quinta-feira, 26 de março de 2026

Conrado Hübner Mendes - Pendurados na grilagem do Orçamento ,FSP

 Como lidar com a ilegalidade que te garante bem-estar material do 0,1% mais alto da pirâmide?

A magistocracia tem um protocolo. Uma forma de violência argumentativa que diz mais pelo que silencia. Esconde a filosofia estamental atrás de premissas não ditas. Ao sonegar suposições, dificulta debate franco sobre justiça e legalidade. Prefere o magistocratês e pinta privilégio com tinta de neutralidade. O ilusionismo facilita incompreensão e vitória política.

A imagem mostra uma escultura da Justiça, representada por uma figura feminina com os olhos vendados, segurando uma balança. A estátua está em primeiro plano, enquanto ao fundo se vê um edifício moderno com janelas de vidro e colunas. Há também um carro estacionado próximo à escultura e uma bandeira do Brasil visível.
Fachada do STF - Gabriela Biló - 1.ago.25/Folhapress

Semana passada foram publicados dois documentos sobre supersalários públicos (os acima do que a Constituição permite): o estudo "Comparação remuneratória internacional, cenários de redesenho e impacto orçamentário", feito por Sérgio Guedes-Reis (República.org); e a nota técnica "Remuneração das Carreiras de Estado e o Teto Constitucional", pela Comissão de Assessoramento aos Três Poderes da República.

O primeiro olha para o Brasil real e propõe cenários de reforma. O segundo olha para o Brasil a partir do senso de merecimento da categoria e propõe transição mais ou menos para o mesmo lugar.

Guedes-Reis descreve o "agudo descolamento" de 1% dos servidores em relação não só à realidade socioeconômica do país, mas à realidade internacional. Mais de 85% dos membros do Ministério Público e da magistratura receberam acima do limite legal em 2025. Verbas indenizatórias e pagamentos retroativos levam a remuneração real ao dobro ou até ao "sêxtuplo" dos salários de edital.

O estudo olhou para EUA, Reino Unido, Alemanha, França, Itália, Portugal, Argentina, México, Chile e Colômbia. O Brasil "lidera os rankings de remuneração em virtualmente todos os extratos comparados". Os "25% mais bem pagos da magistratura brasileira recebem mais do que todos os 53 mil juízes dos dez países analisados". Propõe modelos de redesenho salarial que economizariam pelo menos "R$ 500 bilhões em 20 anos".

Já a nota técnica diz que o teto de R$ 46 mil, se fosse corrigido a partir do valor que tinha em 2003, seria hoje de R$ 63 mil. Se corrigido à luz do valor de 2006, valeria hoje R$ 71 mil. Diante da constatação, faz a combinatória das seguintes palavras: defasagem, perda salarial, achatamento, desincentivo, sobrecarga, direito adquirido, segurança jurídica e até, com subtom de ameaça, continuidade do serviço público. Um mantra jurídico que desvia do debate substantivo.

Segundo a nota, seria "operacionalmente viável" um "encaminhamento temporário" em que "verbas remuneratórias, ainda que se denominem como indenizatórias", devessem se submeter a uma "limitação percentual ou nominal específica."

Reconheceu, por eufemismo, a ilegalidade dos penduricalhos: "foram surgindo verbas indenizatórias com o propósito de compensar responsabilidades adicionais". E explicou: "A solução criativa, porém, não é a ideal."

Em vez de sugerir anulação de enormes passivos retroativos ilegais, a nota sugere, para ser "fiscalmente responsável", esticar a "dívida" no tempo. Não só não economiza, como gera gastos adicionais. Aceitaram parcelar tudo que lhes é "devido" para manutenção de seu lugar social. Um lugar almejado e congelado no tempo e no espaço.

A magistocracia não admite discutir a partir da sociedade em que vive, mas da contabilidade de seu estilo de vida. No orçamento deve caber um fundo de reserva para seu padrão de consumo. Mesmo que por "soluções criativas".

Reag, Master, BRB, Fictor: tem mais máfia no mercado? Como isso foi possível?, VTF FSP

 Reag, Master, BRB, Fictor. Gente do comando do grupo Fictor é investigada por ter contatos com um Thiago de Azevedo, vulgo "Ralado", que tinha negócios com o "Bonde do Magrelo", braço do Comando Vermelho no interior de São Paulo. "Ralado" corrompia gente de bancos, conseguia empréstimos para empresas de fachada e, então, quebrava ou fechava as fachadas e sumia com o dinheiro. Um pequeno Master.

Há mais bancos, fundos e operadores financeiros de outra espécie que estejam prestando serviços para o crime ou que sejam eles mesmos máfias, como o Master?

Logotipo do Banco Master com as palavras 'BANCO' e 'MASTER' em letras maiúsculas pretas, apresentando um efeito de desfoque e duplicação, sobre fundo branco.
Logo do banco Master em tela de um computador - Mauro Pimentel - 4.mar.26/AFP

Falamos muito de política podre, com razão, mas há podre na finança, do descalabro na regulação e na fiscalização ao puro crime. Essas gangues prosperaram durante os anos de expansão daquilo que se chama vagamente de "fintechs", as muitas empresas que prestam serviços variados na finança. "Durante" não quer dizer necessariamente "por causa de".

A expansão das fintechs foi uma desregulamentação, na prática. Isto é, regulação muito mais leve, digamos, permitiu a expansão desse setor da finança. Serviu para aumentar a concorrência, parece. Nesse ônibus, entraram também bandidos. Como não se multavam ônibus desgovernados ou dirigidos por gente suspeita, a audácia derivou em parte para o crime. Além de Master e de BRB, haveria outro banco de verdade no rolo? A relação desse ambiente de regulação e fiscalização ruim com o crime é questão nacional.

A esquerda quer pegar Roberto Campos Neto, "RCN", presidente do Banco Central de fevereiro de 2019 a dezembro de 2024, eleitor de Jair Bolsonaro e tarcisista. O nascimento e a expansão de fintechs relevantes começam em 2012, 2013. A digitalização dos tempos da epidemia deu mais impulso ao negócio. A regulação seria arranjada, digamos, a partir de 2020. Durante o tempo em que RCN comandou o BC, o Master floresceu e barbarizou. Logo, RCN seria de algum modo responsável pelo escândalo, no mínimo por omissão, segue o argumento da esquerda.

De objetivo, o que se sabe de RCN até agora é isso: nos seus anos de BC, Master e aparentados espalharam imundície. Mas RCN e outros responsáveis devem ser chamados a explicar como isso foi possível, para começar uma conversa séria de investigação e reforma. E onde estava a Comissão de Valores Mobiliários? Aliás, onde está? Continua sem meios e à beira de ser dirigida por criatura controversa. A Receita Federal teria tido meios e direito de pescar alguma coisa? E a fiscalização da Previdência Complementar? Cupinchas de políticos no comando de fundos de previdência de servidores eram amigos do Master. Parte do TCU dedicava-se a pleitos do Master.

A Reag era a maior administradora independente de fundos de investimento. É acusada de prestar serviços para a gangue do Master, para empresas dos crimes com combustíveis, talvez ligadas ao PCC. O BRB estava à beira de aceitar a desova do cadáver do Master.

A atual direção do BC impediu que o BRB ficasse com a carcaça falida e fraudulenta; pegou executivos do próprio BC corrompidos por Daniel Vorcaro. Polícia Federal e Receita tomam atitudes. Mas é muito pouco, mesmo que o problema se restringisse a crimes financeiros. É necessária reforma de alto a baixo e cadeia para todos os lados. Pior, pode ser que o mercado do crime ainda esteja operante. Enquanto isso, parte da cúpula da República tenta fugir da polícia ou acordões (no caso Master, no caso das emendas, no caso do INSS etc.).