sábado, 6 de junho de 2026

Quanto vale um show?, Gustavo Alonso - FSP

 Todo São João no Nordeste é a mesma coisa. Uns artistas ganham milhões. Outros são excluídos dos festejos, e usam as redes sociais para protestar. Todos querem uma boquinha da verba municipal, sem questionar por que o Estado brasileiro deve custear shows em praça pública.

A Prefeitura de Caruaru divulgou nesta semana os cachês de artistas que vão se apresentar no São João de Caruaru 2026. Entre os maiores valores está o projeto À Vontade, que reúne Luan Estilizado, Raí Saia Rodada e Zezo Potiguar e receberá R$ 990 mil. O cantor Xand Avião e Bell Marques receberão R$ 800 mil cada e Mari Fernandez, R$ 520 mil.

Homem de camiseta marrom e jeans segura microfone branco e sorri durante evento ao ar livre ao entardecer. Pessoas e luzes desfocadas aparecem ao fundo.
Wesley Safadão no Partiu São João, da Globo - W. Barbarini/W. Barbiani/Globo

O cantor Pablo receberá R$ 765 mil e João Gomes, R$ 750 mil. Joelma ganhará R$ 550 mil, enquanto Solange Almeida e a banda Limão com Mel receberão R$ 350 mil cada. O histórico grupo É o Tchan, que desde os anos 1990 não tem um sucesso nacional na boca do povo, também receberá R$ 350 mil. A cantora Elba Ramalho ficará com R$ 250 mil, e a banda de forró eletrônico Mastruz com Leite ganhará R$ 220 mil dos cofres públicos. O show mais caro será o do cantor Wesley Safadão: R$ 1,5 milhão.

A diferença entre os valores leva a perguntar, então, quanto de fato custa um show e qual o limite que o Estado ou o município devem pagar por eventos como esses.

Não se está aqui falando de corrupção direta, aquela em que um caixa 2 é extraído a partir do conluio entre entes públicos e privados. Imaginemos uma relação efetivamente correta do ponto de vista legal, em que o artista de fato ganha quanto cobra e que a prefeitura não leva nenhum por fora. Mesmo essa relação legalmente correta está cheia de aberrações.

Uma forma de precificar um show é considerar a quantidade de músicos e funcionários que trabalham para aquela performance acontecer. Luz, indumentárias, transporte, equipamentos, custos com a viagem, tempo de apresentação –tudo isso deveria lastrear o preço de um show.

Mas não é assim que acontece, especialmente para os artistas do topo da cadeia alimentar do show business brasileiro. O preço do show de um Wesley Safadão não é definido por questões meramente técnicas. Conta mais quanto o mercado paga por esse show. Se o preço daquele artista no mercado é X, o órgão público se vê "obrigado" a pagar esse valor.

O problema começa quando este "mercado" torna-se hiperinflado exatamente porque quem paga os altos valores com frequência são os próprios entes públicos. Boa parte das apresentações desses artistas acontece em aniversários de cidades, rodeios bancados pelos municípios, vaquejadas celebrativas do poder local. A carreira dos artistas popularzões brasileiros é em grande parte sustentada pela relação contínua com as prefeituras do interior.

Ou seja, na verdade, não se sabe o valor de mercado desses artistas. O que sabemos é que as prefeituras pagam tais valores inflacionando um mercado irreal.

Os contratos do São João de Caruaru foram firmados por meio de inexigibilidade de licitação, prevista na Lei Federal nº 14.133/2021, que permite a contratação direta de artistas "consagrados pela crítica ou opinião pública".

No fim das contas, basta o prefeito querer um artista X ou Y para que seja contratado, sem que haja irregularidades legais para isso. E o valor pago tampouco pode ser questionado. Afinal, segundo a lei, não é preciso abrir concorrência para contratações. Não há dois Wesley Safadões no mercado, apenas um. Logo, segundo nosso regramento legal, não faz sentido abrir concorrência. Vai entender. Então paga-se o que o artista supostamente pede.

Supondo ingenuamente que nossos prefeitos do interior não levam caixa 2, tudo isso é legal. Mas é legítimo? Décadas atrás proibimos os showmícios. Será que não é hora de proibirmos os shows bancados por prefeituras?

Afinal, toda vez que as prefeituras contratam shows, dois males são criados. Primeiro inflaciona-se o mercado musical. Segundo, e talvez mais grave ainda, autorizam-se prefeitos do interior a serem sommelier do gosto popular.

Formação do Parlamento é tarefa da sociedade, Dora Kramer - FSP

 O crescimento do poder do Parlamento não serviu só para inverter o equilíbrio de forças entre Executivo e Legislativo. Servirá nesta eleição para dar chance ao eleitorado de desmentir a escrita de que o próximo Congresso será sempre pior que o anterior.

Para isso é preciso observar alguns pré-requisitos na escolha de deputados e senadores. Renúncia ao pertencimento a bolhas ideológicas é um deles, mas há outros: atenção máxima ao cardápio de candidatos, prioridade semelhante à dada aos postulantes à Presidência e abandono de badulaques tais como carisma e venda de terrenos na Lua.

Conta também para um Legislativo alinhado às regras do presidencialismo a conjugação de parlamentares à opção por um candidato a presidente que tenha com eles identificação programática —de novo, não necessariamente ideológica— que facilite o ato de governar.

Edifício do Congresso Nacional com duas torres altas ao centro, cúpula hemisférica à esquerda e estrutura em forma de prato à direita, refletidos em espelho d'água à frente, sob céu azul claro.
Vista da fachada do Congresso Nacional, em Brasília (DF) - Pedro Ladeira - 5.jul.24/Folhapress

Não se trata de interditar o essencial ofício da oposição, mas de distinguir os papéis dos Poderes, seus deveres e direitos, no sistema presidencialista. Há dúvida sobre o interesse dos beneficiários da atual distorção de explicar que se eles querem exercer o controle do Orçamento devem ter também responsabilidade na execução das políticas públicas.

Sem essa atribuição clara de prerrogativas, vamos continuar na toada em que o Congresso dita ações do governo sem ter responsabilidade sobre as consequências. Situação muito confortável para o Parlamento, mas de evidente distorção institucional. Urgente, portanto, que se corrija a deformação.

Se não for pela mudança de sistema —duas vezes recusada em plebiscito—, que seja pelo voto consciente. Convencida de que a eleição de congressistas influi no ato de governar, altera decisões, prospera ou interdita decisões, a população tem a chance de dar o seu jeito.

E qual seria o melhor jeito? Decerto prestar atenção, empregar rigoroso escrutínio ao que dizem candidatos sobre a utilidade que pretendem dar aos futuros mandatos e questioná-los sobre o que acreditam ser o papel do Congresso.


Mais desigual e mais feliz do mundo, qual é o segredo do Brasil?, Laura Müller Machado- FSP

 O Brasil ocupa a quinta posição entre 216 países e territórios em desigualdade de renda, segundo o Relatório da Desigualdade Global divulgado em 2025 pelo WIL (World Inequality Lab), grupo de pesquisadores liderado pelo economista francês Thomas Piketty.

O dado mais recente do governo brasileiro, divulgado pelo IBGE neste ano, indica que o Brasil teve um aumento de 1,3% no Gini, indicador utilizado para medir desigualdade, de 2024 para 2025. Somos um dos países mais desiguais do mundo e não temos sinais de que iremos sair dessa posição, ocupada há muitas décadas.

Vista aérea mostra favela com casas pequenas e amontoadas cercada por prédios residenciais altos e modernos ao fundo, sob céu claro.
Vista aérea panorâmica da comunidade de Paraisópolis, localizada na zona sul da cidade de São Paulo, mostra contraste entre o adensamento habitacional da periferia e os edifícios de alto padrão ao fundo - Folhapress

Um estudo publicado no Journal of Economic Inequality em janeiro deste ano apresenta a relação entre a percepção da desigualdade de renda e o bem-estar subjetivo. Utilizando dados de 33 países da Pesquisa Vida em Transição de 2016, que inclui informações sobre as mudanças na desigualdade percebida pelos indivíduos, o estudo mostra que essa percepção é importante para a satisfação com a vida.

Indivíduos que acreditam que a desigualdade aumentou estão, em média, 8% menos satisfeitos com suas vidas na comparação com os que não percebem o aumento dela. Talvez o mais surpreendente da pesquisa seja que levar em conta os níveis e mudanças factuais de desigualdade não altera esse resultado, ou seja, as percepções são mais importantes para a satisfação do que a desigualdade real. O que esse resultado gera de reflexão sobre o Brasil, um dos mais desiguais, de fato, do mundo?

Caso a percepção sobre desigualdade dos brasileiros fosse idêntica à desigualdade factual, ou seja, caso nossa sociedade percebesse o Brasil como ele é, não seria surpreendente esperar que estivéssemos muito tristes. Afinal, um bem-estar baixo por conta de uma altíssima disparidade econômica interna, que salta aos olhos do restante do mundo, é uma hipótese razoável. No entanto, não parece ser o que acontece.

O World Values Survey (WVS) é um projeto de pesquisa global que explora os valores e crenças das pessoas desde 1981. Na sétima e última onda da pesquisa (2017–2022), os brasileiros relataram níveis expressivos de bem-estar subjetivo; tipicamente, entre 80% e 90% dos entrevistados se identificaram como "muito felizes" ou "bastante felizes".

Outras pesquisas mais recentes, como o World Happiness Report, também mostram o Brasil entre as posições mais altas, sendo a Finlândia, a Islândia e a Dinamarca os grandes destaques.

Parece desafiador tentar relacionar esses três resultados: somos um dos países mais desiguais do mundo, a percepção da desigualdade é muito importante para o bem-estar e temos altos indicadores de bem-estar. Quais seriam as possíveis explicações para essa tríade intrigante?

Uma hipótese é que o Brasil talvez tenha algo diferente, as praias, o Carnaval ou outra coisa, que diminua o impacto da enorme desigualdade no bem-estar. Ou seja, o estudo do Journal of Economic Inequality não se aplicaria ao Brasil.

Outra hipótese é que a percepção sobre a desigualdade dos brasileiros esteja muito distante da realidade. Talvez não nos demos conta de que a concentração de renda no topo da pirâmide brasileira é enorme, com os 10% mais ricos detendo cerca de 40% a 64% da renda nacional, dependendo da fonte dos dados. Qual será o elemento e o segredo que nos faz ter tanta alegria e desigualdade convivendo lado a lado?