segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

A democracia americana é capaz de conter Trump?, Joel Pinheiro da Fonseca- FSP

 Quem diria que a independência do Banco Central morreria antes nos EUA do que no Brasil. Ainda é cedo para declarar o óbito, mas o vídeo do presidente do Fed Jerome Powell acusando as manobras jurídicas do governo Trump para persegui-lo é mais um passo preocupante nessa direção.

Os passos se sucedem. Além da pressão para que o Fed reduza a taxa básica de juros, temos ainda as seguintes medidas econômicas anunciadas por Trump: limite de 10% ao ano aos juros do cartão de crédito, limitações à compra de imóveis residenciais por grandes empresas, promessa de cheques de US$ 2.000 a cidadãos para estimular a demanda, ordenou que agências de crédito comprem US$ 200 bi de ativos lastreados em hipotecas para baratear o acesso a moradia. Um receituário perfeito para bagunçar ainda mais a economia, que já começa a sentir os efeitos do tarifaço.

Donald Trump, de terno preto e gravata vermelha, aponta com a mão direita enquanto conversa com Elon Musk, vestido de preto com colar, em sala com estante de livros e bandeira ao fundo.
O presidente Donald Trump, na Casa Branca - Roberto Schmidt - 14.mar.25/AFP

Trump não só capturou Maduro como importou também as ideias do ex-ditador. E o mais preocupante não está nem na economia. Enquanto leva adiante sua guinada heterodoxa na economia, a polícia imigratória, que conta com financiamento vitaminado em 2026, mata cidadãos na rua e vai se tornando uma espécie de milícia pessoal do presidente da República, defendida efusivamente pelo regime.

No plano global, Trump estraçalha qualquer ilusão de uma ordem internacional baseada em regras. É verdade que governos anteriores também descartaram o direito internacional quando lhes foi conveniente; por exemplo, na invasão ao Iraque. Diferentemente da invasão do Iraque, contudo, a intervenção na Venezuela não foi discutida previamente no Congresso americano, não buscou aprovação na ONU e não formou uma coalizão com outros países democráticos.

E agora novas intervenções se apresentam em Cuba e no Irã, talvez no México. Tudo isso parece de pouca monta quando consideramos a possibilidade da anexação da Groenlândia contra a vontade da Dinamarca. Se invadir —ou mesmo se forçar a Dinamarca a vender— a Groenlândia, é o fim da Otan e a da aliança militar que definiu a defesa do mundo democrático nos últimos 80 anos.

O mundo parece estar em rápida transição. Não sabemos para o quê, mas está claro que não é para um mundo mais estável, democrático e pacífico.

Trump jamais poderia fazer isso sozinho. Se ele tem esse poder é porque uma fatia da sociedade está com ele. E não poderá levar o terremoto adiante sem passar pelas eleições do Congresso neste ano, que prometem ser decisivas.

Se, refletindo a queda de popularidade de Trump, os democratas retomarem o controle do Congresso, isso imporá limites claros ao presidente e deve marcar o início da derrocada do governo. As eleições pontuais de 2025 deram algum fôlego à oposição. A democracia é assim: entre trancos e barrancos o povo vai testando e aprendendo.

Se, ao contrário, os republicanos conquistarem as duas Casas, Trump não sairá apenas fortalecido, mas legitimado. Atacou o Banco Central, dobrou o Congresso, desmoralizou alianças históricas, promoveu o caos econômico, alimentou a violência de sua guarda pretoriana, levou a corrupção a novos patamares e usou da força sem pudor em nome da ambição nua e crua; e, mesmo assim, é aclamado por uma maioria do povo. Nesse caso, o que vimos até agora e o que veremos até outubro terá sido apenas o começo…

Aquela São Paulo (14/8/2001), Marcelo Rubens Paiva FSP (105)

 Aquela São Paulo (14/8/2001)

São Paulo era uma cidade fria e calada, como uma sóbria senhora conservadora. A cidade era úmida. O sol demorava para atravessar a névoa matinal.

Seus ônibus eram azul-marinho e branco. Tinham listras, como um pijama. Os motoristas usavam camisas azuis, calças azuis, tom sobre tom. Eram polidos, paravam no ponto e não tinham pressa. Eram funcionários públicos, com estabilidade. Entrava-se num ônibus por trás. E eles demoravam a chegar...

Durante o dia, havia muita vida na rua. As babás tinham uniforme. Nós nos encontrávamos nas praças. O sorveteiro tocava corneta. Havia algodão-doce e carroceiros que vendiam melancia e abacaxi. A carrocinha, nossa inimiga, catava cachorros inocentes.

Havia um avião na praça 14 Bis, uma árvore na praça da Árvore, uma grande paineira na Eusébio Matoso que recepcionava quem vinha do sul. Na estrada para Santos, depois da fábrica da Volks, não havia nada além de mata.

São Paulo ficava deserta à noite. Deserta ficava também aos fins de semana, quando todos desciam para o litoral, congestionando suas pensões e ruas, desfilando na orla.

Havia muitas árvores em São Paulo. O padeiro deixava o leite na porta e o pão na janela.

As casas tinham quintais. Na minha, havia uma jabuticabeira. Na da tia Renê, na rua da Consolação, havia um cafeeiro, cujo fruto é doce. Havia muitas casas com cerquinha de madeira branca. Os Gasparian moravam numa delas. A Danda Prado também. Era muito chique morar na avenida Brasil. A gente brincava na sua calçada.

Os táxis eram carros americanos, pretos e grandes. Nós nos sentávamos no banco de trás, em que havia uma cordinha para nos apoiarmos durante a corrida. Os motoristas eram descendentes de espanhóis ou de portugueses. Tinham sotaque, luvas e camisas brancas engomadas.

São Paulo era uma grande classe média. Os pais tinham Simca ou Aero-Willys. As mães tinham DKW. As tias mais avançadas dirigiam Karmann-Ghia vermelho. Os tios balofos e engraçados quase não cabiam em suas Romisetas. No Natal, todos iam ver a decoração da rua Augusta. Num deles, acarpetaram-na. Lá se compravam sapatos.

Eu me lembro da primeira lanchonete. Era estranho o cardápio, com palavras novas, como sundae, milk-shake e hambúrguer.

Os cinemas eram enormes. Havia sempre alguém com uma lanterna para orientar a platéia. Vendiam-se pirulitos em forma de cone enfiados num tabuleiro. Havia dois programas imperdíveis, o Salão do Automóvel e o Salão das Crianças, ambos no Anhembi. Ganhavam-se muitos brindes.

O Alto de Pinheiros era um matagal. Eu me perdi lá uma vez, porque fui atrás de um sorveteiro, e chorei muito. Caio Graco me chamava de "sorvete" por causa disso. Uma vez, fugi de casa com uma irmã e armei a minha cabana de índio na praça. Ninguém atrapalhou a minha primeira aventura.

Meus avós moravam na avenida São Luís. Brinquei muito na praça da República com a minha irmã menor. Não havia favelas em São Paulo. Os operários moravam em casinhas de tijolos. Os muito pobres moravam em cortiços. Os Matarazzo eram os mais ricos da cidade. Moravam na Paulista.

No Pacaembu, Pelé era o maior ídolo. As torcidas se misturavam. Não se via polícia no estádio. Espere. Isso não faz mil anos. Eu tenho só 42. O que deu errado?

Enrolado com o Master, Cláudio Castro foge do Palácio Guanabara, Alvaro Costa e Silva -FSP

 Cláudio Castro fez três pedidos ao gênio da lâmpada. A urgência é escapar da condenação por abuso de poder político e econômico nas eleições de 2022. A ação no TSE teve início em novembro, dias depois da chacina nos complexos do Alemão e da Penha. A relatora Isabel Gallotti votou pela cassação e inelegibilidade. O ministro Antônio Carlos Ferreira pediu vista, e a expectativa é que o processo seja retomado em fevereiro.

O segundo desejo depende do primeiro, pois Castro recebeu a ordem de se candidatar ao Senado, ordem dada por Bolsonaro. As especulações eram que ele deixaria o governo após o Carnaval. No entanto, o presidente do Tribunal de Justiça, desembargador Ricardo Couto —o primeiro na linha sucessória—, foi comunicado da permanência no cargo até 5 de abril, prazo limite fixado pela legislação eleitoral.

A jogada é fazer do chefe da Casa Civil, Nicola Miccione, um governador-tampão em uma possível eleição indireta na Assembleia Legislativa. A escolha de Miccione —que se filiou ao PL, mas não agrada os bolsonaristas— reforça a aliança de Castro com Eduardo Paes, que, em sua candidatura ao governo do estado, enfrentaria um concorrente sem o comando da máquina. André Ceciliano, ex-presidente da Alerj, deve entrar no páreo pela interinidade, com apoio da esquerda.

O certo é que Castro tem pressa em deixar o Palácio Guanabara. Uma das razões é fugir da bomba prestes a explodir com o déficit orçamentário de R$ 18,9 bilhões. A outra envolve o Banco Master, que anda puxando a esfera política para um buraco negro. Estados e municípios serão responsáveis finais por cobrir rombos em fundos de previdência caso tenham prejuízos ligados ao Master. O Rioprevidência investiu R$ 970 milhões num curto espaço de tempo. Os aportes surgiram depois de o Tribunal de Contas do Estado do Rio ter alertado para graves irregularidades na relação da autarquia com o banco.

Mais complicado de todos, o terceiro desejo encomendado ao gênio interrompe uma tradição fluminense. Cláudio Castro pediu para não ser preso.