segunda-feira, 12 de outubro de 2026

Ex-pobre tem memória curta- Mafalda Anjos- FSP (definitivo)

 Há muitos anos que o Brasil me oferece lições políticas valiosas.

Foi conhecer a fundo e de ponta a ponta o país que fez o meu pai, um empresário da clássica direita europeia conservadora, dizer, no início deste século, uma frase que nunca mais esqueci: "O Brasil nos faz centrar. Não entendo como os brasileiros não se revoltam".

Perceber as dinâmicas cruéis de uma desigualdade social extrema, o abismo intransponível entre ricos e pobres, o racismo estrutural enraizado e a desumanização do outro porque não pertence à mesma classe é qualquer coisa que tem de fazer refletir quem, estando do lado dos privilegiados, tem um cérebro pensante e mínimos de empatia.

Homem de camiseta vermelha e bermuda caminha em passarela externa com panfletos voando e espalhados no chão. Outras pessoas caminham na mesma direção, com vegetação e morro ao fundo sob céu azul.
Pedestres atravessam passarela coberta de santinhos eleitorais na favela da Rocinha, no Rio de Janeiro - Tercio Teixeira - 4.out.26/AFP

Lembro-me bem do choque que senti quando vi que no condomínio de luxo de uns amigos em São Paulo havia zonas comuns e jardins onde babás e empregados não podiam permanecer. Ou quando ouvi outros, igualmente ricos, dizerem que "a gente não fala com serviçal". Ou como me custou a adormecer, ainda criança, na primeira vez que fui ao Rio, num hotel de cinco estrelas com a favela ali mesmo ao lado, a pensar na sorte da minha circunstância —e se eu tivesse nascido ali? O que, na minha cabeça jovem, entendi como um indecente apartheid não oficial ajudou a moldar a minha consciência política, juntamente com a educação em uma escola alemã progressista.

Ver nascer e progredir uma classe média apoiada pelos programas de apoio social que surgiram neste século alimentou a minha fé na humanidade, na democracia e numa sociedade mais igualitária —afinal, vantajosa para todos. Ver os filhos dos tais serviçais poderem estudar na universidade e chegarem a médicos e advogados me fez acreditar no poder de revolução pacífica da mobilidade social. É claro que em Portugal isso também aconteceu, mas não de forma tão exuberante e tão rápida como no Brasil.

Por estes dias, o Brasil continua a me fazer pensar. E a me inquietar. As últimas eleições são paradigmáticas nos fenômenos de rejeição, de polarização afetiva, a força do voto identitário e a escolha política por clubismo, por pertencimento ou por aspiração. E também é notável o poder das redes sociais, algoritmos e bolhas digitais para mobilizar fatias cada vez maiores do eleitorado —já lá vai o tempo da televisão como canal privilegiado de "mass media".

Mas é sobretudo um caso de estudo como o ressentimento, o grande combustível político dos nossos dias tão bem usado pelos populistas, pode atordoar tanto as pessoas que as faz até votar contra os seus próprios interesses pessoais —como a barata que vota no chinelo ou no inseticida.

É impressionante ver como a turma que escapou da pobreza pode ter memória curta. Como se continua a repetir, contra fatos e evidências, que os programas sociais como o Bolsa Família produzem preguiçosos e que os pobres não fazem esforço para deixarem de ser pobres. Como uma vez ascendendo socialmente e deixando de precisar de assistência pública, se pode esquecer de onde veio a sua família e o que custou para lá chegar.

Olhando para os dados de renda do eleitor brasileiro, as propostas dos candidatos e a forma como se comportaram as fatias da população mais pobres e as que ganham entre dois e cinco salários, nunca me fez tanto sentido o velho ditado português: "Nunca peças a quem pediu, nunca sirvas a quem serviu".

Marcus André Melo - O mito do Nordeste vermelho, outra vez, FSP

 Em 2022, mostrei nesta coluna que o núcleo do centrão e o PL haviam eleito 35% dos deputados federais nordestinos. Os partidos de esquerda ficaram com 33%. A participação de PL, PP e Republicanos nas bancadas da região era praticamente idêntica à observada nacionalmente.

Em 2026, o PT elegeu 70 deputados federais, contra 69 em 2022, mas a participação do Nordeste nessa bancada caiu de 21 cadeiras —30,4%— para 20, equivalentes a 28,6%. Se antes a maioria dos deputados petistas já vinha de fora da região, agora a diferença aumentou: são 20 contra 50.

Homem de camisa azul fala ao microfone em palanque ao ar livre, acompanhado por mulher com boné vermelho e camiseta branca com estampa do Brasil. Edifícios altos aparecem ao fundo em dia nublado.
O presidente da República e candidato a reeleição, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), ao lado da primeira-dama, Janja, em ato realizado na avenida Paulista - Adriano Vizoni/Folhapress

Em 2022, o PT ocupava 13,9% das cadeiras nordestinas e 13,3% das cadeiras do restante do país: virtual paridade. Hoje, proporcionalmente, há menos PT nas bancadas nordestinas do que nas demais: 13,2% no Nordeste e 13,8% fora dele.

Quando se calcula, em cada estado, quanto os deputados do PT representam percentualmente dentro de sua bancada federal, o valor que divide as 27 unidades da Federação ao meio é 12,5% —acima dos 11,8% registrados em 2022. Três estados nordestinos estão acima desse patamar (mediana), enquanto seis estão na mediana ou abaixo dela. O Piauí lidera, com 30%, mas dois estados de fora do Nordeste —Minas Gerais, com 22,6%, e Espírito Santo, com 20%— superam a Bahia, maior colégio eleitoral nordestino, que aparece com 17,9%. O Ceará registra apenas 13,6%, ficando também abaixo de Paraná (16,7%), Rio Grande do Sul (16,1%) e São Paulo (15,7%).

O quadro dos demais partidos é ainda mais revelador. PSD e PP, ao contrário do estereótipo, são proporcionalmente muito mais fortes nas bancadas nordestinas. Nada menos que 41,8% dos deputados do PSD foram eleitos na região. Sete dos nove estados nordestinos estão na metade superior da distribuição; no PP, são seis; no Republicanos, cinco.

PL e União Brasil, esses sim, apresentam maior concentração fora da região. Ainda assim, o PL ocupa 21,5% das cadeiras nordestinas, apenas cerca de seis pontos percentuais abaixo de sua participação nas bancadas das demais regiões (27,5%). O Nordeste não constitui um sistema partidário distinto do restante do país.

Em 2019, ilustrei o mito do Nordeste vermelho com um experimento natural. Nas eleições municipais de 2012, o PCdoB elegeu cinco prefeitos no Maranhão. Quatro anos depois, saltou para 46 —aumento de 820%—, concentrando no estado 58% de todos os prefeitos eleitos pelo partido no país. O que ocorreu? Entre as duas eleições, o PCdoB elegera Flávio Dino governador. A força centrípeta —para usar um eufemismo— da máquina estadual operou.

O episódio ajuda a decifrar um enigma apenas aparente: como a mesma região que dá votações esmagadoras ao PT para presidente entrega prefeituras e cadeiras legislativas a partidos de centro e de direita?

O regionalismo é uma variável importante, mas o eleitor não é ignorante. Ele arbitra racionalmente trade-offs entre ganhos federais e locais. Na eleição presidencial, premia quem ele associa à oferta de programas de transferência de renda, valorização do salário mínimo e políticas sociais. Nas disputas subnacionais, responde às redes comandadas por governadores (mas também prefeitos e parlamentares capazes de carrear obras, serviços e emendas).