quarta-feira, 1 de julho de 2026

Rincon Sapiência lança disco sobre identidade e música negra, Billboard

 Rincon Sapiência lança nesta terça-feira (30) seu terceiro álbum de estúdio, um trabalho que coloca a vivência do corpo preto no centro da narrativa e aprofunda a pesquisa musical do artista. Com 17 faixas, o disco transita entre rap, música eletrônica, samba, dancehall, afrobeats, funk e reggae, reafirmando a proposta do rapper de expandir os limites do gênero sem abrir mão de suas raízes.

O principal lançamento audiovisual do projeto é o filme da faixa “Homem Gol”, com participações de Péricles e Marissol Mwaba. Dirigido por Juliana Jesus e produzido pela Monomito Filmes, o vídeo foi gravado na Zona Leste de São Paulo com a participação de moradores da região, incluindo elenco, equipes técnicas e times de futebol de várzea.

Segundo Rincon, o projeto nasceu a partir de uma revisão de sua própria trajetória artística. Ao revisitar composições recentes, o músico percebeu que o elemento central de suas histórias não eram os temas abordados, como festas, dinheiro ou relacionamentos, mas a perspectiva de um homem preto retinto que vive essas experiências.

“Ao enfatizar que são as histórias e vivências de um corpo preto, tudo ganha sabores, cores e discussões diferentes”, afirma o artista.

A proposta também se reflete na sonoridade. O álbum recupera influências presentes desde o início da carreira de Rincon e as combina com elementos contemporâneos da música eletrônica, além de referências ao samba, reggae, dancehall, afrobeats, funk e rap. O trabalho ainda propõe uma reflexão sobre a origem negra de muitos desses gêneros e sobre a presença de artistas negros nesses espaços.

Participações especiais

Além de Péricles e Marissol Mwaba, o disco também reúne participações de Dino Santiago, Lino Kriz, Funk Buia, Mylena Drague, Torya, F7rança e Bren9ve, conectando diferentes gerações e estilos musicais em torno de uma mesma proposta artística.

Rincon explica que o novo trabalho amplia a pesquisa iniciada em “Galanga Livre”, de 2017, e aprofundada em “Mundo Manicongo: Dramas, Danças e Afroreps”, de 2019.

“Trago sempre a influência do continente africano, a música mais antiga de lá, além de coisas de brasilidade. A partir do segundo disco, fui adicionando mais a tecnologia, com sintetizadores e autotune e, agora, quero mesclar as duas coisas”, diz. “É um álbum em que se evidencia a pesquisa sobre a obra de artistas que vieram antes da gente e abriram nossos caminhos, sobre o que está aqui e sobre o que ainda virá.”

Lançado de forma independente pelo selo MGoma, criado e dirigido pelo próprio artista, o álbum traz a proposta de Rincon Sapiência de unir criatividade, pesquisa musical e discussões sociais em uma obra concebida para ser apreciada do início ao fim.

“Com o disco, quero me posicionar como um grande artista, compositor e produtor musical, entendido como quem acessa muita pesquisa musical, criatividade e genialidade. Não vamos mais estar em pontos estigmatizados por ser uma pessoa de periferia, de trazer questões raciais e sociais. Estou num lugar ainda maior do que esse”, conclui.

R$ 2 bi em patrocínio, 8 bi de visualizações: Casimiro construiu isso indo ao trabalho ao meio-dia, Camila Farani, OESP

 Um dia de trabalho de Casimiro Miguel começa por volta do meio-dia. Antes de sair de casa, aula de inglês. De estômago vazio, ele atravessa o Rio de carro até Botafogo. E dá-lhe trânsito. Lá, almoça um joelho, aquele salgado de queijo com presunto que nós, cariocas, conhecemos bem, e umas bombas de chocolate. De moletom. Sem cerimônia. Senta em reuniões com o mesmo tom de papo de bar que usa nas lives.

Fernanda Torres, numa conversa com ele no ano passado, perguntou com genuína curiosidade como alguém consegue transformar atividades feitas no próprio quarto numa potência de mídia. É a pergunta certa. E a resposta não está no manual que o mercado de comunicação escreveu nos últimos 50 anos.

Casimiro não leu o manual do mercado, e foi exatamente por isso que o escreveu de novo
Casimiro não leu o manual do mercado, e foi exatamente por isso que o escreveu de novo Foto: Reprodução/Instagram @casimiro

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Os números que esse homem descontraído ajudou a construir não cabem em quarto nenhum. O canal soma 31 milhões de inscritos e 8 bilhões de visualizações no YouTube.

Só em 2025 foram 3,7 bilhões de visualizações. A LiveMode, empresa controladora da operação, recebeu aporte estimado de R$ 450 milhões da General Atlantic e do braço de private equity da XP.

Vendeu 11 cotas de patrocínio da Copa do Mundo por R$ 185 milhões cada, totalizando cerca de R$ 2 bilhões em receita comercial do torneio. O Itaú BBA projeta que o mercado brasileiro de direitos de mídia esportiva pode chegar a R$ 12 bilhões. O canal está no centro dessa equação. E tudo começou com um rapaz reagindo a vídeos de arrumação de lancheiras. É isso mesmo que ouviu.

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A história que o mercado ainda não contou direito não é a de Casimiro. É a da LiveMode. Edgar Diniz e Sérgio Lopes, dois executivos com passagem pelo Esporte Interativo, fundaram a empresa em 2017 num coworking com dois sócios e três estagiários.

Apostaram em distribuição digital de esporte quando o mercado ainda estava inteiro na TV. Em 2022, identificaram uma brecha na Copa do Catar: os direitos digitais ainda não tinham dono. Fecharam com a Fifa antes que qualquer emissora percebesse o tamanho da oportunidade.

Chamaram Casimiro para ser o rosto. A estreia foi Brasil e Sérvia. Deu 3,5 milhões de espectadores simultâneos no YouTube. Em quatro anos, saíram de um coworking para comandar todos os 104 jogos da Copa mais assistida da história.

Tenho visto muitos fundadores construírem produto certo para o momento errado e produto errado para o momento certo. A LiveMode fez a combinação mais difícil: produto certo, momento certo e pessoa certa na frente. Casimiro não foi escolhido, apesar de ser como é. Foi escolhido por causa disso. Quem assiste às transmissões não está consumindo apresentação polida.

Está consumindo um cara que parece estar num churrasco, que faz piada no meio da análise tática e que chegou na Copa mais assistida da história sendo exatamente o mesmo que era quando reagia a vídeo de lancheira.

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Essa autenticidade não é estratégia de marketing. É personalidade. E personalidade autêntica, quando encontra o produto certo no momento certo, escala de uma forma que nenhuma consultoria de branding consegue replicar artificialmente.

Nas quartas de final da Copa do Catar, o Brasil perdeu para a Croácia nos pênaltis. Naquele momento de derrota coletiva, o canal tinha quase 7 milhões de pessoas assistindo juntas. Tristeza compartilhada em escala que a televisão nunca havia conseguido mensurar com essa precisão.

Foi nessa derrota que o produto se provou definitivamente. Não era sobre o gol. Era sobre o que as pessoas sentiam assistindo. E, quando você cria um espaço onde milhões de pessoas sentem juntas, você não construiu um canal.

Construiu uma comunidade.

Comunidade não troca de plataforma por causa de delay de três segundos. Fica porque pertence. A operação hoje vai muito além de um cara no estúdio. A empresa lançou canal em Portugal com Cristiano Ronaldo como acionista.

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Está explorando expansão para TV aberta. Fechou direitos da Libertadores e negociou ciclos com clubes brasileiros que vão até 2075.

O mercado de streaming esportivo global deve chegar a US$ 14,2 bilhões em 2026. A empresa construiu uma posição nesse mercado que nenhuma emissora tradicional conseguiu em décadas, em quatro anos, a partir de um canal do YouTube criado às pressas para transmitir uma Copa.

A Vivo, que patrocina o torneio e entende que futebol em 2026 não é só o jogo, mas o clip, o meme e a reação em tempo real, chegou nessa Copa sabendo que a batalha pela atenção do torcedor jovem já havia sido decidida antes do apito inicial.

Casimiro disse numa entrevista a uma mídia que acha fascinante a ideia de que alguém numa garagem pode estar criando agora o próximo negócio capaz de disruptar o que ele construiu. E completou: não posso dizer que não tem como. Eu vim dessa garagem.

Essa frase diz mais sobre o modelo de negócio que ele representa do que qualquer análise financeira. R$ 2 bilhões em patrocínio. 31 milhões de inscritos. General Atlantic e XP como investidores. Cristiano Ronaldo como sócio. Tudo construído por um homem que chega ao trabalho depois do meio-dia, come joelho no almoço e prefere o quarto ao estúdio quando pode escolher.

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O mercado sempre imaginou que mídia de escala exigia gravata, sede imponente e executivo com MBA.

Casimiro não leu esse manual. E foi exatamente por isso que o escreveu de novo.

Foto do autor
Opinião por Camila Farani

segunda-feira, 29 de junho de 2026

Figura do Diabo aprimorou o processo criativo de Guimarães Rosa, Alvaro Costa e SIlva, FSP

 O encontro está narrado na excelente biografia de João Guimarães Rosa escrita pelo jornalista Leonencio Nossa.

Em 1966, o escritor viajou a Nova York para participar do 34º Congresso Internacional do Pen Club, ao lado de Arthur Miller, Saul Bellow, Pablo Neruda, Mario Vargas Llosa. O poeta Haroldo de Campos estava lá, e Rosa resolveu conversar com ele sobre sua experiência com o Diabo:

"Quando me vem o texto, eu fico nu, rolo no chão, luto com o Demo de madrugada no meu escritório, e depois, naquele contexto, naquele impacto, eu escrevo".

Para Haroldo de Campos, o Demo de Guimarães Rosa —que aparece no "Grande Sertão: Veredas" com dezenas de nomes (o Arrenegado, o Cramulhão, o Coisa-Ruim, o Pé-Preto, o Coxo)— não era uma simples metáfora da personificação do mal, mas uma figura que estava presente no processo de criação do autor.

Na cena em que o jagunço Riobaldo se dirige a um lugar ermo de nome assombrado, Veredas-Mortas, com a intenção de vender sua alma, não fica claro para o leitor se ele aceita o pacto. Na redemunho do personagem, o Diabo "vive dentro do homem", é o "homem arruinado", o "homem dos avessos". Portanto, é legítimo material de inspiração artística —que mal haverá nisso?

Dois homens sentados sob uma árvore, um deles despeja café de um bule metálico em uma xícara que o outro segura. Ambos vestem roupas casuais, um usa chapéu e o outro óculos.
O escritor mineiro João Guimarães Rosa - Israel Crispim Jr/Acervo Dimus

Rosa cercou Satã pelos sete lados. Ouviu de vaqueiros de Minas e Bahia histórias endiabradas e as recontou a seu modo, reinventando a linguagem.

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Um de seus primeiros contos é uma adaptação de "O Demônio da Garrafa", de Stevenson. O influxo está nos monólogos filosóficos e poéticos do "Fausto" de Goethe. E também em "Doutor Fausto", de Thomas Mann, alegoria sobre a decisão da Alemanha de abraçar o nazismo, à qual o escritor assistiu de perto como diplomata em Hamburgo entre 1938 e 1942.

Em 1952, Rosa comprou a prestações um apartamento entre Copacabana e Ipanema, perto do Arpoador. Com o tempo, subiram outros prédios de um lado e de outro. Do escritório onde ele escreveu "Grande Sertão: Veredas", restou apenas a vista de parte do mar que bate num estreito pedaço de areia —a Praia do Diabo.