sexta-feira, 17 de julho de 2026

Janja não sabe o que é misoginia - Mariliz Pereira Jorge _FSP

 Janja da Silva não sabe o que é misoginia. Essa me parece a constatação mais óbvia e mais incômoda depois da sua entrevista ao UOL/Folha. No momento em que o país debate a criação de uma lei e que exige precisão cirúrgica sobre o que constitui o ódio patológico contra as mulheres, a primeira-dama presta um desserviço à causa. Ao classificar as cobranças públicas sobre seus atos e seus gastos de viagem como "misoginia pura", ela fornece a munição perfeita para os detratores do projeto de lei. Se nem a principal vitrine feminina do governo consegue distinguir escrutínio público de opressão de gênero, a própria tipificação do crime corre o risco de cair no vazio da subjetividade.

Mulher de meia-idade com cabelo castanho claro e óculos pretos sentada em cadeira vermelha contra fundo escuro. Ela veste terno preto com camisa branca e está com as mãos cruzadas no colo, olhando para a frente.
Retrato da primeira-dama, Janja Lula da Silva, na redação do UOL antes de participar do programa Frente a Frente, da Folha e do UOL - Eduardo Knapp - 13.jun.26/Folhapress

Cobrar transparência de uma figura pública não é machismo, é democracia. O erro de Janja é confundir a fiscalização de seu papel com um ataque à sua biologia. Ao se blindar sob o manto da misoginia para evitar responder pelo uso do dinheiro público, a primeira-dama enfraquece a luta real de milhares de mulheres que sofrem a violência de gênero concreta no cotidiano. Isso não quer dizer que ela não possa reclamar da hostilidade e da perseguição alimentadas pelo ódio ideológico —mas isso não está reservado só a elas.

Essa incompreensão sobre o seu papel se estende à relação com a mídia. Ao reclamar que a "imprensa nacional gosta de fofoca", enquanto a internacional a solicita, Janja demonstra um deslumbramento ingênuo (ou conveniente) sobre o fazer jornalístico. É esperado que correspondentes estrangeiros, distantes do orçamento diário do contribuinte brasileiro, façam coberturas mais protocolares. Quem tem o dever de auditar o poder local são os veículos de casa. O que aborrece Janja é o incômodo clássico que a livre imprensa causa a qualquer governante.

Sua postura atinge o ápice do descolamento da realidade quando ela diz que não tem responsabilidade se as pessoas ou a imprensa não querem saber sobre suas ações. Como uma figura que se colocou voluntariamente no centro do governo, é, sim, obrigação dela ter uma comunicação eficiente. Em uma democracia moderna, esperar que a informação pública dependa apenas do humor dos veículos é ignorar a liturgia da posição que ela mesma fez questão de expandir. Com essas declarações, o que Janja parece buscar não é interlocução jornalística, mas o conforto da adulação —algo que ela pode encontrar nas suas redes sociais, não no jornalismo tradicional.

Há um tom de soberba difícil de engolir quando ela se coloca como a primeira-dama que de fato "trabalha". Ao tentar valorizar sua atuação, Janja diminui suas antecessoras, demonstrando uma surpreendente ausência de empatia histórica. A comparação é um insulto à memória institucional do país. É preciso lembrar também que ela se refere a mulheres que eram fruto do seu tempo, de uma sociedade em que o espaço político feminino era praticamente inexistente e o que se esperava era que permanecessem à sombra.

Por essas condições, causa muito estranhamento que seja ignorado o legado de Ruth Cardoso, que com personalidade e brilho próprios estruturou o Comunidade Solidária —o programa que rompeu com o assistencialismo tradicional e pavimentou o caminho para as políticas modernas de transferência de renda do país. Não foi pouca coisa. Pior, de outra forma, é o apagamento que a primeira-dama promove da memória de Marisa Letícia, cuja discrição e presença silenciosa foram esteios fundamentais para a própria construção do PT e das primeiras gestões de Lula.

Ao se colocar no topo de uma hierarquia moral de eficiência feminina, Janja trai o princípio básico do feminismo: o respeito à pluralidade de escolhas das mulheres. O que a entrevista acaba revelando é uma personagem que confunde privilégio de poder com vulnerabilidade social. Janja quer a centralidade política da sua atuação, mas recusa o ônus da cobrança pública. Quer ser vista como uma líder forte, mas recorre ao vitimismo de gênero ao primeiro sinal de crítica. O Brasil precisa debater a misoginia com seriedade, mas, para que essa discussão avance, a primeira-dama precisa entender que críticas ao seu comportamento público não são ataques à sua condição de mulher. Cobrar uma mulher que deve prestar contas por sua atuação não tem absolutamente nada de misógino.

Quem foi Olivia Guedes Penteado, apelidada de Nossa Senhora do Brasil, Vicente Vilardaga - FSP

 Vicente Vilardaga

São Paulo

Os encontros no palacete de dona Olívia Guedes Penteado (1872-1934), na esquina das ruas Conselheiro Nébias e Duque de Caxias (hoje avenida), no bairro Campos Elíseos, foram os mais badalados e frutíferos de São Paulo na década de 1920.

Por ali circulavam escritores como Oswald de Andrade, Mário de Andrade, Menotti del Picchia e o suíço Blaise Cendrars, artistas plásticos como Tarsila do Amaral, Anita Malfatti, Lasar Segall e Victor Brecheret e compositores como Heitor Villa-Lobos.

Olívia ficou para a história como uma das principais incentivadoras do modernismo no Brasil. Fez o que pode para estimular a chama criativa dos novos talentos locais. Criou um ambiente fértil para a troca de informações e a revolução estética.

Olívia, Cendrars, o casal Tarsila e Oswald, com o filho Nonê, em viagem para Minas Gerais - Reprodução

Especialmente para receber seus convidados, instalou um pavilhão na antiga cocheira de seu palacete. Chamado de salão moderno, tinha o teto pintado por Segall e funcionava como um espaço de convivência e debates para os artistas e intelectuais, muitos deles participantes da Semana de 1922. Nele, Olívia também expunha seu acervo pessoal de telas, desenhos e esculturas, que incluía obras de Pablo Picasso e Fernand Léger.

Olívia fez o pavilhão porque considerava que sua mansão em estilo clássico, construída por volta de 1900 com projeto do arquiteto Ramos de Azevedo, não era adequada para a turma modernista e destoava da nova arte que ela procurava promover.

A importância de Olívia pode ser medida pelo apelido que recebeu dos frequentadores do seu espaço: Nossa Senhora do Brasil. Ela comprava obras dos artistas e organizava saraus e expedições culturais pelo país. Uma dessas expedições teve como destino as cidades históricas mineiras e Cendrars como participante ilustre. Outra foi para a Amazônia com a presença de Mário de Andrade.

Antigo hotel Comodoro
Prédio do antigo hotel Comodoro, situado no lugar onde havia o palacete de Olívia Guedes Penteado - Vicente Vilardaga

Olívia era filha do cafeicultor José Guedes de Sousa, o poderoso barão de Pirapitingui, e descendente do bandeirante Fernão Dias Paes Leme. Tinha uma vasta fortuna. Passou longos anos de sua vida em Paris. Sua primeira temporada na capital francesa começou em 1888, quando se casou, aos 16 anos, com seu primo-irmão Ignácio Penteado. Só voltou ao Brasil em 1894, já com duas filhas.

A segunda temporada na França começou em 1914, depois da morte de Ignácio. Nessa fase de grande agitação social, envolveu-se com círculos intelectuais e artísticos na cidade. Teve contato com vários mestres da pintura, como o próprio Picasso.

Era uma mulher cosmopolita. Quando voltou para São Paulo, em 1923, aproveitou a efervescência que havia na cidade para atuar como uma aglutinadora de forças criativas. Foi fundamental para aumentar a conexão dos brasileiros com as vanguardas europeias.

Túmulo de Olívia Guedes Penteado
Túmulo de Olívia Guedes Penteado no cemitério da Consolação com a obra 'O Sepultamento' - Vicente Vilardaga

Trazia na bagagem um conhecimento e a comovente escultura "La Mise Au Tombeau" ou "O Sepultamento", de Victor Brecheret, premiada no Salão de Outono de Paris naquele mesmo ano. A obra, uma Pietà esculpida em granito, adorna o seu túmulo e o do marido no cemitério da Consolação.

Além de mecenas, Olívia teve uma importante atuação política. Destacou-se na campanha sufragista e conseguiu eleger a primeira mulher deputada constituinte, a médica Carlota Pereira de Queiroz. Também se engajou firmemente na Revolução Constitucionalista de 1932. Ela morreria dois anos depois, vítima de uma apendicite.

Seu emblemático palacete e o pavilhão modernista foram demolidos em 1944 por causa das obras de ampliação da avenida Duque de Caxias. Posteriormente foi erguido em parte do terreno o luxuoso hotel Comodoro, cujo prédio continua de pé e abriga hoje um condomínio residencial.

quinta-feira, 16 de julho de 2026

Quantas árvores existem na Terra? Uma análise dos números por trás de nossas florestas. IE

 As árvores são tão comuns que é fácil presumir que ninguém jamais as contou. Surpreendentemente, os cientistas o fizeram. Embora ninguém tenha contado fisicamente cada tronco e galho, pesquisadores combinaram imagens de satélite, inteligência artificial, inventários florestais e mais de 400.000 medições em campo para estimar o número de árvores em nosso planeta.

A resposta? Cerca de 3,04 trilhões de árvores. Aproximadamente 390 árvores para cada pessoa na Terra. Mas isso é só o começo da história. Para entender o que esse número realmente significa, também precisamos analisar onde essas árvores são encontradas, quantas já perdemos e por que proteger as florestas é, muitas vezes, mais importante do que simplesmente plantar novas.

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Como os cientistas contaram os trilhões de árvores?

Durante décadas, as estimativas sugeriam que a Terra continha apenas cerca de 400 bilhões de árvores, porque os cientistas se baseavam principalmente em imagens de satélite que mostravam a cobertura florestal. O problema é que os satélites podem revelar onde as florestas existem, mas não a densidade de crescimento das árvores sob a copa.

Em 2015, uma equipe internacional liderada pelo ecologista Thomas Crowther desenvolveu o primeiro mapa global de densidade de árvores, combinando observações de satélite com centenas de milhares de medições de campo coletadas em todos os continentes, exceto na Antártida. O estudo estimou que a Terra abriga atualmente cerca de 3,04 trilhões de árvores, quase oito vezes mais do que as estimativas anteriores. O trabalho continua sendo uma das avaliações mais abrangentes já realizadas sobre a quantidade de árvores no mundo.

Quais partes da Terra têm o maior número de árvores?

Nem todas as florestas são iguais. Curiosamente, as maiores densidades de árvores ocorrem nas florestas boreais do norte do Canadá, Alasca, Escandinávia e Rússia, onde os climas frios favorecem florestas de coníferas densamente agrupadas.

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No entanto, a maior concentração de árvores encontra-se nas florestas tropicais e subtropicais da América do Sul, África Central e Sudeste Asiático . Juntas, essas regiões abrigam mais de 40% de todas as árvores da Terra, principalmente porque as florestas tropicais cobrem áreas enormes, apesar de apresentarem densidades arbóreas ligeiramente menores do que algumas florestas boreais. A floresta amazônica, por si só, contém centenas de bilhões de árvores, o que a torna um dos ecossistemas florestais mais ricos do planeta.

A Terra já teve quase o dobro de árvores.

Talvez a estatística mais alarmante não seja quantas árvores restam, mas sim quantas desapareceram. Com base em modelos históricos, pesquisadores estimam que a Terra perdeu cerca de 46% de suas árvores desde o início da civilização humana. Agricultura, expansão urbana, exploração madeireira, mineração e desenvolvimento de infraestrutura transformaram vastas paisagens florestais ao longo de milhares de anos.

Ainda hoje, as perdas continuam. Os cientistas estimam que mais de 15 bilhões de árvores são removidas todos os anos, embora a regeneração natural e o reflorestamento compensem parte desse declínio. A tendência geral, no entanto, permanece sendo a de perda florestal a longo prazo, particularmente em regiões tropicais, onde a biodiversidade é maior.

Será que podemos simplesmente plantar árvores suficientes para resolver o problema?

As campanhas de plantio de árvores se tornaram uma das soluções climáticas mais populares do mundo, mas os cientistas alertam cada vez mais que a resposta é mais complexa do que plantar bilhões de mudas. Árvores jovens precisam de décadas para amadurecer, e muitas florestas plantadas são compostas por apenas uma ou duas espécies. Essas plantações geralmente armazenam menos carbono, sustentam menos animais e são menos resistentes à seca, doenças e incêndios florestais do que as florestas naturais.

Os pesquisadores agora enfatizam que a proteção das florestas existentes geralmente proporciona maiores benefícios ambientais do que o seu replantio posterior. As florestas maduras já armazenam enormes quantidades de carbono, regulam as chuvas, preservam a biodiversidade e mantêm os solos saudáveis. Funções que as florestas recém-plantadas podem levar muitas décadas para recuperar, se é que chegam a recuperá-las.

Há espaço para mais árvores?

Embora o reflorestamento global seja uma importante ferramenta climática, cientistas afirmam que ele não substitui a redução das emissões de gases de efeito estufa. Um estudo recente estimou que compensar o carbono contido nas reservas de combustíveis fósseis das maiores empresas de petróleo, gás e carvão do mundo apenas com o plantio de árvores exigiria uma área aproximadamente do tamanho da América do Norte e Central juntas. Uma solução inviável nessa escala.

Em vez disso, os ecologistas defendem cada vez mais a restauração de florestas nativas em áreas que historicamente as sustentavam. As espécies arbóreas nativas geralmente são mais bem adaptadas aos climas locais, sustentam muito mais vida selvagem e criam ecossistemas mais saudáveis ​​e resilientes do que grandes plantações de monocultura. Em muitos casos, proteger florestas maduras já existentes pode proporcionar maiores benefícios climáticos e de biodiversidade do que substituí-las por árvores recém-plantadas décadas depois.

Um número que ainda está mudando.

A cifra de 3,04 trilhões de árvores deve ser vista como a melhor estimativa científica, e não como uma contagem definitiva. As florestas estão em constante mudança, à medida que as árvores crescem, morrem, se regeneram ou são desmatadas para atividades humanas. Novas missões de satélite e técnicas de mapeamento cada vez mais sofisticadas continuam a aprimorar a compreensão dos cientistas sobre as florestas globais a cada ano.

Talvez a conclusão mais notável não seja o número em si, mas a escala do impacto da humanidade. Mesmo com trilhões de árvores ainda de pé, quase metade da cobertura florestal original da Terra já desapareceu. Preservar as florestas remanescentes e restaurar as que foram degradadas pode, em última análise, revelar-se muito mais valioso do que simplesmente perseguir metas cada vez maiores de plantio de árvores.