quinta-feira, 19 de março de 2026

Lidando com o choque do petróleo, Braulio Borges - FSP

As tensões no Oriente Médio prosseguem e, com isso, o preço do petróleo tipo Brent subiu ainda mais nos últimos dias, aproximando-se de US$ 110. Ou seja, trata-se de uma alta de quase 60% ante o patamar de cerca de US$ 70 que estava vigorando antes desse conflito regional. As negociações realizadas nos mercados futuros de petróleo apontam que os preços somente deverão cair para menos de US$ 100 em julho, aproximando-se dos US$ 80 no fim de 2026 e dos US$ 70 no final de 2027.

Embora seja bastante difícil antecipar os desdobramentos desse conflito, os mercados futuros parecem precificar uma dinâmica bastante semelhante àquela que efetivamente ocorreu em 2022, logo após o início da guerra entre Rússia e Ucrânia. Naquele episódio, a alta inicial do preço dessa commodity foi da ordem de 50%, permanecendo acima dos US$ 100 por cerca de seis meses, recuando para um valor semelhante ao observado antes da guerra aproximadamente um ano depois (a despeito de o conflito entre os dois países europeus continuar até hoje).

Portanto, na visão do "mercado", estamos diante de um choque de oferta desfavorável expressivo, com um grau de persistência relativamente alto, mas ainda assim temporário. Essa é uma informação crucial para orientar a reação da política econômica.

Homem com roupa branca tradicional e gorro branco desfocado em primeiro plano à esquerda, com navio cargueiro laranja ancorado em corpo d'água ao fundo sob céu claro.
Petroleiro ancorado na entrada do Estreito de Hormuz - Benoit Tessier - 18.mar.26/Reuters

No caso brasileiro, já observamos algumas reações por parte do governo federal, que reduziu impostos sobre combustíveis em caráter temporário, compensando essa perda de receita com a majoração, também temporária, do imposto sobre exportação de petróleo. Discute-se agora a possibilidade de redução do ICMS pelos estados, que seriam compensados pela União pela perda de receita associada a isso.

A mudança estrutural ocorrida no Brasil nos últimos dez anos, detalhada na minha coluna anterior, cria maior margem de manobra para lidar com esse choque, já que altas dos preços internacionais dessa commodity elevam nosso saldo comercial e, também, a arrecadação fiscal.

Há também outras possibilidades, que podem não somente amenizar o impacto inflacionário mas também ajudar a lidar com o risco de déficit de suprimento, sobretudo de derivados (somos superavitários em petróleo bruto, mas importadores líquidos de diesel e fertilizantes).

O Brasil vem aumentando a incorporação de biodiesel feito a partir de óleos vegetais e gorduras animais (o chamado B100) ao diesel fóssil nos últimos anos. Hoje, já estamos com uma mistura com 15% de biodiesel e 85% de diesel fóssil, gerando o B15 vendido nas bombas. A Lei do Combustível do Futuro, de 2024, estabeleceu que poderemos chegar ao B25 em meados da próxima década.

Embora novos aumentos dessa mistura de biodiesel estejam condicionados a estudos de viabilidade técnica, diversos testes já apontaram que, com poucas modificações, caminhões e ônibus com motores de ciclo diesel mais modernos (produzidos a partir de 2012) podem rodar com o B100. O principal ponto de atenção é a estocagem do biodiesel, que, se não for adequada, pode impactar negativamente os motores.

Também deverão entrar em breve no mercado os motores com sistemas flex diesel/etanol, reduzindo a dependência de diesel, bem como as emissões de gases de efeito estufa. O aumento da oferta doméstica de biometano, produzido a partir de diversos tipos de resíduos, também poderá substituir gradativamente o uso do diesel fóssil nos transportes e reduzir as emissões (a Lei do Combustível do Futuro também definiu mandatos crescentes de uso desse combustível).

Nossa maior vulnerabilidade está nos fertilizantes, particularmente nos nitrogenados —que são produzidos a partir do gás natural fóssil. O Brasil importa cerca de 90% do consumo doméstico. O uso do biometano como insumo pode ser uma alternativa, mas não imediatamente, uma vez que são poucas as unidades produtoras desses fertilizantes em nosso país.

Ozempic a preço de banana é ameaça para os rodízios, Marcos Nogueira - FSP

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São Paulo

Sextará forte nesta sexta-feira (20). A data é esperada há tempos por milhões de brasileiros: será o dia da quebra da patente das canetas emagrecedoras à base de semaglutida, hoje vendidas a preço de ouro por um único laboratório sob os nomes Ozempic e Wegovy.

É evidente que o efeito nos preços do medicamento não será imediato, mas o surgimento de genéricos e similares tem tudo para multiplicar o uso das canetinhas nos próximos anos.

Tigela branca contém pimentões vermelhos e amarelos assados, cortados em pedaços, imersos em azeite. Fundo é tecido listrado em tons claros.
Receita de antepasto de pimentão - Marcos Nogueira/Folhapress

Já se fala bastante sobre como o fenômeno afeta tanto a indústria alimentícia quanto o setor de restaurantes, com redução de porções e adequações afins. É só o começo, amigos, é só o começo.

Com a concorrência crescendo e os preços declinando, o mundo terá menos apetite —sei lá, o emprego do termo "fome" me soa leviano para um tópico que, por ora, só interessa à faixa mais abonada da sociedade.

Não antevejo uma quebradeira geral dos restaurantes —eles sempre se adaptam—, mas suspeito que as transformações serão grandes. Alguns esquemas de serviço, que já se encontram em decadência, tendem a encolher até desaparecer quase por completo.

É o caso dos rodízios. De churrasco, de pizza, de comida japonesa. E dos bufês com preço fixo, do tipo para comer até estourar o botão da calça.

Esses tipos de restaurantes se assemelham a cassinos. Cobram uma grana preta e desafiam o cliente a quebrar a banca, comendo mais do que pagou. Isso raramente acontece, e a maioria das pessoas já percebeu que a aposta não vale a pena—tanto que o número de rodízios, uma febre no fim do século passado, é cada vez menor.

Em uma sociedade inapetente, o comer até passar mal perde de vez o sentido. Quem ainda trabalha com rodízio provavelmente vai ter de repensar o negócio.

O 20 de março também entra no calendário como o Dia Mundial sem Carne. Assim, a receita da vez é 100% vegana: um antepasto de pimentões.

Tem um pessoal que não curte pimentão porque diz que é indigesto. O problema desaparece quando você tem pimentões maduros, bem cozidos e sem pele: para removê-la, é só torrar o exterior da hortaliça no forno, na air fryer ou direto na chama do fogão.

A receita a seguir rende duas porções pequenas, ideais para quem está na canetinha emagrecedora.

ANTEPASTO DE PIMENTÕES

Dificuldade: fácil
Rendimento: 2 porções
Tempo de preparo: cerca de 1 hora

INGREDIENTES

  • 4 pimentões maduros (vermelhos, amarelos, laranjas)
  • 2 dentes de alho laminados
  • 2 colheres (sopa) de azeite
  • 1 colher de sopa de vinagre de vinho branco
  • Sal, pimenta-do-reino e ervas aromáticas a gosto

MODO DE FAZER

  • Queime a pele dos pimentões no forno alto, na air fryer ou direto na chama do fogão. Deixe-os esfriar num saco fechado: o vapor liberado vai fazer a pele se soltar com facilidade
  • Remova a pele queimada, talos e sementes dos pimentões. Corte-os em tiras
  • Misture os temperos ao pimentão e guarde-o em um pote na geladeira por ao menos um dia. Coma com pão

Vorcaro, o macho alfa que desmascara a República, Marcelo Rubens Paiva. FSP

 Personagens pitorescos podem derrubar regimes. O fim do Primeiro Reinado teve a mãozinha da amante do rei. Getúlio caiu em 1954 por conta de crimes e trapalhadas do chefe da guarda pessoal. A crise se estendeu até 1964. Veio a ditadura.

A Nova República caminhou no fio do bisturi por conta de um erro médico em 1985. Se receitassem antibióticos a Tancredo Neves, ele não morria. Lula não foi eleito em 1989 provavelmente por conta de uma ex-namorada, mãe de Lurian. Collor caiu em 1992 por conta do irmão e um Fiat Elba.

Agora, a democracia pode se liquefazer se rolar a delação premiada do ex-apresentador de um programa de música gospel, que conseguiu uma licença para operar um banco, ficou bilionário com consignados do INSS e uma rede de degustadores de uísque, charuto e garotas de programa.

Daniel Vorcaro é um cordeiro com vínculo à igreja Lagoinha, que não é um bucólico templo cercado por um gramado e um laguinho, mas um império com megatemplos, filiais no exterior e uma rede de rádio e TV, a Rede Super.

Ilustração em aquarela azul com ícones brancos de controle de mídia: dois triângulos para retroceder, um triângulo para reproduzir/pausar e dois triângulos para avançar, acima de uma barra de progresso.
Julija/Adobe Stock

Tudo é superlativo nela, cujas filiais lembram academias de ginástica. Mas nem tudo na vida é festa, diria Antonio Palocci, o todo poderoso ex-ministro da Fazenda, que caiu por conta de um caseiro.

A profecia da música "Viva la Vida" (Coldplay), que seria tocada ao vivo no seu casamento, se concretizou: "Eu costumava governar o mundo, mares se erguiam quando eu mandava, mas agora eu durmo sozinho". Vorcaro dorme hoje numa cela de dois metros por três.

A notícia de que ele reclamou que sentia falta da amada Martha Graeff, a quem chamava de "momolada", não passou despercebida e quase humanizou o criminoso.

Por um lado, o vazamento de fotos e conversas íntimas causou repúdio. Mas desenhou a conta-gotas o modus operandi de como corromper uma República, de "b", "c", "s", "t", "f".

Chegaram a dizer que a influencer gaúcha não tem compaixão. Ganhou mimos, milhões e rompeu o noivado mesmo depois da festa em Roma com Ben Harper, acrobatas, flores e velas, ao estilo da franquia "Succession", filmada por drones com "Lose Control" (Teddy Swims), que traduzi como:

"Alguma coisa me pegou recentemente, não me conheço mais, sinto que o cerco está se fechando, e o diabo bate à minha porta".

Um internauta criou a playlist "Vorcaro – Amor Master", que começa com o extraordinário "I Fall in Love to Easily", de Chet Baker, um arrasa-coração cujo refrão entrega tudo:

"Meu coração devia estar calejado, porque já fui enganado outra vez, mesmo assim, me apaixono muito fácil, me apaixono rápido demais".

A lista segue com "Quero ir pra Bahia com Você" (Julio Secchin) —que na verdade deveria ser "Quero ir pra Trancoso com Você", o novo point faria-limer—, "Apenas Mais uma de Amor" (do último romântico, Lulu Santos), passando por "Let’s Stay Together" (Seal).

Onde está o compromisso "prometo estar contigo na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza, amando-te, respeitando-te e sendo-te fiel..."? Depende.

Quando Vorcaro apareceu com o cabelo raspado, Havaianas pretas, camiseta branca e calça laranja, sem brilho nos olhos, nos dentes e principalmente nos cabelos, antes penteados para trás, era um presidiário como outro qualquer.

Seguíamos seus passos, algemado, até o avião da PF, enquanto Martha seguia decidida para o lado oposto; apagou as referências e fotos do noivo, para distanciá-la o mais rapidamente possível do canalha que as mensagens revelavam, da mansão que iriam compartilhar e do escândalo Master.

A verdade sobre o macho alfa foi um baque. O mineirinho tinha no celular o contato de loiras que recebiam a mesma mensagem de "bom dia", seguida de emoji de sol e coração, que Martha recebia. Era como uma lista de transmissão do prazer.

Quando ela descobriu que ele tinha contatos de profissionais do sexo, ele se saiu com esta: "Tenho nojo do tipo de trabalho que essas mulheres fazem". Contou que conhecia mais de cem profissionais, que já deu festas com 300, mas que nunca ficou com essas mulheres, de quem sente nojo.

Para quem?

Martha pensou rápido: o cara gastou milhões na contratação de assessores, advogados, sicários, gente do quilate de ex-ministro do STF, ex-ministro da Dilma, enrolou a PGR, trocou mensagens com Xandão, fez negócios com Toffoli e funcionários do Banco Central.

Tinha na agenda contatos da direita, centrão, presidente e dois ex-presidentes da Câmara, engabelou fundos de pensão até do estado do presidente do Senado, mas não foi capaz de contratar um assessor para assuntos nada ecumênicos? Tratava pessoalmente com hosts das surubas republicanas?

Basta cantar o clássico de Domenico Modugno "Ciao, ciao bambina..." para a relação e, talvez, para a democracia.

A tese antissistêmica vai contaminar a eleição, o debate político e nossos pesadelos. Desta vez, é um playboy esbanjador que pode derrubar o regime atual? "Mamma mia!"