segunda-feira, 7 de setembro de 2026

Mendonça, o novo justiceiro, também precisa ser cobrado - Elio Gaspari -FSP

 

Os dez ministros do Supremo precisam olhar para a estatueta da Justiça que enfeita seus gabinetes. Ela é cega.

O presidente do tribunal, Edson Fachin, sabe que a estratégia da turma do Vorcaro é obter a nulidade de todo o processo e de suas provas.

Afinal, o banqueiro quebrado ameaçou várias vezes contar "toda a história" do Master.

Dois homens vestindo terno e gravata estão em ambiente interno com parede de fundo neutra. Homem à frente é calvo e olha diretamente para a câmera, enquanto o homem ao fundo está desfocado.
Ministros do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes, à dir., e André Mendonça durante sessão plenária do STF em Brasília - Mateus Bonomi - 2.set.26/Folhapress

Preso, está conseguindo mais do que supunha. Os ministros Alexandre de Moraes e André Mendonça engalfinharam-se. Um (Mendonça) quer que os diálogos de Moraes com Vorcaro em poder da Polícia Federal venham a público.

Trata-se da aplicação da lei do juiz americano Louis Brandeis: "A luz do sol é o melhor desinfetante".

O outro, Moraes, quer investigar iniciativas ilegais de Mendonça.

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No meio, clarividente, está o presidente do tribunal, Edson Fachin, vendo que a estratégia da defesa de Vorcaro e de sua turma é a busca da nulidade. Assim, a maior fraude financeira da história iria para baixo das togas. Quais? Todas, como se deu com a Lava Jato.

Isso está claro desde o tempo em que a relatoria do caso estava sob o ferrolho do ministro Dias Toffoli.

Como ensinaria Chico Buarque, "chamem o banqueiro".

Institutos e ministros

O ministro André Mendonça deve estar amargamente arrependido de ter criado o Iter, uma instituição privada de ensino nascida em 2024. Ela se apresenta como um lugar onde "autoridades vivem o que ensinam". O sujeito dessa frase é a autoridade, não necessariamente o saber.

Mendonça encabeça o plantel do Iter e é seguido por um "membro da Câmara Nacional de Licitações e Contratos da Advocacia-Geral da União" e por um "assessor de ministro do Supremo Tribunal Federal". O instituto anuncia: "No Instituto Iter você aprende com quem faz".

Em dois anos, o instituto recebeu R$ 11,5 milhões em verbas públicas em 68 contratos sem licitação com órgãos de 15 estados.

Mendonça criou o Iter depois de ser nomeado para o Supremo Tribunal, mas não foi ele quem inventou essa fonte de conhecimento. A iniciativa de maior sucesso nessa área é o IDP, Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa, criado pelo ministro Gilmar Mendes há mais de 20 anos, antes de ser indicado para o STF, quando ele era advogado-geral da União. Estendendo suas atividades a Portugal, o IDP promove ciclos de palestras chamadas de "Gilmarpalooza" que reúnem em Lisboa magistrados, ministros, parlamentares e empresários.

O atual procurador-geral da República, Paulo Gonet, foi um dos fundadores do IDP.

O IDP se apresenta como "conhecimento que conecta, comunidade que transforma" e convida: "Formamos os nomes por trás das grandes decisões. Agora é a sua vez!"

A lei permite que magistrados lecionem. Cada ministro do Supremo recebe R$ 46.366,19, mais automóvel e escolta, no Brasil e no Ultramar.

Pindorama tem dois tipos de sem-teto

Em tese, os servidores não podem receber mais que os vencimentos dos juízes do STF. Na vida real, o Brasil tem dois tipos de sem-teto.

O primeiro tipo não tem onde morar. São cerca de 365 mil pessoas que vivem na rua. O segundo tipo é o dos servidores públicos cujos contracheques ultrapassam o teto constitucional. Eles seriam 53 mil. São magistrados, procuradores, militares, professores e sabe-se lá quem mais. Estima-se que 65% dos magistrados brasileiros recebam a cada mês valores acima do teto. Seis dos dez ministros do STF furam o teto. Como o Supremo está na chuva, vale mencionar os ministros que vivem livres desses penduricalhos: Edson Fachin, Cármen Lúcia, Dias Toffoli e Cristiano Zanin.

Recordar é viver

O caso Master jogou luz sobre a presença de delegados da Polícia Federal em gabinetes de ministros do Supremo. Tudo bem, esse magnetismo é velho e universal.

Em abril de 1964, o marechal Castello Branco nomeou seu colega Juarez Távora (1898-1975) ministro da Viação e Obras Públicas, que ficava no centro do Rio. Juarez começou a trabalhar e percebeu que sempre havia um PM na porta do seu gabinete. Intrigado, o marechal quis saber o que o PM fazia ali.

Demorou, mas veio a informação. Fazia tempo, o ministro da ocasião mandou pintar a porta de sua sala. Com a tinta fresca, algumas pessoas sujaram seus ternos e seu chefe de gabinete mandou que o PM postado à entrada do prédio (no sol) fosse realocado para garantir que ninguém esbarrasse na porta (refrigerada).

Isso, há anos.




Mendonça, o novo justiceiro, também precisa ser cobrado, Marcos Augusto Gonçalves -FSP

 As revelações sobre as relações de Alexandre de Moraes com Daniel Vorcaro são graves e precisam ser esclarecidas. Sua atuação contra a tentativa de golpe obviamente não lhe confere imunidade, pelo contrário, coloca uma lupa sobre sua conduta. Há forte suspeita de corrupção.

Os erros de Moraes, contudo, não transformam André Mendonça em paladino da moral e da imparcialidade. Há elementos suficientes para que a atuação do novo candidato a justiceiro do Supremo também seja submetida a escrutínio.

Homem de meia-idade veste camisa branca, gravata listrada e toga preta, em ambiente interno neutro.
O ministro do Supremo André Mendonça - Adriano Machado - 2.set.26/Reuters

Um relatório da própria Polícia Federal chamou a atenção para a diferença de velocidade com que Mendonça analisou medidas contra políticos de campos distintos. Foram nove dias no caso do petista Jaques Wagner, 29 no de Ciro Nogueira, ex-ministro de Bolsonaro, e até 75 num procedimento envolvendo o ex-governador fluminense Cláudio Castro, do PL. Essas diferenças não podem ser tratadas como prova de parcialidade, mas são um indício.

E não se trata de sinal isolado. Há outros, que apontam para diferenças de tratamento em episódios envolvendo Lulinha e políticos da direita. Também é questionável a atitude de Mendonça diante de referências a integrantes do próprio Supremo: enquanto demonstrou interesse em aprofundar rapidamente questões relacionadas a Moraes, foi preguiçoso com Dias Toffoli e Kassio Nunes Marques. A PF ressalva que não há elementos para estabelecer as razões dessas diferenças.

Paulo Gonet, como está claro, não pode ser aceito como árbitro da crise. O nome do procurador-geral aparece no material investigado. Caberá a Edson Fachin, presidente do tribunal, descascar o abacaxi, tarefa hercúlea.

Tudo isso às vésperas das eleições, o que exige cuidado redobrado com o andor. Políticos bolsonaristas e analistas de direita festejam as revelações sobre Moraes e procuram colá-lo a Lula, na clara expectativa de transferir o desgaste ao presidente. Mas essa associação simplifica uma relação mais ambígua.

Lula e Moraes —que foi indicado por Michel Temer— estiveram do mesmo lado na defesa das instituições contra o golpismo, mas isso não os tornou aliados incondicionais. O presidente já manifestou nos bastidores descontentamento com Moraes quando surgiram as primeiras revelações da relação com Vorcaro. E ficou particularmente contrariado com a rejeição pelo Senado de Jorge Messias, que teria contado com apoio do ministro.

Diante das novas revelações, Lula fez bem ao defender que todos sejam investigados e afirmar que ninguém pode utilizar um cargo público e a democracia em benefício pessoal.

A politização das instituições —e a mídia não está fora disso— tornou-se irrefreável e se acentua com a proximidade das eleições. Não se discutem propostas para o país, o que prevalece é o tiroteio ideológico acirrado e perigoso.

Álcool nos automóveis, não na política, Kátia Abreu _ FSP

 Kátia Abreu

CEO da BRZ Consulting, é coordenadora da campanha de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) à Presidência da República em Tocantins; ex-senadora pelo estado (2007-22) e ex-ministra da Agricultura (2015-16, governo Dilma) 

O Brasil é visto por muitos brasileiros como um país que acumula problemas, sem resolvê-los. Nossa memória muitas vezes se esquece de que, quando confrontados com problemas existenciais, já fomos capazes de chegar a grandes soluções. Um exemplo clássico foi nossa resposta à crise do petróleo dos anos 1970. Naquele tempo ainda não havia o agro para exportar para todo o planeta e gerar divisas que nos permitiriam importar tudo o que nos fosse necessário e ainda acumular reservas que nos tornariam credores líquidos do exterior.

Com a multiplicação do preço do petróleo que importávamos, nos vimos na contingência de parar o país para economizar energia. Diante dessa dificuldade, fomos capazes de descobrir o pré-sal e inventar o Proálcool, o maior programa de substituição em larga escala de combustíveis fósseis em todo o mundo.

Um funcionário de posto de gasolina está abastecendo um carro de cor prata. Ele usa uma camisa vermelha com detalhes em amarelo e segura a mangueira de abastecimento, que é de cor verde. O carro está estacionado próximo a uma bomba de combustível, e ao fundo é possível ver a estrutura do posto de gasolina.
Gasolina vendida no Brasil tem 32% de etanol desde 1º de agosto - Allison Sales - 30.mai.25/Folhapress

Hoje somos exportadores de petróleo e temos a matriz energética mais limpa e sustentável do planeta.

Atualmente somos o segundo maior produtor de etanol, primeiramente a partir da cana-de-açúcar e, mais recentemente, do milho no Centro-Oeste. Nossa revolução agrícola, outra das grandes realizações da gente brasileira, fez do país um gigante na produção de alimentos e também de fibras e de energia. Graças aos avanços da nossa produtividade, todos esses usos cabem perfeitamente em nossas terras agrícolas, sem que qualquer um deles prejudique o outro.

O maestro Tom Jobim já dizia que o brasileiro não perdoa o sucesso. Mesmo descontando a generalização, não temos outra explicação para manifestações críticas, seja à adição de álcool à gasolina, seja ao cultivo de milho para produzir etanol.

A adição de etanol anidro à gasolina vem desde 1975 e já é prática longamente testada por nós, sem qualquer inconveniente técnico. Outros países, por razões ambientais e pela necessidade de reduzir emissões, estão progressivamente aderindo à adição de álcool. Os biocombustíveis vieram para ficar e o Brasil está na vanguarda desse processo.

Mas eis que a política começa a invadir um território até então reservado à ciência e à tecnologia. Por razões de ordem econômica facilmente confirmáveis, os órgãos técnicos do governo autorizaram o aumento da adição de etanol de 30% para 32%. O objetivo é aliviar o país dos efeitos dos aumentos de preço ocasionados pelos conflitos no estreito de Ormuz. Bastou isso para que o senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) se arvorasse defensor dos motores de automóveis e motocicletas, que, segundo ele, sofreriam danos irreversíveis. Para quem nega a realidade da mudança climática, nada mais natural do que preferir gasolina ao álcool. O que soa estranho é que essa crítica pode prejudicar, e muito, os produtores de cana-de-açúcar e de milho, setor cujos interesses o candidato afirma defender.

Além de Flávio Bolsonaro, um procurador de Uberlândia (MG) propôs ação civil pública para suspender os efeitos da decisão do Conselho Nacional de Política Energética. O Brasil está se tornando um ambiente hostil para a economia privada, com a multiplicação de instâncias de veto e o enfraquecimento da capacidade de decisão do Executivo. Penso que o poder de procuradores individuais, sem audiência do procurador-geral ou de outras instâncias hierárquicas, de barrar decisões do governo é uma anomalia institucional que requer revisão. A fragilização do Executivo não serve ao país nem ao conjunto da sociedade.

Um simples episódio de política energética pôs à mostra duas enfermidades do país: a irresponsabilidade da política e a disfunção das instituições. É preciso que estejamos alertas para essas questões se quisermos, no futuro, resolver os grandes problemas que nos esperam.

Quanto às objeções à produção de etanol a partir do milho, é difícil, mais uma vez, compreender seus motivos. No Centro-Oeste, onde estão se instalando as usinas de etanol, o grão é plantado após a colheita da soja, na mesma área. Não há, portanto, qualquer aumento das áreas cultivadas; há, sim, melhor aproveitamento das já abertas e consolidadas. Além disso, seu uso para produzir etanol não compete com a alimentação, seja humana ou animal, pois, para isso, já existe produção em larga escala.

O milho de Mato Grosso teria que rodar milhares de quilômetros, em caminhões movidos a diesel, para chegar aos centros de consumo. Desperdício de energia fóssil e encarecimento do produto final, sem ganho para o produtor.

A sociedade brasileira precisa concentrar suas energias na solução de problemas reais e não as desperdiçar em falsas questões.