terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Males do mundo também se explicam por abstinência de alguns grandes líderes, João Pereira Coutinho, FSP

 O mundo não anda recomendável. Guerra na Ucrânia. Massacres no Irã. Investidas predatórias de Trump na América Latina —e, agora, na Groenlândia. O que fazer?

Talvez beber, recomendou Kaja Kallas, atual chefe da diplomacia da União Europeia, numa conversa com líderes do Parlamento Europeu. Era uma piada. Não era uma piada. E se parte dos males do mundo se explicasse pelo declínio do consumo de álcool entre os contemporâneos?

A revista Economist tem números. E que números. Nos dez anos que antecederam 2023, o álcool foi desaparecendo discretamente da vida dos ocidentais. Entre os líquidos sacrificados, o vinho foi o grande perdedor.

Os franceses, por exemplo, bebem hoje metade do que bebiam nos anos 1970. Americanos e canadenses também afundaram numa sobriedade militante. E a China, que prometia honrar Baco com entusiasmo, já se deixou contaminar pela temperança global. Como explicar esse recuo?

Figura masculina reclinada com barba e cabelos vermelhos, vestindo túnica preta e segurando um cacho de uvas na mão direita e uma ânfora na esquerda. A pose sugere relaxamento, com uma perna estendida e a outra dobrada.
Angelo Abu/Folhapress

Sim, os malefícios do álcool assustaram os rebanhos. Mas não só. Beber sempre foi uma atividade comunitária, permitindo à raça humana aliviar e partilhar suas dores.

A solidão crescente –mais nociva do que o consumo moderado e inteligente de vinho– é a nova droga do século 21. Estamos mais sós. Partilhar uma garrafa com amigos, amantes ou confidentes virou coisa de filme antigo.

A política não escapou à tendência. Donald Trump não bebe vinho. Nem cerveja. Nem nada que se recomende a um adulto funcional. Seu combustível declarado é Diet Coke, acompanhada de hambúrgueres do McDonald’s. Resultado: energia demais, sabedoria de menos.

Vladimir Putin também não bebe. Uma ex-mulher, ao ser questionada sobre as principais virtudes do Vladimir, respondeu secamente: "Não bebia e não me batia". Admiro a segunda parte. A primeira, nem tanto.

E os aiatolás no Irã?

Nem é preciso elaborar. O vinho, assim como o jogo, é obra de Satanás, segundo o Alcorão. Ao contrário da cultura cristã, onde o vinho se transforma no próprio sangue de Cristo, o Islã empurra esse néctar para o inferno.

Maus sinais. Historicamente, convém lembrar que as maiores tragédias do século 20 foram produzidas por abstêmios convictos. Adolf Hitler não bebia. Lênin também não.

Em compensação, Winston Churchill era um entusiasta do champanhe ("Na vitória, eu o mereço; na derrota, preciso dele") e Franklin Roosevelt tinha predileção pelos seus martinis.

Aqui está o ponto: o álcool, em doses amenas, não serve apenas como cola fraternal numa sociedade cada vez mais atomizada. Nas relações internacionais, ele funciona como lubrificante diplomático, capaz de transformar inimigos absolutos em seres razoáveis.

O filósofo Roger Scruton, no impagável "Bebo, Logo Existo", advertia o leitor: "Se a sociedade é por vezes ameaçada pelos intoxicantes, é-o igualmente pela sua ausência. Sem a sua ajuda, vemo-nos uns aos outros tal como somos –e nenhuma sociedade humana pode ser construída sobre um alicerce tão frágil".

Pensamento admirável. Quando nos vemos tal como somos, é quase inevitável sentir certo desprezo pela espécie humana. Do desprezo à hostilidade, o passo é curto.

O álcool quebra a rigidez e introduz uma ambiguidade produtiva. A negociação não é um jogo de soma zero. É um compromisso entre seres falíveis.

Em 1815, quando a Europa se reuniu em Viena para desenhar a nova ordem internacional pós-napoleônica, o álcool correu solto nos copos de Talleyrand, Metternich ou Castlereagh. O resultado foi o chamado "Concerto da Europa", que garantiu décadas de paz entre as grandes potências.

Hoje, quando olho para as mesas da diplomacia internacional, vejo água. E lembro do humorista W.C. Fields, que se recusava a bebê-la. "Os peixes transam nela", dizia Fields.

Dizia bem. Não é saudável que os grandes do mundo resolvam suas disputas em estado de sobriedade absoluta. A ascese é incompatível com a política –sabemos disso desde Robespierre, precisamente conhecido como "O Incorruptível" e responsável pelo Terror da Revolução Francesa.

Se a memória não me falha, Robespierre era natural da região de Artois (Artésia), no norte da França, onde a produção vinícola era escassa e ruim. Tivesse ele nascido um pouco mais ao sul, em Champanhe ou na Borgonha, e talvez a história teria sido menos sangrenta.

Se o Brasil quiser ter uma palavra no futuro das relações internacionais, deveria convidar os grandes do mundo para um encontro na Serra Gaúcha. Aproveitando o recente acordo União Europeia-Mercosul, poderia também importar os melhores tintos do Douro, de Bordeaux ou do Piemonte, só para reforçar a excelente produção local.

Água e Diet Coke estariam educadamente proibidas. Diplomacia exige fermentação.

Trump está afundando os EUA, Joel Pinheiro da Fonseca- FSP

 Uma coisa é uma intervenção militar em ditaduras hostis, como Venezuela e Irã. Outra, bem diferente, é ameaçar uma nação que não apenas é uma democracia aliada como também membro da aliança mais importante para a segurança dos EUA. É "apenas" isso que Trump coloca em risco ao exigir a anexação da Groenlândia.

Todos os usos militares e econômicos para os quais os EUA tenham interesse na Groenlândia poderiam facilmente ser implementados sem a transferência da posse da ilha para os EUA. A Dinamarca está mais do que disposta a negociar, coisa que já poderia ter sido feita sem nem uma fração do desgaste e da corrosão de confiança que o impasse atual já causou antes mesmo de ter escalado para a agressão.

Grupo de pessoas reunidas em protesto ao ar livre em área com neve. Um homem segura faixa com símbolo de proibição sobre a palavra 'Trump' e texto parcialmente visível 'WE FU'. Casas e montanhas cobertas de neve ao fundo.
Protesto contra Trump em Nuuk, na Groenlândia - Marko Djurica - 17.jan.26/Reuters

Na Estratégia de Segurança Nacional —publicada em novembro de 2025— não havia uma única menção à Groenlândia. Em carta ao primeiro-ministro da Noruega, Trump deixou claro que não ter ganhado o Nobel da Paz pesa em sua vontade de conquistar a ilha. Ou seja, a anexação decorre muito mais de uma idiossincrasia de Trump do que qualquer outro motivo. E, em nome dessa psicologia primitiva, a ordem mundial está em risco.

A ordem mundial que Trump hoje julga como desvantajosa na verdade manteve os EUA no topo do poder político e econômico global. O mundo inteiro tem no dólar e nos ativos do Tesouro americano um porto seguro, garantindo que os EUA possam se endividar em níveis muito mais altos do que qualquer outra economia. A confiança que permitiu isso já está sendo corroída. O dólar vem perdendo valor paulatinamente, visto cada vez menos como um porto seguro econômico. Antes, confusão no mundo significava dólar em alta; isso já não é mais verdade.

Nem a Otan nem a Europa como um todo tem como defender militarmente a Groenlândia. A ideia de que há uma bala de prata econômica que a Europa possa utilizar —como a venda em massa de títulos americanos— é enganosa; os trilhões em títulos estão nas mãos de diversos investidores, em sua maioria privados. Ela é de fato mais dependente dos EUA do que vice-versa, dependência que inclui a importação de equipamento militar. No curto prazo, talvez a retaliação econômica não seja a melhor alternativa para a Europa. O que está claro —não só para ela como para todos os países do mundo— é que depender dos EUA virou um risco.

Uma vez que o tabu foi quebrado, é impossível voltar atrás. Mesmo depois de Trump deixar a Casa Branca, o mundo sabe que a adesão americana às regras e compromissos das relações internacionais não é automática e pode ser usada como arma de negociação para conseguir concessões em diversas áreas, de acordo com o interesse do governo da vez.

A maior beneficiária imediata disso é a China, que aliás carece de um sistema de alianças militares como a Otan, que agora vislumbra seu fim. Isso já está acontecendo. O Canadá anunciou na semana passada uma parceria econômica com a China para se adaptar à "nova ordem mundial" —inicialmente só reduziram algumas poucas tarifas mútuas, mas uma agenda de investimentos mais ambiciosa se apresenta. A própria Europa parece ter, tardiamente, percebido o risco de sua dependência.

Em sua fixação por ficar em "primeiro lugar", Trump apenas promove a decadência americana e acelera a transição para um mundo que dependa menos dos EUA.

domingo, 18 de janeiro de 2026

Os benefícios surpreendentes de se ficar de pé em uma perna só, FSP

 A menos que você seja um flamingo, provavelmente não investirá muito tempo se equilibrando em uma perna só.

E, dependendo da sua idade, este exercício pode ser surpreendentemente difícil.

Equilibrar-se sobre uma das pernas normalmente é muito fácil quando somos jovens. Nossa capacidade de manter essa posição costuma se consolidar entre nove e 10 anos de idade. E nosso equilíbrio chega ao pico pouco antes dos 40 anos, quando começa a declinar.

Mas, se você tiver mais de 50 anos, sua capacidade de se equilibrar em uma perna só por mais de alguns segundos pode trazer um nível surpreendente de informação sobre sua saúde em geral e a qualidade do seu envelhecimento.

Adulto de calça jeans e criança com blusa rosa e calça vinho levantam uma perna, equilibrando-se em um tapete claro em sala com sofá cinza ao fundo.
Equilibrar-se sobre uma perna só pode deixar você mais forte, melhorar sua memória e manter seu cérebro mais saudável - Getty Images

Existem boas razões para passar mais tempo se equilibrando em uma perna só.

Este exercício aparentemente simples pode trazer uma série de benefícios para o corpo e a mente, ao ajudar a reduzir o risco de quedas, aumentar a resistência e melhorar a memória. Por isso, seus efeitos para a saúde podem ser imensos, à medida que envelhecemos.

"Se você achar que não é fácil, está na hora de começar a treinar seu equilíbrio", afirma a especialista em medicina de reabilitação Tracy Espiritu McKay, da Academia Americana de Medicina Física e Reabilitação.

Por que se preocupar com o equilíbrio?

Um dos principais motivos que levam os médicos a usar a permanência sobre uma perna só como avaliação da saúde é sua relação com a perda progressiva de tecido muscular relacionada à idade, também chamada de sarcopenia.

Dos 30 anos de idade em diante, nós perdemos massa muscular à velocidade de até 8% por década. E, quando atingimos os 80 anos, pesquisas indicam que até 50% das pessoas sofrem de sarcopenia clínica.

Esta condição foi relacionada a todo tipo de fatores, incluindo a redução do controle do açúcar no sangue até a queda da imunidade contra doenças.

Mas, como a sarcopenia afeta a resistência de diversos grupos musculares, ela também se reflete na nossa capacidade de equilíbrio sobre uma perna só.

Paralelamente, as pessoas que praticam treinamento com uma das pernas são menos propensas a sofrer de sarcopenia nas suas últimas décadas de vida, pois este simples exercício ajuda a manter os músculos das pernas e dos quadris em boas condições.

"A capacidade de permanecer sobre uma perna só diminui com a idade", segundo Kenton Kaufman, diretor do laboratório de análises motoras da Clínica Mayo em Rochester, no Estado americano de Minnesota.

"Pessoas com mais de 50 ou 60 anos começam a perceber esta redução, que aumenta consideravelmente a cada década de vida seguinte", explica ele.

Existe também outra razão mais sutil, que torna nossa capacidade de se equilibrar em uma perna só tão importante: a sua relação com o cérebro.

Esta posição aparentemente simples exige não apenas força muscular e flexibilidade. Ela também requer a capacidade do cérebro de integrar as informações que vêm dos seus olhos, do centro de equilíbrio no ouvido interno, conhecido como sistema vestibular, e do sistema somatossensorial, uma complexa rede de nervos que nos ajuda a perceber a posição do corpo e do chão sob os nossos pés.

"Todos estes sistemas se degradam com a idade, em diferentes velocidades", explica Kaufman.

Isso significa que nossa capacidade de permanecer sobre uma perna só pode revelar muito sobre o estado de importantes regiões do cérebro, segundo McKay.

Elas incluem as regiões envolvidas na velocidade de reação, nossa capacidade de realizar as tarefas do dia a dia e a rapidez com que conseguimos integrar informações dos nossos sistemas sensoriais.

Com o avanço da idade, todos nós sofremos uma certa atrofia ou contração cerebral. Mas, se ela começar a acontecer com muita rapidez, poderá impedir nossa capacidade de permanecer fisicamente ativos e viver independentemente nos últimos anos, além de aumentar nosso risco de quedas.

Dados coletados pelos Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos demonstraram que as quedas não intencionais, tipicamente causadas pela perda de equilíbrio, são a principal causa de lesões entre pessoas com mais de 65 anos no país.

Os pesquisadores afirmam que praticar exercícios com uma perna só pode ser uma boa forma de reduzir este risco de queda.

Kaufman explica que as quedas costumam ser causadas pelo declínio da velocidade de reação.

"Imagine que você esteja andando e encontra uma rachadura na calçada", exemplifica ele.

"Na maioria das vezes, cair não é questão de força, mas de poder mover a perna com velocidade suficiente e levá-la para onde ela precisa ir, evitando a queda."

Nossa capacidade de permanecer sobre uma perna só reflete assustadoramente nosso risco de morte prematura a curto prazo.

Em um estudo de 2022, idosos ou pessoas de meia-idade incapazes de se manter sobre uma perna só por 10 segundos apresentaram 84% mais probabilidade de morrer de qualquer causa nos sete anos seguintes.

Outro estudo reuniu 2.760 homens e mulheres na casa dos 50 anos de idade e os colocou em três testes: força de aperto, quantas vezes eles conseguem se sentar e levantar em um minuto e por quanto tempo eles conseguem ficar sobre uma das pernas com os olhos fechados.

O teste de permanência sobre uma perna se mostrou o melhor indicador do seu risco de doenças.

Nos 13 anos seguintes, os participantes que conseguiram se manter sobre uma perna só por apenas dois segundos ou menos apresentaram três vezes mais probabilidade de morrer do que os que conseguiram permanecer por 10 segundos ou mais.

McKay afirma que este mesmo padrão pode ser observado até mesmo em pessoas diagnosticadas com demência. Aquelas que ainda conseguem se equilibrar em uma perna só sofrem declínio mais lento.

"Em pacientes com Alzheimer, os pesquisadores estão realmente descobrindo que, se não conseguirmos ficar sobre uma perna por cinco segundos, este normalmente é um sinal de declínio cognitivo mais rápido", segundo ela.

Treinar o equilíbrio

A boa notícia é que as pesquisas demonstram cada vez mais que podemos fazer muito para reduzir os riscos desses problemas relativos à idade, praticando ativamente o equilíbrio em uma perna só.

Estes exercícios podem promover não só os músculos das costas, pernas e quadris, mas também melhorar a saúde do cérebro.

"Nossos cérebros não são fixos", explica McKay. "Eles são bastante maleáveis."

"Esses exercícios com uma perna só realmente promovem o controle do equilíbrio e, de fato, mudam a estrutura do cérebro, especialmente em regiões envolvidas com a integração dos motores sensoriais e a nossa consciência espacial."

Equilibrar-se sobre uma perna só também pode promover nosso desempenho cognitivo, ao realizar tarefas ativando o córtex pré-frontal do cérebro. Um estudo demonstra que eles podem até aprimorar a memória de trabalho de jovens adultos saudáveis.

McKay recomenda que todas as pessoas com mais de 65 anos deveriam começar a fazer exercícios com uma perna só pelo menos três vezes por semana, para aumentar a mobilidade e reduzir o risco de sofrer quedas no futuro. Mas, idealmente, ela aconselha os idosos a incorporar este exercício à rotina diária.

E iniciar a prática deste tipo de exercício com menos idade pode trazer benefícios ainda maiores.

O pesquisador de medicina do exercício Cláudio Gil Araújo, da clínica Clinimex, no Rio de Janeiro (RJ), liderou o estudo de 2022, que examinou a relação entre permanecer em pé com uma perna só e o risco de morte prematura.

Ele indica que pessoas com mais de 50 anos devem avaliar sua própria capacidade de permanecer sobre uma perna só por 10 segundos.

"Este exercício pode ser facilmente incorporado às suas atividades diárias", orienta Araújo.

"Você pode ficar de pé por 10 segundos em uma das pernas e trocar para a outra em seguida, enquanto escova os dentes. Também recomendo fazer isso com os pés descalços e usando calçados, pois há uma leve diferença."

O motivo é que usar calçados gera diferentes níveis de estabilidade, em comparação com os pés descalços.

Atividades diárias, como ficar de pé em frente à pia ao escovar os dentes ou se lavar, são oportunidades perfeitas para treinar nossas habilidades de ficar de pé em uma perna só, segundo os pesquisadores.

Tente balançar o mínimo possível, pelo máximo de tempo que puder. Podem advir ganhos passando apenas 10 minutos por dia praticando o equilíbrio.

Exercícios suaves de fortalecimento dos quadris com resistência moderada (também conhecidos como exercícios isocinéticos) também podem ajudar a melhorar nossa postura com uma perna só.

Estudos demonstraram que uma combinação de exercícios de força, treinamento aeróbico e equilíbrio pode reduzir fatores de risco associados a quedas em 50%.

Esta relação também pode explicar por que atividades como ioga e tai chi chuan, que costumam envolver posições sobre uma perna só, foram relacionadas ao envelhecimento saudável.

Kenton Kaufman indica um estudo que relacionou o tai chi chuan à redução do risco de quedas em 19%.

Ainda mais otimista, Cláudio Gil Araújo concluiu que, com persistência e consistência, é possível manter bom equilíbrio até a casa dos 90 anos de idade e talvez mais além.

"Na nossa clínica, avaliamos uma senhora de 95 anos, capaz de se manter em pé satisfatoriamente por 10 segundos sobre cada perna", ele conta.

"Podemos treinar e melhorar o desempenho dos nossos sistemas biológicos até os últimos dias de vida, mesmo entre os centenários."