quinta-feira, 1 de outubro de 2026

Rainer Maria Rilke – Torso arcaico de Apolo

 Não conhecemos sua cabeça inaudita

Onde as pupilas amadureciam. Mas
Seu torso brilha ainda como um candelabro
No qual o seu olhar, sobre si mesmo voltado

Detém-se e brilha. Do contrário não poderia
Seu mamilo cegar-te e nem à leve curva
Dos rins poderia chegar um sorriso
Até aquele centro, donde o sexo pendia.

De outro modo erguer-se-ia esta pedra breve e mutilada
Sob a queda translúcida dos ombros
E não tremeria assim, como pele selvagem.

E nem explodiria para além de todas as suas fronteiras
Tal como uma estrela. Pois nela não há lugar
Que não te mire: Precisas mudar de vida.

Trad.: Mário Faustino

Nem Nossa Senhora nem Jesus; Flávio e a manipulação eleitoral da fé, FSP

 

Valdinei Ferreira

É doutor em sociologia pela USP e fundador do Mapa Centrante

As notícias falsas de que Flávio Bolsonaro tiraria de Nossa Senhora o título de padroeira do Brasil ganharam força porque, no final de agosto, o candidato disse que seu primeiro decreto presidencial seria tornar Jesus o Senhor do Brasil. Escrevi, nesta Folha, que a promessa era uma profanação eleitoral da fé.

A declaração "O Brasil é do Senhor Jesus", dita por Flávio, funcionava como uma senha que os eleitores evangélicos entenderiam imediatamente e à qual os demais não prestariam atenção.

Na teologia evangélica desenvolvida nos ramos do pentecostalismo e do neopentecostalismo, acredita-se que os territórios são dominados por demônios; assim, essa declaração, "O Brasil é do Senhor Jesus", significa uma transferência "legal" dessas áreas do domínio do mal para o governo do bem.

Homem com camisa verde e adesivos de campanha segura imagem de Nossa Senhora do Rosário em destaque. Outras três pessoas estão próximas, uma delas usa chapéu com as cores da bandeira do Brasil. Veículo e edifícios aparecem ao fundo.
O candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL) segura imagem de Nossa Senhora Aparecida em visita ao Mercado Municipal de São Paulo - Bruno Santos - 28.set.26/Folhapress

É cada vez mais comum encontrar, nos acessos às cidades brasileiras, placas nas quais ao nome do município se segue "...é do Senhor Jesus". O que Flávio sinalizava era a transferência dessa lógica de batalha espiritual, que opera no plano municipal, para a esfera federal.

As placas e portais "tal cidade é de Jesus", ao lado do significado religioso atribuído à expressão, funcionam como sinal de presença e força eleitoral das igrejas evangélicas no território. E aqui mora o problema: a expansão evangélica passa a ser representada menos como uma diversificação religiosa possível na democracia laica e mais como conquista de hegemonia por uma nova religião.

A lógica é semelhante à do catolicismo romano quando era a religião oficial, mas isso foi de 1500 até 1889. Com a chegada da República veio a separação entre Igreja e Estado. Feriados nacionais, cidades e estados batizados com nomes de santos católicos são a herança de uma época na qual o território e a nacionalidade eram definidos pelo pertencimento a uma confissão religiosa.

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O evangélico pentecostal raiz ouviu na promessa do decreto presidencial de Flávio Bolsonaro que se trata da transferência do domínio territorial, espiritual e simbólico, até então católico, para as igrejas evangélicas.

O candidato não prometeu retirar Nossa Senhora do posto de Padroeira do Brasil, porém, ao legitimar uma visão evangélica de busca de hegemonia territorial e simbólica, tornou plausíveis as suspeitas em torno de suas intenções político-religiosas.

Evangélicos bolsonaristas e setores conservadores do catolicismo operam na lógica de dominação religiosa da cultura nacional. A escolha da esquerda como inimigo comum selou um pacto tácito de não agressão entre os dois grupos religiosos. Flávio, com seu afago ao triunfalismo evangélico, colocou em risco a aliança religiosa conservadora.

A polêmica possui a virtude de revelar quão anacrônico é o discurso da liberdade religiosa feito pela direita bolsonarista. As religiões de matriz africana conhecem bem a hipocrisia desse discurso sobre liberdade. Michelle Bolsonaro, em 2019, removeu do Salão Nobre do Palácio do Planalto o quadro "Orixás", de Djanira da Motta e Silva. Liberdade religiosa, na versão bolsonarista, significa o direito do vencedor de impor sua religião aos conquistados.

No esforço de reduzir danos, o candidato levantou, em São Paulo, uma imagem da Padroeira do Brasil. É provável que, no dia 12 de outubro, ele vá até o Santuário em Aparecida. Afinal, se Jair Bolsonaro, sendo católico, batizou-se no rio Jordão para ganhar pontos com o eleitorado evangélico, o filho pode assistir a uma missa na Basílica de Aparecida. Ainda mais se valer uma eleição.

Em vez de promover a liberdade religiosa como garantia constitucional de convivência plural para crentes e não crentes, com sua conduta errática Flávio Bolsonaro reduz a fé a um instrumento de cálculo eleitoral, demarcação territorial e tensão institucional. Nada que não tenhamos visto no governo de seu pai. Millôr Fernandes já profetizava: "O Brasil tem um longo passado pela frente".

O Ronald McDonald está triste, The News

 

Se um lanche pudesse resumir o desempenho das ações do McDonald's neste ano, seria um pão com picles. Os papéis acumulam cerca de 31% de queda desde a máxima em fevereiro — o que coloca a rede de fast-food no caminho do pior retorno anual desde 2002.

Por que isso está acontecendo? Na prática, os consumidores estão evitando um cardápio que consideram caro demais em meio a um aumento de preços.

(Imagem: Google Stocks)

O CEO da companhia disse que eles enfrentam uma inflação persistente ao redor do mundo. Para se ter ideia, o custo da carne bovina praticamente dobrou nos últimos cinco anos nos principais mercados da empresa, com uma alta de cerca de 14% só no ano passado.

  • O resultado da inflação americana divulgado ontem, por exemplo, foi uma alta de 0,3% — levemente maior que o resultado de 0,1% em julho.

Do lado do consumidor… Nos EUA, maior mercado da companhia, com +13 mil unidades, a empresa projeta vendas levemente negativas neste tri. Isso depois de um crescimento de apenas 0,8% no tri anterior — o ritmo mais lento em mais de um ano.

Para o Mc Lanche voltar a ser feliz, a empresa apresentou um plano chamado Restaurant > NEXT. Entre as medidas estão corte de gastos administrativos com AI e colocar publicidade em telas de autoatendimento e drive-thru.

🍔 Um exemplo do aumento de preço: Entre 1998 e 2025, a inflação do Brasil saltou 385%, enquanto o preço do Big Mac saltou 778% no mesmo período. Nesse período, o preço do sanduíche saiu de R$ 2,95 para R$ 25,90.