quarta-feira, 11 de março de 2026

Escândalo do Master é show de cafonice -Sergio Rodrigues, FSP

 O escândalo do Master tem monopolizado a economia da atenção no Brasil. Justo que seja assim, embora um espírito cosmopolita possa estranhar que ele consiga gritar tão mais alto do que o desvario trumpista no Irã, que muita gente sensata já considera o início da Terceira Guerra e quem sabe do fim da vida humana na Terra.

Ensurdecedor, o barulho arrastou o Supremo Tribunal Federal para a maior crise da sua história, embora ainda falte incluir na fatura e investigar na medida justa o papel do Banco Central presidido por Roberto Campos Neto e de um vasto elenco de políticos –quase todos de direita– na ascensão apoteótica do tal Daniel Vorcaro.

Mesmo com todo esse falatório, tem passado despercebido um aspecto da chacina institucional promovida pelo ex-banqueiro: o grau de cafonice dos envolvidos. Reavivar a palavra cafona, que anda meio escanteada, pode ser a peça que faltava no quebra-cabeça.

Para quem não sabe ou já não se lembra, cafona é uma gíria brasileira nascida nos anos 1960. Adjetivo e substantivo pejorativo de dois gêneros, vindo provavelmente do italiano "cafone" (inculto, sem modos), significa de mau gosto, vulgar.

A palavra já foi e continua a ser usada como simples sinônimo de tosco, jeca –com valor negativo basicamente classista, portanto. Esse sentido também está nos dicionários.

No entanto, me arrisco a dizer que a acepção principal de cafona, em torno da qual se cristalizaram seus sentidos mais funcionais e intraduzíveis, fala de uma vulgaridade diferente.

A vulgaridade cafona envolve ostentação de luxo, encenação de superioridade, rusticidade de espírito, fanfarronice, falta de senso de ridículo e uma profunda insensibilidade social.

Tudo o que teria atingido o ápice na festa que o chefão do Master contratou na Sicília em 2023 por R$ 200 milhões —dos quais a banda Coldplay, responsável por um show privê, teria levado um quarto. A Polícia Federal não confirma se a festa contratada chegou a ocorrer.

Em Taormina ou em Trancoso, passando por Londres, num circuito que inclui de eventos para debate de "ideias" a degustações promíscuas do uí$que Macallan —tudo pago com dinheiro de investidores brasileiros lesados, não custa lembrar—, a cafonice que irmana setores da elite econômica e administrativa do país bate todos os récordes.

Cafonas, sim. Um bilhão de vezes cafonas. Num país que, ainda por cima, está entre os mais desiguais do mundo, a absoluta falta de elegância da turma do Master —os que compraram e os que se venderam— deveria ser, por si só, crime hediondo.

É preciso ter cuidado. Quando há indícios de que até quem teria muito a perder, como Alexandre de Moraes, pode ter se enredado em trama tão grosseira, o desalento político-institucional ameaça engolir tudo. A velha cafonice passa a refletir então uma nova —e profunda— falência cívica.

Se bem que, se o cafona-mor do Trump trabalhar direitinho, nosso desalento terá ao menos a vantagem de durar pouco —só até o grande fade-out sem créditos e sem música num cinema vazio do tamanho do mundo.