Mérito é palavra feia nas sociedades igualitárias em que vivemos. Como falar de mérito quando cada indivíduo é um caso à parte, com sua história de vida, sua família, sua educação e seus contatos?
O esforço conta. Mas, em certos contextos, conta menos do que imagina a meritocracia. Quem nasce pobre, sem saúde, sem pais presentes, sem grandes possibilidades de ascensão social, já parte vários quilômetros atrás na corrida até a meta.
Concordo com o argumento, até certo ponto. Mas abro uma exceção: o futebol. Nas outras atividades, a biografia e a sorte podem ter a palavra decisiva. No futebol, ambas se reduzem ao essencial: mérito ou falta dele.
Existem "nepo babies" em todas as áreas: empresários filhos de empresários, jornalistas filhos de jornalistas, advogados filhos de advogados e por aí vai. Mas jogadores filhos de jogadores só sobrevivem na competição selvagem do gramado se tiverem talento para mostrar.
Nunca vi um técnico escalar o próprio filho para o time titular se o filho tem dois pés esquerdos. O time, a torcida, a mídia e o resultado do jogo acabariam com as duas carreiras.
Infelizmente, a "hiperpolítica" já invadiu o último reduto da mais pura excelência humana. Devo esse termo ao filósofo Anton Jäger, em ensaio com esse título, que assim descreve o mundo em que vivemos desde 2016: tudo é política, mesmo o que não é. Tudo é protesto, indignação viral, luta fratricida –e virtual. Um excesso de ruído que dura pouco e rapidamente se converte em nada para ser tomado por novo protesto, nova indignação, nova luta.
Eu mesmo assisti a isso na minha recente passagem pelo Brasil. Há Copa do Mundo no próximo mês? O país não está excitado. Nem otimista. Falar do hexa é quase um insulto para os brasileiros, que já preveem derrotas históricas contra Marrocos, Haiti e Escócia.
Como português, posso compreender a ansiedade com Marrocos: histórica e futebolisticamente, daquelas bandas nunca veio coisa boa. Até um rei lusitano ficou por lá, numa batalha traumática que nos custou a independência para a Espanha no século 16. Mas prudência não é o mesmo que desistência antes de o torneio começar.
Só um nome, porém, anima metade dos torcedores: Neymar. Curiosamente, é o mesmo nome que deprime ainda mais a outra metade. Como se explica essa polarização afetiva em torno do jogador?
Com a própria polarização política, como mostrou uma pesquisa repercutida pela revista Veja. A maioria à direita apoia a escolha de Carlo Ancelotti de levar Neymar para a Copa. A maioria à esquerda se opõe: não por razões técnicas ou táticas; as razões são ideológicas. Um apoiador de Bolsonaro não deveria vestir a camisa da seleção.
Eu rio. A única questão que deveria mover os brasileiros era saber se o jogador está apto a contribuir para as vitórias. Nada mais. Suas escolhas políticas, gastronômicas, musicais ou íntimas seriam irrelevantes quando o assunto é mais básico: ganhar ou perder.
Mas a "hiperpolítica" não perdoa, derrubando até a lógica meritocrática que fazia do futebol um reino de justiça à parte. O que me leva a perguntar: o que seria da seleção brasileira se os seus jogadores tivessem de passar primeiro por um teste de pureza ideológica?
E o que teria sido do Brasil se esse teste já existisse em 1958, 1962, 1970, 1994 e 2002?
A essas perguntas eu respondo: nem penta, nem hexa. Apenas uma bela medalha de participação –com certificado de bom comportamento político.





