sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Morte de mulher pelo ICE estimula ativismo que desafia Trump, Laura Greenhalgh- FSP

 A morte da americana Renee Good, aos 37 anos, baleada em seu carro por um agente do ICE em Minneapolis, joga luz sobre um movimento de resistência a Donald Trump que cresce e surpreende. Protestos pipocaram na semana, reunindo centenas de pessoas, tomadas de coragem titânica.

O lado negativo disso é que outras mortes podem vir a acontecer em um momento em que o governo aumenta o seu poder de fogo e tenta impor imunidade absoluta para milícias encapuzadas. O lado positivo é que a reação ao nível comunitário conta e cala fundo. Mas Trump não lida bem com a força dos pequenos.

Policial com equipamento tático e máscara segura bandeira dos Estados Unidos em rua coberta de neve. Atrás, linha de agentes uniformizados com capacetes e máscaras formam barreira. Edifício grande e árvores sem folhas ao fundo sob céu nublado.
Agentes do ICE em frente à sede do serviço de imigração, em Minneapolis - Tim Evans/Reuters

Iniciativas locais tentam frear os agentes do ICE, a começar pelo apito laranja que as pessoas sopram como alerta de uma blitz ou captura. Organizações sociais providenciam cartilhas para instruir os imigrantes sobre seus direitos. Cartões para contatos de emergência são fartamente distribuídos.

A própria população patrulha o deslocamento dos policiais e organiza boicotes a empresas que têm contratos com o governo —caso da Avelo Airlines, por realizar voos de deportação, ou redes de hotéis como Hilton, por hospedar as forças repressoras.

Os protestos têm um caráter espontâneo, autêntico, que se coloca acima da clivagem entre democratas e republicanos. Porque há americanos que não suportam ver uma família hispânica destroçada, depois de ter construído com ela laços de convivência e amizade. Estas pessoas se arriscam a filmar com o celular o sequestro de um imigrante, a fazer barreiras humanas diante de tropas e até a alvejá-las com bolas de neve.

Esse é um novo ativismo e Trump já acusou o golpe. Numa entrevista a bordo do avião presidencial, defendeu os agentes, que não têm nem onde dormir. Sua secretária de Segurança, Kristi Noem, e a secretária de Imprensa da Casa Branca, Karoline Leavitt, se revezam para enaltecer os "bravos homens". O problema é que, como disse a viúva de Renee, Becca Good, "enquanto nós temos apitos, eles têm armas".

E, aqui, um fenômeno: Renee e Becca, mulheres brancas, lésbicas, que se posicionaram contra as atuais políticas anti-imigrante, atiçam a fúria do movimento Maga. São chamadas de AWFUL, em letras maiúsculas, ou horrorosas, em português. Ao mesmo tempo, a palavra serve de sigla para "afluentes mulheres brancas urbanas liberais".

Pois o casal Good está na mira dos ultraconservadores. Afinal, como duas brancas, bem situadas socialmente, podem se envolver com a ralé da imigração? Traidoras da Pátria. Esquerdistas desvairadas. Terroristas domésticas. São alguns dos epítetos que recebem.

Na retaliação, surgem vozes inesperadas. A jornalista e escritora americana Naomi Wolf, cujo livro "O Mito da Beleza" foi saudado por feministas como um libelo contra a escravidão da boa forma, hoje corrobora a tese de Trump, de que Renee morreu porque se comportou mal. Wolf acha que as mulheres têm ficado insanas pela falta de satisfação heterossexual. Podemos descartar o que vem dentro deste raciocínio.

Renee Nicole Good não imaginou que sua morte iria render tantas versões. Suas últimas palavras para o policial que rodeou seu carro foram: "eu não estou brava com você". Ele disparou três vezes e, antes de sair da cena, suas últimas palavras foram: "vagabunda do caralho".


quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Decisões de Toffoli e Moraes abrem crise e brecha para anular caso Banco Master, Rosean Kennedy OESP

 "Ação de Toffoli pavimenta caminho para Vorcaro pedir nulidade do processo”, diz Roseann

Capa do video - "Ação de Toffoli pavimenta caminho para Vorcaro pedir nulidade do processo”, diz Roseann

Roseann Kennedy comenta sobre o avanço nas investigações sobre as fraudes do Banco Master que rachou o STF. No epicentro do caso, Dias Toffoli como relator. Crédito: Jefferson Perleberg (Edição)

O escândalo do Banco Master avança a passos largos para provocar uma crise sem precedentes entre instituições no País. Uma tribulação que põe em choque ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) com a Polícia Federal, o Banco Central, o Conselho de Atividades Financeiras (Coaf) e a Receita Federal. Além disso, o Tribunal de Contas da União (TCU) contribui para piorar o cenário.

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Decisões recentes de Dias Toffoli e Alexandre de Moraes causam desconforto entre os pares e perplexidade no meio jurídico. Isso porque podem abrir brechas para a defesa de Daniel Vorcaro pedir anulações futuramente e, em outra frente, para eventuais retaliações contra quem revelou negócios de familiares de Toffoli e Moraes que envolvem contratos com o Master.

Desde que assumiu a relatoria do caso do banco de Vorcaro no Supremo, Toffoli adotou medidas tão heterodoxas que teve de recuar três vezes. Primeiro ao marcar uma acareação, sem nem ter tomado depoimentos, e incluir um diretor de fiscalização do BC, que não é investigado.

Depois, no gesto mais recente, o ministro determinou à PF que lacrasse e entregasse à Corte todos os itens apreendidos na nova fase da Operação Compliance Zero. Apesar de o Código de Processo Penal atribuir à PF a custódia e a perícia do material apreendido.

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O magistrado ainda criticou a PF acusando a corporação de “inércia” por não ter cumprido a operação em um prazo de 24 horas. E nesta quinta-feira, 15, ele também voltou atrás e admitiu à PF periciar o material.

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Diante de tantos atos controversos, Toffoli perdeu a credibilidade pública para continuar nessa relatoria. Não só pelas decisões e recuos, mas por comportamentos pessoais e de seus irmãos.

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Dias antes de virar relator do caso, ele tinha viajado com o advogado do Master, em avião particular, para assistir ao jogo da Libertadores. E, na semana passada, a imprensa descobriu que empresas ligadas a seus irmãos tiveram como sócio um fundo de investimentos conectado aos negócios do Master.

Eis que Moraes entrou em cena para lidar com revelações incômodas a sua maneira. Uma delas foi a divulgação de que sua esposa, a advogada Viviane Barci, tinha um contrato milionário com o Master. Com o poder da caneta suprema, Alexandre de Moraes abriu, de ofício, um inquérito contra o COAF e a Receita. O gesto causa incômodo entre servidores de carreira que reclamam da pressão contra os órgãos de controle.

Ação do TCU também ajuda Vorcaro e constrange BC

Ao invés de unirem esforços para apontar e punir os responsáveis pelas fraudes bilionárias no banco, o Supremo Tribunal Federal (STF) e o Tribunal de Contas da União (TCU) entraram em atrito com a Polícia Federal e o Banco Central.

O desgaste foi provocado por decisões individuais dos ministros relatores Dias Toffoli, no STF, e Jhonatan de Jesus, do TCU, mas afetam as organizações coletivamente. Isso porque, ao adotarem medidas que constrangem os investigadores, ignoram determinações regimentais e do Código de Processo Penal, eles abalam a credibilidade das instituições em sua totalidade. Consequentemente, pavimentam o caminho para a defesa de Daniel Vorcaro pedir anulações futuras.

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As investidas mais recentes apontam na direção de uma força-tarefa para salvar Vorcaro. Seria normal se os questionamentos partissem da defesa do banqueiro, que tem uma tropa de choque com advogados dos maiores escritórios brasileiros.

Mas as ações que podem futuramente provocar a anulação de decisões estão sendo adotadas por Dias Toffoli, do STF, e Jhonatan de Jesus, do TCU.

Lewandowski ajudou a anular posse de novo ministro da Justiça em 2016, FSP

 Juliana Arreguy

São Paulo

O novo ministro da Justiça, Wellington César Lima e Silva, retorna ao cargo passados quase dez anos de uma passagem relâmpago pelo posto. Sua saída, à época, contou com um empurrãozinho de Ricardo Lewandowski, que o antecedeu na pasta agora em 2026.

Lima e Silva foi ministro da Justiça do governo Dilma Rousseff (PT) por apenas 14 dias, em março de 2016. Procurador do Ministério Público da Bahia, substituiu José Eduardo Cardozo, que havia sido deslocado para a Advocacia-Geral da União em meio à crise do impeachment da petista e desgastes com a Lava Jato.

Homem de meia-idade com cabelo grisalho veste terno preto, camisa branca e gravata azul escura. Ele está sentado com expressão neutra contra fundo verde com texto parcialmente visível.
Wellington César Lima e Silva assume Ministério da Justiça e Segurança Pública dez anos após ter passado pelo cargo - Alan Marques - 3.mar.16/Folhapress

A posse de Lima e Silva foi anulada pelo STF (Supremo Tribunal Federal) após a Corte determinar que membros do Ministério Público não podem exercer cargos no Executivo. À época, Lewandowski presidia o Supremo e votou a favor do não acúmulo das funções.

Quando Lima e Silva tomou posse, o PPS (hoje Cidadania) entrou com uma ação no STF pedindo que a nomeação fosse suspensa sob o argumento de que, enquanto procurador, ele deveria renunciar à carreira para ingressar no Ministério da Justiça.

Relator da ação, o ministro Gilmar Mendes entendeu que a atitude violava o princípio de separação de poderes. O voto dele foi acompanhado por todos os outros ministros do STF, à exceção de Marco Aurélio Mello.

Lewandowski, ao justificar o próprio voto, disse que a decisão não julgava Lima e Silva enquanto pessoa, mas sim o fato de não poder assumir um cargo no Executivo enquanto membro do MP. Ele acrescentou que o recém-nomeado ministro poderia se manter no posto caso pedisse exoneração da Promotoria.

"Claro que é uma decisão difícil, personalíssima, mas o Supremo Tribunal Federal absolutamente não está interferindo na decisão da Presidência da República", disse Lewandowski.

Dilma Rousseff, vestindo blazer branco, segura uma caneta e se inclina sobre uma mesa com documento aberto, enquanto homem de terno escuro está ao seu lado. Ao fundo, três homens sentados observam a cena, com fundo verde e texto parcialmente visível.
Wellington César Lima e Silva toma posse como ministro da Justiça, em 2016, ao lado da então presidente Dilma Rousseff - Alan Marques - 3.mar.16/Folhapress

Dias Toffoli fez um adendo à fala do colega citando o exemplo de Alexandre de Moraes, que havia deixado a carreira no MP paulista anos antes para assumir um cargo no governo de São Paulo. Coincidentemente, Moraes foi nomeado ministro do STF no ano seguinte.

Lima e Silva optou pela carreira de procurador, da qual se aposentou em janeiro de 2023, para assumir a Secretaria de Assuntos Jurídicos da Presidência da República. Ele permaneceu no cargo até julho de 2024, quando foi indicado pelo próprio presidente Lula (PT) para chefiar o departamento jurídico da Petrobras.

Agora, Lima e Silva retorna ao Ministério da Justiça após Lewandowski deixar o comando da pasta na semana passada.

Tanto em 2016 quanto em 2026, a escolha de Lima e Silva para ministro foi articulada por Jaques Wagner (PT-BA), que governou a Bahia no período em que o ex-procurador chefiou o MP no estado.