sexta-feira, 15 de maio de 2026

Becky S. Korich - É difícil falar da Rádio Eldorado no passado, FSP

 Hoje a Rádio Eldorado fecha um ciclo. Depois de 68 anos acompanhando São Paulo, a frequência 107,3 FM se desliga. O que desaparece não é só um canal de áudio, mas uma forma de escutar o mundo.

Para quem ouviu a Eldorado por tanto tempo, como eu —minha relação com a rádio começou na infância, desde os tempos da 92,9—, a despedida soa como o fim forçado de uma amizade antiga, íntima. Como imaginar meus dias sem aquele som aveludado, sem aquelas vozes familiares ao fundo?

A Eldorado leva consigo mais do que um espaço no dial. Leva a sensação de que a cidade, tão poluída de sons, perdeu uma de suas vozes mais civilizadas. Uma voz com personalidade, que falava de arte e cultura com elegância, feita por gente curiosa, para gente curiosa. Por gente que gosta do que faz e entende que boa música não é a que toca mais, mas a que toca mais fundo.

Capa do álbum 'Selo Eldorado de Qualidade' apresenta uma fita cassete transparente centralizada sobre fundo preto. O texto 'SELO' aparece em letras grandes e claras acima da fita, com 'ELDORADO' logo abaixo em fonte menor, seguido por 'DE QUALIDADE' em letras menores na parte inferior.
Rádio Eldorado no Instagram

Muito além de uma rádio musical, a Eldorado construiu uma identidade rara no rádio brasileiro: jornalismo, repertório, inteligência, diversidade, autenticidade. Sua curadoria praticou o sentido mais profundo da palavra: cuidado, zelo. E, embora não haja nenhuma relação etimológica, essa curadoria também nos curava —de músicas fabricadas, de gritos no autofalante, das "dez mais", do mesmismo, da pressa, da banalidade.

Éramos os "melhores ouvintes" por causa desse respeito que a Eldorado tinha com quem estava do outro lado. Não éramos consumidores, mas interlocutores de uma conversa silenciosa: a rádio parecia nos conhecer sem que precisássemos usar uma palavra.

Ser ouvinte da Eldorado é como pertencer a um clube, feito de gente que não se rende à lógica do que "se ouve" por aí. Gente que ainda prefere a calma, a surpresa, a descoberta; que entende a música como quase sagrada, como um modo de vida.

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A Eldorado era o meu Spotify, quando a ideia do streaming, algoritmo e podcast parecia ficção. Um "streaming artesanal", com alma, feito por mãos sensíveis de escavadores, por artesãos de cultura e arte que, sem pressa, iam nos entregando pequenos tesouros lapidados. Uma infinidade de sons, de histórias, de mundos que eu jamais teria descoberto sozinha.

Hoje, liga-se o que se quer, pula-se o que se exige mais esforço, acelera-se o que parece "longo" e ouve-se pelo tempo exato que a ansiedade permite. Como se isso significasse domínio sobre as escolhas. A Eldorado propunha o movimento contrário: a liberdade de aceitar o que chegava, de se deixar surpreender, de se entregar e confiar. Ouvíamos o que não foi pedido, uma faixa inesperada, um comentário, uma entrevista, um silêncio entre as músicas. Há algo profundamente sofisticado nisso e até subversivo para estes tempos.

Ao desligar o microfone, a Eldorado deixa no ar um silêncio que não se cala. Um vazio que ocupa um lugar enorme. Perdi a minha melhor companheira das solidões escolhidas.

Não é apenas o fim de uma rádio; é um abalo na esperança de que a cultura ainda possa ser construída sem se curvar ao barulho do mundo, sem se dobrar à lógica dos algoritmos, sem abrir mão da sensibilidade. É também um alerta: em meio ao caos, não podemos desistir dos lugares onde a arte ainda respira.

A despedida tem, além do inconformismo, um agradecimento. Por tudo que a Eldorado construiu dentro de cada um de nós. O que tocou fundo e sintonizou na frequência certa, nunca sairá do ar.

Não vou dizer adeus, ainda prefiro acreditar no até já.

Incorporadoras 'pagaram' terrenos em bairros valorizados de SP com apartamento popular ,FSP

 Priscila Mengue

São Paulo

Uma dinâmica difundida no mercado imobiliário veio à tona recentemente e passou a ser questionada em meio às investigações sobre o "desvirtuamento" de milhares de apartamentos populares a pessoas de maior renda em São Paulo. Trata-se da permuta.

Tanto a nova ação movida pelo MP-SP (Ministério Público de São Paulo) quanto a CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) da Câmara Municipal questionam esse tipo de transação. Nessa dinâmica, em vez de pagar o dono do terreno com dinheiro, a incorporadora faz um acordo para recompensá-lo com apartamentos no futuro prédio a ser construído.

Placa retangular com fundo amarelo e branco anuncia empreendimento com unidades de habitação de interesse social (HIS-2) e habitação de mercado popular (HMP). À direita, brasão da Prefeitura de São Paulo e texto em preto.
Placa de empreendimento privado que comercializa habitação popular em São Paulo - Rafaela Araújo - 03.mar.26/Folhapress

A permuta costuma ser adotada no mercado imobiliário pelo alto valor para a compra dos diversos lotes necessários para "montar" a área suficiente para a construção de um edifício. Já os proprietários de terrenos costumam aceitar esse tipo de negociação devido ao retorno estimado com a venda ou exploração dos futuros apartamentos —como por meio de aluguel ou serviços de hospedagem.

Diferentemente de unidades comuns, contudo, os casos questionados envolvem HIS (Habitação de Interesse Social) e HMP (Habitação de Mercado Popular). Esse tipo de moradia é construído pelo setor privado com incentivos municipais, a fim de que seja destinado a famílias com renda mensal de 1 a 10 salários mínimos, sem poder ser ocupado por pessoas de maior renda.

Para a Promotoria de Habitação e Urbanismo, as permutas de HIS e HMP mostram como moradias que deveriam ser voltadas à redução do déficit habitacional viraram "ativos de mercado e instrumento de operação imobiliária". Isto é, uma moeda de troca em negociações. Portanto, essa dinâmica deveria ser punida e fiscalizada pela prefeitura.

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A gestão Ricardo Nunes (MDB) discorda, contudo: considera que a permuta de moradia popular é permitida por lei, desde que os apartamentos sejam alugados e/ou vendidos para pessoas dentro da faixa de renda. O setor imobiliário tem o mesmo entendimento e ainda diz que os donos dos terrenos são como "parceiros" ou "investidores" do empreendimento, como as próprias incorporadoras.

A política de incentivo a HIS e HMP foi criada com o Plano Diretor de 2014 e a Lei de Zoneamento de 2016. Flexibilizações posteriores deram impulso à produção nos últimos anos, segundo especialistas.

Hoje, esses apartamentos representam 75% dos lançados na cidade, conforme o setor. A prefeitura aponta que ao menos 321 mil unidades foram construídas com os benefícios dessa política.

Do total, 159 mil estão em empreendimentos denunciados ou com alerta de possível fraude —ou seja, na qual há suspeita que a unidade seja utilizada por pessoas de outras faixas de renda.

O mecanismo chamou a atenção durante a CPI da Câmara Municipal, quando empresas foram questionadas sobre diversas unidades no nome das mesmas pessoas e responderam que eram permutas. A expectativa é de que os casos ganhem destaque no relatório final da comissão, previsto para a próxima terça (19).

Para a professora de direito urbanístico da FGV (Fundação Getulio Vargas) Bianca Tavolari, não havia base legal para permutas de HIS ou HMP ao menos até 2024, ano em que a legislação municipal reconheceu a possibilidade de venda a investidores (desde que as unidades sejam alugadas à baixa renda). Ela considera, contudo, dúbia a comparação dos permutantes a investidores comuns.

Pesquisa do Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento) coordenada por Tavolari estimou em ao menos R$ 1 bilhão a principal renúncia fiscal à HIS e HMP.

Na CPI, incorporadoras admitiram praticar permuta em bairros valorizados, como Vila Nova Conceição e Vila Olímpia, na zona sul, e no Itaim Bibi, na oeste. A Folha encontrou casos ainda em outros distritos como Freguesia do Ó, na zona norte, Mooca, Vila Matilde, Artur Alvim e Vila Curuçá, na leste, Moema, na sul, e Pinheiros, na oeste.

As empresas entendem que esse tipo de negócio é legal, visto que os terrenistas foram orientados a respeitar a faixa de renda em caso de locação.

Em nota, a Abrainc (Associação Brasileira de Incorporadoras Imobiliárias) defendeu a política de incentivo. "A destinação legal das unidades deve ser observada pelos proprietários, sejam permutantes, investidores ou adquirentes finais", afirmou.

Quatro pessoas sentadas em fileira de cadeiras em ambiente formal, três homens e uma mulher. Um homem calvo no centro segura microfone, com papéis à sua frente. Nome 'Yorki Oswaldo Estefan' visível em placa sobre mesa. Fundo com outras pessoas sentadas e equipamentos de gravação.
Yorki Estefan (ao centro) durante depoimento na CPI do HIS, na Câmara Municipal - Douglas Ferreira/Rede Câmara

Ao menos seis incorporadoras admitiram permutas de terrenos por apartamento popular na CPI. A lista inclui Conx, Cyrela, Luni, MF7, You,Inc e Vibra Residencial. No setor, fala-se que é uma prática amplamente difundida.

Hoje, não há balanço oficial de quantos empreendimentos com HIS e HMP utilizaram a permuta.

"Não tem nada a ver considerar uma destinação incorreta", disse à Folha Yorki Estefan, presidente do SindusCon-SP (Sindicato da Indústria da Construção Civil do Estado de São Paulo). Ele considera como única alternativa para incorporadoras de médio e pequeno portes, diante do aporte milionário necessário para a compra de terrenos.

Ele é fundador da Conx, incorporadora cujo modelo de negócio utiliza apenas permuta para a compra de terrenos, incluindo 30 empreendimentos paulistanos com moradia popular na última década. Na CPI, em abril, contou que apenas o Welconx Faria Lima, na zona oeste, teve mais de 100 unidades populares destinadas a terrenistas.

Em nota, a empresa respondeu que a permuta é necessária e, se vedada, dificultaria a incorporação, aumentando o déficit habitacional. "Ressalte-se que a destinação da unidade habitacional, verdadeiro objetivo do programa legal, é preservada, uma vez que o permutante obriga-se a alienar ou locar a unidade para família enquadrada."

À reportagem a Cyrela e a MF7 afirmaram que a legislação não veda a prática desde que atenda ao público-alvo. Na CPI, You,Inc e Vibra defenderam a regularidade da permuta. A reportagem entrou em contato com elas por email, WhatsApp, telefone e perfil de redes sociais, mas ambas não responderam.

Donos de terreno vão à Justiça para devolver HIS

Parte dos donos de terrenos que acertaram a permuta entrou na Justiça para devolver os apartamentos e receber o dinheiro. A Folha identificou o caso do Bracon Quatá, na Vila Olímpia, em que a Bracon Incorporadora foi condenada, em primeira instância, a ressarcir sete terrenistas "pagos" com unidades de HIS-2 (renda familiar mensal de até 6 salários).

Nesse caso, os terrenistas alegaram que havia apenas menção genérica do termo "HIS" no contrato, sem detalhar as consequências disso para o proprietário do apartamento. Também argumentaram que a restrição à moradia popular resultou em imóveis com valores distintos do estimado no contrato de permuta.

A empresa respondeu à reportagem que não comenta ações em andamento.

Em fevereiro, a Justiça determinou que a incorporadora pague uma compensação financeira equivalente ao contrato original e receba de volta as unidades. Ainda cabe recurso da decisão.

Recentemente, um escritório de direito imobiliário chegou a fazer um alerta a terrenistas. A orientação apontava que uma parte das incorporadoras indicava como se o valor de mercado de HIS e HMP fosse o mesmo de um apartamento comum, sem alertar sobre as restrições. Empresas do setor negam.

Mauro Calliari - O futuro das bancas de jornal, FSP

 Ontem vi dois meninos parados numa banca perto de casa. Eles tinham o álbum da Copa do Mundo nas mãos e esperavam ansiosamente pelos seus pacotinhos, para começar a juntar as quase mil figurinhas das 48 seleções.

A primeira vez que saí sozinho de casa foi justamente para comprar figurinhas na banca da esquina, a do João, lá pelos meus oito anos. A expedição foi um sucesso e voltei centenas de vezes para comprar a revista Placar, os quadrinhos da Disney e do Mauricio de Sousa, o Jornal da Tarde, a Folha. Até hoje leio jornal em papel; a esquina é outra, o jornaleiro —o Auro— é outro, eu provavelmente sou outro, mas o prazer em pegar o jornal e ler durante o café da manhã é o mesmo.

A imagem mostra uma banca de jornal com uma variedade de revistas e jornais expostos. A banca está organizada em prateleiras, com capas visíveis de diferentes publicações. À direita, uma mulher está de pé, usando uma máscara facial. O ambiente é iluminado e a banca é coberta por uma lona azul na parte superior.
Revistas expostas em banca de jornal em São Paulo - Karime Xavier - 28.mar.20/Folhapress

As bancas têm esse caráter local e estimulam a intimidade com a vizinhança. Elas já foram pontos de lazer, notícias e encontros. Eram tão importantes que ganharam o espaço mais nobre das cidades: as calçadas. Em São Paulo, as bancas podem ocupar até 50% da área da calçada, desde que tenham o termo de permissão de uso. São concessões públicas que dão preferência à pessoa física, com uma cota para pessoas mais velhas ou portadores de deficiência.

O Brasil já teve centenas de jornais e as pessoas corriam para as bancas para saber as notícias. Durante a década de 1990, a Folha e o Estadão disputavam a liderança com mais de 500 mil exemplares por dia cada um, com picos ocasionais de um milhão. Hoje a audiência das versões digitais supera em muito o número de jornais impressos, dos quais uma parcela ínfima é de vendas avulsas.

Como consequência, o número de bancas despencou. Em São Paulo, das 5.000 bancas existentes no início dos anos 2000, sobraram apenas 1.700 mil em 2020. O curioso é que, segundo a prefeitura, o número voltou a subir um pouco nos últimos anos e hoje existem exatas 2.148 licenças de funcionamento na cidade.

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O aumento dos últimos anos tem a ver com a mudança do caráter das bancas. Se antes vendiam publicações, hoje elas oferecem uma miríade de produtos, abrangendo quase tudo o que alguém pode precisar em seus deslocamentos: balinhas, pilhas, cigarros, bolachas, brinquedos, água de coco, guarda-chuvas, capinhas de celular, refrigerantes, chaveiros, bonés e, meu preferido, jornais velhos embalados para o xixi dos pets, num inesperado memento mori para os jornalistas vaidosos.

Há ainda aquelas bancas que se especializaram. A banca Tatuí se transformou numa simpática livraria, a banca Curva, antes de ser destruída por uma árvore, era um verdadeiro centro cultural. Outras estão oferecendo serviços que ficaram sem espaço na nova organização imobiliária: chaveiros, xerox, encanadores, serviços gerais.

Se as bancas se reinventam, também a legislação precisa se atualizar. Será que o comércio tradicional, que paga aluguel em imóveis, sente a concorrência das bancas, que acabam vendendo as mesmas coisas ao redor de estações de metrô e outros lugares movimentados? Também é bom rediscutir aquelas bancas que servem apenas como veículo para ações de ‘ativação’, como gostam os marqueteiros. Uma delas pintou a lata de roxo e vendia exclusivamente latas de uma marca de bebida. Apesar de simpática, é uma ação de utilidade e legalidade discutíveis.

Há ainda um grande número de bancas que ficam fechadas, ocupando espaço público nobre sem oferecer nada em troca, diminuindo a fluidez de quem anda e prejudicando a segurança. Melhor que a prefeitura as retire ou que as troque por alguma outra atividade que valorize as calçadas.

Talvez não sem alguma dose de saudosismo, mas também por esperança na vitalidade urbana, torço muito para que as bancas não acabem e que achem modelos para se modernizarem. Como mostra a empolgação com as figurinhas, o produto impresso tem seu fascínio e provavelmente se manterá por tempos ainda, com os livros, as palavras cruzadas, os quadrinhos, as revistas e produtos editoriais criativos. Se não todas, mas uma grande parcela das bancas talvez consiga emular a experiência do ponto de encontro, de leitura e integração com a vizinhança.

Vale a pena refinar a legislação para usar as bancas ou o que quer que elas sejam no futuro como parte da estratégia pela vitalidade das calçadas.