sexta-feira, 4 de setembro de 2026

Hélio Schwartsman -Quando todo mundo está certo, FSP

 André Mendonça está certo e Alexandre de Moraes está certo —e é por isso que o STF vive a mais grave crise de sua história.

O relator do caso Master tem razão ao sustentar que o relacionamento de Moraes com Daniel Vorcaro precisa ser investigado. Não dá para cravar que Moraes tenha cometido crimes —só a investigação poderia determiná-lo—, mas, no plano ético, a situação do ministro é insustentável. O conflito de interesses está provado. A família de Moraes auferiu dezenas de milhões de reais com um contrato com o banco Master totalmente fora dos padrões de mercado e que não poderia ter motivações republicanas. Era dever do ministro perceber isso.

Dois homens vestidos com trajes pretos formais sentam lado a lado. O homem ao fundo, calvo, segura um papel e olha para frente com expressão séria. O homem à frente está desfocado, olhando para baixo.
Os ministros Alexandre de Moraes (à dir.) e André Mendonça (à esq.) em sessão plenária do STF - Pedro Ladeira - 3.set.26/Folhapress

Moraes, bem a seu estilo, reagiu à investida de Mendonça partindo para o ataque. Sacou o infindável inquérito das fake news para acusar o colega de abuso de autoridade, improbidade e, estranhamente, de crime de responsabilidade, que está fora da alçada do Judiciário. Pediu a abertura de investigação. Há razões para a suspeita. Na supervisão do inquérito, Mendonça forçou a mão, abandonando a inércia que deveria caracterizar a posição do magistrado e fazendo as vezes de investigador —com viés político. Numa daquelas ironias da história, Moraes acusa Mendonça de ter recorrido a expedientes de que ele próprio se utilizou com prodigalidade.

A solução menos traumática para o STF seria investigar todos os ministros sobre os quais haja suspeitas e livrar-se dos que tenham cometido delitos ou desvios éticos. Difícil. Eu apostaria mais na pizza. Moraes já indicou pontos que poderão produzir nulidades que livrariam até o próprio Vorcaro. Mesmo que o tribunal faça a coisa certa, sua credibilidade já sofreu um abalo do qual não se recuperará tão cedo.

A legitimidade da Justiça depende de suas decisões serem percebidas pela sociedade, se não como justas, ao menos como minimamente impessoais e tecnicamente embasadas. Os últimos acontecimentos escancaram que elas com muita frequência são motivadas por interesses pessoais e com inspiração política.

Distorções acumuladas desgastaram a imagem do Supremo Tribunal- Frederico Vasconcelos -FSP

 A divulgação do relatório da Polícia Federal sobre a promiscuidade de Daniel Vorcaro e ministros do Supremo Tribunal Federal desafia os analistas do retrocesso institucional.

Em 24 horas, André Mendonça, tido como o ministro que ameaçaria o pacto de impunidade, virou vidraça.

"O que fizeram ministros do STF e o PGR nos últimos verões para nos ajudar a mostrar como e por que André (Mendonça) está errado?", pergunta o colunista da Folha Conrado Hübner Mendes.

Dois homens vestidos com trajes pretos formais sentam lado a lado. O homem ao fundo, calvo, segura um papel e olha para frente com expressão séria. O homem à frente está desfocado, olhando para baixo.
Ministros André Mendonça e Alexandre de Moraes em sessão no STF - Pedro Ladeira - 3.set.26/Folhapress

"Quando prestaram contas, ouviram críticas, tentaram atenuar excepcionalismos e resgatar alguma normalidade regimental?"

Em editorial em que recomenda a renúncia de Moraes, a Folha diz que não há muito o que esperar da PGR. "O procurador Paulo Gonet, que descaradamente pediu a nulidade do relatório policial, surge emaranhado na teia de afinidades do Master".

O ex-PGR Cláudio Fonteles sugere a renúncia de Gonet.

Um juiz observa que Gonet deu parecer confundindo juiz de garantias com juiz que preside inquérito policial (Mendonça). Não há juiz de garantias em tribunais, ele diz.

O advogado Antonio Carlos Almeida Castro (Kakay) escreveu em sua coluna no site Poder360:

"Eu sei que advogado criminal está em baixa, não sei qual é o criminalista do Flávio Bolsonaro, mas ele está conseguindo algo muito interessante para o cliente dele."

O inquérito dos R$ 61 milhões foi aberto há meses. Não houve um único movimento, não há pedido de busca, de quebra de sigilo, de oitiva —pelo menos não ‘vazou’ nada. E não se pode imputar nada desta morosidade ao ministro André Mendonça. Ele determinou a abertura do inquérito assim que o PGR pediu.

O ‘investigado’ Flávio já teve tempo para se preparar para uma busca e apreensão que não veio. Busca tardia, sabem os criminalistas, costuma não dar em nada.

Gonet permanece na mira dos críticos. Bolsonaro fez o que fez porque o então PGR Augusto Aras foi omisso.

Aras não foi citado na denúncia de Gonet sobre a escalada de violência que resultou no vandalismo de 8 de janeiro. O antecessor de Gonet desprezou advertências de oito ex-PGRs.

O foco em Alexandre de Moraes ofusca Dias Toffoli.

Toffoli indeferiu pedido para processar Aras por prevaricação, por não investigar Bolsonaro. Disse que nunca viu "nenhuma atitude contra a democracia".

Em 2024, Toffoli foi homenageado num jantar em Brasília por instituições financeiras quando era criticado por suas decisões monocráticas anistiando corruptos confessos condenados na operação Lava Jato.

Em 2019, a advocacia em peso bajulou Toffoli, num jantar em São Paulo, a título de desagravar o STF diante das críticas ao inquérito típico dos períodos de exceção. Alexandre de Moraes foi escolhido pelo então presidente do Supremo para conduzir a ação policial e ser o julgador final da causa.

Dividida, a OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) prega um código de ética para o STF, mas financia a participação de corregedores e juízes em convescotes no exterior com despesas pagas, cortesia extensiva a familiares.

Moraes não é o único ministro com parentes em escritórios de advocacia.

"É difícil encontrar um tribunal com tanta transparência como o Supremo," disse Gilmar Mendes, no Roda Viva. "Tudo se sabe, tudo é público", afirmou.

O procurador da República Celso Tres diz que a Lava Jato ignorou um modelo de atuação para evitar desvios. "Foi a persecução do mensalão. Nela, o PGR Antonio Fernando foi cirúrgico, altivo, tempestivo, rigoroso e competente. Ação, pautada pela redução de danos, não lesou o devido processo legal, economia, tampouco a democracia".

Antonio Fernando foi criticado internamente no MPF por não ter incluído Lula na denúncia do mensalão.

Toffoli tentou reescrever a história, em 2019. "Hoje, não me refiro nem mais a golpe nem a revolução. Me refiro a movimento de 1964". O ministro abriu as portas do Judiciário aos militares e pavimentou a eleição do capitão.

A releitura dos fatos não pode esquecer a tragédia que abalou o país: mais de 700 mil mortes da pandemia no desgoverno Bolsonaro.


Globo demite três executivos após erros da Copa, na maior mudança da década em sua direção- F5 FSP

 Gabriel Vaquer

Aracaju

A Globo vai anunciar nesta sexta-feira (4) a maior reformulação em sua direção na década. Paulo Marinho, presidente da companhia, confirmará as saídas de três diretores. São eles: Manuel Belmar, diretor de finanças e estrutura; Manuel Falcão, diretor de marca e comunicação institucional; e Pedro Garcia, diretor de direitos esportivos.

Segundo apurou a coluna, Marinho convocou uma reunião com diretores para anunciar outras mudanças. Nos bastidores, se diz que Amauri Soares, diretor-executivo da TV e Estúdios Globo, deve ganhar mais poder. Seu nome tem apoio no conselho de administração da empresa.

Um outro nome que pode ganhar mais espaço é o de Fernando Ramos, diretor executivo de parcerias estratégicas de distribuição da Globo. Sua saída chegou a ser pensada, mas ele deve assumir outras áreas da empresa.

O próprio Paulo Marinho deve mudar sua função e ficar apenas no conselho da empresa. Belmar sairá por diversos motivos. O primeiro deles é a estagnação das receitas da empresa, que no primeiro semestre, ficaram aquém do esperado. Houve o chamado "break even", quando a receita total de uma empresa se iguala aos seus custos totais, resultando em nem lucro, nem prejuízo.

O Globoplay, serviço de streaming da emissora, passou a funcionar no azul e aumentou sua base de assinantes, mas não deu lucro devido a um acordo com a operadora Claro. A companhia paga um valor fixo e oferece a plataforma de graça para assinantes.

Fator Copa do Mundo

Outro fator que pesou bastante para a saída de Belmar foi a Copa do Mundo de 2026. Ele foi visto como o principal responsável por não comprar a totalidade dos direitos de transmissão do Mundial de seleções, deixando mais de 50 jogos exclusivos para a CazéTV. Esse mesmo motivo pesou para Pedro Garcia, que comprou o discurso de Belmar nos bastidores.

A gota d'água neste sentido veio no mês passado para o conselho de administração da Globo. A família Marinho foi informada de que a FIFA procurou a Globo para vender todos os 104 jogos para a empresa no segundo semestre de 2025, em nome da boa relação entre as partes.

Belmar e Garcia teriam se recusado a comprar os direitos, alegando que 104 jogos causariam uma overdose, o que cansaria o público. Não foi o que se viu em junho e julho, quando a própria Globo admitiu que errou ao não adquirir o pacote completo.

Falcão cairá devido à má fase da Globo como marca, na avaliação da empresa. Estudos realizados pela área de inteligência do conglomerado apontaram que a visão que o público tem da Globo piorou nos últimos anos. Parceiros de Falcão o defendem, dizendo que isso é culpa do país polarizando e da política nacional.

Manuel Belmar estava na Globo desde 2003. Em 2019, virou diretor de Finanças, Jurídico e Infraestrutura da empresa. Ele chegou a ser cotado a assumir a presidência do Grupo, por ser até então um homem de confiança dos herdeiros de Roberto Marinho (1904-2003).