quinta-feira, 16 de abril de 2026

José Eustáquio Diniz Alves - A economia da longevidade, FSP

 José Eustáquio Diniz Alves

Doutor em demografia, é pesquisador aposentado do IBGE e ex-professor titular da Escola Nacional de Ciências Estatísticas do instituto

O Brasil está prestes a atingir um marco demográfico histórico: pela primeira vez, terá mais pessoas de 60 anos ou mais do que crianças e adolescentes de zero a 14 anos. Segundo projeções do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), em 2029 o país contará com 40,1 milhões de idosos, superando os 39,2 milhões de jovens com menos de 15 anos.

Censo Demográfico de 2022 já evidenciou essa transição em nível regional. Em dois estados, a população idosa superava a jovem: no Rio Grande do Sul, havia 115 idosos para cada 100 jovens; no Rio de Janeiro, 106 para cada 100. Entre as 27 capitais, cerca de 55% já apresentavam mais idosos do que jovens. Porto Alegre destacava-se como a capital mais envelhecida, com 137 idosos para cada 100 jovens, enquanto São Paulo, a maior cidade do país, registrava 103 para cada 100.

Elide Elisa Rodrigues Luccas, 72, trabalha no ateliê de sua casa no Butantã, zona oeste de São Paulo - Mathilde Missioneiro - 26.out.2023/Folhapress

A idade mediana da população brasileira era de 18 anos em 1950, chegou a 34 anos em 2022 e deve atingir 49 anos em 2072, quando o país celebrará os 250 anos da Independência. Nessa data, a razão de idosos poderá alcançar 317 para cada 100 jovens. O envelhecimento populacional tende, assim, a consolidar-se como a principal característica demográfica do Brasil no século 21 —um processo que traz desafios relevantes, mas também oportunidades.

O principal desafio decorre do esgotamento do primeiro bônus demográfico. A proporção de pessoas em idade ativa (15 a 59 anos) já está em declínio, o que pode gerar crise fiscal e estagnação econômica caso o país mantenha uma visão estática das relações intergeracionais, baseada em um ciclo de vida rígido —com jovens apenas estudando, adultos exclusivamente trabalhando e idosos integralmente aposentados.

A narrativa da catástrofe demográfica tornou-se recorrente. No entanto, o envelhecimento deve ser encarado com perspectiva construtiva, pois há outras duas janelas estratégicas para promover prosperidade e bem-estar.

O segundo bônus demográfico, ou bônus da produtividade, ao contrário do primeiro, não é transitório. Seus efeitos podem se prolongar indefinidamente, desde que haja investimentos contínuos em educação, saúde, ciência e infraestrutura. Esses fatores elevam a produtividade do trabalho, permitindo que a economia produza mais com menor uso de insumos humanos e ambientais, compensando a redução da força de trabalho.

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A outra fronteira estratégica é o terceiro bônus demográfico, ou bônus da longevidade, associado à expansão de vidas saudáveis e ativas. Esse bônus depende de como a sociedade se organiza para viver mais e melhor, ampliando os anos com autonomia e sem incapacidades severas. Nesse contexto, o capital humano acumulado ao longo da vida permite que os idosos continuem contribuindo, compartilhando experiência, conhecimento e capacidades produtivas. O professor Andrew Scott, em "The Longevity Economy" (2021), publicado na The Lancet Healthy Longevity, argumenta que esse marco exige uma mudança de paradigma: deixar a ideia de uma "sociedade que envelhece" para construir uma "sociedade da longevidade". Na primeira, acrescentam-se anos à vida; na segunda, adiciona-se vida aos anos.

A "sociedade que envelhece" costuma ser vista pela ótica dos custos, como a expansão dos gastos com previdência e saúde. Já a "sociedade da longevidade" enfatiza a transformação do ciclo de vida. Scott destaca a maleabilidade do envelhecimento —a possibilidade de intervenções que permitam viver não apenas mais, mas com mais saúde, maior integração social e níveis mais elevados de produtividade.

A economia da longevidade exige superar o etarismo e construir trajetórias de vida mais flexíveis e multietapas, com requalificação ao longo da vida, mudanças de carreira e maior inclusão das gerações maduras no mercado de trabalho, além de maior capacidade de adaptação por parte dos indivíduos, das empresas e das políticas públicas.

Tarcísio escolhe 1ª mulher para comando da PM e põe fim à era Derrite, FSP

 

São Paulo

A escolha da coronel Glauce Anselmo Cavalli, 50, para o comando-geral da Polícia Militar de São Paulo deve provocar uma reestruturação na cúpula da corporação e frear a política de alta letalidade policial adotada pela gestão Tarcísio de Freitas (Republicanos) desde a chegada de Guilherme Derrite (PP) à secretaria.

Segundo coronéis ouvidos pela Folha, ela deve valorizar oficiais com perfil mais profissional e técnico, com visões mais ponderadas e apolíticas. O núcleo escolhido por Derrite era visto como um grupo quase político-partidário e alinhado a uma ideia fixa de enfrentamento da criminalidade pela força.

Esse grupo do ex-secretário levou à explosão das mortes decorrentes de intervenção policial no estado. De outubro a dezembro do ano passado, por exemplo, foram 276 mortes provocadas por policiais –o maior número já registrado em um trimestre desde o início da série histórica, em 1996.

Ao mesmo tempo, o estado viu cair o número de homicídios e roubos para os menores números da série histórica, enquanto o de feminicídios cresceu.

Deputado federal, Derrite foi exonerado no fim do ano passado.

Mulher em uniforme formal da Polícia Militar de São Paulo, usando chapéu com insígnia dourada e óculos. Ela está de perfil, com expressão séria, e o fundo está desfocado.
A nova comandante da Polícia Miltiar de São Paulo, a coronel Glauce Anselmo Cavalli, durante evento em São Paulo - Divulgação/Polícia Militar de São Paulo

A expectativa de mudanças é reforçada pela escolha do número 2 da PM, o coronel Mário Kitsuwa. Psicólogo de formação e ex-chefe do Caps (Centro de Atenção Psicológica e Social), o oficial é considerado referência em saúde mental e terá o desafio de lidar com os altos índices de suicídio na tropa.

Oficiais superiores avaliam que muitas mortes decorrentes de intervenção policial, que geraram desgaste recente para a gestão Tarcísio, poderiam ter sido evitadas com melhor preparo psicológico dos policiais. Kitsuwa ficará responsável por implementar essas melhorias.

A troca de comando da PM já era esperada desde fevereiro, quando assumiu o cargo de secretário-executivo da pasta o coronel da reserva Henguel Ricardo Pereira, ex-secretário-chefe da Casa Militar e coordenador da Defesa Civil. Ele foi escolhido com a missão de afastar aliados de Derrite na Secretaria da Segurança Pública e também em cargos-chave da Polícia Militar.

Nos primeiros dias, ao menos 14 nomes foram trocados na pasta. Também foram exonerados, na sequência, os coronéis Pedro Luís de Souza Lopes (inteligência) e Fabio Sérgio do Amaral (Corregedoria), tidos como aliados do ex-secretário. A saída do coronel José Augusto Coutinho, agora ex-comandante, e de oficiais ligados a ele é vista como o fim da era Derrite.

Homem de terno azul e gravata clara está cercado por outras pessoas em ambiente externo durante o dia. Ele olha para o lado com expressão séria, enquanto outras figuras aparecem parcialmente desfocadas ao redor.
O ex-secretário da Segurança Pública de Guilherme Derrite em solenidade em São Paulo - 1.12.2025 - Danilo Verpa/Folhapress

O ponto final da gestão de Coutinho teria sido uma ocorrência em Sorocaba, no interior paulista, que terminou com quatro mortos, entre eles um policial militar, o soldado Matheus Almeida Rodrigues. Há a possibilidade de o tiro fatal ter partido de um colega de farda.

A troca não ocorreu ainda em fevereiro, segundo oficiais, para evitar a percepção de crise. A avaliação do governo foi promover mudanças de forma gradual e com respeito aos coronéis, o que, segundo relatos, teria faltado na reformulação feita por Derrite em 2024.

De acordo com oficiais ouvidos, Glauce foi escolhida não por ser a melhor entre as mulheres da cúpula, hoje são seis delas, mas por ser considerada o melhor nome entre os 63 coronéis aptos ao cargo. Para colegas, é um dos melhores quadros da instituição por ser profissional capaz, dedicada e sem máculas na carreira. Tem destaque na área financeira e é especialista em logística.

Também é considerada atleta, com formação em educação física. É vista ainda como alguém com facilidade no trato com pessoas, perfil didático e boa capacidade de escuta.

O nome agradou ao Palácio dos Bandeirantes, já que Tarcísio havia manifestado a intenção de escolher uma mulher para o comando das polícias. Desde fevereiro, também é cogitada a troca na chefia da Polícia Civil. Entre os nomes ventilados está o de Ivalda Aleixo, do DHPP (Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa).

A nova comandante ingressou na Academia do Barro Branco em janeiro de 1993. Foi nessa mesma época, segundo colegas de turma, que descobriu estar grávida da primeira filha, o que a afastou de parte das atividades. Foi reintegrada em 1994 e formou-se em 1997.

Anos depois, conheceu o marido, Luís Fernando Sper Cavalli, também oficial da PM e filho de um coronel da corporação. Teve seu segundo filho em 2000.

Em 2004, enfrentou um drama familiar: o marido ficou tetraplégico após um acidente de carro, e o casal passou a se dedicar à reabilitação. Foram gratificados. Hoje ele é atleta de rugby em cadeira de rodas desde 2008, ex-integrante da seleção brasileira e hoje diretor técnico e jogador. Desde 2017, atua no Comitê Paralímpico Brasileiro, onde coordena o Programa Militar Paralímpico.

Outro episódio marcante ocorreu em 25 de agosto de 2024, quando Glauce foi promovida a coronel. No mesmo dia, recebeu a notícia da morte da mãe.

Apesar das dificuldades, incluindo a criação dos filhos e a adaptação à condição do marido, concluiu diversos cursos dentro e fora da corporação. Também comandou o CPA/M-2, responsável pela zona sudoeste da capital paulista, uma das mais populosas da cidade.

"Ao longo da carreira, foi agraciada com diversas medalhas e condecorações, entre elas a Medalha Valor Militar em Ouro, a Medalha Brigadeiro Tobias de Aguiar e a Medalha Mérito do Estado-Maior da Polícia Militar do Estado de São Paulo", diz nota do governo.

Segundo a gestão Tarcísio, a nomeação "representa um marco histórico para a Polícia Militar paulista e reforça o compromisso do governo com o fortalecimento das instituições, a valorização da trajetória profissional e a ampliação da representatividade na segurança pública".

Quem abusou da autoridade: o ministro ou o senador?, Dora Kramer, FSP

 Se as coisas funcionarem como manda o figurino da institucionalidade, o ministro Gilmar Mendes pode ter dado um tiro de efeito bumerangue ao pedir que a Procuradoria-Geral da República investigue o senador Alessandro Vieira (MDB-SE) por abuso de autoridade.

Na concepção do magistrado do Supremo Tribunal Federal, o então relator da CPI do Crime Organizado teria abusado de suas prerrogativas ao incluir no seu relatório pedido de indiciamento dele, dos colegas Dias Toffoli e Alexandre de Moraes e do procurador-geral, Paulo Gonet.

Homem de meia-idade com cabelo grisalho e óculos fala em microfone. Ele veste terno preto, camisa branca e gravata azul clara, em ambiente interno neutro.
Senador Alessandro Vieira durante leitura do relatório final da CPI do Crime Organizado - Pedro Ladeira - 14.abr.26/Folhapress

PGR terá de fazer acrobacias —o que não é impossível— para enxergar fundamento no pedido. Primeiro, porque o senador elaborou a peça no exercício de suas funções. Segundo, não houve consequência alguma, pois o relatório foi recusado mediante a troca de integrantes da comissão de inquérito. Terceiro, o senador tem imunidade em palavras e votos. Quarto, atos de natureza política são inerentes à atividade do político.

Se alguém extrapolou foi Gilmar ao fazer uso da autoridade do cargo para recorrer à estrutura de Estado a fim de se defender do que considerou uma ofensa pessoal. O abuso, então, deslocou-se do senador para o ministro do STF, cuja reação intempestiva evidenciou sentimento de intocabilidade.

Alessandro Vieira pode ter errado o cálculo ao sair da posição de habitual equilíbrio para fazer uma provocação em reação a interdições judiciais feitas na tentativa da CPI de incluir o Banco Master nas investigações.

O senador provocou, está sendo criticado por isso e as coisas teriam ficado por aí se o ministro não tivesse resolvido mandar mais um recado ao Congresso Nacional sobre as consequências decorrentes de tentativas de contestar atitudes de integrantes da corte. Contestações estas abrigadas pela Constituição.

Parlamento talvez não se disponha ao contra-ataque de imediato. Mas as eleições estão aí com o tema do impeachment na agenda de campanha para o Senado. E é neste ponto que o fígado de Gilmar Mendes pode ter-lhe feito uma falseta.