sábado, 7 de março de 2026

Suzana Herculano-Houzel - Mente Deixem a Tatiana trabalhar em paz, FSP

 Minha colega Tatiana Sampaio, que agora dispensa introduções, está sendo alvo indevido de fritura. Não faltam opiniões dentro e fora das mídias sociais de gente supostamente educada, inclusive neste jornal, falando do que não entende e desacreditando uma das coisas mais sensacionais que já aconteceu na ciência brasileira, que é a descoberta por Tatiana de uma substância, a polilaminina, que facilita drasticamente a recuperação após lesões medulares quando injetada diretamente, e logo, no local.

O alvoroço sobre o qual os cientistas de poltrona se acham no direito de opinar foi causado por Tatiana responder a uma jornalista, no programa Roda Viva, que ela não acharia nem ético nem necessário fazer "experimentos controle" para testar a eficácia da polilaminina como tratamento para a recuperação após lesões medulares. Antes de você também dar sua opinião, vamos aos fatos.

Mulher de cabelos castanhos claros e lisos, olhando para a esquerda, com expressão neutra. Fundo preto uniforme destaca seu rosto iluminado de perfil.
A pesquisadora Tatiana Sampaio - Zanone Fraissat - 9.set.25/Folhapress

Primeiro, sobre segurança: os primeiros estudos concluídos indicam que a injeção de polilaminina é segura em cães, ratos e humanos. É claro que serão precisos centenas de pacientes humanos para dizer isso com absoluta certeza. Como chegar lá? Injetando polilaminina na medula de pacientes humanos, oras.

Enquanto isso, saiba que, dependendo do estudo, até 40% dos pacientes que sofrem lesões da medula espinal morrem nos primeiros anos após a lesão, e em um estudo brasileiro, 26% dos pacientes com lesão cervical –ou seja, no pescoço– morreram ainda no hospital. Mortalidade elevada é esperada: estamos tratando de pessoas que sobreviveram a acidentes graves.

Segundo, sobre o "grupo controle": o tal "controle" para a eficácia da injeção de polilaminina é injetar na medula lesionada literalmente qualquer outra coisa que sabidamente não funcione. Se nada for injetado, menos de 15% dos pacientes têm alguma recuperação espontânea. A literatura mostra que, até hoje, entre 0 e irrisórios 16% dos pacientes injetados com outras substâncias experimentais ou que apenas recebem cirurgia para descompressão têm recuperação de função motora. Ou seja: esses tratamentos não funcionam.

Em comparação, outro fato: até o momento, 100% dos pacientes no estudo piloto, mais os muitos que já receberam autorização para tratamento compassivo com polilaminina, tiveram recuperação motora. Deixe-me dizer de outra forma: TODOS os pacientes que receberam polilaminina e não morreram de outras causas tiveram recuperação de movimentos.

Tatiana e equipe não precisam fazer mais controles injetando salina em pacientes, pois inúmeros controles já foram realizados: são todos os outros pacientes que não receberam polilaminina até hoje. Fazer novos "controles" para a polilaminina significaria injetar aguinha na medula de pacientes recém-acidentados e cheios de esperança só para coletar estatísticas negativas para satisfazer público, revisores, controladores e maledicentes. Isso, sim, seria antiético. Pior: seria uma grande sacanagem quando se tem uma alternativa disponível. Os cientistas de poltrona precisam se colocar no lugar desses pacientes antes de abrirem a boca.

Lanço aqui minha campanha pelo uso inteligente dos dados das pessoas corajosas e esperançosas que pedem e recebem autorização para uso compassivo da polilaminina. Não é campanha para a Anvisa liberar a polilaminina agora já; é campanha para deixar a cientista trabalhar em paz.

Referências

Chize CM, Vivas DG, Menezes K, Freire MN, Jiddu RFP, Graça-Souza AV, de Souza-Leite E, Louzada P, Coelho-Sampaio T (2025). A laminin-based therapy for dogs with chronic spinal cord injury: promising results of a longitudinal trial. Front Vet Sci 12, 1592687.

Menezes K et al. (2024). Return of voluntary motor contraction after complete spinal cord injury: A pilot human study on polylaminin. MedRxiv 2024.02.19.24301010

Neumann CR, Brasil AV, Albers F (2009). Risk factors for mortality in traumatic cervical spinal cord injury: Brazilian data. J Trauma 67, 67-70.

sexta-feira, 6 de março de 2026

Oscar Vilhena Vieira - Supremo em suprema encruzilhada aos 135 anos, FSP

 Ao completar 135 anos, o Supremo Tribunal Federal vive uma das mais graves crises de sua história.

Desde sua instalação, em 28 de fevereiro de 1891, as crises da República reverberam e se projetam sobre o Supremo. Responsável pela guarda da Constituição, num país marcado por sucessivas rupturas e por uma cultura política avessa ao governo das leis, não foram poucas as circunstâncias em que o Supremo teve sua autoridade afrontada, suas prerrogativas esvaziadas e seus membros ameaçados ou mesmo afastados de suas funções.

Floriano Peixoto, nos primeiros anos da República, descumpriu inúmeras decisões do Supremo que ousaram assegurar direitos a dissidentes. Indignado com a emergente independência do novo tribunal, teria advertido: se continuarem concedendo habeas corpus aos meus adversários, não sei quem amanhã concederá habeas corpus aos ministros do Supremo.

Getúlio Vargas foi ainda mais inclemente. Após tomar o poder, em 1930, aposentou nada menos que seis ministros do Supremo, de uma só penada, não deixando dúvidas sobre sua aversão ao regime constitucional. Com a instalação do Estado Novo, o Supremo teve suas prerrogativas e competências esvaziadas pela Carta autoritária de 1937.

Estátua da Justiça em pedra branca sentada com olhos vendados e segurando uma espada, em frente ao edifício moderno do Supremo Tribunal Federal, sob céu azul com poucas nuvens.
Escultura da Justiça em frente à sede do Supremo Tribunal Federal - Adriano Machado/Reuters

Os militares seguiram a mesma cartilha após o golpe de 1964. O AI-1 excluiu da apreciação do Judiciário as ações praticadas em nome do regime de exceção. O AI-2 ampliou de 11 para 16 o número de ministros, buscando domesticar o Supremo. Como isso não ocorreu, os ministros Victor Nunes Leal, Evandro Lins e Silva e Hermes Lima foram aposentados à força pelo AI-5.

A tensão entre civis e militares foi reacendida em 2018 pelo tuíte do general Villas Bôas, então comandante do Exército, ameaçando o Supremo caso concedesse habeas corpus ao presidente Lula, impedido de concorrer à eleição. Essa tensão recrudesceu durante o governo Bolsonaro, que incitou seus apoiadores contra o tribunal, o que culminou com o ataque à sede do Supremo em 8 de janeiro de 2023.

Daquela vez, no entanto, a ordem constitucional não foi rompida e os que atentaram contra a democracia foram pela primeira vez responsabilizados por seus atos.

O que distingue a presente encruzilhada das anteriores é sua dimensão interna.

Além de fatores externos que têm contribuído para pressionar o Supremo, como os ataques oriundos de setores hostis à democracia; de um contexto global de autocratização, que faz das cortes constitucionais alvos a serem dizimados; do protagonismo adquirido pelo em decorrência do modelo constitucional adotado pela Constituição de 1988; há uma série de distorções que são de responsabilidade do próprio Supremo.

A exacerbação de medidas monocráticas, a incapacidade de estabilizar sua jurisprudência e o abandono da liturgia e dos limites inerentes ao cargo por parte de alguns ministros foram deixando o tribunal mais vulnerável. A expansão de sua jurisdição, em detrimento das demais instâncias judiciárias, pela disposição de coordenar grandes processos de conciliação de interesses, transformaram o Supremo no centro da arena política brasileira, afastando-o de sua missão precípua de guarda da Constituição.

Crise designa um momento decisivo, uma encruzilhada em que a própria sobrevivência do corpo ou do sistema se encontra ameaçada.

Dada a natureza desta crise, caberá, sobretudo ao próprio Supremo, tentar resgatar sua autoridade, sob o risco de ver suas prerrogativas e competências mais uma vez suprimidas.

Quando a corrupção é mais cara que competir no mercado, Deborah Bizarria - FSP

 O material divulgado nas investigações sobre Daniel Vorcaro e o Banco Master revela um volume surpreendente de mensagens entre advogados, consultores, operadores políticos e interlocutores institucionais. Um sistema que parece funcionar por meio de pagamentos e da mobilização contínua de recursos. O que me chama a atenção é quanto custa sustentar essa arquitetura de influência.

Contratos públicos conduzidos com maior discricionariedade administrativa apresentam preços mais altos, atraem menos concorrentes e selecionam fornecedores menos produtivos. Ferenc Szucs documentou esse padrão na Hungria após uma reforma que autorizou procedimentos mais discricionários para contratos abaixo de determinado valor, permitindo às autoridades evitar leilões abertos e convidar diretamente um pequeno número de empresas. A ampliação dessa discricionariedade reduziu a produtividade média dos contratados em cerca de 6% em relação ao nível considerado eficiente. As empresas vencedoras são mensuravelmente piores no que fazem, mas politicamente conectadas.

Fachada de vidro de agência do Banco Master com logo azul e branco e nome em letras metálicas fixadas na parede externa.
Logo do Master na fachada da sede do banco, em São Paulo - Rafaela Araújo - 29.dez.25/Folhapress

Empresas brasileiras expostas a auditorias aleatórias da Controladoria-Geral da União perderam acesso a contratos públicos, mas passaram a crescer mais rapidamente em termos de emprego nos anos seguintes. Emanuele Colonnelli e colegas mostram que a probabilidade de estas firmas obterem contratos federais cai substancialmente após a auditoria e o valor desses contratos diminui. Mesmo assim, muitas ampliam seu quadro de funcionários e investem mais.

A interpretação dos autores é de que parte dessas empresas estava presa a um modelo de negócios baseado em conexões políticas. Quando esse canal foi interrompido, as companhias precisaram se reorganizar e competir no mercado privado. Recursos que poderiam ir para expansão, treinamento ou tecnologia acabavam sendo direcionados à construção de relações políticas.

Apoiar o partido vencedor em eleições municipais aumenta em 10,5 pontos percentuais a probabilidade de conseguir emprego público, quase metade a mais do que a dos apoiadores do partido derrotado. Colonnelli, Prem e Teso documentaram esse resultado ao combinar dados administrativos de emprego público no Brasil com informações sobre doadores de campanha, explorando eleições decididas por margens extremamente estreitas. Os contratados por conexão política são, em média, menos qualificados quanto à educação formal e ao histórico salarial no setor privado.

Quando esses mecanismos operam juntos, emerge um sistema que consome recursos na própria manutenção. Intermediários precisam ser remunerados, redes de proteção mantidas e reputação pública gerenciada. Podemos, inclusive, chamar esse processo de rent seeking: recursos gastos não para produzir riqueza, mas para disputar um acesso privilegiado a ela.

Quanto mais complexa a rede de influência, mais cara ela se torna. Surge, então, um paradoxo: em alguns contextos, operar nesse arranjo pode se tornar mais caro e menos eficiente do que competir em um mercado aberto. As empresas brasileiras expostas pelas auditorias da CGU cresceram justamente depois de perder acesso aos contratos públicos, quando foram forçadas a adotar um modelo menos custoso.

Há situações em que o próprio sistema corrupto se torna tão ineficiente que destrói os ganhos que prometia gerar. Empresas, políticos e intermediários investem enormes recursos num arranjo que pode estar deixando todos pior do que estariam numa economia mais competitiva e menos corrupta.