Outro dia, enquanto cortava o cabelo com Fagner, meu cabeleireiro, ouvi uma frase curiosa. Em meio às brincadeiras do salão, ele comentou: “No Brasil, todo pobre tem um avô rico”. Fez uma pausa e completou: “Pelo menos na história que ele conta”.
A frase provocou risos. Mas Fagner, com a lucidez que às vezes só o humor permite, talvez tenha tocado em algo mais profundo do que a risada sugeria.
Parece-me que nesta brincadeira possa se esconder uma certa resignação coletiva. Uma aceitação silenciosa de que certas condições sociais são imutáveis. Como se a prosperidade pertencesse sempre a um passado distante, e não a algo que possa ser construído coletivamente no presente. Talvez haja também certa ironia cansada diante de um país que parece, aos olhos de muitos, não conseguir sair do lugar.
O mais perturbador é que, em certo sentido, os números dão razão à brincadeira. Entre 2000 e 2024, segundo o Banco Mundial, em dólares de 2021 ajustados por paridade de poder de compra, a renda média anual por pessoa no Brasil aumentou cerca de US$ 5,6 mil (+40%). Parece razoável, até que se olha ao redor. No mesmo período, a Coreia do Sul avançou US$ 28,7 mil por pessoa (+109%), a Polônia US$ 26,6 mil (+143%), a China quase US$ 20 mil (+486%), os Estados Unidos US$ 20,5 mil (+37%) e o Chile US$ 12,7 mil (+72%). E a média mundial? Cerca de US$ 8,6 mil (+68%). Quando até os Estados Unidos, partindo de um patamar muito superior, crescem quase tanto em porcentual, a gravidade da situação brasileira fica clara.
O Brasil não está apenas longe do topo. Está abaixo da média do planeta. Em relação à média mundial, o brasileiro de hoje está pior posicionado do que o brasileiro de 2000 estava. É uma divergência crescente: a cada ano, a distância em relação aos mais prósperos não diminui. Só aumenta. É difícil não se incomodar com isso. Na era das redes sociais, qualquer pessoa conectada percebe a distância crescente entre a vida nos países dinâmicos e a realidade brasileira.
E não existe motivo legítimo para isso. O Brasil foi extraordinariamente abençoado: escala continental, recursos naturais imensos, energia renovável abundante, biodiversidade ímpar, uma sociedade diversa e criativa, um mercado interno de mais de 210 milhões de pessoas. São ativos que deveriam colocar o País na série A da economia mundial. Hoje, está longe disso.
Muitos brasileiros cresceram com a ideia de viver no “país do futuro” – como se o destino brilhante fosse garantido. Mas há muitos candidatos a esse destino. O Brasil pode ter o DNA certo, mas DNA sozinho não garante pódio. Sem treino e disciplina, o talento mais promissor fica pelo caminho.
Convergir para os melhores não é abstração. Significa melhores escolas, melhor saúde, melhores salários, mais ciência, mais cultura, mais oportunidades para que cada brasileiro, independentemente de sua origem, possa realizar seu potencial. Outros países partiram de condições semelhantes ou piores e chegaram ao topo em poucas décadas. A Coreia do Sul, a Polônia, a China e até os Estados Unidos são provas vivas de que a transformação é possível, e cada um deles tem algo a ensinar. Para um país com as condições do Brasil, a prosperidade deveria ser consequência natural. Se não veio, é resultado de escolhas. E escolhas podem ser mudadas.
Não é produtivo procurar culpados, sejam partidos, governos, grupos sociais ou forças estrangeiras. Isso não muda a realidade. A responsabilidade sempre foi e sempre será do povo brasileiro. Quando o barco faz água, ninguém espera que outro comece. Todos agem. E cada brasileiro faz parte dessa resposta, por mais humilde que seja. São precisamente aqueles que mais lutam no dia a dia os que mais têm a ganhar quando o País avança, para si, para seus filhos e netos.
É o povo que escolhe seus representantes, suas prioridades, seu futuro. E os brasileiros sabem que, para fazer as escolhas certas, o caminho passa por se informar, estudar, compreender o que funciona e o que não funciona. Os partidos, o debate político, as instituições: tudo é reflexo das escolhas de uma nação.
O Brasil está diante de dois caminhos. Pode seguir na mesmice e constatar daqui a 25 anos que a distância virou um oceano. Ou pode se mobilizar, com a mesma energia com que defende sua seleção, e fazer acontecer. Como qualquer atleta que almeja o pódio, um país que quer convergir para os melhores precisa de inspiração, disciplina e persistência. Os brasileiros sabem, no fundo, que nenhuma salvação virá de fora. Que o esforço nasce de dentro. E que um país com esse potencial não pode se dar ao luxo da acomodação. O caminho é longo, mas é um caminho que, percorrido com determinação, pode colocar o Brasil num patamar que dará orgulho aos netos de todos os brasileiros.
Pois o verdadeiro sinal de vitalidade de uma nação não depende de quantos dizem ter tido um avô rico, e sim de quantos, pela própria energia e por um ambiente favorável, se tornam o avô bem-sucedido de um futuro neto.