terça-feira, 28 de abril de 2026

Projetos ecléticos de Ramos de Azevedo definiram paisagem do centro de SP, FSP

 

São Paulo

A última boa nova sobre o arquiteto Francisco de Paula Ramos de Azevedo (1851-1928) é a imediata restauração de um de seus prédios. Ele fica na rua Roberto Simonsen, 97, bem perto do Pateo do Collegio, no centro de São Paulo.

É uma esplêndida construção que ficou esquecida e abandonada por muitas décadas. Nem se tinha certeza de que se tratava de um projeto de sua lavra. Agora, o empresário Allan Ruiz, que o adquiriu recentemente, promete dar vida a ele e pretende transformá-lo em um espaço cultural.

O legado de Ramos de Azevedo é inestimável, não se esgota e ainda guarda esse tipo de surpresa. Seu escritório na rua Boa Vista, onde chegaram a atuar cerca de 500 funcionários, teve uma impressionante atividade justamente quando São Paulo começava a se transformar em uma metrópole. Esse trabalho arquitetônico foi decisivo para definir a paisagem da cidade cem anos atrás.

Vista aérea do Museu do Ipiranga em São Paulo com painéis solares instalados no telhado. O prédio histórico está cercado por árvores e ruas urbanas, com prédios altos ao fundo sob céu parcialmente nublado.
Pinacoteca de São Paulo, antigo Liceu de Artes e Ofícios, que foi dirigido por Ramos de Azevedo - Eduardo Knapp/Folhapress

O incrível é que São Paulo passou por uma transformação devastadora de lá para cá, mas muitos de seus projetos sobreviveram e hoje compõem uma boa parte do patrimônio histórico da região central. Seguem de pé para serem admirados e cultuados.

Essa resistência deve-se à solidez, imponência e beleza de suas obras. Projetadas em estilo eclético com forte influência francesa e clássica, tinham escala palaciana e foram erguidas para durar, com técnicas construtivas avançadas, materiais de excelente qualidade e mão de obra qualificada, frequentemente formada no Liceu de Artes e Ofícios, dirigido por ele. Outra razão para essa permanência centenária é que muitas foram feitas para uso público, uma garantia de continuidade da utilização e ocupação ao longo do tempo.

Quatro janelas altas com vitrais coloridos emolduradas por parede de tijolos aparentes. A luz natural entra pelas janelas, iluminando parcialmente o chão escuro.
Interior do prédio projetado por Ramos de Azevedo e comprado pelo empresário Allan Ruiz - Danilo Verpa/Folhapress

Na sua época, Ramos de Azevedo foi uma espécie de arquiteto oficial da cidade. Todos queriam seus projetos. Sua lista de construções emblemáticas começa no Theatro Municipal, passa pelo próprio Liceu de Artes e Ofícios (atual Pinacoteca) e chega em construções como o Palácio das Indústrias, o Mercadão, o Arquivo Municipal (prédio que leva seu nome), o Palácio dos Correios, o Palácio da Justiça, o Batalhão Tobias de Aguiar, o colégio Caetano de Campos, o Hospital do Juquery e a Faculdade de Medicina da USP.

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Entre 1886 e 1928, Ramos de Azevedo realizou mais de 30 grandes projetos no centro da São Paulo. Seu escritório ganhou inúmeras licitações e, inclusive, conquistou muitas obras em Campinas, terra de sua família onde ele cresceu e começou na profissão, depois de se formar em Gante, na Bélgica. Também fez alguns trabalhos em outras cidades, como Santos e Rio de Janeiro.

Seu escritório projetou dezenas de residências luxuosas para membros da elite cafeeira, sendo responsável por mais de dez mansões na avenida Paulista. A que restou foi a Casa das Rosas. Seu toque de gênio também pode ser admirado nos casarões Santos Dumont, na rua Cleveland, e da Don'Anna, na rua Guainases, ambos nos Campos Elíseos.

Retrato de Ramos de Azevedo
Quadro de Oscar Pereira da Silva mostra Ramos de Azevedo no seu escritório, na rua Boa Vista - Domínio Público

O palacete amarelo agora revelado na rua Roberto Simonsen foi projetado em 1916 para abrigar a Sociedade de Medicina e Cirurgia de São Paulo e a Policlínica, que ocuparam o local até 1939, quando uma crise financeira as abalou.

Desde então teve diversos proprietários, até deixar de ter uso contínuo. Passou por pelo menos uma restauração da fachada, mas precisa ser recuperado. O Conpresp (Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo) tombou o imóvel em 2015.

Prova do grande interesse que Ramos de Azevedo desperta na população foi uma visita guiada ao prédio promovida pelo canal @area.central.sp no último sábado (25). Mais de 500 pessoas participaram. E se maravilharam com o que viram.

A universidade só muda quando o custo de não mudar se torna insustentável, João Pereira Coutinho - FSP

 Houve um tempo em que o mundo olhava com admiração para a universidade. Esse mundo está desaparecendo.

Um relatório recente da Universidade Yale faz um diagnóstico sombrio sobre o estado da instituição. As conclusões do estudo podem ser aplicadas, sem esforço, a outros países que enfrentam problemas semelhantes.

Basicamente, há uma queda de confiança dos americanos no ensino superior. Em 2014, 57% confiavam no sistema; em 2024, o número desceu para 36% —um mínimo histórico. Não é de admirar que 70% afirmem que a universidade está "no caminho errado".

Três razões explicam esses números: custo, admissões e conformidade ideológica. A inflação das notas também contribui para o desânimo: classificações máximas para talentos mínimos são uma praga que corrói qualquer pretensão de seriedade intelectual. Mas não vamos nos perder nisso.

"Um capelo, chapéu usado por formandos, sendo usado como mesinha, com um cinzeiro e uma caneca em cima."
Angelo Abu/Folhapress

Imaginemos, antes, um pai de família que sonha em dar ao filho uma educação de excelência. Confrontado com a realidade, pergunta-se: vale a pena pagar mensalidades altíssimas quando o retorno, em certas áreas científicas, nem sequer está garantido?

Vale a pena confiar num processo de admissão opaco e injusto, que muitas vezes favorece os mais ricos ou os filhos de ex-alunos influentes?

E quem, em sã consciência, enviaria o filho para centros de doutrinação agressiva onde o ressentimento antiocidental ocupa o lugar do conhecimento? Pior: ambientes em que a liberdade de expressão pode ser uma sentença de morte acadêmica?

O relatório, em tom nostálgico, cita o historiador C. Vann Woodward, professor da casa, que defendia: a universidade existe para garantir "o direito de pensar o impensável, discutir o indizível e desafiar o indiscutível". Risadas?

Hoje, o aluno médio de Yale e de outras instituições espalhadas pelo Ocidente olha para essas palavras como um "convite para uma decapitação" —obrigado, Nabokov. No caso, a sua.

Em Yale, quase um terço dos estudantes não se sente livre para expressar as suas opiniões —o dobro de há uma década. O desconforto é ainda maior entre os estudantes mais conservadores.

É compreensível: nos Estados Unidos, professores que se identificam como democratas superam os republicanos numa proporção de cerca de 10 para 1. Em Yale, pode chegar a 30 para 1.

Diante de um diagnóstico tão severo, os autores propõem, sem surpresa, uma reversão das más práticas: defender a liberdade de pensamento, promover o pluralismo interno, tornar o sistema de admissões mais transparente, e assim por diante. A ideia é esperar que a mudança venha de dentro, antes que seja tarde demais.

É uma ideia interessante, porém romântica: a universidade raramente muda por vontade própria. A história ensina o contrário: ela só muda quando o custo de não mudar se torna insustentável.

Na Idade Média, a universidade era um prolongamento da igreja, servindo um mundo em que a visão religiosa era dominante. Quando esse mundo passou a exigir juristas ou administradores para a edificação do Estado moderno, a velha escolástica cedeu espaço a estudos mais pragmáticos do direito.

As grandes navegações ibéricas revalorizaram a matemática e a física —antecâmara da revolução científica dos séculos 17 e 18. A universidade, relutantemente, adaptou-se.

E continuou se adaptando com o Iluminismo, o modelo humboldtiano —que privilegia a produção, não apenas a transmissão, de conhecimento— até chegarmos à rivalidade da Guerra Fria, motor de avanços científicos e tecnológicos do século 20.

Posso não ter simpatias marxistas, mas há momentos em que a "estrutura", de fato, condiciona a "superestrutura". Não foi o amor à verdade que agitou a rigidez dogmática das universidades. Foi o mundo ao redor. Esse mundo continua falando —e hoje tem dúvidas sobre o custo, a transparência e o papel da universidade.

Quando essas dúvidas se traduzirem em perda real de alunos, redução de financiamento, desvalorização dos diplomas e concorrência de novos modelos de formação, a universidade será novamente obrigada a se repensar.

Mais uma vez, não será por amor ao debate livre que os docentes mais fanáticos mudarão de atitude. Será quando os próprios salários estiverem em risco. Nada promove mais a tolerância do que a intolerância da conta bancária.

Os problemas que o relatório de Yale identifica são, ironicamente, possibilidades de salvação. As universidades não sobrevivem apenas pelas suas virtudes, mas também pelos seus vícios. Quando estes se tornam caros demais para ignorar, entra em cena a velha lei darwinista: adaptação —ou extinção.

domingo, 26 de abril de 2026

A pandemia no Brasil - alguns números que você ainda não conhecia. OESP

 

Continuando a minha série sobre a pandemia, hoje vou falar especificamente sobre alguns indicadores no Brasil no intervalo de 2020 a 2023.

Começando com um gráfico de óbitos semanais por covid:

Tivemos três grandes ondas:

  • A primeira em meados de 2020;
  • A segunda (a pior de todas) em abril de 2021;
  • E a terceira na virada para 2022.

No pior momento, nós chegamos a ter mais de 20 mil óbitos por semana!

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Paciente em leito de UTI em São Paulo; foram mais de 700 mil óbitos registrados como covid no Brasil.
Paciente em leito de UTI em São Paulo; foram mais de 700 mil óbitos registrados como covid no Brasil. Foto: Daniel Teixeira/Estadão

Ao contrário do que alguns que negam a gravidade da pandemia dizem, as demais causas de óbito ficaram praticamente sem alteração. Vejam aqui que aquelas histórias de alguém que morreu porque explodiu um pneu e foi registrado como covid simplesmente não geraram alteração nos registros por causas externas. Em causas naturais, não sumiu dengue nem causa alguma – todas continuaram lá.

Nesse período, foram mais de 700 mil óbitos registrados como covid, mas tem algo além que é pouco falado no Brasil: o excesso de óbitos. É o total de óbitos subtraído dos óbitos esperados pela série histórica. E vejam que esse excesso de óbitos é próximo de 900 mil, maior que o registrado como covid, o que indica que houve subnotificação (o oposto daquilo que os que negam a pandemia dizem).

Os 700 mil mortos por covid são um número tão alto que perdemos a referência do que significa. Vou colocar em perspectiva com duas das maiores causas de óbitos:

  • Infarto, com 379 mil óbitos neste intervalo;
  • Diabetes, com 300 mil óbitos.

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Somando ambas as causas ao longo de todos os 4 anos entre 2020 e 2023, ainda não chega ao número de mortes por covid. Ou, se considerarmos apenas o intervalo entre março de 2020 e março de 2023, a covid matou mais que a soma de TODOS os tumores. Nunca houve nada parecido em saúde pública em toda a história documentada do Brasil.

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Um outro ponto sobre o qual pouco se falou foi a influência da idade nas taxas de mortalidade médias por Estados e municípios. No gráfico a seguir, que contém todos os municípios acima de 100 mil habitantes, percebe-se que há uma correlação entre maior porcentagem de população idosa e taxa de óbitos por covid.

Isso significa que as taxas que constam nos painéis comparam entes muito distintos entre si (vale tanto para municípios quanto para Estados). Mas há uma maneira de corrigir isto.

Aqui comparo a taxa de mortalidade crua, sem ajuste, com a taxa de mortalidade ajustada por idade, na qual se usa uma ponderação baseada na distribuição etária da população brasileira.

Com isso, há uma alteração significativa no ranking de mortalidade dos Estados:

  • Vários Estados da região Norte têm um índice padronizado muito maior que o cru - principalmente o Amazonas, que sai de menos de 4.000 para mais de 6.000 por milhão.
  • O Rio de Janeiro, que era o Estado que nominalmente tinha a taxa mais alta, passa a ser o oitavo – devido à sua população relativamente mais idosa. Minas e Rio Grande do Sul também caem no ranking devido a este mesmo fator.
  • Já o Maranhão, que no índice não ajustado aparecia com a taxa mais baixa, sobe duas posições.

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Considerando isto, chegamos a esse mapa, no qual alguns Estados do Norte e Centro-Oeste destoam muito do restante do Brasil. E a Bahia, por outro lado, com a taxa mais baixa do país (lembrando novamente que é o índice ajustado por idade).

Um fator que eu gostaria muito de analisar seria o excesso de óbitos por Estado. Por quê? É bem possível que alguns Estados tenham registrado melhor seus óbitos por covid que outros, então pode ser que existam taxas de subnotificação maiores em alguns Estados – ou, em outras palavras, diferenças na qualidade dos dados. É algo que infelizmente ainda não está disponível e demandará análises minuciosas dos dados – mas espero eu que não seja esquecido do debate público.

Se vocês lembram da coluna semana passada, hoje tampouco vou comentar sobre os casos de covid porque aqui no Brasil tivemos uma política de testagem deficiente e mal documentada.

Ainda existe muito a estudar sobre os indicadores comparando Estados e municípios entre si e gerar conhecimento que nos capacite para uma possível nova pandemia no futuro. E, falando nisso, na próxima semana, na terceira parte desse especial sobre a pandemia, eu vou comentar sobre alguns aprendizados da pandemia. Até a próxima.