quarta-feira, 10 de fevereiro de 2021

Exemplo do Pacaembu une atletas contra concessão do Ibirapuera, FSP

 

SÃO PAULO

Ainda que seja cada vez mais comum a presença de atletas concorrendo em eleições ou transitando pelos corredores das casas legislativas do Brasil, não é corriqueira uma audiência pública repleta de judocas, saltadores e corredores, alguns deles medalhistas olímpicos.

Foi o que aconteceu em junho de 2019, numa audiência convocada pelo deputado estadual Carlos Giannazi (PSOL) na Alesp (Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo) para debater o futuro do Complexo do Ibirapuera, quando o governo João Doria (PSDB) já planejava a concessão do local.

Desde então, nomes como Maurren Maggi, André Domingos, Hortência, Henrique Guimarães e Diego Hypólito, entre outros, foram a público para tentar evitar que o local caminhe na mesma direção de outro dos mais importantes pontos do esporte paulista, o Pacaembu.

“Foi uma perda muito grande [a concessão do Pacaembu], mas talvez porque não tivemos atletas com voz ativa envolvidos. No caso do Ibirapuera, mexeu com o esporte olímpico, esportes que ganham medalhas treinando dentro do complexo”, afirma Maurren, ouro na Olimpíada de Pequim-2008 e que por anos viveu no local.

“A gente vê uma mobilização de atletas olímpicos em prol da não concessão do complexo, coisa que a gente não viu no Pacaembu. Foram poucos jogadores falando, não algo uníssono como tem no Ibirapuera”, concorda Sergio Livovschi, da associação de moradores Viva Pacaembu.

Ele enfatiza que não é contra a concessão do estádio em si, mas sim que ela acabe com uma de suas finalidades: a prática esportiva pública.

A piscina do Pacaembu e o estádio, ao fundo. O tobogã é a arquibancada mais próxima à parte aquática do local
A piscina do Pacaembu e o estádio, ao fundo. O tobogã é a arquibancada mais próxima à parte aquática do local - Gabriel Cabral - 22.jan.2019/Folhapress

O Pacaembu foi concedido pela prefeitura à empresa Allegra por 35 anos. O projeto prevê a construção de cadeiras em todas as arquibancadas, estacionamento, restaurante, lojas e um prédio comercial. De acordo com a Allegra, o clube municipal localizado atrás do estádio seguirá aberto aos moradores da cidade.

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Para parte dessas mudanças acontecerem, o tobogã, que não faz parte do projeto original, terá que ser demolido. A Justiça, porém, entendeu em janeiro que a arquibancada não pode ser destruída, pois isso iria contra o tombamento aprovado do estádio. A decisão liminar é tida como uma vitória dos que discordam do projeto, porque pode prejudicar os planos da vencedora da concessão.

É justamente pelo tombamento que o movimento contra a concessão do Complexo do Ibirapuera atua. Há algumas possibilidades para tal: no Conpresp, no Condephaat e no Iphan, os órgãos que cuidam do patrimônio histórico na cidade de São Paulo, no estado e no Brasil, respectivamente.

Há processos em andamento nas entidades municipal e nacional. A estadual negou um pedido de tombamento, o que atendeu à vontade do governador João Doria, propositor da concessão.

Apesar de não impedir a concessão em si, o tombamento pode afetar projetos da iniciativa privada, por exemplo de demolição da pista de corrida e das piscinas, ou ainda de transformar o Ginásio do Ibirapuera em shopping.

"[Os atletas] procuram esses politicos alegando que o equipamento precisa ser tombado porque é um patrimônio histórico e cultural, mas na verdade é só sentimentalistmo", afirma Aildo Rodrigues, secretário de Esporte do estado.

Ele diz que o governo concluirá uma parceria com a Prefeitura de São Bernardo do Campo para realocar os atletas de alto rendimento do Ibirapuera e acrescenta que o estado abriu 20 centros de formação no último ano e promete mais 80 para 2021.

Um dos argumentos dos atletas é de que a importância do complexo como berço esportivo está justamente na reunião de modalidades variadas, algo que não acontece com o Pacaembu, por exemplo.

“Eu reconheço que essa destinação o Pacaembu nunca teve, de alto rendimento olímpico. Muitos atletas fizeram carreira treinando no Ibirapuera. E muitos de origem humilde que talvez não teriam conseguido praticar se lá não funcionasse de forma publica”, afirma Sergio Livovschi.

“A concessão não ameaça apenas o Centro de Excelência, mas sim todo um aparato esportivo formado por ginásios, pista de atletismo, parque aquático, arena de judô, quadras de tênis e salas multiesportivas que deveriam fazer parte de uma política que atendesse a projetos de inclusão, descoberta de novos talentos e estrutura adequada para atletas de alto rendimento", argumenta Aurelio Miguel, judoca ganhador de duas medalhas olímpicas e ex-vereador pelo PL na capital paulista.

"Extrapola a discussão sobre perdas e ganhos financeiros ao estado; escancara a falta de prioridade com que o esporte é tratado nas esferas de poder”, completa.

A pista de atletismo, o campo de futebol, o ginásio e as piscinas e outras quadras do Complexo do Ibirapuera, em foto aérea
O complexo esportivo do Ibirapuera, que tem pista de atletismo, campo de futebol, o ginásio, as piscinas e outras quadras - Gabriel Cabral - 22.out.2019/Folhapress

Os esportistas entendem que não há outro espaço capaz de abraçar tamanha gama de modalidades. Na opinião deles, separar as diferentes práticas em outros lugares traria prejuízos à formação.

“Sempre fui muito eclético na aprendizagem. Participava de treinamento do judô, ginástica, vôlei. Peguei conhecimento e ganhei experiência para ser treinador. Eu mudei de vida a partir do momento que entrei lá. Quis terminar os estudos. Tivemos acompanhamento médico, odontológico, psicológico, tudo isso de graça. A maioria dos atletas foi ter contato com médico pela primeira vez ali. É imensurável", aponta Jadel Gregório, ex-atleta do salto triplo.

Os esportistas entendem que hoje a estrutura está sucateada e que as condições já foram muito melhores, mas atribuem a situação atual à falta de investimento do próprio governo do estado. No caso do atletismo, argumentam que, mesmo com os problemas estruturais, não há em São Paulo qualquer pista comparável à do Ibirapuera capaz de atender à demanda de treinos.

Bolha de ar na pista de atletismo do Ibirapuera
Em 2019, a pista de atletismo do Ibirapuera apresentava uma série de problemas no solo - Gabriel Cabral - 22.out.2019/Folhapress

Aildo Rodrigues diz que há uma confusão entre sucateamento e uma estrutura obsoleta, e que a iniciativa privada modernizará o local. Questionado sobre a possibilidade de o próprio estado assumir a sua modernização, ele sustenta que uma reforma no complexo seria mais cara do que fazer um novo.

Em meio a pressões, o edital de concessão foi suspenso pela Justiça antes mesmo de ser aberto, numa decisão que se mantém em pé desde dezembro do ano passado. "A gente está tocando a instrução do processo normalmente, apesar de existir essa liminar que impede a publicação do edital. Mas confiamos na Justiça e sabemos que é algo provisório", afirma Rodrigues.

“Acho que a gente só chegou aonde chegou por conta deles [atletas]. Nas audiências públicas, foram responsáveis por aprofundar o debate sobre o que estava acontecendo, e a representação que enviamos ao Ministério Público foi feita com informações que eles passaram para a nossa equipe”, relata Carlos Giannazi.

Além das redes sociais e das audiências, alguns atletas têm atuado de outras formas. Aurélio Miguel, por exemplo, enviou pedido de tombamento ao Iphan. Maurren Maggi e André Domingos têm conversado diretamente com a Secretaria Especial do Esporte do governo Jair Bolsonaro.

O complexo também tem o apoio de arquitetos, urbanistas e historiadores, por sua importância arquitetônica e social. A rede variada de defensores da não concessão do local põe lado a lado figuras com posições políticas opostas.

"É uma pauta suprapartidária, com a união de vários setores, partidos e até pessoas que são a favor da privatização [de uma forma geral], mas que acham demais privatizar o complexo”, afirma o deputado do PSOL.

Recentemente, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) também entrou na disputa contra seu rival João Doria. Ele disse a atletas que tentará viabilizar o tombamento no Iphan.

É um desfecho que Giannazi gostaria de ver, embora observe oportunismo no movimento do presidente. Aildo Rodrigues defende que a União não pode interferir em um equipamento do estado.

Por vezes, as diferenças políticas entre apoiadores da mesma causa também provocaram desentendimentos. Por exemplo quando, durante um ato em defesa do Ibirapuera, bandeiras do PDT e do PT causaram uma pequena confusão entre os manifestantes.

Jadel Gregório chegou a integrar a Secretaria de Esportes do Estado de São Paulo em 2016 e diz que ser contrário ao projeto de concessão influenciou na sua exoneração.

Ele comemora a mobilização dos atletas, mas faz um apelo para que antigas práticas não se repitam: “Só vai ser importante ganhar essa causa se as instalações estiverem abertas para todos, não apenas para um treinador e seu grupo”.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2021

Cristina Serra A praga do jornalismo lava-jatista, FSP

 

Quando começou, em 2014, a Lava Jato gerou justificadas expectativas de combate à corrupção. Revelou-se, no entanto, um projeto de poder e desmoralizou-se em meio aos abusos e ilegalidades cometidas por Moro, Dallagnol e a força-tarefa.

Além de afrontar o ordenamento jurídico e ajudar a corroer a democracia, a Lava Jato também corrompeu e degradou amplos setores do jornalismo; em alguns casos, com a ajuda dos próprios jornalistas, como a Vaza Jato já havia mostrado e agora é confirmado nas conversas liberadas pelo ministro do STF, Ricardo Lewandowski.

O ministro Ricardo Lewandowski - Rosinei Coutinho/SCO/STF

Relações promíscuas entre imprensa e poder não são novidade. No caso da operação, contudo, as conversas mostram que repórteres na linha de frente da apuração engajaram-se no esquema lava-jatista e atuaram como porta-vozes da força-tarefa, acumpliciados com o espetáculo policialesco-midiático.

Jay Rosen, professor de jornalismo da Universidade de Nova York, cunhou o termo "jornalismo de acesso" para definir como jornalistas sacrificam sua independência e abandonam o senso crítico em troca do acesso a fontes, que passam a ser tratadas com simpatia e benevolência. A Lava Jato é um caso extremo de "jornalismo de acesso", no qual repórteres aceitaram muitas convicções sem as provas correspondentes.

Colaboraram com o mecanismo de delações e vazamentos seletivos, renunciaram à obrigação ética de fazer suas próprias investigações e fecharam os olhos para os métodos da força-tarefa. Nas empresas, tiveram retaguarda. O jornalismo corporativo participou abertamente do projeto lava-jatista.

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Em março de 2016, por exemplo, Moro vazou o conteúdo do grampo que captou ilegalmente conversas entre a então presidente Dilma Rousseff e o ex-presidente Lula. O grampo, que sabidamente atendia a interesses político-partidários, foi reproduzido por muitos veículos sem a necessária crítica quanto a isso.

A relação pervertida entre poder e imprensa fere a dignidade da profissão. É uma praga a ser sempre evitada e combatida.

Cristina Serra

Cristina Serra é paraense, jornalista e escritora. É autora dos livros “Tragédia em Mariana - a história do maior desastre ambiental do Brasil” e “A Mata Atlântica e o Mico-Leão-Dourado - uma história de conservação”.


Samuel Pessôa Reavaliação sobre o Minha Casa, FSP

 Na coluna de 22 de agosto de 2020, escrevi que o programa MCMV (Minha Casa Minha Vida) tinha desperdiçado muitas unidades. O motivo é que o enorme esforço de entrega de novas unidades habitacionais pouco contribuiu para reduzir o déficit habitacional.

Minha colega recém-contratada pelo Ibre Laísa Rachter, em sua tese de doutoramento orientada por Cecilia Machado, que ocupa este espaço quinzenalmente às terças, mostrou que o programa teve impactos positivos sobre as famílias que adquiriram as casas. É necessário proceder a uma reavaliação do ponto de vista que defendi na coluna anterior.

Laísa usou características da implantação do programa que permitiram a identificação de relação de causa e efeito entre o acesso à casa própria e melhoras de bem-estar.

Um sorteio decidia o acesso ao MCMV para baixa renda. Algumas pessoas tinham acesso e outras não. Assim, há um experimento, como, por exemplo, o que ocorre com os testes das vacinas: parte da população recebe a vacina e parte o placebo, e as duas populações têm as mesmas características. Qualquer diferença que surge é causada pela vacina.

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Vista aérea de casas padronizadas do programa Minha Casa Minha Vida, no bairro Vida Nova Manacá II, no distrito de Padre Nóbrega, na periferia de Marília, região centro-oeste do estado São Paulo - Alf Ribeiro - 22.abr.19/Folhapress

Laísa mostrou, com dados para o Rio, que no grupo sorteado o acesso à casa própria elevou a renda líquida da família: a redução do gasto com aluguel mais do que compensou o aumento do gasto com transporte —os conjuntos do MCMV ficam mais afastados— e com as contas de água e luz. Não se observou queda da jornada de trabalho pela maior distância do local de trabalho.

Em outro capítulo, Laísa usou do fato de o programa priorizar cidades acima de 50 mil habitantes. Cidades com um pouco menos do que 50 mil habitantes, em tudo iguais às de 50 mil habitantes, receberam muito menos unidades do programa. Entre 2011 e 2017 as cidades com 50 mil habitantes receberam, em média, 300 a 350 unidades habitacionais a mais do que cidades com 49,9 mil habitantes.

Foi possível observar que, em razão dessas unidades a mais, houve elevação do peso das crianças ao nascer de 12 a 16 gramas, em comparação às cidades com pouco menos de 50 mil habitantes.

Também ocorreu redução da mortalidade infantil em um por mil nascimentos nas cidades com 50 mil habitantes em comparação às cidades ligeiramente menores. A redução da mortalidade infantil foi observada somente no primeiro ano de vida e em doenças associadas às primeiras três semanas de vida, chamada de mortalidade perinatal, sugerindo que o canal é a melhora de saneamento básico.

A melhora da saúde no início da vida tem impactos permanentes sobre a aprendizagem e o desempenho no mercado de trabalho. Assim, é possível que os ganhos de longo prazo justifiquem os custos para o Tesouro com subsídios às unidades habitacionais.

Dessa reavaliação duas questões se apresentam. Primeiro, como conciliar essa análise microeconômica com o resultado de que o programa como um todo não concorreu para reduzir o déficit habitacional? É possível que haja problemas de mensuração na série da fundação João Pinheiro.

Ou ainda é possível —me parece uma hipótese mais plausível— que a maior oferta de habitações eleve a demanda. Por exemplo, pode haver antecipação na constituição de novas famílias. Afinal, quem casa quer casa. Se há mais casas, vamos casar! Tema para pesquisa.

A segunda questão é: se há impacto tão importante sobre o bem-estar e, provavelmente, o programa é rentável, por que ele foi pesadamente reduzido?

O programa é rentável para a sociedade. Não gera renda imediata para o Tesouro Nacional. Assim, se o Tesouro estiver muito endividado, com pressão inflacionária e/ou juros elevados, a política pública será desfeita mesmo se for de boa qualidade.

Como diz o ex-governador Paulo Hartung, o primeiro passo para cuidar as pessoas é cuidar das contas públicas.

Samuel Pessôa

Pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia (FGV) e da Julius Baer Family Office (JBFO). É doutor em economia pela USP.