segunda-feira, 6 de julho de 2026

São Paulo tem só 10% do mínimo de água e discute reúso de esgoto para abastecer represas, FSP

 

São Paulo

Com 21 milhões de habitantes, a capital de São Paulo e os 38 municípios do seu entorno formam um raro caso de grande metrópole a se desenvolver numa área de cabeceira de rios, uma armadilha geográfica quando o assunto é a disponibilidade de água. A vazão naturalmente baixa nas proximidades das nascentes cria uma escassez crônica e praticamente irreversível.

Cada habitante das cidades instaladas sobre a Bacia Hidrográfica do Alto Tietê —uma área de escoamento de 130 quilômetros que em linha reta parte do município de Salesópolis, a leste, até Pirapora do Bom Jesus, a oeste— conta com menos de 10% do mínimo de água recomendado pela ONU (Organização das Nações Unidas). A oferta de 127 metros cúbicos de água por ano por habitante está muito abaixo do limite de 1.700 metros cúbicos a partir do qual a organização já considera que há estresse hídrico.

Poça de água marrom irregular em solo seco e rachado, com marcas de pegadas ao redor e vegetação escassa.
Área seca em represa do Sistema Cantareira, em Joanópolis (SP), em dezembro do ano passado, quando o principal conjunto de reservatórios ficou abaixo de 20% da sua capacidade; hoje está com aproximadamente 40% - Danilo Verpa - 5.dez.2025/Folhapress

Para evitar que as torneiras sequem na capital e arredores, a região importa mais de 50% da água de outras bacias, que são a PCJ (rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí), Baixada Santista, Paraíba do Sul e São Lourenço. Uma solução que, além de demandar infraestrutura de dezenas de quilômetros de tubulações, túneis e canais, também impõe enfrentamentos políticos devido aos desafios próprios das cidades que perdem parte do seu recurso hídrico para São Paulo.

Esse cenário é detalhado no Diagnóstico PMSAI-SP, documento que fundamenta a minuta do Plano Municipal de Saneamento Ambiental Integrado da Prefeitura de São Paulo.

O plano, elaborado por técnicos da prefeitura e do ONU-Habitat (programa das Nações Unidas para assentamentos humanos), permanecerá disponível para consulta pública até 12 de julho. O texto propõe estratégias para os próximos 20 anos voltadas ao abastecimento, esgotamento sanitário, drenagem e gestão de resíduos sólidos.

Entre as propostas, o reaproveitamento de esgoto para a recarga de mananciais pode ser considerado uma das formas mais eficientes para equilibrar a oferta, mas é também a mais culturalmente desafiadora.

O reúso potável indireto já ocorre em partes dos Estados Unidos, como na Califórnia, e em outros países como Austrália e Israel. Apesar de requerer rigoroso processo de filtragem e desinfecção, a ideia tende a gerar repulsa e desconfiança em parte da população.

No plano paulistano, o reúso planejado em mananciais estratégicos é apontado como uma medida auxiliar para manter os níveis das represas, especialmente em períodos de seca, reduzindo a dependência de transposições de outras bacias.

Grandes estações de tratamento como as que existem nas cidades de Suzano e Barueri teriam grande potencial de abastecer córregos que deságuam em sistemas de reservatórios como o Alto Tietê e Cotia, diz o plano. Isso criaria circuitos fechados em que parte da água que abastece as casas voltaria para as represas.

O plano municipal estabelece o compromisso de ampliar progressivamente o aproveitamento de efluentes tratados, fixando como meta atingir 9,2% de reúso em relação ao volume total consumido até o ano de 2045.

A meta não é exclusiva para recarga de mananciais. O estudo também prevê aplicações na indústria, construção civil e limpeza urbana, além da melhora da eficiência do uso para fins não potáveis dos reservatórios de águas pluviais que desde 2002 são obrigatórios por lei na capital paulista.

Uma estratégia avaliada pelo município para alcançar a meta é a criação de estímulos financeiros aos consumidores, segundo Amanda de Almeida Ribeiro, coordenadora de Segurança Hídrica da Prefeitura de São Paulo.

"Estamos propondo o estudo de incentivos, alguns tipos de incentivo para reaproveitamento da água e também para a contenção da água no lote, para diminuir a pressão do sistema de drenagem," diz.

Questões que se tornam ainda mais necessárias diante da expectativa de ondas de calor mais frequentes que chegam a reboque das mudanças climáticas e da intensificação de fenômenos como o El Niño, segundo Lucas Daniel Ferreira, coordenador do PMSAI pelo ONU-Habitat.

No diagnóstico que embasa o plano municipal, estima-se que para cada 1°C de aumento na temperatura média, a demanda por água cresça 24,9%.

"Dentro dos cenários climáticos de aumento de temperatura, você tem uma tendência também a aumentos [de consumo] e de colapso do sistema. É uma coisa que a gente tem que ter em mente e também é um dos contextos que nos levou a fazer algumas propostas no plano", diz Ferreira.

O risco de aumento de consumo projetado pelo diagnóstico do PMSAI é considerado exagerado pela Sabesp, a empresa de saneamento do estado de São Paulo.

Para o diretor-corporativo da companhia, Marco Antonio Lopez Barros, dados sobre o consumo compilados desde década de 1970 indicam que, embora a demanda aumente em dias quentes, essa oscilação não costuma ultrapassar 5% do total produzido pelo sistema.

Barros também considera que, apesar do permanente cenário de estresse hídrico, a tendência é que a oferta permaneça estável especialmente por uma questão demográfica —o Censo realizado pelo IBGE em 2022 indicou que a população parou de crescer na maior parte das cidades da região metropolitana, incluindo a capital.

Ele reforça, porém, que o diagnóstico feito pelo município está correto ao apontar a necessidade de diminuição da dependência das transposições entre bacias.

"O reúso permitiria alimentar rios e córregos que nós usamos, dependendo menos da influência das chuvas", diz. "Qualquer nova fonte de água que a Sabesp tiver que buscar está a centenas de quilômetros."

Para o diretor da Sabesp, o tema precisa começar a ser amplamente debatido com a sociedade para que possa avançar quanto à sua regulamentação.

"Se não trouxermos a discussão, não venceremos a barreira cultural que é a maior de todas, o assunto fica muito superficial e tem muito preconceito", afirma.

O PMSAI também reconhece que a ausência de uma lei específica ou de uma regulamentação clara que formate um modelo definitivo no estado é um dos principais obstáculos.

A Cetesb, companhia ambiental ligada ao governo estadual, apontou um avanço recente na questão. Uma norma técnica passou a definir a partir de 2022 critérios de monitoramento e qualidade para o reúso indireto potável. O órgão destaca, porém, que a liberação não é automática e requer licenciamento específico.

Moraes e Dino mandam presidentes de tribunais explicarem descumprimento de regra sobre penduricalhos, FSP

 Luísa Martins

Brasília

Os ministros Alexandre de Moraes e Flávio Dino, do STF (Supremo Tribunal Federal), determinaram nesta segunda-feira (6) que os presidentes de sete TJs (Tribunais de Justiça) expliquem indícios de descumprimento à tese da corte sobre os penduricalhos.

Idênticas, as decisões citam reportagem da Folha segundo a qual 616 juízes e desembargadores receberam, em maio, vencimentos que ultrapassam o teto constitucional, de R$ 46,4 mil, com cifras que chegaram a até R$ 495 mil no mês.

Fachada da sede do STF (Supremo Tribunal Federal), na praça dos Três Poderes, em Brasília - Pedro Ladeira/Folhapress

Moraes e Dino deram prazo de 48 horas para que os presidentes dos TJs do Distrito Federal, Goiás, Maranhão, Paraná, Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte e de Rondônia prestem informações detalhadas sobre as verbas pagas a cada magistrado da ativa ou aposentado, sob pena de afastamento do cargo de direção.

Os ministros citam, ainda, possibilidade de que eles respondam nas esferas penal, civil e disciplinar. Os presidentes dos TJs deverão anexar ao processo cópias das folhas de pagamento emitidas entre abril e julho, que incluam verbas remuneratórias e indenizatórias.

Nos despachos, Moraes e Dino dizem que a reportagem da Folha indica que os TJs "teriam desrespeitado decisão do Supremo e, em tese, teriam autorizado pagamentos remuneratórios e indenizatórios superiores aos parâmetros constitucionais fixados".

Os tribunais afirmam que os pagamentos seguiram decisão administrativa conjunta do CNMP (Conselho Nacional do Ministério Público) e do CNJ (Conselho Nacional de Justiça). A resolução, aprovada por unanimidade em abril, recriou parte dos penduricalhos extintos e abriu brechas para que as verbas ultrapassassem o limite estabelecido pelo Supremo.

A reportagem da Folha analisou os dados de oito cortes estaduais, por serem os únicos que enviaram dados completos ao painel de remuneração do CNJ. Apenas na corte de Pernambuco não foram identificados supersalários. Nas outras sete notificadas por Moraes, foram registrados subsídios acima do limite criado pelo Supremo.

Em maio, estava em vigor decisão do STF que proibiu adicionais como auxílio-alimentação, moradia e indenização por acervo e criou um novo limite para os vencimentos. Pela regra do tribunal, os salários poderiam chegar a no máximo R$ 78,8 mil, diante de certas condições.

Parcelas extintas na decisão de março do STF foram substituídas por outras verbas na resolução conjunta do CNMP e do CNJ. A assistência pré-escolar, por exemplo, tornou-se uma "gratificação de proteção à primeira infância e à maternidade".

Na terça-feira (30), o STF concluiu o julgamento sobre o tema e liberou parte dos penduricalhos antes vedados, como a conversão em pecúnia —a possibilidade de receber em dinheiro— de até 30 dias de plantões judiciais, cujos dias de compensação não tenham sido usufruídos por falta de permissão do tribunal. O novo entendimento eleva o limite salarial.

Atrás nas pesquisas, Haddad quer nacionalizar campanha e apela para embate LulaxBolsonaro- OESP

 

Foto do autor Leticia Fernandes

Haddad confirma França como vice em SP; Marina e Tebet vão disputar o Senado

Capa do video - Haddad confirma França como vice em SP; Marina e Tebet vão disputar o Senado

Anúncio sobre a chapa em São Paul foi feito nesta quinta-feira, após alinhamento com Lula na véspera. Crédito: Estadão

A campanha do ex-ministro da Fazenda, Fernando Haddad (PT), pré-candidato ao governo de São Paulo, vai apelar para a polarização entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) para tentar crescer no maior colégio eleitoral do País.

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Haddad aparece atrás do atual governador, Tarcísio de Freitas (Republicanos), em todas as pesquisas de intenção de voto no Estado que nunca elegeu um quadro petista para o governo.

Ciente disso, o coordenador da campanha de Haddad, Marco Aurélio de Carvalho, quer nacionalizar o embate e comparar os investimentos realizados no Estado de São Paulo na gestão Bolsonaro e durante o governo Lula 3.

Em conversa com a Coluna do Estadão, Marco Aurélio explica que uma das estratégias é mostrar que, mesmo com um governador adversário, o presidente Lula já investiu mais recursos federais em São Paulo do que os quatro anos de governo anterior, que era aliado de Tarcísio.

Guerra de narrativas

Segundo Marco Aurélio, que também coordena a campanha de Lula no Estado, a ideia é dar “elementos de comparação” ao eleitor paulistano.

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“Vamos oferecer elementos de comparação para mostrar ao eleitor de São Paulo o Brasil que recebemos, e o Brasil que estamos entregando. Haddad e Lula investiram R$ 13 bilhões no Estado de São Paulo, mesmo o governador sendo de outro partido. Com Bolsonaro, o investimento foi de R$ 2 bilhões”, disse à Coluna.

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Como mostrou o Estadão, o repasse de verbas do governo federal sob Jair Bolsonaro caiu em 90% só na cidade de São Paulo, se comparado com o último ano da gestão de Michel Temer. O emedebista assumiu a presidência com o impeachment de Dilma Rousseff (PT).

Levantamento da Vox Brasil divulgado no último domingo, 28, aponta que Tarcísio tem 51,8% das intenções de voto, contra 37,5% de Haddad, uma diferença de mais de 14 pontos porcentuais. A aprovação da gestão do atual governador também se mostrou alta: 61,1%. Os que desaprovam a administração de Tarcísio, segundo a pesquisa, são 31,5%.

O governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) e o ex-ministro da Fazenda Fernando Haddad (PT) são pré-candidatos ao governo de São Paulo
O governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) e o ex-ministro da Fazenda Fernando Haddad (PT) são pré-candidatos ao governo de São Paulo Foto: Paulo Guereta/Governo de São Paulo e Wilton Junior/Estadão

Petistas voltam a encampar discurso de frente ampla e Haddad como ‘o FHC do PT’

O PT de São Paulo também vai apostar nos quadros competitivos que têm na chapa ao Senado para as eleições de outubro, com as ex-ministras Simone Tebet (Planejamento) e Marina Silva (Meio Ambiente), para tentar dar fôlego à campanha de Fernando Haddad ao Palácio Bandeirantes.

Sem vaga garantida no segundo turno contra Tarcísio de Freitas, a estratégia da campanha é recorrer novamente à ideia de uma frente ampla, que estaria desta vez, segundo Marco Aurélio de Carvalho, representada na chapa do petista. Além das ex-ministras, o vice de Haddad é Márcio França, filiado ao PSB.

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“A frente ampla que pode tirar São Paulo do apagão que está vivendo está na chapa de Haddad”, disse o coordenador.

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A ideia de uma frente ampla será mais um dos embates travados entre Haddad e Tarcísio de Freitas. Apesar do discurso do PT, por enquanto só há partidos de esquerda e centro-esquerda na coligação petista, como o PSB, a Rede, o PSOL, o PCdoB e o PDT.

Tarcísio, por outro lado, já conseguiu reunir em sua órbita boa parte das legendas de direita e de centro-direita. Além do PL, apoiam o governador de São Paulo partidos como o MDB, PSDB, PP, União Brasil e Novo.

O pré-candidato ao governo e ex-ministro da Fazenda de Lula quer explorar o fato de nem Tebet e nem Marina, que lideram as pesquisas recentes para o Senado, serem quadros ligados ao PT. Segundo avaliação da campanha de Haddad, Simone Tebet é um nome de centro, de pensamento liberal.

Marina Silva, por sua vez, ainda que já tenha sido filiada ao PT, já “ultrapassou” a ligação com o partido e não é mais relacionada às fileiras petistas pelo eleitor, segundo pesquisas internas. Foi candidata a presidente, uma das deputadas federais mais bem votadas de São Paulo e criadora de um partido considerado de centro-esquerda. Marina, que é evangélica, carrega ainda uma percepção eleitoral de um pensamento conservador “genuíno”, exposto em pautas de costumes, como o aborto.