quarta-feira, 13 de maio de 2026

EUA e China têm um inimigo em comum, e não é mais a União Soviética, Thomas L. Friedman, FSP

 A cúpula entre Donald Trump e Xi Jinping em Pequim pode ser o encontro mais significativo entre líderes americanos e chineses desde que Richard Nixon se reuniu com Mao Tsé-tung em Pequim, em 1972.

Aquela cúpula aliviou décadas de animosidade sino-americana e forjou uma aliança tácita entre Estados Unidos e China contra a União Soviética. Esta cúpula acontece em um momento de transformação semelhante nos assuntos mundiais, quando há uma nova ameaça compartilhada tanto para a China quanto para os EUA.

Trata-se de uma desordem em metástase que pode desestabilizar o mundo e prejudicar ambos os países, a menos que encontrem uma forma de competir e colaborar simultaneamente contra uma lista crescente de desafios.

Dois homens em trajes formais conversam frente a fundo preto. O homem à esquerda usa terno azul escuro, camisa branca e gravata vermelha, enquanto o da direita veste terno azul escuro, camisa branca e gravata azul.
O presidente americano, Donald Trump, e o presidente chinês Xi Jinping conversam após encontro bilateral em Busan, na Coreia do Sul - Evelyn Hockstein - 30.out.25/Reuters

Esses desafios só podem ser enfrentados com sucesso por meio de ação coletiva —começando com EUA e China criando juntos barreiras de proteção contra os usos malignos da inteligência artificial, agora que os modelos mais recentes demonstraram capacidades de ciberataque assustadoramente poderosas.

Duas mudanças de paradigma transformaram o mundo desde a cúpula Nixon-Mao. A primeira —ainda não amplamente compreendida, embora os alarmes estejam soando a todo volume— é o surgimento dessas novas ferramentas assimétricas de IA que podem dar superpoderes a pequenos atores malignos, sejam terroristas, anarquistas, criminosos, grupos políticos ou pequenos Estados-nação.

Dois sujeitos em uma caverna com um laptop, acesso aos modelos de IA mais recentes e um terminal Starlink poderiam atacar a infraestrutura crítica de qualquer sociedade.

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A segunda tem a ver com a globalização. A cúpula Nixon-Mao iniciou o processo de levar o mundo de desconectado para muito mais conectado e depois interconectado. Quando Nixon e Mao começaram a tirar a China de seu isolamento da economia global —o que Deng Xiaoping acelerou enormemente ao mudar a China para o capitalismo de Estado— desencadearam uma cascata de forças econômicas e tecnológicas.

O líder chinês, Mao Tsé-Tung, se encontra com Richard Nixon durante sua visita à China - Xinhua - 22.fev.72/AFP

Quando o início do século 21 chegou, a combinação da entrada da China na Organização Mundial do Comércio e da conexão do mundo pela internet significou que mais pessoas em mais lugares podiam competir, conectar-se e colaborar de mais maneiras, por menos dinheiro, em mais coisas do que em qualquer outro momento da história humana. É por isso que escrevi um livro em 2005 intitulado "O Mundo É Plano".

Está na natureza da mudança tecnológica, porém, que cada grande passo à frente aconteça mais rápido que o anterior, porque se constrói sobre as ferramentas que a era anterior liberou. Assim, anos depois de eu ter argumentado que o mundo é plano, a tecnologia e outras forças avançaram e nos levaram, como argumentou Dov Seidman, fundador do The HOW Institute for Society, de interconectados para interdependentes, ou como ele coloca, de plano para "entrelaçado".

Você podia se desconectar do mundo plano. Não há como escapar do mundo entrelaçado. Agora todos vamos todos prosperar ou fracassar juntos.

Isso não acontece apenas porque os avanços na internet, smartphones, fibra óptica, satélites e comunicação sem fio nos fundiram tecnologicamente mais do que nunca. É também porque um conjunto de desafios em escala planetária fundiu nossos destinos mais do que nunca. Esses desafios são tão amplos em escopo e tão indiferentes às fronteiras nacionais que nenhum Estado isolado, por mais poderoso que seja, pode enfrentá-los ou escapar deles sozinho.

Sabemos quais são: mitigar as mudanças climáticas, prevenir a proliferação de armas nucleares e biológicas, gerenciar migrações globais, controlar pandemias, manter as cadeias de suprimentos globais das quais todos dependemos funcionando sem problemas e —mais importante e imediato— gerenciar essa nova espécie de IA que conjuramos.

Conseguimos adiar ou nos virar com colaboração limitada em muitas dessas questões de escala planetária, mas o tempo acabou no que diz respeito aos poderes de ciberataque da IA. Não dá mais para empurrar esse problema com a barriga. Não há mais estrada.

Por anos, observa Craig Mundie —ex-chefe de pesquisa e estratégia da Microsoft e meu tutor e parceiro em pensar sobre essa nova ameaça de IA— EUA e China regularmente cutucaram e testaram um ao outro, e incorporaram infraestrutura de malware e roubaram informações um do outro com operações cibernéticas secretas.

Mas eles também sabiam, observou Mundie, que se a China derrubasse nossas redes elétricas, poderíamos derrubar as deles, e que se eles pudessem apagar as luzes em Washington, poderíamos fazer o mesmo em Pequim. É o mesmo que com armas nucleares: "Eles recriaram a destruição mútua assegurada", disse Mundie.

Mas agora adivinhe quem vem para o jantar? Um novo conjunto de atores, potencialmente muito perigosos, e não são apenas países. No entanto, podem ameaçar a ambos.

Esses são os sistemas de IA autônoma recentemente divulgados pela Anthropic e OpenAI que poderiam dar ferramentas a pequenos ciberatacantes para perturbar tanto a economia da China quanto a nossa —e a de qualquer outro— com muito pouco dinheiro e praticamente nenhuma expertise. Pode apostar que outros modelos americanos, como o Gemini do Google, e em breve os modelos de IA da China, oferecerão os mesmos poderes.

A Anthropic e a OpenAI dizem que seus modelos mais recentes são tão potentes em encontrar e explorar falhas em software que ambas as empresas optaram por limitar sua distribuição por enquanto. Mas é apenas uma questão de tempo até que escapem para o mundo, se é que já não escaparam.

"Isso deveria ser um grande motivador para os dois países se unirem —mesmo que apenas nessa questão específica, que agora é um perigo claro e imediato para ambos", argumenta Mundie.

Não é pedir o impossível. China e EUA conseguiram cooperar nos dias de Nixon e Mao, concluiu Mundie, "porque tínhamos um problema em comum, a União Soviética. Bem, agora temos outro problema em comum. Não é outro país, é uma tecnologia —os riscos emergentes de ciberameaças assimétricas de sistemas de IA autônoma".

O antigo G2, EUA e China, precisa trabalhar com o que chamarei de novo I7 —Anthropic, Google/Alphabet, OpenAI, MetaAlibaba Group, DeepSeek e ByteDance— para descobrir uma forma de obter o melhor desses novos modelos de IA enquanto se protegem contra o pior. Os governos não conseguem resolver isso sozinhos, e as empresas também não.

Em um desenvolvimento que recebeu pouca atenção por causa da guerra com o Irã, Trump está supostamente considerando impor supervisão sobre modelos de IA antes de serem disponibilizados publicamente.

Isso é muito sábio da parte de Trump. As pessoas precisam acordar: estamos entrando em um mundo no qual empresas privadas agora podem, na prática, dividir o átomo, em termos do poder que podem liberar em todas as direções.

"E assim como dividir o átomo, você pode fazer eletricidade ou bombas", disse Mundie. O mesmo vale para a IA autônoma. "Temos o poder de fazer um bem ilimitado ou criar armas —armas enormemente assimétricas".

Espera-se que o tema da IA esteja na agenda Trump-Xi. O que realmente tornaria esta a cúpula EUA-China mais significativa desde Mao e Nixon não é apenas que os dois homens conversem sobre isso, mas que decidam trabalhar juntos nisso —agora. Depois será tarde demais. Está vindo rápido demais.

Obras estratégicas paradas pelo licenciamento, Mauricio Portugal Ribeiro - FSP

 Grandes obras de infraestrutura no Brasil já não param por falta de dinheiro, nem por problemas técnicos. Param pelas regras de licenciamento ambiental e de consulta às comunidades indígenas. A tabela publicada neste texto lista 17 projetos estratégicos travados por disputas socioambientais —sobretudo pela contestação da CLPI (Consulta Livre, Prévia e Informada), da Convenção 169 da OIT (Organização Internacional do Trabalho)— e duas mudanças sistêmicas na política energética. Juntas, essas decisões impedem investimentos da ordem de centenas de bilhões de reais e geram custos que recaem sobre toda a sociedade, inclusive sobre as comunidades que se pretende proteger.

Quando se fala em obras paralisadas no Brasil, evoca-se o levantamento do TCU (Tribunal de Contas da União) de 2018, que identificou 14.403 contratos parados —número que hoje oscila entre 7.000 e 9.000. A maioria são escolas, creches e unidades de saúde travadas por falência de empreiteiras ou descontinuidade orçamentária. Não é desse universo que trato aqui, e sim de grandes projetos travados por exigências do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis), Funai (Fundação Nacional dos Povos Indígenas), MPF (Ministério Público Federal) ou Judiciário.

A imagem mostra uma vista aérea de um grande estacionamento de caminhões, com muitos veículos alinhados em fileiras. O estacionamento está cercado por uma vasta área verde, com árvores e um campo aberto ao fundo. A luz do sol ilumina a cena, criando um efeito de brilho sobre os caminhões e a vegetação.
Caminhões carregados de soja estacionam em posto de gasolina no entroncamento da BR-163 com a rodovia Transamazônica, próximo a Miritituba, no Pará; local será o ponto final da Ferrogrão, ferrovia planejada para escoar grãos do Mato Grosso até o rio Tapajós - Lalo de Almeida - 3.mai.25/Folhapress

Dos 17 projetos, cerca de 82% têm a questão indígena como fator predominante de travamento, em particular pela contestação da CLPI. Os demais, por argumentos estritamente ambientais. Em pelo menos um terço dos casos, a iniciativa judicial parte diretamente de organizações não governamentais especializadas em litigância socioambiental: Observatório do Clima na BR-319Justiça Global no Belo Sun, Apib (Articulação dos Povos Indígenas do Brasil) nas hidrovias do Tapajós, entre outras, que se tornaram peças centrais da arquitetura jurídica do impasse.

Pelo Censo de 2022, do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), há cerca de 1,7 milhão de indígenas no Brasil —0,83% da população, dos quais 36% vivem em áreas urbanas, integrados à vida econômica e social do país. A população em isolamento voluntário identificada pela Funai é estimada entre 4.000 e 7.000 pessoas, em torno de 0,003% do total.

Nada disso diminui a importância da Convenção 169. A CLPI existe para garantir a comunidades indígenas e tradicionais direitos iguais aos dos demais brasileiros, não poder de veto sobre o interesse coletivo: equiparação, não preponderância. Quando o procedimento vira obstrução, a garantia transforma-se em barreira ao desenvolvimento das regiões onde vivem essas comunidades.

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Nos projetos listados, projetam-se perdas anuais superiores a R$ 8 bilhões em frete (Ferrogrão), R$ 175 bilhões de PIB (Produto Interno Bruto) potencial e 495 mil empregos (margem equatorial), tarifas mais altas pela substituição de hidrelétricas com reservatório por térmicas a gás, mais caras e mais poluentes —paradoxo ambiental embutido na própria transição energética. Sem o Estado, áreas remotas convivem com garimpo, grilagem e desmatamento ilegais. Pagam a conta os mais de 7 milhões de habitantes da Amazônia ocidental e o restante dos brasileiros, incluindo os indígenas urbanos.

A solução não passa por enfraquecer a proteção ambiental nem os direitos indígenas. Passa por regulamentar o que hoje é arbitrário.

Primeiro, é urgente um marco legal para a CLPI: protocolo único, com escopo, abrangência, fases e prazos claros, hoje inexistentes. A Convenção 169 é vaga; sua operacionalização ficou ao sabor de protocolos comunitários e decisões judiciais conflitantes, gerando insegurança em ambos os lados.

Segundo, a lei 15.190/2025, em apreciação no STF (Supremo Tribunal Federal), precisa ser preservada nos pontos sobre prazos máximos de manifestação dos órgãos intervenientes e silêncio administrativo positivo. Sem prazos, qualquer procedimento vira veto.

Terceiro, é preciso reaparelhar Ibama e Funai. Cada analista do Ibama é responsável por 14 processos em paralelo, contra 2,5 em 2010, num órgão com 43% de vacância —situação admitida pela ex-ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva. Sem capacidade analítica, exigir novos estudos é a única resposta possível.

Quarto, mecanismos de compensação econômica direta às comunidades afetadas, vinculados ao desempenho da obra, devem substituir o modelo de condicionantes acumuladas sem critério.

Por último, é fundamental restaurar a confiança. Promessas não cumpridas —em Belo Monte, mesmo após uma década de operação, persistem pendências documentadas pelo MPF, pelo Ibama e pela própria concessionária, do saneamento de Altamira (PA) à desintrusão das terras indígenas do médio Xingu— alimentam a desconfiança que paralisa os projetos futuros. Cumprir o acordado é o primeiro passo para novos acordos.

O Brasil não precisa escolher entre desenvolvimento e proteção. Precisa, sim, escolher entre regras claras e a paralisia atual, que serve apenas a quem confunde direitos com privilégios —em qualquer lado do debate.