domingo, 5 de abril de 2026

Habermas e a inteligência artificial, Ronaldo Lemos, FSP

 Jürgen Habermas morreu. Durante os anos 1995 e 1996, com um grupo de colegas do PET-Capes no direito da USP (Universidade de São Paulo), lemos na íntegra sua Teoria da Ação Comunicativa. Tudo por obra do professor José Eduardo Faria, que coordenava o programa. Essas leituras mudariam a minha vida. Um dos nossos brilhantes colegas (Lins Ricon), indignado com os textos extensos e técnicos brincava: "Habermas com certeza não sabe andar de bicicleta".

Pode ser, mas ele soube como ninguém defender a ideia de modernidade ocidental justamente quando os ataques se intensificavam e as rachaduras mais sérias começavam a aparecer. Na minha visão, sua Teoria da Ação Comunicativa é um legado monumental, que nos ajudará a compreender o desafio da inteligência artificial (já volto a isso). Já nos seus textos políticos, Habermas acertou em muitos pontos, mas errou em vários outros. E só nos últimos anos começou a trabalhar a questão de como a tecnologia representava uma ameaça para o núcleo do seu pensamento sobre a democracia.

Homem idoso com cabelos brancos e óculos gesticula com as mãos abertas durante fala em coletiva. Ele veste paletó escuro e camisa clara, com microfones à frente.
O filósofo alemão Jürgen Habermas - Louisa Gouliamaki - 6.ago.26/AFP

Para Habermas, a modernidade poderia se fundar sobre a linguagem: a capacidade humana de argumentar, aprender e mudar de ideia em face a argumentos racionais. Essa seria a ação comunicativa, que seria a base do que ele chamava de "mundo da vida", o lugar onde as conversas acontecem e onde valores, normas, gostos e verdades são compartilhados por todos intersubjetivamente. É o território da cultura, das pessoas e da sociedade.

No entanto, Habermas notou que o mundo da vida estava sendo colonizado. Seus colonizadores são o dinheiro e o poder, que ele chamava de "imperativos deslinguistizados". Eles não precisam da linguagem para atuar. Faz todo sentido. Se uma pessoa recebe R$ 100 milhões de outra, quem dá o dinheiro não precisa argumentar nada. Quem recebe passa a se alinhar com as ideias e objetivos da pessoa, seja sua argumentação boa ou ruim. E Habermas alertava: como dinheiro se converte em poder, o mundo da vida é ameaçado pelo dinheiro duas vezes, de forma direta e indireta.

Desse modo, a ação comunicativa, de se abrir para argumentos, de aprender, de permitir que haja hipóteses, antíteses e a partir delas a formulação de sínteses, esbarra no muro do que ele chama de "comunicação instrumental estratégica". São as falas que buscam promover objetivos estratégicos (e ocultos), que não estão expressos na própria frase.

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Por exemplo, alguém quer que uma pessoa na sala abra a porta. Em vez de dizer "por favor abra a porta", diz: "está muito calor aqui, né?" para a outra pessoa então por conta própria realizar a ação desejada. Note que a comunicação instrumental-estratégica acopla-se diretamente aos imperativos deslinguistizados como o dinheiro e o poder.

E onde a inteligência artificial entra nisso tudo? A IA é uma ferramenta de linguagem extremamente capaz, que toma conta do mundo da vida de uma vez só e passa a atuar sobre ele. Seu problema central é que as frases geradas por IA são 100% comunicações instrumentais-estratégicas. Elas sempre terão objetivos e alinhamentos ocultos, que não enxergamos. E nesse sentido, pode acelerar a colonização do mundo da vida e a erosão da ideia de modernidade e democracia que Habermas tanto defendeu. Em suma, não é Habermas que não sabe "andar de bicicleta". É a inteligência artificial que nunca saberá.

A opção Caiado: recursos e confiança, Lara Mesquita, FSP

 Este sábado encerrou uma etapa crucial do calendário eleitoral. Foi o fim do prazo para desincompatibilização de cargos públicos, filiação partidária e mudança de domicílio eleitoral por aqueles que pretendem disputar mandato eletivo neste ano.

São 17 ministros do governo Lula e 11 governadores que deixaram seus postos com foco na disputa eleitoral. Entre eles está o ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado, personagem clássico da política brasileira. Participou de todas as eleições desde 1989, já tendo concorrido à Presidência, ao Governo de Goiás, à Câmara dos Deputados e ao Senado. Também figura entre os governadores com maior riqueza pessoal do país.

Esse histórico ajuda a entender a escolha do PSD por Caiado, em detrimento de Eduardo Leite, como pré-candidato do partido à Presidência.

Homem de cabelos grisalhos e terno azul fala gesticulando em microfone durante coletiva. Pessoas diversas observam ao fundo.
O ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado, - Jorge Silva - 30.mar.26/Reuters

Por um lado, Gilberto Kassab e as lideranças regionais do PSD não querem comprometer os recursos do fundo eleitoral e do fundo partidário em uma candidatura sem chances reais de vitória, priorizando as disputas para o Legislativo nacional e os Executivos estaduais.

O limite de gastos de campanha para candidatos à Presidência em 2026 ficará próximo dos R$ 105 milhões, o que corresponde a cerca de 25% dos R$ 420 milhões do fundo eleitoral a que o PSD tem direito.

Por outro lado, o nome escolhido precisa conviver com a diversidade interna do partido e aceitar, sem causar problemas, que muitos, senão a totalidade, dos candidatos da sigla aos governos estaduais não o apoiarão. Desde a oficialização da pré-candidatura de Caiado, entre os governadores do PSD apenas Ratinho Jr., do Paraná, declarou apoio a ele. E vale destacar que Ratinho não disputará nenhum cargo eletivo em 2026 e fala abertamente em palanque duplo no estado.

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É nesse ponto que Leite parece concentrar sua fraqueza. Seu problema é menos eleitoral do que político: a dificuldade de articulação política e de se apresentar como um quadro partidário confiável entre seus correligionários. Em um ambiente estruturado por cooperação, não basta a fama de bom gestor. A reputação de cumprir acordos e aceitar as decisões do partido não é secundária, é parte da própria viabilidade de uma candidatura.

Leite reedita em 2026 um roteiro já conhecido. Em 2022, ainda no PSDB, disputou prévias internas com João Doria, perdeu e teve dificuldade em deixar a disputa, chegando a pleitear que Doria lhe cedesse espaço nas inserções nacionais do partido. Na última semana, divulgou um vídeo criticando a escolha do PSD por Caiado.

A situação da sucessão estadual dos dois também merece nota: Daniel Vilela (MDB), vice de Caiado e atual governador, aparece como favorito ao Governo de Goiás. Gracinha Caiado, esposa de Ronaldo Caiado, é favorita para ocupar uma das duas vagas ao Senado em disputa. No Rio Grande do Sul, se o cenário atual se mantiver, Gabriel Souza (MDB), vice de Leite e candidato por ele apoiado, não chegará ao segundo turno.

Ainda duvido que a candidatura de Caiado chegue de fato às urnas. Mas, no interior do PSD, sua escolha revela uma decisão pragmática: preservar recursos para as disputas estaduais e evitar um candidato cuja capacidade de cooperação não encontra respaldo entre os quadros do partido.

Lula 3.0 tem um problema de comunicação que se chama Lula, Elio Gaspari, FSp

 Em geral, quando um governo diz que tem um problema de comunicação, o problema está no governo, não na comunicação. Lula 3.0, no entanto, tem um problema de comunicação, e ele se chama Lula. O presidente ocupa os espaços do governo com uma agenda repetitiva e arcaica.

Esse sistema malvado fritou o ministro Paulo Pimenta e mostrou a frigideira a Sidônio Palmeira, seu substituto.

Homem de terno escuro e gravata rosa segura microfone e gesticula com a mão direita em frente a uma cortina marrom. Bandeira do Brasil está parcialmente visível ao fundo à direita.
O presidente Lula durante reunião ministerial nesta terça (31); o encontro antecedeu a sanção da licença-paternidade - Adriano Machado/Reuters

Tome-se como exemplo a ida de Lula ao Ceará. No palanque, com um boné do ITA, Lula falou por 27 minutos, tratou de suas realizações na educação, louvou suas greves, o ministro Camilo Santana e a militância política. Maltratou a "elite brasileira" e "os banqueiros da Faria Lima". Fora dele, tratou do mandato de oito anos dos senadores, da sucessão no governo daquele estado, chamou o ex-governador Ciro Gomes de "destemperado".

Tudo bem, mas o que Lula foi fazer no Ceará? Ele inaugurou a primeira etapa do campus do Instituto Tecnológico da Aeronáutica, o ITA.

Trata-se de uma das principais iniciativas do Lula 3.0. O ITA, com seu campus de São José do Campos, é uma joia da coroa do ensino superior público. Fundado em 1950 pelo brigadeiro visionário Casimiro Montenegro, formou milhares de engenheiros e gerou um polo industrial onde reluz a Embraer. A criação do campus de Fortaleza é um poço de virtudes, revela investimento em tecnologia, na educação pública de qualidade e na valorização do Nordeste. Lula tratou do ITA perfunctoriamente.

Seu tema era outro. "Por que esse Lula fica colocando R$ 18 bilhões para filho de pobre ir à escola se podia estar no banco rendendo para a gente ficar mais rico? Governar um país e fazer uma ponte é fácil. Governar para 30% do país é fácil. O desafio é escolher entre a ponte e um prato de comida, entre a ponte e uma escola, entre a ponte e uma creche. O país precisa dos dois. Mas você precisa definir que o ser humano é prioritário", disse o mandatário.

Dez pessoas em palco sob tenda, com duas delas apertando as mãos diante de uma placa comemorativa. O grupo aplaude e sorri, com fundo azul contendo logotipos oficiais. Flores vermelhas e verdes decoram a frente do palco.
Presidente Lula durante cerimônia de inauguração do alojamento estudantil do campus do ITA em Fortaleza (CE), na quarta-feira (1º); na foto, ele cumprimenta o governador do Ceará Elmano de Freitas - Ricardo Stuckert/Divulgação PR

Nada contra, o velho pode ser bom, mas não deixa de ser velho. O ITA e seu campus no Ceará mereciam mais que um boné e uma generalização repetitivaLula perdeu uma oportunidade de falar bem de seu governo mostrando o que a expansão do ITA significa para a educação, a tecnologia e o próprio mundo dos negócios.

Lula é um grande comunicador e confia nos seus improvisos. Disso resulta que suas falas ganham destaque, mesmo quando são repetitivas e anacrônicas.

Antes da ida de Lula ao Ceará, o chefe da Casa Civil, Rui Costa, havia dado um puxão de orelhas (a pedido do presidente) no ministro da Comunicação, Sidônio Palmeira.

Nas suas palavras: "Acho que a gente tem que colocar como foco comparar e mostrar. O povo tem o direito de conhecer esses números, esses dados, porque, repito, é a mudança da água para o vinho, de um deserto de governança para um governo que tem um líder que montou uma equipe para trabalhar e produzir esses resultados".

Os eleitores não digerem estatísticas, e as falas do líder atropelam as realizações. Por algum motivo, os ministros evitam ocupar um espaço que pode ser deles. Falar dos oito anos de mandato dos senadores nada tem a ver com o campus do ITA. Isso num governo que tem um Ministério da Tecnologia e Inovação. Ganha um fim de semana em Teerã quem souber o nome do titular. (É Luciana Santos.)

Falta de sorte

Quando disputava a Presidência contra candidatos tucanos, Lula foi bafejado pela sorte. Em anos eleitorais, o governo teve que aumentar o preço dos combustíveis.

Agora essa maldição caiu no seu colo.

Flávio se move

Flávio Bolsonaro não é um candidato que joga parado. Ele se mexe, nos Estados Unidos, pregando para pessoas que pensam como ele.

Seu pai fazia campanha até em aeroporto.

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