sexta-feira, 4 de abril de 2025

Juiz de SP é denunciado por usar falso nome britânico durante 45 anos, FSP

 Tulio Kruse

São Paulo

Um juiz aposentado do Tribunal de Justiça de São Paulo, que exerceu a carreira por 23 anos, foi denunciado sob suspeita de falsidade ideológica e uso de documento falso. Segundo a acusação, a farsa de Edward Albert Lancelot Dodd-Canterbury Caterham Wickfield, que se apresentava como descendente de britânicos, durou mais de quatro décadas.

O Ministério Público estadual sustenta que o nome verdadeiro do magistrado é José Eduardo Franco dos Reis. Ele usava documentos com o nome falso desde 1980 e conseguiu se matricular no curso de direito do Largo São Francisco, da USP, e ser aprovado num concurso de juiz com essa identidade, com a qual viveu toda a carreira. Ele entrou na magistratura em 1995 e se aposentou em 2018.

Sua identidade original foi descoberta após ele comparecer a uma unidade do Poupatempo na Sé, no centro da capital, com a intenção de obter uma segunda via de seu RG com o sobrenome Wickfield. As impressões digitais, colhidas no Poupatempo e enviadas ao sistema de identificação automatizada estadual, mostraram o verdadeiro nome do juiz.

A reportagem não conseguiu contato com o magistrado. Em depoimento à polícia, Reis declarou que Edward Wickfield é seu irmão gêmeo, que teria sido doado a outra família durante a infância.

A imagem mostra a fachada do Palácio da Justiça, sede do TJ-SP, um edifício histórico com detalhes arquitetônicos elaborados. O topo da construção apresenta um ornamento central, enquanto as laterais possuem esculturas de figuras humanas. As janelas são retangulares e estão dispostas em várias fileiras, com um estilo clássico e simétrico. O céu ao fundo está levemente nublado.
Fachada do prédio do Palácio da Justiça de São Paulo, sede do Tribunal de Justiça de São Paulo - Eduardo Knapp - 14.out.19/Folhapress

De acordo com a denúncia, em julho de 1973 Reis recebeu sua primeira cédula de identidade em Águas da Prata, no interior paulista. Para isso, apresentou sua certidão de nascimento original e se identificou como filho de Vitalina Franco dos Reis e José dos Reis —segundo a Promotoria, sua filiação verdadeira.

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Sete anos depois, em 1980, apresentou-se ao Instituto de Identificação estadual como filho de Richard Lancelot Dodd Cantebury Caterham Wickfield e Anne Marie Dubois Vincent Wickfield. Para isso levou cópias de um certificado de dispensa do Exército Brasileiro, um título de eleitor, uma carteira de trabalho uma carteira de servidor do Ministério Público do Trabalho.

"Tais documentos, à época, não contavam com quaisquer dispositivos gráficos ou materiais de segurança, sendo facilmente falsificáveis", argumenta a Promotoria. A acusação diz ainda que não havia instrumentos capazes de comparar impressões digitais.

A Promotoria diz, ainda, que o magistrado manteve as duas identidades, usando-as com finalidades diferentes ao longo de décadas. A investigação identificou que ele obteve segunda via de sua identidade original, com o sobrenome Reis, em 1993. Apresentava-se como vendedor e declarava ter apenas o primeiro grau de instrução formal —embora, àquela altura, já estivesse formado em direito com o sobrenome Wickfield.

Em 1995, quando havia acabado de ser aprovado no concurso para juiz, a Folha o entrevistou para uma reportagem que retratava a nova geração de magistrados. Ele se apresentou como um descendente de nobres britânicos nascido no Brasil.

Afirmou que havia morado até os 25 anos na Inglaterra, onde estudara matemática e física, até voltar a São Paulo e decidiu estudar na USP. A reportagem também registrou, à época, a alegação de que seu avô teria sido juiz no Reino Unido. Reis repetiu essa alegação ao longo das décadas, segundo um profissional de direito que falou com a reportagem nesta quinta-feira (3).

O promotor Maurício Salvadori, da 116ª Promotoria de Justiça Criminal da Capital, afirma que o magistrado cometeu os crimes em ao menos três ocasiões: num prontuário de biometria do Detran (Departamento Estadual de Trânsito), no Renavam (Registro Nacional de Veículos Automotores) e em sua carteira de identidade.

No depoimento à Polícia Civil em que citou o suposto gêmeo, em dezembro do ano passado, Reis afirmou que só conheceu o irmão na década de 1980, após a morte de seu pai. Segundo ele, Wickfield era professor e retornou à Inglaterra após a aposentadoria. Reis forneceu à polícia um endereço no bairro de West Kensington, em Londres, e um número de telefone para contato.

Apresentando-se à autoridade como artesão, Reis alegou que foi ao Poupatempo da Sé para renovar o RG a pedido do suposto irmão gêmeo. Declarou também que não tem outros irmãos. Ele foi questionado sobre duas mulheres que têm o mesmo sobrenome, mas respondeu que não as conhecia.

Procurado, o TJSP afirmou que "o Poder Judiciário não pode se pronunciar a respeito de efeitos de eventual condenação, que ainda não ocorreu" e que "não há, ao menos por ora, que se falar em atuação Administrativa do TJSP a respeito dos fatos", uma vez que se trata de um magistrado aposentado. Registrou, ainda, que o caso tramita em segredo de Justiça.

jornalismo Depoimento: 30 anos depois, um repórter descobre que foi ludibriado, FSP

 André Fontenelle

Jornalista brasileiro baseado em Paris. Formado pela UFRJ e pela Universidade de Aix-Marselha (França), com mestrado na UnB. Além da Folha, trabalhou em O Globo, Lance, Placar, Viagem & Turismo, Veja, Época e SporTV.

Paris

Quase 30 anos depois de ter cometido nesta Folha um esquecível texto jornalístico sobre os aprovados em um concurso para a magistratura em São Paulo, fui procurado por diversas pessoas porque, consta, haveria dúvidas sobre a verdadeira identidade com que um dos entrevistados se apresentava.

Não tenho a menor recordação da apuração desse texto específico. Relendo-o hoje, só extraio uma lição a mais sobre a fragilidade do ofício de jornalista, e a que ponto estamos sempre suscetíveis a empulhações.

Produção de fotos genéricas. Justiça. Martelo Juiz
Gabriel Cabral/Folhapress

Pupilo de mestres da profissão, como Nilson Lage (1936-2021) e Ana Arruda Callado, e forjado nessa verdadeira escola de jornalismo que é a Folha, aprendi que o bom repórter deve checar linha por linha as informações de seu texto.

Toda checagem, infelizmente, esbarra em algum grau de razoabilidade. Uma busca nos cartórios pela certidão de cada entrevistado demandaria tempo e esforço incompatíveis com o processo industrial de produção jornalística. Resta a sensação incômoda de ter sido ludibriado, ainda que em um patamar inferior na Escala Grávida de Taubaté.

No final de 1995 a Folha havia criado uma editoria de "especiais do dia", chefiada por Suzana Singer, sob a lógica de que as matérias factuais, em geral as do caderno Cotidiano, precisavam de um molho a mais. Chegava-se à Redação no início da tarde, e às 20h era preciso ter entregado algo diferente. É provável que esse texto obedecesse a essa diretriz.

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Mesmo sem lembrança exata, dá para deduzir o brilhante método de apuração do repórter. A internet, que na época se grafava com i maiúsculo, engatinhava. Nem o UOL existia. Havia um único terminal na Folha com acesso discado, via Embratel. Devo ter procurado os nomes dos aprovados em uma espécie de motor de busca analógico, muito difundido no século 20, chamado "lista telefônica". Isso deve ter me conduzido naturalmente aos sobrenomes mais exóticos, de localização mais fácil, contribuindo para chegar ao nome do cidadão agora em questão.

"Você poderia ter desconfiado desse nome", comentou um ente querido. Sim, talvez, mas repórteres entrevistam com certa frequência pessoas com nomes exóticos.

Na verdade, o que mais lamento, ao reler o texto, é o uso do termo "mulato" na última frase. O mal do jornalista veterano é ver alguns de seus textos envelhecerem muito mal. Às vezes pelos motivos mais surpreendentes.

Alvaro Costa e Silva - O incrível da fusão de 1975 é o Rio não ter acabado de vez, FSP

 Em 15 de março, dia em que a fusão dos antigos estados da Guanabara e do Rio de Janeiro completou 50 anos, o cientista político Christian Lynch publicou na Folha um artigo apontando o desastre que representou e representa a medida arbitrária do regime militar. "Ela criou um estado artificial, verdadeira dependência do governo federal, sem qualquer coesão política entre capital e interior, que não só nunca emparelhou com São Paulo, mas cuja história de meio século é de ininterrupta decadência e colapso governativo", definiu Lynch.

Reportagem em O Globo confirmou com exemplos vivos o que significa o colapso da autoridade —que primeiro foi imposto e depois endossado por cariocas e fluminenses por meio do voto. Bastou convidar seis ex-governadores e o atual titular do cargo para analisar a fusão. Diante da turma de incompetentes e corruptos —Cláudio Castro, Wilson Witzel, Luiz Fernando Pezão, Sérgio Cabral, Anthony Garotinho e Rosinha Garotinho, Moreira Franco—, a pergunta é como o Rio de Janeiro não acabou de vez.

Na galeria de governadores do período, ainda tivemos Faria Lima, interventor dos militares; Chagas Freitas, eleito bionicamente e construtor do esquema de clientelismo que vigora até hoje; Leonel Brizola e Marcello Alencar depois da democratização, além de dois vices que assumiram o Palácio Guanabara: Nilo Batista e Benedita da Silva. É pouco ou quer mais?

Os entrevistados elegem um culpado: o general Ernesto Geisel, que, com a fusão, neutralizou na Guanabara a força do MDB, único partido de oposição à época. Têm razão, mas não explicam dois problemas crônicos que atingem a população: a segurança pública e o déficit fiscal (R$ 2,4 bilhões no fim de 2024).

Com reduto eleitoral em Campos, o casal Garotinho dá o mapa da mina desativada: "Os moradores da Baixada e do outro lado da baía sempre votam e pensam diferente dos cariocas". Nas eleições do ano passado, Eduardo Paes bateu fácil o candidato bolsonarista na capital, enquanto o PL fez 22 prefeitos em cidades importantes.