quarta-feira, 6 de maio de 2026

Joesley Batista ajudou a intermediar encontro entre Lula e Trump, diz agência, FSP

 Marcela Ayres

Gabriel AraújoLuciana Magalhães
Brasília e São Paulo | Reuters

O empresário Joesley Batista desempenhou um papel fundamental na organização do encontro entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump agendado para esta quinta-feira (7) em Washington, disse uma pessoa com conhecimento das negociações à agência de notícias Reuters.

Um jato da J&F, empresa da família Batista, tem um voo previsto do Colorado para Washington nesta quarta, de acordo com dados do site de rastreamento de aviões FlightAware.

Homem de meia-idade com cabelos grisalhos e ondulados, veste casaco escuro sobre camisa branca, com fundo azul turquesa desfocado.
Joesley Batista no IPO do PicPay na Bolsa de Nova York - Eduardo Munoz - 29.jan.26/Reuters

O encontro entre Lula e Trump estava sendo planejado desde janeiro, quando os dois líderes conversaram por telefone, mas havia sido deixado de lado enquanto a Casa Branca concentrava suas atenções na guerra no Irã. Na semana passada, porém, autoridades norte-americanas entraram em contato oferecendo a reunião.

O envolvimento de Joesley na intermediação da reunião ressalta o crescente poder dos líderes empresariais na definição da agenda do governo Trump.

Em janeiro, Joesley se encontrou com a líder interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, antes e depois de se reunir com autoridades norte-americanas, a quem procurou tranquilizar sobre a disposição de Caracas em abrir seu setor de petróleo e gás a investimentos.

No final do ano passado, a mesma aeronave rastreada nesta quarta a caminho de Washington havia voado para a capital da Venezuela, em meio a relatos da imprensa de que Joesley estava tentando persuadir o então ditador venezuelano, Nicolás Maduro, a renunciar.

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Uma segunda fonte confirmou que Joesley e seu irmão Wesley estão nos EUS, e acrescentou que Wesley viajou inicialmente para o Colorado. A pessoa não pôde comentar sobre o envolvimento deles nas negociações em torno do encontro entre Lula e Trump.

Procurada, a J&F disse que não vai comentar.

JBS, controlada da J&F e gigante da produção de carne, possui operações significativas nos EUA.

A Pilgrim's Pride, produtora de aves sediada nos EUA e controlada majoritariamente pela JBS, doou US$ 5 milhões ao comitê de posse de Trump em 2025, a maior contribuição individual divulgada até o momento.

Desequilíbrios voltam à pauta global, Martin Wolf - FT FSP

 "De novo? Não acabamos de ter esse debate?" É assim que começa o capítulo de abertura de uma coletânea de ensaios publicada pelo Centre for Economic Policy Research, sobre "Os Novos Desequilíbrios Globais". Sim, tivemos. Tivemos nos anos 1980, nos anos 2000 e agora, mais uma vez, nos anos 2020.

Aproximadamente a cada 20 anos, ao que parece, a questão vem à tona. Isso acontece por duas boas razões. Uma é que os desequilíbrios em conta corrente alimentam o sentimento protecionista. A outra é que são prenúncios de crise financeira.

Globo terrestre em primeiro plano mostra continentes coloridos. Ao fundo, desfocados, estão a bandeira dos Estados Unidos e o logo azul da FDA.
Globo terrestre à frente de uma bandeira dos Estados Unidos - Dado Ruvic - 13.mai.25/Reuters

Nos anos 1980, o sentimento protecionista cresceu contra o Japão, que também foi onde a crise financeira se abateu. Nos anos 2000, a era do "choque da China", o protecionismo começou a crescer contra a China e uma crise financeira atingiu o mundo ocidental. Nos anos 2020, o protecionismo já está aqui, nos Estados Unidos acima de tudo. Mas a crise financeira não —ou pelo menos ainda não.

A visão de muitos economistas hoje é que, se uma crise vier, provavelmente será deflagrada nos EUA. Assim, os autores do capítulo citado acima, Beatrice Weder di Mauro e Jeromin Zettelmeyer, afirmam que "o estoque de passivos externos do país central no sistema financeiro global já é alto e deve continuar crescendo. Ao mesmo tempo, gestores de ativos mantêm exposições cada vez mais concentradas, as avaliações de ações estão esticadas e sinais de nervosismo dos investidores estão surgindo, com maiores esforços para proteger riscos". Em outras palavras, tenha medo, tenha muito medo.

Então, quão semelhantes são as condições atuais às de duas décadas atrás? O que pode dar errado? O que deveria ser feito? Como a situação atual pode terminar?

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A resposta à primeira pergunta é que há semelhanças e diferenças.

Uma semelhança é que as principais economias superavitárias e deficitárias são as mesmas: China, países credores europeus (especialmente a Alemanha), Japão e produtores de petróleo são novamente os principais países superavitários, enquanto os EUA são o principal devedor.

Enquanto isso, o superávit reportado da China tem aproximadamente o mesmo tamanho agora em relação à economia mundial que tinha em 2008, embora represente uma parcela muito menor de seu próprio PIB porque o tamanho relativo de sua economia mais que dobrou.

Uma diferença é que os países europeus antes deficitários agora registram um pequeno superávit. Diferenças mais importantes são que os passivos líquidos dos EUA atingiram 24% do produto global em 2024, contra meros 6% em 2008, e que o setor privado americano entrou em equilíbrio. Portanto, a contrapartida doméstica de seus déficits externos hoje é o endividamento do governo dos EUA.

O que pode acabar dando errado?

Uma resposta é o protecionismo. Parte do que vemos hoje é o resultado defasado do primeiro choque da China na política americana atual, agora demonstrado na abordagem de tiro de canhão de Donald Trump em relação às tarifas. Outra é o impacto do sucesso chinês na manufatura avançada, particularmente contra a Europa.

Como Michael Pettis argumenta há muito tempo, comércio, protecionismo e finanças estão intimamente ligados. Se um país tem uma parcela extremamente baixa de consumo das famílias no PIB (40% no caso da China), também terá uma parcela enormemente alta de poupança no PIB. O excesso de poupança então precisa ser absorvido no exterior, especialmente depois que a alternativa de um boom imobiliário doméstico (como no Japão nos anos 1980 e na China nos anos 2010) colapsa.

Se um país vai exportar excesso de poupança, precisa produzir um superávit de bens comercializáveis. No caso da China, isso significa manufaturados. Em suma, o superávit comercial da China de US$ 1,2 trilhão no ano passado não é apenas produto de competitividade, mas também de seus desequilíbrios macroeconômicos.

Além disso, se a China tem enormes superávits de poupança, outros devem ter déficits compensatórios. Os EUA são o país mais digno de crédito do mundo e, portanto, naturalmente seu tomador mais seguro.

"Se algo não pode continuar para sempre, vai parar." Isso é conhecido como a lei de Stein (em homenagem ao falecido Herbert Stein). Mas se isso deve ser interrompido com sabedoria, os formuladores de políticas precisam livrar suas mentes de algumas tolices.

Uma dessas tolices é que os déficits comerciais dos EUA podem ser eliminados apenas por política comercial ou cambial. Também é necessário ajuste macroeconômico, notadamente uma redução no déficit fiscal do governo geral dos EUA, projetado pelo FMI (Fundo Monetário Internacional) em 7,5% do PIB em 2026.

Outra tolice, oposta, é a ideia de que o devedor é sempre o culpado: tudo o que é necessário é que ele reduza seus gastos, especialmente seus déficits fiscais. Esse é o credo do credor irresponsável. No caso de pequenos devedores, isso faz algum sentido. No caso dos EUA, não faz.

Se o único ajuste for o aperto fiscal dos EUA, teremos uma desaceleração global. A demanda agregada importa. Grandes economias como China e UE precisam gerar demanda doméstica suficiente para equilibrar suas próprias economias sem forçar estrangeiros a tomar empréstimos descontroladamente. Esses últimos acabarão em crises.

A última tolice é a falácia mercantilista de que o caminho para enriquecer é acumular superávits eternamente. Isso esbarra em dois perigos. O primeiro é que, mais cedo ou mais tarde, os devedores darão calote. O segundo é que, justa ou injustamente, eles também acabarão odiando os países superavitários por arruinarem suas indústrias domésticas. Isso será visto como criação de pobreza e insegurança, em múltiplas dimensões. Que a China esteja fazendo isso agora com a Alemanha é levemente divertido. Mas a diversão deve parar e a ação começar agora.

Então, o que deveria ser feito? A ação sensata seria seguir os conselhos de ajustes macroeconômicos e mudanças nas políticas comerciais e industriais oferecidos pelo FMI e por um excelente artigo recente para a cúpula do G7 em Paris. As chances de tal ação preventiva são próximas de zero. Qualquer capacidade que tínhamos de fazer isso desapareceu em uma era de populismo, nacionalismo e múltiplas loucuras. A segunda melhor opção é se preparar para uma crise. Agora é a hora de começar.