terça-feira, 5 de maio de 2026

Tarcísio lança presidente da Alesp ao Senado e critica Haddad, FSP

 Bruno Ribeiro

São Paulo

O governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) apresentou o presidente da Alesp (Assembleia Legislativa), André do Prado (PL), como o segundo candidato ao Senado de sua chapa, fechando a composição que deve ir às urnas em outubro.

O presidente da Alesp está nesta terça-feira (5) nos Estados Unidos e, segundo Tarcísio, conversou sobre o assunto com o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP), obtendo o aval dele.

Até o começo do ano passado, antes de Eduardo se mudar para o exterior, era o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) quem teria a vaga, em um acordo feito com Tarcísio e lideranças dos partidos que o apoiam.

Três homens vestidos com ternos escuros e gravatas estão sentados em cadeiras de madeira com encosto alto. O homem do centro olha para frente, enquanto os outros dois conversam entre si, inclinados em sua direção. Há garrafas de água e copos sobre a mesa à frente deles, além de placas com nomes.
O presidente da Alesp, André do Prado (ao centro), entre o governador Tarcísio de Freitas (esq.) e o presidente do PL, Valdemar Costa Neto - Danilo Verpa - 27.fev.26/Folhapress

"[André] acertou essa pré-candidatura com o Eduardo. Está lá nos Estados Unidos neste momento. Essas conversas já vinham acontecendo. Obviamente, a decisão ia caber –e isso foi combinado lá atrás com o [ex-]presidente Bolsonaro– ao [ex-]presidente e ao Eduardo. O Eduardo abriu mão de sua candidatura e então essa pré-candidatura fica com o André do Prado. Vai ser oficializado por eles, mas eu já estou aqui dando essa notícia a vocês", disse Tarcísio, em um evento, no Palácio dos Bandeirantes, para falar de obras rodoviárias.

O presidente da Alesp é o principal aliado do presidente do PL, Valdemar Costa Neto, no estado. Ao longo do mandato, estreitou laços com Tarcísio.

André do Prado, que tem reduto eleitoral na região do Alto Tietê, no leste da região metropolitana da capital, havia viajado aos Estados Unidos na semana passada para uma primeira conversa com o filho do ex-presidente, segundo seus aliados. Ele viajou novamente na noite desta segunda-feira (4), selando o acordo.

Entre bolsonaristas, há expectativa de que o próprio Eduardo figure como suplente de senador na candidatura de André, considerando que, formalmente, ele não está inelegível. A costura considera que, em uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro (PL) à Presidência, haveria condições de Eduardo retornar ao Brasil e assumir o mandato.

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Com o nome de André fechado, a chapa com a qual Tarcísio tentará a reeleição mantém seu atual vice, Felício Ramuth (MDB), e inclui ainda o deputado federal Guilherme Derrite (PP-SP) na outra vaga ao Senado. Derrite era secretário da Segurança Pública.

Na entrevista coletiva em que fez o anúncio, Tarcísio também criticou o ex-ministro da Fazenda Fernando Haddad (PT), pré-candidato de oposição a Tarcísio ao governo paulista, que na semana passada apontou falhas na condução das finanças paulistas.

"Era só o que me faltava, Haddad falar de política fiscal do estado de São Paulo. Está de brincadeira. O cara que quebrou o Brasil vai falar do estado de São Paulo? Eu tenho vergonha de falar um negócio desse", disse Tarcísio.

"Vamos lá, o legado do Haddad no governo federal: sete pontos a mais de relação dívida-PIB. A maior carga tributária da história. Uma penca de pessoas endividadas. Uma quantidade enorme de empresas em recuperação judicial. A segunda maior taxa de juros real do mundo", disse. "E esse cara realmente quer falar de fiscal? Ah, faça-me um favor, dá um tempo para mim", disse.

Tarcísio também rebateu uma fala específica de Haddad, que na semana passada havia dito que o governador era submisso ao presidente norte-americano, Donald Trump.

"O que tem a ver o estado de São Paulo com o Trump? Faz um favor pra mim. A gente não faz política externa aqui. Ele tem que parar de falar bobagem. Não trabalhou durante três anos, agora quer ficar falando besteira. É isso. Todo dia falando uma bobagem. A gente tá aqui todo dia fazendo uma entrega", disse.

Custos, riscos e crises de um sistema sem preços, Joisa Dutra, FSP

 "Não há crise no mercado de energia." A afirmação recente do presidente da Câmara de Comercialização de Energia (CCEE), Alexandre Ramos, ao classificar os problemas na comercialização de energia no Brasil como conjunturais, parece, à primeira vista, desconectada do cenário global. Para Fatih Birol, à frente da Agência Internacional de Energia, o atual contexto geopolítico configura "a maior crise energética da história".

As duas leituras tratam, no entanto, de crises diferentes.

Linhas de transmissão de energia elétrica em Ronda, na Espanha - Jon Nazca - 28.abr.25/Reuters

A crise global reflete choques de oferta e tensões geopolíticas. No Brasil, os sinais de estresse emergem de dentro do próprio sistema elétrico —na forma de inadimplência, judicialização e fragilidade contratual na comercialização de energia.

E isso aponta para um problema mais profundo.

Em mercados de eletricidade, crises não começam na falta de energia. Começam na falha de coordenação. E coordenação, nesse contexto, é feita por preços.

Quando o preço não coordena, o contrato deixa de disciplinar —e o mercado recorre à renegociação e à judicialização.

Desde 2019, com o episódio da Vega Energia, ao menos 13 comercializadoras enfrentaram dificuldades que resultaram em descumprimento de contratos ou pedidos de recuperação judicial. Os casos mais recentes envolvem valores bilionários. Crescem a inadimplência e a judicialização.

Não por acaso, representantes do mercado livre têm sinalizado preocupação. A Associação Brasileira de Comercializadores de Energia reforçou recentemente que a segurança do mercado depende do "respeito pleno aos contratos celebrados" —um sinal de que o problema já não é pontual, mas sistêmico, sendo descrito como a maior crise do setor em duas décadas.

Para entender o que está em jogo, é preciso dar um passo atrás.

O sistema elétrico, como qualquer organização complexa, pode ser coordenado de forma centralizada ou descentralizada.

No Brasil, a coordenação é centralizada, com preços derivados de modelos que buscam minimizar custos a partir de parâmetros técnicos e econômicos. Esse modelo funcionou bem em um sistema concentrado, basicamente formado por grandes usinas hidrelétricas e termelétricas a combustíveis fósseis.

Mas o sistema mudou com o avanço das fontes renováveis e a ampliação do mercado livre, que responde por cerca de 40% da energia consumida no país. Hoje há milhares de agentes, múltiplas tecnologias e decisões de investimento descentralizadas. O mercado livre cresce e passa a concentrar parcela relevante da expansão.

Surge, então, um paradoxo: temos contratos de mercado negociados no ambiente livre, mas ainda não temos preços de mercado para coordenar o sistema.

Essa desconexão cria arbitragem e enfraquece a capacidade de coordenar decisões e gerenciar riscos.

Em outros países, a crescente complexidade dos sistemas elétricos levou à adoção de mercados com preços formados por lances, capazes de sinalizar escassez, risco e valor da flexibilidade. No Brasil, essa transição ficou pela metade. E é nessa lacuna que emerge a crise atual.

O resultado é um sistema em que a complexidade cresce, mas os preços deixam de cumprir sua função essencial de coordenação e passam a gerar ruído.

Esse ruído se manifesta de forma clara: volatilidade desconectada da operação, aumento de riscos —como o curtailment (redução involuntária da potência do gerador elétrico para manter a estabilidade da rede)— e fragilidade no cumprimento de contratos.

O efeito aparece em cadeia. Perdas e restrições operacionais elevam a volatilidade. A volatilidade desorganiza os contratos. Sem mecanismos robustos de governança e gestão de risco, o sistema acumula vulnerabilidades que, em momentos de estresse, materializam-se em padrões e ampliam crises ao invés de contribuir para sua solução.

Toda grande crise tem múltiplas causas. Mas aqui o diagnóstico converge: o problema não é episódico —é sistêmico. E isso muda a natureza da resposta.

O desafio não é trivial e tampouco binário. Não é o caso de abandonar o modelo atual, mas de reconhecer seus limites para organizar um sistema em tamanha transformação. De um lado, é necessário aprimorar os modelos existentes, reduzindo discricionariedades, ampliando transparência e incorporando melhor a complexidade do sistema. De outro, é preciso avançar na construção de mecanismos de mercado capazes de produzir preços que bem coordenem decisões de produção, consumo e investimento.