terça-feira, 14 de julho de 2026

A prudência dos investimentos em resiliência - Joisa Dutra- FSP

 Na última semana, a Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica) publicou dois documentos sobre temas aparentemente distintos: um parecer no qual sustenta a continuidade do processo de caducidade da Enel São Paulo e a Análise de Impacto Regulatório (AIR) sobre o enterramento de redes. O primeiro olha para o passado, avaliando se a concessionária cumpriu suas obrigações diante de eventos extremos. O segundo olha para o futuro, discutindo como orientar investimentos capazes de reduzir esses riscos.

Embora tratem de questões diferentes, ambos revelam o mesmo desafio regulatório: como avaliar a prudência dos investimentos em resiliência de um sistema elétrico cada vez mais exposto às mudanças climáticas? E em uma sociedade que cada vez tolera menos as consequências dessas interrupções.

Técnico com equipamento de proteção individual, incluindo capacete e máscara, opera em altura para ajustar componente da rede elétrica aérea. Estrutura de madeira e transformador são visíveis contra céu azul.
Carro da Enel religando energia em prédio na Mooca, zona leste de São Paulo, após seis dias sem luz - Danilo Verpa - 15.dez.25/Folhapress

A AIR parte de um diagnóstico importante. As interrupções não se distribuem de forma homogênea pelo país e os eventos extremos recentes, especialmente no Rio Grande do Sul, reforçam a necessidade de incorporar o risco climático ao planejamento das redes. Mas o custo das redes subterrâneas pode chegar a dez vezes o das redes convencionais. A conversão integral exigiria investimentos da ordem de trilhões de reais. Mesmo elevar a participação das redes subterrâneas para apenas 10% demandaria recursos centenas de vezes superiores aos investimentos realizados pelas distribuidoras em 2024.

Ainda que considere apenas os investimentos do setor elétrico, o documento reconhece que essa não é uma decisão exclusiva. Enterrar redes exige coordenação com outras concessionárias de infraestrutura e, sobretudo, com os municípios, responsáveis pelo ordenamento urbano. A experiência internacional aponta na mesma direção.

Estudos conduzidos pelo Departamento de Serviços Públicos do Estado de Nova York mostram que o enterramento reduz vulnerabilidades, mas dificilmente se justifica para toda a área de concessão. A própria Aneel chega à mesma conclusão: o enterramento não deve ser obrigatório nem descartado. É uma alternativa eficiente apenas quando seus benefícios superam seus custos. E depende de mecanismos adequados para financiá-lo, que, na avaliação da agência, já existem.

Ao rejeitar soluções simplistas, a AIR reafirma um princípio importante da boa regulação: não cabe ao regulador escolher tecnologias. Mas, ao concluir que o arcabouço regulatório atual já oferece instrumentos suficientes, deixa em aberto como reconhecer investimentos prudentes em resiliência diante de riscos climáticos crescentes.

Em regulação, investimentos não são remunerados porque são caros, modernos ou politicamente desejáveis. São remunerados quando são considerados prudentes. Prudência regulatória nunca foi um conceito estático. Ela evolui à medida que evoluem os riscos que a infraestrutura precisa enfrentar.

Durante décadas, prudência significou construir a rede de menor custo capaz de atender aos padrões de qualidade estabelecidos pelo regulador. As mudanças climáticas, porém, alteram essa equação. A prudência deixa de ser apenas uma avaliação do custo do investimento e passa a incorporar também o custo esperado de não investir: interrupções mais frequentes, perdas econômicas e menor capacidade de resposta diante de eventos extremos.

A mudança é mais profunda do que parece. Ela desloca o foco da regulação da escolha entre tecnologias para a avaliação dos resultados que cada investimento entrega em termos de redução de riscos e aumento da resiliência.

A verdadeira pergunta regulatória passa, então, a ser outra: este investimento aumenta, de forma mensurável, a resiliência do sistema elétrico? Responder a essa pergunta exige critérios capazes de avaliar investimentos em adaptação sob uma perspectiva dinâmica, incorporando riscos que continuarão a evoluir ao longo das próximas décadas.

O desafio da próxima década não será decidir onde enterrar cabos. Será enfrentar a lacuna que a AIR deixa: estabelecer critérios objetivos para reconhecer quais investimentos efetivamente tornam o sistema elétrico mais resiliente. Em outras palavras, será redefinir a prudência regulatória para uma era de riscos climáticos.

População de rua perturba visão idealizada do centro de São Paulo, FSP

 Vicente Vilardaga

São Paulo

O centro de São Paulo está em transformação. Uma população jovem passou a ocupar os antigos edifícios da região e novos negócios da economia criativa se instalam em espaços antes abandonados e deteriorados. É um movimento positivo, aparentemente irreversível, que traz para a região ares de modernidade e vitalidade urbana. Muita gente quer morar por ali e usufruir suas delícias.

Há, porém, um fantasma que atazana seus novos e velhos habitantes e frequentadores: os moradores de rua. Eles insistem em mostrar diariamente que o problema não está resolvido, que a cidade ainda é injusta e que a pobreza não pode ser apagada num piscar de olhos. Eles estão em todos os lugares, deitados na calçada, caminhando para pedir dinheiro e cigarros ou sentados em alguma praça.

Pesquisa do Datafolha de 2024 mostrava que essa era a questão mais crítica da região para 93% de seus moradores. Em segundo lugar vinha o problema dos usuários de droga.

A imagem mostra duas cobertas escuras jogadas no chão, em uma calçada, próximas a uma grade de metal. O ambiente é noturno, com iluminação laranja ao fundo, sugerindo a presença de luzes artificiais. O chão parece estar sujo, com alguns detritos visíveis ao redor das cobertas.
Pessoas em situação de rua tentam se proteger do frio da madrugada na Praça da República - Bruno Santos/Folhapress

A região central é uma síntese da cidade. Expõe num mesmo ambiente a desigualdade social e as virtudes e mazelas da metrópole. Não é um lugar para idealizações. Basta andar um pouco para esbarrar em alguém deitado na calçada sob um cobertor. Agora, com o frio do inverno, paira sobre essa pessoa a ameaça de mais doenças e morte.

A região é conveniente para os moradores de rua, embora a população que vive nos apartamentos retrofitados no local muitas vezes não se conforme. Há lixo abundante para os catadores, marquises para se abrigar, locais para observar a multidão e ver o tempo passar, distribuição de alimentos pela prefeitura e por organizações sociais e muita gente disposta a dar algumas moedas. É também um ambiente de sociabilidade para a população abandonada. A praça da Sé é um desses pontos de encontro, assim como a praça do Patriarca.

Na semana passada, tive duas conversas em que meus interlocutores reclamaram do excesso de "mendigos" na região. Falou-se deles com ojeriza, como se todos fossem potenciais criminosos. Destacou-se também o fato de eles mexerem nos lixos e o problema estético que representam para o centro, com seus corpos e roupas sujas. Essas falas foram demonstrações de aporofobia, aversão aos pobres.

Uma mulher está servindo sopa em um recipiente para um homem que está de perfil. A mulher usa uma blusa clara e está segurando uma colher, enquanto o homem está usando um gorro e parece estar se aquecendo. Ao fundo, há uma área com cobertores e objetos, sugerindo um ambiente de abrigo improvisado.
Voluntários distribuem sopa na praça do Patriarca, onde há alta concentração de moradores de rua - Bruno Santos/Folhapress

O informe técnico do Observatório Brasileiro de Políticas Públicas com a População em Situação de Rua (OBPopRua), da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), com base nos dados de pessoas registradas no CadÚnico, dava conta de que 96 mil pessoas viviam nessas condições de penúria, em maio de 2025, na capital paulista, número equivalente ao da população de uma cidade brasileira média.

O último censo da prefeitura, feito em 2021, computava 31,8 mil moradores de rua na cidade, com maior concentração na região central. Mas diferentes métodos de levantamento e análise dificultam a comparação dos dados. A gestão atual promete para breve o recenseamento.

O problema é complexo. As políticas públicas dirigidas para essas pessoas são insuficientes para reinseri-las na sociedade. Os albergues também não comportam todos os desabrigados, além de serem rejeitados por muitos deles, que preferem a liberdade e a falta de regras das vias públicas. Mais triste ainda é ver o aumento da quantidade de famílias, casais com filhos, vivendo ao relento.

Resta saber como eliminar essa contradição de uma região que prospera com a proliferação de miseráveis. O que fazer para ter uma cidade mais humana? De 2000 para cá, todos os censos municipais apontaram um crescimento do número de pessoas em situação de rua em São Paulo em relação ao relatório anterior. Isso confronta a sensação de evolução urbana, derrubando a fantasia de um lugar asséptico.


segunda-feira, 13 de julho de 2026

Alexandra Moraes - Ombudsman - Avaliação de 'caneta paraguaia' também testa o jornal, FSP

 A Folha testou versões paraguaias das "canetas emagrecedoras" vendidas clandestinamente no Brasil. O procedimento que colocou as substâncias à prova também acabou testando o jornal.

A reportagem foi ao ar no site no dia 4: "Canetas emagrecedoras do Paraguai têm princípio ativo equivalente ao do Mounjaro, mostra análise da Unicamp". Havia ressalvas importantes, algumas já na linha-fina, subtítulo da reportagem: "Análise verificou concentração e estrutura molecular, mas não pureza, eficácia e segurança" e "Eli Lilly, fabricante do Mounjaro, diz que ter a mesma substância não significa que produtos sejam iguais". Ainda assim, elas eram insuficientes, e o título soava mais inadequado quanto mais a leitura avançava.

Um dos principais alertas ficou enterrado depois do 20º parágrafo: "A amostra de Gluconex (...) apresentou concentração muito maior que a informada pelo fabricante" e "quem utiliza esse medicamento corre risco", segundo José Luiz da Costa, professor de toxicologia e coordenador do CIATox (Centro de Informação e Assistência Toxicológica) da Unicamp, que fez os testes.

Outros especialistas chamavam a atenção, no texto, para eventuais problemas de composição e armazenagem. Advogados alertavam para risco jurídico e crimes que poderiam ser associados à venda e à compra dos produtos. Nesse ponto, havia ruído em relação ao Manual da Redação, segundo o qual "a Folha não admite que seus profissionais pratiquem ato ilegal, antiético ou desonesto para obter informações". O jornal responde que "todo o processo foi desenhado com assessoria jurídica".

Ilustração de uma caneta emagrecedora
Ilustração de Carvall para Ombudsman de 12 de julho de 2026 - Carvall/Folhapress

O final do texto informava que, segundo a Anvisa, análises laboratoriais independentes não substituem o processo completo.

É possível considerar que o teste seja de interesse público: se esses produtos já são vendidos a rodo e sem controle, vale averiguar a composição deles. Nesse caso, porém, o título já deveria deixar claros riscos e limitações. O jornal pode, cinicamente, abraçar a ideia de que não é responsável pela distorção feita nas redes sociais. Mas estamos em 2026.

Outro ponto, anterior, é a relativa falta de sentido em testar só a presença da substância, se a decisão sanitária não se limita a esse aspecto, como o texto informa.

A chefia da Redação da Folha afirma que "a reportagem investigava se os produtos paraguaios, cujo contrabando para o Brasil é crescente, tinham de fato tirzepatida e se havia mistura com semaglutida". "O objetivo foi fornecer ao leitor informação relevante, que não estava disponível. Os riscos estão claramente identificados no texto e, na edição online, destacados no alto. Não dizemos que os produtos são equivalentes, mas que o princípio ativo (tirzepatida) encontrado num produto é equivalente ao do outro (não igual). A Anvisa sabia dos testes e afirmou que eles eram valiosos. O laboratório Eli Lilly foi ouvido durante o processo e sua posição foi registrada no texto."

Após a repercussão da publicação, a Anvisa emitiu nota com um "NÃO" em caixa-alta: "Canetas do Paraguai NÃO demonstraram equivalência com medicamentos registrados no Brasil".

Consultada sobre o termo "valiosos", a assessoria da Anvisa afirma que as informações do teste se inserem num "conjunto de contribuições para o entendimento do risco". "A resposta da Anvisa não indicou que este resultado em específico fosse valioso. Até porque a Anvisa não havia tido acesso aos dados, metodologia e demais detalhes."

O laboratório da Unicamp também emitiu nota crítica ao jornal. A Folha afirma tê-lo consultado a respeito da formulação do título, o que o laboratório confirma, mas diz discordar do uso de "equivalente", segundo Gabriel Cordeiro, gestor de educação e difusão do conhecimento da instituição. "O conteúdo do corpo da matéria está correto. O problema ficou no título, que infelizmente acaba induzindo o público que lê apenas a manchete a ter uma compreensão errada do caso."

Para a SBEM (Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia), a SBD (Sociedade Brasileira de Diabetes) e a Abeso (Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica), que publicaram nota conjunta, o problema também estava na "expressão ‘princípio ativo equivalente ao do Mounjaro’, interpretação que não seria possível sem outros critérios".

Já a Eli Lilly, dona do Mounjaro, afirma que "um veículo de extrema relevância e credibilidade como a Folha de S.Paulo, ao chancelar erroneamente a ‘equivalência’ de um produto sem registro no país, pode incentivar leitores a consumir medicamentos de procedência duvidosa e potencialmente perigosos".

Nas redes, o título da Folha foi usado como confirmação da segurança por vendedores e até políticos que se promovem em cima de gargalos reais —alto custo e dificuldade de acesso aos remédios. Para a Anvisa, "o título da matéria e a afirmação de que os princípios ativos eram equivalentes (incorretos do ponto de vista farmacológico) motivaram a circulação dos conteúdos desinformativos, induzindo a população ao erro".

Neste sábado (11), o jornal publicou um vídeo em que destaca as limitações do teste e ouve novamente o laboratório e a SBEM. Nos comentários desse novo vídeo, muita gente (e talvez alguns robôs) defende a soberania da Dinavisa, a vigilância sanitária do Paraguai, agradece ao país vizinho por ter perdido dezenas de quilos e questiona os interesses da indústria farmacêutica.

Uma questão menor, mas ainda assim relevante, é por que chamar esses produtos paraguaios de "caneta", se eles não vêm com os aplicadores que deram o apelido aos remédios originais. A própria reportagem do dia 4 informa que "o paciente precisa aspirar a dose com uma seringa, o que aumenta o risco de erros de dosagem e pode levar a complicações". Chamar esses produtos que vêm em ampolas de "canetas" em texto jornalístico não ajudaria também a subsidiar a equivalência pleiteada por quem os vende ilegalmente?

A Secretaria de Redação da Folha responde que "‘caneta' virou um sinônimo, no uso popular, para as substâncias emagrecedoras; no decorrer do texto, inclusive com fotos, fica clara a diferença".