quarta-feira, 16 de setembro de 2026

Brasileiros ainda misturam recicláveis ao lixo comum- Recicla Sampa

 Mais da metade dos brasileiros ainda não separa os materiais recicláveis do lixo comum, segundo uma nova pesquisa da Confederação Nacional da Indústria (CNI) sobre a relação da população com a economia circular.

Divulgado neste mês, o levantamento Da compra ao descarte: como o brasileiro se relaciona com a Economia Circular 2026 analisou os hábitos dos consumidores desde a escolha dos produtos até o momento em que eles deixam de ser utilizados.

De acordo com o levantamento, 58% dos entrevistados ainda não separam os resíduos entre lixo comum e recicláveis. Entre os motivos, 41% apontam falta de hábito ou de tempo, enquanto 27% afirmam não contar com coleta seletiva na região onde vivem.

A dificuldade também aparece quando o assunto é logística reversa. Entre os brasileiros que não devolvem produtos depois do uso, 53% afirmam que falta orientação sobre como fazer o descarte correto. Outros 33% não sabem onde entregar os materiais e 20% sequer tinham conhecimento de que a devolução era possível.

Os dados evidenciam a importância de ampliar o acesso à educação ambiental e às informações sobre os diferentes caminhos que cada resíduo deve seguir.

Separar papel, plástico, vidro e metal do lixo comum é o primeiro passo para evitar que materiais recicláveis sejam enviados aos aterros sanitários e para aumentar o volume que chega às cooperativas e centrais de triagem.

No caso de resíduos sujeitos à logística reversa, o caminho é diferente. A Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS) estabelece a responsabilidade de fabricantes, importadores, distribuidores e comerciantes pela estruturação de sistemas para o retorno de determinados produtos e embalagens após o consumo.

Pilhas, baterias, eletroeletrônicos, eletrodomésticos, lâmpadas, medicamentos, óleo de cozinha e pneus precisam de atenção especial e não devem ser colocados junto ao lixo comum ou aos recicláveis da coleta seletiva.

Para fazer o descarte correto, procure informações em lojas, supermercados, farmácias ou consulte os canais das entidades responsáveis pela logística reversa de cada material.

No caso de itens maiores, como eletrodomésticos, vale buscar informações com o fabricante ou no estabelecimento onde o produto foi comprado.

Macarronada de fios e o ordenamento urbano- Jerson Kelman - FSP

 Ao caminhar pela maioria de nossas cidades, salta aos olhos uma feia e perigosa macarronada de fios e cabos, resultado do caótico compartilhamento dos postes entre a distribuidora de eletricidade e as empresas provedoras de telecom.

Poste de concreto com grande quantidade de fios elétricos e de telecomunicações entrelaçados e desorganizados, conectados a equipamentos e caixas instaladas no poste. Edifícios residenciais aparecem ao fundo sob céu parcialmente nublado.
Poste com ligações clandestinas no Rio de Janeiro - Eduardo Anizelli - 17.mai.23/Folhapress

Pelas normas, há uma faixa de ocupação para telecom limitada a cinco ou seis pontos de fixação por poste. Na prática, é comum existir um emaranhado de cabos clandestinos, pendurados pelos milhares de provedores não autorizados ou pelos autorizados que instalam mais cabos do que lhes seria permitido.

Na tentativa de resolver o problema, o art. 16 do decreto nº 12.068/2024 estabelece, segundo recente interpretação da Advocacia-Geral da União, que é obrigatória a cessão onerosa dos postes construídos pelas distribuidoras de eletricidade para exploração comercial por um novo agente, o "posteiro".

Porém, as distribuidoras de energia e algumas provedoras de telecom querem que a cessão obrigatória se aplique apenas nos casos de desempenho insatisfatório da concessionária de eletricidade. Para isso, trabalham a favor da aprovação do PL 3.220/2019, que tramita na Câmara dos Deputados. Pessoalmente, concordo com essa proposta.

É de esperar que o responsável pelo uso dos postes —posteiro ou concessionária de eletricidade— consiga, em colaboração com as empresas de telecom, diferenciar os cabos contratualmente autorizados dos não autorizados. Parece uma providência simples, mas atualmente é raramente exercitada, possivelmente devido à desarticulação entre os dois setores.

Poste de concreto com grande quantidade de fios elétricos e de telecomunicações entrelaçados e desorganizados. Vegetação e céu nublado ao fundo.
Postes com fios elétricos expostos e emaranhados na praça Nina Rodrigues, região central de São Paulo - Pedro Affonso - 3.fev.25/Folhapress

Melhor ainda seria acabar com a bagunça atual e instalar uma única infraestrutura de fibra óptica de alta capacidade, a rede neutra. Nesse caso, os múltiplos provedores alugariam frações da capacidade da única rede, dispensando a instalação de cabos próprios. O posteiro poderia ser o concessionário da rede neutra, sob regulação da Anatel, recebendo das provedoras de telecom pelo aluguel da fibra neutra e pagando à distribuidora de eletricidade a tarifa regulada pela Aneel pelo uso dos postes, como ocorre atualmente.

Estimativas do setor de telecomunicações indicam que a implantação gradual da rede neutra em todo o país exigiria investimento da ordem de dezenas de bilhões de reais, ao longo de uma década. Porém, a longo prazo e numa estimativa otimista, poderia até ocorrer redução tarifária, devido ao ganho de eficiência.

A óbvia precondição para um novo ordenamento urbano é que seja realmente possível remover a macarronada de cabos clandestinos. Atualmente a distribuidora de eletricidade tem o direito teórico de remover, mas enfrenta barreiras práticas. Como não consegue notificar previamente a empresa de telecom clandestina, a distribuidora hesita em retirar "na marra" os cabos irregulares, porque teme as consequências reputacionais e jurídicas de deixar parcela da população e de serviços essenciais, até mesmo delegacias e hospitais, sem sinal de internet ou de TV a cabo.

Porém, a complacência com a pirataria cobra um preço alto de toda a sociedade em termos de segurança e poluição visual. É preciso criar blindagem jurídica para que o corte do sinal irregular seja realizado sem medo de sanções, em favor do ordenamento urbano e das empresas de telecom que atuem dentro da legalidade.

Crescer não será fácil, Sergio Vale, FSP

 Jesús Fernández-Villaverde e Patrick Norrick publicaram em agosto um artigo sugestivo chamado "Terra Incognita", no qual, dizem, a humanidade já estaria abaixo da taxa de fertilidade de reposição, algo inédito, não visto nem em guerras nem em pandemias. Mas o artigo aponta algo ainda mais preocupante: essa queda está concentrada nos países de renda média, o Brasil incluído.

Vale, nesse sentido, entender o que foi o crescimento brasileiro nas últimas décadas e o papel da demografia nessa história. O crescimento do PIB pode ser decomposto como a soma dos crescimentos da produtividade e do emprego.

Robôs industriais operam em linha de montagem dentro de área cercada por grades metálicas em fábrica ampla e iluminada. Estruturas metálicas, tubulações e equipamentos eletrônicos compõem o ambiente organizado.
Robô trabalha na montagem de câmbio em linha de produção de motores na fábrica da Ford, em Taubaté - Diego Padgurschi - 25.abr.18/Folhapress

Nessa ótica, e usando o conceito de PIB por idade ativa, a tabela abaixo, dos autores acima, à qual adicionei o Brasil, mostra como a demografia foi importante para alguns países, especialmente os Estados Unidos. Mais ainda, entre os países da lista, o Brasil foi o mais dependente dessa população para alcançar um crescimento médio de 2,31% entre 1991 e 2023.

Os Estados Unidos tiveram uma produtividade praticamente o dobro, com uma população entre 15 e 64 anos, crescendo cerca de metade da do Brasil. O caso curioso é o Japão, com forte queda nessa população e produtividade semelhante à americana ao longo desses anos nessa faixa.

Nossa produtividade foi igual à da Itália no período, mas a Itália teve queda populacional e um crescimento medíocre, já conhecido do país, de apenas 0,73%. Mas a Itália é um país já rico, que enriqueceu antes de entrar em estagnação. Aproveitamos o forte período demográfico de bônus sem aumentar a produtividade, e o resultado foi um crescimento nada exuberante. Não fosse a demografia, teríamos afundado num dos piores crescimentos médios desse conjunto de países.

Como os autores corretamente alertam, não há mecanismo de mercado que faça voltar às antigas taxas de fecundidade; a questão será redistributiva, ou seja, como alocar a renda dos trabalhadores aos aposentados nos próximos anos. No nosso caso, a velha cantilena de envelhecermos antes de enriquecermos nunca esteve tão evidente. A estimativa da ONU é que, na década de 40, a população em idade ativa no Brasil esteja caindo em torno de 0,67%, o que significa que, se mantivermos a produtividade nesse patamar de 0,87%, nosso crescimento será de apenas 0,2% ao ano.

Países ricos poderão passar pelo que Acemoglu, Autor, Beirne e Scott descrevem, em artigo recente, como um possível benefício da baixa natalidade. Com 70 anos de dados, eles identificaram que onde a natalidade caiu antes, o PIB por adulto em idade ativa cresceu mais, sem queda do PIB total. A mágica se dá pelo efeito da escassez: a falta de jovens impulsiona a adoção de tecnologias que reduzem a mão de obra. Nesses países, surgem mais patentes de automação, maior tecnologia e maior produtividade. O Japão da tabela é essa história: envelheceu, automatizou e mantém o ritmo por trabalhador.

Para o Brasil, que começará a ver um declínio populacional a partir de 2040, a resposta passa inevitavelmente por mais inovação. Mais do que nunca, pois chegamos nesse ponto tendo gasto o bônus demográfico e sem termos montado a base tecnológica que transformou a falta de gente em automação lá fora.