quarta-feira, 13 de maio de 2026

Fortalecer organizações da sociedade civil é proteger o futuro, FSP

 Márcia Kalvon

Diretora executiva do Infinis e membro da Aliança pelo Fortalecimento da Sociedade Civil

Em um país marcado por desigualdades, as OSCs (Organizações da Sociedade Civil) não podem ocupar um papel secundário no debate público. Elas formam uma rede que ajuda a garantir direitos, ampliar acesso a serviços e sustentar a participação social.

A questão é que sua contribuição nem sempre é reconhecida nos processos legislativos, regulatórios e de planejamento de políticas públicas.

Segundo o Mapa das OSCs, do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), o Brasil registrou mais de 897 mil organizações ativas em 2024, com presença em todos os municípios e, em sua maioria, de pequeno porte e atuação comunitária.

Grupo 'Dois Cafés e um Pingado' distribui café da manhã a moradores de rua na Cinelândia, no Rio de Janeiro, na pandemia - Tércio Teixeira/Folhapress

O levantamento "Retrato da Solidariedade", do Instituto Pensi, mostra que 6 em cada 10 pessoas doaram em 2024 para essas organizações —seja em dinheiro, bens ou trabalho voluntário. Não se trata de um microsegmento, é uma expressão organizada, solidária e de responsabilidade coletiva.

É importante olhar além da sigla. OSC é uma organização privada, sem fins lucrativos, criada para servir um propósito de interesse público, muitas vezes abordando desafios sociais com inovação e testando modelos para enfrentar problemas estruturais da nossa sociedade.

Essa relevância fica evidente quando lembramos de avanços que hoje são consolidados. A Pastoral da Criança, na década de 1980, ajudou a enfrentar a desnutrição e a mortalidade infantil, com um modelo que se expandiu pelo país.

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teste do pezinho, que completa 50 anos no Brasil em 2026, foi trazido ao país pela Apae (Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais) de São Paulo, hoje Instituto Jô Clemente, antes de ser incorporado pelo SUS (Sistema Único de Saúde).

Muitas políticas que viraram direito começaram com a persistência de organizações sem fins lucrativos. Se a sociedade civil organizada é uma engrenagem fundamental para o país, por que o ambiente regulatório ainda a negligencia ou a trata como exceção?

Parte do problema está em dois pontos: o clima de desconfiança que, em alguns momentos, vira criminalização generalizada das OSCs; e o desconhecimento expressado em decisões legislativas e administrativas que equiparam OSCs ao setor pró-lucro, sem considerar suas especificidades, a finalidade pública e o fato de que não distribuem resultados, mas reinvestem na própria missão.

O "Panorama das ONGs – Capítulo Brasil", publicado pelo Idis (Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social ), mostra que a maioria (91%) dos líderes das organizações da sociedade civil concorda que o poder público depende delas para prestar serviços que não pode ou não quer financiar —percentual muito acima da média global, de 66%.

Ao mesmo tempo, esses mesmos líderes avaliam como baixos os incentivos governamentais ao setor, especialmente no que se refere a mecanismos de apoio e estímulo.

Considerando as inequidades que comprometem o desenvolvimento dos nossos cidadãos mais vulneráveis, que são as crianças, não há espaço para fazer vistas grossas ao papel fundamental das OSCs para nosso desenvolvimento como nação.

Fortalecer organizações, investir em pesquisa e dialogar com gestores e legisladores é parte da construção de um país que leva o bem-estar social e a infância a sério.

As organizações da sociedade civil não podem ocupar papel secundário na agenda nacional. O debate sobre seu fortalecimento exige firmeza e responsabilidade institucional.

Quando uma organização enfraquece, o que diminui não é apenas uma iniciativa. Diminui a capacidade do país de cuidar do seu presente e proteger o seu futuro.

Crise de Starmer lembra que é melhor comprar briga e perder do que não comprar e já ter perdido, Rui Tavares, FSP

 Enquanto escrevo, o premiê britânico Keir Starmer luta pela sua sobrevivência política, o que é uma novidade: ao menos está lutando. Embora seja incerta a sua sorte, uma coisa é garantida: em torno dele vamos ver surgir mais um episódio da sempiterna batalha entre esquerdistas e centristas no campo progressista, cada um garantindo que o outro leva à derrota certa, seja por falta de convicções, seja por falta de consensos.

É um debate cansativo, porque ambos estão errados. Não me confundam: eu sou da esquerda, e de uma esquerda que não é centrista. Mas não é por achar que isso nos dá automaticamente mais chance de vitória e que um candidato centrista esteja automaticamente derrotado.

O primeiro-ministro do Reino Unido, Keir Starmer, acena durante visita a instituição de ensino em Londres - Toby Melville - 12.mai.26/pool via AFP

Além disso, lembro que ainda há não muito tempo Keir Starmer era um fiel escudeiro de Jeremy Corbyn, um dos líderes mais esquerdistas que os trabalhistas britânicos já tiveram, e que perdeu feio também.

Keir Starmer, por sua vez, ganhou como centrista uma maioria absolutérrima nas eleições parlamentares de há uns anos. E agora não só perde como arrisca levar consigo o seu partido. O que se passou? Segundo quem o conhece bem, Keir Starmer é pessoa de grande simpatia, excelentes intenções e bons princípios. Mas é incapaz de tomar decisões, mesmo tendo tido todas as condições para fazê-lo.

Está aí a raiz para o desdém com que agora os britânicos o tratam. Todos sabem que Starmer considera o brexit um erro e que, se pudesse fazê-lo sem custo, gostaria de ver o Reino Unido de novo na União Europeia. Mas prometeu não fazer nada para que tal acontecesse, por respeito às divisões da sociedade britânica. O resultado é que conseguiu que nenhum dos lados o respeitasse.

Nigel Farage, o grande responsável pelo brexit, por seu lado, tampouco é respeitado. Fui colega dele no Parlamento Europeu, saudávamo-nos nos corredores e fazíamos parte da mesma comissão, a que ele faltava quase sempre, e desde então ele já dizia que iria lutar para tirar o Reino Unido da União Europeia.

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Na altura toda a gente ria. Hoje ninguém ri. O brexit pode ter sido um fracasso para o Reino Unido (até ele o admite, embora diga que é por não ter sido brexit que chegue) mas ninguém pode negar a Farage a capacidade de lutar: mais de metade do eleitorado o abomina; mas para os restantes ele é um herói.

Graças às bizarrias do sistema eleitoral britânico, se os partidos progressistas (e pró-europeus) não se juntarem numa aliança, é bem possível que Farage venha a ser o próximo primeiro-ministro de Sua Majestade o rei Charles 3º.

Mas então por que razão Starmer não quis lutar pelo regresso à União Europeia, quando estavam aí as suas convicções? Pela razão que prende muitos progressistas ao chegarem ao poder, e que se pode resumir numa frase: "é mais complicado do que parece".

Claro que é sempre mais complicado do que parece! Mas se o líder progressista que tinha acabado de ganhar eleições se desculpa com isso, o fim já chegou ainda antes de começar. Para governantes progressistas, estar mais à esquerda ou mais ao centro é importante, mas a lição fundamental é: briguem.

Se você brigar, pode ganhar ou pode perder. Se não brigar, já perdeu.

Chá revelação de classe social, Joanna Moura, FSP

 A mudança de Londres para o Brasil trouxe, como qualquer mudança, coisas boas e ruins. Creio eu que não preciso listar as ruins, visto que este mesmo jornal —ou qualquer outro veículo jornalístico que se propõe a noticiar os fatos— já faz esse trabalho por mim. Talvez valha, porém, listar algumas boas, uma vez que estas são mais raramente encontradas e/ou noticiadas aqui pelas bandas deste nosso torrão natal.

Começo pelo óbvio para quem, como eu, vem de um longo período em terras gélidas, de longos invernos em que o sol nasce às nove da manhã e se vai às três da tarde: habemus cá, no céu brasileiro, a presença quase opressora de sol. Há também —e quem viveu num país onde o prato nacional é a batata assada sabe da importância deste item— enorme facilidade de acesso a iguarias como requeijão, doce de leite, goiabada, feijoada, pastel de camarão e catupiry, acarajé e pudim.

Criança em silhueta corre sobre piso de vidro transparente que reflete árvores e céu. A sombra da criança é visível no vidro, criando efeito visual de profundidade.
Expliquei à minha filha que não, não moramos em um palácio - Alessandro Shinoda - 19.jan.11/Folhapress

Mas, entre todas essas maravilhas proporcionadas por esta pátria mãe (por vezes) gentil, uma das que mais salta aos olhos desde que chegamos é o espaço. Em Londres, habitávamos um apartamento de 87 metros quadrados, tamanho ótimo, diga-se de passagem. No entanto, quando nos mudamos de volta para o Rio de Janeiro, um novo horizonte se abriu. Na busca por um apartamento alugado, decidi, de antemão, que priorizaria espaço em detrimento de outras mordomias —varandas gourmet e que tais—, optei por metragem. E foi assim que acabamos nos mudando para um apartamento com o dobro do espaço daquele em que morávamos em Londres.

A mais feliz com o recém-conquistado espaço é, sem dúvida, minha filha de 6 anos, para quem o apartamento de 87 metros era a única referência de casa. Hoje, três meses depois da mudança, ela ainda se encanta com a possibilidade de treinar suas cambalhotas na sala (que segue quase sem móveis). Outro dia, saindo da escola, chamou um amigo para visitá-la e, depois do convite, emendou: "Minha casa é MUITO grande, um palácio". Na hora, achei engraçado, coisa de criança, mas, no caminho de volta ao nosso palácio, me senti na obrigação de colocar os devidos pingos nos is e me certificar de que a criança soubesse que, por maior que pareça a nossa casa, ela não é um palácio.

Chamo a conversa que se desenrolou em seguida de "chá revelação de classe social", aquele momento em que somos informados sobre quem de fato somos na pirâmide social.

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"Não somos ricos", lhe disse. "Mamãe e papai têm que trabalhar muito pra gente morar onde mora e fazer as coisas que a gente faz. E você vai ter que trabalhar também quando crescer para poder ter a sua casa."

Depois de certo ponto e, diante de sua cara de perplexidade, entendi que meu monólogo havia atingido os limites da atenção e compreensão daquela criança. "Tô com fome", ela me disse, talvez apenas para mudar de assunto.

Enquanto fazia uma torrada, fiquei pensando sobre como tem gente por aí que teria se beneficiado de um chá revelação de classe social logo cedo na vida. Para que soubesse bem dos seus privilégios, mas, talvez mais ainda, de suas limitações. Gente que se acha muito superior aos outros só porque está entre os 10% ou 5% mais endinheirados, mas cuja "riqueza" —a escola cara, o carro financiado e o apartamento de 150 metros— não resiste a três meses de desemprego.

Em outubro, temos eleições e seria bom demais se boa parte da "classe média alta" entendesse onde de fato se encontra na pirâmide social e votasse de acordo com a realidade, e não com seus delírios elitistas.