quarta-feira, 29 de julho de 2026

Quatro razões para descartar 'Sapiens' como guia sobre evoluçã, FSP

 Reinaldo José Lopes

São Carlos (SP)

Fazia tempo que eu queria reler "Sapiens", livro do historiador israelense Yuval Noah Harari que acabou virando a maior referência pop sobre evolução humana em boa parte do mundo. Faz mais de uma década que tive contato com a obra pela primeira vez, quando Harari ainda não era o superstar em que acabou se transformando, e me recordo com clareza do gosto de cabo de guarda-chuva na boca ao terminar a leitura. Havia várias coisas esquisitas e questionáveis ali.

Como a popularidade dos livros dele não dá sinais de arrefecer tão cedo, e como a nova leitura que fiz confirmou a sensação estranha original e me ajudou a organizá-la na cabeça, achei que poderia ser útil explicar porque é preciso encará-lo com muitos grãos de sal. Em suma, se você quer dar um livro sobre a trajetória evolutiva da nossa espécie para um adolescente curioso, talvez seja melhor não presenteá-lo com "Sapiens".

Homem calvo com óculos e terno escuro ajusta a gola da camisa com a mão direita. Fundo com parede de tijolos e luminária pendente iluminando a cena.
O escritor israelense Yuval Noah Harari durante uma feita de livro em Frankfurt, na Alemanha - Kirill Kudryavtsev - 17.out.24 /AFP

Falemos, primeiro, do quadro geral. Quatro fatores principais me fazem ficar com muitos pés atrás diante da obra de Harari. E o estranho é que eles até pareceriam, à primeira vista, ser contraditórios entre si. Nossos Quatro Cavaleiros do Apocalipse Sapiens são: 1) simplificação excessiva; 2) repetição de exemplos ad nauseam; 3) uma certa volúpia da especulação desvairada; 4) uma alergia preocupante a citar fontes e à atualização.

Sobre o item 1, é claro que a simplificação é inevitável num livro de 400 e poucas páginas que começa no surgimento dos hominínios (o grupo de primatas mais específico ao qual a nossa espécie pertence) e vai até o século 21. Quem tenta adotar esse olhar amplo sobre a trajetória humana precisava fazer escolhas e condensar –o problema é achar o equilíbrio entre esse processo necessário e o risco de tornar a história contada tão mais simples, mas tão mais simples, que ela começa a perder a relação com a realidade.

Isso, aliás, dialoga bastante com o item 4. Harari estrutura sua narrativa em torno de três supostas grandes revoluções (a Revolução Cognitiva que nos fez seres simbólicos, a Revolução Agrícola que aumentou nossa população e complexidade social e a Revolução Científica). Mas são raros os momentos em que ele deixa claro que essa estrutura –em especial no que diz respeito às duas primeiras revoluções– é uma hipótese, e não um fato.

Por conta disso, claro, temos o seguinte grande problema: essa visão já estava ficando muito ultrapassada quando da publicação original do livro (no começo da década passada). E ficou ainda mais ultrapassada com o passar dos anos, em especial no abismo que Harari enxerga entre seu herói Homo sapiens e os demais tipos de hominínios.

Em nenhum momento ele parece ter feito algum esforço para atualizar o livro levando isso em conta, e quase não temos ideia, no texto, das fontes que usou. (A primeira metade do livro recapitula em quase tudo um clássico dos anos 1990, "Armas, Germes e Aço", de Jared Diamond, mas eu só sei disso porque li o livro anterior, e não porque Harari deixa isso claro.)

Para um livro que precisava resumir tanta coisa, o autor israelense repete exemplo atrás de exemplo para elucidar conceitos aparentemente simples, como o de "pessoa jurídica" ou de comunidades imaginárias (o item 3 da lista). Isso é irritante, mas talvez seja um pecado menor perto do item 4.

No final da obra, Harari faz uma espécie de trailer de seu livro seguinte, "Homo Deus", defendendo a ideia de que a humanidade está a caminho de adquirir uma longevidade "divina". (Graças a Deus, na época a febre da IA ainda não existia.) A especulação come solta, sem qualquer tentativa, por parte do autor, de tentar entender os limites impostos pela própria biologia humana aos planos mais mirabolantes para alterá-la de forma significativa.

Em suma, como dizia um querido editor com quem trabalhei, no livro o que é bom não é novo e o que é novo não é bom. Considerem-se avisados.

Reinaldo José Lopes
Reinaldo José Lopes

Autor do blog Darwin e Deus, sobre ciência e religião, e especialista em história do catolicismo

Convencional, filme sobre Ignácio de Loyola Brandão revela fascínio, FSP

 

Não Sei Viver Sem Palavras

  • Quando Estreia qui. (30) nos cinemas
  • Classificação 12 anos
  • Produção Brasil, 2025
  • Direção André Brandão

O cinema brasileiro deste século viu a proliferação dos documentários, um pouco pelo sucesso crítico e comercial de Eduardo Coutinho, um pouco pelas facilidades, ou menos dificuldades, de orçamento e editais.

Um filão compreensivelmente prolífico do gênero é o retrato biográfico de alguém ligado às artes, vivo ou morto, seja escritor, músico, cineasta ou coisa que o valha.

Passeando pelas memórias e escritos de Ignácio de Loyola Brandão, "Não Sei Viver Sem Palavras", dirigido por seu filho, André Brandão, é um filme bem mais quadrado do que a obra do escritor. E, quando procura algum desvio, fica sempre ameaçado de sair dos eixos.

O escritor Ignácio de Loyola Brandão em Berlim, em 1982 - Acervo pessoal

Loyola é colocado numa cadeira no centro de uma praça ou na plataforma de uma estação ferroviária. Quando é filmado de frente, todo o fundo fica fora de foco, de acordo com a atual moda de sonegar do espectador boa parte do espaço fílmico. Quando é filmado lateralmente, vemos o fundo perfeitamente.

Muitas fotos são mostradas no decorrer do documentário biográfico. Belas fotos, históricas, contam muito do passado. A não ser quando é inserido um efeito que coloca movimento dentro delas. Desvio, indesejável deformação. Conta muito do mundo contemporâneo.

O filme é, em grande parte, subordinado aos escritos de Loyola, às palavras sem as quais ele não sabe viver. Essas palavras podem nos levar a antigos filmes familiares em super-8, aos filmes que ele amava —de Fellini, Luiz Sérgio Person ou Anselmo Duarte—, ao nascimento de seu filho, às tenebrosas memórias da ditadura militar ou até a um passeio de carro por Araraquara, cidade onde nasceu.

O longa começa na abstração, com a captação, bem de perto, da correnteza de algum rio. Depois, uma cachoeira —porque "cinema é cachoeira", dizia Humberto Mauro, numa ideia já muito repetida do cinema como um fluxo. Bons momentos são alcançados quando os escritos do autor são narrados em voz off e ilustrados com imagens da natureza ou de filmes familiares.

Em conversas captadas ou recuperadas pelo filho, Loyola fala de suas próprias obras. Do livro que escreveu a partir de uma temporada em Berlim, "O Verde Violentou o Muro", de 1984. Da formação intelectual e dos enfrentamentos com a ditadura militar.

Fala de seus maiores sucessos, como o livro "Zero", de 1975, censurado pelo regime militar e publicado só em 1979 no Brasil, ou "Não Verás País Nenhum", de 1981, que se passa numa São Paulo do futuro, onde coisas estranhas acontecem. Fala também de seu romance incompreendido, "Dentes ao Sol", de 1976, seu preferido e o que menos vendeu.

Passa ainda por sua faceta de crítico de cinema. E pelas relações com seu pai e com seus filhos, e até mesmo pela possibilidade de "não repetir o pai", conforme o filho e diretor questiona, num interessante jogo entre pai e filho.

Nos créditos finais, são mencionados os trechos usados de seus escritos, os filmes que tiveram trechos usados ou foram adaptados de suas obras, como "Anuska, Manequim e Mulher", de Francisco Ramalho Jr., baseado num conto do livro "Depois do Sol". Poderiam ter mostrado "Bebel, a Garota Propaganda", de Maurice Capovilla, inspirado no seu primeiro romance, "Bebel que a Cidade Comeu".

Loyola afirma que gostaria de ter sido diretor de cinema. Fazer crítica de cinema era caminhar um pouco na direção desse sonho. Calhou de ser escritor, mas na vida de um criador, acumular frustrações é algo normal. Aquele que não as tem, quis pouco, provavelmente.

Uma ideia que fica perdida e merece ser resgatada é o entendimento de que a literatura é movida, entre outras coisas, por um certo desejo de vingança. É interessante, porque o escritor pode tudo, inventa o mundo de acordo com seus desejos e pode projetar desafetos em alguns personagens.

No cinema, isso também pode acontecer. E num filme feito por um filho sobre o seu pai, não há como ignorar um certo desejo de vingança. Não porque esse filho não goste do pai, mas porque ao criar o filme, ele detém, ou deveria deter, o controle sobre a imagem do pai.

O diretor é o filho. O pai pode interromper um depoimento com um determinante "agora chega". Mas o filho escolhe o que vai mostrar e o que vai sonegar do espectador. O filho decide encher de música o filme, as notas brigando com a voz do pai. Os erros e acertos são de André Beltrão.

Se há uma fraqueza clara em "Não Sei Viver Sem Palavras", é o fato de ser convencional até nos excessos, como vários outros documentários biográficos que vimos nos últimos anos.

A força também é evidente: deixar transparecer o fascínio da arte de Ignácio de Loyola Brandão e sua contribuição para a literatura brasileira do século 20.

José Luiz Portella - Políticas públicas falham ao ignorar o emocional das pessoas e o mercado, FSP

 

José Luiz Portella

Engenheiro civil, é doutor em história econômica com pós-doutorado em sociologia (USP); atua como pesquisador do IEA-USP (Instituto de Estudos Avançados) e é professor de pós-graduação

[RESUMO] Autor argumenta que a baixa eficácia das políticas públicas decorre de três falhas: ignorar o comportamento real das pessoas, desconsiderar as características culturais das comunidades e manter Estado e mercado desarticulados. Esses fatores precisam ser integrados por meio de planejamento, avaliação contínua e um projeto nacional de longo prazo.

As políticas públicas não têm a eficiência desejada pela ausência de articulação, sobretudo no Brasil.

Três campos avultam: 1) o desconhecimento do ser humano, 2) o desprezo pela atitude das comunidades e nações e 3) a desconexão entre Estado e mercado. Três grandes degraus.

Ponte ferroviária completa atravessa rio com trem de carga em movimento. Ao fundo, nova ponte está em construção com pilares e guindaste sobre a água. Vegetação densa na margem do rio sob céu claro.
Ponte sobre o rio Tocantins (esq.) perto de Marabá, no Pará, e obra de nova ponte rodoferroviária da estrada de ferro Carajás - Lalo de Almeida - 22.dez.25/Folhapress

Primeiro, o ser humano não é como ele gostaria de ser. Há um grande vão entre o ser humano "como é" e o ser humano "como deveria ser". Ilusão.

As políticas públicas são feitas pelo ser humano imperfeito "como é", visando ao ser humano perfeito "como deveria ser". O comportamento esperado de quem vai receber a política é idealizado. Não se contempla o lado emocional que faz o ser humano desbordar da conduta racional-lógica, que René Descartes e Baruch Spinoza exponenciaram.

O ser humano, desde sempre, tem paixão, emoção e sentimentos que contrariam a lógica do bom senso. "Só quem vive segundo a razão pode ser considerado livre", disse Spinoza. Ele que se enfureceu com o comportamento dos assassinos de Johan de Witt (1625-1672), primeiro-ministro holandês, que foi esfaqueado e devorado pela turba. Segundo o DutchReview: "O povo era irracional, e o país além da salvação".

Ninguém vive sem alguma vez ser tangido pela paixão em vez da lógica.

Max Weber preconiza uma burocracia isenta e objetiva. Não existe o homem sem isenção absoluta, muito menos em quadros indicados por forças políticas. Immanuel Kant propôs o "imperativo categórico". O ser humano o aplica?

No Brasil, Sérgio Buarque de Holanda, no consagrado "Raízes do Brasil", consolidou o brasileiro como "alguém guiado pela paixão", pelo coração, o homem cordial e relacional, que coloca a amizade adiante do mérito.

Segundo: há um menosprezo pela atitude humana peculiar. Cada comunidade tem a sua, cada nação possui o respectivo comportamento, derivado dos hábitos e costumes.

Michael Woolcock, Matt Andrews e Lant Pritchett escreveram "Building State Capability: Evidence, Analysis, Action" (Oxford University Press) e consagraram o PDIA ("problem driven iterative adaptation"), tratamento às políticas que se inicia estudando um problema e buscando a solução adaptando-a à atitude da comunidade-alvo.

Esse caminho deve ser até mais rigoroso do que sugerem, levando em conta até hábitos culturais bem profundos. As pessoas reagem às políticas conforme esses hábitos. Não se pode copiar políticas com atitudes diferentes entre o exemplo e a aplicação.

Fazer como nos Estados Unidos ou como na China não serve.

Harold Lasswell, cientista político, afirma que "a atitude não é apenas uma opinião, mas a propensão ou tendência de um grupo agir conforme certos valores".

O Bolsa Família é para haver um mínimo para sobrevivência. Pessoas apostam nas bets. As restrições, agora impostas, deveriam ter ocorrido antes da "porta arrombada", para o cidadão "como ele é". Imaginava-se que ele seria "como deveria" e não jogaria. Quanto se perdeu em bets?

Terceiro: a desarticulação entre o papel do Estado e a ação do mercado. Estado e iniciativa privada.

Não há país que haja se desenvolvido sem a junção de ambos. Até a China, que alçou voo com o "capitalismo de Estado", e os Estados Unidos, que desde Alexander Hamilton, pai fundador, foi protecionista com o "Relatório sobre as Manufaturas", e assim seguiu até Donald Trump e as tarifas.

Singapura, Coreia do Sul e Japão são filhos da articulação Estado-mercado.

Peter Evans, que tratou do que chamou autonomia inserida, depois aperfeiçoada pela prática, e Dani Rodrik, "summa cum laude" (distinção acadêmica com a maior das honras) no Harvard College, trabalham bem essa necessidade de articulação Estado-mercado.

Todos esses três fatores se juntam e, com graus diferentes de preponderância, esvaem grande parte da eficiência das políticas públicas.

A grande transformação

Karl Polanyi, em "A Grande Transformação", escrutina a relação do ser humano como é e as convulsões sociais e políticas frente ao surgimento da economia de mercado, explorando a dissonância entre ser humano emocional, social e as imposições dos mercados, como ele trata.

Nas políticas públicas, há uma similitude bastante significativa. Não se trata de discutir Polanyi no detalhe. Desejamos debater o que é preciso efetuar para aprimorar a efetividade da política pública sem a ilusão da perfeição humana, inexistente. O que nos conduz à conclusão de que nunca uma política pública será 100%: necessitamos realizar o melhor possível sabendo que, além da imperfeição na confecção, existem os conflitos humanos.

Thomas Hobbes, já em 1651, com "Leviatã", alertou quem somos se estivermos em estado de natureza. O homem é o lobo do homem, avisou. Sem o Estado, estaríamos em alto risco permanente.

A grande transformação, no nosso caso, seria a aplicação das três conexões acima aventadas, começando pela mudança de atitude, a mais difícil. Mudar o procedimento não é uma facilidade humana.

Como disse Freud: "Você pode perder a saúde querendo mudar uma pessoa". Imagine várias.

A política pública tem um processo de gestação que não pode ser atalhado pela nossa ansiedade e imediatismo, também anotados por Buarque de Holanda e pelo jeitinho brasileiro que Roberto DaMatta destacou em "Carnavais, Malandros e Heróis".

Tal processo principia com a decisão de planejar, que mapeia os problemas e levanta dados para o diagnóstico. Nessa etapa, aplica-se também o princípio da falseabilidade de Karl Popper, em que uma teoria só é científica se puder ser testada e refutada por observações ou experimentos. Segue o ato de planejar, considerando a atitude do público-alvo e os riscos de descaminhos. Então vem a implementação, que deve corrigir imperfeições eventuais do planejamento durante o processo. Depois, a conquista da meta colimada. Por fim, a mensuração de resultados, não vinculada apenas aos aspectos numérico e qualitativo, mas abrangendo o real impacto causado.

Isso não ocorre no Brasil, salvo honrosas e escassas exceções. Falha gravíssima, que custa caro.

No Brasil isso passaria por criarmos um projeto de país, o que não acontece desde o governo de Juscelino Kubitschek (1956-61).

Com o agravante de que, para as políticas públicas, só fomos descobertos em 1930, com a formação do Estado brasileiro, fecundado pelo tenentismo de 1922 com as ideias de fim do voto de cabresto, o voto secreto, mais educação, visão de país. Esse Estado só encontrou elementos técnicos para planejamento e pesquisa a partir de 1930 com as instituições criadas por Getúlio Vargas.

Posteriormente, houve o aproveitamento delas e das missões Cooke (1942) e Abbink (1948) para avaliar e propor diretrizes de desenvolvimento, que foram concretizadas pela Comissão Mista Brasil-Estados Unidos (1951-53), que fundamentou a criação do BNDE, atual BNDES.

Desenvolvimentismo transformou-se em sinônimo de gasto público desmesurado. O que, nem sempre, é verdade. Pode e deve não ser.

O maior problema do Brasil é a desigualdade social, notabilizada pelo "país dos privilégios", como observamos com o extrateto defendido pelos três Poderes e até pelo TCU celebrizando o movimento dos sem-teto salarial.

A grande transformação na eficácia das políticas públicas seria o aperfeiçoamento das conexões desses três drenos apontados, com a gênese de um concerto propiciando rumo ao Brasil.

Um Plano de Metas, em que o conjunto das ações destacadas não compusesse uma colcha de retalhos, com fragmentações, como conjuntos de obras que temos visto, a satisfazer interesses de lideranças regionais disseminadas.

É preciso um Plano de Metas em que o elenco das metas conduza a conquistas estratégicas, alçando o Brasil na busca pelo respectivo potencial, como Juscelino com seu programa estabeleceu a indústria de base no país.

Conquistas que nos proporcionassem patamares de desenvolvimento sustentado dentro da cadeia global. Mais Embraer(s) e mais Embrapa(s).