terça-feira, 15 de fevereiro de 2022

ENEAS SALATI (1933 - 2022) Mortes: Pai dos 'rios voadores', desvendou as chuvas na Amazônia, Patricia Pasquini, FSP

 Patrícia Pasquini

SÃO PAULO

Apaixonado por água, o engenheiro agrônomo Eneas Salati tem o nome gravado em importantes estudos sobre hidrologia e climatologia.

Eneas pesquisou a origem da salinização das águas subterrâneas do Nordeste brasileiro e depois seguiu para a Amazônia, segundo a engenheira ambiental Eneida Salati, 62, sua filha.

No Cena (Centro de Energia Nuclear na Agricultura), ligado à Esalq-USP (Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, da Universidade de São Paulo), Eneas trouxe do exterior o primeiro espectrômetro de massa da América Latina.

Eneas Salati (1933-2022) e a esposa Theresinha Zurk Salati
Eneas Salati (1933-2022) e a esposa Theresinha Zurk Salati - Arquivo pessoal

O pesquisador foi cofundador do centro em meados de 1968 e lá construiu o Laboratório de Espectrometria de Massa para Elementos Leves.

Em seu currículo também constam projetos sobre distribuição de energia solar no estado de São Paulo e no Brasil.

"Eneas foi o homem que desvendou os mistérios das chuvas na Amazônia. Seus primeiros trabalhos foram desenvolvidos no final da década de 1970 com uma tecnologia naquele momento nova. Ele usou os conceitos de reciclagem de umidade, como a vegetação evapora, transpira e contribui com a chuva local e desenvolveu a metodologia para identificar a assinatura dessa chuva", afirma o climatologista José Marengo, coordenador-geral de Pesquisa e Desenvolvimento do Cemaden (Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais).

José foi inspirado a estudar o clima na Amazônia após ler um artigo de Eneas Salati. Na época, ainda era estudante. Quando veio ao Brasil, nos anos 2000, foi trabalhar com o pesquisador em suas linhas de pesquisa.

Depois Eneas começou a trabalhar com os rios voadores. "A atmosfera também tem vapor de água. Se você convertê-lo em líquido, esse líquido é transportado pelos ventos fortes da Amazônia, os que vêm do Atlântico, se encontram nos Andes e depois viram para o Sudeste. É como se fossem rios, pela velocidade de ventos muito alta. Esse volume é muito similar ao do rio Amazonas. Aí veio a ideia de rios —pela velocidade e pelo volume de água; voadores porque está no ar", explica.

Nascido em Mombuca (a 157 km da capital paulista) e registrado em Capivari (a 137 km da capital), Eneas era o caçula entre dez filhos.

"Ele cresceu na área rural e depois veio para Piracicaba. Aprendeu a ler muito cedo e ensinou as sobrinhas que tinham idade aproximada a sua. A família era grande. A infância dele foi feliz", conta Eneida.

Engenheiro agrônomo pela USP, onde também fez doutorado e obteve livre-docência, dirigiu o Cena de 1981 a 1985, o Instituto de Física e Química da USP, em São Carlos, de 1976 a 1979, e o Inpa em dois momentos: de 1979 a 1981 e de 1990 a 1991.

O pesquisador também foi diretor técnico da Fundação Brasileira para o Desenvolvimento Sustentável, assessor do Banco Interamericano de Desenvolvimento e consultor do Banco Mundial e da International Finance Corporation. Ao longo da carreira, publicou 146 trabalhos.

Eneas era espírita. Considerado um homem bondoso, equilibrado e atencioso, gostava de ajudar o próximo. Ao longo da trajetória, influenciou e serviu de inspiração a muita gente.

"Ele tratava todos de igual para igual. Acho que tratava as pessoas como os filhos. Vinha do coração", diz Eneida.

Preocupado com a palavra, sempre conscientizou os filhos sobre a importância de saber como ela reagiria nas pessoas. Orientava a nunca julgar e criticar antes de saber as razões do outro.

Eneas Salati havia sido diagnosticado com doença de Alzheimer leve há alguns anos. A saúde começou a debilitar após um tombo. Morreu dormindo, no dia 5 de fevereiro, aos 88 anos. Deixa a esposa, quatro filhos, netos, bisnetos e um trineto.

Grampos ligam presidente da Alesp a condenado por desvios na saúde, OESP

Marcelo Godoy e Pedro Venceslau, O Estado de S.Paulo

15 de fevereiro de 2022 | 05h00

A Polícia Civil de São Paulo interceptou ligações telefônicas que mostram o presidente da Assembleia Legislativa do Estado, deputado Carlão Pignatari (PSDB), intermediando a entrega da administração de dois hospitais para organizações sociais do grupo do médico Cleudson Garcia Montali, condenado a 200 anos de prisão por liderar uma organização criminosa envolvida no desvio de R$ 500 milhões da Saúde. Nas conversas, o médico, que hoje está preso, presta contas ao deputado de suas ações. Na época, ele já era investigado pela polícia e pelo Ministério Público Estadual.

Cleudson foi alvo da Operação Raio X, que apurou fraudes na gestão de hospitais de 27 cidades em quatro Estados – Pará, São Paulo, Paraíba e Paraná. A investigação durou dois anos antes de sua primeira fase ser deflagrada, em 2020, quando houve buscas no gabinete do governador do Pará, Helder Barbalho (MDB). No começo do ano, a polícia concluiu nova fase da operação, cumprindo mandados de busca na casa do ex-governador Márcio França – pré-candidato do PSB ao Palácio dos Bandeirantes – e de outros alvos. O Estadão apurou que Pignatari não estava, até agora, entre os políticos investigados na operação. 

O deputado Carlão Pignatari
O presidente da Alesp, o deputado Carlão Pignatari (PSDB); parlamentar afirma que não é investigado e não tem relação com o caso Foto: Daniel Teixeira/Estadão - 15/3/21

O deputado participou da CPI das Organizações Sociais da Saúde, que investigou o setor e se encerrou em 17 de setembro de 2018. Era suplente, mas participava das sessões ativamente. Cleudson foi convocado e, em agosto de 2018, prestou depoimento aos parlamentares sobre investigações envolvendo a OSS Santa Casa de Birigui e sua atuação na contratação de organizações sociais por municípios paulistas. O médico negou irregularidades.

Passados oito meses do término da comissão, Pignatari foi flagrado fazendo pedidos para o homem apontado como líder do grupo criminoso que atuava no setor.

No dia 22 de maio de 2019, Cleudson telefonou para o deputado e ouviu uma solicitação. “Deixa eu te fazer um pedido, o prefeito de Santa Fé ‘tá’ com um problema sério na Santa Casa dele lá. ‘Cê’ não quer pedir pra alguém ‘dá’ uma olhada lá e vê se põe uma OS tua pra gerenciar aquilo?” O médico, que estava com o telefone interceptado com autorização da Justiça, respondeu: “Claro, claro. Só que eu.. O senhor pode me passar o telefone?”

A conversa durou 1 minuto e 45 segundos e foi incluída no inquérito da Operação Raio X, da Delegacia Seccional de Araçatuba, que tem 6 mil páginas. Ele foi desmembrado em diversas investigações que estão em Sorocaba, Santos, Carapicuíba e São Paulo após a Justiça de Birigui recusar ter competência universal sobre os casos.

Prefeito de Santa Fé do Sul e Cleudson tratam Pignatari como ‘nosso amigo’

Em 27 de maio de 2019, a Polícia Civil flagrou nova conversa sobre o caso, desta vez entre o então prefeito de Santa Fé do Sul, Ademir Maschio (DEM), e Cleudson. Na conversa, os dois tratam o deputado como “nosso amigo”. Era a sequência do diálogo com o deputado. O médico perguntou se podia mandar uma equipe de “umas três, quatro pessoas para fazer um levantamentozinho para nós”. O prefeito respondeu: “O dia que o senhor quiser!” Cleudson então afirma que as pessoas que forem à cidade vão dizer ao prefeito como tudo deve ser feito. “Eu chamo o provedor e a gente conversa sem problema”, diz o prefeito, que conta ao médico que a cidade tem ainda uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA). Eles marcam o encontro na prefeitura.

Para investigadores do caso, se tivesse de conceder a administração das unidades de saúde a organizações sociais, a prefeitura deveria fazê-lo por meio de processo público aberto à concorrência de outros interessados sem acerto anterior com as partes. Segundo o Ministério Público, o grupo de Cleudson usava notas frias e desviava grande parte dos recursos repassada às organizações sociais por meio de superfaturamento de compras e de serviços não executados. Em Birigui, no processo em que Cleudson foi condenado a 104 anos de prisão, a organização criminosa teria usado a irmandade da Santa Casa para administrar o pronto-socorro da cidade, desviando verba do município.

Nova conversa entre Pignatari e Cleudson

No dia 12 de junho de 2019, a polícia surpreendeu nova conversa entre Pignatari e Cleudson. É o presidente da Alesp quem telefona. “Cleudson, é o Carlão Pignatari, tudo bem? Deixa eu te perguntar uma coisa: ‘Cê’ conhece o Hospital de Ferraz de Vasconcelos, o Regional?” Cleudson afirma que não, mas conta que a prefeitura de lá o chamou para uma conversa. Pignatari quer intermediar o contato do médico com um colega de Assembleia, um deputado da região. Ele diz a Cleudson: “Tá bom, então eu vou precisar que antes de você ir na prefeitura, você venha aqui na Assembleia, pra mim (sic) te apresentar o deputado de lá, que ele vai ser o capital seu lá.”

O médico aproveita o diálogo para voltar a tratar do caso de Santa Fé do Sul e afirma que já havia falado com o então prefeito da cidade. Cleudson diz que sua conversa foi “desmarcada” por Maschio. O suposto líder da organização criminosa tenta tranquilizar o deputado. “Eu ‘tô’ à sua disposição, no seu aguardo. O senhor me ligando eu ‘tô’ indo aí no outro dia. Agora, eu ‘tô’ aguardando ele (o prefeito) ligar, né?” E diz ao deputado que tinha todas as mensagens sobre a conversa caso fosse preciso mostrar.

Em 14 de junho, Cleudson ligou e disse a Pignatari: “Só ‘tô’ lhe dando o retorno que tive ontem lá com aquele nosso amigo (o outro deputado estadual, da região de Ferraz de Vasconcelos) na cidade dele, almocei lá, com ele. Ele me ligou agora há pouco. Quer se encontrar comigo. Eu tô atendendo ele, viu!” Carlão respondeu: “Tá ótimo, doutor”. Cleudson continuou a prestar contas. “Aquele outro de Santa Fé, (o prefeito) que o senhor me falou, também me ligou e vai marcar a semana que vem em São Paulo. Ele preferiu conversar comigo em São Paulo, tá?” A conversa anterior seria na prefeitura da cidade.

Cleudson agradece: ‘Muito obrigado, deputado’

Em 27 de junho, novamente Cleudson ligou para Carlão. Desta vez, o deputado deu uma notícia sobre os negócios do médico. “Acabou de assinar lá, viu? Publica amanhã tá? Carapicuíba publica amanhã”, afirmou. O médico perguntou: “Tudo tranquilo?” E Pignatari respondeu: “Tranquilo, depois eu explico.... Amanhã sai a publicação no Diário Oficial”. Cleudson agradece: “Muito obrigado, deputado”.

Segundo o MPE, a organização de Cleudson já dominava o Hospital Geral de Carapicuíba e lutava para assumir o Ambulatório Médico de Especialidades (AME) da cidade. No dia 25, o grupo do médico recebeu parecer favorável na Secretaria Estadual da Saúde. No dia 26, a secretaria o declarou vencedor. No dia 27 há o diálogo entre o deputado e o médico e, no dia 29, o contrato saiu no Diário Oficial. A Promotoria apura se uma das organizações usadas por Cleudson – Santa Casa de Misericórdia de Pacaembu – foi favorecida nesse contrato. 

Carlão Pignatari  diz que desconhecia suspeitas sobre ação de médico

O presidente da Assembleia Legislativa de São Paulo, deputado Carlão Pignatari (PSDB), afirmou, por meio de nota de sua assessoria, que “as supostas conversas questionadas pela reportagem são datadas de 2019, antes de qualquer denúncia ou suspeita pública contra o médico Cleudson Garcia Montali”. Destacou ainda que, à época das conversas, não era o presidente da Assembleia.

Ele disse que “não é investigado na Operação Raio X e que em nenhum momento foi alvo de diligências determinadas pela Justiça”. “O inquérito principal da operação inclusive já foi encerrado, resultando em mais de 160 novos inquéritos, sendo que o parlamentar não é investigado em nenhum deles. Não possui, portanto, qualquer relação com o caso.”

Por fim, a assessoria do tucano afirmou ser “importante destacar que o deputado Carlão Pignatari apoia a irrestrita investigação da Operação Raio X e reitera sua correta conduta em sua trajetória parlamentar”.

A reportagem procurou Ademir Maschio, ex-prefeito de Santa Fé do Sul, mas não conseguiu localizá-lo para tratar de seus contatos com o médico anestesiologista Cleudson Garcia Montali.

Procurada, a defesa do médico também não foi localizada. Cleudson está preso, cumprindo duas condenações que, somadas, chegam a 200 anos de prisão. 

 

Faroeste eleitoral, Alvaro Costa e Silva, FSP

 Se fosse um filme dos Três Patetas, a cena não teria graça, mas talvez conseguisse entreter a plateia já entorpecida por outras idiotices. Como ato público de um presidente da República que se orgulha de seu passado como capitão do Exército, só uma palavra define: ridículo.

No papel de Moe, com aquele cabelo em forma de cuia, Bolsonaro tenta disparar uma pistola e não consegue. É então ajudado por Larry, quer dizer, o vereador Carlos Bolsonaro, e depois por Curly, o instrutor do clube de tiro em Brasília. Inábil ou temeroso demais para apertar o gatilho, Moe demonstra irritação, mas antes de partir para a violência gratuita —tapas, socos, pontapés, nariz torcido, dedada no olho, habituais nos Três Patetas— o registro das imagens é cortado, frustrando a galera bolsonarista das redes sociais.

Familia Bolsonaro: Flávio, Jair, Eduardo e Carlos - Reprodução


Apesar de malograda, a estratégia era evidente: chamar a atenção para o projeto de lei do Executivo que de novo tenta alterar o Estatuto do Desarmamento de 2003, liberando o porte de arma para caçadores, atiradores e colecionadores. O PL pede ainda a extinção da marcação de munições, inclusive para as forças de segurança, impedindo seu rastreamento. Se aprovado no Congresso, o país poderá ter meio milhão de pessoas com armas no coldre andando pelas ruas. Um cenário de faroeste em ano eleitoral.
Bolsonaro pensa e age como Mussolini. Com pequenas variações, vive a repetir um conceito do líder fascista: "Só um povo armado é forte e livre".

Um atirador esportivo foi preso em recente operação da Polícia Civil do Rio. Conhecido como Bala 40 e com certeza um paladino das liberdades individuais, ele estocava um arsenal em sua casa no bairro do Grajaú —26 fuzis (AR 15 e 5.56), 21 pistolas, dois revólveres, três carabinas, uma espingarda calibre 12, um rifle e um mosquetão, além de grande quantidade de munição— e negociava via WhatsApp com organizações criminosas e milicianas. Todas fortes e livres.