segunda-feira, 8 de fevereiro de 2021

Doria aposta em obras de R$ 3,5 bi para revitalizar região do rio Pinheiros como vitrine para 2022, FSP

 Artur Rodrigues

SÃO PAULO

O rio Pinheiros (zona oeste de SP) sofreu sucessivas intervenções e agressões ao longo do século passado. Foi retificado e teve as margens tomadas por pistas para automóveis. Suas águas tiveram o sentido invertido e viraram esgoto a céu aberto.

A possibilidade de transformar um ambiente hostil em um cartão postal próximo do coração financeiro da cidade de São Paulo é uma das principais apostas de João Doria (PSDB) como marca de governo até 2022.

Até lá, quando pretende concorrer à Presidência da República, o governador quer revitalizar toda a região do rio Pinheiros, com obras que superam os R$ 3,5 bilhões. Isso inclui a tentativa de sucesso onde gestões tucanas sucessivamente falharam: concluir a despoluição do rio.

A região é uma fixação de Doria desde quando ele era prefeito. Ainda em 2017, ele anunciou o muro de vidro da USP —projeto problemático, que, em vez de melhorar, trincou a imagem do tucano.

Doria, porém, manteve o foco na região após ser eleito governador em 2018.

O projeto batizado de Novo Rio Pinheiros inclui um parque linear, ciclovias reformadas e uma área inspirada em Puerto Madero, bairro de Buenos Aires qu se tornou badalado e visitado após a revitalização. Tudo ao longo de um eixo que, mesmo cortado por um rio sujo, é um dos mais valorizados da cidade.

A aposta para viabilizar os projetos passa pelo uso de concessões à iniciativa privada, a última delas assinada neste mês, para a criação de um parque. O consórcio responsável investirá R$ 30 milhões para construir o espaço.

Com obras iniciadas neste mês, a previsão é que o primeiro trecho, de 8,2 km na margem oeste, fique pronto até fevereiro do ano que vem. O local terá praça de alimentação, ciclovia e passarelas (uma delas flutuante, ligando as margens do rio).

Outra parte do projeto urbanístico depende da ação da iniciativa privada. No ano passado, o governo concedeu a Usina São Paulo, antiga Usina Traição, onde pretende criar a versão paulistana de Puerto Madero.

A usina foi inaugurada em 1940, com objetivo de aumentar a capacidade de geração de energia elétrica. Também foi responsável pela inversão do fluxo do rio.

O consórcio escolhido para implementar a remodelação do espaço de 29.804 m² terá de gastar R$ 300 milhões em melhorias. A ideia é erguer ali prédios de escritórios, espaços para cafés, bares, restaurantes, lojas, academia e museu.

A maior atração deve ser um cinema ao ar livre, o maior do gênero na América Latina.

O sucesso de todo projeto, porém, passa por concretizar a missão mais difícil: a despoluição do rio Pinheiros até o 2022.

A cargo da tarefa, o secretário de Infraestutura e Meio Ambiente, Marcos Penido, diz que a escolha pelo rio Pinheiros se deu pela possibilidade de realizar um projeto até o fim. O rio Tietê tem mais de 1.100 km, enquanto o Pinheiros tem apenas 25 km.

“O Pinheiros é factível, traz o conceito da utilização das margens e é um projeto com começo, meio e fim, que servirá de modelo a ser replicado”, diz Penido.

Segundo ele, a localização privilegiada, que corta o coração econômico da cidade, também ajuda a atrair dinheiro privado. “A questão de onde ele está faz com que seja viável implantação das parcerias”, diz.

Penido nega, porém, que projeto se restrinja a bairros ricos da cidade. Debaixo da superfície está o tratamento do esgoto despejado por 1,6 milhão de pessoas no Pinheiros e em seus afluentes, o que inclui bairros periféricos e favelas.

A parte mais espinhosa está nas comunidades irregulares, onde, por lei, não é possível fazer a ligação de esgoto sem a regularização fundiária.

“A solução foi criar são mini estações de tratamento que ficam abaixo das comunidades”, diz Penido, acrescentando que também é feito um trabalho de educação ambiental e limpeza nos locais, com colocação de caçambas para evitar que os resíduos vão parar em corregos e, por fim, no Pinheiros.

A água em alguns locais, como o córrego Zavuvus, já está mais cristalina. “Uma senhora falou para nós: pela primeira vez estou sentindo o cheiro da comida que estou fazendo”, relata o secretário.

O objetivo da gestão é tratar 94% da bacia do Pinheiros. Até o momento, chegou a 28%, além do desassoreamento e da retirada de milhares de toneladas de detritos. O grande diferencial, no qual se apoia o governo para terminar as obras é o fato de as empresas privadas que fazem o trabalho receberem por produtividade, contabilizando o metro cúbico de esgoto coletado.

“O Pinheiros final não será para nadar nem para beber água. Será, como Tâmisa e o Sena, um rio urbano, tem ônus e bônus de estar dentro de uma metrópole."

O presidente executivo do Instituto Trata Brasil, Édison Carlos, afirma estar otimista com o projeto, mas vê dificuldades no prazo estipulado pelo governador.

“É um desafio que significa chegar com coleta de tratamento de esgoto aonde nunca se chegou. A cidade é um organismo vivo, áreas [irregulares] nascem do nada. Quando se pensa que resolveu o problema, tem mais 50 moradias onde antes não existiam, que começam a gerar esgoto imediatamente”, diz.

Carlos afirma que exemplos de outras cidades mostram que é possível. “É importante a gente dizer que todo lugar do mundo já teve rio poluído como o Tietê e o Pinheiros, mas há muitas décadas perceberam que não dava para ter um rio poluído no meio da cidade. A diferença está no tempo.”

Durante o processo de limpeza do rio, já foram retiradas mais de 18 mil toneladas de lixo com barcos, redes e boias. Os objetos encontrados vão de garrafas pet a bicicletas.

Mesmo sem o rio limpo, parte das melhorias feitas até aqui já tem atraído ciclistas para a pista ao longo da marginal —segundo o governo, o público mensal na ciclovia passou de 23 mil para 80 mil.

Em dezembro, foi entregue um trecho reformado da ciclovia, com recapeamento, sinalizações de pontos, guaritas, áreas de café, banheiros e segurança permanente. O espaço também tem vending machines, vestiários com chuveiros, acessibilidade e um novo paisagismo.

Pelotões de ciclistas madrugam na via para bikes em treinos de velocidade. Aos finais de semana e ao longo do dia, o público se torna mais amador, que pedala por lazer.

Se o resto das melhorias tiver o mesmo êxito, Doria terá uma vitrine para chamar de sua na capital em que sua rejeição decolou após abandonar a prefeitura e seus projetos prometidos para concorrer ao governo.

Caso contrário, a promessa descumprida pode provocar mais rachaduras à imagem do tucano, a exemplo do muro de vidro da USP.

As placas de vidro constantemente quebradas, na ação da prefeitura com a iniciativa privada, viraram um problema para a universidade, bem visível e no caminho diário de milhares de motoristas paulistanos.

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Fabricante de iate de luxo planeja transferir produção ao Brasil, FSP

 A fabricante italiana de iates de luxo Azimut planeja transferir a produção de sua linha mais compacta de barcos para o Brasil neste ano. As embarcações, que têm cerca da metade do tamanho dos maiores iates da empresa, são feitas atualmente na Itália. Os modelos menores são exportados para mais de 70 países e costumam ser demandados por pessoas que compram um barco pela primeira vez.

A empresa afirma que a procura pelos barcos de luxo aumentou no Brasil durante a pandemia. Com a fabricação nacional da linha, a Azimut espera dobrar a produção de iates no estaleiro de Itajaí (SC) nos próximos três anos e aumentar em 50% o número de empregos no local, que hoje tem cerca de 400 funcionários.

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com Filipe Oliveira e Mariana Grazini


Mathias Alencastro- O fim da Vale na África, FSP

Tinha tudo para ser uma empreitada transatlântica triunfal. Reforçada pela aquisição da Incro no Canadá em 2006, uma das maiores operações Sul-Norte, a Vale pretendia ligar o Brasil à China por uma cadeia de produção de minérios no continente africano.

No auge do superciclo de commodities, a empresa podia se apoiar na aliança entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e seu CEO, Roger Agnelli, duas figuras de trajetórias distintas que acreditavam no destino global do Brasil.

O projeto conheceu o seu epílogo nos últimos dois meses, com a saída da empresa brasileira do negócio de carvão em Moçambique e o desenlace do processo de Beny Steinmetz, um parceiro-chave da Vale na Guiné.

A Vale fracassou de formas diferentes nos dois países. A entrada em operação da mina moçambicana de carvão de Moatize, em 2011, era a realização de um sonho antigo que remontava aos tempos pré-privatização. Em clima de euforia, a Vale desembarcara em Maputo com a promessa de catapultar o PIB do país africano. Mas os ventos mudaram rapidamente de direção.

Logo da mineradora Vale em Brumadinho, Minas Gerais
Logo da mineradora Vale - Adriano Machado/Reuters

Armando Guebuza, poderoso presidente e fiel aliado dos brasileiros, envolveu-se em um escândalo de ocultação de dívidas ao FMI e foi obrigado a sair de cena quando Felipe Nyusi o sucedeu em 2014.

Exasperado com os inúmeros conflitos sociais provocados pela Vale e por outras operações patrocinadas pelo Brasil, como o desastroso ProSavana, a elite política local virou seus olhares para Cabo Delgado e as suas espantosas jazidas de gás natural.

Em plena transição na geopolítica da energia, a indústria de carvão virou exemplo de má governança dos recursos naturais. A saída da Vale, pouco depois da sua condenação a pagar cerca de R$ 1 milhão a camponeses moçambicanos, é um alívio para as autoridades.

A situação na Guiné é mais caricata. Em 2010, para assegurar o controle das reservas de bauxita, umas das mais competitivas do continente, a Vale entrou num acordo extravagante com um notório corsário do extrativismo africano, Beny Steinmetz.

Seguiram-se anos de uma espera Becketiana enquanto o presidente Alpha Condé, mestre em instrumentalizar os atores geopolíticos, prometia tudo para finalmente não entregar nada.

Vale terminou correndo o mundo atrás do dinheiro levado por Steinmetz. Em janeiro deste ano, um tribunal suíço condenou o israelense a cinco anos de prisão e uma multa milionária. Mas o desgaste atingiu a reputação da empresa. Para os outros players do continente, a Vale ficou conhecida como a gigante que se deixou enrolar por mercenários e políticos experientes.

A trajetória da Vale deve ser colocada em perspetiva com a da Petrobras e da Odebrecht, outras empresas que estão fazendo as malas da África. Juntas, elas construíram o projeto brasileiro no continente entre 1974 e 2014.

Um ciclo encerrado melancolicamente, que ficará na história como o momento em que o Brasil pleiteou o lugar de potência, mas morreu nas margens do outro lado do Atlântico.

É certo que um dia o Brasil voltará para a África. A questão é saber se os seus conglomerados vão tentar de novo embarcar em aventuras.

Mathias Alencastro

Pesquisador do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento e doutor em ciência política pela Universidade de Oxford (Inglaterra).