terça-feira, 3 de novembro de 2026

Jerry Seinfeld é um alfinete que estoura o balão do nosso ego, João Pereira Coutinho, FSP

Se contar, ninguém acredita. O humorista Jerry Seinfeld viajou a Lisboa para um show de stand-up. Alguns dos humoristas portugueses que iam participar do mesmo festival desistiram em cima da hora. Seinfeld é um conhecido apoiador de Israel. Esses humoristas não toleram quem apoia Israel na luta contra o terrorismo do Hamas.

Estão no seu direito, claro. Mas existe algo de estranho, para não dizer cômico, em humoristas que reduzem Seinfeld às suas opiniões políticas. Guardadas as devidas proporções, é como imaginar um jogador de futebol profissional que reduz Maradona à sua paixão por Fidel Castro.

Ilustração de Angelo Abu para coluna de João Pereira Coutinho de 3 de novembro de 2026 - Angelo Abu/Folhapress

Infelizmente, não tenho esses escrúpulos. Nunca tive: as inclinações ideológicas de um artista só me incomodam se ele for um mau artista. Quando soube que Seinfeld viria a Lisboa, comprei o ingresso e marchei, como um soldadinho obediente e grato, para ver e ouvir o maior humorista da minha geração.

Imaginei que, fora e dentro do local do show, os protestos fossem pesados. Nada disso. Milhares de pessoas, nitidamente da Geração X, com opiniões políticas diversas, estavam ali pela deliciosa misantropia de Seinfeld.

Eu disse misantropia? É preciso explicar, de preferência com o patrono da espécie. "Odeio e detesto esse animal chamado homem, embora ame de todo o coração o John, o Peter, o Thomas e assim por diante", escreveu Jonathan Swift ao amigo Alexander Pope em 1725.

É a melhor definição de misantropia que conheço. É a minha variante também. Amar a humanidade? O que é isso de humanidade? Seinfeld também não sofre do mal de amar a humanidade. Entrou no palco —estatura baixa, cabeça grande, a televisão engana— e abriu as hostilidades. Um humorista sonha em se apresentar em Las Vegas, Los Angeles, Nova York, disse ele. Mas Lisboa?

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A audiência riu do insulto. E riu ainda mais do catálogo de misérias que o animal humano finge serem benesses. Por animal humano, leia-se: eu mesmo. Com a idade, confesso que tirar férias em lugares turísticos se converteu numa espécie de inferno que não vale o esforço. Prefiro ficar em casa e seguir a velha regra: nunca se tem livros demais, vinho demais ou munição demais.

Seinfeld discorda. Não é porque odiamos algo que devemos deixar de fazê-lo. Há um prazer no ódio que não deve ser desprezado, uma verdade atemporal que o pessoal do "pense positivo" não consegue alcançar. Mas há limites. O golfe, por exemplo. Como regra de vida, diz ele, nunca devemos praticar um esporte em que é preciso um carrinho ridículo para chegarmos até a bola.

Já os esportes radicais, como ir ver os destroços do Titanic no fundo do mar e, como aconteceu em 2023, morrer na viagem, só são vantajosos para o próprio Titanic. "Mais de cem anos depois, o navio continua fazendo vítimas", observa Jerry, com uma impressionante falta de tato. O público amou.

Nem tudo é ruim, porém. O café e o casamento se salvam da lente impiedosa de Seinfeld. O café é o portal que nos permite passar do mundo da cama para o mundo da vida. Começamos o dia com o mesmo pensamento —"Ah, não, eu de novo!"— e o líquido escuro é o amigo fiel que nos convence, gole a gole, de que talvez valha a pena voltar a ser quem somos.

O casamento também é um portal, acrescenta Seinfeld, mas aqui as regras são diferentes entre os sexos. Antes do casamento, as mulheres fingem ser o que não são durante dois ou quatro anos de namoro. Depois do casamento, são os homens que fingem ser o que não são durante duas ou quatro décadas de prisão.

Deve ser por isso, conclui Seinfeld, que a família da noiva fica tão feliz no dia do casamento. Eles sabem, eles conhecem, eles estão informados. O noivo é que não. O humor de Seinfeld é infantil no verdadeiro sentido da palavra —é como imaginar uma criança grande que gosta de desmontar os objetos para ver as entranhas de que são feitos.

Depois, expostas com rigor as peças minúsculas que compunham a máquina, vêm a perplexidade e o absurdo. Por que somos tão ridículos, cansativos e ilógicos? Seinfeld é, no fundo, o alfinete que estoura o balão do nosso ego. Humanidade? Quem se importa com a humanidade?

Tudo o que importa são George, Kramer e Elaine, os amigos que Seinfeld imortalizou na série de TV homônima e que só confirmam a intuição de Jonathan Swift —a humanidade é intolerável no plural, mas irresistível no singular. É esse o paradoxo que os humoristas ausentes nunca entenderão. Quem ama a humanidade sempre expulsa alguém dela. O misantropo, pelo contrário, não discrimina. Não é por sermos imperfeitos que devemos cancelar o espetáculo.

O rumo para Selic em um dígito, Bernardo Guimarães- FSP

  

Bernardo Guimarães

Prezado Lula:

Sua principal tarefa na economia agora é tomar medidas para reduzir a taxa real de juros. Não é com o Banco Central, é com você.

A dívida pública está numa trajetória muito ruim. O déficit primário é cerca de 0,5% do PIB. A conta de juros reais está por volta de 6% do PIB. Precisa cair pela metade, pelo menos.

Sede do Banco Central, em Brasília - Antonio Molina/11.jan.22/Folhapress

Muitos dizem que ajustar o fiscal ajuda a colocar a dívida pública numa trajetória sustentável e que é preciso caminhar na direção de gerar superávit. Eu estou de acordo, isso até ajuda a reduzir os juros, mas está longe de ser suficiente.

Outros dizem que o Banco Central pode simplesmente cortar os juros. Isso foi tentado no governo de Dilma Rousseff e deu muito errado. Os juros estavam —e estão— altos por um motivo.

Para derrubar os juros, você vai ter que cortar crédito. O BNDES dá crédito às empresas e, por meio de programas como o Peac (Programa Emergencial de Acesso a Crédito), fornece garantias para empréstimos dos bancos. Esse crédito direcionado aumentou demais nos últimos anos. O Crédito do Trabalhador (o consignado de quem é CLT, lançado em março de 2025) originou R$ 100 bilhões em empréstimos só no primeiro ano de existência. O montante de recursos anunciado pelo Plano Safra tem aumentado muito a cada ano.

As iniciativas do governo vão com força na direção de expandir o crédito.

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Enquanto isso, o Banco Central coloca os juros nas alturas com o objetivo de segurar o crédito.

Isso ocorre porque o BC controla a inflação justamente controlando a quantidade de crédito na economia e maneja as taxas de juros para isso.

Simplificando o argumento, funciona assim: há uma quantidade de crédito total na economia que não gera inflação (essa quantidade varia com as condições econômicas). Se o governo expande o crédito, o Banco Central tem que contrabalançar, aumentando os juros.

É hora de fincar os dois pés no freio. Minguar o BNDES. Reduzir os subsídios do crédito agrícola. Reduzir o teto do consignado —especialmente do Crédito do Trabalhador. Não tem mais desenrola. Nem bets.

Quanto mais o governo segurar o crédito, mais o BC poderá soltar, reduzindo a Selic, sem afetar a inflação.

Dá para ver esse efeito por outro ângulo: parte do dinheiro que deixará de ser emprestado por causa das medidas de restrição a crédito do governo virará demanda por títulos públicos, derrubando as taxas de juros.

Neste século, o Brasil quase sempre conviveu com juros reais muito altos. Há, porém, uma exceção importante: em 2018 e 2019, tínhamos juros baixos com inflação estável (em 2020 também, mas aí tinha a pandemia, não conta).

Os juros desabaram a partir de 2017 sem aumentar a inflação. Não foi com solução mágica. Não foi com um enorme ajuste fiscal. Foi com política monetária bem ortodoxa e uma grande redução do crédito direcionado —os desembolsos do BNDES se reduziram muito.

Lula, escolha esse caminho, e a gente fechará 2028 com a Selic em um dígito e em queda.

O ano de 2027 não vai ser fácil. Quem perder acesso a crédito vai sofrer e reclamar. Outros vão ganhar acesso a crédito —porque a taxa Selic cairá—, mas isso vai demorar um pouco.

Em 2028, porém, o povo vai ficar feliz. E, em 2029 e 2030, com a macroeconomia em ordem, você vai ter mais recursos para programas sociais.