virada do presidente Lula no segundo turno pegou de surpresa até parte dos políticos que se gabam de farejar os ventos do poder antes de todo mundo. Não foi o caso de Sérgio Abranches, sociólogo e escritor. No modelo que criou para projetar o resultado das eleições, escolheu, nos últimos dias antes do 25 de outubro, dar uma pitada de peso a mais às pesquisas que captam respostas pela internet. Acreditava que a movimentação das campanhas na reta finalíssima favorecia Lula e isso estaria mais bem representado nelas. De véspera, já vinha conversando com os mais próximos sobre a fatalidade da virada.
Não era só o modelo matemático que lhe dava certeza. A memória de um Lula que chegou ao segundo turno, em 1989, representando bem mais do que o PT, também o acompanhava. Com a diferença nada irrelevante de que, naquela primeira eleição presidencial da Nova República, Fernando Collor de Mello conseguiu sustentar por mais tempo a máscara do marketing político. Flávio Bolsonaro não teve o mesmo talento traiçoeiro. Deixou transparecer quem era no último debate e alimentou, de forma definitiva, o antibolsonarismo que vinha crescendo.
Com os votos contados, é hora de compreender de que muitas maneiras o resultado da eleição, suas causas e consequências mudam a política daqui em diante. Abranches, que formulou no fim dos anos 1980 o conceito de presidencialismo de coalizão, começa pelo Congresso. Para ele, Lula sai relegitimado pelas urnas, mas encontra um Legislativo disfuncional, dominado por um Centrão sem partido pivô, que apostou em Flávio Bolsonaro e agora terá de bater à porta do governo. Na direita, vê o fim do ciclo bolsonarista, com Jair preso, dois filhos foragidos e Tarcísio de Freitas obrigado a construir uma alternativa longe da família.
Abranches chama a atenção para o eleitor que pesou no primeiro turno: o precariado ressentido, à procura de alguém que se diga contra tudo o que está aí. Mas explica por que o medo do retorno dos Bolsonaro falou mais alto que o ressentimento na reta final. Mostra também por que o agitador digital, à moda de André Janones, está no centro da política, e por que o vermelho que tomou as ruas pertencia mais a Lula e ao antibolsonarismo do que à esquerda. Com a geração da redemocratização se despedindo, ele vê os partidos com quatro anos para inventar as lideranças de 2030.
Abranches foi o primeiro entrevistado da cobertura eleitoral de 2026 do Meio, e é com ele que a encerramos. Confira os principais trechos da entrevista, que está disponível na íntegra no nosso streaming.
A formação de coalizões já vinha se transformando dramaticamente. De que maneira essa virada histórica do presidente Lula acelera, ou não, essa transformação?
Tem uma mudança, Lula se relegitima. Se ele fizer o que disse que vai fazer, que é usar o [André] Janones para ficar nas redes, consegue um pouco mais de pressão sobre o Legislativo. Do ponto de vista do Legislativo, a situação continua de mal a pior. Primeiro, porque o Legislativo tem essa maioria de PL mais Centrão. PL e Republicanos são dois partidos de direita, muito de direita. Eu diria que o PL é de extrema direita, e o Republicanos está chegando perto disso, com a atitude do Tarcísio de Freitas durante a campanha. Ele pode recuar, mas, de qualquer forma, o resto é Centrão. E o Centrão produz uma coalizão muito fluida, líquida, difícil de apreender. Ele pede muito ao governo e não tem um partido pivô. Veja: nas coalizões de Fernando Henrique, o PFL era o pivô que segurava a coalizão, e os oportunistas em torno — naquela época, o mais importante era o PTB — tinham que seguir, porque o PFL era muito forte. Nas coalizões do Lula, foi o MDB que fez esse papel. O PFL desapareceu e o MDB ficou nanico. Com isso, esse domínio faz o Congresso muito menos funcional. Eu acho que, na verdade, o Congresso hoje é disfuncional.
Sem esse pivô, Lula está sem possibilidade de fazer uma coalizão para o quarto mandato?
Não, ele pode conseguir. Mas será uma coalizão em que vai ter mais Centrão do que partidos mais arrumados e, portanto, o presidente vai ter de ceder mais. Vai ter que fazer um governo menos PT, porque senão vai ter dificuldade no Congresso. Por outro lado, há uma chance de que Rodrigo Pacheco vire ministro do Supremo Tribunal Federal até o final do ano. Isso reforça uma maioria dentro do Supremo para evitar o bolsonarismo e os excessos do Legislativo. Então, se o Legislativo começar a passar muito retrocesso, Lula vetar, o Congresso derrubar e ele não conseguir fazer com que a coalizão dele funcione a favor, o Supremo vai ter de entrar e considerar inconstitucional. Retrocesso de direitos é mesmo inconstitucional, mas essa é a agenda deles. Agora, embora o Centrão tenha ficado todo com o Flávio Bolsonaro na eleição, ele é um partido que adere ao governo, ao poder. Ele estava com Bolsonaro por causa da expectativa de poder. Eles mostraram que não entendem muito de política nem de povo. Com Lula no poder, eles vão ter de ir para o Lula. É inevitável. É da natureza do animal.
O cientista político Bruno Wanderley Reis me disse uma vez: “toda vez que você olhar para um político desses, raposa, e achar que ele não sabe o que está fazendo, repense, provavelmente ele só está um passo a sua frente”. Talvez esse segundo turno tenha realmente pegado muita gente de surpresa.
Gosto muito do Bruno. Mas ele ainda estava com a impressão das raposas da política clássica brasileira. Elas estão acabando. E as raposas que sobram, como Gilberto Kassab, cometem mais erros do que as velhas. Kassab errou alguns cálculos e agora corrigiu. É certamente um dos mais argutos do cenário político e, pelo que sei, já fechou acordo com Lula. Parte desse acordo é a ida de Rodrigo Pacheco para o Supremo, que também agrada a Davi Alcolumbre. No caso de Hugo Motta e Alcolumbre, que aderiram a Lula antes, é uma estratégia de perdedor. Alcolumbre perdeu no estado dele, e os dois querem se reeleger para o Legislativo. Ainda têm uma força residual na bancada nova, mas não é suficiente. Vão precisar de Lula e da força do Executivo para fazer essa mágica e tirar do PL a ideia de que, por ter a maior bancada, pode fazer o presidente. Essa tradição acabou quando atropelaram o MDB, que tinha a maior bancada nas duas Casas. A tese já não vale.
A política está em movimento.
A política é plástica, mutante. O outro problema do Centrão é que ele tem poucos políticos de visão nacional. São chefetes regionais. E, nos seus estados, o bolsonarismo era forte. Mesmo em cima do muro, havia a sensação de que a coisa caminhava para Bolsonaro. Só depois de uns 20%, 30% dos votos apurados no segundo turno é que eles, se tivessem bons modelos, veriam que Lula estava reeleito. Aí deu tempo de mudar e dar as declarações, rapidamente. Mas claramente apostaram no bonde errado. A expectativa de poder às vezes ilude. Agora Lula tem o poder, e isso muda tudo.
Depois do primeiro turno, muitos analistas disseram que o Centrão tinha perdido espaço para a direita radical no Congresso. A derrota e a fuga de Flávio Bolsonaro reequilibram essas forças, ou essa bancada tende a seguir radical?
De novo, a ideia-chave é a expectativa de poder. O ciclo bolsonarista acabou. Jair está preso e inelegível; vai sair da prisão e da inelegibilidade velho demais para disputar qualquer coisa. Dois filhos são foragidos da Justiça. Sobra Carlos, que não tem competência suficiente para ocupar o lugar dos irmãos. Para sobreviver, eles precisariam de gente de fora da família assumindo a liderança dessa ultradireita. Os dois principais candidatos a essa posição, Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo, e Rogério Marinho, senador, já desembarcaram. Nas declarações logo depois do resultado, desautorizaram Flávio, que não reconheceu a eleição. Eles reconheceram o resultado e não gostaram da fuga. A mentira de Flávio, sobretudo a armação para fugir, mostrou que ele tinha um plano de longo prazo, preparado com muita antecedência: o avião estava esperando, estava tudo pronto. Ele tinha uma agenda a cumprir, que era indultar o pai e os golpistas e, depois, interferir no Supremo para anular todas as sentenças e instalar uma nova ordem, obviamente autocrática e corrupta. Agora, a sobrevivência do bolsonarismo depende da influência residual de Jair Bolsonaro, mas ele não vai encontrar um herdeiro.
Nem a Michelle?
Ele é machista demais para aceitá-la nessa posição. Mas sempre pode acontecer.
Como última opção, talvez?
Pois é. Mas eu não contaria com essa possibilidade no momento. A direita tende agora a se reorganizar fora da órbita do bolsonarismo e, portanto, do extremismo golpista, e a disputar numa linha mais democrática. Esse vai ser o caminho do Tarcísio, porque, sem ele, dificilmente realiza o plano de sair de São Paulo para o Planalto.
O eleitor está carente o suficiente de uma liderança de direita democrática para aceitar alguém tão próximo do bolsonarismo?
Não acredito num eleitorado majoritariamente de direita. O eleitorado é majoritariamente de nada. Ele vai naquilo que o convence de estar mais próximo do seu interesse. O problema que o Brasil e todo o mundo democrático sofrem é a fadiga política. Há pelo menos dois grandes setores da sociedade, no mundo e aqui, que se juntam num ressentimento com as políticas do incumbente, qualquer que seja ele, porque elas não atendem às suas necessidades.
Que setores são esses?
Primeiro, os deslocados de suas ocupações pelo avanço da inteligência artificial, da robotização e da automação. São ocupações destruídas, que não têm volta, e essas pessoas não encontram outras que lhes deem renda equivalente. Passam a compor o que a sociologia contemporânea chama de precariado: o uberizado, o entregador, quem trabalha por conta própria em situação muito precária, se sente desprotegido e não encontra amparo na rede de proteção social tradicional, porque não tem carteira assinada nem contrato. Precisa de outro tipo de proposta. Lula parece ter começado a perceber isso. No discurso de vitória, disse que precisa prestar atenção nesse público. Ele chama de empreendedorismo, mas o verbo empreender está muito mal usado no Brasil.
Tem um efeito psicológico.
Tem. Dá uma certa nobreza ao subemprego. Essas pessoas estão longe de ser empresárias. São gente por conta própria, numa situação muito precária, da mão para a boca, que pode perder tudo da noite para o dia. Quem pôs o próprio carro no Uber, se bate ou é roubado, acabou. Esse pessoal está muito ressentido e enraivecido, porque é perdedor. E há o setor emergente, que está entrando para valer, o MEI do qual Lula falou. Também é precário, porque não tem muito treino em gestão; começa pequeno e frágil. Faz parte de um neoprecariado, para não dizer do mesmo precariado. Essa turma toda procura alguém que diga o que ela quer ouvir. Ninguém diz. Na ausência de uma proposta positiva, querem alguém que diga: “Eu sou como vocês, contra tudo isso que está aí. Isso está uma mixórdia, um horror, nós vamos mudar”. Uma promessa vaga de mudança. Mas, para quem está se afogando, qualquer tábua é tábua.
É somente pela mudança?
Esse voto é de desconfiança no que está por aí e de vaga esperança de que venha alguém com uma solução. O que essas pessoas querem é alguém diferente do que está aí, mais do que um governo autocrático ou de direita. A extrema direita é a única, no mundo inteiro, com um discurso que de certa forma atende às aspirações desse grupo, mas está longe de atendê-las substantivamente. No governo, perde rapidamente a legitimidade e não se reelege se não mudar as regras do jogo e transformar o regime em uma autocracia. O caminho dela é este: entra pelo voto e sai pelo desvoto. Ou vai destruindo a democracia, e aí, na verdade, fica. Se sai pelo voto, sai definitivamente, porque frustra muito fortemente. E a memória da última frustração é a que fica. É uma situação muito complicada para o mundo e para a democracia, que tem de se reinventar.
Reinventando líderes também.
O Brasil tem uma situação específica. Com o fim do ciclo Lula e do ciclo bolsonarista, que era uma liderança emergente espúria, o país não tem mais liderança de porte nacional. Fala-se do Tarcísio, só que o Tarcísio não foi testado nacionalmente. Não sabe quanto voto vai ter no Nordeste. Garante de São Paulo para o Sul, mas do Rio para Minas e para o Nordeste é outra conversa. Minas elegeu o Zema duas vezes e agora transformou o Zema em pó. Não é fácil. Os partidos têm quatro anos para inventar novas lideranças — o PT, o PSD, o PL, todo mundo — para disputar as eleições de 2030, que não vão ter Lula. Vivemos uma falta aguda de liderança nova, e a renovação vai ser obrigatória. A geração da resistência à ditadura militar encerra sua vida política com Lula. Fernando Henrique já encerrou, Serra já encerrou. E a aliança Lula-Alckmin é simbólica. Alckmin era tucano, da ala conservadora. Foi para o PSB porque o PSDB desapareceu, mas é o último dos tucanos, o último dos moicanos. E encerra junto com Lula. Toda a liderança da resistência à ditadura, da democratização e da Constituinte de 1988 acabou.
Alckmin não é opção para suceder Lula?
Nesse sentido, não. Ele pode até tentar; dessa geração, é o único que pode. Teve uma votação boa quando disputou com Lula, mas no segundo turno teve menos votos que no primeiro — foi a única vez que isso aconteceu. Então, tem que ver. Mas todos os partidos estão destinados a buscar novas figuras. E a influência digital vai aumentar, porque agora há uma bancada digital tanto de direita quanto de centro-esquerda. Os políticos digitais emergentes vão continuar pipocando nos próximos quatro anos, se preparando para 2030. É outra política.
Os membros da bancada digital de esquerda eleitos, como Erika Hilton, do PSOL, parecem mais de esquerda do que de centro-esquerda.
Estou pensando nos novos: Ana Elisa, de Minas; o próprio Janones; João Campos; Guilherme Cortez. São a centro-esquerda dentro do movimento da esquerda. Têm mais capacidade de fazer aliança e uma agenda diferente — no caso da Ana Elisa, mais identitária; no caso do Janones, não se sabe o quê.
A fórmula de Janones, do Exército do Lula, funcionou de maneira extraordinária e está sendo copiada até em países sem esperança alguma de derrotar uma direita mais radical. Como você vê essa repercussão internacional do janonismo?
Mais do que funcionou. Todas as sociedades se digitalizaram, mas o Brasil tem uma vantagem, que já mostrou em várias ocasiões, mesmo na era analógica: adota novidade com muita rapidez. É um país aberto à inovação, o que não vale para a maioria dos países do chamado Ocidente, mais lentos para aceitar o novo. O Brasil se digitalizou muito rápido. Todo mundo tem celular, tem WhatsApp. Era quase inevitável que a política digital avançasse mais rápido aqui do que no resto do mundo. Janones inventou uma fórmula muito incipiente, que não vai ser o futuro da política digital, mas funcionou muito bem. O pessoal lá fora disse: “Eu também quero, me ensina como é que faz”. É um exemplo importantíssimo, que tem de ser estudado. Ele é uma nova figura de político digital. Não o vejo falando muito de ideias, mas é um agitador digital de primeira linha. E o meio digital pede agitador.
O que é essa figura do agitador digital?
É uma espécie de síntese dialética. No início da política democrática, os agitadores eram muito importantes, sobretudo na formação da esquerda, e sobretudo os anarquistas. Levavam a massa operária a ter uma ideia política única e a se manifestar, acabaram indo para a esquerda, e essa esquerda cresceu. Depois a coisa se normalizou numa política mais arrumadinha, de voto partidário, sem agitação, com propaganda e muito marketing. No digital, a agitação volta, em outra forma, diferente daquela dos anos 1920 e 1930. A política voltou a depender de agitadores, e Janones é um grande exemplo, como o Nikolas Ferreira, pela direita. Eles vão marcar posição e se reproduzir na política digital.
Lula não mudou tanto assim o discurso para convencer o precariado de que representava a mudança. O que fez parte dessas pessoas mudar de voto? Foi essa agitação digital?
É difícil saber o que o eleitor pensou. Tenho uma hipótese, mas ainda não fiz pesquisa para confirmar. Uma parte do voto do Lula veio de gente que achou que ele ia ganhar e ficou acomodada, não foi nem votar. Com o susto do avanço do Flávio no primeiro turno, essa gente foi votar. Um pedaço importante dos 4 milhões de votos adicionais do Lula foi de quem estava em casa. Outra parte veio de quem votou nos outros candidatos, apesar de eles serem todos de direita. A gente deu importância demais a essa ideia de direita, como se fosse ideológica, programática, quando para o eleitor é uma ideia vaga, etérea: “Eles são diferentes, então é o que eu quero”. Havia um pedaço desses votos que iria naturalmente para Flávio e que ele não levou — ele não perdeu votos em relação ao primeiro turno. Dessa migração e dos abstencionistas, Lula captou a maioria, porque as escorregadelas autoritárias do Flávio durante a campanha deixaram o eleitor com medo.
O medo foi bastante usado pelo PT na campanha de segundo turno.
No primeiro turno, Flávio se beneficiou do ressentimento, do voto contra. No segundo, predominou o medo do retorno dos Bolsonaro. Voltou o fantasma do Jair e do horror que foi o governo dele. Curiosamente, Lula usou pouco a atitude de Jair Bolsonaro na pandemia, que me parecia um trunfo forte. Todo mundo conhece alguém que morreu sufocado e ficou indignado com a ironia com que Bolsonaro se referia aos que estavam morrendo. Isso apareceu muito claramente no episódio dos “nove dedos”, que foi o ponto da virada. Conheço muita gente com filhos com deficiências variadas, e todos ficaram com ódio do Flávio por aquilo. Ninguém fica com deficiência por não ter um dedo. O que revoltou foi a ideia de que quem foge do padrão deve ser ridicularizado. Foi fatal e revelou a natureza dele. Mas, no digital, a pandemia voltou com força. Os depoimentos voluntários de médicos, contando histórias de gente morrendo enquanto Bolsonaro ironizava, certamente tiveram efeito de recall. Houve também erros graves na campanha do Flávio, em que aparece a natureza dele. Ele não conseguiu sustentar a mentira, a máscara do marketing político, o tempo todo, como o [Fernando] Collor conseguiu. Isso contribuiu muito para a derrota.
A mobilização de Janones e de outras forças da esquerda levou gente às ruas. O que isso pode significar para o futuro da esquerda? Podem surgir novas lideranças daí?
Esses movimentos de rua do segundo turno lembram os de 2013. São espontâneos, sem organizações políticas e sindicais por trás. Eram orgânicos, mas de natureza distinta: um movimento social propriamente dito. No Brasil, os movimentos sociais sempre foram meio aparelhados por partidos e sindicatos, com exceção dos de 2013. A sociologia levou tempo para entender a natureza daquela rua, e com esta vai acontecer o mesmo. Eu não diria, de imediato, que era um movimento de esquerda. Tinha muita coisa anti ali. Antibolsonaro. Em 2013 também havia, mas era anti-PT, anti uma série de coisas, mais difuso. Este tinha um alvo, o antibolsonarismo e o antiautoritarismo. Foram mais movimentos democráticos, contra a promessa de retorno da autocracia e do golpismo com Bolsonaro, do que propriamente de esquerda. Havia esquerda também, mas dessa vez puxada por movimentos sociais sem orientação ideológica definida, mais voltados às pautas novas. Muita juventude, estudantes, mulheres. Algo diferente aconteceu naquela rua, que precisa ser mais estudado.
Em 2013, havia repulsa a qualquer símbolo partidário. Agora, as pessoas pareciam confortáveis cobertas de vermelho, com bandeiras do Lula.
Aquele vermelho pertencia mais ao Lula do que à esquerda. Outro dia, numa discussão, eu disse: “Gente, estamos lendo aquela multidão errado”. Ela estava de vermelho porque essa foi a cor que se definiu para a campanha do Lula, em contraste com o amarelo do Bolsonaro. Mesmo com a recuperação da bandeira e das cores que Lula e outros fizeram, e com amarelo no meio do vermelho, o vermelho dominou. Já era o vermelho do Lula, mais do que o do PT. E Lula tinha uma característica nesse momento: é o seu último momento. Ele já não é tão petista assim e está defendendo a democracia. Muita gente que nunca votou nele votou dessa vez. Foi parecido com o voto que Lula teve contra Collor em 1989, um voto lulista mais do que de esquerda, porque Lula foi quem mais convenceu contra Collor.
Lula sempre foi maior do que o PT. Mas é interessante essa imagem de um vermelho antibolsonarista, não necessariamente esquerdista.
Até porque o próprio Bolsonaro transformou isso num lema quando disse: “Nossa bandeira jamais será vermelha”. E o eleitor respondeu: “Bom, então vai ser, porque a sua bandeira a gente não quer”. Esse foi, em parte, o recado do povo aos Bolsonaro.














