terça-feira, 12 de maio de 2026

Calor extremo e estresse climático: novos desafios para a saúde dos trabalhadores, OESP

 Por Ari Araújo e Victoriana Gonzaga

Nas cenas iniciais do filme do cineasta americano Spike Lee, Do the Right Thing (1989), o calor extremo de um dia de verão no Brooklyn não é mero pano de fundo: é o palco de conflitos pessoais e sociais que irão escalar ao longo do enredo. O calor se infiltra nas conversas dos vizinhos, encurta-lhes a paciência e amplifica ressentimentos em uma área pobre do bairro novaiorquino. A temperatura e a agressividade sobem ao longo da narrativa. E o que começa como pequenos atritos da vida cotidiana termina numa briga generalizada de rua, onde o calor é um importante gatilho para o agravamento da tensão entre os personagens.

Quase quatro décadas depois, a cena deixou de ser metáfora cinematográfica para se tornar experiência cotidiana em muitas cidades do mundo. A diferença é que, na década de 1980, aquele dia sufocante ainda podia ser visto como exceção. Em 2026, dias como aquele se repetem, se intensificam e consolidam-se como fator estrutural de adoecimento, desigualdade e conflito social.

Ondas de calor mais frequentes e intensas, hoje claramente associadas às mudanças climáticas, afetam não apenas o conforto, mas o comportamento, a saúde mental e a capacidade de trabalho das pessoas. O estresse térmico reduz a concentração, aumenta a irritabilidade, eleva o risco de acidentes e pode ainda agravar doenças crônicas e aumentar a incidência de doenças vetoriais, como dengue, zika e chikungunya. Mas esse risco não se distribui de forma homogênea. Ele se concentra mais sobre pessoas marginalizadas e trabalhadores precarizados, com menor margem de negociação sobre pausas, ritmo e jornada, ou que atuam ao ar livre ou em ambientes pouco climatizados, como agricultores, entregadores e operários da construção civil. Assim como no Brooklyn de Spike Lee, o calor atua como catalisador de tensões sociais pré-existentes, porém agora em escala global.

Segundo dados da Organização Internacional do Trabalho (OIT), mais de 2,4 bilhões de trabalhadores – cerca de 71% da força de trabalho global – enfrentam calor excessivo no local de trabalho, seja sob o sol direto, em áreas fechadas sem ventilação adequada ou em ambientes onde a própria atividade física aumenta o estresse térmico. Estima-se que, a cada ano, cerca de 23 milhões de lesões ocupacionais sejam atribuídas às temperaturas elevadas, o que pode resultar num aumento aproximado de 19 mil mortes adicionais.

Tais dados são reveladores não apenas pela urgência do diagnóstico, mas pelo que ele expõe de forma implícita: o trabalho é um dos principais pontos de contato entre o colapso climático e a vida cotidiana, com impactos diretos sobre a economia e a desigualdade. Num país tropical, marcado por alta informalidade e por milhões de trabalhadores expostos ao sol e a ambientes pouco climatizados, o calor extremo deixou de ser uma externalidade ambiental para se tornar um risco ocupacional central – embora ainda tratado como se fosse exceção.

Num mundo onde a justiça climática parece tema de filme de ficção científica, é urgente rediscutirmos nossas práticas de saúde e segurança, com novas políticas de saúde ocupacional adequadas às novas vulnerabilidades climáticas. Isso passa por ampliar a formação e a conscientização de profissionais de saúde, empregadores e dos próprios trabalhadores, com respostas integradas e novas estratégias de prevenção.

Ao final do filme americano, “fazer a coisa certa” permanece como uma pergunta em aberto. A narrativa termina deixando no ar questões sobre responsabilidade individual e ação coletiva diante de um contexto que empurra todos ao limite. Do lado de fora do cinema, as escolhas e respostas precisam ser claras e bem definidas, pois garantir que a proteção aos trabalhadores expostos evolua tão rápido quanto o termômetro é a nossa única opção.

Opinião por Ari Araújo

Médico, doutor pela Universidade de São Paulo, é professor da Faculdade Sírio-Libanês

Victoriana Gonzaga

Advogada em Direito Internacional e Direitos Humanos, doutoranda em Direito (USP), é mestre em Direito e Desenvolvimento Econômico e Social (FGV-SP)

Chefes de ‘departamentos’ e atuação em 14 setores da economia: veja quem manda no PCC, FSP

 Fazia 20 anos que o Primeiro Comando da Capital (PCC) existia quando, em 2013, o promotor Lincoln Gakiya entregou à Justiça o resultado da maior investigação criminal até então realizada pelo Ministério Público de São Paulo contra a facção. Com 876 páginas, a denúncia acusava de formação de quadrilha 175 integrantes da facção — o crime de organização criminosa só passaria a existir mais tarde, naquele mesmo ano de 2013. Centenas de horas de escutas telefônicas e milhares de documentos mostravam um grupo que se nacionalizava por meio de contatos com outras facções e aplicava o discurso de que “o crime ajudava o crime”.

Na época, os paulistas dirigiam um grupo com 7,6 mil integrantes, que faturava R$ 120 milhões por ano e estava presente em 22 Estados e três países. Era o começo da internacionalização da facção, desde que entrara, em 2007, no tráfico internacional de drogas.

Passados mais de dez anos, o PCC fatura R$ 10 bilhões por ano, alcançou todas as Unidades da Federação e está em 28 países, reunindo um exército de 40 mil homens e mulheres. Seu modelo de gestão do crime e proteção dos criminosos permanece organizado em torno de um colegiado liderado por Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola, preso desde 1999 e que atualmente cumpre pena na Penitenciária Federal de Brasília. Trata-se da chamada Sintonia Final Geral e de seu principal órgão de apoio, a Sintonia Final, conforme as informações reunidas pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco). A reportagem não localizou as defesas dos acusados.


Neste 12 de maio, completam 20 anos dos ataques do PCC contra as forças de segurança em São Paulo. Como o Estadão mostrou, o Estado reagiu e a onda de mortes violentas se estendeu até o dia 21 daquele mês. Conforme o Ministério Público de São Paulo (MPSP), 564 pessoas morreram e quatro desapareceram. Das vítimas fatais, 59 eram agentes de segurança, entre policiais militares, civis, agentes carcerários e guardas municipais, e 505 eram civis. Houve ainda quatro civis desaparecidos e 110 pessoas ficaram feridas por armas de fogo.

Desde aquele maio de 2006, o PCC só cresce e o Departamento de Inteligência da Polícia Civil de São Paulo (Dipol) identificou 12 sintonias do crime e um setor mantido pela facção. Dois deles mostram a evolução do PCC: a Sintonia da Internet e Redes Sociais e o Setor do Raio X, espécie de corregedoria ou “compliance” dos bandidos. Ao mesmo tempo, a facção atuaria em 14 setores da economia: postos de gasolina, agências de automóveis, construção civil, casas de câmbio, bancos digitais (fintechs), criptoativos, empresas de ônibus, igrejas, mineração ilegal, ONGs da saúde, coleta de lixo, bets, agrotóxicos e empresas ligadas ao futebol.

Os números envolvendo movimentações financeiras investigadas pelo Gaeco e pelas Polícias Civil e Federal tratam de evasão, ocultação de bens e lavagem de dinheiro repetidamente, de valores acima da cifra de R$ 100 milhões, e não raro ultrapassam a casa do bilhão, como no caso de operações como a Carbono Oculto (R$ 46 bilhões), Colossus (R$ 61 bilhões), Tai Pan (R$ 119 bilhões) e Alcaçaria (R$ 25 bilhões), quando o dinheiro do crime organizado se mistura com o de outras atividades ilícitas, como a corrupção, a sonegação de impostos e fraudes financeiras.


Reportagem: Marcelo Godoy; Editora de infografia: Regina Elisabeth Silva; Editores-assistentes de infografia: Adriano Araujo e William Mariotto; Editor de Metrópole: Victor Vieira; Editores-assistentes de Metrópole: Raphael Ramos e Juliana Prado

Chargista não debochou da morte da juíza, Mariliz Pereira Jorge, FSP

 O que aconteceu com a gente? Quando passamos a presumir que o outro é sempre mau, ardiloso, mal-intencionado? Onde foi parar o princípio democrático que pressupõe contraditório, ampla defesa e benefício da dúvida? Vamos nos permitir ser dominados pela retórica oportunista, apressada, injusta, presunçosa? Vamos nos contentar em ser idiotas úteis de quem manipula a informação?

juíza Mariana Francisco Ferreira morreu aos 34 anos depois de um procedimento de coleta de óvulos. É triste, é injusto, é um caso que a polícia precisa investigar. Três dias depois, a Folha publicou uma charge de Marilia Marz: uma lápide e a frase "Vidinha mais ou menos, até perdê-la junto com os penduricalhos". Era uma crítica às mordomias do Judiciário, que estão na ordem do dia.

Mulher de cabelos escuros presos, veste beca preta com detalhes brancos e blusa rosa por baixo, posando contra fundo branco.
Mariana Francisco Ferreira, 34, atuava como juíza na Comarca de Sapiranga (RS) - Juliano Verardi /Divulgação TJ-RS

Não era sobre Mariana. A chargista disse que não era. Acredito nela e nos profissionais do jornal envolvidos na cadeia da publicação, que lamentam a coincidência infeliz. Não tenho por que duvidar. Não por espírito de corpo, mas por essa crença fora de moda de acreditar que as pessoas são essencialmente boas e não o contrário.

Mas a conjunção foi servida de bandeja aos oportunistas apressadinhos, e o algoritmo fez a festa. STF, CNJ, associações de magistrados, tribunais, entidades de jornalismo (pasme), até imortal da ABL —todos com suas notinhas de repúdio prontas, vendo no episódio uma oportunidade de se mostrar como arautos da moralidade e da defesa de gênero.

A charge de Marília Marz, publicada no dia 09 de maio mostra uma lápide enfiada na terra. Nela, lê-se: "Vidinha mais ou menos, até perdê-la juntos dos penduricalhos"
Charge de Marilia Marz publicada pela Folha em 9 de maio - Marília Marz/Folhapress

Pergunto: que empatia tem quem usa a memória de uma mulher morta para destruir, em vida, reputação e carreira de outra mulher? Quem aderiu à onda sem nenhum interesse em entender que não havia conexão entre os fatos não está defendendo a juíza, está polindo a própria estátua.

Ninguém pensa, ninguém pondera, ninguém procura explicações. Viramos uma máquina de cancelamentos operada por indignados em série, todos tentando provar como são íntegros e lúcidos. Não são. Apenas digitam muito rápido. E cada veredito apressado transforma o mundo num lugar pior —mais cruel, mais solitário, mais injusto.