sábado, 27 de junho de 2026

Incorporação de bens ferroviários pela União se arrasta há 30 anos em meio a abandono e degradação, FSP

 Priscila Mengue

São Paulo

Degradação, abandono, uso indevido, invasões, grilagem, furtos e contaminação: quase 30 anos depois, o espólio das estatais ferroviárias brasileiras acumula problemas. Parte desses bens nem sequer foi incorporada ao patrimônio da União —como a maioria dos 3.600 quilômetros de ferrovias desativadas e inacabadas de São Paulo, processo com conclusão estimada em três anos pelo governo.

A transferência ocorreu em contexto de "fragilidade documental" desde a dissolução da RFFSA (Rede Ferroviária Federal S.A.) em 1999, segundo a secretaria responsável. A estatal de economia mista foi extinta em 2007, com inventariança concluída em 2019, embora ferrovias tenham sido concedidas nos anos 1990.

Estação Mairinque, com fachada de cimento e vidro, duas torres simétricas, céu azul ao fundo e vegetação ao redor.
Antiga estação de trens de Mairinque, no interior de São Paulo; complexo está em situação precarizada mesmo após tentativas de recuperação - Zanone Fraissat/Folhapress

A situação ganhou repercussão após a morte da jovem lançada de viaduto ferroviário inacabado no interior de São Paulo. Atividades esportivas na ponte do Esqueleto, entre Limeira e Cordeirópolis, eram irregulares.

Responsável pelos "inoperantes", a SPU (Secretaria do Patrimônio da União) reconheceu, em nota, dificuldades na localização exata de parte dos imóveis, especialmente pela falta de plantas e registros. Novas etapas de análise e regularização estão em andamento, sem prazo para acabar.

Em São Paulo, 2.500 imóveis ainda não haviam sido incorporados até 2025, o que depende de vistoria, avaliação e regularização. Entraves incluem dispersão territorial e irregularidade cartorial (como matrículas nunca transferidas do nome de particulares).

"Atual capacidade de gestão [...] é muito baixa, resultando em imóveis abandonados ou vagos para uso, uma vez que as características [...] são desconhecidas e demandam grandes esforços para a regularização cartorial", diz documento da SPU-SP.

Além disso, relatórios mais antigos associam a demora a mão de obra e tecnologia insuficientes. Documento de 2011 aponta, por exemplo, um servidor para os processos paulistas.

A lentidão também é associada aos 170 anos de ferrovias e mudanças de companhias. Em São Paulo, por exemplo, bens da Sorocabana e mais quatro empresas foram, em 1971, para a Fepasa (Ferrovia Paulista S.A.), por sua vez incorporada à RFFSA em 1998.

O impacto é, ainda, econômico: relatório de 2025 do Observatório Nacional de Transporte e Logística cita infraestrutura subutilizada e carente de manutenção como uma das limitações do setor ferroviário — que movimenta 21% das cargas do país, embora menos custoso do que o rodoviário.

Professor da Unesp, o historiador Eduardo Romero de Oliveira diz que parte dos bens da RFFSA está em um "limbo". Isso porque aqueles não operacionais e sem valor cultural precisam de avaliação para aproveitamento ou destinação a leilão. "Falta fechar o ciclo."

Como no caso de Limeira, estruturas têm fácil acesso mesmo com riscos à população. Em Itanhaém, no litoral paulista, viaduto ferroviário é conhecido ponto de pesca, embora degradado. A ANTT (Agência Nacional de Transportes Terrestres) diz que está em processo de desvinculação da concessão mediante acordo indenizatório.

Outro caso é o de ponte na divisa de Delta (MG) e Igarapava (SP), interditada há um ano após laudos apontarem riscos. Um adolescente morreu afogado em março.

A cargo do espólio "operante" da RFFSA, o Dnit (Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes) discorda do entendimento de que seria responsável pela antiga ponte ferroviária, utilizada por carros há anos. Embora tenha recorrido de decisão judicial, abriu edital para a obra.

Estação ferroviária antiga com estrutura circular e quatro torres verticais. Várias locomotivas estão estacionadas em trilhos ao lado direito, cercadas por vegetação e árvores. Céu azul claro ao fundo.
Cemitério de trens da antiga estação Mairinque; complexo está em processo de devolução à União - Zanone Fraissat/Folhapress

Pesquisador de memória ferroviária e ex-funcionário da Fepasa, Antonio Soukef Júnior explica que problemas vêm desde a implantação. Isso porque incentivos desde o século 19 não envolviam sistematização —com empresas que estendiam trajetos para faturar.

O especialista aponta que as concessões dos anos 1990 não tiveram visão ampla das características e deficiências da rede, de modo que não foi exigido suficientemente em preservação. Há ferrovias inteiras abandonadas por serem "antieconômicas".

A Lei das Ferrovias, de 2021, passou a exigir destinação de recursos das concessionárias à memória ferroviária.

Complexos da Sorocabana e de Mairinque serão devolvidos

No interior de São Paulo, dois dos maiores símbolos de abandono são os complexos da Sorocabana, em Sorocaba, e de Mairinque, no município homônimo.

Ambos estão em processo de devolução pela Rumo, cujo contrato se encerra no dia 30. No ano passado, a ANTT aplicou quatro autos de infração pelo estado dos complexos de Sorocaba e Bauru.

Em nota, concessionária disse reconhecer a importância do patrimônio ferroviário e que está à disposição para receber propostas de preservação.

No dia 16, a prefeitura de Mairinque pediu à SPU aval para ocupar a antiga estação, a fim de evitar maior degradação. O município diz ter obtido R$ 2 milhões para a recuperação do espaço —projetado há 120 anos por Victor Dubugras — e posterior implantação do Centro Nacional de Tecnologia Ferroviária.

Locomotiva número 7702 em linha férrea cercada por vegetação. Ao lado, vagões verdes estacionados e ao fundo, edifício antigo com torres, sob céu claro.
'Cemitério de trens' da antiga estação Mairinque, no interior de São Paulo - Zanone Fraissat/Folhapress

Bens tanto de responsabilidade pública quanto privada têm o uso e a preservação investigados há anos.

Em maio, por exemplo, o Dnit entrou com pedido de reintegração de posse após sentença reconhecer que a Porto Seco Centro-Oeste utiliza 439 mil m² da RFFSA em Anápolis, no interior de Goiás. Perito atestou que parte da área foi invadida e outra irregularmente adquirida em 2008.

À Folha a companhia destacou que não foram esgotados os recursos e defendeu a legitimidade da matrícula. Ela mantém um galpão aduaneiro no local, objeto do litígio há oito anos.

Em março, a Serra Verde Express foi condenada a indenizar a União em R$ 10,5 milhões (valor de 2018) por utilizar um depósito. Conhecida por passeio de trem que liga Curitiba à serra do Mar, disse que tinha acordo com antiga concessionária, que lei de 2007 criou "zona cinzenta" e que busca regularização.

Outros casos envolvem danos ambientais, como o da reserva biológica União, em Rio das Ostras, Macaé e Casimiro de Abreu (RJ). Hoje referência na proteção do mico-leão-dourado, tinha usina de tratamento de madeira para ferrovias com creosoto até 1996.

O produto armazenado foi removido, porém não houve avaliação de impacto no solo e na água. Em nota à Folha, o ICMBio (Instituto Chico Mendes) respondeu que elabora acordo para avaliar o grau de contaminação. Há expectativa de que tenha ocorrido neutralização natural.

Venda e cessão têm avançado com dificuldades

O repasse de bens a organizações e prefeituras é visto como alternativa. Em 2025, o Dnit fez a cessão de 48 imóveis ferroviários e doou 51.346 bens móveis.

Pós-doutorando do Instituto de Arquitetura e Urbanismo da USP, Eduardo Bacani Ribeiro percebe movimento de valorização do patrimônio ferroviário nos últimos anos. "Tem uma importância histórica imensa, com cidades que nasceram de estações", diz.

Municípios enfrentam, porém, dificuldades para a obtenção de recursos e adaptação a novos usos. Além disso, compromissos são descumpridos após trocas de gestão.

Em maio, por exemplo, a Justiça manteve condenação da Prefeitura de Laguna (SC) por fechar equipamento instalado em antiga estação. Foi determinado o ressarcimento de R$ 346,6 mil (valores de 2021), por danos sofridos com saques, depredação e despejo de entulho.

Na ação, a prefeitura argumentou que o termo de permissão de uso havia sido encerrado. Também negou nexo entre fechamento e danos.


Espólio da antiga RFFSA

Bens abrangem desde estações e locomotivas até propriedades menos associadas a esse passado, como terrenos, hortos florestais e vilas

  • 35.190 quilômetros de malha (26.548 quilômetros funcionais);
  • 103.851 imóveis (54.705 funcionais);
  • 45.155 materiais rodantes operacionais;
  • 82.653 bens móveis não funcionais;
  • 7.240 toneladas de trilhos.

Reinaldo José Lopes - As leis da política e do dinheiro não vencem as leis da natureza, FSP

 Não conheço antídoto melhor contra o cinismo e o autoengano, pragas gêmeas que corroem os cérebros da nossa espécie neste século, do que a ficção científica da americana Ursula K. Le Guin, que nos deixou em 2018. Ao ler nesta semana declarações de poderosos brasileiros sobre petróleo que só posso classificar como obscenas, o que me veio à cabeça é um diálogo do romance "Os Despossuídos", publicado pela autora em 1974.

No trecho do livro a que me refiro, dois físicos, membros de sociedades muito diferentes, estão discutindo geopolítica. Um deles, Demaere, proclama ser um realista: "Tanto o político quanto o físico lidam com as coisas tais como elas são, com forças reais, as leis básicas do mundo", diz ele. O outro, Shevek, responde com justificada ferocidade a essa conversinha mole:

"Você coloca as suas ‘leis’ mesquinhas e miseráveis, feitas para proteger a riqueza, as suas ‘forças’ compostas por armas e bombas, no mesmo nível que a lei da entropia e a força da gravidade? Sua mente caiu no meu conceito, Demaere!"

Diz o livro que Demaere passou o resto da vida recordando com vergonha o episódio. No mundo real, não tenho esperanças de que a presidente da Petrobras, Magda Chambriard, e o presidente da Firjan (Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro), Luiz Cesio Caetano, em algum momento sintam vergonha das patacoadas que proferiram sobre combustíveis fósseis. Aliás, Chambriard se declarou sem-vergonha, no sentido estrito do termo.

Mulher de cabelos castanhos e óculos sorrindo, vestindo jaqueta laranja e camiseta preta, em fundo azul com texto desfocado. Pessoa de costas com chapéu preto e jaqueta laranja aparece em primeiro plano.
Magda Chambriard, presidente da Petrobras, em palestra na refinaria Gabriel Passos em Betim, em Minas Gerais - Douglas Magno - 20.mar.26/AFP

"Não temos vergonha de produzir petróleo", disse ela, afinal, em evento organizado pela Firjan. Sobre a necessidade de transição energética para enfrentar a crise climática, a presidente tampouco mediu as palavras. "Não tem Plano Clima se não tiver sociedade, né? Então é muito fácil, olha, fecha tudo, vamos todo mundo para a selva e vamos ter um ar maravilhoso", afirmou. Já Cesio Caetano saiu-se com esta declaração radioativa: "O Rio de Janeiro é petróleo, veste petróleo, se movimenta com petróleo, se alimenta, vive e constrói com petróleo".

Credo. Eu não sei com quais especialistas em engenharia genética ele anda se consultando para conseguir metabolizar hidrocarbonetos fósseis, mas, da última vez que eu tinha checado, membros da espécie Homo sapiens continuam 100% dependentes da fotossíntese das plantas atuais, direta ou indiretamente, para se alimentar.

E tampouco comem dinheiro, por mais que Chambriard esperneie que abandonar o petróleo equivaleria a deixar de lado R$ 277 bilhões anuais em arrecadação.

A miopia atroz por trás da mania de achar que as "leis" da política e da economia são capazes de se sobrepor às leis da natureza é o que nos arrastou para o buraco em que estamos agora. Podemos discutir à exaustão (bem, à exaustão não, por favor, porque o tempo urge) o "como" da transição energética, mas a essência não muda: é lunático achar que vamos poder continuar queimando combustíveis fósseis indefinidamente. Nem "o Rio de Janeiro" nem ninguém vão continuar se vestindo, movimentando-se e vivendo com petróleo num mundo no qual falte água e seja muito mais difícil produzir comida.

No entanto, é esse mundo que as palavras e ações de ambos os presidentes estão tornando mais provável. Talvez achem que eles e seus filhos e netos são imunes às consequências. Não o são.

sexta-feira, 26 de junho de 2026

Esther Solano afirma que haverá bolsonarismo sem a figura de Bolsonaro, FSP

O crescimento do bolsonarismo não pode ser explicado apenas pelo antipetismo ou pela insatisfação com a política tradicional, segundo a cientista política Esther Solano. Para ela, a ascensão da direita nos últimos anos foi impulsionada por mudanças mais profundas nas percepções e nos valores de grupos que historicamente estavam mais próximos da esquerda, como jovens, mulheres e trabalhadores de baixa renda.

Entrevistada pelo economista Marcos Lisboa para o videocast Desenquadrando, Solano diz que a extrema direita conseguiu interpretar transformações sociais que já estavam em curso antes da eleição de Jair Bolsonaro (PL).

Desenquadrando é um especial com entrevistas sobre temas que impactam a sociedade brasileira. O programa está disponível no canal da TV Folha no YouTube.

Homem de óculos e moletom preto sentado à esquerda, com uma mão no queixo e caderno no colo. Mulher de cabelos longos e escuros, blusa azul e calça marrom sentada à direita, gesticulando com as mãos. Mesa de centro com livros e copos entre eles. Fundo com parede de madeira e divisória de vidro mostrando ambiente de escritório.
Esther Solano conversa com Marcelo Trindade para o videocast Desenquadrando - Reprodução

No quinto episódio, Solano fala sobre bolsonarismo, comportamento eleitoral, evangélicos e os desafios enfrentados pelo governo Lula (PT).

Segundo a pesquisadora, o avanço da direita ocorreu em duas camadas. A primeira foi marcada por fatores conjunturais, como o antipetismo, a Operação Lava Jato e o sentimento de frustração com a política.

A segunda, que ela considera mais importante, envolveu mudanças nas subjetividades de grupos sociais identificados com pautas progressistas.

"Quando a extrema direita chega ao poder, é porque ela simboliza um movimento de placa tectônica que já aconteceu por baixo há muito tempo", diz Solano.

A pesquisadora afirma que, entre as mulheres, a direita passou a disputar símbolos associados ao feminismo. Ela cita o caso da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, que, segundo sua análise, procura combinar a imagem de mulher atuante na esfera pública com valores religiosos e familiares.

Já entre os jovens, Solano aponta o papel das redes sociais e da comunicação digital na construção de uma política mais performática. "O jovem também foi capturado por toda essa nova dinâmica da tiktokização da política", diz.

Ela também aponta o endividamento como um dos principais fatores de insatisfação identificados.

Ao comentar a disputa para 2026, a pesquisadora diz que acompanha em pesquisas qualitativas o comportamento do chamado eleitor pendular. O grupo ainda oscila entre nomes da direita e da esquerda.

De acordo com Solano, antes de recentes controvérsias envolvendo Flávio Bolsonaro (PL), parte desses eleitores enxergava o senador como uma versão mais moderada do bolsonarismo.

"Ele parece ser um pouco mais dialogante que o pai, não parece tão tosco, tão raivoso, tão encolerizado", relata ao descrever respostas obtidas nas entrevistas.

Segundo ela, o pai era visto por esse eleitorado como autêntico e bruto, enquanto o senador e pré-candidato a presidente é "o cínico, um jogador".

"Haverá um certo bolsonarismo sem a figura do Jair Bolsonaro, como a gente vê agora. Essa disputa pelo legado do bolsonarismo enquanto campo de disputa política, enquanto quais nomes levarão esse legado."

Na entrevista, Solano também analisa a relação entre bolsonarismo e evangélicos. Segundo ela, houve um processo de "bolsonarização" de parte do universo evangélico, especialmente entre segmentos pentecostais e neopentecostais.

A pesquisadora destaca a influência da teologia da prosperidade, da valorização do empreendedorismo e da ideia de que os evangélicos passaram a se enxergar como um grupo com protagonismo político próprio. Ao mesmo tempo, ela afirma que pesquisas qualitativas realizadas durante a última eleição identificaram sinais de desgaste com a presença excessiva da política dentro das igrejas.

"Pegamos um fenômeno que eu diria que era um cansaço dessa politização dos púlpitos", diz.

Solano avalia que as igrejas continuam desempenhando papel central em comunidades periféricas por oferecerem redes de apoio social, acolhimento e pertencimento que muitas vezes não são encontradas em outras instituições.

"Acho que falta um pouco de sensibilidade, muitas vezes no campo da esquerda, de entender realmente esses vetores empoderadores na vida dos indivíduos que a igreja traz", afirma a especialista.