domingo, 12 de abril de 2026

USP propõe gratificação de até R$ 4,5 mil para professores; entenda como será, OESP

 Por Renata Cafardo

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Correção: 

Poli-USP tem segunda diretora mulher em 132 anos, especialista em IA

Capa do video - Poli-USP tem segunda diretora mulher em 132 anos, especialista em IA

Ela fala de como a inteligência artificial pode 'lapidar' trabalhos e do combate à cola em provas. Crédito: Renata Cafardo e Léo Souza/Estadão

Confira o resumo que a LE.IA, a IA do Estadão, fez pra você

A Universidade de São Paulo (USP) deve aprovar na semana que vem em seu conselho máximo um valor de R$ 4.500 a mais nos salários de professores que propuserem novas atividades, como uma disciplina em inglês ou trabalhos com a comunidade externa. Segundo o reitor Aluisio Segurado, a intenção é “reter talentos”, principalmente jovens docentes que ingressaram na instituição nos últimos anos com as contratações recentes.

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A Gratificação por Atividades Complementares Estratégicas (GACE) será mensal, durará dois anos e somente poderá ser pleiteada por professores que trabalham em tempo integral na USP, que representam mais de 80% do total. O salário inicial de um professor doutor em dedicação exclusiva na universidade é de R$ 16,3 mil - o adicional representaria 27% desse total.

A GACE será colocada em votação pela reitoria em reunião do Conselho Universitário no dia 31. A estimativa de gastos é de R$ 238,44 milhões por ano, caso os cerca de 5 mil docentes inscrevam projetos. Segundo a reitoria, a verba virá dos fundos de reservas da USP e não do Tesouro estadual.

“Como o valor é fixo para todos, acaba beneficiando mais ainda os jovens talentos, quem está começando na carreira”, disse ao Estadão, o reitor Segurado. Segundo ele, outro objetivo é incentivar novas propostas por parte dos docentes de atividades de extensão, que são aquelas feitas pela universidade para a comunidade não acadêmica, como cursos gratuitos para estudantes, para a terceira idade, grupos de robótica, feiras de profissões.

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Fachada do campus Ribeirão Preto da USP.
Fachada do campus Ribeirão Preto da USP. Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

Os professores que tiverem seus projetos aprovados começarão a receber os R$ 4.500 somente em 2027. A USP ainda vai publicar um edital que elenca algumas das possibilidades de atividades que podem ser oferecidas, mas elas não incluem as relacionadas ao ensino e pesquisa, já previstas no escopo de trabalho do professor.

Segurado afirmou ainda que professores que tiverem salários cujo acréscimo elevar o valor para acima do teto constitucional não receberão a gratificação toda. O teto é o limite máximo de remuneração no serviço público no Estado, hoje em cerca de R$ 36 mil, que é o salário do governador.

Para poder pagar a gratificação, a universidade terá de mudar uma resolução interna que não permitia remunerações eventuais. A mudança também será submetida ao conselho universitário.

Passado de crise e falta de professores

A USP perdeu cerca de 800 professores entre 2014 e 2023, resultado de anos de crise financeira e do período de pandemia, quando não foram autorizadas novas contratações.

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Em 2014, a crise na USP atingiu seu ápice, após anos de expansão, com abertura de novas vagas e contratações de professores. A situação financeira do País também contribuiu negativamente, já que os recursos da universidade vêm da arrecadação do ICMS do Estado - 5% para a USP. Naquele ano, mais de 106% do orçamento da instituição estavam comprometidos com a folha de pagamento, o que só melhorou em 2017.

A universidade mais conceituada do País abriu seu primeiro plano de demissão voluntária da história (de servidores técnico-administrativos), paralisou obras, consumiu quase todo seu fundo de reserva, de R$ 600 milhões. No período de crise, a USP passou a contratar professores temporários, que ficavam no cargo por cerca de 2 anos.

Universidade chegou a perder 800 docentes em crise recente.
Universidade chegou a perder 800 docentes em crise recente. Foto: TIAGO QUEIROZ/ESTADÃO

Com a recuperação financeira, em 2022, a reitoria autorizou novas contratações, de forma escalonada até 2025, mas teve de adiantar a abertura de mais vagas diante de uma greve de alunos e professores que eclodiu em 2023. Nos últimos anos, a USP acabou contratando 900 novos docentes e hoje seu fundo de reserva tem R$ 1,17 bilhão.

O Sindicato dos Trabalhadores da USP (Sintusp) publicou nota criticando a medida e dizendo que a reitoria propõe “a flexibilização dos parâmetros de sustentabilidade da USP” para dar gratificação para os professores e não há “nenhuma linha sobre funcionários, nenhuma proposta”. A entidade representa os servidores técnico-administrativos da universidade e pede um reajuste fixo de R$ 1.200 para a categoria.

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Segundo o reitor, a universidade deve anunciar em breve também propostas para a valorização da carreira dos servidores.

Ḿás noticias _ The News

 

"If it bleeds, it leads" — em tradução não literal, se tem sangue, tem audiência. É um ditado antigo nas redações de jornal e que, recentemente, ganhou um upgrade.

AI & data. Um estudo analisou mais de 105 mil variações de manchetes para entender o que realmente nos faz clicar nas notícias e adivinhe…

A negatividade é um dos maiores motores de consumo de notícias online.

A pesquisa utilizou milhões de impressões e descobriu que, quanto maior o viés negativo de uma notícia, mais ela engaja. Na prática, e em números:

  • Para uma manchete de tamanho médio, cada palavra negativa adicional aumenta a taxa de cliques em 2,3%;

  • Palavras positivas têm o efeito oposto. Cada termo mais positivo reduz a chance de clique em cerca de 1,0%;

  • Termos como ‘’errado’’, ‘’ruim’’ e ‘’terrível’’ foram os campeões de audiência, superando de longe qualquer variação com ‘’amor’’ ou ‘’lindo’’.

Mas por que clicamos no que nos assusta?

O cérebro humano é programado para priorizar estímulos negativos como uma ferramenta de sobrevivência. É uma questão biológica.

Na prática, as informações negativas ativam respostas automáticas tal como uma ameaça. Volte aos homens pré-históricos e lembre-se que saber de algo “errado” nos permite planejar e nos ajuda a evitar a dor.

Voltando ao estudo… Foi feita uma análise para entender quais sentimentos específicos movem a curiosidade da audiência.

O resultado mostra que o consumo privado (o que você lê sozinho) difere do consumo público (o que você compartilha):

Emoção

Impacto no Clique

Observação

Tristeza

+ 0,7%

Aumenta a propensão ao clique significativamente.

Alegria

- 0,9%

Reduz o interesse imediato na notícia.

Medo

- 0,7%

Ao contrário do esperado, afastou o leitor do consumo direto.

Raiva

Neutro

Move o compartilhamento social, mas não necessariamente o clique individual.

O efeito colateral 🤑

Quanto mais cliques, mais dinheiro. Ao preferirmos o tom negativo, criamos um incentivo econômico para que veículos de mídia pesem a mão no pessimismo ou no sensacionalismo.

Até o período pré-pandemia, quando a circulação de jornais impressos ainda era “uma coisa”o Super Notícias, conhecido por suas manchetes violentas na capaera o periódico de maior circulação no país — tudo bem que o preço ajudava. risos. 

Capa do Super Notícias de 20 de agosto de 2018

O fator horror também influencia bastante os temas “Governo e Economia", já que a exposição constante a manchetes negativas comprovadamente contribui para a polarização política e um sentimento de “crise permanente”.

Bottom-line: No fim do dia, o mercado de notícias não entrega o que dizemos que queremos, mas sim aquilo que o nosso cérebro instintivo não consegue parar de olhar.

Muniz Sodré - Rio de lama e seus afluentes, FSP

 Logo no início da peça "Júlio César", de Shakespeare, um vidente adverte o imperador: "Cuidado com os idos de março", 15 de março no calendário romano. Sem dar atenção à profecia, César é assassinado nesse mesmo dia. Mas não foi preciso áugure nenhum para se prever que março seria um mês ominoso no Rio de Janeiro, tendo em vista os prazos eleitorais de desincompatibilização para a alternância dos titulares no poder. Uma semana depois dos idos, o Rio ficou ao mesmo tempo sem governador, prefeito, chefe de polícia e secretariado. É a cidade do "perdeu!", uma metrópole à matroca.

Em "Águas de Março", obra-prima da canção popular, depois de avaliar pau, pedra e o fim do caminho, Tom Jobim conclui que "é a lama / é a lama". Metáfora adequada ao Rio de agora, um vórtice perigoso, com seus afluentes. No "Aleph", Borges fala de homens que parecem estar cansados da indignidade de um mundo sem perigos. Traduza-se para entre nós: um mundo que troque ousadas políticas estruturantes pela calmaria gestionária que rebaixa a representação popular ao centro e à corrupção. Não por acaso as lideranças fluminenses dos últimos anos tiveram a indigna experiência do encarceramento por peculato.

A percepção nacional que sempre se teve do Rio de Janeiro era de ordem política e cultural, não econômica. Com a transferência da Capital Federal para Brasília, a vida política provincianizou-se e, aos poucos, submergiu nas coalizões eleitorais dos caciques interioranos. Com isso não se corrompeu apenas o acesso ao erário público, mas também sobreveio aberta promiscuidade entre crime e Estado.

Homem com uniforme laranja usa mangueira para lavar rua queimada em área residencial. Carro destruído pelo fogo com grafite 'ORGANIZE' na lataria está ao fundo. Pessoas observam a cena em casas próximas.
Funcionário da Comburb lava rua com barricada perto do local onde estavam os corpos de homens que morreram durante operação da polícia no Complexo da Penha, na zona norte do Rio de Janeiro - Eduardo Anizelli - 29.out.26/Folhapress

Fragmentadas em zonas de tráfico e milícias, sujeitas à lavagem de cérebros pela máquina pentecostal, as massas eleitorais passaram a ser regidas pela lógica do pior. O senso comum carioca anestesiou-se na sensação praieira de que, se o indivíduo tem um tumor, não falar dele melhora. Não causou escândalo público a condecoração de matadores do "escritório do crime" pelo parlamentar Flávio Bolsonaro em plena penitenciária. O estado virou refém de quadrilhas e clãs criminosos.

Em princípio, cultura e turismo, que sempre responderam pelo brilho internacional do Rio, não foram afetados pela necropolítica das ruas nem pelo fascismo moral das massas, adeptas do combate ao terror pelo terror. Festeja-se a matança simultânea de 120 pessoas, com sugestões de moderação no extermínio e promessas de um megaevento, que incrementaria turismo e "cultura", definidos numa mesma chave produtiva. Mas, quando a cidade volta ser ela mesma, a palavra-chave é caos urbano.

Esse é o ciclo vicioso do Rio de sangue, em que navega o senador Flávio Bolsonaro com a fantasia de que os EUA bombardeiem a Guanabara para acabar com o crime. Assumindo o golpismo como partido, ele faz campanha em inglês ("dog English", na verdade), pregando o "delivery" da soberania brasileira ao governo norte-americano.

Isso agora, pós-idos do março ominoso. Tom Jobim está coberto de poesia e razão: "É a lama / é a lama". Nos palanques, nos palácios, em pororoca.