segunda-feira, 14 de fevereiro de 2022

Escola de tiranos, José Renato Nalini, OESP

 José Renato Nalini*

12 de fevereiro de 2022 | 08h00

José Renato Nalini. FOTO: ALEX SILVA/ESTADÃO

Emil Cioran (1911-1995), o filósofo romeno que passou a maior parte de sua vida na França, escreveu obras de angústia, como “O silogismo da amargura”. No livro “História e Utopia”, tem um texto que chamou “A escola dos tiranos”. Escreve que aquele que não foi tentado a ser o primeiro na cidade, nunca entenderá o jogo político. Este é “a vontade de submeter os outros para convertê-los em objetos”, algo que se realiza mediante o exercício da arte do desprezo. Quem despreza os semelhantes e é movido pela sede de poder, converte-se em monstro perigoso.

A sede de poder é algo natural, “mas, examinando-a bem, esta sede adquire todas as características de um estado doentio do qual só nos curamos por acidente, ou então por uma mutação interior”.

A ambição atormenta e causa febre e acessos. Cioran fala aos ambiciosos: “Constatarás que eles – os acessos – são precedidos por sintomas curiosos, por um calor especial que não deixará de seduzir-te nem de alarmar-te. Intoxicado de futuro por haver abusado da esperança, te sentirás subitamente responsável pelo presente e pelo futuro, no coração da duração, carregada de teus estremecimentos, em cujo seio, agente de uma anarquia universal, sonhas explodir”.

O sedento de poder mergulha em perturbação e adora seus signos. A loucura política é fonte de transtornos e de mal-estar sem igual. Sufoca a inteligência e favorece os instintos. O ambicioso faz-se cercar por áulicos. Estabelece com eles idêntica vibração: “Sentirás à tua volta uma perturbação análoga naqueles que estejam corroídos pela mesma paixão. E enquanto estiverem dominados por ela, estarão irreconhecíveis, vítimas de uma embriaguez diferente de todas as outras. Tudo mudará neles, até o timbre de sua voz. A ambição é uma droga que transforma quem se entrega a ela em um demente em potencial. Quem não observou esses estigmas, esse ar de animal transtornado, esses traços inquietos e como que animados por um êxtase sórdido?”. O ambicioso não permanecerá estranho aos malefícios do Poder, “inferno tônico, síntese de veneno e de panaceia”.

Só que o poder é ilusório. Ele tem prazo de validade. Assim que ele parte, a febre desaparece e em seu lugar impera o desencanto. Adquire-se a noção da normalidade em excesso. “Nenhuma ambição mais, logo nenhuma possibilidade mais de ser alguém ou algo; o nada em pessoa, o vazio encarnado: glândulas e entranhas clarividentes, ossos desenganados, um corpo invadido pela lucidez, livre de si mesmo, fora de jogo, fora do tempo, sujeito a um eu congelado em um saber total sem conhecimento”.

Quem devolverá o instante que escapou? Quem o devolverá? Ficarão contigo os “amigos do poder”, os que o incensaram, os que se especializaram na “tática das homenagens”?

Acabou-se a cumplicidade, acabou-se o séquito, não haverá mais o aplauso fácil, as louvaminhas, os encômios, a busca de “selfies”. O poderoso destituído do cargo ou da função sentir-se-á um leproso. Os antigos subservientes, com suas espinhas dorsais complacentes se inclinarão perante um outro. Fugirão de quem já não encarna o poderio.

Isso ocorre desde que o mundo é mundo. “Para tornar-se um homem político, isto é, para ter as qualidades de um tirano, é necessária uma perturbação mental”. Ao ser afastado do poder, o antigo poderoso, que se cria soberano e onipotente, sofrerá outra perturbação mental. É uma espécie de “metamorfose do delírio de grandeza”.

Observa Cioran que “faz séculos que o apetite de poder se dispersou em múltiplas tiranias pequenas e grandes, que causaram estragos aqui e ali, e parece que chegou o momento em que o apetite de poder deva por fim concentrar-se para culminar em uma só tirania, expressão desta sede que devorou e devora o globo, termo de todos os nossos sonhos de poder, coroamento de nossas expectativas e de nossas aberrações”.

O filósofo pensava no pesadelo que se avizinhava da Europa, com o Führer acometido de insanidade e capaz de acreditar que dominaria o mundo. Deu no que deu. O inacreditável foi a preservação de fiéis seguidores até à catástrofe terminal. Recusavam-se a enxergar a “solução final”, com o extermínio de milhões de judeus. Entregavam seus jovens, cada vez mais jovens, para morrer em território estrangeiro. Acreditando em alguém que faria a Alemanha resgatar o prestígio perdido com a derrota na Primeira Grande Guerra Mundial.

O perigo maior é que essa loucura é atemporal e cíclica. Enquanto a vacina contra a pandemia comprova que a ciência tem razão, contra a ignorância existe vacina: abrir os olhos, ler, estudar. Mas assim como há os que repudiam a vacina da Covid, existem – e até em maior número – os que rejeitam a vacina contra os perigos da tirania.

Após 32 anos, termina o trabalho com as ossadas da vala de Perus, OESP

 Marcelo Godoy, O Estado de S.Paulo

14 de fevereiro de 2022 | 05h00

Após 32 anos, os trabalhos de identificação das ossadas encontradas na vala comum do cemitério Dom Bosco, em Perus, na zona oeste de São Paulo, chegam ao fim em abril. É quando deve acabar a retirada de material genético das 901 caixas com ossos com características de sexo, idade e altura compatíveis com os 40 desaparecidos políticos que teriam sido enterrados no lugar por agentes da ditadura militar.

Já foram concluídas 819 análises dos chamados indivíduos principais, cujos ossos estavam nas caixas. Entre eles foram identificados cinco desaparecidos políticos: Dênis Casemiro, Frederico Antonio Mayr, Flávio de Carvalho Molina, Dimas Antonio Casemiro e Aluísio Palhano Ferreira.

ditadura militar perus sp
Vala clandestina foi aberta em 1990; peritos estimam ter achado restos mortais de 1,3 mil indivíduos. Foto: Itamar Miranda/AE

Os peritos da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) esperam concluir a retirada do material genético das 81 ossadas que ainda precisam ser analisadas até o fim de março. O resultado final da análise dessas ossadas será conhecido em dez meses, quando os exames de DNA ficarão prontos, encerrando o processo de identificação de corpos.

As datas foram confirmadas pelo coordenador científico do Grupo de Trabalho Perus, Samuel Ferreira, em audiência na Justiça Federal na sexta-feira passada. Dela participaram representantes da União, da Prefeitura de São Paulo, do Ministério Público Federal e da Unifesp, cujo Centro de Antropologia e Arqueologia Forense (CAAF) é o responsável, desde 2016, pelo trabalho com as ossadas. Atualmente, os peritos envolvidos são contratados pela universidade.

Trabalho

Em 4 de setembro de 1990, a vala clandestina foi aberta. Nela havia 1.049 conjuntos com ossos. “Em 26% deles há mistura de indivíduos. Ao todo, nós estimamos que os restos de 1,3 mil a 1,4 mil pessoas estavam na vala”, afirmou o professor Edson Teles, coordenador do CAAF. Durante os trabalhos no centro forense, os peritos separaram as ossadas que tinham possibilidade de serem de desaparecidos com base em critérios de altura, sexo, idade. Selecionaram 901 ossadas e extraíram material genético dos ossos para os exames de DNA. “A conclusão dessa fase dos trabalhos será um marco na história da vala”, disse Teles. 

Com isso, as 1.049 caixas devem ser transferidas do CAAF para um memorial que será construído pela Prefeitura, conforme previsto em lei e acordado com a Justiça Federal. O memorial terá uma dupla função: além de preservar a memória, permitirá, no futuro, novas análises em caso de melhora na tecnologia de identificação das ossadas ou análises das caixas em que há mistura de indivíduos.

Aqui surgiu um novo problema: o imóvel da sede atual do CAAF foi comprado por uma construtora, que pretende derrubá-lo em junho. Até lá, será necessário construir o memorial, cujas obras ainda não começaram, e achar uma nova sede para o centro. O juiz Eurico Zecchin Maiolino, da Justiça Federal, fará audiência sobre o caso na sexta-feira.

Histórico

O trabalho com as ossadas se arrastava desde a descoberta da vala, feita clandestinamente em 1976. À época, a administração do cemitério pensava em construir um crematório para se desfazer dos ossos. Além de desaparecidos políticos, vítimas de violência policial, moradores de rua e pessoas cujos corpos não foram reclamados pelas famílias estavam ali. No caso dos desaparecidos políticos, muitos foram enterrados com nomes falsos, mas, nas fichas arquivadas no cemitério, constava a letra “T”, para identificá-los como “terroristas”. 

Em dezembro de 1990, os ossos foram transferidos para a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), onde dois desaparecidos foram identificados na vala – outros três foram achados em outra área do cemitério. Os trabalhos ficaram paralisados e a equipe médica da Unicamp foi acusada de negligência com as ossadas, o que causou a retirada delas da universidade e a sua guarda no ossário do cemitério Araçá, em São Paulo, onde tudo ficou parado por mais de uma década. O ossário chegou a ser atacado por vândalos em 2013 antes de a Prefeitura fechar o convênio com a União e a Unifesp a fim de concluir os trabalhos de análise e identificação das ossadas.

Em Bragança Paulista, voluntários transformam casas em lares , OESP

 duardo Gayer, O Estado de S.Paulo

14 de fevereiro de 2022 | 09h41

BRASÍLIA - Foi no meio de uma madrugada de outubro de 2013 que o arquiteto Leonardo Finamor, hoje com 32 anos, acordou com a seguinte ideia na cabeça: fundar uma ONG com a missão de reformar, de graça, casas sem condições de habitação. Ali nascia a Reparação, grupo de voluntários que já transformou a vida de 18 famílias em Bragança Paulista, município a 90 quilômetros de São Paulo.

“Todo mundo tem um dia difícil no trabalho, termina um relacionamento e quer chegar em casa para tomar banho e dormir. É um reset. A casa é uma coisa fundamental na vida da gente”, afirma Finamor. Ele diz ter fundado a ONG para retribuir à sociedade um pouco do que conquistou. “Meus pais não fizeram faculdade, e eu, à época, estava feliz por ter concluído a minha. Eu tinha gratidão por tudo o que estava acontecendo na minha vida.” 

Uma Boa História: Antes da obra de melhoria
Uma Boa História: Antes da obra de melhoria Foto: Grupo Reparação

Organização não governamental sem fins lucrativos, a Reparação recebe casas em estrutura precária, muitas vezes sem energia elétrica ou água encanada, e entrega verdadeiros lares a famílias bragantinas. 

Uma Boa História: Depois da obra de melhoria
Uma Boa História: Depois da obra de melhoria Foto: Grupo Reparação

A escolha dos beneficiados é criteriosa e liderada por uma assistente social. Feitas as obras estruturantes por profissionais, cerca de 100 voluntários dedicam um final de semana para finalizar a reforma, com pinturas, decoração, instalação de móveis e ajustes finais. Há ainda a equipe da cozinha, responsável pela alimentação dos “pedreiros por um dia”. “O grosso da estrutura é feito antes, com pedreiros profissionais remunerados. É uma questão de segurança”, explica o presidente da ONG, Daudt Vitorio. “E, nesse período pós-pandemia, a mão de obra ficou cara e escassa. Foi uma dificuldade bastante grande, porque não temos os recursos dos programas de televisão.”

Equipe enxuta

A Reparação sobrevive de doações e trabalho voluntário. Não há ajuda formal de grupos políticos; somente a concessão, pela prefeitura de Bragança Paulista, de espaço para a sede. Há um único funcionário remunerado e uma estagiária responsável por atender a telefones e monitorar as redes sociais. A ONG conta ainda com a ajuda de lojas de material de construção, que doam produtos ou os vendem a preço e custo.

A dona de casa Margarete de Souza, de 63 anos, diz que o trabalho da ONG bragantina foi uma “bênção” na vida de seu marido, o operador de máquinas Cícero de Souza, a quem chama de “paixão”. “Feliz é aquela pessoa que a Reparação bate na porta. Mudou a minha vida e a de ‘paixão’, porque não é brincadeira morar em uma casa de telhas, que não tinha piso, água encanada, um lugar para tomar um banho. Eu só não estava triste porque estava com paixão”, relata ao Estadão, em uma fala leve e desprovida de marcas de tristeza. “E não foi só a casa. O povo me deixou cama, guarda-roupa, televisão. Um fogão de quatro bocas, menino. Uma geladeira nova com comida dentro e até um bolo para eu comemorar meus 30 anos de casados”, conta, aos risos. 

O caso do violão 

Vitorio tem o caso do violão como um dos marcos de sua passagem na Reparação. Ao entrar em uma casa que seria reparada, notou que o instrumento pendurado na parede estava envolto em um saco plástico. “Está assim porque, quando chove, tudo molha. A gente precisa de um plástico por cima da cama para dormir”, contou aquele senhor ao presidente da ONG. A casa foi reformada, e o telhado, devidamente vedado. 

Dias depois, o contador-voluntário recebeu um vídeo daquele senhor tocando violão – e sem mais precisar guardá-lo em saco plástico. “Naquele momento percebi que o trabalho é difícil; a gente se desdobra e divide o dia com nossas rotinas, mas vale a pena. Foi ali, naquela filmagem, que eu tive a certeza: vale a pena, sim”, relata Vitorio, com a voz embargada. 

O presidente da Reparação destaca que o espírito do projeto é cada um ajudar da maneira que pode: seja o voluntariado, seja uma doação, seja o simples fato de compartilhar as notícias da ONG nas redes sociais. “Para quem não tem tempo ou dinheiro, o pedido é de que nos ajude na divulgação e a fazer o nosso trabalho chegar a quem precisa”, diz o líder da ONG.