Repórteres que cobrem política fariam bem se agissem na contramão do provérbio "a cavalo dado não se olha os dentes". A tarde do tarifaço trumpista foi interrompida por um suspeito "furo exclusivo" do site Politico, sobre a partida antecipada de Elon Musk, após o fiasco da eleição para a vaga de juiz na Suprema Corte do estado de Wisconsin.
O bilionário nascido e criado na Pretória do apartheid gastou US$ 20 milhões tentando eleger o juiz trumpista Brad Schimel, num pleito que teria sido ignorado pela grande maioria dos americanos, não fosse a entrada de Elon Musk e de outros bilionários na campanha mais cara da história do Judiciário americano.
Além da doação, Musk trouxe uma tropa de terceirizados de outros estados para bater de porta em porta pedindo apoio ao candidato e entregou dois cheques de US$ 1 milhão no domingo (30) como recompensa para os eleitores que assinaram uma "petição condenando juízes ativistas." É o que Jorge Amado teria descrito como coronéis do cacau comprando votos.
A manchete sobre a renúncia de Musk para retornar à gestão de suas empresas, inclusive a combalida Tesla, emergiu apenas horas depois do resultado em Wisconsin. Andrew Card, ex-chefe de gabinete de George W. Bush, dizia que uma Casa Branca organizada vaza informações de propósito, mas uma Casa Branca incompetente apenas vaza. A ideia de que Trump subitamente interrompeu o bromance com o homem mais rico do mundo tem, no momento, tanta credibilidade quanto aparições noturnas da mula sem cabeça.
Como a amaldiçoada figura do nosso folclore, o fantasma do impopular empresário deve continuar a exercer poder e causar ruptura no governo federal. Qualquer observador atento das encenações de mídia protagonizadas pela dupla Trump-Musk deve ter notado que há um elemento de temor do homem mais rico do mundo que, não só investiu quase US$ 300 milhões para eleger o presidente, como avisou, dedo em riste, aos deputados republicanos que não votarem alinhados com Trump: ousem me contrariar e eu financio um adversário na eleição legislativa de 2026.
O medo de Trump, somado ao medo dos bilhões de Musk é a força nuclear governante da política americana do momento, em que o partido do presidente controla as duas Casas do Congresso. Musk deve seu poder desgovernado —acumulado graças a uma fortuna subsidiada pelo contribuinte americano— a uma decisão emitida pela Suprema Corte há 15 anos.
Em 2010, o tribunal máximo dos EUA deu vitória a lobistas conservadores acobertados por uma ONG, a Citizens United, declarando que limitar doações de empresas e sindicatos a campanhas seria violar a Primeira Emenda da Constituição, que garante a liberdade de expressão. A decisão escancarou a porteira para a influência do dinheiro na política americana e desaguou no Frankenstein sul-africano, hoje decidido a ser coroado o banqueiro do trumpismo.
É cedo para avaliar a derrota em Wisconsin como um basta das massas furiosas para atravessar a ponte levadiça que as separa do castelo feudal. Mas a campanha vitoriosa foi concentrada em identificar Musk como o vilão. O juiz redator do voto pela Citizens United, em 2010, escreveu que "a aparência de influência ou acesso não fará com que o eleitorado perca a fé na nossa democracia."
E Musk respondeu: "Segure a minha cerveja."