terça-feira, 13 de novembro de 2018

Há doutrinação nas salas de aula?, FSP

Existe, de maneira geral, um viés ideológico na educação brasileira. Quem nunca teve um professor de esquerda? Eu tive vários, e dos que traziam suas convicções políticas para a sala de aula.
Alguns foram do perfil autoritário, que desestimulava o debate e exigia que os alunos “esquerdassem” na prova. Já outros foram professores incríveis, que estimulavam a discussão e incitavam os alunos a pensar por conta própria. A crença política era o material que animava o debate. Fui doutrinado? Se fui, não funcionou.
E eis que esse fato corriqueiro do nosso sistema —muitos professores serem de esquerda— virou o grande bode expiatório da precariedade de nossa educação.
Ninguém se preocupou em medir e conhecer a real extensão da tal doutrinação em sala de aula; mas os proponentes do projeto Escola Sem Partido (que se manifesta em diversas iniciativas e projetos de lei, uma das quais vem sendo debatida pelo Congresso) juram que se trata de um problema gravíssimo e que justifica colocar o Ministério Público para perseguir professores.
Não existe sequer um consenso mínimo do que seja “doutrinação”. Há todo um espectro de práticas que podem entrar na conta: desde um caso de abuso claro como o professor obrigar os alunos a fazer manifestação partidária para passar de ano, até práticas mais corriqueiras como usar um livro de autor “de esquerda” ou mesmo propor alguma análise que irrite algum pai de aluno.
Na prática, a corda está no pescoço de todos os professores, que foram eleitos os grandes inimigos infiltrados da família e da ordem social. 
Uma coisa é certa: qualquer que seja a extensão da doutrinação, ela tem menos poder do que no passado. Nunca o professor teve tão pouco poder em sala de aula. Ele está francamente acuado. 
Os alunos hoje têm acesso a internet; trazem smartphones para a sala, se informam em diversas fontes e contestam as informações do professor em tempo real. O professor tem hoje menos credibilidade que o grupo de WhatsApp.
O Brasil acabou de votar em peso em candidatos de direita. Se houver mesmo toda essa doutrinação, ela não está funcionando. E não há evidência nenhuma de que o posicionamento político dos professores tenha qualquer papel nos maus resultados educacionais no Brasil.
O Escola Sem Partido funcionará como uma mordaça aos professores, que se sentirão permanentemente vigiados e passíveis de punição se demonstrarem qualquer preferência ideológica e política.
Outro efeito, menos comentado, é eliminar a educação sexual das escolas, aumentando a proliferação de DSTs, a gravidez adolescente e a violência contra LGBTs, que já não é baixa.
É o resultado da ascensão de uma direita não particularmente esclarecida que, ao perceber a dominância do pensamento de esquerda entre os professores, em vez de focar formar professores melhores e aprimorar os atuais, trata a própria educação como atividade suspeita.
É uma pena estarmos discutindo um projeto mal formulado, ineficaz, paranoico e obscurantista como o Escola Sem Partido quando há tantas brigas e iniciativas a serem compradas na educação. Formar melhores professores, comprar melhores livros didáticos, formular regras para a distribuição do Fundeb, pesquisar metodologias de ensino mais eficientes etc.
Diante de um desafio tão grande e de uma lacuna histórica tão gritante, perder tempo com discussões ideológicas e ainda enfraquecer o agente central da educação, o professor, é um desrespeito a todos os jovens brasileiros.


    Joel Pinheiro da Fonseca
    Economista, mestre em filosofia pela USP.

    Com Guedes, BNDES foca em infraestrutura e mercado de capitais, FSP

    Escolha de Joaquim Levy para presidir banco é primeiro passo de estratégica mais ampla

    O futuro superministro da Fazenda, Paulo Guedes, prepara um novo norte com Joaquim Levy à frente do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social). A expectativa é que o banco encolha ainda mais, com a devolução adicional de recursos que hoje estão em caixa ao Tesouro Nacional.
    Sob Levy, a equipe econômica de Jair Bolsonaro considera que há risco zero de o BNDES não devolver os recursos que deve ao Tesouro e, eventualmente, poderá cumprir o cronograma até mais rapidamente do que o previsto.
    Isso ajudaria o governo a abater a dívida pública e reduzir a pressão do ajuste fiscal.
    Neste ano, o BNDES firmou um acordo com o governo para devolver R$ 25 bilhões por ano até 2040.
    Fachada da sede do Banco Nacional de Desenvolvimento Social
    Fachada da sede do Banco Nacional de Desenvolvimento Social - Rafael Andrade/Folhapress
    São recursos que foram injetados no banco durante as gestões Lula 2 e Dilma Rousseff 1 com o objetivo de ampliar os empréstimos e acelerar o crescimento econômico, mas acabaram represados no banco.
    O BNDES, por sua vez, ficará com menos capital para empréstimos e, com isso, deverá mudar seu perfil de investimentos, direcionando mais recursos para projetos de logística e infraestrutura e também para inovação e tecnologia.
    O terceiro pilar de atuação do banco sob Levy será a estruturação de operações de crédito para viabilizar privatizações, deixando os financiamentos de longo prazo para a iniciativa privada.
    A instituição será um parceiro fundamental do PPI (Programa de Parcerias em Investimentos) na tarefa de preparar a modelagem dos projetos, indicando as melhores alternativas de financiamentos.
    O banco não será uma delas para boa parte dos casos.
    As metas estão no roteiro de Levy que, segundo pessoas próximas, defende que o banco não deve competir com a iniciativa privada.
    Atualmente, o banco tem alguns produtos nessa linha, como um fundo de debêntures que garante até 50% de investimentos em projetos de infraestrutura de até R$ 300 milhões.
    Hoje, a carteira de empréstimos tem 23% dos recursos voltados a micro e pequenas empresas e 40% para projetos de infraestrutura.
    Uma das hipóteses em discussão, no entanto, é algo mais radical: estimular um mercado de debêntures incentivadas (títulos de dívida) para empresas.
    Hoje, esses papéis só podem ser vendidos ao investidor pessoa física.
    De janeiro a setembro deste ano, o mercado movimentou R$ 12,9 bilhões em debêntures incentivadas —nenhuma relacionada a projetos do BNDES. No mesmo período, os desembolsos do banco foram de R$ 17,5 bilhões.
    Técnicos do governo Michel Temer criticam, no entanto, a ideia de estimular a criação de um mercado de debêntures em um momento de crise fiscal.
    Para eles, já é ruim abrir mão de impostos de pessoas físicas, ampliar a isenção para fundos de investidores institucionais pioraria ainda mais as receitas.
    Outra barreira é a natureza das debêntures. Esse tipo de papel costuma ter prazo de cinco anos.
    Os empreendimentos de infraestrutura exigem mais tempo, algo como 15 anos, pelo menos. Ou seja: não é o tipo de financiamento mais adequado para o setor.

    FUNCIONÁRIOS TEMEM ENCOLHIMENTO DO BANCO

    No BNDES, funcionários de carreira estão preocupados com a escolha de Levy e com a previsão de que ele comandará um encolhimento do banco.
    Assim como Guedes, ele é doutor pela Universidade de Chicago, no Estados Unidos, reduto do liberalismo econômico, que vê com reservas a atuação do Estado na oferta de financiamento à iniciativa privada (só deve ocorrer quando há falhas de mercado que emperram a oferta de crédito).
    Para ocupar o cargo no governo Bolsonaro, Levy deixa a diretoria financeira do Banco Mundial, em Washington, para onde foi após deixar o governo Dilma, em 2015.
    Antes de ocupar a Fazenda, Levy foi funcionário do FMI (Fundo Monetário Internacional), secretário do Tesouro no primeiro mandato de 
    Lula (2003-2006) e secretário de finanças do Estado do Rio de Janeiro (2007-2010).
    Seu retorno ao governo, dessa vez pelas mãos de Guedes, é lido por pessoas que conhecem o ex-ministro como uma tentativa de recuperar sua imagem, após a passagem difícil no governo Dilma. Desde sua saída de Brasília, Levy vem optando pelo silêncio.
    Nesta segunda, ao falar sobre a nova presidência do banco, Bolsonaro também voltou a declarar que será aberto o sigilo do BNDES, mas não soube explicar o que espera com a medida.
    “Eu desconheço muita coisa do BNDES, são números que temos que tornar públicos, há uma reclamação por parte da população”, declarou, na porta de sua casa, na Barra da Tijuca, zona oeste do Rio de Janeiro.
    “Vai ter uma transparência do BNDES, isso todos os funcionários querem. Os empréstimos a outros países, qual é a garantia, se foi Tesouro, se não foi, a quantidade”, disse.
    “Nós queremos botar na mesa para vocês da imprensa, para todos tomarem conhecimento das transações feitas pelo BNDES, porque afinal de contas o dinheiro é público, é de todos nós,” afirmou o presidente eleito.