O córrego do Sapateiro tem suas nascentes no bairro Vila Mariana, na zona sul de São Paulo, uma delas entre as ruas Lutfalla Salim Achoa e Rino Pieralini. Desce em direção ao parque Ibirapuera, onde forma os três lagos artificiais. Depois alcança a avenida Juscelino Kubitschek para desaguar no rio Pinheiros na altura da Vila Olímpia. Tem 6,6 km de extensão e é mais um córrego da cidade escondido pelo concreto.
Segundo mapeamento do Instituto Rios e Ruas, o município tem 800 rios, córregos e corpos d'água na sua área urbana, uma grande parte soterrada como o Sapateiro. Sempre para favorecer o transporte rodoviário, a cidade cresceu com ruas e avenidas construídas em cima dos rios, associados com enchentes, esgoto, mau cheiro e doenças. A primeira canalização em São Paulo foi a do córrego Anhangabaú, no começo do século 20.
Muitas pessoas ignoram ou desprezam os rios urbanos; são vistos apenas como algo sujo. Muitos moram em cima deles, mas não sabem de sua existência. Córregos que fizeram parte da cultura dos bairros e, inclusive, ajudaram a moldar seus perímetros correm hoje em obscuras galerias de águas pluviais.
"O que o Rio e Ruas faz é levar para a população o que foi sonegado, o que foi escondido", diz o arquiteto José Bueno, um dos idealizadores do Instituto, surgido em 2010. "Os rios são fios condutores da experiência, da reflexão e da conversa: são a plataforma para pensar a cidade. A gente poderia dividir em São Paulo em bairros hídricos, orientados pelas bacias hidrográficas."
Um dos objetivos do instituto é conseguir colocar sob a luz do sol pequenos trechos de rios da cidade e lembrar que eles existem. Um caso é o do Sapateiro, cuja nascente foi revitalizada. Há um estudo publicado pela Guajava Arquitetura nos cadernos de Drenagem da Secretaria de Infraestrutura Urbana e Obras que propõe a abertura de um trecho de cerca de 150 m do córrego na rua Astolfo de Araújo, na Vila Mariana. Na rua, há duas grades que permitem ver a galeria fluvial. Perto delas dá para sentir o péssimo odor.
"O que propomos não é abrir o córrego como originalmente ele era porque isso é impossível, mas podemos trazer de volta uma vazão mínima com sua própria água, que a gente pega mais a montante", afirma Riciane Pombo, diretora da Guajava, parceira do Rios e Ruas. "É um fio d'água que a gente traz para cima do asfalto." A iniciativa tem um efeito simbólico.
Outro trecho que pode ser aberto na bacia do Sapateiro fica no canteiro central em frente ao portão 10 do parque Ibirapuera e perto do Obelisco. É um pedaço de 50 metros de um afluente, o córrego Boa Vista.
Embora ainda não haja nada de concreto, as propostas de abertura de rios estão sendo mais bem acolhidas pelo governo municipal pelos seus efeitos positivos para a drenagem e a paisagem. Alguns rios que podem voltar à tona em algum trecho são o Saracura Mirim, afluente do Anhangabaú também canalizado no começo do século 20, e o das Corujas e o do Bexiga.
Para Bueno, é preciso gerar pequenos episódios para se aumentar a discussão sobre os rios paulistanos. "Não estou falando em botar o Itororó para correr na avenida 23 de Maio. Isso não vai rolar agora. O importante é mostrar quanto a São Paulo ganha com um rio aberto, saneado, uma área regenerada, um parque alagável ou um jardim de chuva", diz. "A gente está a passos lentos, mas é um caminho sem volta com a cidade mudando seu modelo de desenvolvimento e urbanização."
O Rio e Ruas começa neste mês um projeto de expedições aos rios ocultos da cidade bancado por uma emenda parlamentar do gabinete da vereadora Renata Falzoni (PSB) e aprovado pela Secretaria do Verde e do Meio Ambiente. Serão dez passeios, um por mês e aos fins de semana, incluindo Jardim Pantanal, Território do Jaraguá, Parque Guarapiranga e Bacia do Rio Saracura. O primeiro, dia 28 de fevereiro, será uma pedalada pela ciclovia do rio Pinheiros até o parque Jurubatuba. A participação é gratuita.




