domingo, 19 de julho de 2026

A política da nova opacidade - Marcus André Melo, FSP

 

Por que um parlamentar abriria mão de receber o crédito por uma obra, um hospital ou uma quadra que ajudou a financiar? A pergunta é contraintuitiva. Durante décadas, a ciência política explicou a política distributiva justamente pela busca desse reconhecimento. O deputado destinava recursos ao seu reduto, inaugurava obras e esperava transformar a visibilidade em votos.

O orçamento secreto sugere que essa lógica pode ter sido invertida.

Plenário da Câmara dos Deputados com deputados sentados e em pé, alguns reunidos no centro. Painéis eletrônicos exibem informações legislativas. Ambiente interno amplo com cadeiras organizadas em semicírculo.
O plenário da Câmara dos Deputados durante a sessão de discussão e votação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Segurança Pública - Pedro Ladeira - 4.mar.26/Folhapress

Há mais de duas décadas, o cientista político David Samuels mostrou que, no Brasil, as emendas parlamentares não refletiam uma busca de crédito mas sim as redes políticas e, sobretudo, o financiamento privado que sustentava suas carreiras. Os projetos não buscavam o voto mas o doador: alimentavam o caixa dois que bancava as campanhas e outras cositas, é claro. O orçamento secreto acrescenta um novo elemento a essa história. O desafio deixou de ser apenas converter recursos em apoio político. Passou a ser preservar o controle sobre sua distribuição sem assumir publicamente sua autoria.

O volume de recursos movimentados —que reflete o enfraquecimento do poder orçamentário do Executivo— criou incentivos para a nova opacidade. Consolidou-se um modelo em que parlamentares preservam influência sobre o gasto público enquanto reduzem a visibilidade de sua participação.

O dinheiro chega ao destino; a assinatura desaparece.

O paradoxo é apenas aparente. A mesma transparência que permite ao parlamentar reivindicar uma obra também permite que jornalistas, órgãos de controle, adversários e eleitores reconstruam o caminho do dinheiro. Tornar-se visível significa tornar-se rastreável.

Esse cálculo ficou mais complexo depois da Lava Jato. As investigações elevaram os custos da exposição pública. O desmonte da operação levou à diminuição brutal desses riscos. Seria razoável imaginar que os incentivos para ocultar a autoria das decisões fossem reduzidos.

Ocorreu exatamente o contrário.

A opacidade aumentou, se tornou um ativo político e passou a desempenhar funções que vão muito além da autoproteção. Ao mesmo tempo, outra transformação alterava o funcionamento do Congresso. Desde a pandemia, a combinação entre a expansão das emendas, as mudanças na execução orçamentária e a crescente delegação de poderes às lideranças partidárias concentrou poder nas presidências da Câmara e do Senado. A opacidade expressa e reforça esse movimento, como mostrei aqui. Quanto menos transparente a autoria das decisões, maior a influência de quem controla a distribuição dos recursos e das informações sobre sua origem.

Esse estado de coisas chega ao que à primeira vista parece impensável: a indicação de emendas por agentes de fora do Congresso, como o Eduardo Cunha. Mas a indicação conta com o beneplácito das lideranças congressistas!

O orçamento secreto tornou-se símbolo de corrupção. Seu problema mais profundo é a separação entre influência e responsabilidade, que corrói a própria representação política. Oxalá o combate à opacidade, protagonizado pelo ministro Flávio Dino e pelo TCU, alcance a atuação do próprio STF e do TCU nos escândalos do Banco Master e das fraudes no INSS.

Por que estrangeiros estão comprando tantos imóveis no Brasil - DW _FSP

 Matheus Gouvea de Andrade

DW

O Brasil "estar na moda" já tem reflexos no mercado imobiliário do país. Regiões como a zona sul do Rio de Janeiro e o litoral de Santa Catarina têm registrado um aumento robusto na busca de imóveis por estrangeiros nos últimos anos.

O interesse vai além de uma mera busca por um lugar onde se hospedar e tem sido encarado por vários compradores como um investimento. Mas o fenômeno também tem gerado efeitos indesejados, ajudando a alimentar uma alta do preço de aluguéis, o que deve elevar a pressão por regulações.

Em 2025, o Brasil registrou um recorde de 9,2 milhões de visitantes estrangeiros. E os cinco primeiros meses de 2026 já somaram 4,9 milhões.

Vista aérea do Rio de Janeiro mostrando o Cristo Redentor de braços abertos no topo do Corcovado, com a Baía de Guanabara e o Pão de Açúcar ao fundo. A cidade se estende com prédios e áreas verdes sob céu claro.
Nos bairros cariocas de Ipanema e no Leblon, pesquisas mostram que 30% dos imóveis compactos recém-lançados foram comercializados para estrangeiros - Yuri Barichivich - 1.mar.16/Folhapress

Paralelamente, há um aumento de interesse por estadias no país especialmente após a pandemia.

Em cidades como Rio de Janeiro e Florianópolis, o período foi marcado por uma maior busca de imóveis por profissionais trabalhando em home office e os chamados nômades digitais. No caso carioca, a prefeitura local chegou a lançar em 2021 um programa visando atrair esse tipo de profissional.

"Os avanços nas vendas são identificados principalmente nos imóveis compactos recém-lançados. Em Ipanema e no Leblon, pesquisas mostram que 30% dessas unidades foram comercializadas para estrangeiros", afirma o presidente do Sinduscon (Sindicato da Indústria da Construção Civil) no estado do Rio de Janeiro), Claudio Hermolin.

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O diretor regional de relações internacionais do Creci (Conselho Regional de Corretores de Imóveis) de Santa Catarina, Marco Aurélio Lievore, apontou que, num levantamento de uma imobiliária em Florianópolis, 83% das vendas foram para clientes argentinos buscando apartamentos na planta.

"Os empreendimentos buscados em sua grande maioria são estúdios. Há muitos estrangeiros que passam férias aqui e depois vem procurar um lugar para morar ou investir", conta.

Entre as nacionalidades, americanos e argentinos se destacam entre os investimentos. Europeus de uma série de países, como França e Suíça, aparecem também entre os principais compradores, enquanto há registro ainda de um interesse crescente de cidadãos dos Emirados Árabes Unidos.

Atrativos no mercado global

Plataformas também tornaram mais atrativa a ideia de comprar um imóvel em outro país e obter renda à distância. Além disso, empresas vêm focando na oferta de serviços para o público externo, como na gestão destas propriedades.

A Lobie, empresa especializada na área, aponta que a participação de estrangeiros em sua carteira passou de cerca de 2% para 18% em três anos. Hoje, a companhia administra aproximadamente 1.620 estúdios de investidores de fora do Brasil.

"A vantagem desse tipo de imóvel para o comprador estrangeiro é a atratividade da cidade: ele pode utilizá-lo em períodos de férias e grandes eventos e, quando não for utilizado pelo próprio comprador, é um imóvel de grande procura", aponta Hermolin. "A receita obtida certamente paga a manutenção e deixa algum lucro", afirma.

Entre as vantagens apontadas por Lievore estão ainda fatores cambiais.

Em países como a Argentina, imóveis são normalmente negociados em dólar, o que torna transações em reais no Brasil mais atrativas. Além disso, o diretor aponta grande potencial de valorização do mercado brasileiro, especialmente quando em comparação com regiões litorâneas mais saturadas no mundo, como Miami, nos Estados Unidos, e o Algarve, em Portugal.

Há ainda a facilidade nos trâmites na comparação com outros países. "O Brasil é um país fácil de conseguir residência, é algo que ajuda muito", aponta Lievore. No caso catarinense, ele aponta um fluxo recente de russos, que se intensificou após a guerra na Ucrânia, e que visam especialmente obter um passaporte brasileiro.

Uma resolução do CNIg (Conselho Nacional de Imigração) permite aos estrangeiros que comprarem imóveis no Brasil solicitar autorização de residência. Pessoas físicas devem comprar um imóvel no valor mínimo de R$ 1 milhão e com recursos próprios de origem externa.

Roda-gigante branca em primeiro plano à esquerda, com praia extensa e curva ao centro e à direita. Ao fundo, prédios altos formam skyline sob céu nublado. Pessoas e estruturas temporárias na areia.
Lançamentos imobiliários em Balneário Camboriú têm atraído estrangeiros - Anderson Coelho/DW

Airbnb em ascensão

O mercado brasileiro também já é o terceiro do mundo com mais anúncios de Airbnb, atrás somente de Estados Unidos e França, mas com um dos crescimentos mais acelerados nos últimos anos.

Desde 2022, cidades como Rio de Janeiro e Florianópolis tiveram suas ofertas de anúncios mais do que dobradas no Airbnb. No caso carioca, a plataforma AirDNA registra mais de 60 mil, enquanto a capital catarinense conta com 36 mil. Como comparação, em Barcelona, onde a modalidade será proibida a partir de 2028 pelos efeitos negativos no mercado imobiliário local, existem 26 mil anúncios.

"O Brasil vem registrando um crescimento nos anúncios acima do resto do mundo", resume Sofia Morais de Sousa, executiva de contas do AirDNA. Além dos municípios citados, São Paulo também se destaca em números absolutos, com mais de 61 mil anúncios.

Cidades no litoral catarinense exibem números comparativamente mais robustos. O AirDNA registra mais de 10 mil anúncios em Bombinhas, no estado de Santa Catarina, que tem uma população de cerca de 25 mil habitantes.

Num levantamento publicado este ano, a plataforma Inside Airbnb listou a cidade no topo do ranking de concentração de anúncios no Brasil, com 210,3 por km2. Em seguida vem Balneário Camboriú, com 138,8 por km2 e mais de 10 mil anúncios ativos.

Neste caso, a região vem ainda se notabilizando pelos lançamentos de luxo, que são outra fonte de atração de estrangeiros. Segundo a construtora do Senna Tower, projeto que planejado para ser o prédio residencial mais alto do mundo, 16% dos apartamentos já vendidos foram para estrangeiros.

Há certa mudança no perfil dos turistas no país. Em 2021, o AirDNA registrava menos de 10% de estrangeiros como hóspedes no Brasil. No último ano, o número ficou acima de 20%. Ainda assim, segue bem diferente da Europa, onde o mercado doméstico costuma ser menos relevante. No caso da Espanha, 80% dos hóspedes são estrangeiros na plataforma, enquanto na Alemanha essa porcentagem é de 45%.

Pressão por regulação

Ao redor do mundo, os efeitos do avanço das estadas de curta temporada vêm sendo acompanhados por pressões regulatórias. Além de impactos negativos nos preços dos aluguéis de longo prazo para habitantes locais, vizinhos costumam questionar mudanças no ambiente dos condomínios, incluindo hóspedes que não cumprem regras de convivência.

Em maio, o STJ (Superior Tribunal de Justiça) decidiu que a locação de imóveis residenciais em condomínios para estadias depende de autorização em assembleia com aprovação de pelo menos dois terços dos condôminos.

Por sua vez, a medida não é vista como suficiente para alterar o cenário da pressão imobiliária. Moradores já apontam aumento no custo dos aluguéis em certas cidades, como no caso de Florianópolis, que teve alta de 9% no último ano. "É o momento de entender o que está acontecendo, e a pressão no aluguel muda essa percepção", aponta Aline Cruviel, diretora de pesquisa e comunidade no Inside Airbnb.

"O discurso geral é de que é uma oportunidade de renda extra aos proprietários, mas na prática é um grupo restrito que consegue gerar renda, enquanto o todo acaba pagando os custos com a alta do aluguel", aponta. Cruviel destaca ainda empresas estrangeiras que observaram o mercado da América Latina como uma possiblidade de investimento.

Ponte Hercílio Luz atravessa o canal entre a ilha e o continente em Florianópolis, com a cidade densamente urbanizada ao fundo e morros ao longe sob céu claro.
Moradores já apontam aumento no custo dos aluguéis em certas cidades, como no caso de Florianópolis, que teve alta de 9% no último ano - Anderson Coelho/DW

Um destes casos é o da multinacional Blueground, que anuncia mais de 20 mil propriedades ao redor do mundo. No Brasil, a empresa adquiriu em 2023 a Tabas, que oferta aluguéis de curta temporada voltados principalmente para estrangeiros em cidades como Rio de Janeiro e São Paulo.

Na avaliação de Cruviel, "há uma postura de autoridades de atração de investimentos, mas que não se avalia muito o outro lado e as consequências disso".

"A tendência é de regulamentos, especialmente quando os aluguéis começam a subir", aponta Morais de Sousa. Ao redor do mundo, medidas como a limitação de número de moradias disponíveis para aluguel de curta duração em certas regiões vêm sendo tomadas.

Em Nova York, parte das regulamentações visa limitar a concentração de muitas hospedagens com os mesmos anunciantes, algo que avança no Brasil. A Seazone, empresa que atua como uma das maiores anfitriãs do Airbnb no país, divulga que possui mais de 3600 imóveis.

Pelo lado das compras por estrangeiros, o Canadá baniu em 2023 a aquisição de propriedades no país por cidadãos de outras nacionalidades por dois anos, medida que foi renovada em 2025 e deve vigorar até 2027. "Durante anos, o capital estrangeiro tem entrado no Canadá para comprar imóveis residenciais, aumentando as preocupações com a acessibilidade à habitação", argumentou o governo.

Em sentido semelhante, a Espanha avalia restrições que, nestes casos, se aplicariam a cidadãos de fora da União Europeia. Uma proposta é a imposição de impostos de até 100% nestas transações. Em Portugal, o chamado "visto de ouro" para estrangeiros que comprassem imóveis no país esteve em vigor por anos visando abrir portas para residência, no entanto, o programa foi limitado em 2023 em razão das pressões no mercado imobiliário.

9 em cada 10 cidades brasileiras já enfrentaram desastres climáticos nas últimas três décadas, Agencia Fapesp _FSP

 

Luciana Constantino
Agência Fapesp

Cada vez mais frequentes e severos, os eventos climáticos extremos, como secas e inundações, têm causado impactos ambientais, econômicos e sociais significativos no Brasil, demandando políticas públicas específicas.

Com o objetivo de transformar dados científicos em base para a formulação de ações de prevenção, adaptação e mitigação, um grupo de pesquisadores brasileiros analisou cerca de 60 mil registros de desastres desencadeados por excesso ou falta de chuva no país, entre 1991 e 2024.

O estudo concluiu que 91,5% dos 5.570 municípios relataram no período pelo menos um desastre relacionado a quatro tipos de eventos: inundação (categoria que também englobou alagamento e enxurrada), deslizamento de terra, tempestade ou seca.

Deslizamento de terra cobre encosta e destrói várias casas em área residencial com vegetação ao redor. Terra e destroços bloqueiam rua abaixo.
Deslizamento após forte chuva em Juiz de Fora (MG), em fevereiro - Eduardo Anizelli - 26.fev.26/Folhapress

No total, o Nordeste aparece com o maior número de cidades afetadas (1.765), seguido pelo Sudeste (1.405), Sul (1.152), Norte (433) e Centro-Oeste (342). Outro dado que chama a atenção é a sobreposição de riscos: 1.814 cidades brasileiras enfrentaram três dos problemas elencados, e outras 270 sofreram com todos os quatro tipos de desastres no período analisado.

Entre os impactos, os pesquisadores mapearam, por exemplo, mortes e perdas econômicas. Em relação aos óbitos, o Sudeste concentrou o maior número relacionado a inundações, alagamentos, enxurradas e deslizamentos; enquanto o Sul liderou em tempestades e o Nordeste, em secas.

A inundação é quando o leito de um rio transborda. Considera-se alagamento os casos em que o sistema de drenagem não suporta o volume de água; a enxurrada se refere a uma grande quantidade de chuva em pouco tempo.

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De acordo com os achados, os 59.658 desastres naturais analisados foram responsáveis por, pelo menos, 4.774 mortes e 3.031 desaparecidos, com mais de 129,79 milhões de pessoas afetadas. Estima-se que os prejuízos econômicos tenham sido superiores a US$ 123,89 bilhões.

Ao analisar os prejuízos por região (incluindo danos materiais diretos e consequências indiretas que afetam a economia e a capacidade de recuperação local), as inundações, alagamentos e enxurradas tiveram maior impacto no Sul, enquanto deslizamentos de terra e secas afetaram mais o Nordeste e as tempestades, o Sudeste.

Estão incluídos nesse contexto casos como o de São Sebastião –cidade do litoral norte de São Paulo que ficou parcialmente isolada no carnaval de 2023 após chuvas de volume recorde que provocaram ao menos 60 mortes, além de perdas de infraestrutura e danos materiais– e da tragédia climática de maio de 2024 no Rio Grande do Sul, que devastou o estado, com tempestades que afetaram 2,3 milhões de moradores, de 471 municípios, e provocaram mais de 180 mortes.

Realizado por cientistas do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), da Universidade de São Paulo (USP) e do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), o estudo foi publicado na edição de abril da Environmental Research Letters, revista que busca chamar a atenção de formuladores de políticas públicas e da comunidade científica para temas socioambientais.

"Quisemos sair da mística de que o desastre é algo sobrenatural, que as causas vêm de forças desproporcionais. Há exceções que os modelos climáticos não conseguem prever, mas, para a maioria dos eventos, órgãos nacionais como o Cemaden emitem alertas e o poder público é informado do que pode vir a acontecer.

O problema é a negligência, a falta de estrutura e até ausência de atuação", afirma o pesquisador do Cemaden Elton Vicente Escobar Silva, primeiro autor do estudo, que é parte de seu pós-doutorado.

Na avaliação do pesquisador, esses eventos extremos devem ser classificados como desastres "socionaturais" ou socioambientais, já que sua ocorrência e seus impactos podem ser influenciados pela ação humana. "Há um agravante antropogênico, não só com as mudanças climáticas, mas também com falhas de gestão pública."

Silva destaca que nos últimos anos o Brasil avançou na geração de dados que permitem compreender melhor esses desastres. Enfrenta, porém, problemas de registro e de estrutura institucional para acompanhamento desses registros.

Entraves

Os pesquisadores alertam que os impactos reais tendem a ser maiores do que as estatísticas permitem quantificar. Isso porque, para chegar aos resultados, foram utilizados dados do Sistema Integrado de Informações sobre Desastres (S2iD) e do Atlas Digital de Desastres no Brasil. Ambas as plataformas são de acesso público e estão sob a responsabilidade da Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil (Sedec).

Esses registros são autodeclarados pelos municípios e servem, entre outros objetivos, para buscar recursos do governo federal quando as administrações locais e estaduais não têm capacidade de lidar e responder aos eventos adversos que afetaram aquela localidade. Ou seja, muitos casos podem ter resultado em perdas ou fatalidades não registradas porque as próprias administrações locais não conseguiram gerenciar a situação ou fazer as notificações necessárias desses impactos.

Levantamento da Confederação Nacional de Municípios (CNM) estima que cerca de 1.660 cidades no país não têm Defesa Civil organizada. Além disso, um estudo publicado no ano passado mostrou que as defesas civis precisam investir em profissionalização e recurso próprio para enfrentar riscos climáticos.

Silva ressalta que a abordagem da coleta de dados das plataformas não é feita com olhar "multirrisco", ou seja, deixa de considerar os eventos de maneira simultânea e olha apenas para fatores isolados. Se houve, por exemplo, um deslizamento de terra que foi provocado por uma inundação, apenas um desses eventos é notificado, em vez de ambos. Outro ponto é a imprecisão no registro das causas de mortes nos desastres, que nem sempre são corretamente relacionadas aos eventos extremos que resultaram naquele óbito.

A plataforma S2iD tem dados disponíveis somente a partir de 2013, com ampliação da base ao longo dos anos. O número de cidades que relatam desastres cresceu de 29% em 2013 para 88% dos municípios em 2024. Isso leva a lacunas na relação entre o aumento dos registros de desastres naturais e fatores climáticos.

Em relação às estimativas monetárias das perdas econômicas, quando a pesquisa foi finalizada os sistemas traziam informações até 2024 (com dados do ano anterior, atualizados levando em consideração a inflação).

Por meio da assessoria de comunicação, a Sedec informou que está desenvolvendo novas versões do S2iD, com lançamento previsto para este ano, e do Atlas Digital de Desastres. Elas permitirão o registro de eventos sob abordagem multirrisco e a atualização contínua das informações após o reconhecimento federal.

"Para superar limitações históricas, como a falta de detalhamento em danos humanos e a subnotificação municipal, a nova plataforma possibilitará a desagregação de dados por gênero e faixa etária, enquanto a Sedec fortalece a capilaridade do sistema por meio de capacitações técnicas e educação a distância para gestores locais. Essa reestruturação busca reduzir as assimetrias entre as defesas civis estaduais e municipais, consolidando o S2iD como uma ferramenta de planejamento e formulação de políticas públicas", informou a secretaria, que contou com um de seus integrantes, Lucas Mikosz, como um dos autores do artigo.

Prevenção

Para o sociólogo Victor Marchezini, pesquisador do Cemaden e coautor do artigo, é preciso investir em estratégias que permitam reduzir as perdas, e não somente recuperar os prejuízos.

"Esse estudo faz uma análise longitudinal dos impactos dos desastres no Brasil, sendo importante para demonstrar que eles são derivados de uma crise crônica, não algo pontual. Precisamos parar de naturalizar os prejuízos econômicos. Até quando vamos investir dinheiro somente em resposta aos desastres e reconstrução, sem pensar nos mecanismos para reduzir as perdas?", questiona Marchezini, que coordena o projeto Capacidades Organizacionais de Preparação para Eventos Extremos (COPE), financiado pela Fapesp.

"Buscamos fazer com que a ciência contribua para a formulação de políticas públicas. É um esforço para que os resultados cheguem à sociedade", conclui Silva. Em seu doutorado, ele combinou diferentes tipos de modelos matemáticos para criar uma metodologia capaz de fornecer informações geográficas para identificar locais com maior risco de inundações em cidades, inclusive provocadas por chuvas extremas.

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