O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) manifestou a aliados preocupação com os efeitos políticos e econômicos que uma possível designação do CV (Comando Vermelho) e do PCC (Primeiro Comando da Capital) como organizações terroristas pelos Estados Unidos pode causar. O Planalto age para ao menos postergar essa decisão pelos americanos.
Desde segunda-feira (9), o presidente se dedica a reuniões em busca de uma alternativa à proposta americana, que, segundo aliados do petista, abriria brecha legal para intervenções dos EUA em território brasileiro. O governo teme ainda a exploração política dos bolsonaristas e tenta traçar uma estratégia de comunicação para explicar por que resiste à ideia.
Colaboradores do presidente atribuem à controvérsia o cancelamento da viagem de Lula ao Chile. Apesar do incômodo com o convite ao senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), potencial adversário de Lula nas próximas eleições, o argumento desses auxiliares foi o de que a negociação com os EUA é emergencial.
Pessoas que acompanham o tema falam em diversos riscos na mudança de classificação, entre eles o potencial de afetar a economia e a competitividade do Brasil no cenário internacional.
Uma das preocupações está no interesse do presidente dos EUA nas transações financeiras feitas por Pix. Há quem tema uma tentativa americana de controle dessas operações, sob o argumento de que são usadas pelo crime organizado.
Empresas de cartão de crédito dos EUA são críticas da ferramenta de pagamento desenvolvido pelo Banco Central.
Na noite de segunda-feira, o presidente do PT, Edinho Silva, divulgou um vídeo em que alertou para os perigos dessa proposta. Nele, Edinho disse que o Brasil não é um puxadinho de Trump. Afirmou ainda que o governo americano poderia invadir o país e aplicar sanções econômicas contra o Brasil. Segundo ele, seria uma agressão à soberania brasileira.
A discussão nos EUA sobre designar as duas organizações como terroristas ocorre desde o ano passado. Uma ala no Departamento de Estado, órgão análogo ao Ministério das Relações Exteriores, defende dar essa classificação às facções nos moldes do que fizeram com outros grupos da América Latina, como o Cartel de Jalisco, no México.
Esse debate foi impulsionado nos EUA com a atuação do ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL) em 2025. Desde então, o governo Lula tenta brecar essa iniciativa. Na última semana, como revelou o UOL, o governo americano bateu o martelo e preparou toda a documentação para encaminhar ao Congresso e designar as facções como organizações terroristas.
O governo Lula agiu de imediato. Ainda na noite de domingo (8), o ministro Mauro Vieira (Relações Exteriores) telefonou ao seu homólogo, Marco Rubio. Segundo relatos obtidos pela Folha, um dos argumentos usados por Vieira foi o de que os americanos deveriam aguardar o encontro presencial entre Lula e Donald Trump para tomar a decisão definitiva.
Outros ministros também entraram em campo para tentar contornar a situação. O governo brasileiro acreditava que essa designação ocorreria ainda nesta segunda e, por isso, montou uma força-tarefa para debelar a movimentação. Auxiliares do presidente, porém, avaliam que o fato de ainda não ter havido anúncio significa apenas que o Brasil conseguiu ganhar tempo, e será necessário manter as conversas.
Entre as opções oferecidas pelo Brasil está a criação de uma cooperação na área do crime organizado. Integrantes do governo Trump, porém, avaliam que isso não é suficiente e que Lula atua para proteger as facções, segundo um conselheiro do presidente americano disse à Folha.
Como a Folha mostrou em uma série de reportagens, o CV e o PCC já estão presentes em todos os estados brasileiros e exercem hegemonia em ao menos 13 deles. As facções também expandiram sua atuação para além das fronteiras: o CV mantém negócios com ao menos oito países da América Latina, enquanto o PCC tem presença em ao menos 16 nações.

