segunda-feira, 11 de maio de 2026

Governo de SP aplica multa recorde de R$ 1 bi à Fast Shop por fraude tributária, FSP

 

São Paulo

A rede varejista Fast Shop foi condenada pelo governo de São Paulo a pagar R$ 1,04 bilhão por corrupção, fraude tributária e obtenção irregular de créditos do ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços) em um esquema investigado pela Operação Ícaro, conduzida pelo Ministério Público paulista. A penalidade é a maior já aplicada no país com base na Lei Anticorrupção.

A condenação foi publicada no Diário Oficial do Estado desta segunda-feira (11) e assinada pelo corregedor-geral do Estado, Marcos Lindenmayer. Além da multa bilionária, a empresa terá de publicar a condenação em jornal de grande circulação, manter aviso em destaque em seu site por 45 dias e afixar edital em sua sede pelo mesmo período.

Procurada pela Folha por email às 8h24, a Fast Shop não se manifestou até o momento.

A imagem mostra a entrada de uma loja chamada Fast Shop, com um grande letreiro em destaque. O letreiro é composto pelas palavras 'FAST' em letras grandes e vermelhas, e 'SHOP' em letras menores e azuis. Ao fundo, é possível ver o interior da loja, que possui expositores de produtos eletrônicos e algumas pessoas dentro. O piso é de mármore e reflete a luz.
Unidade da Fast Shop - Silvia Costanti/Agência O Globo

Segundo as investigações, a Fast Shop pagou propinas para obter acesso privilegiado a informações fiscais e acelerar a homologação de créditos tributários de ICMS superiores aos que teria direito. A CGE (Controladoria-Geral do Estado) concluiu que a companhia obteve vantagem indevida de R$ 1,04 bilhão. O valor do dano efetivo aos cofres públicos ainda será calculado pela Sefaz-SP (Secretaria da Fazenda de São Paulo) após auditorias.

A condenação administrativa decorre dos desdobramentos da Operação Ícaro, deflagrada pelo Ministério Público de São Paulo em agosto de 2025 para investigar um esquema de corrupção envolvendo auditores fiscais da Fazenda estadual e grandes empresas do varejo. As investigações apontam que servidores públicos recebiam propina para facilitar ressarcimentos tributários milionários de ICMS.

Em acordos de não persecução penal firmados com a promotoria para não responder a um processo criminal, os sócios-proprietários da Fast Shop, Milton Kazuyuki Kakumoto e Júlio Atsushi Kakumoto, e o diretor da rede, Mario Otávio Gomes, assumiram o envolvimento em um dos maiores esquemas de corrupção tributária ligado a auditores da Sefaz-SP. Juntos, eles se comprometeram a restituir R$ 100 milhões aos cofres públicos.

Recentemente, a varejista renegociou o pagamento em acordo com o Ministério Público. Em troca, entregou mais informações sobre o esquema que desviou bilhões do estado por meio de servidores da Sefaz-SP.

De acordo com depoimento de Gomes ao Gedec (Grupo de Atuação Especial de Recuperação de Ativos e Repressão aos Crimes de Formação de Cartel e Lavagem de Dinheiro), entre 2021 e 2025, a Fast Shop teria recebido mais de R$ 1,5 bilhão em ressarcimentos de ICMS. Deste montante, R$ 1,04 bilhão teria sido inflado de forma indevida pelo auditor Silva Neto. Apenas R$ 553 milhões seriam de créditos aos quais a empresa de fato teria direito.

O mecanismo de créditos de ICMS permite às empresas abaterem o imposto pago na compra de mercadorias e insumos, evitando a cobrança em cascata ao longo da cadeia produtiva. A empresa registra o valor do ICMS na nota fiscal de compra e, na apuração mensal, esse valor é descontado do ICMS devido nas vendas.

Deflagrada em 12 de agosto, a Operação Ícaro desmantelou uma suposta rede de propinas organizada pelo auditor fiscal Artur Silva Neto, que atuava para acelerar e inflar o ressarcimento de créditos de ICMS para grandes varejistas. O esquema começado em maio de 2021 e durado, pelo menos, até junho deste ano.

dono da Ultrafarma, Sidney Oliveira, chegou a ser preso temporariamente na Operação Ícaro durante a investigação e responde por crime de corrupção em uma ação penal.

No dia 29 do mês passado, a Sefaz-SP anunciou a demissão de cinco auditores fiscais envolvidos em irregularidades. Ao todo 61 procedimentos administrativos estão em aberto, dentre eles 11 disciplinares em andamento, 37 apurações preliminares para investigar desvios de conduta e cinco processos estão em fase avançada e podem resultar em novas demissões. A secretaria diz ainda que novas apurações podem ser instaladas conforme o avanço das investigações.

Silva Neto, apontado como mentor da estrutura de liberação irregular de créditos tributários enquanto ocupava o cargo supervisor fiscal da Diretoria de Fiscalização (Difis), foi exonerado em agosto do ano passado e segue preso preventivamente no interior de São Paulo.

Mais trabalho, menos sindicatos Por Caio Mello. MEIO

 

O mercado de trabalho está em transformação, e os sindicatos estão perdendo força. Com a Revolução Digital, também chamada de Quarta Revolução Industrial, há mais espaço para autônomos. Porém, com o trabalho mais individualizado, os trabalhadores estão se organizando menos: a taxa de sindicalização caiu de 16,2% em 2012 para 8,9% em 2024. Isso também foi puxado pela Reforma Trabalhista de 2017, na qual mais de 100 pontos das leis laborais foram alterados, entre os quais, o fim da obrigatoriedade da contribuição sindical anual.

Além disso, houve a introdução do princípio da prevalência do negociado sobre o legislado, isto é, acordos e convenções coletivas de trabalho podem se sobrepor à CLT em temas específicos, visando maior flexibilidade. Como outro efeito, a arrecadação das entidades despencou de mais de R$ 3 bilhões em 2017 para R$ 57,7 milhões em 2024, queda de 98%. O contexto atual também aponta para alta informalidade, em cerca de 37,3% no trimestre encerrado em março deste ano. Ainda assim, segundo o IBGE, são quase 40 milhões de pessoas que trabalham no regime CLT no setor privado.

“A realidade nas relações de trabalho se mostra cada vez mais precarizada. Questões como a crescente ‘terceirização’, ‘pejotização’, trabalhos por aplicativos e ‘MEIs’, têm dominado o mercado de trabalho e colocado os trabalhadores cada vez mais à beira da informalidade”, é o diagnóstico de Marco Antônio Mota, sociólogo e assessor da Federação dos Metalúrgicos do Estado de São Paulo. Para ele, no setor produtivo ainda é possível manter estruturas trabalhistas mais convencionais da CLT, mesmo assim entende que as relações trabalhistas estão dificultando a organização dos trabalhadores.

Os dados mostram que a sindicalização é mais forte nas regiões Sudeste e Sul do país. O Sudeste segue sendo o maior parque industrial e urbano do país. Tradicionalmente, segmentos com alta sindicalização incluem metalurgia, bancários, comerciários, petroleiros, professores e funcionários públicos. Por outro lado, setores terciários informais e pequenas empresas têm baixa representação. Em 2026, o Brasil mantém cerca de 17 mil sindicatos ativos, o que equivale a aproximadamente um por categoria e município.

Contexto econômico

Foi em um cenário de recessão que o então presidente Michel Temer (MDB) propôs uma Reforma Trabalhista para, em tese, facilitar a contratação e flexibilizar as leis de trabalho. Na época, cerca de 13% da população ativa estava sem emprego. No trimestre encerrado em março de 2026, esse número é de apenas 6,1%. Não é possível, no entanto, fazer uma relação causal obrigatória entre a reforma e a diminuição do desemprego. Seus efeitos diretos são ainda de difícil mensuração, já que desde sua implementação, aconteceu uma pandemia, sucessivos conflitos bélicos com impactos econômicos difusos para o Brasil e mudanças de governo (de Temer para Bolsonaro e então para Lula). Nesse meio tempo, a uberização ganhou força.

Se de um lado é uma saída rápida e flexível para gerar renda a um trabalhador, por outro, cria uma forma de trabalho sem vínculo direto entre empregado e empregador, além de uma seguridade social muito reduzida. O clássico exemplo do “engenheiro que virou motorista de Uber” é um sintoma de uma economia estruturalmente pouco complexa, e que apesar de ter ampliado o acesso ao ensino superior, não pôde fornecer a essas pessoas com diploma a garantia de um bom emprego.

Além da uberização, há a pejotização, prática de contratar trabalhadores como pessoa jurídica (PJ), e não como empregados formais. O profissional passa a prestar serviços como empresa, abrindo mão de direitos como 13º salário e FGTS. Empresas costumam adotar esse modelo para reduzir custos e ganhar flexibilidade, enquanto trabalhadores podem se atrair pela possibilidade de maior renda líquida.

E a inteligência artificial vem redesenhando o mundo do trabalho. Se a IA será mais uma ferramenta de auxílio aos empregados ou um grande carrasco responsável por diminuir os postos de trabalho, é cedo dizer. Mas seus usos já são sentidos na maioria dos setores. Mesmo na metalúrgica, como conta Marco Mota. “Postos de trabalho que envolvem a estrutura organizacional de muitas empresas do setor sequer existem mais. Os sindicatos têm pautado esta questão de forma bastante tímida na medida em que sabem ser impossível ‘segurar’ avanços tecnológicos”.

Cinto apertado

Um dos pontos mais famosos da reforma, no entanto, foi o referido fim da obrigatoriedade do Imposto Sindical. Antes, o valor de um dia de trabalho era descontado na folha de pagamento e repassado às entidades trabalhistas. Com a já referida diminuição da arrecadação dos sindicatos, a correlação de forças mudou. Mas mesmo dentro das organizações, esse imposto não era unanimidade. Mota lembra que o assunto é “complexo”, apesar de reconhecer o impacto da não obrigatoriedade para as entidades. “Sindicatos realmente atuantes, que também sofreram e ainda sofrem com a perda de arrecadação, têm encontrado formas de sobrevivência e reconhecimento da categoria representada na necessidade de contribuições financeiras para sua existência e atuação em suas bases”.

André Mancha, PhD em Economia pelo Insper e Professor da FEA-USP, lembra que a contribuição compulsória criava um problema de seleção adversa: “independentemente dos resultados obtidos nas negociações coletivas, todas as entidades faziam jus ao repasse automático. Isso gerava incentivos à manutenção de sindicatos com baixíssima entrega efetiva aos trabalhadores”. Do ponto de vista econômico, em tese, entidades com mais entregas tendem a ser mais resilientes. Também nesse sentido, Mancha entende a diminuição do número de sindicatos como uma “correção” em relação a um nível “artificialmente inflado pela obrigatoriedade da contribuição”. O economista ainda cita a Finlândia e a Dinamarca como exemplos de países que sustentam taxas elevadas de sindicalização sem obrigatoriedade.

Se o contexto brasileiro é complexo, com o Brasil registrando índices de desocupação em mínimas históricas, o país ainda enfrenta o desafio de lidar com a precariedade e a informalidade que colocam em risco a sustentabilidade da previdência, lembra ele. O debate sobre a qualidade do emprego exige distinguir quem opta pela informalidade em busca de flexibilidade daqueles que permanecem nela por falta de opções. Cabe ao Poder Público, avalia o especialista, investir na transparência sobre as vantagens de cada regime e facilitar o acesso à seguridade social para autônomos e profissionais de aplicativos. “A regulamentação recente do trabalho por aplicativos é um passo nessa direção, ainda que o debate sobre seu desenho ótimo esteja longe de encerrado”, conclui.

Sindicatos e desenvolvimento

Segundo o historiador e cientista político Leandro Torelli, os sindicatos estão associados à história do desenvolvimento brasileiro. Ele lembra que os direitos trabalhistas da Era Vargas não foram resultado da “bondade” do líder, mas “efetivamente de um movimento social que se estrutura no bojo do processo de industrialização brasileiro”. Apesar disso, ressalta que, durante a ditadura do Estado Novo, o sindicalismo acabou sendo submetido ao regime corporativista de Estado, algo que se manteve mesmo em períodos democráticos. Ainda assim, segundo o historiador, o movimento sindical brasileiro sempre teve a sua atuação autônoma.

Já André Mancha, entende que o protagonismo dos sindicatos ocorreu na década de 1980, com papel central no processo de redemocratização. “As grandes mobilizações daquele período foram decisivas para pautar a recomposição do poder de compra dos trabalhadores e a garantia de direitos trabalhistas após longa repressão às manifestações populares”.

Mancha diz não ser possível subestimar a relevância do movimento sindical naquele contexto, marcado por sucessivos planos malsucedidos de estabilização e por uma inflação crônica. Mas com a estabilidade trazida pelo Plano Real e a consolidação democrática, “houve um redirecionamento gradual do foco sindical: de uma atuação política mais combativa para uma preocupação crescente com a prestação de serviços aos associados, como suporte jurídico e negociação de benefícios”.

Vale lembrar que, em paralelo aos sindicatos, existem os conselhos profissionais, que são órgãos públicos criados por lei, com função de regulamentar e fiscalizar o exercício de cada profissão. Diferentemente das entidades sindicais, que representam interesses trabalhistas e negociam salários e condições de trabalho, os conselhos atuam como autarquias, com poder de fiscalização e disciplina sobre a atividade profissional, cobrando anuidades obrigatórias dos inscritos. O Brasil conta com aproximadamente 557 conselhos, entre federais e regionais.

Entre protestos e morte

Aliás, no dia de ontem, foi celebrado o feriado do Dia do Trabalhador. A data tem origem em uma série de protestos em Chicago, nos Estados Unidos, em 1886. Trabalhadores organizados, em sua maioria anarquistas, exigiam o fim da jornada de trabalho de 18 horas e buscavam as hoje comuns 8 horas. Entre 1º e 3 de maio, as manifestações se tornaram violentas. Um policial e uma dezena de trabalhadores morreram nos confrontos ou foram posteriormente condenados à morte por conspiração.

Em 1º de maio de 1889, a Segunda Internacional Socialista, em Paris, organizou uma grande manifestação em homenagem aos mortos de Chicago e, nos anos seguintes, a data foi sendo adotada por mais e mais países. Uma exceção são os Estados Unidos. Em 1894, o presidente Grover Cleveland decretou que o Dia do Trabalho seria comemorado na primeira segunda-feira de setembro, como forma de dissociar a data dos movimentos trabalhistas.

Aqui no Brasil, essa data é um feriado desde 1924, sob o governo de Artur Bernardes, mas só foi ganhar relevância na década seguinte. Getúlio Vargas se apropriou do feriado, alterou o nome de “Dia do Trabalhador” para “Dia do Trabalho”, marcado por grandes manifestações organizadas pelo Estado, e o usou para anunciar a criação do salário-mínimo, em 1940, e da CLT, em 1943.

Edição de Sábado: Cercados, MEIO

 

Por Yan Boechat

A estrada enlameada pela chuva forte da tarde faz qualquer curva parecer um desafio de rali. A caminhonete blindada rebola para um lado e para o outro, enquanto o motorista se esforça para manter o carro estável. Há um clima de tensão contida. Estamos todos quietos. Apenas a voz de um homem no rádio, em russo, corta o silêncio dessa noite fria, em que a garoa, de tempos em tempos, vira neve rala; mais grãos de gelo do que flocos. Nos aproximamos das linhas de combate. Estamos a 15 quilômetros da Rússia, na província de Kharkiv, na Ucrânia. Os drones dos dois lados infestam os céus em busca de qualquer coisa que se movimente, de noite ou de dia, sob o sol ou sob as nuvens. Entramos no que os soldados aqui chamam de Zona da Morte.

O homem do rádio fala mais alto, e os soldados que nos acompanham parecem inquietos. De repente, param o carro sob uma árvore e nos mandam sair da caminhonete e nos espalhar. Tudo agora parece rápido, barulhento. Meu tradutor grita para encontrarmos uma árvore e nos escondermos sob ela. Os soldados pegam as espingardas calibre 12 com munição para matar pássaros. Apontam-nas para o céu. Parecem buscar algo, mas, naquela escuridão, é impossível ver qualquer coisa. As armas seguem apontadas para o céu e então um zumbido distante faz com que tudo se aquiete novamente.

Minha colega, uma jornalista brasileira que me acompanha, pergunta sussurrando: “Tá ouvindo?”. Não estou. Sigo cego e surdo naquela estradinha enlameada, a poucos quilômetros das linhas de combate, onde russos e ucranianos se matam nas trincheiras como se estivessem na Primeira Guerra Mundial. De repente, o zumbido cresce, logo se parece com um enxame de abelhas e me faz lembrar do meu próprio drone caseiro. Estamos todos quietos, imóveis, como que esperando uma explosão ou que os soldados que nos acompanham abram fogo contra algo que não se vê.

Eu carrego comigo um detector de drones. Mas não consigo usá-lo. Estou muito concentrado em tentar filmar esta cena na escuridão, com meu foco automático ora concentrando-se nos galhos que me envolvem, ora na silhueta do soldados que contrastam com o céu levemente azul, iluminado pelas luzes de uma cidade próxima. Tenho medo de acionar o aparelho e, com a luz de sua tela, atrair a atenção do pequeno drone que nos sobrevoa. O zumbido é mais alto, mas não consigo distinguir se ele está a dois, três ou dez metros de distância. Na verdade, não consigo ter muita ideia de nada. Concentro-me na minha câmera e, pelo visor, a tranquilidade domina o medo.

O zumbido então vai se afastando. O drone talvez não tenha nos visto ou tenha considerado que não éramos um alvo importante o suficiente para encerrar sua breve vida de kamikaze sobre nós. Logo o homem do rádio volta. Está mais calmo. Informa que o drone está se afastando e que devíamos sair dali rápido e buscar abrigo. Voltamos para o carro. O motorista agora parece não se importar com a lama, com as curvas, com o bem-estar da caminhonete e de seus ocupantes.

Segue rápido. Seu colega está na carroceria da caminhonete com outro soldado. Ambos, sabe-se lá como, com espingardas apontadas para o céu e equilíbrio suficiente para não caírem. O carro para, um homem com uma lanterna vermelha surge e nos guia por um quintal até o porão de uma casa que, de fora, parece abandonada, como tantas outras aqui. Entramos em um bunker. Salvos.

Lá dentro quatro soldados observam o que se passa a nosso redor. Ao menos seis drones de observação estão no ar, monitorando o que se passa nos céus e na terra. Todos estão equipados com visão térmica. Tudo que emite calor, de alguma forma, se trona visível para os drones que permanecem em revezamento 24 horas observando tudo e todos. Dali de dentro, podem enviar o comando para uma das diversas unidades de artilharia que nos rodeiam para atingir algum inimigo que circule pela área. Ou acionar os drones de ataque que seguem a postos para perseguir alguma equipe de dois ou três soldados russos que eventualmente aventuram-se por trás das linhas inimigas em missões de sabotagem e investigação.

Cada vez mais, essa é uma guerra lutada nos céus, por equipamentos baratos, que custam entre algumas centenas de dólares a poucas dezenas de milhares de dólares. As previsões de que as guerras do futuro seriam dominadas por mísseis de custo milionário, tanques indestrutíveis e aviões de caça capazes de voar sem serem detectados por qualquer sistema de defesa anti-aérea caiu por terra na Ucrânia. O que faz a diferença no campo de batalha são esses pequenos aparelhinhos que surgiram como brinquedos de adultos e se transformaram em armas de guerra profundamente letais.

Não se sabe ainda o número correto de vítimas dessa guerra. Os últimos estudos dão conta de que cerca de 2 milhões de pessoas, russos e ucranianos, foram mortos e feridos desde fevereiro de 2022. Tampouco se sabe exatamente quantas dessas vítimas foram atacadas pelos drones. Mas há uma certeza entre quem vive o dia a dia no front: os drones são, nesse momento, os maiores causadores de ferimentos e mortes no conflito. Até há poucos anos, a artilharia era responsável por cerca de 80% das vítimas dessa guerra. Os drones assumiram a liderança e estima-se que hoje 90% de quem morre ou sobrevive aos ferimentos no campo de batalha tenha sido vítima de um desses aparelhinhos.

Andrii, um anestesiologista de combate, passa a maior parte de seus dias no subsolo de uma farmácia destruída perto das linhas de frente de Kharkiv, parcialmente ocupada pelos russos e sob intensa pressão das tropas de Moscou. Ele e um grupo de médicos, paramédicos e enfermeiros coordenam um hospital de campanha, o primeiro ponto de atendimento médico de urgência após alguém ser ferido em combate. “Pelo menos aqui, 99% dos nossos pacientes chegam com ferimentos provocados por drones”, me conta ele, entre um gole de café e outro, enquanto aguarda a chegada de novos pacientes.

“Tudo depende muito do tempo. Se estiver nublado, chovendo ou com neve significa que teremos uma noite tranquila.” Naquela madrugada nevou e nenhum soldado foi levado para o hospital de campanha. “Com o tempo assim há pouca atividade nas linhas de frente”, me dizia ele, quase em tom de consolo por não termos assistido sua equipe trabalhando. “Mas se você ficar aqui uns dias vai ver cenas bastante fortes, os drones são piores que a artilharia”.

O que impressiona nesta guerra de drones ultra-baratos é a quantidade deles em qualquer ponto dos quase 1 mil quilômetros das linhas de contato entre as tropas russas e ucranianas. Apenas em 2025 a Ucrânia sozinha colocou no ar todos os dias quase 11 mil drones para combater os russos. E a imensa maioria deles não são do porte dos famosos Shahed 136 iranianos que são usados amplamente nesta guerra e que se tornaram o terror das defesas israelenses e americanas na recente guerra contra o Irã. Para este ano a estimativa é de que a média diária de drones no ar seja de 19 mil drones, um salto de 4 milhões de drones por ano para 7 milhões em 2026. Isso tudo sem contar o número desses aparelhos letais usados pela Rússia, que deve ser ainda maior que os ucranianos.

Guerra artesanal

Aqui na Ucrânia, a guerra aérea se dá com pequenos drones de plástico ou isopor, fabricados nas chamadas “fazenda de drones” com impressoras 3D e equipados com pequenos e baratos motorzinhos elétricos importados da China. São montados pelos soldados ali mesmo no front, e produzidos às centenas diariamente. Não há muita tecnologia no processo. Há, na verdade, muita inventividade. Aos drones com visão em primeira pessoa, muito usados no Brasil para gravações de vídeos para publicidade, são acopladas bombas simples, usadas em armas ou em minas terrestres. Os explosivos são presos aos drones por garras plásticas, aquelas conhecidas como “engasga gatos”, ou fitas. Tudo muito improvisado, tudo muito letal. Há, claro, drones de produção industrial, com capacidades e tecnologia avançadas.

Mais recentemente, o terror está nos drones equipados com carretéis de cabos de fibra óptica, que conectam o aparelho ao controle sem a necessidade de envio de sinais eletrônicos. Há dois anos os drones atingiam seus alvos a cerca de 5 quilômetros dos operadores, que sempre estavam nas primeiras linhas de combate. Os carreteis acoplados aos drones podem ter até 40 quilômetros de cabos de fibra ótica e os transformaram em uma espécie de pipa, em que os comandos e as informações dependem apenas das linhas que os conectam. Assim, voam sem ser detectados pelos modernos sistemas de embaralhamento de sinais que se proliferam no front. A zona da morte, uma área em que a chance de ser atingido por um drone é muito alta, pulou daqueles 5km em 2023 para os atuais 30km. Tudo mudou. Os tanques se foram, o movimento de grandes contingentes de soldados se acabou e nem mesmo a evacuação dos feridos pode ser feita por veículos.

A única forma eficaz de abatê-los antes que explodam sobre seus objetivos é utilizando espingardas calibre 12 com munição para matar passarinhos. “Usamos uma tecnologia do século 17 para destruir um equipamento que é o símbolo do século 21”, conta um jornalista americano que trabalha para um veículo de imprensa ucraniano. Ele, como outros aqui, vai agora para o front armado com uma espingarda. “Os meus conflitos éticos na cobertura de guerra se acabaram, estou atirando contra uma máquina, não contra um ser humano”, diz ele, em um bar de Kiev, enquanto me mostra fotos de suas andanças pela região do Donbas, sem no entanto me autorizar a usar seu nome por medo de ser criticado por seus pares.

Os pequenos drones também estão alterando a vidas nas cidades próximas dos campos de batalha. Izium, por exemplo, está a 30 quilômetros das trincheiras. Ainda assim, a cidade está quase toda coberta por redes estendidas sobre altas estacadas de madeiras em uma tentativa de impedir que os drones atinjam civis e militares que circulam por suas ruas. As redes, muitas delas usadas para a pesca no Mediterrâneo, cobrem ruas, postos de gasolina, check-points e cafés. “A gente vai se acostumando com tudo na guerra, a cada dia nos acostumamos com algo novo. Agora essas redes estão por todos os lugares e nos acostumamos com elas também”, conta Violeta, uma cozinheira desempregada cujo marido segue lutando no front.

Izium é a última cidade na província de Kharkiv antes de se entrar na região do Donbas, no extremo Leste da Ucrânia e alvo prioritário da Rússia desde 2014, logo após assumir o controle da Crimeia. Dali em diante não há rodovia que não esteja coberta pelas redes de pesca e pelas telas usadas pelos agricultores holandeses para proteger suas tulipas e que foram doadas para a Ucrânia. É possível dirigir dezenas e dezenas de quilômetros em estradas “teladas” contra os drones. A imagem é distópica e a ideia de utilizar redes de pesca para proteger-se contra máquinas de guerra soa algo como ridícula. No entanto, as telas são altamente eficazes.

Outra tela

Não muito longe do centro de Izium um grupo de soldados se esconde em um bunker rodeado de telas tentando localizar inimigos para atacar. São jovens e operam drones de asa fixa, feitos de isopor, e que carregam antigas bombas soviéticas que seguem no arsenal ucraniano. As telas que cobrem as cidades ucranianas também cobrem as posições russas, distantes dali menos de uma dúzia de quilômetros. Com a ajuda de drones de observação, identificam seus alvos e disparam seus drones com pressa, temendo eles mesmos serem alvos de outros drones.

Pela tela um deles avista dois soldados russos escondidos sob as árvores. Um primeiro drone é enviado e explode ao lado dos dois soldados. Pelo drone de observação, o ataque parece ter sido certeiro. Os dois estão imóveis, provavelmente mortos. No entanto, um deles volta a se mover. Um novo drone é enviado e atinge o soldado ferido. Questionado por uma colega jornalista o que sentia ao matar duas pessoas pela tela do computador, ele demonstra frieza e diz simplesmente não sentir nada. “É como um jogo de videogame”, conta ele.

Giuliano Valêncio tem 26 anos e sempre amou games. Com o dinheiro que ganhou trabalhando como vigia no Mato Grosso montou o computador de seus sonhos para jogar Battle Field, uma das mais famosas franquias de jogos de guerra. Gostava tanto da coisa que veio para a Ucrânia ser soldado. Bom de mira, virou o responsável por abater drones em áreas sensíveis para a logística de guerra. “Meu papel era limpar a área por onde caminhões e equipamentos passariam”, diz ele. Derrubou múltiplos drones, combateu por quase oito meses e jamais viu um russo. “A guerra de verdade não tem nada a ver com o que a gente imagina”, diz. No dia cinco de março deste ano, Giuliano pediu que seu comando enviasse um powerbank para sua posição para recarregar seu rádio. Estava tão perto das linhas de frente que a distribuição de equipamentos, comida ou água só pode ser feita, claro, por drones. “Naquela noite vários pacotes caíram sobre nossa posição”, conta.

Pela manhã encontrou um dos pacotes em que ele imaginava estar a bateria que pedira. Ao se aproximar dele, o pacote explodiu. Dilacerou sua mão e seu pé direitos. Estilhaços cobriram suas pernas. Mas Giuliano sobreviveu. Recuperando-se em um hospital dedicado apenas a amputados no Leste da Ucrânia, Giuliano ainda vai demorar a voltar ao Brasil. Ele relata que os dias que se seguiram à explosão foram de dores tão intensas que ele acredita que com uma arma na mão poderia por fim à vida para parar de sentir dor.

Mais do que isso, o que lhe apavorava mesmo era ver seu antebraço direito sem a mão. “Ali, ainda sangrando, com os ossos expostos, eu olhava e pensava: ‘meu deus, nunca mais vou conseguir jogar videogame no computador que tanto lutei pra montar’”. Giuliano aguarda uma prótese na mão e outra na perna. Seus médicos lhe garantiram que ele vai conseguir continuar combatendo nos jogos de guerra.