quinta-feira, 4 de junho de 2026

Cidades precisam substituir ruas por árvores, diz neurobiólogo italiano, FSP

 Mariana Grasso

São Paulo

Uma cidade inteira cabe em uma árvore?

A capa da edição italiana de "Fitopolis, la Città Vivente", livro mais recente de Stefano Mancuso, cientista, neurobiólogo e professor, usa a seguinte imagem: casas, prédios e calçadas estão em uma grande copa, parte superior da planta. A ilustração explica a ideia principal da obra, em que o asfalto e a natureza precisam ser mais integrados para enfrentarmos a crise climática.

Homem de meia-idade com cabelo curto grisalho e barba aparada, usando óculos finos e camisa branca listrada, posando com braços cruzados diante de parede com textura rústica.
O neurobiólogo italiano Stefano Mancuso. Diretor do Laboratório Internacional de Neurobiologia Vegetal e autor do livro Fitópolis (Editora Ubu), o cientista defende um redesenho radical das metrópoles inspirado na inteligência descentralizada das plantas - Editori Laterza

Na primeira visita ao Brasil, o cientista conversou com a Folha na quarta-feira (3), e apresentou um conjunto de ideias sobre o estilo de vida humano. O esgotamento urbano contemporâneo é uma incompatibilidade evolutiva, segundo ele. "Nossa biologia é a mesma há mais de 20 mil anos, quando éramos caçadores-coletores. Nosso corpo foi construído para viver nas árvores", explica.

Conforme o pesquisador, essa herança ancestral explica o porquê do contato com o verde ter efeitos terapêuticos, algo comprovado em seu laboratório por meio de sensores corporais. "Quando entramos em contato com as plantas, todos os nossos parâmetros de estresse diminuem em menos de 10 segundos. O batimento cardíaco, a pressão e o nível de cortisol despencam. Não há nenhuma razão lógica para isso, exceto que nosso corpo detecta que está voltando para casa."

Nascido na Itália, Stefano Mancuso é uma das maiores autoridades mundiais em neurobiologia vegetal, área que investiga a sinalização e a comunicação entre as plantas em todos os níveis de organização biológica. Pioneiro nesse campo e considerado pela revista The New Yorker como um dos transformadores do mundo da década.

No Brasil, o autor publicou cinco livros pela editora Ubu: "Revolução das Plantas" (2019), "A Planta do Mundo" (2021), "A Incrível Viagem das Plantas" (2022) e "A Nação das Plantas" (2024). Seu lançamento mais recente é "Fitópolis" (2026), livro em que discute como a organização do universo vegetal pode inspirar uma nova forma de conceber as cidades.

A defesa de Mancuso por cidades mais verdes não é um apelo estético ou romântico. Diante do ceticismo de setores políticos e imobiliários, o biólogo aponta os dados de mortes no verão europeu publicadas na revista Nature Medicine.

"É a primeira vez na história da humanidade que vivemos uma mudança climática tão rápida e forte", afirma ele. Mancuso aponta para milhares de mortes por calor na Europa durante o verão de 2023 e 2024.

O aquecimento global afeta diretamente a rotina do pesquisador na Itália, que tem um olival em Florença há dez anos. "O momento da colheita das azeitonas mudou para 20 dias mais cedo. Quando eu era jovem, colhíamos no final de novembro. Hoje, colhemos entre o meio e o fim de outubro. É algo incrivelmente veloz e impossível de não notar."

Questionado sobre qual seria a principal ação a ser tomada em uma metrópole como São Paulo, Mancuso propõe uma meta ousada: "Peguem o prefeito de São Paulo e digam a ele: nós precisamos fechar 20% das ruas da cidade. Precisamos apagar 20% das ruas, remover o asfalto e plantar árvores no lugar. O resultado seria incrível: transformar essas vias no que eu chamo de rios de árvores", afirma.

O escritor sabe que o plano parece utópico, mas diz que a história do urbanismo é feita de ousadias. Ele cita o exemplo de Curitiba, onde o ex-prefeito Jaime Lerner fechou o tráfego de automóveis na rua XV de Novembro e a transformou em um calçadão exclusivo para pedestres, chamado rua das Flores.

O cientista relata uma experiência semelhante com a ex-prefeita de Barcelona, Ada Colau. Ela decidiu fechar uma das avenidas mais importantes da cidade catalã, com cerca de 15 quilômetros de extensão. Substituiu o asfalto por árvores.

"No começo, moradores queriam matá-la. Ela precisou viver com escolta policial por um ano. Mas após seis meses, todos entenderam as vantagens". Ele diz que os comércios daquela rua dobraram o faturamento e hoje as ruas vizinhas pedem para o novo prefeito fazer o mesmo.

Para o neurobiólogo, o principal obstáculo para que o modelo de Fitópolis prospere é a falta de coragem política e o foco imediatista nos ciclos eleitorais. "O problema com os prefeitos é que eles olham apenas para os votos da próxima eleição, e a eleição está sempre perto demais para esse tipo de projeto".

Para ele, o mundo precisa de prefeitas jovens, mulheres e corajosas. "Hoje temos exatamente o oposto: homens, velhos e nada corajosos", diz.

Mancuso participará da "A Feira do Livro" na Praça Charles Miller, no Pacaembu, em São Paulo, na próxima quinta-feira (4), das 16h15 às 17h30.

A turnê de escritor no Brasil é uma realização da Ubu editora, Istituto Italiano di Sao Paolo, Sesc São Paulo, Sesc Rio de Janeiro, Escola da Cidade, Unesp (Universidade Estadual Paulista), Inhotim e Consulado-Geral da Itália em Belo Horizonte.


FITÓPOLIS – A CIDADE VIVA

  • Preço: R$ 69,90 (208 págs.)

  • Autor: Stefano Mancuso

  • Editora: Ubu Editora (Tradução: Samuel Titan Jr.)

Expulsar idosos do City Lapa é ato de crueldade, FSP

 

São Paulo

Diante da atitude que normalmente se tem com os desamparados em geral, o esforço de expulsão das casas de repouso, chamadas tecnicamente de ILPIs (Instituições de Longa Permanência para Idosos), no bairro da Lapa, na zona oeste de São Paulo, não surpreende. Ele é um forte indicador de uma sociedade doente que perdeu a capacidade de se solidarizar com os mais frágeis em nome de questões mercantis como a desvalorização imobiliária ou da perturbação estética.

O que define esse jogo cruel é o dinheiro e o etarismo. Os argumentos para excluir os mais velhos do bairro, onde se concentram residências de alto padrão, são mesquinhos. É o mesmo que acontece com os albergues de moradores de rua de lugares como Cambuci ou Pinheiros, rejeitados pela vizinhança local por revelarem uma realidade que ninguém quer ver.

Grupo de idosos sentados em cadeiras ao redor de uma mesa em sala iluminada pela luz natural de uma porta de vidro. Uma cadeira de rodas está posicionada próxima à mesa, e uma pessoa em pé observa o grupo.
Idosos do Lar Aconchego, uma das casas de repouso que incomodam a vizinhança do City Lapa - Rubens Cavallari/Folhapress

Os idosos não fazem barulho, embora alguns vizinhos próximos reclamem de gritos eventuais, são praticamente invisíveis e nem saem às ruas. Estão apenas vivendo seus últimos anos de vida reclusos, silenciosos e, em geral, tristes. Estão à espera da morte, e alguns moradores se incomodam com os carros funerários que vêm buscá-los na chegada desse dia.

Uma minoria ruidosa se manifestou abertamente reclamando desses carros que frequentam a região, conhecida como City Lapa, e dizendo que os idosos podem perfeitamente procurar outro lugar para viver. Há, porém, uma maioria silenciosa que ocupa a vizinhança e se divide diante da situação. É preciso dizer que nem todo mundo despreza os mais velhos.

As diversas associações de bairro que atuam na região, por exemplo, têm posições diferentes sobre a cassação empreendida pela prefeitura dos alvarás de funcionamento de todas as 40 ILPIs que existem no City Lapa. Seis deles, na rua Tomé de Souza, já foram cassados, mas há ações na justiça para reverter a situação.

Na rua Tomé de Souza, seis estabelecimentos tiveram seus alvarás cassados pela prefeitura
Na rua Tomé de Souza, seis estabelecimentos tiveram seus alvarás cassados pela prefeitura - Vicente Vilardaga

Os moradores etaristas argumentam que a instalação de casas de repouso no bairro descumpre a lei de zoneamento, que classificou a região como "estritamente residencial". A questão é que a maioria das ILPIs do City Lapa funciona exatamente dessa forma, como moradia coletiva, e não oferece serviços médicos, por exemplo, o que as deixaria dentro das regras. São simplesmente casas onde moram vários idosos, portanto residências. Seus proprietários alegam que receberam autorização da prefeitura para instalar seus estabelecimentos.

Segundo reportagem da Folha, a prefeitura diz que atua dentro da legalidade e argumenta que as ILPIs foram licenciadas na categoria "serviço público social de pequeno porte", o que as obrigaria a firmar convênios com o poder público para se manter funcionando. A prefeitura diz também que o serviço de hospedagem tem sido particular e que as ILPIs estão atuando de maneira irregular ao exercer uma atividade comercial não permitida pelo zoneamento do bairro. Seria o caso, porém, de fazer uma abordagem mais seletiva e de se preocupar com o destino dos idosos.

A Veneza é uma das 40 casas de repouso do City Lapa ameaçadas de expulsão do bairro
A Veneza é uma das 40 casas de repouso do City Lapa ameaçadas de expulsão do bairro - Vicente Vilardaga

Outros bairros aprazíveis da cidade, como Perdizes, Pacaembu ou Alto de Pinheiros, também abrigam diversas casas de repouso, e nem por isso há um movimento de expulsão. O poder público oferece pouquíssimas opções de abrigo para o pessoal da terceira idade. A iniciativa privada acaba ocupando esse precioso espaço. Frequentemente cobra caro por isso, mas presta um serviço essencial.

Nessa história do City Lapa, o problema maior é a falta de empatia. Quem reclama das casas de repouso pode num futuro não tão distante assim terminar amparado em uma delas. Fico pensando que todos vão envelhecer e, se for o caso de serem levados para um estabelecimento desse tipo, preferirão ficar em um lugar tranquilo e mais próximo de suas famílias. Mas a reação de algumas pessoas reforça o estigma de que os idosos são um estorvo, incomodando os mais jovens por sua mera existência. Nada justifica tanta raiva, como a demonstrada por alguns moradores, contra eles.

Enchentes já aparecem como principal problema ambiental nas dez maiores capitais, Jorge Abrahão ,FSP

 Uma pesquisa divulgada na última terça-feira pelo Instituto Cidades Sustentáveis e pela Ipsos-Ipec mostra uma mudança importante na percepção das pessoas sobre clima e meio ambiente, na comparação com o mesmo levantamento realizado no ano passado. Enchentes e alagamentos já são apontados como o principal problema ambiental pela população de cinco das dez capitais onde o trabalho foi feito. Considerando o total da amostra, a poluição do ar caiu para a segunda posição. Hoje, aparece em primeiro lugar apenas na cidade de São Paulo.

Ainda é cedo para afirmar que existe um maior nível de entendimento da sociedade sobre as mudanças do clima, mas é fato que as pessoas estão cada vez mais atentas –e preocupadas– com as consequências de eventos climáticos severos. Enchentes e alagamentos são cada vez mais fortes e frequentes, e geram impacto na vida das pessoas. Todo mundo sente na pele. Uns mais que outros, mas o impacto é geral. Todos são afetados.

Três pessoas em barco de resgate navegam por rua inundada. Edifícios e placas comerciais visíveis ao fundo em dia nublado.
Forças de segurança atuam no patrulhamento em Canoas, cidade alagada pelas enchentes no Rio Grande do Sul em 2024 - Pedro Ladeira - 16.mai.24/Folhapress

Para muitos, as questões relacionadas ao meio ambiente ainda são consideradas algo secundário, um problema distante, um assunto para ser resolvido pelas próximas gerações. Mas não é. Há décadas a ciência nos alerta para a importância de reduzirmos as emissões de carbono para evitarmos, ou mitigarmos, problemas que já se manifestam há anos e causam grandes estragos. Perdem-se vidas, casas, perde-se tudo. Não perdemos apenas horas no trânsito. E cada vez mais gente sabe disso.

Outra pergunta da pesquisa ajuda a reforçar a ideia de que talvez estejamos num momento de inflexão sobre o assunto. O calor excessivo aparece em primeiro lugar quando as pessoas são questionadas sobre os principais impactos das mudanças climáticas, com 33% das menções, seguido pela poluição do ar (22%). O mais curioso e menos esperado está no terceiro lugar: o aumento do preço dos alimentos, com 15% das respostas.

Isso mostra que uma parte importante dos entrevistados já começa a fazer relações que não são tão óbvias quanto o assunto sugere. Chegar a esta conclusão exige a compreensão de um ciclo logístico que envolve parte significativa da cadeia produtiva da agroindústria. Pode ser evidente para alguns, mas está longe do entendimento comum da maioria das pessoas. Em outras palavras, significa que uma parcela da população percebe o impacto econômico das mudanças do clima. Um impacto que afeta o próprio bolso.

O terceiro destaque da pesquisa vai para as ações que os governos devem adotar para enfrentar os problemas ambientais. O controle do desmatamento e da ocupação das áreas de manancial aparece na primeira posição; ampliar as áreas de preservação ambiental, em segundo; reduzir a utilização de combustíveis fósseis, em terceiro.

A diferença percentual entre as respostas é pequena, mas o desafio é enorme, porque nenhuma dessas ações deve ser encarada de forma isolada. Ao contrário, a saída está justamente na adoção conjunta de uma série de medidas que envolvem os três níveis de governo. Essa é a única forma de dar a devida prioridade a um tema tão importante para a vida das pessoas. Um tema que a própria população começa a perceber que não se trata de algo isolado, local ou sazonal.

No caso das enchentes, o problema é estrutural, histórico e cumulativo nos grandes centros urbanos. Os alagamentos recorrentes resultam de um modelo de urbanização que ignora a dinâmica natural dos rios, privilegia a impermeabilização do solo e subestima a importância da drenagem urbana, dos parques e arborização das ruas e da adaptação climática. Trata-se de um problema que exige mudanças profundas no planejamento urbano, na governança e na priorização dos investimentos públicos. Nestes casos, a responsabilidade é sobretudo dos governos municipais e estaduais.

Uma visão mais abrangente para a saída da crise climática foi dada pela ex-ministra do Meio Ambiente Marina Silva, que participou do evento de lançamento da pesquisa de forma remota. Ela defendeu a criação de um marco regulatório e a formação de uma governança composta por um comitê técnico, um conselho nacional e uma autoridade climática. E que isso se traduza de forma concreta na implementação e acompanhamento das ações para fortalecer a agenda do clima nas cidades, bem como em mudanças nos planos diretores municipais, com foco em prevenção.

Hoje, mais de 1.900 municípios brasileiros são vulneráveis do ponto de vista climático, boa parte deles no estado de São Paulo. O assunto pede urgência faz tempo e o problema vai muito além dos transtornos causados por enchentes numa tarde de verão. O tempo não está a nosso favor, é verdade, mas a opinião da população é o melhor caminho para influenciar a tomada de decisão na esfera pública.

Asfaltar ruas ainda dá muita visibilidade para os políticos na época das eleições, mas avenidas alagadas também podem tirar votos importantes. A maior conscientização em relação aos impactos ambientais, como mostra a pesquisa, pode provocar uma mudança de prioridades e investimentos serem direcionados para problemas estruturantes, antecipando-se aos impactos provocados pela mudança climática.