sexta-feira, 26 de junho de 2026

Esther Solano afirma que haverá bolsonarismo sem a figura de Bolsonaro, FSP

O crescimento do bolsonarismo não pode ser explicado apenas pelo antipetismo ou pela insatisfação com a política tradicional, segundo a cientista política Esther Solano. Para ela, a ascensão da direita nos últimos anos foi impulsionada por mudanças mais profundas nas percepções e nos valores de grupos que historicamente estavam mais próximos da esquerda, como jovens, mulheres e trabalhadores de baixa renda.

Entrevistada pelo economista Marcos Lisboa para o videocast Desenquadrando, Solano diz que a extrema direita conseguiu interpretar transformações sociais que já estavam em curso antes da eleição de Jair Bolsonaro (PL).

Desenquadrando é um especial com entrevistas sobre temas que impactam a sociedade brasileira. O programa está disponível no canal da TV Folha no YouTube.

Homem de óculos e moletom preto sentado à esquerda, com uma mão no queixo e caderno no colo. Mulher de cabelos longos e escuros, blusa azul e calça marrom sentada à direita, gesticulando com as mãos. Mesa de centro com livros e copos entre eles. Fundo com parede de madeira e divisória de vidro mostrando ambiente de escritório.
Esther Solano conversa com Marcelo Trindade para o videocast Desenquadrando - Reprodução

No quinto episódio, Solano fala sobre bolsonarismo, comportamento eleitoral, evangélicos e os desafios enfrentados pelo governo Lula (PT).

Segundo a pesquisadora, o avanço da direita ocorreu em duas camadas. A primeira foi marcada por fatores conjunturais, como o antipetismo, a Operação Lava Jato e o sentimento de frustração com a política.

A segunda, que ela considera mais importante, envolveu mudanças nas subjetividades de grupos sociais identificados com pautas progressistas.

"Quando a extrema direita chega ao poder, é porque ela simboliza um movimento de placa tectônica que já aconteceu por baixo há muito tempo", diz Solano.

A pesquisadora afirma que, entre as mulheres, a direita passou a disputar símbolos associados ao feminismo. Ela cita o caso da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, que, segundo sua análise, procura combinar a imagem de mulher atuante na esfera pública com valores religiosos e familiares.

Já entre os jovens, Solano aponta o papel das redes sociais e da comunicação digital na construção de uma política mais performática. "O jovem também foi capturado por toda essa nova dinâmica da tiktokização da política", diz.

Ela também aponta o endividamento como um dos principais fatores de insatisfação identificados.

Ao comentar a disputa para 2026, a pesquisadora diz que acompanha em pesquisas qualitativas o comportamento do chamado eleitor pendular. O grupo ainda oscila entre nomes da direita e da esquerda.

De acordo com Solano, antes de recentes controvérsias envolvendo Flávio Bolsonaro (PL), parte desses eleitores enxergava o senador como uma versão mais moderada do bolsonarismo.

"Ele parece ser um pouco mais dialogante que o pai, não parece tão tosco, tão raivoso, tão encolerizado", relata ao descrever respostas obtidas nas entrevistas.

Segundo ela, o pai era visto por esse eleitorado como autêntico e bruto, enquanto o senador e pré-candidato a presidente é "o cínico, um jogador".

"Haverá um certo bolsonarismo sem a figura do Jair Bolsonaro, como a gente vê agora. Essa disputa pelo legado do bolsonarismo enquanto campo de disputa política, enquanto quais nomes levarão esse legado."

Na entrevista, Solano também analisa a relação entre bolsonarismo e evangélicos. Segundo ela, houve um processo de "bolsonarização" de parte do universo evangélico, especialmente entre segmentos pentecostais e neopentecostais.

A pesquisadora destaca a influência da teologia da prosperidade, da valorização do empreendedorismo e da ideia de que os evangélicos passaram a se enxergar como um grupo com protagonismo político próprio. Ao mesmo tempo, ela afirma que pesquisas qualitativas realizadas durante a última eleição identificaram sinais de desgaste com a presença excessiva da política dentro das igrejas.

"Pegamos um fenômeno que eu diria que era um cansaço dessa politização dos púlpitos", diz.

Solano avalia que as igrejas continuam desempenhando papel central em comunidades periféricas por oferecerem redes de apoio social, acolhimento e pertencimento que muitas vezes não são encontradas em outras instituições.

"Acho que falta um pouco de sensibilidade, muitas vezes no campo da esquerda, de entender realmente esses vetores empoderadores na vida dos indivíduos que a igreja traz", afirma a especialista.

Horizonte relevante, choque no petróleo, El Niño e a Selic, Braulio Borges, FSP

 Na semana passada, o Banco Central do Brasil optou por reduzir novamente a taxa Selic, de 14,5% para 14,25% ao ano. Essa decisão foi mal recebida por diversos analistas do mercado, que chegaram a apontar que a autoridade monetária estaria perdendo credibilidade com esse movimento. Isso porque, para amparar essa decisão, o BC optou por alongar o chamado "horizonte relevante" para trazer a inflação de volta à meta: em vez de considerar que esse prazo seria o último trimestre de 2027 (seis trimestres à frente), a autoridade monetária considerou o primeiro trimestre de 2028 (sete trimestres à frente).

Bem, em primeiro lugar, acho que é importante lembrar que, a despeito de a Selic ter recuado, ela segue em terreno altamente restritivo —isto é, bastante acima da chamada taxa de equilíbrio (ou neutra), hoje estimada em cerca de 10% a 11% ao ano. Ou seja: o BC não está estimulando a economia, e sim apenas reduzindo, de forma bastante gradativa, o grau de restritividade da política monetária. Vale notar que há uma possibilidade de que essa taxa de juros de equilíbrio recue bastante nos próximos anos, em razão do fenômeno da "ressaca de endividamento" (ver minha coluna anterior aqui na Folha).

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Cédulas de real - Gabriel Cabral/Folhapress

Também é importante identificar a origem de boa parte da piora do quadro inflacionário corrente e prospectivo: de janeiro a agora, as expectativas de consenso do mercado para a alta do IPCA em 2026 passaram de cerca de 4% para 5,2% —muito acima da meta de 3%, com intervalo de tolerância de mais ou menos um ponto percentual.

Dessa alta de 1,2 ponto percentual, os próprios analistas estimam que aproximadamente 1 ponto tenha advindo de choques de oferta desfavoráveis: conflito no Oriente Médio (0,8 ponto) e El Niño (0,2 ponto), conforme aponta o Questionário Pré-Copom (QPC) mais recente (que pode ser acessado aqui).

Em razão dos vários mecanismos de indexação formal e informal presentes no Brasil, essa alta de 1 ponto do IPCA em consequência de choques de oferta desfavoráveis tende a elevar a inflação de 2027 em pelo menos 0,5 ponto (podendo chegar a +0,7 ponto). Ademais, o El Niño agregará mais 0,2 ponto ao IPCA do ano que vem, segundo os analistas (podendo chegar a +0,4 ponto) —já que esse fenômeno climático costuma acontecer entre meados de um ano e meados do ano seguinte (não respeitando o ano-calendário).

Ou seja: boa parte da piora da inflação corrente e esperada não adveio de surpresas favoráveis com a atividade econômica doméstica (choques de demanda positivos), e sim de choques de oferta desfavoráveis. Vale lembrar que o crescimento esperado do PIB brasileiro neste ano passou de 1,8% em janeiro para 2% agora.

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É verdade que a economia segue operando acima do seu potencial (isto é, com algum grau de superaquecimento), mas a magnitude do chamado "hiato do produto", atualmente em cerca de + 0,5 ponto, não é enorme e está bastante abaixo daquela observada entre meados de 2023 e meados de 2024 e mesmo dos níveis observados de 2011 a 2014 (quando a Selic foi reduzida de forma eleitoreira). O ciclo político-eleitoral da política fiscal federal e regional, que está impulsionando a demanda agora em 2026, deverá representar um vento contrário relevante já no fim deste ano e em 2027.

Nesse contexto, alongar o horizonte relevante em um trimestre é plenamente justificável e passa bem longe de representar uma postura leniente com a inflação —como foi interpretado por alguns analistas. Até mesmo porque a legislação que introduziu o sistema de metas contínuas no Brasil, em meados de 2024, não fixou um valor para esse horizonte, deixando isso a cargo do próprio BC. Convém lembrar que, em boa parte dos países que adotam o regime de metas de inflação, o horizonte relevante típico é de cerca de oito trimestres (dois anos à frente). É o caso de EUA, Chile, Colômbia, México e Peru, entre outros.

Dos campos de várzea para a Copa do Mundo, Mauro Calliari, FSP

 Antes de levantar a taça do pentacampeonato em 2002, Cafu pediu para um membro da comissão técnica escrever com uma caneta grossa em sua camisa: "100% Jardim Irene". A cena chamou a atenção do mundo: o capitão da seleção homenageou não só seu país, mas o bairro de onde veio. Ou, como diz o próprio Cafu, a sua quebrada, a sua favela, a sua comunidade.

A Netflix lançou uma minissérie que ajuda a entender um pouco do mundo do futebol nas periferias de São Paulo — Várzea: Onde Nasce o Futebol. O documentário gira em torno de um campeonato que reúne clubes de várzea de todas as partes da cidade. Os times se matam em campo pela sua quebrada, seja o ASA da Vila Prudente, o MEC da Cidade Tiradentes, o Milianos de Campo Limpo ou o Raça Ruim da Vila Matilde.

O jogo é feroz, a torcida é barulhenta, juízes e bandeirinhas são xingados; na preleção, um técnico agarra o atacante e vocifera: "Tem que jogar com o sentimento da comunidade, tem que guerrear". A metáfora da guerra, aliás, embalada pelo rap, é permanente: "Aqui é matar ou morrer". Armas aparecem em várias cenas.

O craque Raphinha, do Barcelona e da seleção, que começou na várzea da comunidade Restinga, em Porto Alegre, também aparece na série e confirma: "Em nenhum outro jogo sofri tanta pressão como num jogo da várzea".

Jogadores com uniformes amarelos e azuis se abraçam e se apoiam em uma cerca de arame farpado, demonstrando exaustão ou tristeza após partida.
Cena da série documental 'Várzea: Onde Nasce o Futebol', da Netflix - Divulgação

A série dialoga sem querer com o urbanismo paulistano. As próprias várzeas, que emprestaram seu nome para o futebol (em outros estados, o futebol amador tem outros nomes; no Rio de Janeiro, por exemplo, é chamado de futebol suburbano), não existem mais como tal.

As várzeas dos rios eram enormes espaços vazios, que enchiam ou esvaziavam com o ciclo das águas do Tietê, do Tamanduateí e do Pinheiros. Foi nesses espaços que surgiram as centenas de campos de futebol e clubes, como Espéria e Germânia 1899 ou o Corinthians, em 1910.

Ao final do século 19 e ao longo do século 20, a várzea vai sendo ocupada gradual e inexoravelmente. Primeiro vieram os trilhos dos trens, depois as grandes obras de saneamento, a retificação dos rios e o golpe fatal, as marginais, cortando o contato dos paulistanos com as águas onde nadavam, pescavam e remavam e também com as várzeas onde jogavam. A ocupação urbana fez o resto: onde havia campos de futebol, há shoppings de materiais de construção e condomínios gigantes.

Sem espaço nas várzeas, os campos foram migrando para as periferias. Em algumas favelas, o campinho, de terra ou grama sintética, é o único espaço público aberto. A Prefeitura informa que existem aproximadamente 200 campos de futebol públicos espalhados pela cidade, fora número desconhecido de campos privados. Estima-se que haja ainda mil times em atividade em São Paulo, mais ou menos estruturados.

Os jogadores sonham com os times grandes, mas não é só o futebol profissional que está em jogo. É também o lazer dos jovens, que depende de espaços que sobrevivam ao crescimento urbano. Se o futebol era jogado nos campos de várzea, nos terrenos baldios e na rua, hoje, as crianças só jogam na educação física da escola ou nos clubes e escolinhas particulares de futebol, para poucos.

A cada vez que alguém perde a chance de brincar de bola, perde também a chance de encontrar amigos, de aprender a ganhar e perder, e a conviver com pessoas diferentes. O professor de educação física e ex-técnico de vôlei do Minas Tenis Clube, João Crisóstomo, que, quando criança e adolescente nas décadas de 1950 e 60, jogou na várzea, me explicou que o futebol —e o brincar— ajudam no crescimento motor dos adolescentes e estimulam a capacidade de encontrar solução para seus problemas.

Portanto, não é apenas com a falta do celeiro de craques que devemos nos preocupar, mas com os espaços de convivência e de formação de cidadãos. Futebol também é política pública.