quinta-feira, 5 de março de 2026

Os dilemas da polilaminina e da cura - Marcelo Rubens Paiva -FSP

 Muitos de vocês sabem que sou lesionado medular. Alguns devem saber que já fui colunista, articulista e repórter especial da Folha. Parti para outras marginais, parei e voltei. Por que voltei?

Por conta dos dilemas da polilaminina, o composto derivado da proteína da placenta. Quando li a primeira reportagem sobre a pesquisa, como não lembrar da célula-tronco?

A revista Veja deu capa dizendo que pessoas como eu estariam "curadas". Um programa da Globo financiou a viagem de um cadeirante à China, único país que autorizava o experimento. Será que ele está vivo?

Coloquei "curadas" em destaque em homenagem a uma senhora que me parou num supermercado para dizer que o pastor da sua igreja me curaria. Cínico, como um militante em alta voltagem, perguntei: "Me curar do quê?".

Desenho em linha contínua mostra cadeira de rodas estilizada em tons de marrom e verde, com formas abstratas ao fundo.
CutRiska/Adobe Stock

O que ela disse me pareceu mais capacitista do que transcendental. Desde o começo da minha carreira de cadeirante, a cura é a questão que revela mais do que uma cura. É também a incapacidade de aceitar como alguém é.

Existem curas e curas. O exoesqueleto não é uma cura, mas um tremendo passo para a humanidade e um ótimo equipamento de reabilitação. Investe-se na sua pesquisa, pois contém orçamento militar envolvido.

Temos portáteis agora, servido ao camarada sem deficiência: na Muralha da China, são alugados para facilitar a caminhada de turistas.

Existe a tentativa de cura por chips, eletrodos, que substituiriam as funções nervosas. Há alguns anos, nos Estados Unidos, aplicavam uma dose alta de metilprednisolona, um corticoide sintético, em no máximo oito horas depois da lesão.

O resultado não foi eficiente, o risco de infecção era enorme, como o da célula-tronco, e não se aplica mais. O mais importante procedimento por lá ainda é o de uso de vasopressores, para diminuir a pressão sobre a medula.

Por intuição, desconfiei do alcance da descoberta da pesquisadora Tatiana Sampaio e sua equipe da UFRJ. Sorry...

Mulher de cabelos claros usa blusa branca com bordados vermelhos e pretos, braços cruzados, em jardim com plantas verdes e flores vermelhas ao fundo.
A pesquisadora Tatiana Coelho de Sampaio, professora-doutora da UFRJ - Eduardo Anizelli - 27.nov.25/Folhapress

A revista americana mais séria sobre o assunto, feita por lesionados medulares, NewMobility, não deu uma linha sobre o assunto. Nem a Lancet, publicação científica mais importante.

Caso a cura tivesse sido descoberta, seria manchete do New York Times. No entanto, o nome da cientista brasileira nunca foi citado naquele jornal, nem no britânico The Guardian, no Washington Post e no francês Le Monde.

Mandei mensagens para a Folha para pedir aos amigos cautela com o entusiasmo. Expliquei os paradoxos, o "só que não" e o porém. Combinamos, então, que eu a entrevistaria. Mandei duas mensagens para o zap dela em janeiro, deixei recado no seu departamento de pesquisa.

"Queria fazer uma entrevista para a Folha sob o ponto de vista de alguém que tem intimidade com o assunto. Poderia ser online mesmo, você topa? Um grande abraço e parabéns a toda sua equipe."

Ela não me retornou. Está no seu direito. Sua primeira entrevista de repercussão nacional foi para um programa do SBT. Depois, para a Globo. Buscava visibilidade, para obter mais parceiros e financiamento. Justo.

Virou a Fernanda Torres da ciência e candidata ao Nobel. Mas passou a ser criticada por seus pares.

Tatiana caiu na armadilha da ignorância e das falsas promessas. Sem traquejo para contratar uma eficiente agência de comunicação, mede a repercussão da sua pesquisa e passa a regular as expectativas.

Fiquei tetraplégico em dezembro de 1979, num mergulho num açude em Campinas. Muita gente acha que mergulhei no laguinho da Unicamp. Tudo porque circula um filme em super-8 em que estou pelado colocando a faixa "Abaixo a Ditadura" nele. Ah, anos 70... Ficar pelado era um ato de subversão.

Na chegada a uma UTI, eu não mexia nada. Enfrentava um choque medular: toda a medula estava em pane, devido à hemorragia e à compressão. Apesar de a minha lesão ter sido entre a quinta e a sexta vértebra cervical, eu não sentia nada abaixo nem acima dela.

Fui sedado e entubado. A primeira intervenção cirúrgica foi a descompressão, pois eu podia morrer em 48 horas se o choque chegasse ao controle da respiração. Em um mês de UTI, tomei rios de morfina (ah, anos 80 começavam...). Rezei até para deuses astronautas.

Minha família diria: tem uma droga experimental, a Anvisa não aprovou, não passaram pela fase 3; você tem poucas semanas para tomar, já que está na fase aguda, ou pode ficar tetra a vida toda.

Tomar ou esperar e ter 50% de chance de receber um placebo? Ah, sem chance... A ciência é empírica e cega. Não existe amor na fase 3. "Entrem com uma liminar e me garantam a injeção experimental. Judicialização, já!".

Nos primeiros anos, é inconcebível a vida numa cadeira de rodas. Com o tempo, se acostuma. Hoje não sei se eu deixaria injetarem um corpo estranho dentro da minha medula. Mas no começo... Sacou o dilema?

Hélio Schwartsman - A República vai ruir?, FSP

 Como previsto, o celular de Daniel Vorcaro vai produzindo vítimas, incluindo o próprio ex-banqueiro, agora recolhido à prisão preventiva. Pelo teor de colunas de bastidores que leio, o aparelhinho traz munição para causar uma razia tanto nas fileiras da direita como nas da esquerda e do centro. E as revelações contidas no telefone podem ser magnificadas por uma eventual delação premiada de Vorcaro, que vai ficando sem opções.

Já vivemos esse clima antes. O leitor há de se lembrar do auge da Operação Lava Jato e das listas de Janot. A sensação que se tinha ali é a de que poucos políticos escapariam. Alguns até caíram, provisória ou definitivamente, mas a República segue viva e povoada mais ou menos pelas mesmas figuras. Quem passou mais perto de um diagnóstico em 2017 foi o então senador Romero Jucá, com seu vaticínio de que seria preciso "estancar a sangria, [...] com o Supremo e com tudo". Curiosamente, ele mesmo, Jucá, caiu, mas a sangria foi estancada. Até multas das empresas que confessaram ilícitos foram anuladas.

Homem de terno escuro e gravata segura microfone enquanto fala sentado em cadeira branca. Fundo azul com logotipo 'esfera' visível em tela ao lado.
O ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Master - Rubens Cavallari - 24.jan.2026/Folhapress

Como naquela ocasião, assistimos agora a um embate entre forças que querem a continuidade das investigações e as que pressionam por um acordão. Existem, porém, diferenças importantes. A primeira é que, desta vez, há ministros do STF envolvidos em suspeitas e isso acrescenta muitas incertezas em relação ao desfecho.

O Judiciário é, de longe, o mais corporativista dos Poderes, o que em princípio joga a favor do acordão, mas não sei se é tão simples. A exemplo de políticos do centrão, os magistrados até carregam o caixão até a beira da cova, mas não entram nela junto com o morto. Se surgirem mais fatos contra Toffoli, Moraes ou algum outro, cortar na carne do STF talvez se torne inevitável.

Para adicionar mais camadas de complexidade, o escândalo Master corre em paralelo ao do INSS, igualmente ecumênico, e estamos num ano eleitoral.

Meu saudável ceticismo faz com que eu ponha minhas fichas no cenário do acordão, mas essa é uma aposta que torço para perder.


Valdinei Ferreira - Pastora Ana Paula Valadão e marido celebram os ataques ao Irã e justificam a guerra para defender a igreja e a família, FSP

  

Valdinei Ferreira
Valdinei Ferreira

É doutor em sociologia pela USP e fundador do Mapa Centrante

A pastora Ana Paula Valadão expressou grande emoção com a precisão dos ataques dirigidos ao Irã. A dramaticidade de suas declarações sobre o conflito, envolvendo Israel, os Estados Unidos e o Irã, foi acentuada pela maquiagem borrada ao redor dos olhos e pelo tom choroso de seus comentários no vídeo postado em sua conta do Instagram, que soma quase 4 milhões de seguidores.

Seus elogios à precisão dos mísseis de Israel e dos Estados Unidos foram confrontados com o ataque à escola que resultou na morte de pelo menos 50 meninas. Além disso, a pastora enfrenta críticas por conta da incoerência entre o ensinamento cristão do amor aos inimigos e a sua comemoração efusiva da morte do aiatolá Ali Khamenei.

O pastor Gustavo Bessa, cônjuge de Ana Paula Valadão, interveio na controvérsia, defendendo a ação militar que resultou na morte do líder supremo do Irã. Para fundamentar seu ponto de vista, Bessa citou o pastor luterano Dietrich Bonhoeffer, que se envolveu em uma conspiração para assassinar Adolf Hitler, e mencionou a difícil situação de cristãos que são alvos de extremistas islâmicos na Nigéria. Sua conclusão é que a guerra se torna legítima como meio de proteger a igreja e a família.

Mulher de pele clara, cabelos curtos e cacheados, usando batom vermelho vibrante. Ela está em ambiente interno com fundo desfocado.
A pastora Ana Paula Valadão durante o vídeo em que expressa grande emoção com a precisão dos ataques de Israel e EUA ao Irã - Ana Paula Valadão Bessa no Instagram

As opiniões do casal de pastores sobre o conflito em curso no Oriente Médio exemplificam o modo como uma parcela considerável, talvez a maior, dos evangélicos percebe a geopolítica global e o cenário político brasileiro.

É importante acentuar que as opiniões dos pastores sobre o conflito que ocorre a milhares de quilômetros do Brasil tem conexões diretas com a política nacional. Na segunda parte do vídeo, que celebra os ataques contra o Irã, a pastora Ana Paula se vale da linguagem bíblica para conclamar os brasileiros para que se levantem contra os poderes estabelecidos no país.

O alinhamento ideológico de Ana Paula e de seu marido é feito de um amontoado de termos teológicos cultivados durante décadas entre evangélicos brasileiros e estadunidenses. Esses termos funcionam como "senhas" para identificar quem está do lado de Deus, obviamente o deles, e quem está do lado do Diabo. Qualquer esforço para estabelecer nuances ou questionar pressupostos interpretativos é imediatamente classificado como ataque à fé.

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Termos como Israel, Trump, família, cristãos perseguidos, islamismo, guerras e a volta de Jesus são ingredientes políticos e religiosos misturados em um caldeirão. Depois de um breve período de fervura no caldeirão fundamentalista, idealmente com o acompanhamento de música gospel, como a cantada por Ana Paula, a bebida estará pronta. É só beber para alucinar e enxergar o mundo cindido numa guerra entre o bem e o mal.

Inegavelmente, a teocracia iraniana oprime mulheres, cristãos, gays e outras minorias. Mas e o regime da Arábia Saudita? Não faz o mesmo? Como a teologia de Valadão e companhia explica que Deus está usando Donald Trump para atacar o Irã e combater o mal enquanto faz negócios com Mohammed bin Salman, o ditador saudita?

Outro exemplo de embriaguez seletiva causada em quem bebe a poção fundamentalista é a aplicação do termo ditadura pela pastora Ana Paula. Emocionada, ela alerta no vídeo contra o perigo das ditaduras, mas não enxerga que o presidente Trump age como ditador ao não submeter o ataque ao Irã ao Congresso dos Estados Unidos, como manda a regra democrática constitucional.

No Irã, existem 35 igrejas ativas em Teerã (incluindo catedrais) e o Parlamento iraniano reserva duas cadeiras cativas para deputados cristãos (armênios e assírios). Como já ocorreu na Palestina, a ação dos Estados Unidos e de Israel tornarão a vida dos cristãos no Irã ainda mais difícil. Mas quem consegue explicar isso para quem bebe certezas no caldeirão fundamentalista?