quarta-feira, 29 de abril de 2026

Desejo de país melhor é antídoto contra medo, Rui Tavares -FSP

 A ciência política tem uma tese clássica sobre as oscilações da opinião pública: a do termóstato, cunhada assim por Christopher Wlezien em 1995. Se um governo põe a temperatura demasiado quente, o ciclo seguinte da opinião pública baixa a temperatura.

Na fase seguinte, acontece ao contrário, e a opinião pública age de novo, tendendo ao equilíbrio. É um modelo dos anos noventa, tempo de ingenuidade, e não chega para descrever o que estamos vivendo.

Uma outra proposta, de Pippa Norris e Ronald Inglehart, é a do ricochete cultural: cada ciclo não repõe a temperatura no equilíbrio, reage como corretivo em relação ao ciclo anterior. Nascendo da observação do choque de gerações dos anos 1960 e seguintes, está mais perto da nossa atualidade. Mas ainda não basta.

Sombra de uma pessoa em pé com gestos de fala, projetada em fundo azul, entre dois teleprompters transparentes em suportes.
A sombra do presidente americano, Donald Trump, durante evento em Washington - Chip Somodevilla - 25.mar.26/Getty Images via AFP

Proponho um terceiro modelo, que todos conhecemos bem: o da discussão doméstica. Um modelo da irritação doméstica como dinâmica política.

Neste modelo, ganhar a discussão não basta. Bem sabemos como é irritante se alguém pretende acabar a discussão dizendo "está bem, tens razão". Nós queremos ter razão, queremos que nos dêem razão, mas queremos mais: queremos que se calem para termos a última palavra explicando porque tivemos sempre razão, e queremos que o outro pague caro por ter achado antes que não tínhamos razão.

Aplicado à política, o modelo ajuda a explicar oscilações bruscas dos últimos anos. Em momentos em que uma esquerda sectária se perde no narcisismo das pequenas diferenças, as pessoas ficam frustradas e acabam votando em quem é mais vocal contra essa atitude (o "wokismo", o "politicamente correto"), independentemente de acreditar que aquele voto sirva para resolver o que quer que seja.

Nesse modelo, o voto não serve só para mudar o rumo das políticas e dos políticos. Serve para punir as pessoas que achamos que foram chatas conosco no ciclo anterior.

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O problema é que o político que chega ao poder numa vaga de irritação com o campo contrário se sente imediatamente validado por aquele aparente mandato democrático e acaba governando com mais fanatismo do que os seus antecessores, preparando a reação epidérmica seguinte. Como num sismógrafo, cujas oscilações vão aumentando de passo a passo.

Como sair disto? Pode ser pela catástrofe, como no entreguerras. Por exaustão mútua. Por censura, quando uma das partes toma conta do Estado e acaba com a possibilidade da discussão. Pode ser por saturação: a opinião pública fica farta dos chatos dos dois lados e opta por políticos banais e aborrecidos.

Mas não podemos passar o tempo todo, ciclo após ciclo, colocando o medo perante a esperança. Quando elegemos um político da esperança, e a esperança não se concretiza, há um medo que se duplica: passo a ter medo de ser decepcionado e sou presa fácil de quem me disser que fui um otário por ter acreditado.

O antídoto do medo não é a esperança. É o desejo: o desejo de um país melhor, de uma sociedade mais feliz, de uma vida mais plena. É o desejo que dá motivação, que leva à mobilização, à luta pela mudança, e àquilo de que nem a psicanálise nem a historiografia se esquecem: a memória.


5 a 4: privilegiado quem jogou, afortunado quem assistiu, FSP

 Luís Curro

"Foi o melhor jogo de futebol em que estive envolvido."

A declaração do português Vitinha, um dos volantes portugueses do Paris Saint-Germain, reflete o que não só ele, mas muito possivelmente a maioria dos jogadores envolvidos na partida, vivenciou nesta terça-feira (28) no estádio Parque dos Príncipes, em Paris.

Vitinha considera-se um privilegiado por ter participado, e com o privilégio extra de seu time ter vencido, de PSG 5 x 4 Bayern de Munique, jogo de ida de uma das semifinais da Champions League, o principal interclubes europeu.

Isso somente duas semanas depois de o mesmo Bayern ter estado, como vencedor diante do Real Madrid, em um outro thriller, 4 a 3, nas quartas de final.

Dois jogadores de futebol do time Paris Saint-Germain comemoram. Um deles, com a camisa número 87 e nome João Neves, está de costas, enquanto o outro, de frente, que é Vitinha, levanta os braços para cumprimentar. O fundo está desfocado, indicando um estádio à noite.
O português Vitinha comemora com João Neves, também volante, o gol do compatriota na vitória do PSG sobre o Bayern na Liga dos Campeões da Europa - Franck Fife - 28.abr.26/AFP

Eu também posso me considerar afortunado, pois assisti a um dos melhores jogos da história. Quisera ter sido não pela TV e sim no estádio, que tive a feliz oportunidade de conhecer meses atrás.

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Não foi em dia de jogo (era intertemporada na Europa), então fiz um tour, em um dia quente e ensolarado do verão francês. O campo vazio tem seu encanto, os assentos sem a torcida parecem ampliar a grandiosidade da arena, que é muito bonita, colorida de vermelho, azul e branco.

Circulei nas proximidades do gramado, tirei várias fotos, havia centenas de visitantes e uma espécie de gincana para as crianças no espaço atrás de um dos gols. Sentei-me nas cadeiras e imaginei como seria fantástico algum dia ver jogadores de alto nível desfilarem o futebol ali, metros à frente.

Vale muito a visita, assim como vale conhecer Roland Garros, palco de um dos Grand Slams do tênis, outra parada minha na Cidade Luz.

Jogadores do Bayern de Munique em campo, alguns com mãos unidas em aplauso, vestindo uniforme vermelho e branco. Estádio com público ao fundo em ambiente noturno.
Harry Kane aplaude os fãs do Bayern quje estiveram no estádio Parque dos Príncipes para ver o épico jogo de 9 gols na semifinal da Champions League - Stephanie Lecocq - 28.abr.26/Reuters

Usei o adjetivo fantástico e o repito: fantástico em uma noite primaveril de clima ameno e seco foi para os 48.853 afortunados que presenciaram "in loco" o espetáculo exibido do começo ao fim pelas equipes francesa e alemã no Parque dos Príncipes. Um futebol majestoso.

(Um parêntesis: o estádio, erguido em 1897 e que é a casa do PSG desde 1974, é assim chamado porque nos séculos 16 a 18 os filhos do rei da França brincavam e caçavam naquela área.)

Uma partida cheia de alternativas, com Bayern na frente, virada do PSG, empate do Bayern, goleada provisória do PSG (5 a 2), reação do Bayern, insuficiente para a igualdade mas suficiente para criar uma expectativa imensa para o confronto de volta, na Alemanha.

Pouquíssimos passes errados, lançamentos precisos, ataques bem articulados, contra-ataques de qualidade, gols em abundância, faltas em falta. Reclamações mínimas à arbitragem, lealdade nas disputas de bola, zero de catimba ou cera. É de sorrir de lado a lado por 90 minutos mais acréscimos.

Dois jogadores do time de futebol vestindo uniforme azul escuro comemoram no campo. Doué está no chão segurando o outro, que é Dembélé e está no ar com expressão de alegria. O fundo mostra parte do estádio e um jogador adversário com uniforme vermelho.
Dembélé, dois gols no 5 a 4 do PSG sobre o Bayern em Paris, abraça Doué depois de fazer o 5º gol da equipe da casa em semifinal da Champions - Alain Jocard - 28.abr.26/AFP

Será que a Libertadores, a "Champions da América do Sul", terá neste ano uma semifinal nesse nível de disputa e de artilharia, com nove gols? Difícil alimentar essa esperança quando, ao olhar para as semifinais de 2025, as mais recentes (Flamengo x Racing e Palmeiras x LDU), todos os quatro jogos somados tiveram um gol a menos que PSG x Bayern.

É necessário voltar cinco décadas no tempo, a 1976, para o nosso primeiro 5 a 4. A Libertadores daquele ano teve, na fase de grupos, um Cruzeiro 5 x 4 Internacional no Mineirão, em Belo Horizonte.

Joãozinho e Palhinha, com dois gols cada um, conduziram a Raposa à vitória contra o Colorado do zagueiro chileno Elias Figueroa e de um jovem Paulo Roberto Falcão, o futuro Rei de Roma. Nelinho, de pênalti, aos 40 minutos do segundo tempo, fez o nono gol dessa histórica partida, vista no estádio Governador Magalhães Pinto por 65.463 pessoas.

Talvez o melhor time que o Cruzeiro já teve, dirigido por Zezé Moreira (1907-1998), depois de enfiar um 7 a 1 na fase semifinal no Alianza de Lima, derrotou o River Plate na decisão, em campo neutro, no Chile, em um eletrizante 3 a 2 (cinco bolas na rede!), com o gol do título, de Joãozinho, a dois minutos do fim.

Dois jogadores do Corinthians, Vampeta e Luizão, correm no gramado com as mãos próximas à boca, comemorando um gol. Ambos vestem uniforme branco com detalhes pretos e o logo da Pepsi na frente. Ao fundo, o gol desfocado.
Vampeta e Luizão (dir.) comemoram no Pacaembu um dos gols do Corinthians no 5 a 4 contra o Olimpia (Paraguai) na Libertadores de 2000 - Fernando Santos - 19.abr.00/Folhapress

Depois, passados 24 anos, no ano que encerrou o século 20, o Corinthians campeão mundial (de Dida, Vampeta, Ricardinho, Marcelinho Carioca e Edílson Capetinha) registraria no estádio do Pacaembu, em São Paulo, mais um 5 a 4, tendo como adversário o paraguaio Olimpia na fase de grupos. Luizão marcou três gols.

E mais recentemente, em 2019, também na fase de grupos, Universidad de Concepción, que ganhou o jogo, e Sporting Cristal, do Peru, repetiram esse placar em partida no Chile.

Ou seja, já conseguimos, o futebol sul-americano, ser páreo com a Champions de hoje. Falta levar esse patamar de emoção, um 5 a 4, para uma fase aguda, para uma semifinal.

Candidatos à eterna infâmia, Ruy Castro, FSP

 Em 1977, num show no Canecão, Vinicius de Moraes cantou para Tom Jobim: "Rua Nascimento Silva, 107/ Você ensinando pra Elizeth/ As canções de ‘Canção do amor demais’/ [...] // Mesmo a tristeza da gente era mais bela/ E, além disso, se via da janela/ Um cantinho de céu e o Redentor// É, meu amigo, só resta uma certeza/ É preciso acabar com essa tristeza/ É preciso inventar de novo o amor". Tom respondeu: "Rua Nascimento Silva, 107/ Eu saio correndo do pivete/ Tentando alcançar o elevador/ Minha janela não passa de um quadrado/ A gente só vê Sérgio Dourado/ Onde antes se via o Redentor.// É, meu amigo, só resta uma certeza/ É preciso acabar com a natureza/ É melhor lotear o nosso amor".

Sérgio Dourado era a imobiliária que, nos anos 1970, por conluios imorais com os poderes, botou no chão os predinhos de quatro andares de Ipanema e levantou espigões, decuplicando a população do bairro e o número de carros na rua. Eram os anos dourados, mas também "sérgio-dourados". Seu nome se tornou sinônimo de especulação imobiliária, empreendedorismo velhaco e ocupação desastrosa do espaço urbano.

Hoje são os predinhos do antigo Leblon, também de humanos quatro andares, sem garagem e sem elevador, que vão abaixo para a construção de monstros de 17 andares em área residencial. Com a diferença de que os apartamentos de Sérgio Dourado eram de luxo, como os do "Brasil grande" que a ditadura servia aos seus abonados. Os caixotões atualmente em obras são colmeias de "estúdios", como se chamam agora as mesmas quitinetes do passado, e com os mesmos 20 metros quadrados.

Nesses cubículos, só há espaço para um sofá-cama, um freezer e um cooktop de duas bocas. Entra-se de frente no banheiro e sai-se de costas, única manobra possível. Abertas as vendas, 80% das unidades são vendidas em minutos. Evidente que se destinam a Airbnbs, promessa de tornar impossíveis os aluguéis na região.

São inúmeros os novos Sérgio Dourados no país. Um dia, seus nomes carregarão eterna infâmia, igual ao dele.