terça-feira, 12 de maio de 2026

Chefes de ‘departamentos’ e atuação em 14 setores da economia: veja quem manda no PCC, FSP

 Fazia 20 anos que o Primeiro Comando da Capital (PCC) existia quando, em 2013, o promotor Lincoln Gakiya entregou à Justiça o resultado da maior investigação criminal até então realizada pelo Ministério Público de São Paulo contra a facção. Com 876 páginas, a denúncia acusava de formação de quadrilha 175 integrantes da facção — o crime de organização criminosa só passaria a existir mais tarde, naquele mesmo ano de 2013. Centenas de horas de escutas telefônicas e milhares de documentos mostravam um grupo que se nacionalizava por meio de contatos com outras facções e aplicava o discurso de que “o crime ajudava o crime”.

Na época, os paulistas dirigiam um grupo com 7,6 mil integrantes, que faturava R$ 120 milhões por ano e estava presente em 22 Estados e três países. Era o começo da internacionalização da facção, desde que entrara, em 2007, no tráfico internacional de drogas.

Passados mais de dez anos, o PCC fatura R$ 10 bilhões por ano, alcançou todas as Unidades da Federação e está em 28 países, reunindo um exército de 40 mil homens e mulheres. Seu modelo de gestão do crime e proteção dos criminosos permanece organizado em torno de um colegiado liderado por Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola, preso desde 1999 e que atualmente cumpre pena na Penitenciária Federal de Brasília. Trata-se da chamada Sintonia Final Geral e de seu principal órgão de apoio, a Sintonia Final, conforme as informações reunidas pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco). A reportagem não localizou as defesas dos acusados.


Neste 12 de maio, completam 20 anos dos ataques do PCC contra as forças de segurança em São Paulo. Como o Estadão mostrou, o Estado reagiu e a onda de mortes violentas se estendeu até o dia 21 daquele mês. Conforme o Ministério Público de São Paulo (MPSP), 564 pessoas morreram e quatro desapareceram. Das vítimas fatais, 59 eram agentes de segurança, entre policiais militares, civis, agentes carcerários e guardas municipais, e 505 eram civis. Houve ainda quatro civis desaparecidos e 110 pessoas ficaram feridas por armas de fogo.

Desde aquele maio de 2006, o PCC só cresce e o Departamento de Inteligência da Polícia Civil de São Paulo (Dipol) identificou 12 sintonias do crime e um setor mantido pela facção. Dois deles mostram a evolução do PCC: a Sintonia da Internet e Redes Sociais e o Setor do Raio X, espécie de corregedoria ou “compliance” dos bandidos. Ao mesmo tempo, a facção atuaria em 14 setores da economia: postos de gasolina, agências de automóveis, construção civil, casas de câmbio, bancos digitais (fintechs), criptoativos, empresas de ônibus, igrejas, mineração ilegal, ONGs da saúde, coleta de lixo, bets, agrotóxicos e empresas ligadas ao futebol.

Os números envolvendo movimentações financeiras investigadas pelo Gaeco e pelas Polícias Civil e Federal tratam de evasão, ocultação de bens e lavagem de dinheiro repetidamente, de valores acima da cifra de R$ 100 milhões, e não raro ultrapassam a casa do bilhão, como no caso de operações como a Carbono Oculto (R$ 46 bilhões), Colossus (R$ 61 bilhões), Tai Pan (R$ 119 bilhões) e Alcaçaria (R$ 25 bilhões), quando o dinheiro do crime organizado se mistura com o de outras atividades ilícitas, como a corrupção, a sonegação de impostos e fraudes financeiras.


Reportagem: Marcelo Godoy; Editora de infografia: Regina Elisabeth Silva; Editores-assistentes de infografia: Adriano Araujo e William Mariotto; Editor de Metrópole: Victor Vieira; Editores-assistentes de Metrópole: Raphael Ramos e Juliana Prado

Chargista não debochou da morte da juíza, Mariliz Pereira Jorge, FSP

 O que aconteceu com a gente? Quando passamos a presumir que o outro é sempre mau, ardiloso, mal-intencionado? Onde foi parar o princípio democrático que pressupõe contraditório, ampla defesa e benefício da dúvida? Vamos nos permitir ser dominados pela retórica oportunista, apressada, injusta, presunçosa? Vamos nos contentar em ser idiotas úteis de quem manipula a informação?

juíza Mariana Francisco Ferreira morreu aos 34 anos depois de um procedimento de coleta de óvulos. É triste, é injusto, é um caso que a polícia precisa investigar. Três dias depois, a Folha publicou uma charge de Marilia Marz: uma lápide e a frase "Vidinha mais ou menos, até perdê-la junto com os penduricalhos". Era uma crítica às mordomias do Judiciário, que estão na ordem do dia.

Mulher de cabelos escuros presos, veste beca preta com detalhes brancos e blusa rosa por baixo, posando contra fundo branco.
Mariana Francisco Ferreira, 34, atuava como juíza na Comarca de Sapiranga (RS) - Juliano Verardi /Divulgação TJ-RS

Não era sobre Mariana. A chargista disse que não era. Acredito nela e nos profissionais do jornal envolvidos na cadeia da publicação, que lamentam a coincidência infeliz. Não tenho por que duvidar. Não por espírito de corpo, mas por essa crença fora de moda de acreditar que as pessoas são essencialmente boas e não o contrário.

Mas a conjunção foi servida de bandeja aos oportunistas apressadinhos, e o algoritmo fez a festa. STF, CNJ, associações de magistrados, tribunais, entidades de jornalismo (pasme), até imortal da ABL —todos com suas notinhas de repúdio prontas, vendo no episódio uma oportunidade de se mostrar como arautos da moralidade e da defesa de gênero.

A charge de Marília Marz, publicada no dia 09 de maio mostra uma lápide enfiada na terra. Nela, lê-se: "Vidinha mais ou menos, até perdê-la juntos dos penduricalhos"
Charge de Marilia Marz publicada pela Folha em 9 de maio - Marília Marz/Folhapress

Pergunto: que empatia tem quem usa a memória de uma mulher morta para destruir, em vida, reputação e carreira de outra mulher? Quem aderiu à onda sem nenhum interesse em entender que não havia conexão entre os fatos não está defendendo a juíza, está polindo a própria estátua.

Ninguém pensa, ninguém pondera, ninguém procura explicações. Viramos uma máquina de cancelamentos operada por indignados em série, todos tentando provar como são íntegros e lúcidos. Não são. Apenas digitam muito rápido. E cada veredito apressado transforma o mundo num lugar pior —mais cruel, mais solitário, mais injusto.

Charge fúnebre sobre 'penduricalhos' gera questionamentos à Folha ,FSP

 Esta é uma coluna extra (e maior que o normal) sobre manifestações recebidas pela ombudsman desde o último sábado (9), quando uma charge crítica aos chamados "penduricalhos" do Judiciário brasileiro foi publicada na Folha. Para representar o apego à defesa dessas verbas, a cartunista Marilia Marz valeu-se de uma metáfora funerária.

Na mesma semana, porém, uma jovem juíza morreu de maneira trágica num contexto médico. Houve quem visse na charge uma referência a esse drama individual, o que gerou uma onda de repúdio ao jornal e à sua colaboradora.

A morte era noticiosa sobretudo por ter ocorrido numa coleta de óvulos, procedimento classificado como seguro se feito em condições adequadas. O óbito de uma mulher de 34 anos nessa situação chamaria a atenção independentemente de sua profissão.

Além da tragédia pessoal, a notícia da morte na coleta de óvulos remete a outro aspecto. Não só na magistratura, mas em praticamente qualquer campo, a vida reprodutiva feminina entrará em questão em algum momento: já carregar os filhos e arcar com as consequências, adiar a gravidez e arcar com as consequências, rejeitá-la por vontade ou perdê-la pelas circunstâncias e arcar com as consequências.

Mas a charge, segundo a autora, não tinha a ver com essa morte específica nem com qualquer morte concreta. "A morte trágica da juíza Mariana Ferreira não foi inspiração para a charge, e lamento muito que essa associação tenha sido feita. Só soube dessa horrível coincidência e interpretação a partir dos ataques na internet. Sinto muitíssimo", escreveu Marilia Marz no Painel do Leitor, em resposta a mensagens publicadas pela Folha.

Muitas mensagens mostravam preocupação com a suspeita de que o jornal pudesse ter feito ou possibilitado uma associação qualificada como "macabra" ou "misógina". "Se pretendeu ser engraçada, conseguiu apenas revelar o pior do ser humano. O fato é ainda mais grave quando se permite associar a dita charge ao falecimento de jovem juíza. A dignidade da pessoa humana não é negociável", escreveu a procuradora Liliana Mercadante Mortari, do Ministério Público de SP.

A charge de Marília Marz publicada no dia 9 de maio mostra uma lápide enfiada na terra. Nela, lê-se: "Vidinha mais ou menos, até perdê-la juntos dos penduricalhos"
Charge de Marilia Marz publicada pela Folha em 9 de maio - Marília Marz/Folhapress

"A charge de hoje parece tripudiar da morte de uma juíza. A Folha, no seu legítimo papel de apontar as falhas do Poder Judiciário e de exigir bom uso do dinheiro público, tem exagerado e desumanizado constantemente os juízes, e eu, como juíza que trabalha mais de 50 horas por semana para prestar um bom serviço ao jurisdicionado, tenho assistido calada, consciente de que outros colegas podem merecer as críticas que injustamente sobre mim recaem", afirmou Vanessa Vaitekunas Zapater. "Mas comemorar uma morte é uma crueldade que não se justifica."

"A crítica à remuneração da magistratura deve ser aceita e integra naturalmente o debate público. O problema está no contexto, na escolha simbólica e na evidente insensibilidade editorial. (...) Foi um gesto de brutalidade simbólica que qualquer Redação minimamente cuidadosa teria percebido", afirmou o juiz Anderson Valente.

O leitor toca numa questão importante. Um olhar mais atento e sensível das equipes de edição talvez pudesse ter funcionado como filtro e ligado um alerta para a coincidência e para escapar do mal-entendido.

"As charges, como as colunas de opinião, passam pela Secretaria de Redação e são liberadas desde que não configurem crime", explica o comando da Redação da Folha. "A charge [de Marilia Marz] critica os ‘penduricalhos’ do Judiciário, gratificações e auxílios pagos a magistrados muitas vezes fora do teto constitucional, o que tem sido objeto de intenso debate no país e de abrangente cobertura do jornal nos últimos dias. Este é o timing da publicação. Ela não está relacionada à morte da juíza Mariana Ferreira, como a própria autora esclareceu."

O jornal diz estar monitorando ataques feitos à chargista. Um dos leitores e juízes que escreveram à ombudsman manifestou essa preocupação após uma primeira resposta. "Sendo uma infeliz coincidência, imagino que a cartunista Marilia possa também estar sofrendo com a repercussão do caso e eu não gostaria de agravar esse sentimento", afirmou ele, ao justificar por que preferia não ser publicamente identificado.

A cartunista Laerte, veterana da seção de charges, também se manifestou no X/ex-Twitter. "Me solidarizo com a Marilia Marz, cujo trabalho como chargista na Folha a defende por si só. A charge sobre penduricalhos coincidir com a morte de uma pessoa, infelizmente, faz parte das coisas que acontecem".

A coincidência foi turbinada também pelas redes sociais. Ao menos uma montagem foi usada para fazer crer que a Folha teria colocado as duas coisas numa mesma página ou ilustrado a morte da juíza com a charge. Mas, no jornal, eram publicações separadas –isso é apenas um fato, não uma desqualificação da crítica a respeito do momento da charge ou de uma leitura associativa. A morte da juíza foi noticiada pelo site na quinta (7) e numa nota da edição impressa da sexta (8), em Saúde. Na capa do sábado (9), dia em que foi publicada a charge, o que se destacava era outra coisa: "Ministros do STF ampliam restrição aos penduricalhos".

É possível entender a charge como uma demonstração de mau gosto diante do contexto maior e não comprar a justificativa do jornal ou da autora. O comentário gráfico e textual ("vidinha mais ou menos"), no entanto, não parece desconectado de manifestações folclóricas contra o fim dos "penduricalhos" —trabalho "em regime de escravidão", ganhar "menos que um sorveteiro" e ficar sem água nem café estão entre as queixas de magistrados que viralizaram recentemente. Não deixa de gerar alguma estranheza, da mesma forma, o timing de órgãos do Judiciário na comoção com a tragédia que motivou os questionamentos ao jornal.

Embora a morte da juíza Mariana tenha ocorrido na quarta (6), o presidente do Supremo Tribunal Federal, Edson Fachin, esperou até a tarde do sábado (9) para emitir uma nota de pesar em nome do tribunal e do Conselho Nacional de Justiça, e essa nota também servia para reprovar "certas reações", sem mencionar a charge ou a Folha.

Outros CNPJs se moveram de forma semelhante. O TRF3 (Tribunal Regional Federal da 3ª Região, SP e Mato Grosso do Sul) publicou em sua conta do Instagram, também no sábado, uma aparente condenação peremptória da chargista e do jornal, com expressões como "o mal está feito" e "não há retorno possível". "A sociedade já tomou ciência da perfídia cometida na página A2 do jornal Folha de S.Paulo", afirmava a nota do tribunal, que via "uso de uma charge patife para atingir a magistratura nacional valendo-se de uma tragédia que enlutou o conjunto de juízas e juízes de nossa terra".

Entre muitos questionamentos legítimos e alguns ataques oportunistas, não custa lembrar a existência de problemas já bastante concretos na Folha e na cobertura dos "penduricalhos", a começar desse apelido —esotérico para o leitor comum e inexato para quem se vê na mira dele.

"Em 'A Sociedade dos Chavões', Cláudio Tognolli já advertia para o abuso de expressões vazias de sentido, que apenas serviam para veicular ideias imprecisas nos meios jornalísticos. O autor dava alguns exemplos, como 'bate-boca', 'jogo de empurra' e outras expressões usadas por jornalistas por preguiça ou conveniência (...). Tognolli nos deixou há dois anos, mas se estivesse vivo certamente acrescentaria a seu glossário de chavões a expressão 'penduricalho'", observa o procurador Marcelo Dawalibi, do Ministério Público de SP. Para ele, o jornal joga "na vala comum verbas legítimas e devidas com outras que se fazem discutíveis", e esse tipo de conduta da Folha "autoriza a dúvida" em relação à charge.

"Meu impulso imediato [sobre a charge] foi cancelar a assinatura. Por sorte, porém, o aplicativo para cancelamento não estava disponível, o que me dá um pouco mais de tempo para refletir", diz ele, apontando esse outro problema prático do jornal.