Toda nação se constrói sobre mitos. Joseph Campbell ensinou que toda cultura precisa de seus heróis: figuras cuja jornada arquetípica organiza o imaginário coletivo e empresta sentido ao esforço comum. Os Estados Unidos cultuam seus pais fundadores e os engenheiros que rasgaram o Oeste; a França venera os construtores de catedrais e do Canal de Suez; o Japão homenageia os artífices dos trens-bala.
Nós, brasileiros, ainda parecemos envergonhados de quase tudo o que erguemos. Hoje, concessões se multiplicam, marcos regulatórios amadurecem, leilões mobilizam capital privado em volumes inéditos. Mas falta-nos uma narrativa épica do construir, falta-nos heróis cujas vidas lembrem que mover montanhas, abrir rios e ligar sertões são, antes de obra de engenharia, atos de civilização.
Sigo nesta série dedicada a resgatar essas figuras, aberta com Eliezer Batista, o primeiro herói aqui evocado. Hoje me detenho em um homem que deveria estar nos livros didáticos ao lado dos vultos consagrados da nossa história: Teodoro Fernandes Sampaio.
Teodoro nasceu escravizado, em 1855, no Engenho Canabrava, em Santo Amaro da Purificação. Filho de Domingas da Paixão do Carmo, mulher escravizada de origem jeje, e provavelmente do padre que lhe deu o sobrenome, foi alforriado no batismo. Aos nove anos, partiu para o Sudeste. Aos 22, formou-se engenheiro civil pela Escola Politécnica do Rio de Janeiro, tendo sido aluno de André Rebouças, cujas conquistas também o farão objeto desta série. Com seus primeiros salários, comprou as cartas de alforria dos irmãos Martinho, Ezequiel e Matias. A liberdade, para Teodoro, nunca foi conceito abstrato: era contrato a ser cumprido, parcela a parcela.
Em 1879, foi nomeado para a Comissão Hidráulica do Império, para estudar portos e a navegabilidade do interior. Era o único brasileiro entre engenheiros norte-americanos chefiados por William Milnor Roberts. Seu nome, contudo, foi omitido do edital: um funcionário de gabinete justificou que "poderia causar constrangimento aos outros estar ao lado de um homem de cor".
A reparação veio por intervenção do senador Viriato de Medeiros, que exigiu a republicação no diário oficial, com a inserção do nome de Teodoro. A humilhação não o deteve. Foi dele o primeiro estudo de melhorias do Porto de Santos. Foi dele o levantamento topográfico que abriu a Chapada Diamantina ao conhecimento da nação. Foi dele a expedição que percorreu o São Francisco da foz a Pirapora, viagem que Euclides da Cunha aproveitaria para escrever "Os Sertões" sem lhe dar o crédito devido.
A lista assombra por parecer sobre-humana: chefiou o prolongamento da Estrada de Ferro Salvador-São Francisco; comandou a Comissão de Desobstrução do São Francisco (com função corretiva de uma das primeiras rotas de navegação a vapor do Nordeste); integrou a Comissão Cruls, que demarcou no Planalto Central o sítio da futura capital; foi engenheiro-chefe da Companhia Cantareira, que deu água a São Paulo; dirigiu, de 1898 a 1903, o Saneamento do Estado de São Paulo, repensando cidades inteiras à luz das ideias higienistas de então.
Voltou à Bahia para executar o serviço de água e esgoto de Salvador. Cofundou a Escola Politécnica de São Paulo. Presidiu o 5º Congresso Brasileiro de Geografia. Em 1927, tornou-se o primeiro filho de mulher escravizada a chegar à Câmara dos Deputados.
E ainda escreveu. "O Tupi na Geografia Nacional", "O Rio São Francisco e a Chapada Diamantina", "História da Fundação da Cidade do Salvador" (este o meu preferido) —clássicos do pensamento geográfico e histórico do país.
A vida de Teodoro Sampaio contraria todos os conformismos contemporâneos. Não esperou que o Estado lhe abrisse portas: arrombou-as com competência técnica. Não fez do preconceito desculpa para a paralisia: fez do trabalho a resposta mais eloquente. Não confundiu denúncia com obra. Em um Brasil que mal iniciava a abolição, mediu rios, traçou cidades, fundou escolas, formou discípulos.
Precisamos de heróis porque sem eles a infraestrutura vira planilha, e planilhas não movem nações. Os feitos de Teodoro lembram que portos, ferrovias, redes de água e cartografias são, no fundo, gestos de fé no futuro. Que possamos honrá-lo construindo o nosso.



