Thomas L. Friedman
Vamos parar de rodeios: o governo de ultradireita de Israel, liderado pelo primeiro-ministro Binyamin Netanyahu, está cuspindo na cara dos Estados Unidos e dizendo que está chovendo. Não está chovendo. Bibi está fazendo de tolos tanto o presidente Trump quanto os judeus americanos. E, se os EUA deixarem isso passar, serão tolos mesmo.
Enquanto mantém Trump focado na ameaça nuclear e de mísseis do Irã —que, embora reduzida, ainda é muito real e terá que ser enfrentada diplomática ou militarmente—, Bibi está ameaçando fundamentalmente os interesses mais amplos dos EUA no Oriente Médio, sem falar na segurança dos judeus em todo o mundo. De que forma? Não consigo colocar de forma mais sucinta do que fez Ehud Olmert, ex-primeiro-ministro israelense.
"Um esforço violento e criminoso está em andamento para limpar etnicamente territórios na Cisjordânia", escreveu ele em um artigo no Haaretz este mês. "Gangues de colonos armados perseguem, prejudicam, ferem e até matam palestinos que vivem lá. Os ataques incluem queimar olivais, casas e carros; invadir residências; e agredir fisicamente as pessoas." Ele continuou: "Os desordeiros, os terroristas judeus, atacam palestinos com ódio e violência com um único objetivo: forçá-los a fugir de suas casas. Tudo isso é feito na esperança de que a terra seja então preparada para assentamentos judaicos, a caminho de realizar o sonho de anexar todos os territórios".
As tentativas aceleradas de Israel de anexar a Cisjordânia e permanecer permanentemente em Gaza —negando direitos políticos aos palestinos em ambas as áreas— são tão moralmente imprudentes e demograficamente insanas quanto seria os EUA anexarem o México.
Se fossem apenas os israelenses que seriam prejudicados pela fantasia maluca de que cerca de sete milhões de judeus israelenses podem controlar cerca de sete milhões de árabes palestinos perpetuamente, eu poderia ser tentado a dizer que, se os líderes de Israel querem cometer suicídio nacional, não posso impedi-los.
Mas os efeitos não ficarão confinados a Israel. Acredito que esse empreendimento de motivação messiânica vá tornar o Israel de hoje permanentemente indistinguível da África do Sul do apartheid e terá implicações seriamente prejudiciais tanto para os interesses americanos quanto para os interesses e a segurança dos judeus em todo o mundo.
Se o governo de Netanyahu continuar nesse curso, vai despedaçar as instituições judaicas em todos os lugares, à medida que membros da diáspora judaica são forçados a decidir se ficam a favor ou contra um Israel semelhante ao apartheid. Também acelerará a tendência iniciada pela devastação de Gaza por Israel, em que um número crescente de jovens democratas e republicanos nos EUA está se voltando contra Israel e, nas franjas, contra os judeus em geral.
Pais judeus ao redor do mundo logo estarão em uma posição que nunca imaginaram: assistindo a seus filhos e netos aprenderem o que é ser judeu em um mundo onde o Estado judeu é um Estado pária.
Uma pesquisa do Institute for Middle East Understanding Policy Project, conduzida pelo YouGov em novembro, descobriu que 51% dos eleitores republicanos com menos de 45 anos disseram preferir apoiar um candidato nas primárias presidenciais de 2028 que fosse a favor de reduzir os repasses de armas financiadas pelos contribuintes para Israel. Apenas 27% apoiariam um candidato que aumentasse ou mantivesse o fornecimento de armas. Candidatos democratas hoje que não descrevem a guerra de Israel em Gaza como um genocídio enfrentam ventos contrários com jovens eleitores progressistas.
Na recente Conferência de Segurança de Munique, a deputada Alexandria Ocasio-Cortez foi questionada se achava que "o candidato presidencial democrata nas eleições de 2028 deveria reavaliar a ajuda militar a Israel". Ela respondeu: "Acho que, pessoalmente, a ideia de ajuda completamente incondicional, não importa o que se faça, não faz sentido. Acho que isso possibilitou um genocídio em Gaza".
Como eu disse no início, Netanyahu fez de Trump um otário, assim como do lobby pró-Israel liderado pelo Comitê de Assuntos Públicos Americano-Israelense e de muitos outros chamados líderes judeus americanos. Ele conseguiu que se concentrassem no Irã e ignorassem o fato de que tudo o que ele está fazendo em Gaza, na Cisjordânia e dentro de Israel vai tensionar as relações entre os EUA e seus principais aliados no Oriente Médio, incluindo Egito, Jordânia, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Turquia e Qatar.

