domingo, 3 de maio de 2026

Há ironia histórica no câncer fatal de um artilheiro da genômica, Marcelo Leite, FSp

 A morte do geneticista Craig Venter abriu ligação direta na memória até junho de 2000, um túnel do tempo que nos teletransportou à cerimônia em que ele, Francis Collins, Bill Clinton e Tony Blair anunciaram a decifração do genoma humano. Venter era o menos à vontade ali, embora fosse o vencedor da corrida maluca.

Passado um quarto de século, convém dar algum contexto. Clinton era presidente dos EUA e sobrevivera a um julgamento de impeachment após escândalo sexual com a estagiária Monica Lewinsky. Já na fase final do processo, ele e Blair lançaram ataques contra o Iraque sob pretexto de destruir armas de destruição em massa.

Soa familiar? Mas a operação Raposa do Deserto foi fichinha perto do que Donald Trump está aprontando no Irã com a sua Fúria Épica. Não por acaso se trata de guerra contra outra potência petroleira em meio ao escândalo sexual de Jeffrey Epstein. Clinton, diante de Trump, passa por estadista.

Dois homens de terno posam em frente a tela com texto "Decoding the Book of Life: A Milestone for Humanity". Ambiente interno com parede clara ao fundo.
Craig Venter (à esq.), com o ex-presidente americano Bill Clinton, desenvolveu o método de sequenciamento de DNA mais rápido, apelidado 'shotgun' (cartucheira), para identificar genes - Joyce Naltchayan - 26.jun.00/AFP

Blair era premiê do Reino Unido e compareceu ao evento em 2000 por vídeo. Um coadjuvante, ainda que seu país tenha participado do sequenciamento oficial do acervo de DNA da espécie. Mas o grosso da verba de US$ 3 bilhões do Projeto Genoma Humano saiu da máquina estatal de pesquisa dos EUA, ali representada por Collins, do Centro Nacional de Pesquisa do Genoma Humano.

A cerimônia na Casa Branca foi solução de compromisso para declarar vencedoras duas iniciativas concorrentes, o programa oficial bilionário e a da empresa Celera Genomics de Venter, que ia vencer a corrida da soletração de 3 bilhões de letras de DNA na ordem correta para identificar genes. Ele havia desenvolvido um método de sequenciamento mais rápido, apelidado "shotgun" (cartucheira).

Solene na justificativa da despesa, Clinton profetizou: "Os filhos de nossos filhos só conhecerão o câncer como uma constelação de estrelas". Quase 26 anos depois, Venter morreu por complicações no tratamento de um tumor, aos 79. Não se sabe se seu filho, Christopher Emrys Rae Venter, tem filhos, mas, com 49 anos, poderia até contar com netos.

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O tempo não para, assim como tumores seguem seu caminho se não forem impedidos. Não tem cabimento, contudo, depreciar a importância científica da genômica, assim como seria fútil diminuir a contribuição tecnológica de Venter com a escopeta da Celera, fundada em 1992.

Naquele ano teve início outra corrida que, em 34 anos, produziu mais retórica e frustração. Assinou-se no Rio de Janeiro, na Eco-92, a Convenção da ONU sobre Mudança do Clima, que prescrevia remédio óbvio para deter a mais grave ameaça contra a saúde do planeta e de todas as espécies: interromper a emissão de CO2 pela queima de combustíveis fósseis.

Deu em nada, ou muito pouco, como evidenciou a COP30 em Belém. Dezenas de cúpulas do clima se mostraram incapazes até mesmo de traçar um itinerário para a transição energética, verdadeira bicicleta ergométrica em que não se sai do lugar.

Agora 57 países se reuniram em Santa Marta, na Colômbia, para pedalar uma alternativa. Os maiores poluidores, EUA, China, Rússia e Índia, sequer foram convidados ao "evento histórico", como estão dizendo. É a luz no fim do túnel, para o qual talvez não haja saída em tempo hábil, como não houve para Venter.


O paradoxo da Noruega, país que ganha bilhões com aumento do petróleo mas o consome cada vez menos, FSP

 Guillermo D. Olmo

BBC News Mundo

Noruega é considerada um dos países mais verdes do mundo.

As bicicletas são onipresentes nas suas cidades, 98% da sua eletricidade provém de fontes renováveis e nove em cada 10 carros novos vendidos em 2024 foram veículos elétricos.

A Noruega é também o país membro da Agência Internacional de Energia em que a eletricidade representa a maior proporção do consumo total de energia. E foi um dos primeiros a criar impostos sobre as emissões de carbono.

Mas, ao mesmo tempo, o país não deixa de aumentar sua produção de gás e petróleo e exportar massivamente os combustíveis fósseis contaminantes.

Duas mulheres caminham lado a lado empurrando bicicletas com cestas dianteiras contendo bolsas. Elas estão em calçadão de pedra com pessoas ao fundo e árvores nas laterais.
A Noruega produz e exporta petróleo e gás, mas seu consumo interno é baseado principalmente na energia limpa - Getty Images

Esses recursos representam a maior fonte de receita do Estado norueguês e formam o pilar do famoso fundo soberano, o chamado "Fundo do Petróleo", que garante a solvência do generoso sistema de aposentadorias e bem-estar do país.

Essa contradição entre a descarbonização interna e seu papel como grande exportador global de combustíveis fósseis é conhecida como "paradoxo norueguês" e gera, há anos, um intenso debate político e social.

De um lado, grupos ambientalistas e jovens ativistas exigem compromissos concretos e um calendário para reduzir a atividade petrolífera. Do outro, o setor do petróleo e gás defende sua importância para a economia e as centenas de milhares de empregos gerados por ele.

A guerra no Oriente Médio e o aumento dos preços globais do petróleo e gás causado pelo bloqueio do estratégico Estreito de Ormuz geraram enormes e inesperados benefícios para a Noruega, mas também reabriram um dos seus debates internos mais incômodos.

"Para um ambientalista norueguês como eu, é claro que essa é uma situação vergonhosa", declarou à BBC News Mundo (o serviço em espanhol da BBC) o presidente da associação ecologista Amigos da Terra Noruega, Truls Gulowsen.

IMPORTÂNCIA ESTRATÉGICA

A Noruega é um dos países mais desenvolvidos do mundo, segundo o Índice de Desenvolvimento Humano das Nações Unidas. E o setor de energia é a sua principal fonte de riqueza.

As exportações do setor representam mais de 60% do total dos produtos vendidos para o exterior e somam mais de 20% do Produto Interno Bruto (PIB) nacional.

O Estado mantém participação majoritária no conglomerado Equinor, o principal operador da plataforma continental norueguesa, e destina a maior parte dos seus benefícios ao fundo soberano.

No final de 2025, o fundo contava com ativos no valor estimado de US$ 1,9 trilhão (cerca de R$ 9,4 trilhões), o equivalente a US$ 350 mil (R$ 1,7 milhão) por cidadão do país.

Bandeira da Noruega tremula em primeiro plano à esquerda, com plataforma de petróleo flutuante no mar ao centro. Montanhas e casas pequenas compõem o fundo sob céu claro.
As exportações de petróleo e gás desempenham papel fundamental na economia da próspera Noruega - Kristian Helgesen via Getty Images

No contexto atual de 2026, as tensões no Oriente Médio indicam que esses números continuarão aumentando.

O Estado norueguês recebeu US$ 5 bilhões (cerca de R$ 24,7 bilhões) a mais desde o início da guerra dos Estados Unidos e Israel contra o Irã. E a Bolsa de Valores da capital norueguesa, Oslo, bateu recordes graças às companhias locais do setor de energia.

O governo trabalhista tentou neutralizar a ideia de que o país que concede o Prêmio Nobel da Paz vem enriquecendo com os transtornos da guerra.

O ministro das Finanças norueguês e ex-secretário-geral da Otan, Jens Stoltenberg, destacou que esse é um paradoxo, já que a Noruega "se beneficia mais da paz".

Mas, como afirmou a colunista da rede pública norueguesa de rádio e televisão NRK, Cecilie Langum Becker, "a dura realidade é que, quando o mundo está em chamas, o dinheiro flui para o nosso orçamento estatal".

Essa dinâmica já havia ficado clara em 2022, quando a invasão da Ucrânia pela Rússia reduziu drasticamente as exportações de Moscou para a Europa. Desde então, a Noruega surgiu como o último fornecedor confiável de um continente assolado pela crise energética.

"Fornecemos, hoje, cerca de 30% do gás e 15% do petróleo que é consumido na Europa, para onde enviamos 90% das nossas exportações", explica à BBC a analista Thina Saltvedt, da empresa financeira Nordea.

Quinze manifestantes seguram placas vermelhas com letras pretas formando a frase 'END OIL NOW!'. Alguns estão sentados e outros deitados em faixa de pedestres, bloqueando a rua em dia claro.
O debate sobre as exportações de combustíveis fósseis está presente na Noruega há anos - Paul S. Amundsen via Getty Images

A DESCARBONIZAÇÃO

Apesar das suas jazidas petrolíferas, a Noruega possui, há décadas, uma das infraestruturas mais limpas da Europa, graças à sua rede hidrelétrica.

Em 1991, o governo norueguês criou um imposto ao carbono, para promover a energia limpa. Em 2005, incentivos transformaram o país no líder mundial em carros elétricos. E, em 2017, o Parlamento da Noruega aprovou a Lei do Clima, para reduzir as emissões em 50% até 2030.

Mas o atual contexto internacional parece ter freado esta tendência.

Os conflitos na Ucrânia e no Irã obrigaram até mesmo os partidos mais "verdes" a aceitar que o gás norueguês é um "mal necessário" para a segurança energética da Europa.

Para Gulowsen, a narrativa dominante, agora, é que a instabilidade global justifica a aposta nos hidrocarbonetos.

"Fala-se em abrir áreas em águas profundas do Ártico, que são ambientes vulneráveis onde não deveria haver exploração, em nenhuma hipótese."

Homem com colete de segurança amarelo e capacete está em plataforma metálica sobre o mar, olhando para o horizonte sob céu nublado.
O governo norueguês quer continuar desenvolvendo a indústria petrolífera e aprovou novas licenças de exploração - Chris Ratcliffe via Getty Images

O QUE ACONTECERÁ AGORA?

O governo do primeiro-ministro norueguês, Jonas Gahr Støre, ofereceu recentemente 57 novas licenças de exploração.

"Continuaremos buscando mais petróleo para fornecer à Europa, prometeu Støre. Ele aposta no "desenvolvimento" da indústria, em vez de estabelecer "fases de saída".

Apesar da pressão dos setores mais jovens do seu partido, Støre não tem intenção de defender um calendário de abandono. Pelo contrário, ele aposta na zona menos explorada do país (o mar de Barents) para compensar a queda das jazidas atuais.

Frode Alfheim, do sindicato Industri Energi, relembrou à BBC News Mundo a importância social do setor.

"Estamos falando de mais de 200 mil postos de trabalho diretos", destaca ele. "Não é o momento de deixar a Europa sem fornecimento."

Já Saltvedt conclui com uma advertência.

"Cada vez mais pessoas se dão conta de que há um pôr do sol no horizonte. Mas será doloroso."

Indicação de Messias foi ponto alto da onipotência petista, e saltos altos quebraram, Elio Gaspari, FSP

 A indicação de Jorge Messias para o Supremo Tribunal Federal foi o ponto alto da onipotência petista durante o Lula 3.0. Sua rejeição marcou o momento em que o salto alto do comissariado quebrou-se. No dia seguinte, com a derrubada do veto da dosimetria, quebrou-se o salto do Supremo Tribunal.

Quebrar o salto é uma coisa, andar sem ele é quase impossível. A melhor solução é descalçar o outro pé.

Se Lula tivesse indicado Rodrigo Pacheco nada disso teria acontecido. Ele teria sido aprovado, Lula e Davi Alcolumbre estariam felizes e ninguém estaria triste. Tudo bem, mas se Matisse tivesse embarcado para o Brasil em 1940, os museus teriam as Mulatas do Matisse.

Homem de terno escuro e gravata azul fala em microfone diante de fundo com padrão geométrico em tons neutros.
Jorge Messias durante sabatina na CCJ (Comissão de Constituição e Justiça) do Senado Federal - Gabriela Biló - 29.abr.26/Folhapress

Messias foi produto do consenso do Palácio, coisa perigosa, porque quase sempre esse apreço nada tem a ver com a vida lá fora. Em outubro do ano passado, logo depois da aposentadoria do ministro Luís Roberto Barroso, Messias já estava em campanha. Seria o jogo jogado se Lula não tivesse adicionado desaforos desnecessários.

Preterido Rodrigo Pacheco, Lula mostrou sua preferência por Messias, mesmo sabendo da contrariedade de Alcolumbre e do seu séquito. Ele sabia desde dezembro que o advogado-geral da União poderia ser rejeitado. Então, como hoje, restava-lhe o consolo de chorar baixinho.

Desde dezembro o governo vive assombrado por maus indicadores nas pesquisas, prenúncio de dificuldades com o Congresso.

Numa trapaça da sorte, Messias foi rejeitado numa quarta-feira e, no dia seguinte, o Congresso derrubou o veto de Lula ao refresco dado aos condenados pela trama golpista de 2022/2023. Deu-se a confirmação de um momento de pessimismo do general Golbery do Couto e Silva (1911-1987), bruxo do ocaso da ditadura:

– Toda vitória carrega no seu bojo uma derrota, e toda derrota traz consigo outra derrota.

A derrota de Messias foi uma derrota do governo, e a queda do veto ao refresco dos golpistas foi uma derrota da onipotência do Supremo Tribunal. Os ministros, alguns dos quais calçam saltos do tipo stiletto, mais altos que os dos comissários, distribuíram penas pesadas para desordeiros do 8 de Janeiro.

Basta relembrar o julgamento da cabeleireira Débora Rodrigues pela Segunda Turma do STF. Ela escreveu, com batom, "Perdeu, Mané" na estátua da Justiça da praça dos Três Poderes.

Alexandre de MoraesCármen Lúcia e Flávio Dino condenaram-na a 14 anos. Cristiano Zanin deu-lhe 11 anos. A voz da sensatez veio de Luiz Fux, que ficou com uma pena de um ano e seis meses.

Débora acabou cumprindo a sentença em casa.

Essa barafunda de rigor e leniência reflete o caos jurídico alimentado pelo tribunal. Quando se trata de uma senhora, mãe de dois filhos, a questão soa simples. A complexidade da coisa muda quando o STF anula multas milionárias e confissões de empreiteiros, moendo alguns resultados da Lava Jato.

Condenando-se a cabeleireira a 14 anos embaralharam-se as condenações, e na charanga da dosimetria acabaram tomando carona o ex-presidente Jair Bolsonaro e os generais da trama golpista. O rigor da onipotência pavimentou o terreno para a leniência.

(Vale lembrar que em janeiro de 1970, quando a ditadura vivia seu período sangrento, um tribunal militar condenou a oito anos de prisão oito dos sequestradores do embaixador americano Charles Elbrick.)

Conta de Alcolumbre

Ouvido do senador Davi Alcolumbre no início da tarde de quarta-feira:

– Segure seus 30 votos que eu tenho 15.

Messias foi rejeitado por 42 senadores.

A mágica de burocratas, e a fila do INSS

Depois de muitas promessas descumpridas, o governo finalmente descobriu uma maneira de reduzir a fila dos segurados do INSS.

Pelo sistema atual, se um cidadão está na fila à espera de três decisões, contam-se três pedidos. Assim, a fila está em cerca de 2,5 milhões de processos.

Com a mudança, a conta poderá vir a ser feita a partir do CPF do segurado. Se ele tem três processos, contará como um só solicitante.

Mágica de burocratas, até porque se ela reduzir a fila à metade, suas vítimas continuarão na casa do milhão.

A imagem mostra a entrada de um edifício com a sigla 'INSS' em destaque. O fundo é desfocado, mas é possível ver uma placa acima da entrada com o texto 'Instituto Nacional do Seguro Social'. A porta é de madeira e possui detalhes arquitetônicos.
Vista da fachada da Superintendência Regional do INSS, no centro de São Paulo - Rafaela Araújo - 8.jul.25/Folhapress

Custos médicos nos EUA

O sistema de saúde dos Estados Unidos está bichado. Viva o SUS.

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O New York Times mostrou que um médico com bases em Nova York e na Flórida anunciou procedimentos de redução dos seios por até 25 mil dólares, mas, valendo-se de buracos nas normas, chegou a cobrar 440 mil dólares pelo serviço.

Poderia ser um ponto fora da curva, mas uma cirurgia de apendicite numa criança, sem qualquer intercorrência e menos de 24 horas de internação, custou 115 mil dólares.

Nos dois casos, quem paga é o plano de saúde.

Lorota sobre o Irã

Um raio pode cair duas vezes no mesmo lugar. Em janeiro, o chefe do serviço secreto de Israel disse em Washington que na hipótese de uma guerra com os Estados Unidos, a oposição aos aiatolás derrubaria o regime.

A guerra vai para seu terceiro mês e o levante popular não se materializou.

A Casa Branca gosta de ouvir o que lhe agrada. No dia 19 de abril de 1975, o presidente de Zâmbia, Kenneth Kaunda, foi a Washington e se reuniu com o presidente Gerald Ford.

Kaunda disse-lhe que a situação de Angola estava encrencada e seus vizinhos, Zâmbia, Zaire, Tanzânia e Moçambique não aceitariam um governo do MPLA. Ford e Henry Kissinger acreditaram e se meteram no melê angolano.

O Movimento Popular de Libertação de Angola expulsou as facções rivais de Luanda, arrastou as fichas, e em novembro tomou o poder. Está lá até hoje.