O mercado de trabalho está em transformação, e os sindicatos estão perdendo força. Com a Revolução Digital, também chamada de Quarta Revolução Industrial, há mais espaço para autônomos. Porém, com o trabalho mais individualizado, os trabalhadores estão se organizando menos: a taxa de sindicalização caiu de 16,2% em 2012 para 8,9% em 2024. Isso também foi puxado pela Reforma Trabalhista de 2017, na qual mais de 100 pontos das leis laborais foram alterados, entre os quais, o fim da obrigatoriedade da contribuição sindical anual.
Além disso, houve a introdução do princípio da prevalência do negociado sobre o legislado, isto é, acordos e convenções coletivas de trabalho podem se sobrepor à CLT em temas específicos, visando maior flexibilidade. Como outro efeito, a arrecadação das entidades despencou de mais de R$ 3 bilhões em 2017 para R$ 57,7 milhões em 2024, queda de 98%. O contexto atual também aponta para alta informalidade, em cerca de 37,3% no trimestre encerrado em março deste ano. Ainda assim, segundo o IBGE, são quase 40 milhões de pessoas que trabalham no regime CLT no setor privado.
“A realidade nas relações de trabalho se mostra cada vez mais precarizada. Questões como a crescente ‘terceirização’, ‘pejotização’, trabalhos por aplicativos e ‘MEIs’, têm dominado o mercado de trabalho e colocado os trabalhadores cada vez mais à beira da informalidade”, é o diagnóstico de Marco Antônio Mota, sociólogo e assessor da Federação dos Metalúrgicos do Estado de São Paulo. Para ele, no setor produtivo ainda é possível manter estruturas trabalhistas mais convencionais da CLT, mesmo assim entende que as relações trabalhistas estão dificultando a organização dos trabalhadores.
Os dados mostram que a sindicalização é mais forte nas regiões Sudeste e Sul do país. O Sudeste segue sendo o maior parque industrial e urbano do país. Tradicionalmente, segmentos com alta sindicalização incluem metalurgia, bancários, comerciários, petroleiros, professores e funcionários públicos. Por outro lado, setores terciários informais e pequenas empresas têm baixa representação. Em 2026, o Brasil mantém cerca de 17 mil sindicatos ativos, o que equivale a aproximadamente um por categoria e município.
Contexto econômico
Foi em um cenário de recessão que o então presidente Michel Temer (MDB) propôs uma Reforma Trabalhista para, em tese, facilitar a contratação e flexibilizar as leis de trabalho. Na época, cerca de 13% da população ativa estava sem emprego. No trimestre encerrado em março de 2026, esse número é de apenas 6,1%. Não é possível, no entanto, fazer uma relação causal obrigatória entre a reforma e a diminuição do desemprego. Seus efeitos diretos são ainda de difícil mensuração, já que desde sua implementação, aconteceu uma pandemia, sucessivos conflitos bélicos com impactos econômicos difusos para o Brasil e mudanças de governo (de Temer para Bolsonaro e então para Lula). Nesse meio tempo, a uberização ganhou força.
Se de um lado é uma saída rápida e flexível para gerar renda a um trabalhador, por outro, cria uma forma de trabalho sem vínculo direto entre empregado e empregador, além de uma seguridade social muito reduzida. O clássico exemplo do “engenheiro que virou motorista de Uber” é um sintoma de uma economia estruturalmente pouco complexa, e que apesar de ter ampliado o acesso ao ensino superior, não pôde fornecer a essas pessoas com diploma a garantia de um bom emprego.
Além da uberização, há a pejotização, prática de contratar trabalhadores como pessoa jurídica (PJ), e não como empregados formais. O profissional passa a prestar serviços como empresa, abrindo mão de direitos como 13º salário e FGTS. Empresas costumam adotar esse modelo para reduzir custos e ganhar flexibilidade, enquanto trabalhadores podem se atrair pela possibilidade de maior renda líquida.
E a inteligência artificial vem redesenhando o mundo do trabalho. Se a IA será mais uma ferramenta de auxílio aos empregados ou um grande carrasco responsável por diminuir os postos de trabalho, é cedo dizer. Mas seus usos já são sentidos na maioria dos setores. Mesmo na metalúrgica, como conta Marco Mota. “Postos de trabalho que envolvem a estrutura organizacional de muitas empresas do setor sequer existem mais. Os sindicatos têm pautado esta questão de forma bastante tímida na medida em que sabem ser impossível ‘segurar’ avanços tecnológicos”.
Cinto apertado
Um dos pontos mais famosos da reforma, no entanto, foi o referido fim da obrigatoriedade do Imposto Sindical. Antes, o valor de um dia de trabalho era descontado na folha de pagamento e repassado às entidades trabalhistas. Com a já referida diminuição da arrecadação dos sindicatos, a correlação de forças mudou. Mas mesmo dentro das organizações, esse imposto não era unanimidade. Mota lembra que o assunto é “complexo”, apesar de reconhecer o impacto da não obrigatoriedade para as entidades. “Sindicatos realmente atuantes, que também sofreram e ainda sofrem com a perda de arrecadação, têm encontrado formas de sobrevivência e reconhecimento da categoria representada na necessidade de contribuições financeiras para sua existência e atuação em suas bases”.
André Mancha, PhD em Economia pelo Insper e Professor da FEA-USP, lembra que a contribuição compulsória criava um problema de seleção adversa: “independentemente dos resultados obtidos nas negociações coletivas, todas as entidades faziam jus ao repasse automático. Isso gerava incentivos à manutenção de sindicatos com baixíssima entrega efetiva aos trabalhadores”. Do ponto de vista econômico, em tese, entidades com mais entregas tendem a ser mais resilientes. Também nesse sentido, Mancha entende a diminuição do número de sindicatos como uma “correção” em relação a um nível “artificialmente inflado pela obrigatoriedade da contribuição”. O economista ainda cita a Finlândia e a Dinamarca como exemplos de países que sustentam taxas elevadas de sindicalização sem obrigatoriedade.
Se o contexto brasileiro é complexo, com o Brasil registrando índices de desocupação em mínimas históricas, o país ainda enfrenta o desafio de lidar com a precariedade e a informalidade que colocam em risco a sustentabilidade da previdência, lembra ele. O debate sobre a qualidade do emprego exige distinguir quem opta pela informalidade em busca de flexibilidade daqueles que permanecem nela por falta de opções. Cabe ao Poder Público, avalia o especialista, investir na transparência sobre as vantagens de cada regime e facilitar o acesso à seguridade social para autônomos e profissionais de aplicativos. “A regulamentação recente do trabalho por aplicativos é um passo nessa direção, ainda que o debate sobre seu desenho ótimo esteja longe de encerrado”, conclui.
Sindicatos e desenvolvimento
Segundo o historiador e cientista político Leandro Torelli, os sindicatos estão associados à história do desenvolvimento brasileiro. Ele lembra que os direitos trabalhistas da Era Vargas não foram resultado da “bondade” do líder, mas “efetivamente de um movimento social que se estrutura no bojo do processo de industrialização brasileiro”. Apesar disso, ressalta que, durante a ditadura do Estado Novo, o sindicalismo acabou sendo submetido ao regime corporativista de Estado, algo que se manteve mesmo em períodos democráticos. Ainda assim, segundo o historiador, o movimento sindical brasileiro sempre teve a sua atuação autônoma.
Já André Mancha, entende que o protagonismo dos sindicatos ocorreu na década de 1980, com papel central no processo de redemocratização. “As grandes mobilizações daquele período foram decisivas para pautar a recomposição do poder de compra dos trabalhadores e a garantia de direitos trabalhistas após longa repressão às manifestações populares”.
Mancha diz não ser possível subestimar a relevância do movimento sindical naquele contexto, marcado por sucessivos planos malsucedidos de estabilização e por uma inflação crônica. Mas com a estabilidade trazida pelo Plano Real e a consolidação democrática, “houve um redirecionamento gradual do foco sindical: de uma atuação política mais combativa para uma preocupação crescente com a prestação de serviços aos associados, como suporte jurídico e negociação de benefícios”.
Vale lembrar que, em paralelo aos sindicatos, existem os conselhos profissionais, que são órgãos públicos criados por lei, com função de regulamentar e fiscalizar o exercício de cada profissão. Diferentemente das entidades sindicais, que representam interesses trabalhistas e negociam salários e condições de trabalho, os conselhos atuam como autarquias, com poder de fiscalização e disciplina sobre a atividade profissional, cobrando anuidades obrigatórias dos inscritos. O Brasil conta com aproximadamente 557 conselhos, entre federais e regionais.
Entre protestos e morte
Aliás, no dia de ontem, foi celebrado o feriado do Dia do Trabalhador. A data tem origem em uma série de protestos em Chicago, nos Estados Unidos, em 1886. Trabalhadores organizados, em sua maioria anarquistas, exigiam o fim da jornada de trabalho de 18 horas e buscavam as hoje comuns 8 horas. Entre 1º e 3 de maio, as manifestações se tornaram violentas. Um policial e uma dezena de trabalhadores morreram nos confrontos ou foram posteriormente condenados à morte por conspiração.
Em 1º de maio de 1889, a Segunda Internacional Socialista, em Paris, organizou uma grande manifestação em homenagem aos mortos de Chicago e, nos anos seguintes, a data foi sendo adotada por mais e mais países. Uma exceção são os Estados Unidos. Em 1894, o presidente Grover Cleveland decretou que o Dia do Trabalho seria comemorado na primeira segunda-feira de setembro, como forma de dissociar a data dos movimentos trabalhistas.
Aqui no Brasil, essa data é um feriado desde 1924, sob o governo de Artur Bernardes, mas só foi ganhar relevância na década seguinte. Getúlio Vargas se apropriou do feriado, alterou o nome de “Dia do Trabalhador” para “Dia do Trabalho”, marcado por grandes manifestações organizadas pelo Estado, e o usou para anunciar a criação do salário-mínimo, em 1940, e da CLT, em 1943.