terça-feira, 14 de abril de 2026

Beto Louco concorda em pagar R$ 1 bi para fechar delação em São Paulo, FSp

 Mônica Bergamo

O empresário Roberto Leme, conhecido como "Beto Louco", concordou em pagar R$ 1 bilhão em impostos devidos ao Estado de SP caso o acordo de delação premiada que propôs oficialmente ao MPSP (Ministério Público de São Paulo) seja aceito pelos promotores que comandam as investigações contra ele.

CAIXA CHEIO

Nos anexos já entregues ao MPSP, em que são rascunhados os termos da colaboração, ele se propôs a revelar inclusive a participação de servidores e magistrados do Estado no esquema bilionário de fraudes fiscais, sonegação e lavagem de dinheiro descobertos pela megaoperação Carbono Oculto no ano passado.

Homem de pele clara com barba cheia e cabelo curto penteado para trás. Veste camisa xadrez sob jaqueta escura, com fundo branco neutro.
Roberto Augusto Leme da Silva, o "Beto Louco" - Reprodução Polícia Civil

SOMA

Além da revelação, ele desembolsaria o dinheiro para pagar o que sonegou com as fraudes investigadas. Procurado, o advogado Guilherme San Juan, que representa o empresário, não se manifestou.

DIVISÃO

A proposta de colaboração de "Beto Louco" rachou o Ministério Público. A coluna apurou que promotores do interior do Estado se posicionam contra o acordo, e querem que ele seja vetado ainda nesta semana.

MARTELO

A expectativa é que o atual procurador-geral de Justiça (PGJ) do estado de São PauloPaulo Sérgio de Oliveira e Costa, bata o martelo sobre o assunto.

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DE PERTO

Oliveira e Costa deve ser reconduzido nesta semana ao cargo pelo governador de SP, Tarcísio de Freitas (Republicanos), depois de vencer as eleições internas do Ministério Público, realizadas no sábado (11).

DE LONGE

"Beto Louco", que tentou também negociar delação premiada na PGR (Procuradoria-Geral da República), sem sucesso, está foragido desde que teve a prisão decretada.

DE LONGE 2

Mesmo à distância, ele passou as últimas semanas, de domingo a domingo, segundo disse a interlocutores, conversando com seus advogados no Brasil para preparar os anexos.

O PROMOTOR DE JUSTIÇA E A DÚVIDA HAMLETIANA, por José Benjamim de Lima, in site APMP


José Benjamim de Lima



“Como as coisas andam fora dos eixos! Ó

tarefa de irritar ter eu nascido para pô-las no

lugar.” (Hamlet)



Nas reuniões semestrais dos promotores de justiça substitutos, um

dos ilustres Corregedores-Gerais da época em que ingressei na

carreira costumava dizer que promotor não pode ter dúvidas, tem

de ser decidido e firme. – Promotor de Justiça indeciso não é

promotor - dizia ele.

Recém-formado em Direito, e sem qualquer experiência

profissional na área jurídica, o que mais tinha eram dúvidas, de

forma que ouvia um pouco constrangido (e calado) as preleções do

ilustre Procurador de Justiça.

Vinham-me à cabeça, em franca colisão, a advertência do

Purgatório de Dante - “Quem em ideias múltiplas cogita, // sempre

a hesitar, perturba-se na ação, // pois que uma na outra a força

debilita.” - e os versos da Tabacaria de Fernando Pessoa: “Em

todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas! // Eu,

que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?”.

O que fazer? É claro que o Corregedor estava preocupado com a

eficiência de seus pupilos; e seu discurso, estrategicamente

exagerado, buscava formar nos recém-ingressos na carreira uma

mentalidade combativa.

Independentemente de minhas dúvidas de início de carreira, tive

sempre a convicção de que um certo grau de dúvida é bastante

saudável e conveniente em qualquer atividade humana, como

postura metódica. No caso do promotor de justiça ela o ajuda a

evitar sucumba a certas tentações que o rodeiam permanentemente,

entre elas a arrogância, o legalismo frio e burocrático, a atração

pela ribalta dos modismos culturais do momento, assim como a

absoluta indiferença em relação às conseqüências de sua atuação.

É atualmente muito grande o grau de jurisdicionalização da vida

social, com o Judiciário sendo a todo momento chamado a intervir

não só na vida privada das pessoas, mas também, ativamente, nos

outros Poderes da República, à feição de um verdadeiro cogestor

da coisa pública e privada (o que a vida social efetivamente ganha

– ou perde - com isso são outros quinhentos...).

E boa parte dessa intervenção se deve à atuação do Ministério

Público; daí que, neste contexto, um pouco de dúvida sempre se

mostrará saudável, como fator de cautela e homenagem à imensa

complexidade e plurissignificação dos problemas humanos. Isto

vale, especialmente, depois da Constituição Federal de 1988, que

ampliou enormemente as atribuições do Ministério Público,

possibilitando às vezes sua interferência potencial na vida de

indeterminado número de pessoas e na administração pública, por

meio das ações coletivas.

O Ministério Público e o Judiciário foram ungidos pelo constituinte

“guardiões das promessas” (a expressão é do juiz francês Antoine

Garapon, em outro contexto) da generosa Carta de 1988. Enquanto

tal, viram-se transformados, num passe de mágica legislativo-

constitucional, em presumíveis supridores das infinitas carências

de um país que ostenta escandalosas e degradantes taxas de

miséria, pobreza, injustiça, criminalidade, corrupção, desigualdade,

doença etc. etc., lado a lado com tantas riquezas, naturais e

humanas... - “Ó tarefa de irritar, ter nascido para colocá-las no

lugar!” (e, tantas vezes, frustrar as expectativas, acrescentaria

eu...).

Em tal contexto de crise e desafios evidentes, repito, um pouco de

dúvida sempre fará bem à saúde da Instituição e de seus membros.

A dúvida gera cuidados, equilíbrio, bom senso, modéstia. Inibe a

soberba, a arrogância, a hybris que sempre ronda todos aqueles que

detém alguma parcela de poder na vida coletiva. Refiro-me não

apenas à necessária, mas insuficiente, fria e objetiva dúvida

metódica cartesiana, que rejeita as verdades aparentes ou

preconcebidas e submete as convicções e opiniões a rigoroso

controle do raciocínio lógico. Penso mais na dimensão existencial

da dúvida. Que mal haverá em se cultivar um pouco da apaixonada

e angustiada dúvida hamletiana: ser ou não ser, eis a questão? Há

mais coisas entre o céu e a terra do que sonha a nossa vã filosofia...

Não se trata de deixar-se levar pela dúvida paralisante, que impede

a ação ou sua eficiência. Mas do fazer com humildade e sempre

com uma pontinha de descrença que ajude a coibir o excesso ou a

suprir a insuficiência. É importante que o Promotor de Justiça não

se deixe sucumbir pela confiança excessiva em seu próprio poder

de modificar as coisas para melhor e de acreditar que estará sempre

no caminho certo. Muitas vezes estará, conscientemente ou não,

ajudando a modificar as coisas para pior ou contribuindo para a

erosão de valores que pensa defender. Ou, então, colaborando

involuntariamente para confirmar a famosa frase de Tancredi ao

Príncipe Fabrizio, n’O Leopardo, de Giuseppe Tomasi di

Lampedusa: “Se quisermos que tudo permaneça como está, é

preciso que tudo mude”.

Numa avaliação talvez pessimista, um pouco hamletiana (que a

dúvida cartesiana bem poderia questionar), parece que os avanços

quanto às generosas promessas da Constituição de 1988, nos seus

quase 40 anos de vigência, foram bastante modestos. A sensação é

aquela da corrida de Alice:

“A Rainha encostou-a numa árvore e disse,

gentilmente:

- Você pode descansar um pouco agora.

Alice olhou ao redor, bastante surpresa.

- Ora, posso jurar que ficamos o tempo todo debaixo

desta árvore! Está tudo exatamente como era!

- Claro que está – disse a Rainha. – Como queria que

estivesse?

- Bem, em meu país – Alice respondeu, ainda meio

ofegante -, você geralmente chegaria a outro lugar... Se

corresse tão depressa e por tanto tempo como nós

fizemos.

- Um tipo de país bastante devagar! – disse a Rainha. –

Olhe, veja bem, aqui é preciso correr o máximo que

você conseguir, se quiser ficar onde está. Para ir a outro

lugar, tem de correr pelo menos duas vezes mais

depressa do que isso!” (Lewis Carroll, Alice através do

Espelho – destaques do original).

(limajb48@gmail.com)

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Café brasileiro vira matéria-prima para cookies, mel e cosméticos, FSP

 Marcelo Toledo

Belo Horizonte

café deixou de ser "só" uma bebida quente para o consumidor brasileiro. Primeiro, já há tempos, ele passou a ser consumido em diferentes formas de preparo e, mais recentemente, transformou-se em matéria-prima para a produção de cookies, mel e cosméticos.

Maior produtor mundial do grão, produtores rurais e empresários do país são motivados a buscar a diversificação do seu uso, o que ajuda a dar destinação à produção também em caso de intempéries econômicas, como o recente tarifaço aplicado —e depois retirado— pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

Imagem mostra cultivo de café em fazendas no Espírito Santo
Cultivo de café em fazendas no Espírito Santo - David Lucena-1.ago.23/Folhapress

Cookies feitos a partir da casca de cafés robustas amazônicos finos foram apresentados a visitantes da SIC (Semana Internacional do Café), em novembro, em Belo Horizonte, fruto de uma pesquisa conduzida pela engenheira de alimentos Lívia Lacerda de Oliveira, professora na UnB (Universidade de Brasília).

Lívia já trabalhava com café, mas disse ter sido instigada a usar a casca em seus estudos pelo pesquisador Enrique Alves, da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) Rondônia.

"Nunca tinha pensado, e a casca até então era resíduo. Em algumas pesquisas de literatura vi que faziam farinha, mas sempre usando quantidades muito ínfimas, 5%, 10%. O máximo que achei foi 15%, e a gente conseguiu atingir 30% de substituição da farinha de trigo, e sem nenhum aditivo", afirmou a engenheira. A patente do estudo foi registrada.

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Também foi apresentado um chá (infusão) a partir da casca, e méis obtidos em lavouras cafeeiras foram degustados.

"Estamos trabalhando no chá, que tem um perfil de diversidade sensorial gigante. Está em fase de desenvolvimento. Já é bastante utilizado em algumas cafeterias, bem nichado, mas agora a gente está estudando quimicamente, sensorialmente, vendo todos os critérios", disse o pesquisador da Embrapa.

Cafeicultoras observavam itens de beleza derivados da matéria-prima que produzem no campo, em meio a corredores repletos de produtores de cafés especiais, cerveja tendo o grão como destaque, e variadas opções de drinques a partir dele.

A farmacêutica e bioquímica Vanessa Vilela criou em 2007 a Kapeh, que tem produtos como perfumes com café em sua composição.

"Muito interessante ver que o café tem outras aplicações que não só a bebida, isso abre um leque grande para nós, que produzimos", disse a produtora Maria Oliveira, que cultiva café com marido e filho no sul de Minas.

Essa diversificação, na avaliação de Celírio Inácio da Silva, diretor-executivo da Abic (Associação Brasileira da Indústria de Café), é uma tendência que ganhou força nos últimos anos.

"Do café você aproveita tudo, tudo do café você pode comer. E o valor agregado do café é uma conta que todos fazem para qualquer produto. Se eu tenho um café que vai servir para fazer café gelado, para fazer cosméticos, para fazer shampoo, para fazer aromatizante, eu vou ter muito mais possibilidade de usar aquele café. O produtor pode dizer ‘vem cá, qual é o custo da saca [de determinada qualidade]? Se eu vender para uma indústria de cosméticos, terei maior valor agregado", disse.

O executivo citou como exemplo a China, país que tem registrado aumento no consumo de café ao utilizá-lo de formas diferentes das tradicionais.

"É o café com melancia, com laranja, é o café diferenciado, muito café gelado. Tem outras formas de beber o café. O jovem tem entrado no mundo do café e ele tem que ter uma bebida própria. Nem sempre é o café quente", afirmou.

Durante a SIC, marcas brasileiras apresentaram novidades nesse sentido, como a Nescafé, que pelo segundo ano levou o café solúvel para se beber gelado —as formas mais comuns são água (com e sem gás) e água tônica.

Na Três Corações, principal player do mercado nacional, 70% do faturamento do grupo está no café torrado e moído, e o restante em outros produtos, como capuccinos, cafés com leite e cafés solúveis, entre outros.

"E, dentro dos cafés torrados e moídos, 3% hoje são cafés especiais. É um volume considerável, basta ver que os cafés especiais têm crescido mais de 20% anualmente no portfólio nosso", disse o presidente da empresa, Pedro Lima.

Nesse sentido, até por ter um sabor diferente da variedade arábica, os canéforas (conilon e robusta) surgem como opção para a diversificação do uso do café. "Ele está numa equação de preço, com qualidade, posicionamento de produto e é uma ferramenta que pode ser trabalhada na equação climática. Então a gente tem as ferramentas", disse Caio Alonso Fontes, diretor da Espresso&CO, realizadora da feira, que reuniu 27 mil pessoas de 33 países e gerou cerca de R$ 150 milhões em negócios.