terça-feira, 27 de outubro de 2026

Os velhos só serão respeitados depois de mortos e mumificados, João Pereira Coutinho _ FSP

 Consentimento! À sombra de uma palavra, a civilização vai perdendo o juízo. Duas notícias, na mesma semana, oferecem um retrato do manicômio.

Na Escócia, o museu Kelvingrove removeu de exposição o corpo mumificado do sacerdote Nekht. Já o museu Hunterian optou por cobrir a múmia de Lady Shep-En-Hor com um véu. Por uma questão de pudor. As múmias, ao que parece, não deram o seu "consentimento informado" para serem expostas em público.

É natural. Quando Nekht foi sepultado, milhares de anos atrás, suspeito que o "consentimento informado" ainda não tinha feito carreira na burocracia egípcia. Os problemas eram mais rasteiros, como as cheias do Nilo e a eternidade.

Fato: não sabemos se Nekht gostaria de ser exposto num museu. Mas será que preferiria passar a eternidade num depósito de Glasgow, cidade conhecida por uma umidade atroz? Se as múmias pudessem falar, talvez não se importassem com as vitrines. Afinal, é uma forma de permanecerem na memória dos vivos, a suprema ambição da turma.

Não vão permanecer. Nekht descerá aos porões do museu, longe de olhares curiosos, entregue à penumbra e ao inventário.

Composição com três múmias sentadas com aparência envergonhada, vestindo roupas de baixo estampadas de florzinhas vermelha
Angelo Abu/Folhapress

Lady Shep-En-Hor, com seu véu, terá direito a uma mumificação sobre a mumificação, por uma questão de privacidade. Há apetites do turista ocasional que devem ser cuidadosamente evitados.

Agora que penso nisso, é uma curiosa evolução: conta o historiador Heródoto que, no Egito Antigo, o corpo de uma mulher bela ou de boa família só era entregue ao embalsamador quando já dava sinais de putrefação. Não fossem os profissionais perder a compostura.

Hoje, 25 séculos depois, a senhora continua sob vigilância. Mudou apenas o suspeito: já não é o embalsamador, mas o visitante de celular na mão.

Ao lado, na Irlanda, a loucura não se ocupa de mortos milenares; ocupa-se de crianças contemporâneas. Um filme publicitário de uma ONG de apoio a vítimas de estupro lembra aos avós irlandeses que os netos nem sempre consentem em ser abraçados.

Desconfio que os avós sempre souberam como lidar com isso. Exatamente como os netos, que também sabem expressar seu repúdio, fugindo alegremente dos amassos.

Seja como for, as duas notícias têm uma simetria quase perfeita: em ambos os casos, o consentimento é elevado à categoria de problema metafísico. As múmias não podem dá-lo, porque estão mortas; as crianças o manifestam à sua maneira, porque estão vivas.

Moral da história?

O problema está nos adultos. Na forma como projetam suas obsessões e fantasmas por meio da linguagem neutra da burocracia.

Nas múmias, projeta-se a culpa colonial de quem, depois de ter se apropriado dos mortos alheios, se arroga agora o direito de decidir o que lhes convém. É uma nova forma de colonialismo –o colonialismo dos bons sentimentos– que nem sequer se deu ao trabalho de consultar os egípcios vivos.

Mal por mal, seria preferível devolver as múmias ao Egito e permitir que os museus do Cairo as exibissem, como efetivamente fazem, sem os pudores ridículos dos ocidentais.

Nas crianças, projeta-se algo de pior: o medo paranoico do abuso, como se houvesse em cada avô um predador em potencial. A mesma época que tem tanto medo de ofender as múmias não hesita em ofender os mais velhos. Que, por sua vez, só serão respeitados depois de mortos –e, de preferência, mumificados.

É por essas e outras que já pensei no meu "consentimento informado". Família e amigos sabem do meu horror aos vermes da terra, roendo "as frias carnes do meu cadáver". Sim, também li o meu Machado.

Minha simpatia vai para o empalhamento, como aconteceu com o filósofo Jeremy Bentham, que o pediu em testamento.

O corpo embalsamado de Jeremy Bentham
O corpo embalsamado de Jeremy Bentham - Reprodução

E assim foi: dois séculos depois, sentado e devidamente acolchoado, podemos vê-lo numa vitrine do University College de Londres. Só a cabeça é de cera, porque a outra, a verdadeira, mal conservada, está guardada a sete chaves, depois de ter sido roubada pelos estudantes.

Eu prefiro uma posição mais horizontal: na cama, de roupão, lendo o jornal e sorrindo com as notícias das múmias escocesas.

Desde já informo que proíbo qualquer véu, por mais pudico que seja o curador, e agradeço que nenhum estudante se aproxime da minha cabeça, especialmente se tiver sido meu aluno. Autorizo abraços dos avós aos netos na minha presença.

Colada à vitrine, a legenda para os visitantes do século 25: "Português adulto em repouso, século 21. Exposto com o seu consentimento."

Liderança evangélica previu que Flávio perderia para Lula - Juliano Spyer - FSP

 Na reta final, o campo evangélico parecia fechado com Flávio.

A apóstola Valnice Milhomens, da Igreja Nacional do Senhor Jesus Cristo, apoiadora engajada do senador, profetizou que "não haverá inferno que impeça o mover de Deus nesta nação". A frase "vamos orar pelo Brasil" ecoou como código para pedir engajamento.

No centenário da Assembleia de Deus Madureira, no Maracanãzinho, o bispo Samuel Ferreira disse que pediria voto para Flávio Bolsonaro se pudesse e fez o público repetir "irmão vota em irmão".

Nenhum pastor de grande igreja vai admitir isso agora, enquanto a direita lambe as feridas e alimenta teorias conspiratórias, mas eles não queriam Flávio e jogaram parados durante quase toda a pré-campanha. A religião só entrou em campo em setembro, quando André Mendonça tornou públicas as mensagens entre Alexandre de Moraes e Vorcaro e o contrato do banqueiro com a mulher do ministro. Mendonça incendiou a disputa; os pastores vieram depois.

Homem de terno escuro ajoelhado com as mãos abertas para cima, ao lado de outro homem de terno azul claro com braços erguidos. Pessoas observam ao fundo em ambiente interno com carpete e iluminação de teto.
Flávio Bolsonaro reza enquanto é abençoado pelo pastor José Wellington, durante reunião de obreiros da Assembleia de Deus em São Paulo Ministério do Belém - Flavio Bolsonaro no Instagram

Quando Jair Bolsonaro anunciou o filho, Silas Malafaia disse em vídeos e entrevistas que candidatura "não é negócio de família" e defendeu Tarcísio. Em abril, na Assembleia de Deus Belém, Flávio recebeu a oração do pastor José Wellington e, no mesmo encontro, ouviu o deputado e pastor Marco Feliciano cobrar da família Bolsonaro reciprocidade com os evangélicos, em vez de uma relação de via única.

Para esses líderes, quem venceria Lula era Tarcísio. Flávio tinha mais chance de perder e, se eleito, comprometeria o projeto de poder da direita. Pesavam contra ele a mansão de R$ 6 milhões financiada pelo BRB, os imóveis pagos com dinheiro vivo, o dinheiro de Vorcaro para o filme sobre o pai e a mentira admitida sobre os encontros com o ex-banqueiro.

Em privado, pastores comparam a família Bolsonaro à de Eli, sacerdote do primeiro livro de Samuel. Eli, como Jair, seria um homem honrado que não soube educar e conter os filhos, que roubavam as ofertas do templo e cometiam atos imorais.

Flávio tem ainda outro atrito com a liderança evangélica. Um interlocutor o descreveu como "novo crente", termo derivado de "novo rico": alguém que quer parecer mais evangélico do que é, usa a fé politicamente sem conhecer a Bíblia e chegou à religião por uma igreja vista como deslumbrada pelo poder, a Comunidade das Nações.

Quando enfim apoiaram Flávio, os pastores agiram com pragmatismo. Ele era o nome da direita que tinha o voto bolsonarista e chance de vencer. Somaram-se a isso a pressão dos fiéis e o interesse de estar perto de um possível presidente. Antes da arrancada de Flávio, porém, eles admitiam entre si que tinham desistido de 2026 e já pensavam em Tarcísio para 2030.

PS: Na vitória, o PT não mencionou Otoni de Paula. Conservador nos costumes e ex-cabo eleitoral do bolsonarismo, o deputado não se reelegeu ao declarar voto em Lula no primeiro turno. Mas não se entregou. Visto com desconfiança pelos petistas, pode ser útil para negociar com as grandes igrejas, algo que o PT e seus evangélicos não quiseram ou não conseguiram fazer.

segunda-feira, 26 de outubro de 2026

Pesquisadora da polilaminina chama ciência de religião e compara cientistas críticos a ela a Mengele - OESP


Confira o resumo que a LE.IA, a IA do Estadão, fez pra você

A bióloga Tatiana Sampaio, pesquisadora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e responsável pelo desenvolvimento da polilaminina, fez uma série de críticas aos cientistas que vêm questionando a forma com que os estudos iniciais da substância foram conduzidos e apresentados à população.

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Em um vídeo publicado nas redes sociais na quarta-feira, 21, Tatiana disse que “a ciência é a religião do nosso tempo” e que, nessa lógica, “os cientistas são sacerdotes”. Em mais uma fala polêmica, comparou especialistas que defendem o método científico a Josef Mengele, médico do regime nazista que conduziu experimentos desumanos em campos de concentração durante a Segunda Guerra Mundial.

“Hoje, os cientistas ocupam na nossa sociedade um papel muito parecido com aqueles sacerdotes de antigamente. [...] Só eles podem dizer o que é verdade, e somente por meio deles você pode conhecer a verdade. Então a ciência ocupa na nossa sociedade exatamente o mesmo lugar de poder que a religião ocupou no passado”, declarou ela.

A polilaminina é uma molécula desenvolvida na UFRJ e que está sendo estudada para o tratamento de pacientes que ficaram paraplégicos ou tetraplégicos após uma lesão medular espinhal. Por enquanto, ela só teve sua segurança avaliada em um estudo piloto com oito pacientes, dos quais três morreram. A substância ainda não passou pelos estudos clínicos padronizados necessários para a avaliação da eficácia e segurança de novos fármacos.

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A divulgação dos resultados do estudo piloto no ano passado por Tatiana e pela Cristália como supostas evidências de que a substância é segura e efetiva atraiu muitas críticas da comunidade científica, que defende a realização de estudos rigorosos, com grupo controle, para avaliar se a terapia experimental, de fato, tem benefícios.

O grupo controle é um conjunto de participantes de um estudo clínico que, em vez de receber o tratamento em teste, recebe um placebo ou o tratamento padrão existente para aquela doença. O objetivo é comparar os resultados de ambos os grupos ao final do período de acompanhamento para ver se houve desfecho diferente nos que foram tratados com a terapia promissora.

Sem essa comparação, fica difícil saber se uma eventual melhora no grupo que recebeu o novo medicamento foi realmente causada pela substância, por outros cuidados recebidos (como cirurgia ou outros medicamentos) ou pela própria evolução natural da doença. Portanto, o grupo controle é tido como fundamental para estabelecer a relação de causalidade, ou seja, qual fator foi o responsável pelo desfecho observado.

A bióloga Tatiana Sampaio é pesquisadora da UFRJ e líder da equipe que desenvolveu a polilaminina
A bióloga Tatiana Sampaio é pesquisadora da UFRJ e líder da equipe que desenvolveu a polilaminina Foto: Pedro Kirilos/Estadão

Estudos randomizados com grupo controle são considerados o padrão-ouro da pesquisa clínica e praticamente todos os medicamentos novos aprovados por agências regulatórias precisam ter passado por esse processo para obter o registro.

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Mas Tatiana já declarou diversas vezes considerar desnecessária a inclusão de um grupo controle nos estudos da polilaminina por acreditar que já há evidência de eficácia e segurança da substância e por considerar antiético deixar um grupo de participantes do estudo sem acesso a uma terapia que poderia devolver movimentos a quem não tem outras opções terapêuticas. Por essa posição, ela vem sendo criticada. A Anvisa e especialistas destacam que não há dados confiáveis sobre os riscos e benefícios da terapia.

No vídeo desta semana, a bióloga chegou a comparar os cientistas que defendem o método científico à Josef Mengele. “Vocês já ouviram falar do carrasco nazista Josef Mengele? Ele fazia experimentos com seres humanos no campo de concentração de Auschwitz. Ele queria a metodologia científica perfeita. Então, ele selecionava pares de gêmeos idênticos com a mesma constituição genética. E aí ele fazia a mesma maldade com os dois. Depois, ele dava tratamento só para um e não dava para o outro. Então, ele tinha o grupo controle perfeito. Como cientista, ele estava ok. Só que, na ética, ele estava agindo como um monstro”, declarou.

Vale lembrar que Mengele conduzia experimentos eugenistas sem qualquer respaldo de códigos de ética ou protocolos de pesquisa, e, obviamente, sem autorização dos participantes. Usando práticas cruéis e desumanas, ele fazia intervenções cirúrgicas sem anestesia, provocava sofrimento nos prisioneiros para testar hipóteses e ordenava a morte de pessoas doentes ou com deficiências.

As principais normas internacionais que atualmente regem a pesquisa clínica no mundo foram editadas após a Segunda Guerra justamente para resguardar a segurança, a autonomia e o bem-estar de qualquer participante de um estudo clínico. Hoje, todas as pesquisas científicas feitas em humanos precisam passar por avaliação de comitês de ética e seguem regras rígidas.

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Tatiana também atacou diretora da Anvisa

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As falas contrárias a outros cientistas foram feitas em vídeo publicado por Tatiana para criticar as restrições impostas pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) ao uso compassivo da polilaminina. Nessa modalidade, a agência autoriza, em caráter excepcional, o uso de uma droga ainda em estudos para tratar condições graves para as quais não há outra opção terapêutica.

As restrições ao uso compassivo da polilaminina foram adotadas pela Anvisa em abril, após a agência ser comunicada pela Cristália, laboratório envolvido no estudo, de cinco mortes registradas entre os cerca de 50 pacientes que haviam recebido a droga até então.