quarta-feira, 4 de março de 2026

Daniel Vorcaro, do Banco Master, é preso em nova fase da operação Compliance Zero, FSP

 

Brasília

O dono do Banco MasterDaniel Vorcaro, voltou a ser preso nesta quarta-feira (4) em nova fase da Operação Compliance Zero.

A determinação de prisão preventiva (sem tempo determinado) é do ministro André Mendonça, do STF (Supremo Tribunal Federal), que se tornou relator dos inquéritos relacionados ao caso.

A decisão foi tomada porque a Polícia Federal encontrou no celular do empresário mensagens que citam uma tentativa de assalto contra um jornalista como forma de intimidação. O nome do jornalista não foi revelado. O ministro tarjou o nome do jornalista no processo, mas o profissional foi informado. Depende dele agora abrir a informação.

Outro alvo de mandado de prisão foi Fabiano Zettel, pastor e marido da irmã de Vorcaro. Ele é apontado como um dos principais operadores do banqueiro.

A PF também fez operação de busca e apreensão na casa do ex-diretor de fiscalização do BC (Banco Central) Paulo Sérgio Neves de Souza e do servidor Bellini Santana. Ambos já estavam afastados de suas funções na autoridade monetária, decisão agora reforçada por ser judicial.

A defesa de Vorcaro foi procurada pela reportagem, mas ainda não se manifestou.

Homem de barba e cabelo escuro veste terno azul e gravata clara, falando ao microfone azul em ambiente interno com iluminação azul e público ao fundo.
O banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, em vídeo do grupo Lide, durante evento em São Paulo em 2024 - Reprodução TV Lide no YouTube

Foi constatada invasão indevida de sistemas, inclusive da própria PF, MPF (Ministério Público Federal) e falsificação de documentos públicos. Foi simulada a assinatura de membro do Ministério Público, segundo as investigações.

Um grupo chamado de "A Turma", liderado por uma pessoa com o apelido "Sicário", fez ameaças a integridade física também de outras pessoas consideradas oponentes.

Há também suspeita de agentes públicos envolvidos: dois ocupantes de altos cargos no Banco Central, que auxiliavam Vorcaro e atendiam interesses dele. Os dois foram afastados do cargo pela decisão.

Estão sendo cumpridos quatro mandados de prisão preventiva e 15 de busca e apreensão em São Paulo e de Minas Gerais. As investigações tiveram o apoio do Banco Central.

Também foram determinadas ordens de sequestro e de bloqueio de bens, no valor de até R$ 22 bilhões, com o objetivo de interromper a movimentação de ativos vinculados ao grupo investigado e de preservar valores potencialmente relacionados às práticas ilícitas apuradas, segundo a PF.

De acordo com a Polícia Federal, são investigadas suspeitas da prática de crimes de ameaça, corrupção, lavagem de dinheiro e invasão de dispositivos informáticos praticados por organização criminosa.

Há outros três mandados de prisão, além de Vorcaro.

Vorcaro havia sido preso pela PF na noite de 17 de novembro, em São Paulo, quando se preparava para embarcar num voo para o exterior. Foi solto dez dias depois.

Elio Gaspari - O peso do fator Lulinha, FSP

 Os repórteres Luiz Vassallo e Aguirre Talento revelaram que Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, de 51 anos, reconheceu, em conversas particulares, que em 2024 viajou para Portugal com Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como Careca do INSS. Juntos visitaram uma fábrica de Cannabis para fins medicinais.

Lulinha decidiu revelar que fez essa viagem, cacifada pelo Careca, depois que a Polícia Federal pediu e o ministro André Mendonça, do STF, levantou o sigilo bancário de suas contas. O Careca do INSS está preso, por causa de suas conexões com a quadrilha que roubava descontos nos contracheques de milhares de aposentados.

Fábio Luís Lula da Silva, conhecido como Lulinha, durante cerimônia em homenagem à ex-primeira-dama Marisa Letícia, em 2018 - Nelson Almeida - 3.fev.18/AFP

O filho mais velho do presidente teria decidido abandonar o silêncio que cultiva há mais de 20 anos. Beleza, poderá explicar por que se sentiu atraído pela Cannabis medicinal e qual critério levou-o a acompanhar o Careca em sua prospecção portuguesa. Como a eleição presidencial será em outubro, nos próximos sete meses, se ele não fizer isso, será um personagem radioativo na campanha.

Fábio Luís Lula da Silva padece na condição paradisíaca de filho do presidente. Registre-se que Lula tem cerca de 15 irmãos e meio-irmãos vivos. Poucas famílias de presidentes mantiveram-se tão longe do poder, mas coube a Lulinha o papel de para-raios.

Nos dois primeiros mandatos do pai, Lulinha conseguiu um financiamento benigno de uma telefônica. Nas fantasias da redes, ele era um milionário, dono de fazendas, vivendo numa mansão. Diplomado em biologia e tendo sido monitor do zoológico de São Paulo, diversificou suas atividades até que chegou à Cannabis medicinal e ao Careca do INSS. Isso no mundo dos fatos, na feira de maledicências, ele seria nada menos que um sócio oculto da JBS, empresa campeã no mercado de carnes.

Um ex-funcionário do Careca contou à Polícia Federal que eles seriam sócios, com Lulinha, o "filho do rapaz", recebendo jabaculês de R$ 300 mil mensais. A defesa de Lulinha repete que suas relações com o Careca do INSS nada tinham a ver com as falcatruas contra os aposentados. Elas seriam restritas à prospecção de um negócio com Cannabis medicinal. Parece muito dinheiro.

Se Lulinha quer se livrar da condição de personalidade predileta para a disseminação de notícias falsas, o melhor que ele tem a fazer é livrar-se de todos os seus sigilos. Lula já disse, referindo-se às roubalheiras do INSS, que "se tiver filho meu metido nisso, será investigado".

Fábio Luís Lula da Silva teria admitido que o Careca pagou as contas da viagem a Lisboa. Só? Março mal começou e esse ectoplasma acompanhará Lulinha e Lulão com intensidade cada vez maior. Recorrer contra as decisões que determinaram a quebra de sigilos terá um efeito anestésico para çábios metidos na campanha e tóxico para o eleitorado.

Olhando pelo retrovisor, Fábio Luís teria feito muito melhor negócio falando no final do ano passado, quando a oposição queria ouvi-lo na CPI do INSS. Àquela altura a sua radioatividade parecia baixa.

Racismo e estatística, Marcelo Viana, FSP

 Thomas Jefferson (1743-1826), que depois seria o terceiro presidente dos Estados Unidos, escreveu em 1785: "Avanço, apenas como hipótese, que os negros são inferiores aos brancos em termos de dons físicos e mentais. Essa infeliz diferença de cor, e talvez de faculdades, é um poderoso obstáculo à emancipação dessas pessoas". Não diferia muito dos discursos racistas de outros brancos que questionavam se "alguma vez o negro poderá ser elevado ao mesmo nível do cidadão branco desta grande República".

Para muitos, o buraco era ainda mais embaixo. O reverendo Orville Dewey (1794-1882) ponderava que "em Massachusetts tivemos emancipação e, no entanto, os negros estão piores do que os escravos do Sul, que são bem vestidos, bem alimentados e felizes". E John Calhoun (1782-1850), secretário de Estado, usava dados do Censo de 1840 para concluir que os negros libertos tinham taxas de mortalidade e de insanidade piores que os escravizados.

Retrato em preto e branco de Dr. James McCune Smith, primeiro médico afro-americano licenciado nos Estados Unidos, com cabelo branco encaracolado, vestindo terno escuro, colete e gravata borboleta.
James McCune Smith, médico com vasto conhecimento da estatística, foi membro fundador da Sociedade de Estatística de Nova York, em 1852 - Wikimedia commons

Ninguém mais bem habilitado a responder do que James McCune Smith (1813-1865), primeiro médico negro norte-americano e maior intelectual do movimento abolicionista, com seu amplo conhecimento de medicina e estatística. Smith elaborou tabelas estatísticas para provar que os negros livres do Norte tinham desempenho escolar comparável ao dos brancos e que viviam mais tempo e tinham menos doenças mentais do que seus pares escravizados no Sul.

"Uma dissertação sobre a influência do clima na longevidade", publicada em 1846, é seu trabalho estatístico mais refinado. Nele, Smith expõe com lucidez as falácias nos argumentos de Calhoun: as taxas de mortalidade e de doença dos negros libertos não têm a ver com suas condições de vida, e sim com o fato de serem mais velhos do que os negros escravizados, em média, já que a liberdade era alcançada tarde na vida. A comparação correta, insiste, é entre as expectativas de vida ao nascer de libertos e escravizados, e aí os argumentos escravagistas caem por terra.

Em sua resposta a Jefferson, "Sobre a 14ª questão de Jefferson", publicada em 1859, Smith começa por sugerir, suavemente, que o tema "elevação" seja deixado de lado, pois está mal formulado: "Quem é mais elevado? O dono –erudito, perspicaz, engenhoso, construtor de máquinas esplêndidas, legislador, financista bem-sucedido, filósofo perspicaz– com um chicote na mão? Ou o pobre escravo cristão –o peito arfando, os olhos cheios de lágrimas, a carne arrancada– tremendo sob o chicote enquanto reza a Deus para que suavize o coração de seu experiente torturador?".

No lugar, ele propõe que a pergunta deve ser: "Podem negros e brancos viver juntos em harmonia, todos contribuindo para a paz e a prosperidade do país?". E passa a desmistificar, metodicamente, as supostas diferenças entre as raças que acarretariam a sua incompatibilidade. O seu texto é conciso, preciso, implacável sem perder a suavidade jamais. Foi uma leitura surpreendentemente prazerosa, recomendo.

Frederick Douglass (1818-1895), o líder carismático do abolicionismo norte-americano, citava o amigo James McCune Smith como "a influência mais importante na minha vida". Mas enquanto Douglass entrava para a história, com toda a razão, o líder intelectual do movimento caía no esquecimento. Qual será a moral disso?