quinta-feira, 20 de agosto de 2026

Minha irmã não acreditou quando viu sua casa em foto de casal alemão- Paulo Reali Nunes - Casos do Acaso FSP

 Paulo Reali Nunes

Promotor de Justiça, mora em São Paulo

Sylvia foi morar na Alemanha no final dos anos 1960. Foi para uma temporada de dois anos, acompanhando o marido em uma pós-graduação, levando o filho de um ano e meio.

O marido só falava português. Sua primeira tarefa seria aprender a língua alemã, de modo que permitisse acompanhar as atividades do curso. Isso lhe custou alguns meses de imersão em alemão, de manhã à noite.

Sylvia era a retaguarda, cuidando do filho e do pequeno apartamento que lhes foi destinado.

Ela falava bem inglês, chegara a dar aulas na escola normal, mas de alemão não sabia patavina.

Lembremos, estou falando de 1968. O homem só iria à Lua no ano seguinte, e os alemães ainda curavam as feridas da guerra, terminada havia pouco mais de duas décadas. Na Alemanha, dividida pela Guerra Fria, só se falava alemão. Nem mesmo em inglês eles se comunicavam, ou porque não soubessem ou talvez porque não quisessem fazê-lo.

Com o filho de um ano e meio para cuidar, Sylvia não tinha como estudar alemão. Haveria de se virar como pudesse.

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Ainda nos primeiros dias, ela lutava para se fazer entender com a atendente de uma loja usando meia dúzia de palavras alemãs que já tinha aprendido, misturando inglês e, claro, deixando escapar diversas palavras em português. Sem sucesso, a balconista não entendia.

Atenta ao palavrório e à dificuldade, aproximou-se uma mulher bem mais velha. Em um português perfeito, apesar do sotaque carregadíssimo, perguntou se queria ajuda. Dá para imaginar o alívio com que o auxílio foi aceito.

Feita a intermediação, realizada a compra, puseram-se a conversar. A mulher —que vou chamar de Bertha porque não me acorre o nome verdadeiro— explicou que falava português porque havia morado no Brasil muito tempo antes. O marido era gerente de uma fábrica, e eles estavam na Alemanha para férias quando estourou a guerra de 1939. Ficaram retidos e nunca mais puderam voltar.

De São Paulo, disse Sylvia quando perguntada de onde era. Pois foi em São Paulo em que eles haviam morado, informou a outra, complementando que não na capital, mas em uma cidade pequena do interior chamada São Carlos.

Era demasiada coincidência: encontrar uma alemã que falava português, tinha morado no Brasil, na mesma cidade onde nasceu e viveu até o casamento, dois anos antes. Claro, a conversa se estendeu e, para abreviar, digo que ficou esclarecido que o marido tinha sido gerente da Lápis Johann Faber (hoje Faber-Castell), filial de empresa alemã, então a maior fábrica de lápis da América Latina —e orgulho de todos nós, são-carlenses.

A foto mostra uma máquina gigante com três esteiras de onde saem lápis de cor amarela para serem colocados em caixa. Há uma janela do lado esquerdo, por onde entra a luz do sol. Um funcionário está sentado junto à janela supervisionando o trabalho da máquina
Fábrica da Faber-Castell, em São Carlos (SP) - Fabiano Cerchiari - 25.jul.00/Folhapress

Tantas as coincidências, emoções seriam mesmo inevitáveis. Posso ver, como se lá estivesse presente, a emotiva Sylvia em lágrimas. E, ainda que os alemães sejam conhecidos por sua rigidez e contenção, Bertha também há de ter se emocionado. Tanto que, em uma atitude que fugia ao figurino, convidou a recém-conhecida para um jantar, queria que o marido os conhecesse.

Pois foi assim que, no dia tal, precisamente às tantas horas —obedecendo a ortodoxa praxe alemã—, os três aportaram nos Ascherfeld.

Não sei como se desenrolou o jantar, se a comida era boa ou mesmo se tomaram algum daqueles horríveis vinhos alemães. O que sei é que a conversa fluiu —em português. Após a aposentadoria, Helmut tornara-se tradutor oficial da língua portuguesa e a cultivava.

Entremeada de lembranças de São Carlos, de lugares e de pessoas que todos conheciam, cada um contou sua história. A dos Ascherfeld era um bocado triste. A guerra não apenas impediu o retorno ao Brasil, custou também a morte do filho, não me lembro se lutando ou vítima de bombardeio.

À sobremesa, Bertha resolveu mostrar-lhes o filho. De uma gaveta, tirou uma caixa com fotos, escolheu uma delas e o apontou, ainda criança, na varanda de uma casa. Ao apanhar a foto, Sylvia empalideceu e foi às lágrimas. Não acreditava naquilo que via. Conhecia bem aquela varanda. Era a varanda da casa de seus pais em São Carlos, onde viveu e cresceu. Os Ascherfeld haviam morado lá até 1939.

Se esse relato causou arrepios e lágrimas em todos os que o leram em carta enviada na ocasião, imagine-se o que deve ter acontecido naquela mesa de jantar. Ela viajou milhares de quilômetros e atravessou o Atlântico para encontrar em Murnau, uma pequena cidade alemã, aqueles que a antecederam na casa que o pai comprou em 1941, ano do seu nascimento —a casa que abrigou a família por décadas, até a morte da mãe.

Na foto, é possível ver a praça, com várias árvores altas fazendo sombra numa estrutura circular de concreto. No fundo, prédios altos do centro de São Carlos. Não aparecem pessoas na praça
Praça Coronel Salles no centro de São Carlos - Silva Junior - 03.mai.12/Folhapress

A suma é que essa coincidência e as emoções que desencadeou resultaram em uma grande amizade que facilitou muito a vida na Alemanha e se estendeu por muito tempo depois da volta ao Brasil. Os Ascherfeld se tornaram uma espécie de cônsules do círculo familiar e de amigos. Por muito tempo, quem ia à Europa dava um jeito de visitá-los, levando dicionários, livros e revistas em português para Helmut. Se bem me lembro, ele gostava bastante da revista Playboy.

Sylvia Helena Nunes Brighenti era minha irmã. Morreu em fevereiro de 2021. Salvo pela carta mencionada, não me consta que tenha escrito esta história. Eu a escrevi por ela.

​Para participar da série Casos do Acaso, o leitor deve enviar seu relato para o email casosdoacaso@grupofolha.com.br. Os textos devem ter, no máximo, 5.000 caracteres com espaços e precisam ser inéditos, não podem ter sido publicados em site, blog ou redes sociais. As histórias têm que ser reais e o autor não deve utilizar pseudônimo ou criar fatos ou personagens fictícios.


quarta-feira, 19 de agosto de 2026

Iphan tem o desafio de garantir metrô com preservação de terreiro histórico no Bixiga, FSP

 VÁRIOS AUTORES (nomes ao final do texto)

Às vésperas de completar 90 anos de fundação, o Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) tem o desafio de consolidar os esforços coletivos das últimas décadas para ressignificação do patrimônio histórico-cultural do país. Preservar, para que seja incorporado à arquitetura da futura estação de metrô no bairro do Bixiga, o casario revelado no Sítio Arqueológico Saracura Vai-Vai e apontado pela equipe de arqueologia como o que pode ser o terreiro mais antigo da cidade de São Paulo.

A descoberta abre amplo caminho para pesquisas e reconhecimento do patrimônio afro-diaspórico no país, e a oportunidade de aliar preservação e mobilidade urbana. Combinação possível e em funcionamento em países como Grécia, Itália ou México.

Vista aérea mostra canteiro de obras com escavações retangulares cercadas por tapumes. Cinco trabalhadores com coletes refletores estão no local, com duas tendas azuis para sombra. Equipamentos de construção, incluindo guindaste, estão posicionados ao redor da área.
Funcionários da Linha Uni fazem escavação manual na área 4, a última com vestígios arqueológicos a ser liberadas para obras da futura estação da linha 6-laranja do metrô - Linha Uni

Desde o início deste processo, na primeira etapa de escavação e resgate arqueológico, além de casas e objetos de uso cotidiano, diversos conjuntos religiosos expressivos já foram encontrados e ganharam destaque na mídia: assentamentos, um fio de contas preservado e ferramentas associadas pelas equipes de campo a divindades religiosas, tais como Exu, Ogum, Iroko, Ibejis e Oxaguian.

Graças à mobilização popular, em 28 de fevereiro de 2025, o Iphan determinou a preservação (desmontagem e remontagem) de parte desses imóveis, já interpretadas consensualmente como espaço de cultos afrodiaspóricos por oito autoridades religiosas de diferentes vertentes em visita ao sítio.

Agora, confirmando o alerta dado pelo Mobiliza Saracura Vai-Vai, sacerdotisas e sacerdotes, em nova etapa de escavação, a continuidade daqueles imóveis se revelou com achados ainda mais contundentes. O novo conjunto construtivo foi reconhecido em relatório de antropóloga especialista contratada pela empresa de arqueologia como o fundamento de um terreiro.

Área de escavação arqueológica com paredes de pedra expostas. Elementos fixados ao solo incluem uma chapa de ferro próxima ao chão indicada por seta vermelha, um martelo fixado ao piso indicado por seta amarela e uma escada indicada por seta azul. A área está delimitada por telas plásticas cor de rosa e cercada por terra.
Trecho de relatório arqueológico da empresa A Lasca indica localização de parte dos novos achados nas obras da estação 14 Bis-Saracura da linha 6-laranja - Reprodução

Os achados religiosos estão fixados ao solo e associados diretamente a determinados cômodos, portanto indissociáveis do conjunto construtivo, que apresenta interesse sem precedentes. Cabe ao Iphan, portanto, a tarefa de garantir a preservação integral do novo casario encontrado.

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Além da relevância cultural, essas edificações podem revelar também como viviam as pessoas que, no mínimo desde o século 19, se aquilombaram às margens do córrego, cultivando laços de sociabilidade, costumes, práticas e modos de vida, em um território de matriz africana que diz respeito não só à história de São Paulo mas do país, e sobre direitos de um povo, para além da religiosidade.

Esse conjunto poderá ser exposto ao público na primeira estação de metrô musealizada no Brasil com uma arqueologia de grande porte, reconhecendo seu patrimônio histórico, fazendo ver as construções de seus antepassados, e contribuindo para pensar as urgências da cidade atual. Entre elas, a permanência da população negra nas áreas centrais, como o Bixiga, e da quase centenária escola de samba Vai-Vai no chão onde nasceu, a Bela Vista.


Raquel Rolnik

Professora titular da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP) e coordenadora do LabCidade


Iyalodê Marisa d'Oyá

Sacerdotisa do Ilê Asé Oyá Siná


Luciana Araújo

Jornalista, yawô de Yemanjá e filha da Yalodê Marisa d'Oyá


José Adão de Oliveira

Educador e cofundador do Movimento Negro Unificado (MNU)


Victor Próspero

Professor da FAU-USP




Victor Próspero
Professor da FAU-USP

Contadora de fiscal que extorquiu R$ 2 milhões de empresário fecha acordo de delação premiada, OESP

 Sob suspeita de exercer ‘atuação central’ em um esquema milionário de propinas que se teria instalado na Delegacia Regional Tributária de Osasco (Grande São Paulo), a contadora Nicéia Devecchi fechou acordo de delação premiada com o Ministério Público de São Paulo no âmbito da Operação Fisco Paralelo - terceira fase da maior ofensiva já realizada pela Promotoria contra a corrupção na Receita estadual. Segundo os promotores do Grupo Especial de Repressão a Delitos Econômicos (Gedec), Nicéia era ligada ao ‘núcleo operacional da organização criminosa investigada na DRT-14’

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A contadora ‘confessou sua responsabilidade’ no caso, informou o Ministério Público. O Estadão busca contato com as defesas dos citados.

Segundo a investigação, Nicéia ‘atuava em conjunto’ com Maria Hermínia de Jesus Santa Clara, a ‘Nina’, que também é contadora, ‘compartilhando arquivos, senhas e executando análises fiscais simultaneamente’. Os promotores sustentam que Nicéia ‘foi indicada por fiscais corruptos para operar pedidos de ressarcimento e crédito acumulado de ICMS para diversas empresas’.

Delegacia Regional Tributária (DRT-14) em Osasco
Delegacia Regional Tributária (DRT-14) em Osasco Foto: Google Maps

A Operação Fisco Paralelo mostra que Nicéia substituiu ‘Nina’ nos trabalhos realizados para uma empresa de produtos plásticos dirigida por um homem de 79 anos que denunciou o auditor fiscal Rafael Merighi Valenciano. Segundo o empresário, Rafael Valenciano - que chegou a ser preso em março - o extorquiu em R$ 2 milhões para não autuar sua firma. Os pagamentos se estenderam de meados de 2022 até julho de 2025, segundo a Promotoria.

Quando se viu com o caixa praticamente vazio, o velho empresário recorreu ao seu próprio veículo, uma picape Mitsubishi blindada modelo Triton Sport. “Em um dado momento, não tinha mais dinheiro físico à disposição, oportunidade em que dei um carro pessoal, que estava em nome da minha holding, como forma de pagamento”, relatou a vítima.

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Os promotores apuraram que a contadora Nicéia, na condição de braço direito do fiscal Valenciano, participou da elaboração e conferência de planilhas e notas fiscais usadas para pleitear ressarcimentos tributários. Ela teve ‘atuação central’ nos pedidos feitos para uma empresa de distribuição e importação de produtos alimentícios, empresa da qual ela figurava como contadora cadastrada no sistema do Fisco estadual.

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Operação Fisco Paralelo cumpriu 22 mandados de busca e apreensão em março
Operação Fisco Paralelo cumpriu 22 mandados de busca e apreensão em março Foto: MPSP

‘Peça essencial no fluxo’

A extração de diálogos de celulares de investigados revela que Nicéia também era responsável por ‘grande parte da execução dos trabalhos indicados pelos fiscais’. “Seu nome aparece associado a diversos processos de empresas prospectadas pela organização criminosa”, diz relatório do Ministério Público ao qual o Estadão teve acesso.

Ainda de acordo com os promotores, ‘as evidências indicam que Nicéia Devecchi recebia demandas diretas dos fiscais e operava como peça essencial no fluxo de emissão, conferência e submissão de pedidos tributários fraudulentos’.

O acordo de delação premiada de Nicéia foi apresentado à 2ª Vara Estadual de Organizações Criminosas e Lavagem de Bens, Direitos e Valores da Comarca de São Paulo. Os promotores do Gedec informam que o termo e seus anexos vão permanecer sob sigilo. Diante da ‘confissão de responsabilidade’ da contadora, a Promotoria retirou pedidos de medidas cautelares diversas da prisão em relação à Nicéia.