Presidente falou sobre a notícia falsa em entrevista ao Canal Livre, da TV Band.
Às 21h50 da quarta-feira, 23 de setembro, o influenciador Jeferson Monteiro publicou isso aqui no X:
“Católico não vota em nenhum Bolsonaro e nem em nenhum candidato que queira retirar o título de Nossa Senhora Aparecida de Padroeira e Rainha do Brasil”.
Seis minutos depois, outro perfil acrescentou que grupos evangélicos pressionariam Flávio Bolsonaro a fazer exatamente isso caso fosse eleito.
Na noite seguinte, a jornalista Maria Cristina Fernandes comentou na GloboNews que havia na Igreja uma reação a evangélicos interessados em tirar da santa o título de padroeira do Brasil. Ela não citou Flávio. O trecho passou a circular como se tivesse citado.
Para você

A proposta a que a jornalista se referia existiu. Mas foi apresentada no longínquo ano de 2007 pelo deputado Victório Galli, então no PMDB do Mato Grosso. A proposta era trocar, na lei do feriado de 12 de outubro, a expressão “Padroeira do Brasil” por “padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos”. A Câmara a arquivou em 2008. Flávio nunca teve relação com o projeto.
Foi um fuzuê. Em pouco mais de dois dias, o Instituto Democracia em Xeque contou quase 1 milhão de publicações sobre o assunto e 8,5 milhões de interações. Entre os perfis de políticos monitorados, a esquerda fez dois de cada três posts. A primeira-dama Janja publicou uma foto de Lula diante da imagem da santa. O vice-presidente Geraldo Alckmin garantiu que as tradições religiosas seriam “protegidas e preservadas”. O alarmismo religioso tomou conta do último final de semana antes do primeiro turno.
Na quinta-feira, a GloboNews corrigiu a informação e pediu desculpas pelo ocorrido. O ministro André Mendonça, do Tribunal Superior Eleitoral, mandou as plataformas removerem as publicações que atribuíam a ideia a Flávio ou à família Bolsonaro.
No mesmo dia, George Marques, coordenador-geral de Estratégia e Informação da Secretaria de Comunicação Social da Presidência, a Secom, repostou uma mensagem com o seguinte pedido:
“Parem de divulgar a retratação. Deixem o assunto rolar. [...] Continuem compartilhando que nossa senhora foi atacada”.
A Secom diz que o perfil dele é pessoal.
Jeferson Monteiro, o autor do post original, é o criador do Dilma Bolada, o perfil ativista que parodiava Dilma Rousseff nas redes sociais e chegou à marca de 1,5 milhão de seguidores.

Mentiras em escala industrial
A mentira não é uma novidade na eleição brasileira. O que mudou ao longo do tempo foi a escala. A grosso modo, a mentira política no Brasil passou por três fases: a do documento forjado, a da peça de campanha e a da produção em série.
Na primeira fase, uma mentira dava trabalho. Em outubro de 1921, o jornal carioca Correio da Manhã publicou duas cartas atribuídas a Artur Bernardes, presidente de Minas Gerais e candidato à Presidência da República. Numa delas, Bernardes chamava o marechal Hermes da Fonseca, ex-presidente e chefe do Clube Militar, de “sargentão sem compostura” e dizia que os militares eram uma “canalha” que precisava de reprimenda para entrar na disciplina.
As cartas eram falsas. Dois falsários, Oldemar Lacerda e Jacinto Guimarães, tinham conseguido papel timbrado da Imprensa Oficial mineira, imitado a letra de Bernardes e tentado vender o material aos dois lados da disputa. Um cartório se recusou a reconhecer as assinaturas. O jornal publicou mesmo assim. Uma comissão do Clube Militar declarou a carta autêntica, e os falsários só confessaram a obra meses depois, quando a relação entre Bernardes e o Exército já estava envenenada. Bernardes venceu a eleição e governou quase todo o mandato sob estado de sítio.
O Plano Cohen e o udenismo
Dezesseis anos depois, uma falsificação serviu para mudar o regime. Em setembro de 1937, o governo Vargas divulgou pelo rádio um suposto plano comunista de insurreição.
O documento tinha sido escrito pelo capitão Olímpio Mourão Filho, chefe do serviço secreto da Ação Integralista Brasileira, que mais tarde diria tê-lo redigido como uma “simulação”.
O chefe do Estado-Maior do Exército, general Góis Monteiro, apresentou a “simulação” como um material apreendido. Com o Plano Cohen nas mãos, Vargas obteve do Congresso o estado de guerra e, no dia 10 de novembro, fechou o próprio Congresso e instalou a ditadura do Estado Novo. A fraude só foi admitida em 1945.
Em 1955, Carlos Lacerda repetiu o método contra João Goulart, candidato a vice na chapa de Juscelino Kubitschek. Ele exibiu na televisão uma carta atribuída ao deputado argentino Antonio Brandi que ligava Jango a contrabando de armas e à formação de “brigadas operárias” inspiradas no peronismo.
No dia da eleição, Lacerda divulgou um laudo argentino que considerava a assinatura “sumamente provável”. Um inquérito militar obteve a confissão de dois falsários argentinos, condenados no ano seguinte. JK e Jango foram eleitos. Na sentença, o juiz considerou que Lacerda agira “dolosamente” ao publicar um documento sobre o qual tinha dúvidas.
Mentiras na democracia
Com a redemocratização, a mentira saiu do papel timbrado e foi para o horário eleitoral.
Em 1989, na primeira eleição direta para presidente em 29 anos, Lula foi a principal vítima. O programa de Fernando Collor pôs no ar Míriam Cordeiro, ex-namorada dele e mãe de sua filha Lurian, dizendo que o candidato lhe oferecera dinheiro para abortar.
Na véspera do segundo turno, a polícia de São Paulo apresentou os sequestradores do empresário Abílio Diniz, ligados a um grupo guerrilheiro chileno, com material de campanha do PT. Em 2014, Luiz Antônio Fleury Filho, secretário de Segurança de São Paulo em 1989, admitiu que a polícia vestiu os presos com camisetas do partido. Collor venceu na ocasião.
Mas Lula não é apenas uma vítima dessa história. O candidato à reeleição pelo PT tem um longo histórico de contribuição à deformação do debate político no país. A começar por desacreditar o próprio processo eleitoral.
Em 1994, Lula suspeitou publicamente da eleição e disse que “desviar dois ou três milhões de votos neste país é mais fácil que tirar pirulito de criança”.
Em 2002, já com a urna eletrônica, disse que “nada é infalível, só Deus” e que “não sabemos se a urna pode ser manipulada ou não”.
A passagem da mentira artesanal para a mentira organizada começou em 2006, quando a Polícia Federal prendeu num hotel perto do aeroporto de Congonhas, em São Paulo, dois homens ligados ao PT com R$ 1,168 milhão e US$ 248 mil em dinheiro vivo. O dinheiro serviria para comprar da família Vedoin, dona da Planam – a empresa no centro da fraude na venda de ambulâncias que ficou conhecida como máfia dos sanguessugas –, fotos e vídeos de José Serra em entregas de ambulâncias da época em que era ministro da Saúde.
Serra disputava o governo de São Paulo, e o material serviria para associá-lo ao esquema. Entre os envolvidos estava Jorge Lorenzetti, responsável pela área de inteligência da campanha de reeleição de Lula. O presidente chamou o grupo de “aloprados”.
Em 2010, a mentira ganhou funcionários. Uma investigação da BBC Brasil publicada em 2018 reconstituiu o funcionamento do blog Seja Dita Verdade, que durante a campanha se apresentava como desmentidor de boatos contra Dilma Rousseff e publicava, entre outras coisas, que o Vaticano discutia excomungar Serra. O blog era assinado por Armando Santiago Jr., “um cidadão brasileiro indignado com a ação criminosa dos tucanos”, casado, 56 anos, morador de Poços de Caldas.
Só que o tal Armando Santiago Jr. não existia. Também não existiam os donos de 131 perfis no Twitter, criados entre maio e agosto de 2010 com fotos de pessoas reais, como uma blogueira finlandesa e uma escritora argentina, com biografias sob medida. Internamente, eles eram chamados de “ectos”, de ectoplasma. Quatro funcionários operavam os perfis de um apartamento em Higienópolis, em São Paulo, por R$ 3,5 mil a R$ 4 mil por mês. Os ex-funcionários apontaram como contratante uma agência chamada Ahead.
Não houve pagamento à empresa na prestação de contas de Dilma. Mas houve na de Fernando Pimentel, candidato do PT ao Senado por Minas Gerais: R$ 234 mil para a firma de um dos sócios. Pimentel era, naquele momento, coordenador da campanha de Dilma à Presidência.
No ano seguinte, a estrutura ganhou nome. Em outubro de 2011, o PT criou núcleos de Militância em Ambientes Virtuais, mais conhecidos como MAVs, para treinar filiados a rebater notícias negativas nos comentários de portais, no Twitter e no Facebook. Estava previsto até um “manual do tuiteiro petista”.
Quando um boato sobre o fim do Bolsa Família levou uma multidão às agências da Caixa em maio de 2013, a ministra dos Direitos Humanos, Maria do Rosário, escreveu que ele “deve ser da central de notícias da oposição”. Dias depois, a Caixa admitiu que havia liberado os pagamentos antecipadamente, um dia antes do boato, e a Polícia Federal concluiu que ele surgiu de forma espontânea.
Havia também dinheiro público no ecossistema. Segundo levantamento da Folha, 13 sites alinhados ao governo, entre eles Brasil 247, Conversa Afiada e Diário do Centro do Mundo, receberam R$ 5,1 milhões em publicidade da Secom e de estatais só em 2015. Os repasses foram a zero em julho de 2016, já no governo Temer.
Em 2014, a máquina estava pronta. Em abril, o PT reuniu militantes num Camping Digital em São José dos Campos, ao custo de R$ 300 mil. Entre os palestrantes estava Jeferson Monteiro, do Dilma Bolada.
Nas mãos de Santana, a propaganda oficial fez o resto. Quando Marina Silva cresceu nas pesquisas, a campanha de Dilma pôs no ar uma peça em que a autonomia do Banco Central defendida por Marina entregava o país aos banqueiros enquanto a comida desaparecia do prato de uma família.
No dia 20 de setembro, num comício na zona sul de São Paulo, Dilma disse que o Bolsa Família “vai acabar se eles forem eleitos”. O programa de Marina previa manter o Bolsa Família e ampliá-lo.
Aécio Neves tinha apresentado no Senado, menos de um ano antes, um projeto para transformar o Bolsa Família em política de Estado. Na reta final, o TSE vetou uma inserção de Dilma que acusava Aécio de agir “em tempos ditatoriais” em Minas. Santana diria em 2020 que a peça dos banqueiros foi um “jogo metafórico” e que faria tudo de novo. Marina resumiu o episódio em 2018 – disse que não foi Donald Trump o inventor das fake news: “Foi o João Santana, na campanha da Dilma”.
Passada a eleição, o governo fez o que a campanha atribuíra aos adversários. Três dias depois do segundo turno, o Banco Central subiu os juros. No dia 30 de dezembro, duas medidas provisórias endureceram as regras da pensão por morte, do auxílio-doença, do seguro-desemprego e do abono salarial. Em 2015, a conta de luz subiu em média 51% e a inflação fechou em 10,67%, a maior desde 2002.
É verdade que a mentira também corria contra o PT. Entre 2014 e 2016, espalhou-se que um filho de Lula era dono da Friboi e que o PT trouxera haitianos para votar.
Em 2018, Jair Bolsonaro exibiu no Jornal Nacional o livro “Aparelho Sexual e Cia” como parte de um “kit gay” que o governo petista teria distribuído nas escolas. O material de combate à homofobia a que ele se referia fora suspenso em 2011, antes de chegar a qualquer escola, e o Ministério da Educação nunca comprou aquele livro.
Já no governo, em 2020, o Facebook removeu uma rede de 88 contas e páginas ligadas aos gabinetes de Jair, Flávio, Eduardo e Carlos Bolsonaro, e identificou entre os responsáveis um assessor do Palácio do Planalto, Tércio Arnaud Tomaz.
Em 2021, Bolsonaro leu numa transmissão ao vivo que vacinados contra a covid desenvolveriam AIDS “mais rápido”. Em julho de 2022, reuniu embaixadores no Palácio da Alvorada para repetir falsidades sobre as urnas, o que acabou por torná-lo inelegível.
A campanha de Lula respondeu com as mesmas armas. O TSE suspendeu, por unanimidade, uma propaganda do PT que recortava uma entrevista antiga de Bolsonaro para associá-lo ao canibalismo. Alexandre de Moraes, então presidente do tribunal, mandou a campanha de Lula e o partido apagarem 48 links que associavam Bolsonaro à pedofilia, entre eles um post da presidente do PT, Gleisi Hoffmann, por “fato sabidamente inverídico, com grave descontextualização”.
Neste ano, o PT transformou a militância digital em jogo. No dia 9 de junho, o partido lançou em Brasília o programa Porta-Vozes do Lula, uma plataforma em que os militantes recebem “missões” diárias, acumulam pontos, sobem num ranking e distribuem conteúdo em grupos de WhatsApp. O partido anunciou 50 mil inscritos na primeira semana.
É desse ecossistema que saiu o primeiro post sobre a padroeira. O criador do Dilma Bolada é o mesmo palestrante do Camping Digital de 2014.
Em março de 2023, Jeferson Monteiro foi nomeado gerente na EBC, a empresa pública de comunicação do governo federal, com salário na casa dos R$ 18 mil. Mas saiu em agosto, depois de viajar à Europa sem ter direito a férias. O presidente da EBC chamou a viagem de “injustificável”.
Entre as cartas de 1921 e a padroeira de 2026, a disposição de mentir permanece intacta. O que mudou foi o custo e a escala. A mentira já não é mais artesanal. E hoje, toma mais tempo do debate público do que as propostas dos candidatos.





