quarta-feira, 28 de outubro de 2026

A fuga do amarelão - Ruy Castro _FSP

 Qual você prefere? Amarelão, covarde, medroso, pusilânime, frangote, maricas, desertor, foragido, poltrão, peidão, pipoqueiro, frouxo, trêmulo, borrão, arregão? Ou, numa palavra, cagão —digo, fujão? Se você for um dos meus fiéis leitores bolsonaristas ou um dos 59.826.041 eleitores que cravaram o número de Flávio Bolsonaro na urna neste domingo (25), a escolha é farta. Todas definem o caráter do homem que, não fosse por outros 64.256.232 brasileiros, poderia ser agora o presidente da República. Derrotado e sujeito a investigação e processo por uma quantidade de acusações —a escolha também é farta—, preferiu escafeder-se a enfrentar a Justiça. Onde está o machão que ele fingia ser?

Menos de 12 horas depois de produzir um vídeo em que bateu no peito e desmentiu a possibilidade de fugir do país —ao contrário, entregaria os passaportes e ficaria para liderar a oposição, retomar o Brasil e fazer e acontecer—, meteu-se na escuridão, tomou um avião na moita ou atravessou de cócoras a fronteira e foi se esconder sob a gravata vermelha de seu chefe, Donald Trump.

Como ficaram seus seguidores que assistiram ao vídeo e acreditaram nele? Como passaram a vê-lo depois desta? Se quiserem, aqui vão sugestões: falso, embusteiro, fingido, enganador, trapaceiro, mendaz, pérfido, perjuro, desleal, simulado, charlatão, cascateiro, impostor, xavequeiro, patureba, trambiqueiro. Ou, também, em uma palavra, mentiroso.

É uma atitude decepcionante para alguém que, assim como seus adeptos, fala grosso, faz arminha, ronca motocicletas e exibe braços musculosos sob as camisetas amarelas, mas é incapaz de enfrentar uma Justiça armada apenas com fatos, números e provas. A contrapô-los com seus próprios fatos, números e provas, escolheu vazar, escapar, ciscar, dar o pira, cair fora, dar no pé, picar a mula. Em resumo, fugir.

Ao abandonar seus eleitores —na verdade, traí-los—, Flávio Bolsonaro apenas repetiu o que levou toda a campanha fazendo: mentir para eles, iludi-los, ludibriá-los, fazê-los de otários.

Abstenção cai em 80% dos municípios, com queda maior nas grandes cidades, FSP

 

São Paulo, Rio de Janeiro e Monterrey (México)

No último domingo, 4.442 municípios registraram queda na abstenção em relação ao primeiro turno, o que significou um aumento de quase 3 milhões de eleitores que decidiram sair de casa para votar. Tanto Lula (PT) quanto Flávio Bolsonaro (PL) devem ter pego fatias desses votos, bem como de adversários e de brancos e nulos do primeiro turno.

Em todo o país, 79,7% dos municípios tiveram queda na abstenção no segundo turno. Das 102 cidades com mais de 200 mil eleitores, houve queda em 90%.

Nesse conjunto de grandes cidades, o petista cresceu, em média, 5,7 pontos percentuais. Já no total das cidades do Brasil com redução de abstenção, Flávio venceu na maioria, mas Lula ampliou sua participação em 4,3 pontos percentuais, em média, em relação à primeira rodada.

O presidente Lula (PT) durante a comemoração de sua vitória em São Paulo - Eduardo Knapp - 26.out.26/Folhapress

A campanha do petista se mobilizou para angariar eleitores ausentes. Entre os 10,4 milhões de votos que ele teve a mais em relação à primeira rodada, apenas uma parte vem da abstenção. Ainda que Lula tivesse alcançado todos os eleitores que decidiram votar só no segundo turno, o número seria inferior à vantagem final que abriu sobre Flávio, de 4,4 milhões.

No quadro geral do país, o petista ampliou a margem de votos ou diminuiu a desvantagem sobre o candidato do PL em 97% dos municípios, como mostrou a Folha.

Já Flávio Bolsonaro perdeu votos nominais em alguns locais em que o comparecimento de eleitores aumentou. Esse cenário é mais nítido na região Norte, onde estão 88% dos 25 municípios com maiores quedas de votos no candidato do PL entre aquelas que reduziram a abstenção. As outras cidades com baixas contundentes de votos em Flávio ficam no Sudeste (8%) e no Nordeste (4%).

No total de cidades onde a abstenção caiu, o candidato do PL obteve a maioria dos votos em 2.379, enquanto Lula atraiu novos eleitores em 2.250 delas. O petista recebeu a maioria dos votos em apenas 171, ou 3,85% do total de municípios que registraram queda nas ausências de eleitores.

Grandes cidades como Camaçari e Salvador, ambas na Bahia, tiveram queda de 4,82 e 4,37 pontos percentuais, respectivamente. A capital baiana registrou restrição à circulação de eleitores por falta de transporte e o TRE (Tribunal Regional Eleitoral) do estado chegou a decretar a prisão do secretário municipal de Transportes, Pablo Souza, no domingo (25), mas a ordem foi revogada.

A cidade de Tacuru (407 km de Campo Grande) teve a maior queda proporcional na abstenção. Lá, os eleitores ausentes passaram de 33,4% para 24,4% e a margem de vantagem de Lula se ampliou em 4,31 pontos percentuais.

Narandiba (605 km de São Paulo) registrou a segunda maior queda relativa na abstenção no país (de 19,87% para 11,73%), e Lula diminuiu sua diferença para Flávio em 5,88 pontos percentuais, mesmo com a vitória do filho de Jair Bolsonaro.

Lauro de Freitas (região metropolitana de Salvador) também teve problemas com transporte público. Mesmo assim, a ausência caiu de 22,9% para 17,3% (5,6 pontos percentuais), deixando a cidade no 24º lugar de queda de ausentes.

O aumento da abstenção foi mais percebido na região Norte. Itaubal (80 km de Macapá), por exemplo, aumentou a ausência de eleitores de 17,19% no primeiro turno para 41,01% no segundo. Cutias (106 km de Macapá) registrou movimento semelhante, com alta de 17,60% para 40,36%. Nos dois turnos, Lula venceu nestas cidades.

Entre os municípios com mais de 200 mil habitantes, Macapá, um dos locais em que Lula conseguiu a virada sobre Flávio, aumentou em 5,96 pontos percentuais o total de eleitores ausentes.

Abrigando cidades que tiveram forte aumento na abstenção e maior redução nos votos nominais para Flávio Bolsonaro, a região Norte teve um saldo final de 14,1 mil novos eleitores para o candidato do PL, com incremento de votos apenas no Pará e em Rondônia.

Mesmo assim, Lula venceu no Norte com uma diferença aproximada de 1.000 votos, macrorregião onde havia perdido no primeiro turno. O presidente conquistou 474 mil novos eleitores na região no último domingo –só no Pará, foram mais de 263 mil votos extras.

terça-feira, 27 de outubro de 2026

Flávio Bolsonaro deveria ter saído do Brasil espontaneamente, por patriotismo - Fabiano Lana, OESP

 Mal as urnas se fecharam, o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes mostrou suas garras. Determinou que o candidato derrotado nas eleições presidenciais, Flávio Bolsonaro, entregasse seus passaportes à Polícia Federal. Ao que tudo indica, o senador fugiu clandestinamente para os EUA, com passagem pela Argentina. Foi mais uma medida de cunho autoritário do magistrado, que deve acertar suas contas com o novo Senado no começo do próximo ano. Entretanto, melhor seria se Flávio tivesse abandonado o País por vontade própria. Para refletir o que seu movimento faz com o Brasil neste momento. Sufoca opções mais viáveis e permite a continuidade, mais uma vez, do Partido dos Trabalhadores no poder.

Nos Estados Unidos, Flávio e o irmão Eduardo Bolsonaro, autoexilado por lá, deveriam constatar que a radicalidade do bolsonarismo tem impedido que consigam vencer eleições majoritárias. Que não adianta atrair todo o antipetismo se não conseguem também ter ao seu lado setores moderados da sociedade. Os tais isentões, que tanto deploram.

Flávio Bolsonaro em discurso após derrota para Lula
Flávio Bolsonaro em discurso após derrota para Lula Foto: Wilton Junior/Estadão

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Flávio deveria pensar em por que sua imagem de “bolsonarista moderado” não deu certo. De que raios resolveu, durante o primeiro debate na Rede Bandeirantes, quando finalmente boa parte dos brasileiros iria conhecê-lo sem os filtros do marketing de campanha, comportar-se de maneira agressiva e moleque com um senhor de 80 anos (se Flávio fosse leitor de Guimarães Rosa, saberia que idade santifica, por mais que o sujeito tenha aprontado). De que sua biografia pregressa, com história de pedido de dinheiro ao banqueiro Daniel Vorcaro, acusações de “rachadinhas”, de ligações com milicianos, o deixariam bastante vulnerável.

Com as mãos no queixo, ao admirar uma praia na Flórida, ou alguma larga avenida em Austin, no Texas, Flávio poderia pensar por qual razão, no debate da Globo, chamou o contendor de “9 dedos”, para o espanto de muitos indecisos. Por que razão e a conselho de quem resolveu jogar fora a farsa de que se tratava de alguém prudente.

O irmão Eduardo, por sua vez, precisava entender por que, cada vez que abre a boca, recebe aplausos de seus admiradores ruidosos, mas faz perder votos valiosos de uma minoria que garantiria a vitória. Para que falar sandice como “faxina no Itamaraty”? Por que atacou, de maneira direta ou alusiva, gente do seu próprio grupo? Que, no fundo, ele, pelo repúdio que carrega, é ótimo para a continuidade do PT neste momento.

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Se puderem ligar para o patriarca Jair e para o outro irmão, Carlos, agora eleito senador, todos podem meditar um pouco no sentido de que a desconfiança com os que não são da própria família pode ter causado a ruína eleitoral deles. Que seria mais racional confiar em alguém mais centrado, com menos rejeição, e ter um aliado no poder. Dessa maneira, poderiam negociar a atenuação da pena do pai (sabem muito bem que o STF é uma casa política e aberta aos acordos). Preferiram a prepotência, a arrogância. Vale colocar a ex-primeira-dama Michelle na conversa para evitar dissabores.

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Política
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Nas terras do amigo Donald Trump, Flávio deveria pensar, em particular, no segundo turno dessas eleições. Enquanto escolhia o ministério, o adversário pisava fundo no acelerador dos gastos, das promessas impossíveis, no populismo irresponsável. Que a militância petista foi com tudo nas ruas para virar votos. Por que, afinal, os bolsonaristas deixaram perder o clima de indignação geral, que garantiu a vitória parcial no primeiro turno e uma bancada fortíssima no Congresso?

Todas essas especulações são vãs. Os Bolsonaros, assim como seu antípoda perfeito, o ministro Alexandre de Moraes, não são de recuar. Agirão para desestabilizar, não para construir alternativas. Certamente tentarão articular uma oposição destrutiva com o único objetivo de tentarem mais uma volta ao poder. Eles próprios, mais ninguém, porque não se trata de patriotas, mas de uma família que só pensa em si. Para perderem mais uma vez.