domingo, 26 de abril de 2026

A pandemia no Brasil - alguns números que você ainda não conhecia. OESP

 

Continuando a minha série sobre a pandemia, hoje vou falar especificamente sobre alguns indicadores no Brasil no intervalo de 2020 a 2023.

Começando com um gráfico de óbitos semanais por covid:

Tivemos três grandes ondas:

  • A primeira em meados de 2020;
  • A segunda (a pior de todas) em abril de 2021;
  • E a terceira na virada para 2022.

No pior momento, nós chegamos a ter mais de 20 mil óbitos por semana!

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Paciente em leito de UTI em São Paulo; foram mais de 700 mil óbitos registrados como covid no Brasil.
Paciente em leito de UTI em São Paulo; foram mais de 700 mil óbitos registrados como covid no Brasil. Foto: Daniel Teixeira/Estadão

Ao contrário do que alguns que negam a gravidade da pandemia dizem, as demais causas de óbito ficaram praticamente sem alteração. Vejam aqui que aquelas histórias de alguém que morreu porque explodiu um pneu e foi registrado como covid simplesmente não geraram alteração nos registros por causas externas. Em causas naturais, não sumiu dengue nem causa alguma – todas continuaram lá.

Nesse período, foram mais de 700 mil óbitos registrados como covid, mas tem algo além que é pouco falado no Brasil: o excesso de óbitos. É o total de óbitos subtraído dos óbitos esperados pela série histórica. E vejam que esse excesso de óbitos é próximo de 900 mil, maior que o registrado como covid, o que indica que houve subnotificação (o oposto daquilo que os que negam a pandemia dizem).

Os 700 mil mortos por covid são um número tão alto que perdemos a referência do que significa. Vou colocar em perspectiva com duas das maiores causas de óbitos:

  • Infarto, com 379 mil óbitos neste intervalo;
  • Diabetes, com 300 mil óbitos.

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Somando ambas as causas ao longo de todos os 4 anos entre 2020 e 2023, ainda não chega ao número de mortes por covid. Ou, se considerarmos apenas o intervalo entre março de 2020 e março de 2023, a covid matou mais que a soma de TODOS os tumores. Nunca houve nada parecido em saúde pública em toda a história documentada do Brasil.

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Um outro ponto sobre o qual pouco se falou foi a influência da idade nas taxas de mortalidade médias por Estados e municípios. No gráfico a seguir, que contém todos os municípios acima de 100 mil habitantes, percebe-se que há uma correlação entre maior porcentagem de população idosa e taxa de óbitos por covid.

Isso significa que as taxas que constam nos painéis comparam entes muito distintos entre si (vale tanto para municípios quanto para Estados). Mas há uma maneira de corrigir isto.

Aqui comparo a taxa de mortalidade crua, sem ajuste, com a taxa de mortalidade ajustada por idade, na qual se usa uma ponderação baseada na distribuição etária da população brasileira.

Com isso, há uma alteração significativa no ranking de mortalidade dos Estados:

  • Vários Estados da região Norte têm um índice padronizado muito maior que o cru - principalmente o Amazonas, que sai de menos de 4.000 para mais de 6.000 por milhão.
  • O Rio de Janeiro, que era o Estado que nominalmente tinha a taxa mais alta, passa a ser o oitavo – devido à sua população relativamente mais idosa. Minas e Rio Grande do Sul também caem no ranking devido a este mesmo fator.
  • Já o Maranhão, que no índice não ajustado aparecia com a taxa mais baixa, sobe duas posições.

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Considerando isto, chegamos a esse mapa, no qual alguns Estados do Norte e Centro-Oeste destoam muito do restante do Brasil. E a Bahia, por outro lado, com a taxa mais baixa do país (lembrando novamente que é o índice ajustado por idade).

Um fator que eu gostaria muito de analisar seria o excesso de óbitos por Estado. Por quê? É bem possível que alguns Estados tenham registrado melhor seus óbitos por covid que outros, então pode ser que existam taxas de subnotificação maiores em alguns Estados – ou, em outras palavras, diferenças na qualidade dos dados. É algo que infelizmente ainda não está disponível e demandará análises minuciosas dos dados – mas espero eu que não seja esquecido do debate público.

Se vocês lembram da coluna semana passada, hoje tampouco vou comentar sobre os casos de covid porque aqui no Brasil tivemos uma política de testagem deficiente e mal documentada.

Ainda existe muito a estudar sobre os indicadores comparando Estados e municípios entre si e gerar conhecimento que nos capacite para uma possível nova pandemia no futuro. E, falando nisso, na próxima semana, na terceira parte desse especial sobre a pandemia, eu vou comentar sobre alguns aprendizados da pandemia. Até a próxima.

Alexandra Moraes - Ombudsman O caso Master e seu estranho efeito nos jornais, FSP

 No último dia 8, o jornal O Estado de S. Paulo publicou a reportagem "Gilmar Mendes viajou para Brasília em avião de empresa de Vorcaro". Republicou-a no dia seguinte, no papel, ao lado de "Master pagou R$ 27 milhões a site de Luiz Estevão; Coaf aponta suspeita". Tal dobradinha colocou o jornal paulistano numa linha de tiro incomum.

Quando a informação sobre a viagem do ministro do STF veio à tona, a Folha a confirmou, publicou e atribuiu o furo ao Estado, seguindo boas práticas jornalísticas: "Gilmar Mendes pegou carona em avião de Daniel Vorcaro". Outros sites fizeram o mesmo.

Nove dias depois, o Estado resolveu se retratar pela reportagem. Numa nota de correção, afirmou que "o título não refletia como deveria o conteúdo integral do texto" e que "a presença de Gilmar Mendes no voo não se deveu ao fato de o avião, à época, pertencer a uma empresa, a Prime You, na qual o banqueiro Vorcaro tinha participação. Gilmar viajou como convidado de Marcos Molina, presidente do Conselho de Administração da MBRF". A MBRF, não custa lembrar, é a gigante fruto da união entre Marfrig e BRF e é dona da Sadia e da Perdigão.

Folha continua a sustentar o que colocou no ar sobre o voo. "Nosso título e texto não continham erro", afirma o jornal, via Secretaria de Redação. "É fato que Gilmar viajou em avião de empresa de Vorcaro, deixamos claro que foi a convite de Marcos Molina, da MBRF, e não fizemos ilação de que isso implicasse favor do banqueiro ao ministro."

Ilustração em preto e branco de uma balança de justiça com dois pratos suspensos, equilibrados, apoiados em uma base central decorada com um ornamento simétrico.
Ilustração de Carvall para coluna da Ombudsman de 26 de abril de 2026 - Carvall/Folhapress

Já o Grupo Estado se viu enredado em mais duas polêmicas. Há uns dias, anunciou o fechamento da rádio Eldorado, emissora tradicional em São Paulo. E, depois da publicação sobre os R$ 27 milhões, virou assunto no portal brasiliense Metrópoles, de propriedade do ex-senador Luiz Estevão. Em uma década, o Metrópoles cresceu e se impôs na paisagem jornalística com apurações e furos importantes, como a recente investigação sobre os descontos do INSS.

Depois que o Estado noticiou os pagamentos do Master ao Metrópoles, tidos como "suspeitos" e "inusitados" pelo Coaf, o portal passou a investigar e a se referir ao jornal como "dos banqueiros".

Horas antes de o Estado se retratar pela reportagem sobre Gilmar, o Metrópoles colocou no ar "quem são os bancos e empresários que aportaram R$ 142,5 milhões em debêntures no Estadão". A captação de recursos havia sido feita em 2024 e divulgada na época pelo jornal, sem detalhar investidores, e por outros veículos, como a Folha.

O Metrópoles afirmou também que o Estado contratou a Trustee, "gestora de Maurício Quadrado, sócio de Vorcaro no banco e na Prime You [a empresa do jatinho], para estruturar" a operação. Ao noticiar a correção feita pelo jornal, o Metrópoles fez uso do novo aposto: "Controlado por banqueiros, Estadão diz que errou ao relacionar Gilmar Mendes a Vorcaro". E voltou à carga informando que o Estado recebeu R$ 1,12 milhão do Master como pagamento por publicidade.

Assim como no caso do jatinho, a Folha publicou depois do concorrente paulistano a informação sobre os R$ 27 milhões, sem grandes consequências. Um detalhe, porém, chamou a atenção do leitor Pedro Marra, 64, de São Paulo.

O jornal informava que Luiz Estevão atribuía os pagamentos "a patrocínios de futebol e ‘divulgação de conteúdo publicitário e marketing das marcas’ do Master e do Will Bank (...). ‘Em meio às negociações com o BRB, que perduraram até setembro de 2025, o grupo Master/Will Bank buscou fortalecer a marca no ambiente local’, disse o ex-senador à Folha em março".

O leitor questionou: "Se a Folha falou com o Luiz Estevão em março, foi antes de o Estadão publicar seu furo. Se a Folha tinha a história antes, por que não publicou? Faltou coragem?". Em resposta, a Secretaria de Redação da Folha informou que "o Estado avançou na apuração e cruzou o pagamento do Master para a Série D com a demora da execução do patrocínio no campeonato. A partir daí, a Folha publicou o dado que tinha, atribuindo [ao concorrente] o furo".

Procurado pela ombudsman, o Estadão enviou nota e informou que "a captação de R$ 157,5 milhões realizada pelo Grupo Estado em 2024, (...) teve como objetivos a reorganização financeira do grupo" e "não resultou em mudança na estrutura societária". "A governança do grupo permanece a definida por seu estatuto social, tendo a linha editorial sob responsabilidade exclusiva da família Mesquita. A operação foi estritamente de crédito de mercado, contratada em condições usuais, e não impõe qualquer restrição ou influência sobre a cobertura diária e crítica que o jornal realiza sobre as instituições envolvidas. O Grupo Estado reafirma seu propósito liberal e republicano de 151 anos e sua missão essencial de informar o público com precisão, independência e responsabilidade."

O Metrópoles também foi procurado, mas não se manifestou até o fechamento do texto. O espaço continua aberto.


quinta-feira, 23 de abril de 2026

Estadão faz comunicado sobre Rádio Eldorado, OESP

 A Rádio Eldorado ocupa, há décadas, um lugar singular na vida cultural de São Paulo. Referência em curadoria musical, jornalismo e programação de qualidade, tornou-se um patrimônio afetivo e intelectual de gerações de ouvintes, contribuindo de forma decisiva para a formação de repertório, a difusão de artistas e o fortalecimento da cena cultural da cidade.

Nos últimos anos, sobretudo após a pandemia, entretanto, observamos mudanças profundas nos hábitos de consumo de áudio. O crescimento acelerado das plataformas de streaming musical e a transformação no uso dos meios lineares têm impactado de forma estrutural o papel das rádios FM tradicionais.

Operação de radiodifusão da Eldorado será encerrada em 15 de maio
Operação de radiodifusão da Eldorado será encerrada em 15 de maio Foto: Estadão

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Atento a essas tendências, o Estadão vem revendo sua estratégia no segmento de áudio. Em função do término da parceria com a Fundação Brasil 2000, detentora da frequência 107,3 FM, a operação de radiodifusão da Eldorado será encerrada no próximo dia 15 de maio.

Essa decisão se insere em um movimento mais amplo de reposicionamento estratégico do Estadão, que vem ampliando de forma consistente sua presença digital. Nos últimos dois anos, a companhia intensificou sua produção audiovisual, por exemplo, com a contratação de 14 colunistas com atuação multiplataforma, responsáveis por conteúdos em texto e vídeo. Esse esforço permitiu expandir de maneira significativa a presença do Estadão em suas plataformas próprias — site e aplicativo —, bem como em redes sociais e canais de vídeo.

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aquisição da NZN, em outubro de 2025, reforçou essa trajetória. Os ativos digitais do TecMundo ampliaram a capacidade de distribuição e produção audiovisual, enquanto a sede da empresa foi convertida em um hub de criação na região de Higienópolis — a “Blue House” — dedicado ao desenvolvimento de novos formatos e linguagens.

O encerramento da operação de radiodifusão da Eldorado não representa o fim de sua marca. A Eldorado seguirá presente em projetos especiais e eventos, preservando seu papel como referência cultural. Alguns de seus principais programas, incluindo iniciativas como Som a Pino e Clube do Livro, serão redesenhados e adaptados para novos formatos, com ênfase em vídeo e distribuição digital. Esta transição permitirá ao Estadão oferecer aos seus parceiros comerciais formatos mais segmentados, mensuráveis e aderentes aos novos hábitos de consumo de conteúdo.

Estadão expressa seu profundo reconhecimento a todos os profissionais que construíram a história da Rádio Eldorado, bem como aos ouvintes que, ao longo dos anos, fizeram dela um espaço de encontro, descoberta e valorização da música de qualidade.