segunda-feira, 18 de maio de 2026

Domenico De Masi, criador da teoria do ‘ócio criativo’, morre aos 85 anos. OESP

 Notícia de presente

O sociólogo italiano Domenico De Masi morreu ontem, aos 85 anos. De acordo com a imprensa italiana, ele descobriu uma “doença invasiva” em 15 de agosto. Estava de férias em Ravello, na costa Amalfitana, e os médicos do Hospital Policlínico Gemelli, de Roma, deram-lhe poucos dias de vida.

Criador da teoria do “ócio criativo”, De Masi defendia que o cérebro não pode ser forçado a produzir quando já está saturado de informações. E, quando a pessoa se encontra satisfeita, as ideias tendem a chegar de forma inesperada, o que torna necessário conciliar trabalho, estudos e lazer, sem se sobrecarregar em nenhum momento.


Domenico de Masi, sociólogo italiano durante entrevista num hotel na Av. Paulista, em 2019
Domenico de Masi, sociólogo italiano durante entrevista num hotel na Av. Paulista, em 2019 Foto: HELVIO ROMERO

PUBLICIDADE

Nascido em 1.º de fevereiro de 1938, na cidade de Rotello, De Masi era professor emérito de Sociologia do Trabalho na Universidade degli Studi “La Sapienza”, de Roma. Ao longo de sua trajetória, desenvolveu a sua pesquisa orientada para a sociologia do trabalho e das organizações. Entre as bandeiras do sociólogo estavam a redução da jornada de trabalho e o trabalho remoto.


Publicidade

O doutorado em sociologia do trabalho foi obtido em Paris, onde foi aluno de Alain Touraine, o sociólogo francês que foi determinante para outro intelectual: o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, de quem De Masi se tornaria amigo. Além de Touraine é dessa época outro encontro marcante na vida de De Masi: o trabalho, ainda que por pouco tempo, com o empresário e intelectual Adriano Olivetti, que defendia um capitalismo de rosto humano.

Desemprego, uma construção social

Autor de dezenas de livro, De Masi enxergava três grandes fatores de transformação no mercado de trabalho até 2030: o aumento do uso da tecnologia, a feminilização e a globalização. “A tecnologia também mudará o mundo do trabalho: a engenharia genética curará muitas doenças, a inteligência artificial substituirá parte do trabalho intelectual”, afirmou o sociólogo em entrevista concedida ao Estadão em 2017.

Na avaliação dele, seria possível produzir mais bens e serviços com menos trabalho humano. “Nos países avançados, 25% dos trabalhadores serão operários, 25% serão empregados e metade fará trabalhos criativos. É uma grande transformação.”

Dois anos mais tarde, em outra entrevista para o Estadão, De Masi defendeu que o desemprego era uma “construção social” e que poderíamos ter todos os “desempregados ocupados imediatamente”.

Publicidade

“Por exemplo, um alemão trabalha 1.400 horas ao ano, em média. A ocupação é de 79%. O desemprego é de 3,8%. Na Itália trabalhamos 1.800 horas ao ano, veja que loucura! Os italianos trabalham 400 horas a mais que os alemães! E temos 58% de ocupação e 11% de desemprego. Se na Itália trabalhássemos 1.400 horas não existiria nenhum desempregado. O desemprego é uma construção social, não é uma fatalidade”, afirmou.

De Masi acreditava que o sistema econômico da Itália era inadequado às exigências da sociedade pós-industrial em razão da necessidade de se lutar contra a pobreza e o precariado.

ATUAÇÃO POLÍTICA NA ITÁLIA

Na política, o sociólogo se aproximou do Movimento 5 Estrelas (M5S), um partido antissistema, inspirando a adoção da renda cidadã, na Itália, no primeiro dos governos formados pelo M5S. Pelas redes sociais, o ex-primeiro-ministro Giuseppe Conte, presidente do M5S, disse que De Masi tinha uma refinada inteligência e coragem e amor pelo conhecimento. “Para mim e para o Movimento 5 Estrelas, ele foi um amigo sincero e um interlocutor privilegiado.”

PUBLICIDADE

No Brasil, além de Fernando Henrique Cardoso, aproximou-se de Luiz Inácio Lula da Silva, que o visitou em junho último, durante sua viagem à Itália. “Nós somos amigos há anos. Fui encontrá-lo até mesmo no cárcere, em Curitiba”, contou De Masi. Por meio de uma rede social, Lula escreveu ontem: “Estou surpreso e triste pelo falecimento do meu amigo. Intelectual incansável e homem público apaixonado, sempre foi um defensor das causas sociais, do avanço das conquistas humanas e de um mundo mais justo e solidário”.

E concluiu: “Serei eternamente grato pela visita que fez quando eu estava preso em Curitiba. Fiquei feliz em poder reencontrá-lo na sua querida Itália. De Masi deixa uma imensa obra conhecida e valorizada em todo mundo. Deixa também muitos ensinamentos, alunos e admiradores.”


O sociólogo deixou a mulher, Susi Del Santo, duas filhas do primeiro casamento e quatro netos. Veja última aparição pública de Domenico De Masi, em um vídeo gravado para o evento do Lide, realizado em Milão, nessa sexta-feira, dia 8.

Como foi que nos perdemos?, José Renato Nalini, OESP

 Notícia de presente

A vocação de perfectibilidade da espécie humana acalentou sonhos e nutriu projetos. Acreditou-se que a humanidade se aprimoraria a cada estágio da História e que depois de milênios de experiência neste planeta, atingisse um nível ético superior ao das fases iniciais.

José Renato Nalini defende uma revolução política, com voto facultativo e eleições inteiramente eletrônicas
José Renato Nalini defende uma revolução política, com voto facultativo e eleições inteiramente eletrônicas Foto: Júlia Pereira/Estadão

PUBLICIDADE

Não foi isso o que ocorreu. Numa evidente involução, o retrocesso moral atingiu todas as camadas da chamada “civilização”. A cobiça, a ganância, o egocentrismo em sua maior potência, a insensibilidade e outras companhias indesejáveis fizeram morada no coração dos líderes. Não de todos, é certo, mas daqueles cujo poder de influência gera contaminação em massa.

O resultado é a descrença que as instituições brasileiras fizeram medrar na consciência de quem não perdeu de todo a capacidade de discernir.

No Brasil, o problema é mais agudo. Somos o país campeão da desigualdade social. Há muita miséria e exclusão. E a educação permaneceu no medievo, empenhada em fazer o educando decorar informações que hoje estão disponíveis com atualidade e sedução muito maiores do que a de qualquer desprestigiado professor.

Tudo degringolou. Alguns falam em crise dos “Ps”: Pai, Padre, Pastor, Professor. Todos eles foram desprestigiados. E as redes sociais, poderosas e manipuladoras, são as responsáveis pelo efeito manada que faz legiões acompanharem líderes desprovidos de conteúdo, mas capazes de iludir a massa ignara e fazê-la se comportar de maneira próxima à selvageria.

Publicidade

Onde está a “sociedade do ócio” de Domenico De Masi? Qual o resultado da edificação da sociedade justa, fraterna e solidária prometida pelo constituinte de 1988? Em que patamar ético se encontra o Brasil de hoje?

imagem newsletter
newsletter
Política
As principais notícias e colunas sobre o cenário político nacional, de segunda a sexta.
Ao se cadastrar nas newsletters, você concorda com os Termos de Uso e Política de Privacidade.

A polarização política ergueu barreiras entre famílias. Separou amigos e substituiu o convívio pela disseminação de mensagens chulas, cruéis, embora revestidas de recursos da IA - Inteligência Artificial e atraentes para dominar as mentes fanáticas.

Não seria o momento de se proceder a uma radical reforma política no País que retrocedeu desde o golpe republicano?

Algo que nasceu de um gesto de traição partido de quem fruía da amizade e da confiança de um magnânimo estadista, que ainda não teve sucessor nesta Terra de Santa Cruz, não poderia mesmo dar certo.

A República tupiniquim é uma sucessão de frustrações, cada vez desiludindo ainda mais os que nela confiaram. Para redimir a boa intenção de quem foi republicano raiz, na certeza de propiciar aos brasileiros um regime democrático e propiciador de um saudável protagonismo individual, seria conveniente uma verdadeira revolução política.

Publicidade

Ela começaria por tornar o voto facultativo. Não faz sentido obrigar aquele que não quer participar do que considera uma farsa melancólica, a se locomover no dia das eleições e votar nulo ou em branco. Faria mais sentido deixar na discricionariedade livre do cidadão votar ou não.

CONTiNUA APÓS PUBLICIDADE

Em seguida, as eleições deveriam ser inteiramente eletrônicas. Votar pelo celular ou pelo laptop, pelo computador pessoal ou por qualquer outra bugiganga eletrônica disponível. Se podemos transferir dinheiro com um clique, por que não poder eleger também desse modo?

A economia no grande espetáculo das eleições ensejaria adoção de sistemas inteligentes de segurança cibernética, para inviabilizar o mau uso dessa faculdade. Somente quem trabalha diretamente no preparo e realização de eleições conhece as agruras de requisição de edifícios que precisam ser adaptados, obrigando seus funcionários a um trabalho forçado e gratuito, para o desfile de um eleitorado constrangido, irritado, ressentido – e com razão – por se ver na condição de comparecimento sem escapatória, para explicitar sua vontade que pode ser exercida de forma eletrônica. Sem os embaraços do comparecimento pessoal.

Para tornar a reforma ainda mais positiva, o financiamento da propaganda eleitoral deveria ser espontâneo e a cargo dos filiados aos partidos. Não é moral empregar dinheiro de um povo espoliado, sofrido, sem saneamento básico, sem saúde e educação de qualidade, para custear o festival medíocre do enaltecimento de figuras heterogêneas, muitas delas pífias e inferiores.

É utopia acreditar que os beneficiários de um sistema iníquo e falível possam promover transformações que atendam ao interesse coletivo, já que a atuação de quase todos é perpetuar a profissão que escolheram: a política partidária. Que está na mesma situação de descrédito das demais instituições nacionais. Mas é preciso sonhar, para não se refugiar na loucura, aparentemente menos nefasta do que a realidade brasileira neste 2026.