segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Desastres climáticos: falta prevenção, sobra desculpa -Alvaro Costa e Silva, FSP

 As explicações meteorológicas que se seguem a um evento climático extremo não podem funcionar como desculpa ou álibi para a falta de prevenção aos desastres cada vez mais rotineiros e intensos.

O vendaval que atingiu o litoral de São Paulo e do Rio de Janeiro na semana passada, causando destruição e mortes, ganhou um nome chique: "bore ondular". O fenômeno se dá quando uma massa de ar frio avança sobre o ar excepcionalmente quente. Sua magnitude foi inédita para padrões brasileiros. Ok.

Placa de trânsito caída sobre a calçada indica direções para Laranjeiras, Flamengo, Centro e Botafogo Praia Shop. Dois cones de sinalização estão na rua próxima a um semáforo verde inclinado. Três pessoas caminham na calçada ao fundo, à noite, em área urbana com iluminação pública e comércio.
Ventania derruba poste de semáforo na esquina das ruas São Clemente e Guilhermina Guinle, em Botafogo, na zona sul do Rio - Eduardo Anizelli - 29.jul.26/Folhapress

O que se pode afirmar, também, é que as autoridades não passaram no teste do Super El Niño, cujo pico de força é aguardado para ocorrer entre outubro e dezembro. A rede de estações e sensores se mostra insuficiente para prever mudanças rápidas no tempo, ocasionando falhas no sistema de informação. No Rio, a Defesa Civil demorou a avisar a população sobre a força das rajadas. Alertas de celular só foram enviados quando o caos já se instalara na cidade, com ventos de 105 km/h, um número espantoso de árvores caídas (quase 300) e 1,9 milhão de pessoas sem energia.

Entre as imagens que viralizaram, uma mostrava turistas no alto do Corcovado, agarrando-se às muretas e grades do Cristo Redentor. Apesar do desespero, não perderam a chance de registrar o momento pelo celular. Na Barra, três operários que trabalhavam num prédio de 23 andares ficaram suspensos num andaime, indo de um lado para o outro, como um pêndulo. O jaú bateu repetidas vezes na parede, com os homens a mais de 25 metros do chão. Um deles, Wedson Sales, depois do sufoco, ao chegar em casa, em Santa Cruz, deparou-se com o lugar onde mora destruído, o muro do quintal desabado e as telhas quebradas.

Quem se importa com Wedson? Não é o Congresso, insensível às tragédias que afligem o Brasil e o planeta. Deputados e senadores avançam na agenda antiambiental. Fora o que já tivemos de retrocesso, tramitam 13 propostas para reduzir áreas de conservação, tidas como entrave ao agronegócio. É um crime às claras, sem remorso ou necessidade de álibi.

domingo, 2 de agosto de 2026

João Otávio Bacchi Gutinieki - Perdemos a capacidade de nos sensibilizar? FSP

João Otávio Bacchi Gutinieki

Advogado, é professor do FGV LAW

Mesmo que ainda à nossa espreita, parece que pouca gente se lembra (ou quer se recordar) dos tempos de insanidade pelos quais passamos durante a pandemia. Milhares de mortes diárias, desmandos, medicamento sendo mostrado para uma ema. Tudo passou tão rápido que parece que a ferida ficou aberta apenas para quem perdeu um ente querido, um amigo, e que fica remoendo um eterno "e se?".

Mas o que mais impressiona é que a falta de memória da crise sanitária parece permanecer no cotidiano, em outras tragédias diárias. Perdemos a capacidade de nos sensibilizar?

Jovem com camiseta preta tira selfie com celular em ambiente interno branco. Ao fundo, sofá preto com detalhes em botão e prateleira com objetos.
O gari Diêgo Rafael da Silva, 19, foi atropelado e morto por um motorista bêbado enquanto trabalhava na Barra Funda, na zona oeste de São Paulo - Reprodução/TV Record

No domingo passado (26), foi noticiada a morte de um coletor de lixo, Diêgo Rafael da Silva, atingido em uma rua de São Paulo por um veículo de grande porte conduzido por uma pessoa alcoolizada, segundo demonstra a investigação da polícia.

Diêgo tinha apenas 19 anos. Dezenove anos. Deixa uma filha de 1 ano e 3 meses e a esposa grávida.

Uma morte troncha, digna de um país que, como dizia Darcy Ribeiro, é um moinho de gastar gente.

Quais as respostas? Uma nota de condolências de meia dúzia de políticos nas redes sociais?

Em algumas partes da capital paulista, coletores pararam por alguns dias. Como Diêgo, são funcionários de uma concessionária que presta o serviço público no lugar da prefeitura. Uma situação de "quarteirizado". A preocupação da concessionária, de acordo com o noticiário, foi informar a população que o serviço foi normalizado na quarta-feira (29). Normalizado para quem?

Grupo de garis em uniformes verde e laranja protesta em rua urbana, segurando cartazes com frases como 'A vida dos garis importa' e 'Justiça por Diego'. Prédios altos e árvores aparecem ao fundo sob céu claro.
Trabalhadores da coleta de lixo da capital paulista realizam protesto em frente ao 7º DP (Lapa) contra a morte do gari Diêgo Rafael da Silva, atropelado e morto por um motorista embriagado no domingo (26) - Bruno Santos/Folhapress

Mas e os demais colegas, companheiros de uniforme, não se manifestam? Uma situação como esta, em um lugar em que a vida tem algum valor, levaria, no mínimo, a uma paralisação geral na coleta de lixo. Seria a homenagem devida a uma pessoa que perdeu a vida cumprindo seu dever, trabalhando para a manutenção da possibilidade de se viver em sociedade e em uma cidade.

As autoridades policiais e judiciárias tomarão conta do condutor do veículo, que está preso. Mas e nós, como sociedade? Não nos sensibilizaremos de maneira decente? Um protesto contra a violência no trânsito, uma passeata pela vida de Diêgo; enfim, façamos alguma coisa.

Diversas placas espalhadas pela metrópole dizem que no ano passado morreram 475 motociclistas. Há algum espanto?

Placa eletrônica sobre rodovia exibe mensagem: '475 pessoas morreram em acidentes de moto em 2025'. Caminhão vermelho e carro branco trafegam na via sob a placa.
O prefeito Ricardo Nunes (MDB) mandou instalar mais de dois mil letreiros sobre mortes no trânsito em SP - Divulgação

É impossível viver em paz onde há sempre pessoas invisibilizadas: empregados por aplicativo, garis, coletores de lixo; gente da nossa gente e que está sempre a nos servir, mas que não queremos ver.

A esperança é que possamos, um dia, nos sensibilizar pela dor do outro e pelo valor de cada vida. Que deixemos de ser o dito moinho, onde "vive-se e morre-se como moscas", como disse o comentário de um leitor nas páginas desta Folha.

Que sejamos o país em que as pessoas se mobilizam pelo que importa, como bem mostra a exposição sobre Laudelina de Campos Mello (1904–1991), liderança histórica pelos direitos das empregadas domésticas, em cartaz no IMS Paulista. É pelos filhos do Diêgo e pelo meu, que também está para nascer.

O ‘Possesso’ esquecido, Ruy Castro -FSP

 Deu no Globo. Amarildo, meia-esquerda da seleção na Copa do Mundo de 1962, no Chile, está internado há três anos no Hospital Copa Star. Tem 87 anos. Sua saúde começou a decair em 2011, quando a radioterapia para um carcinoma de laringe atingiu a região cerebral. O diagnóstico de Alzheimer veio em 2018. Desde então, Amarildo sofreu três AVCs, está cego e é alimentado por sonda gástrica. Sua internação é acompanhada por sua família e mantida por um plano de saúde da CBF.

Alguns ex-jogadores, como Paulo Cezar, Carlos Roberto e Luxemburgo, seus contemporâneos de Botafogo e Flamengo, o visitam. Amarildo não está abandonado, mas esquecido. Ao falarem daquela Copa, todos citam Garrincha, que de fato jogou por dois quando Pelé sofreu a distensão na segunda partida, que o afastou pelo resto do torneio. Mas quem entrou no lugar de Pelé foi um garoto de 22 anos, estreante na seleção e, de cara, com o peso de substituir o maior do mundo.

Amarildo entrou contra a Espanha e fez os dois gols da virada do Brasil por 2x1, levando a seleção à fase seguinte. Na final, contra a Tchecoslováquia, foi ele quem, dois minutos depois de o Brasil tomar 1x0, empatou o jogo e abriu o caminho para a vitória por 3x1 e o título. Três gols em quatro partidas, uma raça que fez Nelson Rodrigues chamá-lo de "Possesso" —possuído por uma força incontrolável— e, depois, uma bela carreira na Itália. E então voltou para ser ignorado no Brasil.

O futebol despreza o passado. Não se fala mais, por exemplo, em Zizinho, o craque que, um dia, Pelé sonhou ser. As duas Copas que consagrariam Zizinho, em 1942 e 1946, não aconteceram, por causa da guerra. A de 1950, da qual ele foi eleito o maior jogador, o Brasil perdeu —e, no Brasil, é obrigatório ser campeão mundial. Zizinho, assim como Leônidas, Heleno, Ademir Menezes, Julinho, Zico, Sócrates, Falcão e Junior, não foi.

Amarildo ajudou a dar o bi ao Brasil. Mas nem isso bastou. Aos olhos de hoje, é menos lembrado do que Vampeta, "penta" por ter jogado 19 minutos em 2002.