sexta-feira, 13 de março de 2026

Kleber Mendonça Filho não tem amigos, mas bajuladores - Gustavo Alonso ,FSP

 Toda vez que assisto a um filme ruim, me espanto quando vejo os letreiros subindo na tela. É sempre admirável a quantidade de profissionais que trabalham em conjunto para um produto final que pode ser genial, medíocre ou ruim mesmo.

Sou escritor, não cineasta. É muito fácil escrever um livro ruim. Basta sentar a bunda na cadeira e escrever o que lhe vier à cabeça, sem filtro. Depois convença um editor de que sua obra pode ter algum valor. Basta uma pessoa para que seu livro seja publicado.

A cadeia de produção de um livro não chega nem perto da cadeia de produção de um filme. Não passa de dez o número de pessoas subordinadas a um editor para que um livro possa ser publicado por uma grande editora. No cinema, embora também haja hierarquias internas, o número de trabalhadores passa facilmente das duas centenas num filme grande como "O Agente Secreto".

Digo isso porque toda vez que vejo um filme do incensado diretor Kleber Mendonça Filho me pergunto se ele tem algum amigo de verdade. Um amigo que pegue no braço e fale ao ouvido: "Cara, isso não tá legal."

Vivemos tempos em que o bairrismo cinematográfico legitima qualquer filme meia-boca. Em Pernambuco, onde moro, muitos parecem intoxicados por se verem representados na grande tela. Empolgados com a possibilidade do Oscar, se seduzem pelo reconhecimento internacional. E o diretor alimenta tal perspectiva, querendo associar "lugar de fala" ao cinema, como se isso permitisse qualquer bobeira artística. Kleber não tem amigos, só bajuladores, em seu estado natal.

A verdade é que "O Agente Secreto" repete vários problemas dos filmes dramáticos anteriores do diretor pernambucano. Muito já foi apontado pela crítica, afinal o filme não é consenso fora de Pernambuco, como gostariam aqueles que acusam de "sudestino" qualquer um que discorde esteticamente da película.

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Os personagens de Kleber são pobres, pouco mudam durante a esquemática encenação dramática. Em seus filmes há sempre bonzinhos de esquerda e os vilões, obviamente, de direita, claro.

E os diálogos? Chegam a dar vergonha alheia de tão amadores e forçados. Virou piada na internet um diálogo de "Aquarius", um dos filmes mais louvados do diretor, em que a personagem de Sônia Braga fala para o sobrinho, para que este agrade a namorada: "Toca Maria Bethânia para ela. Mostra que tu é intenso". Mesmo com bons atores, como é o caso de Wagner Moura neste último filme, as atuações ficam comprometidas com o primarismo verbal.

Tudo isso é culpa dos roteiros de Kleber que, além da direção, assina pelo argumento de seus filmes. Seus roteiros querem abraçar o mundo e perdem o foco narrativo.

Em "O Agente Secreto" há histórias paralelas como a da autópsia do tubarão, a do alemão no cinema e a do casal de angolanos refugiados, que são completamente supérfluas. Mesmo a bela cena inicial, muito louvada, não diz nada que outras cenas seguintes também não digam sobre a violência da sociedade brasileira no ano de 1977, quando se passa o filme. Fica parecendo um colecionismo de boas filmagens sem conexão com a história que se quer narrar. Mero virtuosismo masturbatório de fazer cinema.

É sobretudo em relação à duração dos roteiros que falta um amigo a Kleber Mendonça Filho. Se "O Agente Secreto" tivesse 50 minutos a menos daria até um filme OK. Entre as centenas de pessoas que trabalham com o pernambucano, não há uma alma para dizer que o fato de ele ser um bom diretor não o faz ser um bom roteirista?

É importante reconhecer: Kleber Mendonça Filho é um grande diretor de cinema. Não há dúvida. Seus filmes têm tensão, é um grande articulador de profissionais, reconstitui a época com maestria, emula eficientemente suas referências cinematográficas, faz milagre com um roteiro tão pobre. Tecnicamente "O Agente Secreto" é perfeito. O lamentável, como em quase todos os filmes dramáticos de Kleber, é o roteiro esquemático, a vontade de fazer do cinema um baluarte infantil de plataformas políticas.

Pode ser que "O Agente Secreto" ganhe o Oscar de melhor filme? Se chegou até lá, tudo é possível. Mas há um forte concorrente: "Pecadores", o grande favorito, com 16 indicações. Se Kleber perder para este filme, não deve ficar triste. Afinal, "Pecadores" é uma espécie de "Bacurau" que se passa no sul dos Estados Unidos. Tão ruim e bobo quanto o original brasileiro.

Quem sabe quando Kleber estiver no domingo (15) no Dolby Theatre, em Los Angeles, esperando a estatueta, algum agente secreto cochiche em seu ouvido: "Meu compadre, a gente não pode ser bom em tudo! Filme um roteiro que não seja seu! Escolha uma boa história de verdade e use todo seu grande potencial como bom diretor já comprovado. Vai nessa que vai ser melhor!".


'O Agente Secreto', entre Brasil e filmes B dos EUA, ilustra nova era do Oscar, FSP

 

São Paulo

Entre sotaques diversos, lendas urbanas e críticas ao autoritarismo no Brasil, "O Agente Secreto" fez de sua campanha ao Oscar um reflexo do "molho brasileiro". Além do sucesso e de sua reconstituição da ditadura militar, o projeto reúne amplo repertório cultural, com menções a nomes que usaram a música, o cinema e a televisão para subverter o regime da época.

Não significa, porém, que as referências de Kleber Mendonça Filho —já no início, ele une fotos de músicos como Caetano Veloso, filmes como "Lúcio Flávio" e apresentadores como Chacrinha— sejam totalmente estranhas a votantes dos Estados Unidos. Pelo contrário. Ex-crítico, programador e cinéfilo de plantão, o diretor firma um elo entre a filmografia americana que pautou sua trajetória e o imaginário que construiu ao pensar o Brasil dos anos 1970.

Wagner Moura em cena de 'O Agente Secreto', de Kleber Mendonça Filho
Wagner Moura em cena de 'O Agente Secreto', de Kleber Mendonça Filho - Reprodução/Netflix

Exemplo disso é uma conversa recente entre o cineasta e a atriz Tilda Swinton, em que ela compara uma das primeiras cenas de "O Agente Secreto" ao cinema de Alfred Hitchcock. Entre os méritos que deram ao britânico —responsável por muitos títulos americanos— a alcunha de "mestre do suspense", está a introdução de elementos de perigo antes que estes interfiram nas narrativas.

Em outras palavras, retomando um exemplo clássico, que é mais eficaz mostrar personagens sob a ameaça de uma bomba, ampliando a tensão que antecede o desastre, do que surpreender o público com uma explosão súbita e imprevisível.

A sequência lembrada por Swinton respeita tal regra, apesar de um adicional —a tensão nunca se esvai e deixa espaço para o espectador imaginar outros perigos.

Nela, quando Marcelo, personagem de Wagner Moura que foge de um empresário, chega a um posto e vê um cadáver no chão, ele se choca com a normalização da cena. O frentista que abastece seu fusca, por exemplo, parece tranquilo diante da demora policial em vir retirar o morto. Quando policiais enfim chegam, preferem fiscalizar o carro de Marcelo e roubar seus cigarros.

A sequência dura quase dez minutos. O corpo permanece ali, apodrecendo, afastando passageiros e atraindo cães famintos. Símbolo da ditadura, sugere o fim violento que pairava como ameaça coletiva, mas não desencadeia nenhum acontecimento imediato —exceto se infiltrar na mente de Marcelo. É essa relação com a imaginação dos personagens que o filme, de certo modo, mistura repertórios de naturezas distintas.

Seja pelos pesadelos que Marcelo terá à frente, em que o morto se une a máscaras monstruosas de Carnaval, seja pelos painéis que anunciam filmes fantasiosos no Cine São Luiz, imagens não digeridas pairam por toda a obra.

Cena de 'O Agente Secreto', filme de Kleber Mendonça Filho
Cena de 'O Agente Secreto', filme de Kleber Mendonça Filho - Reprodução/Netflix

Não por acaso, uma perna na boca de um tubarão vira símbolo fundamental. De um lado, o resto humano ganha vida e se torna a "perna cabeluda", lenda urbana da década de 1970. O membro, além disso, dialoga com "Anatomia de Um Assassino", horror americano, tido por Mendonça Filho como referência, em que um homem fica agressivo ao herdar o braço de um assassino.

Do outro lado, o predador marinho lembra o do cartaz de "Tubarão", que revolucionou os blockbusters. Entre letreiros de produções como "King Kong" e um pôster de "Testa de Ferro por Acaso" —comédia sobre um roteirista perseguido pelo governo—, o longa de Steven Spielberg é uma opção em cartaz em "O Agente Secreto".

Pernas de uma pessoa descalça visíveis em primeiro plano, em ambiente externo durante a noite. Fundo escuro com luzes difusas e árvores pouco iluminadas.
Perna Cabeluda em cena de 'O Agente Secreto', filme de Kleber Mendonça Filho - Divulgação

O filho de Marcelo, inclusive, faz de tudo para assistir ao clássico. Ele diz sonhar com o tubarão e, ao concretizar o desejo, revela que o animal parou de atormentar o seu sono. É como se os símbolos da produção, livres para atormentar o inconsciente de personagens, exigissem uma espécie de amarra.

Raciocínio parecido pode ter levado um pequeno Mendonça Filho, que tinha menos de dez anos quando o fenômeno de Spielberg foi lançado, a criar os seus primeiros experimentos. Alguns deles estão no documentário "Retratos Fantasmas" e se basearam em produções americanas de baixo orçamento.

A passagem em que espectadores gritam ao ver "A Profecia", título de Richard Donner em que uma criança assume o papel de anticristo, também reforça um roteiro que vai de encontro a forças imateriais. A cena ocorre pouco antes do protagonista se reunir com figuras enigmáticas, que se recusam a detalhar suas origens, mas dizem ter soluções para o fugitivo.

A mesma sensação de incerteza justifica comparações entre "O Agente Secreto" e filmes policiais. Próximo ao final, quando o cerco se aperta, tiros que atravessam olhos e destroem rostos lembram o "exploitation" —gênero que desafiava Hollywood com violência explícita— e nomes como Sam Peckinpah ou "Bloody Sam", que filmou homens agressivos em faroestes e longas investigativos.

Cena de 'O Agente Secreto', de Kleber Mendonça Filho
Cena de 'O Agente Secreto', de Kleber Mendonça Filho - Reprodução/Netflix

Entre perseguições e momentos de contemplação, Mendonça Filho também se inspira no cinema de Brian de Palma, que prioriza o estilo em detrimento do realismo. Dois momentos marcantes usam o "split diopter" comum ao americano, isto é, filtro em lentes de câmeras que cria dois pontos de foco.

No início, a ferramenta reforça o elo entre Marcelo e o filho. Mais tarde, quando um mercenário chama o protagonista pelo verdadeiro nome, Armando, o recurso traduz a dupla identidade que atormenta o personagem.

Wagner Moura em cena de 'O Agente Secreto', filme de Kleber Mendonça Filho
Wagner Moura em cena de 'O Agente Secreto', filme de Kleber Mendonça Filho - Reprodução/Netflix

Também vêm à mente outros filmes lembrados pelo diretor brasileiro. É o caso do italiano "Investigação sobre um Cidadão Acima de Qualquer Suspeita", em que um policial assassino tensiona o poder ao ser convocado para investigar os próprios crimes.

Essa última referência está longe de ser a única além do cinema americano. O próprio título do filme se deve a uma homenagem francesa. Na ida ao Cine São Luiz, Marcelo vê o trailer de "O Magnífico", produção em que Jean-Paul Belmondo vive um autor obcecado por tramas de espionagem. A frase "o agente secreto" toma a tela do cinema durante a prévia.

Num momento em que o Oscar revê sua relação com outros países, e mesmo repertórios americanos que, como o terror e os filmes B, tiveram pouco espaço em edições passadas, o imaginário de Mendonça Filho reverencia tradições de Hollywood e reforça uma nova era do prêmio.