quinta-feira, 3 de abril de 2025

Elon Musk usa fortuna para zombar da democracia eleitoral, Lucia Guimarães, FSP

 Repórteres que cobrem política fariam bem se agissem na contramão do provérbio "a cavalo dado não se olha os dentes". A tarde do tarifaço trumpista foi interrompida por um suspeito "furo exclusivo" do site Politico, sobre a partida antecipada de Elon Musk, após o fiasco da eleição para a vaga de juiz na Suprema Corte do estado de Wisconsin.

O bilionário nascido e criado na Pretória do apartheid gastou US$ 20 milhões tentando eleger o juiz trumpista Brad Schimel, num pleito que teria sido ignorado pela grande maioria dos americanos, não fosse a entrada de Elon Musk e de outros bilionários na campanha mais cara da história do Judiciário americano.

A imagem mostra a silhueta de uma pessoa em um ambiente noturno, com uma fonte de luz ao fundo. A figura está de perfil, destacando-se contra um fundo mais claro. A iluminação suave cria um contraste entre a silhueta e o ambiente ao redor.
O bilionário, CEO da Tesla e SpaceX e dono do X, Elon Musk - Roberto Schmidt/4.mar.25/AFP

Além da doação, Musk trouxe uma tropa de terceirizados de outros estados para bater de porta em porta pedindo apoio ao candidato e entregou dois cheques de US$ 1 milhão no domingo (30) como recompensa para os eleitores que assinaram uma "petição condenando juízes ativistas." É o que Jorge Amado teria descrito como coronéis do cacau comprando votos.

A manchete sobre a renúncia de Musk para retornar à gestão de suas empresas, inclusive a combalida Tesla, emergiu apenas horas depois do resultado em Wisconsin. Andrew Card, ex-chefe de gabinete de George W. Bush, dizia que uma Casa Branca organizada vaza informações de propósito, mas uma Casa Branca incompetente apenas vaza. A ideia de que Trump subitamente interrompeu o bromance com o homem mais rico do mundo tem, no momento, tanta credibilidade quanto aparições noturnas da mula sem cabeça.

Como a amaldiçoada figura do nosso folclore, o fantasma do impopular empresário deve continuar a exercer poder e causar ruptura no governo federal. Qualquer observador atento das encenações de mídia protagonizadas pela dupla Trump-Musk deve ter notado que há um elemento de temor do homem mais rico do mundo que, não só investiu quase US$ 300 milhões para eleger o presidente, como avisou, dedo em riste, aos deputados republicanos que não votarem alinhados com Trump: ousem me contrariar e eu financio um adversário na eleição legislativa de 2026.

O medo de Trump, somado ao medo dos bilhões de Musk é a força nuclear governante da política americana do momento, em que o partido do presidente controla as duas Casas do Congresso. Musk deve seu poder desgovernado —acumulado graças a uma fortuna subsidiada pelo contribuinte americano— a uma decisão emitida pela Suprema Corte há 15 anos.

Em 2010, o tribunal máximo dos EUA deu vitória a lobistas conservadores acobertados por uma ONG, a Citizens United, declarando que limitar doações de empresas e sindicatos a campanhas seria violar a Primeira Emenda da Constituição, que garante a liberdade de expressão. A decisão escancarou a porteira para a influência do dinheiro na política americana e desaguou no Frankenstein sul-africano, hoje decidido a ser coroado o banqueiro do trumpismo.

É cedo para avaliar a derrota em Wisconsin como um basta das massas furiosas para atravessar a ponte levadiça que as separa do castelo feudal. Mas a campanha vitoriosa foi concentrada em identificar Musk como o vilão. O juiz redator do voto pela Citizens United, em 2010, escreveu que "a aparência de influência ou acesso não fará com que o eleitorado perca a fé na nossa democracia."

E Musk respondeu: "Segure a minha cerveja."

O mundo de Trump: tarifas e partilha com Rússia e China, Marcos Augusto Gonçalves, FSP

 Ao mesmo tempo em que ataca a ordem liberal com investidas variadas, entre as quais o recém-anunciado tarifaço para transações comerciais, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, vai dando sinais de que, na nova ordem mundial que pretende presidir, os interesses americanos estão em primeiro lugar, mas não a ponto de desrespeitar as zonas de influência das grandes potências.

Sob a crença de que o sistema internacional é injusto e prejudica os americanos, o presidente republicano adotou taxações em série, inspirando previsões pouco animadoras de economistas e governos de diversas tendências.

Um homem com cabelo loiro e pele clara está sentado em uma mesa, segurando um documento em uma mão e uma caneta na outra. Ele está vestido com um terno escuro e uma gravata vermelha. Ao fundo, há bandeiras dos Estados Unidos penduradas em uma parede. O homem parece sério e está olhando para a câmera
Donald Trump, presidente dos EUA, durante anúncio de tarifas sobre parceiros comerciais - Saul Loeb - 2.abr.2025/AFP

O quadro só se agravará com as reações internacionais. A União Europeia, posta de lado na geopolítica, colocou na mesa uma escalada de retaliações, que mira bancos e big techs dos EUA. A China, uma das mais atingidas, também acena com respostas significativas.

O Brasil, com comércio modesto, foi atingido com barreiras a seus produtos, porém no "piso" de 10%. Ao que parece, dentro do cenário, é um patamar administrável. O país poderá até ter vantagens, mas legislação de reciprocidade foi aprovada. Como e se será acionada não se sabe. Cabe ao governo reagir de maneira racional, o mais responsável e eficaz possível, como vem fazendo até aqui, aliás.

Paralelamente às barreiras aduaneiras, Trump lança ameaças ao Canadá e Panamá e diz que vai se apoderar da Groenlândia. O populista autocrático apresenta-se, em outro sentido, como defensor de um acordo pró-Rússia no caso da Ucrânia e não parece empenhado em criar problemas para a China quanto a uma possível tomada definitiva de Taiwan.

Para completar este quadro geopolítico tipo "cada autocrata cuida de seu quintal", sugere a limpeza de Gaza e chancela a colonização da Cisjordânia por Israel. Se o suporte incondicional dos EUA a governos israelenses não é uma novidade, vê-se agora, na prática, o pleno abandono da ideia de dois Estados em favor da imposição israelense do rio ao mar —e a perspectiva de um acordão com a Arábia Saudita e outros países árabes.

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Eis a nova ordem mundial de Trump. Tarifas ameaçadoras e simultaneamente a partilha de zonas de influência com Rússia e China, enquanto a Europa, abandonada, debate-se numa posição difícil.

Que tais ataques ao livre comércio, às instituições multilaterais, à ordem liberal e à democracia partam dos EUA é uma realidade nova a desafiar a previsibilidade e a estabilidade já precária de um mundo que tem perdido seus parâmetros.

Entre tantas incertezas não parece haver dúvida de que o fantasma do autoritarismo, competitivo ou não, ronda as democracias sob a égide desse governo hostil e irresponsável. É espantoso que esse conjunto de providências chegue ao auge num propalado "dia da libertação".

A eleição de Trump foi saudada por expoentes da direita internacional —caso do governador bolsonarista de São Paulo, Tarcísio de Freitas, que postou imagem constrangedora usando um boné "Maga". A performance do eleito nos EUA parece agora de difícil defesa mesmo entre simpatizantes ideológicos. Como o nacionalismo dos movimentos populistas de ultradireita apoiaria decisões contrárias a seus países, economia e população? A roleta desse novo mundo está em movimento e não se sabe aonde vai parar.

Antropofagia predatória, Ruy Castro FSP

 Durante seus 64 anos de vida (1890-1954), Oswald de Andrade fez do mundo um circo, com ele no centro do picadeiro. No começo, foi um sucesso. Mas o mundo passou de ano e cansou-se de assistir ao mesmo show —frases de efeito, trocadilhos, insultos, brigas, reconciliações oportunistas e mais brigas. Nos dez anos anteriores à sua morte e nos primeiros dez que se seguiram, ninguém lhe deu bola. Em 1964, exumado pelos concretistas, Oswald foi entronizado como um gênio rebelde e incompreendido.

Ele mesmo disse certa vez que, no Brasil, ou se está no trono ou no patíbulo. Desde sua ressurreição, Oswald só conheceu o trono. Dezenas de livros celebram suas lendas, em maioria disseminadas por ele próprio 30 anos depois dos fatos e adotadas sem verificação. O patíbulo não está à vista, mas uma nova biografia, "Mau Selvagem", de Lira Neto, joga uma incômoda luz sobre o homem que se escondia por trás do artista.

Oswald não sai bem do livro. A obsessão por meninas com metade da sua idade —uma delas, com 12 anos—, seu desprezo depois de conquistá-las, doenças venéreas, abortos e uma morte em decorrência (a de Daisy, da famosa garçonnière) não devem contribuir para sua imagem hoje.

Pela narrativa de Lira (que não esconde sua admiração pelo autor), há muita coisa sem explicação em Oswald. Homofobia, racismo, rancores ciclópicos contra ex-companheiros, ingratidão (com Blaise Cendrars, de quem pegou a prosa telegráfica e o poema-piada) e um renitente copidesque de sua história sem apoio na realidade.

Nunca foi, por exemplo, um "homem sem profissão". Em todos os dias de sua vida, mais do que poeta ou escritor, foi um corretor imobiliário. Filho do talvez maior latifundiário urbano de São Paulo, viveu de vender os inesgotáveis terrenos e prédios que herdou em 1919, hipotecando-os, negociando com bancos, credores e agiotas e bajulando poderosos para sair de encrencas. Aliás, a leitura de seu "Diário Confessional" confirma isso. No fim, o antropófago devorou a si mesmo.

Oswald de Andrade aos 58 anos
Oswald de Andrade aos 58 anos - Unicamp

Juíza bolsonarista que se opôs a máscara na pandemia é novamente aposentada, FSP

 Frederico Vasconcelos

São Paulo

Em decisão unânime, o CNJ (Conselho Nacional de Justiça) condenou a juíza bolsonarista Ludmila Lins Grilo, do Tribunal de Justiça de Minas Gerais, a uma segunda aposentadoria compulsória.

O ministro Luís Roberto Barroso presidiu o julgamento virtual no último dia 21.

Ludmila apoiou ostensivamente a candidatura de Jair Bolsonaro (PL) à Presidência, em 2018. Participou de atos político-partidários e criticou os tribunais superiores.

Na pandemia, instigou a população a não usar máscaras anti-Covid.

Mulher de cabelos pretos, vestindo roupa escura, responde perguntas em debate. Na mesa, há um microfone e um copo de água.
Ludmila Grilo, juíza aposentada compulsoriamente pelo Conselho Nacional de Justiça - Leonardo Prado/Câmara dos Deputados

Sua primeira aposentadoria foi decidida pelo tribunal mineiro em maio de 2023. Ludmila foi acusada de ofender desembargadores que sancionaram uma advertência. Escreveu que eles só aceitariam manifestações de "lambe-botas e baba-ovos", "adulação e puxa-saquismo".

O CNJ e o TJ-MG ainda mantêm processos sob segredo de Justiça envolvendo a magistrada.

A segunda punição foi publicada no Diário da Justiça Eletrônico do último dia 25. Os desdobramentos do novo julgamento podem reforçar eventuais providências do MPF (Ministério Público Federal) na esfera penal.

A ex-juíza recebe os proventos proporcionais ao tempo de contribuição.

Os casos de aposentadoria acumulada são raros. Um juiz do TRF-4 (Tribunal Regional Federal da 4ª Região) já recebeu uma terceira pena de aposentadoria compulsória.

Nas redes sociais, Ludmila se declara "exilada nos Estados Unidos". Ela saiu do país sem comunicar a viagem ao tribunal. Foi declarada revel. Não informou o endereço para envio de citação.

Segundo o TJ-MG, o contato com Ludmila se restringe ao pedido de prova de vida, procedimento padrão para os aposentados. A reportagem não conseguiu ouvir a juíza.

Como a Folha revelou, o deputado licenciado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) e aliados que se opõem a Alexandre de Moraes tentam abrir processo, no Departamento de Justiça, para investigar eventual tentativa de coação contra a liberdade de expressão de 14 indivíduos em solo americano. Entre eles, Paulo Figueiredo, Rodrigo Constantino, Allan dos Santos e Ludmila.

O processo relativo à magistrada subiu para o CNJ em agosto de 2022. O tribunal mineiro o arquivara, alegando que a fonte era anônima. O então corregedor Luís Felipe Salomão discordou, pois o CNJ admite a denúncia anônima como início de prova. O print enviado pelo denunciante correspondia a publicação no perfil pessoal da juíza.

Salomão registrou que Ludmila "não cumpria seus deveres básicos". Uma correição extraordinária na Vara Criminal e da Infância e da Juventude da Comarca de Unaí, da qual era titular, identificou 1.291 processos paralisados, vários deles de réus presos.

A Defensoria Pública da União inicialmente se recusou a designar um defensor. Um advogado dativo pediu o arquivamento do processo administrativo. Disse que as manifestações não comprometiam a imparcialidade da juíza, que fizera os comentários na condição de professora.

Ludmila não compareceu à audiência virtual para interrogatório.

O relator, Caputo Bastos, acolheu sugestão do MPF e votou pela segunda aposentadoria compulsória, acompanhado pelo colegiado.

OUTRO LADO

Quando o corregedor-geral de Minas Gerais, Agostinho Gomes de Azevedo, viu indícios de crime e propôs processo disciplinar contra Ludmila Grilo, em janeiro de 2021, a magistrada desafiou:

"Enquanto não decretado estado de defesa ou estado de sítio (...) continuarei sustentando a inviabilidade jurídica do lockdown e das restrições de liberdades via decretos."

Numa sessão do CNJ, Ludmila fez sua própria defesa. Disse que o Gabinete de Segurança Institucional (GSI) do tribunal estadual alertara sobre ameaças contra sua vida. Afirmou ainda que dispensou a escolta policial, insuficiente para garantir sua proteção, e deixou de trabalhar presencialmente.

O portal Conexão Política reproduziu afirmação da juíza: "Sofri calada todo tipo de difamação quanto à minha conduta profissional".

Ludmila escreveu que levaria à Corte Interamericana de Direitos Humanos as "ações envolvendo atos persecutórios" praticados pelo CNJ e STF (Supremo Tribunal Federal).

Em 2020, o corregedor Humberto Martins arquivou pedido de providências. Entendeu que não havia justa causa para reclamação ou processo disciplinar.