domingo, 25 de outubro de 2026

Christian Lynch - Ascensão de Hitler nos lembra riscos de elite apoiar governantes autoritários, FSP

  

Christian Lynch

Professor do Iesp-Uerj (Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro) e editor da revista Insight Inteligência

[RESUMO] Livro de historiador francês tem o mérito de esclarecer, com documentação robusta, que não apenas o voto popular levou Adolf Hitler ao poder. A nomeação do nazista a chefe do governo alemão, nos últimos anos da República de Weimar, foi sobretudo uma aposta calculada de empresários e banqueiros com projeto econômico e social austero, mas sem base eleitoral, que acreditavam que o popular Hitler implementaria os interesses da elite —e depois seria facilmente descartado. As consequências catastróficas desse equívoco deixam lições para as turbulências políticas de hoje.

Um lugar-comum da história do século 20 sustenta que Hitler chegou ao poder pelo voto, favorecido pela crise de 1929 e pelo desemprego que ela provocou. A explicação tem a vantagem de absolver aqueles que de fato o nomearam chanceler e os que trabalharam pela sua nomeação.

É esse lugar-comum que Johann Chapoutot contesta em "Os Irresponsáveis: Quem Levou Hitler ao Poder?", publicado pela Gallimard em 2025 e agora traduzido por Clóvis Marques para a Da Vinci Livros.

Professor de história contemporânea na Sorbonne e um dos mais destacados estudiosos do nazismo na França, Chapoutot reconstitui os três últimos anos da República de Weimar a partir das atas do conselho de ministros, das memórias dos protagonistas e do diário de Joseph Goebbels, ministro da propaganda na Alemanha nazista.

Em 1949, o governo da então Alemanha Ocidental baniu legalmente o uso de símbolos, linguagem e propagandas nazistas
Adolf Hitler durante discurso - Getty Images/BBC Nws Brasil

O resultado permite acompanhar as decisões pelas quais uma democracia foi entregue aos seus inimigos por homens que se consideravam os mais habilitados a governá-la.

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A tese vem anunciada desde a introdução. A nomeação de Hitler como chanceler, chefe do governo alemão, em janeiro de 1933, foi "uma escolha, um cálculo e uma aposta" das elites alemãs. Elas preferiram os nazistas à esquerda, viram nos 400 mil homens da SA (a organização paramilitar original do Partido Nazista na Alemanha, fundada em novembro de 1920) um contrapeso aos comunistas e acreditaram que políticos experientes conseguiriam domesticar o chefe nazista num governo de coalizão.

O movimento forneceria os votos e a força de rua que lhes faltavam, enquanto o exercício do poder permaneceria nas mãos de quem conhecia os negócios do Estado.

Chapoutot chama os responsáveis por essa operação de "liberais autoritários", expressão empregada pelo jurista socialista Hermann Heller, ou de "extremo centro", fórmula do historiador Pierre Serna. As duas designações, entretanto, não possuem o mesmo rendimento explicativo.

O enredo é conhecido, mas o autor o reconstitui com riqueza de pormenores. Em março de 1930, o presidente Paul von Hindenburg, velho marechal eleito com os votos da direita, nomeia chanceler o católico Heinrich Brüning e lhe assegura o recurso aos decretos de urgência previstos no artigo 48 da Constituição.

Destinada a enfrentar ameaças à ordem pública, a legislação de exceção torna-se rotina, e a República parlamentar converte-se em presidencial sem alteração do texto de 1919.

Daí por diante, o governo depende cada vez mais do presidente e de sua camarilha. Dela fazem parte o filho Oskar, oficial medíocre favorecido pelo pai, o secretário Otto Meissner e o general Kurt von Schleicher.

Brüning cai em maio de 1932, acusado pelos latifundiários de "bolchevismo agrário" por querer assentar desempregados nas propriedades falidas do Leste. Seu sucessor, Franz von Papen, aristocrata sem base partidária, forma o chamado "gabinete dos barões".

Atendendo às exigências dos nazistas, dissolve o Reichstag, Parlamento alemão, e legaliza novamente a SA. Em julho, depõe por decreto o governo social-democrata da Prússia, removendo um dos principais sustentáculos institucionais da República.

O centro do livro está na relação entre esses governos e os detentores do poder econômico. O cineasta italiano Luchino Visconti contou o desfecho dessa relação em "Os Deuses Malditos" (1969), inspirado na família Krupp, dos siderurgistas de Essen.

No filme, o velho barão Joachim von Essenbeck, conservador que despreza Hitler, mas se acomoda ao novo regime para preservar a empresa, é assassinado no início de 1933, e a siderúrgica da família termina nas mãos de um herdeiro convertido à SS, a poderosa organização de segurança e terror nazista.

Chapoutot reconstitui os antecedentes dessa história. O programa de Papen foi exposto em 1932 em um volume intitulado "O Novo Estado", redigido pelo jornalista Walther Schotte. Ali se defendem a "economia privada, o capitalismo, o individualismo" e a desregulamentação do trabalho.

O seguro-desemprego, qualificado como "um total contrassenso", deveria ser substituído pela caridade privada e pela assistência familiar. A Constituição seria reformada para que o governo deixasse de depender de maiorias parlamentares mutáveis.

Chapoutot mostra a correspondência entre esse programa e as reivindicações da federação da indústria alemã. A grande indústria e a alta finança encontravam em Papen um governo disposto a executar suas prescrições, sem maiores constrangimentos eleitorais. O problema era justamente esse: o programa tinha os empresários, mas não tinha os votos.

Os votos estavam com Hitler, que cuidara de cortejar o patronato. Em 26 de janeiro de 1932, falando aos industriais do Clube de Düsseldorf, explicara que a empresa e o Exército repousavam sobre um mesmo "princípio absolutamente antidemocrático", o do desempenho, e que cabia "adequar as normas políticas às normas da economia".

O raciocínio era simples: se ninguém admitia submeter a direção de uma fábrica à vontade de seus empregados, por que entregar o governo do país à maioria dos eleitores? Em novembro, o filósofo alemão Carl Schmitt dizia a uma plateia de industriais que o Estado alemão era "total por fraqueza", incapaz de resistir às pressões da sociedade de massas.

No mesmo mês, cerca de 20 industriais, banqueiros e grandes proprietários subscreveram uma petição ao presidente Hindenburg pela nomeação de Hitler como chanceler. Entre eles estava Hjalmar Schacht, ex-presidente do Reichsbank, o Banco Central da Alemanha na época.

Chapoutot interpreta o documento como expressão de uma preferência que se consolidava: a disposição de recorrer ao chefe nazista para proteger a propriedade e conter as organizações políticas e sindicais dos trabalhadores.

O capítulo mais polêmico do livro é o décimo. Os nazistas haviam atingido seu teto eleitoral em julho de 1932 e perdido 2 milhões de votos em novembro. Com base em pesquisas recentes de Wolfram Pyta e Rainer Orth, Chapoutot mostra que Gregor Strasser, um dos principais dirigentes do partido, negociava com o general Schleicher, chanceler desde dezembro daquele ano, a participação num governo apoiado pelos sindicatos e comprometido com obras públicas e reforma agrária.

Ao menos uma dúzia de chefes regionais do partido nazista estava disposta a seguir Strasser, o que ameaçava a unidade do grupo. A operação esbarrou na recusa dos sindicatos, cujo presidente, Theodor Leipart, pressionado pela direção social-democrata, desistiu de apoiar o "general social", que passou a chamar de "fascista vermelho".

Mais grave, segundo Chapoutot, foi a hostilidade da "direita patrimonial, seja ela financeira, industrial ou agrária", que viu no programa de obras públicas e de reforma agrária uma ameaça aos seus interesses.

Papen, por sua vez, ressentido com o sucessor, Schleicher, encontrou-se com Hitler em 4 de janeiro de 1933 na casa do banqueiro Kurt von Schröder, outro signatário da petição, e trabalhou para convencer o presidente Hindenburg.

Hitler chegou à chancelaria quando sua votação declinava, pelas mãos de quem julgava poder conduzi-lo. Papen gabava-se de que o encurralaria até fazê-lo guinchar.

O leitor brasileiro reconhecerá no programa econômico desses "liberais autoritários" aquilo que tenho chamado de libertarianismo econômico. Surgido no final do século 19 como reação à democratização, trata-se de uma ideologia híbrida de liberalismo e conservadorismo.

Do primeiro conserva o individualismo econômico; do segundo, a crença numa ordem que a vontade dos homens não deveria contrariar. Essa ordem é a do mercado, cuja preservação pode justificar a restrição dos direitos políticos e a tutela dos governados.

Daí a relação instrumental com a democracia: ela vale enquanto não ameaça os fundamentos da ordem econômica. O programa de Papen oferece um exemplo particularmente claro dessa disposição. A categoria, porém, não serve igualmente a todos os protagonistas.

O monarquismo de Brüning e sua confiança na autoridade burocrática o aproximavam do conservadorismo estatista. Schleicher, por sua vez, buscava apoio nos sindicatos e defendia um programa de obras públicas que o próprio livro descreve com simpatia. Reunidos sob o mesmo rótulo, os três perdem diferenças que o relato de Chapoutot havia estabelecido.

A fórmula do "extremo centro" é ainda menos feliz. A coalizão que fundara a República em 1919 reunia social-democratas, católicos e liberais democratas. Os homens que nomearam Hitler pertenciam, entretanto, à direita conservadora: os junkers prussianos, o Exército e representantes da grande indústria.

Chamá-los de centro reproduz sua pretensão de representar a razão acima dos partidos, mas pouco esclarece sua posição ideológica.

A fórmula se explica melhor pelo alvo do epílogo: a França de Emmanuel Macron, com sua austeridade, seu discurso do "campo da razão" contra os extremos. A analogia tem méritos, mas também favorece um sarcasmo que por vezes dispensa distinções necessárias.

O contrafactual vai igualmente longe demais. As dificuldades do partido nazista no final de 1932 demonstram que a nomeação de Hitler podia ter sido evitada, mas não asseguram que o partido se desfaria sem ela.

Também permanece insuficientemente explicado o comportamento do eleitorado. Ao tratar a promessa social nazista sobretudo como engodo, Chapoutot esclarece melhor a negociação da chancelaria do que as razões dos 13 milhões de alemães que haviam votado no partido.

Essas reservas não comprometem o essencial. O livro devolve a política ao centro da explicação. Os estudos eleitorais que mobiliza mostram que não havia relação simples entre desemprego e voto nazista: nas regiões de maior desemprego, o partido obtinha com frequência resultados piores.

A crise ajuda a compreender o crescimento do movimento, mas não explica a decisão de entregar o governo a ele. Para isso é preciso acompanhar aqueles que tinham acesso ao gabinete presidencial, entre os quais os capitães de indústria e os banqueiros pesavam tanto quanto os generais e os políticos.

Eles acreditavam, como setores do empresariado brasileiro em 2018, que a presença de homens de sua confiança na condução da economia asseguraria o controle do chefe de governo.

O Ministério da Economia ficou inicialmente com Alfred Hugenberg, que não permaneceu nele por seis meses. Schacht, outra garantia oferecida ao patronato, voltou à presidência do Reichsbank em 1933 e ocupou depois o Ministério da Economia, até 1937. Preso pelo regime após o atentado contra Hitler em 1944, passou os últimos meses da guerra em campos de concentração.

Neste segundo turno, quando parte do empresariado brasileiro volta a cortejar o candidato do bolsonarismo, a reconstrução de Chapoutot recorda os riscos de uma aposta conhecida: ajudar a eleger um governante autoritário, convencido de que haverá meios de controlá-lo depois.

Os Irresponsáveis: Quem Levou Hitler ao Poder?

  • Preço R$ 89,90 (280 págs.)
  • Autoria Johann Chapoutot
  • Editora ‎ Da Vinci Livros