quarta-feira, 16 de fevereiro de 2022

Janismo preserva marcas na política do Brasil 30 anos após morte de Jânio Quadros, FSP

 Tayguara Ribeiro

SÃO PAULO

Uma relação externa que contempla ligações com países em desenvolvimento e a ideia de um herói de fora da política que irá moralizar a administração pública são duas das marcas da carreira de Jânio Quadros que, 30 anos após sua morte, ainda podem ser observadas na administração pública brasileira.

A avaliação é de especialistas em história política do Brasil.

Esse movimento na relação externa foi posteriormente replicado por outros presidentes, com mais ênfase nos governos de Lula (PT).

O discurso de moralização do candidato fora da política pode ser observado em falas de administradores de diferentes linhas ideológicas, como Fernando Collor (Pros), João Doria (PSDB) e Jair Bolsonaro (PL).

O presidente eleito Jânio Quadros chega a Brasília para cerimônia de posse - Acervo UH - 31.jan.61/Folhapress

Considerado conservador, Jânio surpreendeu ao assumir a Presidência em 1961 e implementar uma política externa que englobava relações com países que não eram considerados potências econômicas mundiais.

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Trinta anos após sua morte, completados nesta quarta-feira (16), especialistas consideram que este pode ser um de seus principais legados para a política brasileira.

Ele abriu frentes diplomáticas na África e na Ásia. Isso colocou o país, ao menos neste quesito, dentro do grupo dos não alinhados, aqueles países que tentavam manter relações externas autônomas das disputas da Guerra Fria entre EUA e União Soviética.

"É chamada de política externa independente, que o João Goulart levou adiante. Depois o Geisel levou adiante. Depois o Lula levou adiante. Esse foi um legado dele", avalia Jorge Ferreira, professor de história do Brasil da UFF (Universidade Federal Fluminense).

Jânio iniciou o processo de implementação das relações comerciais com a União Soviética e com a China em um período no qual o Brasil não tinha interação com esses países devido ao anticomunismo.

"A eleição de Jânio Quadros confundiu o eleitorado de esquerda", diz Jorge Ferreira. Segundo ele, Jânio, apesar de ser um candidato conservador, tinha uma postura progressista na política externa.

"Ele disse claramente que iria reatar relações com a União Soviética" diz. "Enquanto isso, o candidato Marechal Henrique Teixeira Lott, da coligação de centro-esquerda, embora um nacionalista, era anticomunista", contextualiza.

"É aí que se forma a chapa Jânio-Jango. Setores do movimento sindical viram em Jânio um candidato que poderia levar avanços nos campos das esquerdas."

O professor da UFF afirma que João Goulart era aprovado no movimento sindical —e, na época, as eleições para eleger presidente e vice tinham votações independentes.

Jânio teve uma carreira meteórica. Em apenas 13 anos ocupou os cargos de vereador, prefeito de São Paulo, deputado estadual, governador de São Paulo e presidente do Brasil.

Ele era uma figura muito popular, diz Felipe Loureiro, professor do Instituto de Relações Internacionais da USP. "Estamos falando talvez do maior fenômeno eleitoral do Brasil pós-guerra. Mesmo comparado ao Getúlio Vargas, que teve por muito tempo a máquina do Estado nas mãos", diz o historiador.

Uma de suas principais características políticas foi uma ausência de identificação partidária, fator que ele mesmo deixava claro em sua trajetória.

Felipe Loureiro diz que ele tinha também "um viés autoritário", "uma figura bastante centralizadora e que tinha dificuldade de dialogar com outros Poderes". Jânio chegou também a romper com importantes líderes do seu próprio partido.

A troca constante de partidos, a dificuldade de se relacionar com outros Poderes e as brigas com membros da própria legenda são características observáveis ao longo da carreira do atual presidente Jair Bolsonaro.

Outra característica marcante de Jânio é que ele se colocava como alguém de fora da política e que seria um moralizador da gestão pública. Daí a utilização da vassoura, símbolo que ficou famoso em suas propagandas políticas.

O governador paulista, João Doria, pré-candidato ao Planalto, utilizou desse discurso em campanhas eleitorais. Outro pré-candidato à Presidência nas eleições deste ano que também já adotou falas do tipo é o ex-juiz Sergio Moro (Podemos).

O próprio presidente Bolsonaro buscou usar esse discurso em sua campanha em 2018, embora já fosse um deputado federal por cerca de 27 anos.

Afeito ao uso de mesóclises (colocação do pronome no meio do verbo), Jânio tinha sua forma de falar criticada, o que contribuiu para popularizar uma imagem caricatural dele.

Por coincidência, o Brasil teve, anos após a morte de Jânio, o presidente Michel Temer (MDB), que também era inclinado a utilizar mesóclises em seus discursos.

Embora fizesse discursos classificados como populistas, na área econômica Jânio manteve um programa com medidas impopulares, segundo Jorge Ferreira.

Na época, de acordo com o pesquisador, o país estava com as contas descontroladas e a inflação aumentando. Nesse momento ele fez um acordo com o FMI e aplicou cortes nos subsídios ao trigo e à gasolina. As medidas geraram insatisfação entre a classe média e os trabalhadores de menor renda.

Outra medida econômica tomada em seu governo foi o fim da diferenciação do câmbio.

"Ele fez uma política econômica que hoje seria elogiada por economistas ortodoxos", afirma Jorge Ferreira. "As medidas ortodoxas e conservadoras exigidas pelo FMI foram implementadas no país."

Sobre a renúncia de Jânio, poucos meses após assumir a Presidência, Felipe Loureiro considera que está consolidada a avaliação de que foi uma tentativa de golpe.

Imaginando que seu vice, João Goulart, teria dificuldades para ser aceito por militares e por outros setores da sociedade civil, Jânio, que enfrentava turbulências no relacionamento com o Congresso, analisou que após sua renúncia voltaria mais forte, convocado a reassumir o posto, e com mudanças constitucionais que lhe proporcionassem mais poder. Mas o cálculo deu errado.

"A renúncia foi um estopim importantíssimo para a instabilidade política que marcaria os anos entre 1961 e 1964 e que culminaria com o golpe de 64", afirma Loureiro.​

Anos após deixar a Presidência, Jânio voltaria a ser prefeito da cidade de São Paulo, na década de 1980, no fim da ditadura militar.

Em 1992, Jânio morreu aos 75 anos de idade. Ele estava internado com grave crise respiratória. Meses antes, ele já vinha apresentando complicações de saúde.

De Bartolomeu Barreiros para Bolsonaro, Elio Gaspari, FSP

 Prezado presidente,

Meu nome é Bartolomeu Barreiros de Ataíde e o senhor nunca ouviu falar de mim. Fui paraense e em 1644 pedi à Coroa portuguesa autorização para procurar "uma grande mina " de ouro na região do Araguaia.

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Para dizer a verdade, eu já havia achado alguma coisa e por isso havia sido preso. Os burocratas do Conselho Ultramarino deram parecer contrário ao meu pedido. O senhor também teve interesse pelo garimpo de ouro, para aborrecimento de seus superiores do Exército.

Os espanhóis haviam achado uma montanha de prata e em Potosi chegaram a viver 100 mil pessoas, rivalizando com Londres. Sonhavam com uma Lagoa Dourada, um Rio do Ouro e com uma montanha de ouro nas nossas matas. A montanha existia, mas só foi achada no século 20. Chamou-se Serra Pelada e ficava no Araguaia. Dela restaram um buraco, histórias de aventuras e as fotografias de Sebastião Salgado.

Garimpo no rio Uraricoera, em terras Yanomam - Christian Braga - 9.abr.21/Greenpeace

O senhor acaba de assinar um decreto facilitando o que denominou de "mineração artesanal". Isso não existe, o que há é um disseminado garimpo ilegal, que às vezes se associa a milícias da mata e ao crime organizado em torno do tráfico de drogas.

​Digo-lhe isso porque eu queria garimpar legalmente no Araguaia. Daqui vejo que a Amazônia de hoje é percebida de maneira diferente. O Brasil é confundido com inimigos do meio ambiente, dos povos indígenas e, de certa forma, com a transgressão das leis. Numa hora dessas o senhor fala em garimpo artesanal sabendo que, nos rios, esse artesanato demanda barcaças, geradores e mercúrio. Artesanal era o garimpo do meu tempo.

Não vou discutir com a turma que lhe leva conselhos. Quero viajar consigo pelos séculos. O que aconteceria se eu tivesse chegado a Serra Pelada?

A mina dos sonhos fazia parte do Estado do Grão Pará e do Maranhão, estava fora da jurisdição do governo de Salvador e, depois, do Rio de Janeiro. Nessa época, as grandes potências da Europa (Inglaterra, França, Holanda e Espanha) estavam se olho no sonho do Eldorado. Eles construíam fortificações e nós as destruíamos. Isso, com gente que ia atrás de sonhos e produtos da mata.

Imagine o que aconteceria se eles batessem naquela montanha de onde, em poucos anos, tiraríamos 42 toneladas de ouro. Os mineiros acharam muito ouro e meteram-se numa sedição, chegando a pedir ajuda ao embaixador dos Estados Unidos na França. Nem saída para o mar eles tinham. Acredite, o Grão Pará, ou um pedaço dele, iria embora do Brasil.

No meu tempo, Portugal defendeu a Amazônia com unhas e dentes, mais tarde essa tarefa ficou com o Barão do Rio Branco, com suas luvas de pelica. Através dos séculos o Brasil manteve sua soberania na Amazônia em nome de um Estado que mantinha a região sob o império da lei e da ordem. Nunca houve por lá muita lei nem muita ordem, mas o Estado nunca se confundiu com a ilegalidade ou com a desordem.

De garimpeiro para garimpeiro: seu decreto não seria aceito pelo Conselho Ultramarino. Depois da missa de ontem encontrei o marquês de Pombal e comentei a ideia, como se fosse minha. Ele mandou que me calasse para não ser posto a ferros. É um homem mau.

Atenciosamente,

Bartolomeu Barreiros de Ataíde

Juliano Spyer - Por que evangélicos bolsonaristas estão inquietos?, FSP

 

Assim como Lula se tornou o herói da "classe C", Bolsonaro se tornou o messias do cristão conservador. Foi uma estratégia visionária considerando que o Brasil está em vias de se tornar um país protestante e que a esquerda nunca fará o mesmo aceno a religiosos conservadores sem soar oportunista.

O presidente pode ter colecionado erros ao longo do mandato, mas sua atitude em relação aos cristãos foi impecável. A começar pela campanha vitoriosa de 2018 cujo slogan "Deus acima de todos" sinalizava seu compromisso com os valores da família tradicional e impôs à mídia secular, que historicamente desdenha o evangélico, falar sobre religião.

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O presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL) participa de culto na Igreja Batista Atitude ao lado da esposa, Michelle Bolsonaro, no Rio de Janeiro, em novembro de 2018 - Fernando Frazão - 4.nov.2018/Agência Brasil

O cientista político Victor Araújo, especialista no tema, explicou a posição privilegiada do presidente: "Bolsonaro conseguiu a proeza de juntar todos [os pastores e lideranças evangélicos]… [Foi quem] ofereceu mais benefícios fiscais, e também deu acesso para eles frequentarem espaços que nunca frequentaram antes. O governo Bolsonaro os tratou com uma deferência sem paralelo." (Observatório Evangélico, 01/02)

O que, então, justifica os ataques da guerrilha evangélica bolsonarista, no início do mês, contra os rivais Moro e Lula?

Essa reação expõe aquilo que só aparece para quem frequenta as igrejas: o racha entre bolsonaristas e aqueles que entendem que há opções melhores à disposição. O clima de disputas pôs em alerta lideranças cristãs que temem que a polarização no âmbito da opinião política quebre as igrejas por dentro.

Bolsonaro não é o candidato dos sonhos dos evangélicos, a começar porque ele mesmo não é evangélico, não demonstra ter interesse especial pela leitura da Bíblia e tem uma postura deselegante que não condiz com o comportamento promovido nas igrejas. Ele defende a facilitação da compra de armas, algo que a evangélica moradora da periferia tem horror de ouvir falar.

O jogo intricado de forças dentro das igrejas inclui ainda a postura do jovem evangélico, que hoje é menos subordinado às hierarquias pelo convívio nas universidades e pelo acesso a variedades de argumentos teológicos disponíveis online. Também a percepção de que a influência política conquistada pelo cristianismo não recuará com a eventual derrota de Bolsonaro. E uma frustração entre muitos protestantes, resumida pelo diretor da Aliança Evangelica Brasileira, Cassiano Luz: "não é papel da igreja promover candidatos a cargos políticos."

Os ataques a Moro e Lula sinalizam a percepção de que Bolsonaro corre um risco maior do que o de ser derrotado nas urnas: o de terminar a campanha menor do que entrou. Por causa disso, pastores midiáticos como André Valadão da Lagoinha Church estão explicitando seu apoio ao clã Bolsonaro —e se expondo a críticas— abrindo seus púlpitos e canais de mídia à pregação abertamente política de quem reforça o mote "cristão não vota na esquerda".

Lula disputará com Bolsonaro o voto dos evangélicos pobres, que hoje vivenciam em suas comunidades desemprego, queda de renda e aumento da insegurança alimentar. Ele tem a seu favor a memória dos tempos de prosperidade e agora a ajuda do pastor pentecostal Paulo Marcelo que, conforme explicou o pastor Kenner Terra, tem acesso ao "chão de fábrica" pentecostal.

Mas há outro foco de incêndio para o presidente: o aumento do apoio —ainda discreto mas perigoso— de evangélicos ao ex-ministro Sérgio Moro, uma alternativa que não cabe na etiqueta de "candidato de esquerda".

Moro traz para a disputa uma narrativa atraente para o eleitor evangélico: a do justiceiro perseguido. O defensor obstinado da lei e da ordem. E apesar do ex-ministro não abraçar a pauta conservadora com a convicção do presidente, ele encarna aquilo que ajudou Bolsonaro a ser eleito: a bandeira do combate à corrupção.

Há, portanto, motivos para a guerrilha bolsonarista estar atuando no território que, supostamente, é a fortaleza do presidente.

Se a debandada não for contida, a explicitação da simpatia do evangélico antipetista por Moro escancarará a fragilidade de Bolsonaro como gestor que dificultou a campanha de vacinação contra o Covid, aprofundou a crise econômica do país, recorre à desinformação para se promover e, ao contrário da promessa veemente de campanha, hoje dificulta o combate à corrupção no país.