quinta-feira, 13 de agosto de 2026

Antipetismo visceral alimenta o servilismo a Donald Trump- Marcos Augusto Gonçalves, FSP

 Embora possa causar algum espanto, parcela considerável de brasileiros vê com simpatia o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que vem atacando o país com tarifas comerciais disparatadas e pressões políticas com vistas a interferir nas eleições.

Os apoiadores mais despudorados filiam-se à direita truculenta bolsonarista. Mas há também, talvez mais velados, simpatizantes provenientes de setores liberais conservadores e defensores das pautas das big techs. Entre esses, gente que frequentou boas escolas, teve acesso a leituras e a situação econômica privilegiada. Atestam, em seu transfugismo, quão invertebrados podem ser certos representantes das elites brasileiras.

A imagem mostra uma grande multidão reunida em uma manifestação, predominantemente vestida com camisetas amarelas e verdes, que são as cores da bandeira do Brasil. No centro da multidão, há uma enorme bandeira dos Estados Unidos, que se destaca em contraste com as roupas dos manifestantes. Ao fundo, é possível ver prédios altos e árvores, indicando um ambiente urbano. A cena é de um evento ao ar livre, com muitas pessoas reunidas em um espaço amplo.
Bandeira dos Estados Unidos é aberta na avenida Paulista, durante ato bolsonarista no 7 de Setembro - Eduardo Knapp - 7.set.25/Folhapress

Parece prevalecer uma espécie de reacionarismo atávico, hoje atualizado por um tipo visceral de antipetismo, que se sobrepõe ao senso de nação —um adesismo equivocado, de viés ideológico, sem altivez.

Mais uma vez, para não deixar dúvidas sobre os propósitos de Trump, o Departamento de Estado dos EUA, comandado pelo diligente e vingativo Marco Rubio, postou vídeo no qual o embaixador no Panamá, Kevin Marino Cabrera, detalha o surgimento da doutrina Monroe, em 1823, quando Washington manifestou-se a favor da independência de países latino-americanos e do afastamento das metrópoles europeias.

O post veio com a frase "o domínio americano no Hemisfério Ocidental jamais será questionado novamente" –proferida por Trump após a captura de Nicolás Maduro, o ex-ditador da Venezuela, ora substituído pela ditadora fantoche Delcy Rodríguez. O norte-americano, como se sabe, defende a doutrina Donroe, trocadilho infame que sintetiza seus interesses imperialistas em nosso continente, onde encontra o referido apoio entreguista.

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Trump exerce o poder como um Átila pós-liberal. Onde pisa, a democracia, o multilateralismo e o bom senso morrem. Instituições que mediavam querelas internacionais perderam sentido, na prática não existem mais.

Em seu admirável mundo bárbaro, endossa a disputa entre potências de perfil autocrático —Rússia e China— com autonomia sobre suas áreas de influência. Apoia o projeto Grande Israel para regrar o Oriente Médio, de preferência em sintonia com ditaduras amigas, como a Arábia Saudita —enquanto a Europa é vista como mera frescura para os fracos.

A imposição de taxas no comércio exterior funciona como arma para impor a superpotência e também serve para ajudar no financiamento do Estado, substituindo os impostos não cobrados dos grandes empresários americanos.

Seria como se Lula, se pudesse, num argumento por absurdo, tentasse buscar recursos fiscais impondo barreiras externas para compensar seus gastos públicos e o custo tributário das isenções.

Em ano eleitoral, o Brasil torna-se uma vítima preferencial do republicano, que acredita estar punindo Lula e favorecendo seus aliados extremistas. Recente pesquisa Datafolha, aliás, mostrou que para 52% dos brasileiros Trump atua para favorecer a candidatura de Flávio Bolsonaro, cuja família e seguidores batem continência para a bandeira dos EUA.

O clássico livro "Raízes do Brasil", de Sérgio Buarque de Hollanda, já chega aos 90 anos, mas ainda vale em boa medida seu diagnóstico: somos ainda hoje uns desterrados em nossa terra.

O Brasil registrou 800 mil casos de acidentes de trabalho em 2025 - The News












(Imagem: Sarah Grillo | Axios)

De grão em grão, Pequim enche o cofre. A China escolheu o Deutsche Bank para ser o primeiro banco não chinês autorizado a realizar liquidações em yuan na Europa. Até então, essa operação era reservada apenas para filiais dos 4 grandes bancos chineses.

O que isso significa? Antes, as empresas precisavam trocar o euro por dólar para conseguirem fazer comércio com a China. Agora, essas transações podem acontecer diretamente na moeda chinesa.

A medida representa mais um passo nas ambições da China para internacionalizar sua moeda e desbancar o dólar americano. Antes de pensar que é teoria da conspiração, esse objetivo está presente no plano quinquenal chinês — que estabelece metas a cada cinco anos para o país.

A escolha do banco também foi estratégica. O Deutsche Bank tem buscado cada vez mais facilitar as atividades de comércio entre China e Europa.

  • Inclusive, eles são adeptos do CIPS, uma rede de comunicação alternativa ao sistema americano SWIFT — que predomina no mundo hoje. Ambos permitem que bancos se comuniquem para realizar transações financeiras internacionais.

Apesar disso, o dragão chinês vai precisar voar alto para superar o dólar. Isso porque a participação do yuan nas transações internacionais representou apenas 3,1% do total em junho deste an

Transformar a Justiça contra a magistocracia -Conrado Hübner Mendes - FSP

 A Folha abriu série de seminários para discutir o sistema de Justiça brasileiro. Contribui para a reivindicação social por Estado de Direito íntegro e competente, imparcial e diverso, transparente e corajoso. Uma mudança tanto no hardware quanto no software institucional, tanto na mentalidade quanto no comportamento de juristas e servidores.

Desde a Constituição de 1988 e da Emenda 45, de 2004, a chamada "reforma do Judiciário", não temos tanta mobilização de fora contra a resistência conservadora de dentro, aquela que se reúne para jantar em encontros privados dentro e fora do país.

O presidente do STF, ministro Edson Fachin, durante seminário no auditório da Folha - Eduardo Knapp - 10.ago.26/Folhapress

Edson Fachin abriu com sua ousadia verbal. Disse que a "confiança, advém menos do que se diz, mais do que se faz", do valor não só da "legitimidade de entrada, mas da legitimidade da caminhada". Lembrou que o Judiciário precisa de "uso adequado do tempo e do espaço público", "resistência a conflito de interesses", "disposição a prestar contas" pois "integridade não é só questão de compliance".

Que "nenhuma instituição deve ser imune a controle externo" e "aparência de imparcialidade não é só estética", que devem "prestar contas de seus critérios decisórios e de gestão administrativa". E vislumbrou "oportunidade histórica de aperfeiçoamento republicano".

A tarefa de traduzir ousadia verbal em mudança real vai depender da maturidade e persistência desse movimento no qual a Folha se inscreve.

O desafio é produzir diagnóstico abrangente, empiricamente informado, teoricamente fundamentado. A partir daí, remédios coerentes. Essa não pode ser uma discussão entre juízes, muito menos entre magistocratas, mas da sociedade. Nem se deve cair na armadilha de esperar a "hora certa", ou de pensar que a mudança se reduz a um ato legislativo isolado. Não há janela cor-de-rosa prestes a se abrir na história.

Sugiro dez coordenadas para orientar esse processo. O Judiciário deve ser (1) mais forte para enfrentar o poder econômico e político num país programado para a desigualdade. Não basta ser contra-majoritário, é preciso ser contra-magistocrático.

Deve ser (2) mais rico em infraestrutura para levar a lei e o estado aos rincões do país, não ter juízes mais ricos por meio de supersalários e locupletamento ilícito. Deve ser (3) mais diverso e representativo da pluralidade social; (4) mais acessível segundo noções substantivas de acesso à Justiça; (5) mais controlado e independente, pois independência real depende de controle, incentiva imparcialidade e reduz lobby e captura.

Também (6) mais rápido e eficiente, sem confundir direito de defesa com direito a recurso infinito e a chicana advocatícia ou judicial; (7) mais jurisdicional, menos negocial; (8) mais jurisprudencial, menos casuístico, produtor de segurança jurídica, não de incerteza absoluta; (9) mais corajoso em funções humanitárias, como proteger direitos de vulneráveis, controlar a polícia, minimizar encarceramento, quebrar a cadeia reprodutora do crime organizado.

A mudança deve ser (10) não de baixo para cima, mas sobretudo de cima para baixo. Aplica-se pois não só ao juiz ou promotor de primeira instância, mas antes às instâncias superiores.

Não será numa canetada. Construir sistema de Justiça menos magistocrático depende de compromisso geracional.