terça-feira, 25 de agosto de 2026

Vontade de abandonar o mundo se repete na história de diferentes povos, Pondé FSP

 Hoje vamos manter uma certa distância desse mundo chato em que vivemos, um mundo histérico, em que todos querem aparecer como a pessoa mais legal de todas, com mais seguidores engajados para fazer melhores negócios ou, simplesmente, picaretas —é impressionante como o século 21, a partir das suas redes sociais, catapultou a prática da picaretagem profissional em níveis antes inimagináveis. Os psicanalistas que o digam —hoje, tem um em cada esquina.

Vamos falar um pouco da santidade e repousar, por algum tempo, na sua perenidade como fenômeno. Refiro-me à santidade, tal como a Igreja Católica e a Ortodoxa entendem, além de outras igrejas cristãs da bacia oriental do Mediterrâneo.

Ilustração de Ricardo Cammarota, realizada em técnica de aquarela sobre papel. A composição horizontal apresenta cinco formas de mãos sobrepostas, dispostas em sequência diagonal da esquerda para a direita. Ao longo da sequência, as mãos se transformam gradualmente, ou sugerem uma transformação, passando da forma reconhecível de uma mão para a de um pássaro estilizado. As formas apresentam diferentes tonalidades de vermelho e rosa, com áreas de transparência e sobreposição que reforçam a ideia de movimento e metamorfose. O fundo é branco, com a textura do papel aparente.
Ilustração de Ricardo Cammarota - Ricardo Cammarota/Folhapress

Muitas vezes, a vontade de abandonar o mundo se repete na história de diferentes povos. Na maioria das vezes, como parte de uma experiência religiosa que vê no mundo algo a ser, de alguma forma, evitado.

Essa tradição, conhecida como monástica —termo ligado à origem da fuga do mundo por parte de cristãos nos primeiros séculos da era comum— não é exclusiva do cristianismo, apesar de as tradições espirituais guardarem diferenças no seu modo de viver a renúncia do mundo ou de justificá-la.

No caso especificamente cristão, essa forma de vida se confunde com a de um dos primeiros indivíduos canonizados como santos pela igreja cristã nascente —que eram então múltiplas— nos primeiros séculos da era comum, não necessariamente a católica, como entendemos hoje.

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Trata-se de Santo Antão, que viveu entre 251 e 356 da era comum —ou era cristã—, aproximadamente. Este egípcio copta é considerado, pela tradição cristã, o fundador da vida monástica.

Filho de uma família de lavradores com algumas posses, Antão, após a morte de seus pais, ao ouvir no culto da igreja cristã copta da sua cidade —fundamental na história do surgimento do cristianismo— a passagem em que Jesus diz que quem quiser segui-lo, deve distribuir suas posses entre os pobres e viver na pobreza e na humildade, decide fazer o que Jesus disse. Leva sua irmã à casa de donzelas cristãs e parte para o deserto do Egito.

Santo Antão não queria apenas viver como Jesus, ele queria encontrar Deus —ou Cristo, como consagrará o Concílio de Niceia em 325 da era comum.

Aqui vale um pequeno reparo. Este Concílio de Niceia, instaurado pelo imperador Constantino, visava discutir duas teorias acerca da pessoa de Cristo. Ou ele seria da "mesma substância" do Pai ("homoousios", em grego), portanto, incriado e, também, Deus, ou ele seria, como queriam os arianos, os derrotados, mas, não extintos em Niceia, criados por Deus, como todos nós.

Importante ter em mente que o arianismo existe até hoje entre cristãos, ainda que não confessem o seu verdadeiro nome.

Santo Antão defenderá a posição de Niceia, de que Jesus continua vivo e é da "mesma substância" do Pai —na linguagem dos cultos se dizia assim porque Antão, analfabeto, dificilmente entraria em controvérsias ontológicas sofisticadas, conhecidas como fundadoras da cristologia.

Segundo a fonte mais antiga da vida de Santo Antão —Santo Atanásio de Alexandria, mais jovem, mas contemporâneo, em parte, do monge, e que foi, também, um forte defensor da posição de Niceia contra o arianismo—, ele, supostamente, quando questionado por arianos, teria respondido: "Eu O vi", ou seja, viu Jesus, vivo no deserto.

Santo Antão passou para a história da santidade como alguém que enfrentou o mal exteriormente —não que isso não o afetasse interiormente.

O grande demônio e seus pequenos demônios, na figura de animais ferozes, mulheres sedutoras, pessoas deformadas, insetos devoradores, tentaram duramente Antão, para que ele desistisse de Deus e do Cristo.

Sua experiência no deserto, inclusive, passará para a história da arte e da literatura como as famosas "tentações de Santo Antão". Entre muitos grandes que voltaram a essas tentações de Santo Antão, figura o grande Gustave Flaubert, que escreveu de 1848 a 1874 a sua "Tentação de Santo Antão", reescrita várias vezes neste período.

Segundo o historiador René Fulop-Miller, no seu "Os Santos que Abalaram o Mundo", da José Olympio Editora, vale comparar as experiências exteriores de desespero de Antão com o longo desespero interior, ou psicológico, como diríamos nós hoje, de Santo Agostinho.

Assim, os dois santos antigos repetem o perfil, muitas vezes desesperador, dos heróis do Velho Testamento. Viver com a mão de Deus sobre sua cabeça nunca foi coisa fácil.


Cidade de Goiás que viveu do amianto agora está no centro da corrida por terras raras- FSP FT

  

Michael Pooler
Minaçu (Goiás) | Financial Times

Durante décadas, a remota cidade de Minaçu prosperou com sua mina de amianto, a última das Américas, até que a associação do material, antes considerado milagroso, levou a proibições e ao declínio da indústria por conta de doenças fatais.

Hoje, o município do interior brasileiro está no centro de uma corrida global pelos minerais de terras raras, essenciais para eletrônicos, energia limpa e tecnologias de defesa e que se tornaram um dos pontos de tensão na guerra comercial entre Estados Unidos e China.

Em meio a uma paisagem de montanhas e vales verdes, um grupo de mineração afirma ter no local a única operação fora da Ásia capaz de extrair em escala alguns dos tipos mais escassos desses metais, com apoio financeiro do governo americano.

Complexo industrial com vários galpões, tanques circulares e estruturas metálicas em terreno aberto cercado por vegetação densa. Estradas de terra e áreas de armazenamento visíveis ao redor das construções.
A mineradora Serra Verde, localizada em Minaçu, no Goiás - Divulgação/Serra Verde

Moradores acreditam que a atividade pode recuperar a economia da comunidade de 27 mil habitantes no estado de Goiás, região de cerrado tropical. Desde o início da produção comercial de terras raras no país, há cerca de dois anos, novos moradores voltaram a chegar, segundo o prefeito de Minaçu, Carlos Alberto Leréia.

"É um ganho tremendo. O lugar estava a caminho de se tornar uma cidade fantasma", disse. "É como se você estivesse se afogando e, de repente, aparecesse uma corda —é preciso agarrá-la."

O sentimento reflete o otimismo mais amplo em relação ao potencial do Brasil de se tornar um importante participante de um setor estratégico. Embora sua produção ainda seja modesta, o país tem as segundas maiores reservas de terras raras do mundo, atrás apenas da China, segundo o Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS na sigla em inglês).

As terras raras são um grupo de 17 elementos metálicos necessários, em pequenas quantidades, para diversas aplicações de alta tecnologia. Apesar de serem relativamente abundantes na crosta terrestre, sua extração e separação são difíceis.

Com controle sobre boa parte da mineração mundial de terras raras e um quase monopólio de seu processamento, Pequim restringiu as exportações no ano passado em retaliação às tarifas do presidente Donald Trump, intensificando a busca por novas fontes.

Essa procura levou os americanos a Minaçu, onde a proprietária da mina, a Serra Verde, está ampliando a produção. "O objetivo é ser uma alternativa no Ocidente para a produção de terras raras", disse Pedro Burnier, diretor de sustentabilidade da empresa, no complexo que recebeu mais de US$ 1 bilhão (R$ 5,2 bilhões) em investimentos.

A USA Rare Earth, na qual o governo americano detém uma participação minoritária, anunciou em abril a aquisição da Serra Verde, sediada na Suíça, por US$ 2,8 bilhões (R$ 14,4 bilhões).

"O restante do mundo terá acesso às terras raras pesadas das quais, francamente, todos somos hoje dependentes demais da China", disse ao Financial Times a então diretora-presidente da USA Rare Earth, Barbara Humpton.

O projeto também obteve mais de US$ 500 milhões (R$ 2,6 bilhões) em empréstimos da Corporação Financeira Internacional para o Desenvolvimento dos Estados Unidos (DFC na sigla em inglês), um banco público de fomento.

A mina se tornou uma peça central dos esforços dos EUA para romper a dependência em relação à China por causa da presença de dois dos elementos pesados de terras raras considerados mais críticos. Eles recebem essa classificação devido ao seu maior peso atômico. O disprósio e o térbio são usados em ímãs potentes para mísseis guiados, motores de veículos elétricos e turbinas eólicas, ajudando a manter a força magnética em altas temperaturas.

"Hoje, eles são os mais valorizados", disse Burnier.

Até o ano que vem, a Serra Verde pretende responder por mais da metade da oferta de elementos pesados de terras raras fora da China. Ainda assim, sua meta de produção de 6.400 toneladas de óxidos de terras raras representa apenas uma fração das 390 mil toneladas extraídas no mundo em 2025, segundo dados do USGS.

Durante a construção, a empresa assinou contratos de longo prazo para fornecer sua produção a compradores na China, refletindo a escassez de alternativas para o processamento de terras raras em outras partes do mundo. Mais tarde, porém, reduziu a duração dos contratos.

Agora, a Serra Verde tem um acordo de 15 anos para vender sua produção a uma entidade apoiada pelo governo dos EUA e por capital privado. A organização distribuirá os estoques a processadores, com preços mínimos garantidos caso a China inunde o mercado.

"Os custos aqui são mais altos do que na China, possivelmente por causa de nossa maior preocupação com questões ambientais", disse Fernando Landgraf, professor de engenharia metalúrgica da USP (Universidade de São Paulo).

Autoridades americanas há muito tempo cobiçam os minerais críticos do Brasil. No entanto, enquanto as relações diplomáticas entre os dois países despencaram em meio a disputas comerciais e políticas, o acordo de fornecimento da Serra Verde reduz o poder de negociação de Brasília com Washington, segundo Rob Muggah, cofundador do Instituto Igarapé, um centro de estudos sediado no Rio de Janeiro.

"A preocupação mais séria é que o acordo possa privar o Brasil da matéria-prima necessária para construir sua própria indústria de terras raras", acrescentou Muggah.

De olho em uma tentativa de reeleição em outubro, o presidente de esquerda Luiz Inácio Lula da Silva tem apresentado os recursos como uma questão de soberania nacional e defende que o país desenvolva uma indústria de produtos de maior valor agregado a partir dos minerais, em vez de apenas exportar matérias-primas. Seu principal adversário, o senador de direita Flávio Bolsonaro, prometeu uma cooperação mais estreita com os EUA na área de metais.

A Serra Verde afirma que já realiza um processamento significativo em Minaçu, transformando as argilas em uma substância intermediária que contém terras raras leves e pesadas.

O próximo estágio industrial —separar os elementos e transformá-los em óxidos individuais de alta pureza— é, porém, mais difícil. Novas refinarias estão sendo planejadas por empresas na Europa, na América do Norte e na Austrália.

Com pouca terra agricultável e uma indústria limitada nos arredores de Minaçu, os moradores esperam que as terras raras ajudem a região a seguir em frente. O legado do amianto é visível nas montanhas artificiais escalonadas formadas por rejeitos de mineração que se erguem sobre as ruas da cidade.

Fundada na década de 1960, a mina de amianto foi fechada e reaberta desde que o STF (Supremo Tribunal Federal) proibiu o uso do material no Brasil, em 2017, mas seu encerramento é amplamente considerado inevitável.

Thais Oliveira, dona de uma sorveteria, lembra de ouvir as explosões de dinamite e das histórias da mãe, que limpava a poeira que caía como neve. Suas vendas aumentaram cerca de 25% desde que a Serra Verde começou a operar.

"A cidade estava morta e não havia ninguém nas ruas. Agora está voltando a ser como era antes", disse a mãe de 33 anos.

Mas nem todos estão satisfeitos. Vários moradores disseram que córregos próximos à Serra Verde ocasionalmente ficaram com uma coloração diferente e uma camada oleosa após fortes chuvas desde a abertura da mina.

O pequeno produtor rural Aníbal de Oliveira, 77, afirmou: "A água que escorre vem suja. A água fica avermelhada porque o solo lá em cima é vermelho".

A Serra Verde disse que leva "a sério quaisquer potenciais impactos ambientais" e trabalha em estreita colaboração com os órgãos reguladores para identificar e mitigar problemas. A empresa recebeu uma multa após informar às autoridades, por iniciativa própria, sobre um desmatamento não autorizado ocorrido em 2023.

A mineradora tem 600 funcionários diretos e centenas de contratados, mas alguns moradores questionam até que ponto os benefícios chegarão à população local. O recepcionista de hotel Nathanael Pereira Rodrigues fez um curso para se qualificar como motorista de caminhão na expectativa de conseguir uma vaga, mas ainda não foi chamado.

"Eles só querem mão de obra qualificada, com dois ou três anos de experiência", disse o jovem de 23 anos, que está prestes a ser pai. "É frustrante, mas não vou desistir."

Apesar de todo o entusiasmo em torno das terras raras brasileiras, a longa trajetória da Serra Verde— cerca de 15 anos entre o primeiro levantamento e o embarque da produção— mostra os obstáculos burocráticos e financeiros enfrentados por projetos desse tipo. Outros estão em desenvolvimento, embora empresários frequentemente reclamem da escassez de financiamento e da demora na obtenção de licenças ambientais.

Ainda assim, o prefeito da cidade, Carlos Alberto Leréia continua otimista: "O Brasil vai se tornar um dos principais atores no mercado de terras raras".