terça-feira, 4 de agosto de 2026

diálogos da transição Brasduto de volta, rateamento das baterias e o saldo do CNPE, EIXOS

 Mais de 6 mil projetos foram cadastrados para os leilões de baterias de dezembro, informou nesta segunda (3/8) a Empresa de Pesquisa Energética (EPE). E o Nordeste desponta como o destino favorito dos desenvolvedores de sistemas de armazenamento de energia em bateria (BESS).


Dos 296,8 GW de potência cadastrados para os certames:

  • 71,1% estão no Nordeste, que lidera a geração de renováveis no país;

  • enquanto 18,8% estão no Sudeste;

  • e 10,1% nas demais regiões.

A contratação dos sistemas de baterias ocorrerá por meio de dois leilões:

  • o primeiro (2/12) destinado a sistemas BESS com conteúdo local fixado pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), e para o qual foram cadastrados 5.296 projetos (261,4 GW de potência);

  • e o segundo (4/12) aberto a todos os projetos, e para o qual foram cadastrados 5.734 projetos (281 GW de potência).

Parte dos projetos (245 GW) participa de ambos os leilões. E a tendência é que nem todos esses projetos estarão, ao fim, aptos a participar dos certames, já que ainda passarão por habilitação técnica da EPE.

O número de projetos representa um recorde de participação para leilões do setor elétrico brasileiro

  • Na avaliação da EPE, as características modulares dos sistemas, associadas à dispensa de licença ambiental e de certificações de projeto na etapa de cadastramento, contribuíram para o recorde;

  • já a Associação Brasileira de Soluções de Armazenamento de Energia (Absae) atribuiu o número à confiança de investidores no Brasil e à capacidade técnica, industrial e financeira para viabilizar investimentos em larga escala no país.

Os próximos passos: Os editais estão, até 14 de setembro, em consulta pública pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). Na sequência, a nota técnica com a capacidade de escoamento disponível para os certames está prevista para 28/9; e a habilitação técnica deverá ser concluída em 17/11.

E quem vai bancar? E no meio dos preparativos para os leilões de BESS, a divisão dos custos do armazenamento em baterias chegou ao Congresso:

  • No Senado, o substitutivo do PL 5017/2019, aprovado pela Comissão de Serviços de Infraestrutura (CI) em julho, incluiu um trecho para derrubar artigo da lei 15.269/2025 que colocou sobre os geradores os custos da contratação dos sistemas de armazenamento;

  • Na Câmara, tramita o projeto de lei 3.716/2026, do deputado Arnaldo Jardim (Cidadania/SP), que propõe o rateio desse custo com usuários.

A mudança atende tanto geradores como empresas interessadas no leilão de baterias. A Absae critica o rateio de custos do armazenamento somente pelas geradoras e classifica a regra como “excepcional” e “anti-isonômica”.

Para ficar de olho. Encerrado oficialmente o recesso parlamentar, o Congresso começa a retomar as atividades – o primeiro esforço concentrado previsto para ocorrer no período eleitoral, no entanto, deve ficar para semana que vem.

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Mulheres merecem mais do que rendição reacionária ou vitimismo absurdo - João Pereira Coutinho -FSP

 Cresci entre mulheres. Femininas, fortes, emancipadas. Os homens da casa, coitados, tentavam acompanhar o ritmo. Eram os primeiros a levantar a bandeira branca, ofegantes e derrotados.

Agora que penso nelas, imagino que ficariam horrorizadas com certos discursos contemporâneos sobre as mulheres —muitos deles produzidos pelas próprias mulheres. Discursos que oscilam entre a rendição reacionária e o vitimismo mais absurdo. Exagero?

Composição com 3 mulheres: à esquerda, mulher nua sentada com taça na mão; ao centro, mulher com cabeça inclinada para baixo em tom avermelhado; à direita, mulher de perfil com cabelo preso e roupa adornada.
Ilustração de Angelo Abu para coluna de João Pereira Coutinho de 4 de agosto de 2026 - Angelo Abu/Folhapress

Não creio. A autora Zoe Strimpel também não. Ela escreveu um dos livros do ano, "Good Slut: How Money, Sex and Power Set Women Free", e está sendo crucificada dos dois lados da trincheira.

Strimpel não vive na Lua. A violência contra mulheres, a discriminação e a desigualdade existem e persistem.

Mas o ponto de Strimpel é outro: existe um fosso entre o discurso de desastre sobre a condição feminina e a realidade de oportunidades, direitos e justiça relativa que hoje se apresenta às mulheres em boa parte do Ocidente.

Alguns dirão: é precisamente porque as portas se abriram que os obstáculos que restam doem mais. É possível. Mas uma coisa é apontar os obstáculos; outra é jurar que a casa está pegando fogo até os alicerces.

Historicamente falando, houve algum outro período em que tantas mulheres tiveram mais direitos, mais educação, mais oportunidades profissionais e mais autonomia sexual?

Se houve, Strimpel não conhece. Eu também não. Mas a nova onda reacionária imagina que sim: lá atrás, em algum passado mítico, nossas avós e bisavós teriam vivido em plenitude, alcançando orgasmos múltiplos enquanto limpavam a casa e cuidavam dos filhos.

Há até uma tendência na internet —as "tradwives", encenações de uma domesticidade kitsch— que tenta recuperar esse passado. O "desempoderamento tornou-se empoderamento", escreve Strimpel, resumindo a contradição.

Sem surpresa, a revolução sexual é vista como a principal culpada pelo apocalipse feminino. A pílula e uma nova ética de disponibilidade e experimentação teriam beneficiado apenas os homens, promíscuos por natureza?

Eu diria que beneficiaram ambos, talvez com uma vantagem histórica para as mulheres. Afinal, quando uma noite terminava em gravidez, era quase sempre a mesma pessoa que pagava a conta inteira. Sozinha.

De resto, se existem abusos masculinos, a responsabilidade pertence aos homens que os cometem, não à liberdade adquirida pelas mulheres. Culpar a revolução sexual pelo comportamento abusivo de alguns homens é uma forma canhestra de desculpá-los.

Certas correntes do feminismo de esquerda repetem vícios de pensamento semelhantes. A ideia já não é fechar as mulheres na cozinha, mas esmagá-las sob o peso de um patriarcado onipotente e onipresente, como se os países ocidentais fossem teocracias islâmicas.

Bombardear as mulheres, sobretudo as mais jovens, com mensagens de vulnerabilidade, perigo e sofrimento generalizado é uma estranha forma de progressismo. Onde está a coragem? Onde está a ousadia?

Obviamente, não estão.

Algumas das autoras que Strimpel contesta culpam o próprio sistema capitalista, que teria seduzido as mulheres com promessas de emancipação econômica.

Segundo esse argumento, a "proletarização" das mulheres representa uma punição dupla: exploradas no trabalho, elas continuam sendo exploradas em casa, onde assumem o trabalho doméstico não reconhecido e não pago.

Posso concordar com a segunda parte. Não concordo com a primeira: a economia de mercado e a expansão do trabalho remunerado expandiram o horizonte de possibilidades das mulheres como nenhum outro processo histórico.

Não falo de teorias. Falo da prática: suspeito que uma das razões pelas quais, em média, minhas alunas têm notas melhores do que as dos rapazes na universidade é que muitas sabem, desde cedo, que o diploma e a profissão são passaportes para a independência econômica.

E sabem que, sem essa independência, dificilmente conseguirão exercer plenamente as demais liberdades.

O livro de Zoe Strimpel é, no fundo, um ensaio sobre a liberdade. Não sei, honestamente, se as mulheres do século 21 são mais felizes do que suas antecessoras. Também não sei se os homens de hoje são mais felizes do que seus pais e avós. Felicidade é conceito subjetivo e vago.

Mas sei que homens e mulheres são hoje mais livres para decidir que vida desejam levar: monogâmica ou promíscua, conjugal ou celibatária, com filhos ou gatos, ambiciosa ou nem tanto.

E, mesmo aceitando que liberdade não é sinônimo de felicidade, Zoe Strimpel formula a questão decisiva: é preferível ser livre e infeliz ou não ser livre e infeliz?

Se a resposta é óbvia quando falamos de escravizados, por que deixa de ser tão óbvia quando falamos de mulheres?

Otoni de Paula desafia bolsonarismo ao defender voto em Lula, Juliano Spyer, FSP

 O principal adversário de Flávio Bolsonaro entre os evangélicos é um ex-bolsonarista. Na semana passada, o pastor e deputado Otoni de Paula (PSD-RJ) anunciou uma proposta ousada: que a direita apoie Lula contra Flávio, caso os dois se enfrentem no segundo turno.

O PT nunca precisou tanto de apoio para intermediar sua relação com evangélicos. Otoni cumpre essa tarefa melhor do que um pastor de esquerda: por se identificar como conservador de direita, suas falas chegam à massa de pentecostais pobres, que têm se distanciado do PT pelas pautas morais.

Um homem com óculos e cabelo curto está falando ao microfone em um ambiente legislativo. Ele usa um terno azul e uma gravata listrada. Ao fundo, outras pessoas estão visíveis, algumas em pé e outras sentadas.
O pastor e deputado federal (PSB-RJ) Otoni de Paula, durante votação na Câmara, em Brasília 21.11.23

Nomes como o cantor Leonardo Gonçalves e o pastor Paulo Marcelo sacrificaram suas carreiras ao apoiar Lula em 2022. O que Otoni faz de diferente das lideranças evangélicas que foram canceladas por desafiar o bolsonarismo?

Para começar, Otoni é íntimo do bolsonarismo. Foi vice-líder de Bolsonaro no Congresso, fez parte da tropa de choque do ex-presidente. O rompimento aconteceu em 2024, quando Bolsonaro não o apoiou para concorrer à Prefeitura do Rio.

Assim como outros evangélicos de direita, Otoni viveu a experiência de ser escanteado. A própria escolha de Flávio no lugar de Tarcísio de Freitas —preferido de pastores— exemplifica a percepção de que o bolsonarismo exige mais do que dá a seus aliados.

Em entrevista, Otoni foi direto: "Bolsonaro e sua família nunca foram fiéis à igreja. Nunca. Sempre usaram o povo de Deus como massa de manobra eleitoral, graças ao antipetismo." E desafia: "Me diga um projeto do governo Bolsonaro que honrou a igreja."

Otoni também atua em harmonia com uma igreja influente: o Ministério Madureira da Assembleia de Deus. Foi a única grande igreja a desafiar o bolsonarismo declarando, ainda em março, apoio a Ronaldo Caiado.

Outras lideranças das grandes igrejas estão descontentes com Flávio, mas sofrem agora com a idolatria por Bolsonaro que elas mesmas cultivaram. O deputado Marco Feliciano e o pastor Silas Malafaia já expressaram seu desagrado com a atuação de Flávio. Mas não rompem o vínculo.

Otoni é o único que declara publicamente: votar em Lula é melhor do que eleger um candidato de direita inexperiente e com ligações suspeitas —como a negociação com o ex-banqueiro investigado Daniel Vorcaro para investir R$ 134 milhões no filme sobre o pai.

Ao declarar apoio a Lula contra Flávio, Otoni sinaliza que evangélicos podem atuar com autonomia. Ao comunicar isso antes do primeiro turno, joga limpo com seus eleitores. Abre mão de votos que poderia ter para não ser acusado de traidor depois.

O desempenho de Otoni pode ajudar a dimensionar o tamanho da rejeição ao bolsonarismo dentro da direita. Quantos querem substituir a idolatria a Bolsonaro por competência administrativa.

Otoni parece ser mais uma consequência das desconfianças e decepções com Flávio do que alguém que as instiga. O debate sobre a fragilidade dessa candidatura reverbera dentro da própria direita.