso com o programa "Exportar é o que importa", a partir de 1967, com:
1) uma reforma das tarifas efetivas; 2) um "draw-back" verde-amarelo que tornava livre e ágil as importações de insumos para produtos exportados; 3) o financiamento de exportação rápido e com taxas de juros iguais às externas; 4) a devolução de todos os impostos que oneram a exportação (até mesmo os impostos menores, como o IPTU) e 5) uma taxa de câmbio estável e competitiva. Hoje ela pode ser a do mercado enquanto a taxa de juro real interna for igual à taxa de juro real externa somada ao risco Brasil.
A relação entre o valor das exportações industriais brasileiras e o valor das exportações industriais do mundo cresceu a 15% ao ano entre 1967 e 1980, quando a indústria nacional era a mais sofisticada dos países emergentes.
De meados dos anos 80 até hoje, ela decresce a cerca de 1,2% ao ano. Este é o verdadeiro índice da desindustrialização. É, basicamente, o resultado da cuidadosa desmontagem do programa de exportação e da insistência numa taxa de câmbio valorizada (às custas de indecentes taxas de juros reais internas) para combater a inflação, que praticamos nas últimas três décadas.


Antonio Delfim Netto
Economista, ex-ministro da Fazenda (1967-1974). É autor de “O Problema do Café no Brasil”.

A 'farsa' do desemprego, FSP


A 'farsa' do desemprego

Economia não é para aspirantes; antes de falar do assunto, não custa passar no posto Ipiranga


Na semana passada, o presidente eleito se manifestou sobre asestatísticas de desemprego no país afirmando: “Vou querer que a metodologia para dar o número de desempregados seja alterada no Brasil, porque isso daí é uma farsa. Quem, por exemplo, recebe Bolsa Família é tido como empregado. Quem não procura emprego há mais de um ano é tido como empregado. Quem recebe seguro-desemprego é tido como empregado”.

O presidente eleito, Jair Bolsonaro (PSL), para quem a as estatísticas de desemprego do IBGE são uma 'farsa'
O presidente eleito, Jair Bolsonaro (PSL), para quem a as estatísticas de desemprego do IBGE são uma 'farsa' - Pedro Ladeira/Folhapress
Segundo o IBGE, a população brasileira em setembro deste ano era de aproximadamente 209 milhões de pessoas. Nem todos, porém, estão aptos a trabalhar. O IBGE define a População em Idade Ativa, PIA, como aqueles com mais de 14 anos, em torno de 170 milhões de pessoas.
Obviamente, apenas parte dos maiores de 14 anos está no mercado de trabalho. Alguns, por exemplo, estudam (ainda bem!), outros já se aposentaram, e há quem decida não tomar parte no mercado por uma série de motivos, alguns dos quais trataremos à frente.
Os que participam, seja trabalhando, seja buscando emprego, são definidos como “força de trabalho”, ou PEA (População Economicamente Ativa), e montavam a 105 milhões de pessoas em setembro.
Desses, 92,6 milhões estavam ocupados, e 12,5 milhões, desempregados. Assim a taxa de desemprego atingiu 11,9% (12,5÷105).
Essa é a definição internacional da taxa de desemprego, adotada por todos os países com boas estatísticas na área. No caso, se a pessoa recebe o Bolsa Família (sem estar empregada) ou o seguro-desemprego, ela obviamente não conta como empregada.
Caso esteja procurando trabalho, contará como desempregada (e participante da PEA); caso contrário, não aparecerá nessa estatística de desemprego.
Ocorre que a taxa de desemprego descrita acima não esgota o conjunto de estatísticas sobre o mercado de trabalho. O IBGE também discrimina entre os ocupados aqueles que trabalham menos do que desejam e calcula a taxa de desempregados (12,5 milhões) e subocupados (6,9 milhões) com relação à PEA: 18,4% (19,4÷105).
Há, por outro lado, entre as pessoas que estão fora da PEA, as que gostariam de trabalhar, mas não estão buscando emprego, a chamada “força de trabalho potencial”, 8 milhões de pessoas.
A estatística mais ampla do IBGE a respeito (a taxa de subutilização da força de trabalho) junta os desempregados, os subocupados e a força de trabalho potencial, um conjunto de pouco mais de 27 milhões de pessoas como proporção da “PEA ampliada”, isto é, os 105 milhões da PEA mais os 8 milhões da força de trabalho potencial (123 milhões), revelando uma taxa de subutilização na casa de 24%.
A coexistência de várias medidas de desemprego não é uma jabuticaba.
Nos EUA, por exemplo, o Bureau of Labor Statistics publica a cada mês nada menos do que seis alternativas: a taxa denominada U3, calculada de forma similar à nossa, é a mais disseminada, 3,7% no mês passado; a taxa mais ampla, U6, se encontrava em 7,4%, o dobro da oficial, por incorporar também os que gostariam de trabalhar mais e os participantes da força de trabalho potencial.
Economia, apesar das aparências em contrário, não é para aspirantes. Como regra, antes de falar do assunto, não custa nada dar uma passada no posto Ipiranga.
Alexandre Schwartsman
Consultor, ex-diretor do Banco Central (2003-2006). É doutor pela Universidade da Califórnia em Berkeley.

terça-feira, 13 de novembro de 2018

Marketing e pragmatismo na escolha do secretário de Justiça de Dória, FREDERICO VASCONCELOS, FSP

A escolha do desembargador Paulo Dimas Mascaretti, ex-presidente do Tribunal de Justiça de São Paulo, para secretário de Justiça do governo João Dória (PSDB) aparentemente mistura estratégia de marketing e pragmatismo.
Mascaretti é um magistrado que circula com desenvoltura no meio político, tem longa trajetória associativa, boa imagem entre os colegas e trânsito entre as entidades do Judiciário, do Ministério Público e da Defensoria Pública. É bem relacionado no Judiciário.
Segundo os mais críticos, são requisitos para uma gestão eficiente ou para o exercício do lobby.
Para o cidadão comum, sua indicação pode ser vista como a repetição, no plano estadual, da opção do presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL), que retirou o juiz Sergio Moro da toga para comandar seu superministério da Justiça a partir de 2019.
As primeiras associações no caso de Mascaretti remetem ao exemplo do ex-presidente do TJ-SP Renato Nalini, que se aposentou e assumiu a secretaria da Educação na gestão do governador tucano Geraldo Alckmin.
Há outro precedente. Em 1993, o então presidente do TJ-SP, desembargador Odyr Porto, aposentou-se e, no ano seguinte, sucedeu a Michel Temer no comando da secretaria estadual da Segurança Pública, na gestão do governador Luiz Antonio Fleury Filho (na época, no PMDB). Porto também foi secretário estadual da Justiça. Morreu em 1998.
Mascaretti perdeu para Nalini a eleição para suceder ao presidente Ivan Sartori. Venceria no pleito seguinte a eleição para a presidência, que disputou com o desembargador Eros Piceli.
Alguns juízes veem na escolha de Mascaretti uma extensão da “blindagem” do governo tucano por uma “elite jurídica” na segurança pública e no sistema prisional. É a tese de doutourado de Luciana Zaffalon, da Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas (FGV), que analisou a “politização” da Justiça do Estado de São Paulo.
Em julho último, a Assembleia Legislativa de São Paulo aprovou o Projeto de Lei Complementar 14/2017 para a criação de cargos de juiz de direito substituto no TJ-SP, uma proposta de Mascaretti apoiada pelo atual presidente, desembargador Manoel Pereira Calças. O projeto venceu a resistência dos que entendem que não se justificaria criar mais cargos de juiz substituto de segundo grau, e sim, cargos de desembargador.
Mascaretti não deverá ter dificuldades para dialogar com a cúpula do Poder Judiciário. São magistrados do TJ-SP vários juízes auxiliares do presidente do STF, ministro Dias Toffoli: o desembargador Carlos Vieira von Adamek, secretário-geral do CNJ, os juízes Luis Geraldo Sant Ana Lanfredi, Rodrigo Capez e Richard Pae Kim.
O futuro secretário de Justiça de São Paulo mantém boas relações com o ministro Ricardo Lewandowski, do STF, também oriundo do tribunal paulista.
Em fevereiro de 2016, então presidente do Conselho Nacional de Justiça, Lewandowski saudou Mascaretti, recém-eleito, que assistia a sessão: “O CNJ hoje é a casa dos magistrados. Fique à vontade para considerá-la como sua casa. Seus pleitos serão bem recebidos.”
Mascaretti foi presidente da Apamagis (Associação Paulista de Magistrados), tendo realizado uma gestão considerada muito ativa. A entidade atualmente é presidida pelo juiz Fernando Bartoletti, que foi chefe do gabinete civil na presidência do TJ-SP na gestão de Mascaretti.
Quando presidente da Apamagis, Mascaretti recebeu apoio da magistratura ao criticar declarações da então corregedora nacional de Justiça, ministra Eliana Calmon, contra o corporativismo e os chamados “bandidos de toga” no Judiciário.
Sem citar nomes, Eliana afirmara durante uma entrevista, em 2010, que uma execução havia sido obstada em São Paulo porque uma das partes teria “molhado a mão do juiz”.
Mascaretti assinou nota afirmando que, “em São Paulo, não admitimos que juízes molhem as mãos na corrupção, como também não toleramos conviver com inverdades e injustiça”. Foi convidado pela ministra para uma reunião no CNJ, em Brasília.
Em 2014, os fatos mostraram que a Apamagis se excedera. O TJ-SP condenou o juiz paulista Gercino Donizete do Prado, denunciado sob a acusação de receber propina mensal de um empresário e exigir até décimo terceiro do extorquido. Eliana confirmou que Gercino Donizete do Prado é o magistrado cujo nome não citara na polêmica entrevista quatro anos antes.
Como herança da administração Mascaretti, em março deste ano o presidente do TJ-SP, Pereira Calças, suspendeu uma licitação de R$ 260 milhões, suspeita de direcionamento para favorecer um amigo do presidente da República, Michel Temer.
Mascaretti havia prorrogado um contrato –firmado em 2013 com o consórcio Argeplan-Concremat– para elaborar projetos e fiscalizar obras nos fóruns. Um dos sócios da Argeplan é o coronel PM aposentado João Baptista Lima Filho, amigo de Temer e alvo de delação da JBS.
Em outubro de 2017, a Folha revelou que a desembargadora Maria Lúcia Pizzotti pediu o cancelamento da licitação e acusou Mascaretti de omissão, por não investigar irregularidades que apontou no contrato. Mascaretti representou contra a desembargadora no CNJ.
Em dezembro de 2017, ao fazer um balanço de sua gestão, Mascaretti disse que a ampliação da eficiência foi reconhecida pelo Conselho Nacional de Justiça. Um mês antes, o estudo estatístico  “Justiça em números” atribuiu Selo Ouro ao Judiciário paulista.
Em março deste ano, Mascaretti perdeu para o desembargador Silmar Fernandes a eleição para compor o Tribunal Regional Eleitoral (TRE-SP) como juiz substituto, classe desembargador. Fernandes recebeu 163 votos, contra 146 votos obtidos por Mascaretti.
“Estou aqui para agregar e modernizar a administração pública, não para ter nenhuma vantagem e nenhum privilégio”, disse Mascaretti, durante o anúncio de seu nome pelo governador eleito João Dória, nesta segunda-feira (12).
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