segunda-feira, 2 de novembro de 2026

Fazer um Ironman virou kinda cool, The News

 

A moda dos triatletas pegou. A Ironman — que organiza provas de natação, bicicleta e corrida — fechou 2025 com mais de 250 mil inscrições em 148 eventos no mundo.

A prova completa tem 3,8 km de natação, 180 km de bicicleta e 42 km de corrida e pode levar até 17 horas. Mesmo assim, a média de idade dos competidores está caindo.

Entre os iniciantes, o crescimento foi de 10% em um ano. Já os estreantes com menos de 30 anos mais do que dobraram desde 2019. Só na prova completa, a alta foi de 46% em um ano.

Os jovens querem sexo, drogas e rock’n roll nadar, correr e pedalar. Na América do Norte, a média na prova completa passou de 42,5 para 40 anos. No top tier, a campeã mundial da modalidade feminina tem 28 anos, assim como o vice-campeão masculino.

Por que isso importa? Só a cidade de Florianópolis — sede de uma das principais provas no país — movimenta +R$ 70 milhões na economia local durante o evento. Os profissionais dividem um prêmio anual de US$ 6M.

🌎 O hype é global. A França já é o segundo maior mercado de triatlo do continente, com +31% de estrangeiros. Na América Latina, o México responde por quase 1/4 dos atletas da região. O Oriente Médio também vai receber sua primeira prova completa em Omã.

O esporte, antes associado a atletas veteranos, está rejuvenescendo, e as vagas estão cada vez mais disputadas. Para se ter ideia, 32 provas da temporada se esgotaram apenas neste ano.

Nas Filipinas, ilha combate avanço do mar com natureza, não concreto - FSP

 Pam Castro

Malolos (Filipinas)

Durante anos, moradores de uma ilha sujeita a inundações, ao norte de Manila, capital das Filipinas, elevaram suas casas sobre sucessivas camadas de concreto. A força das águas, porém, sempre voltava a ameaçá-las.

Os 3.000 habitantes da pequena ilha de Pamarawan são castigados por fortes marés de tempestade, pela subsidência do solo e pela elevação do nível do mar, agravados pelas mudanças climáticas. Agora, passaram a recorrer a estacas de bambu e conchas de ostras descartadas para construir uma barreira que enfraqueça as ondas e controle as inundações.

"Ficávamos apavorados sempre que havia tufões. Não conseguíamos dormir à noite", conta o pescador Edgar Javier, lembrando como ondas fortes chegaram a derrubar uma das paredes de concreto de sua casa. "Sempre que as ondas batem, a parede treme."

O projeto começou quando a prefeitura de Malolos, município ao qual pertence a ilha, iniciou um estudo com uma consultoria holandesa de engenharia. "Projetos de infraestrutura de concreto não serão suficientes", diz o prefeito Christian Natividad.

Três trabalhadores com roupas azuis recolhem lixo acumulado sobre redes de contenção na costa. Ao fundo, barco e estrutura de madeira no mar sob céu claro.
Trabalhadores removem lixo acumulado sobre sacos de fibra de coco preenchidos com conchas de ostras que formam quebra-mar na ilha de Pamarawan, próxima a Manila, capital das Filipinas - Ted Aljibe - 13.out.26/AFP

A abordagem faz parte da chamada adaptação climática a partir de soluções baseadas na natureza. O conceito é especialmente atraente para o país, que ainda enfrenta um escândalo bilionário relacionado a desvios de dinheiro em projetos de controle de enchentes feitos com concreto de baixa qualidade —e, em alguns casos, inexistentes.

O projeto é o o primeiro desse tipo no país. Inicialmente, enfrentou resistência de autoridades e moradores, mas Natividad explica que eles não tinham nada a perder.

"É como escolher entre aceitar inundações diárias ou fazer algo diferente, assumindo o risco", disse. "Eu escolhi o risco."

Reduzindo a força das ondas

Em maio do ano passado, trabalhadores, muitos deles moradores da ilha, começaram a instalar ao longo da costa estacas de bambu preenchidas com galhos e vegetação. As estruturas foram projetadas para reduzir a velocidade da água e reter sedimentos, com o objetivo de elevar gradualmente o leito marinho e favorecer o crescimento de manguezais.

No início deste mês, sob um calor escaldante, homens de boné fincavam estacas de madeira usadas para prender sacos de fibra de coco cheios de conchas em uma faixa litorânea artificial criada anteriormente com areia do mar, a cerca de 100 metros da costa

"O principal objetivo deste quebra-mar é reduzir o impacto das ondas antes que elas cheguem à comunidade", afirma a gerente do projeto, Lyana Galang. As barreiras funcionam em conjunto com as estruturas de bambu que retêm sedimentos.

Comunidade costeira com casas coloridas próximas a tanques retangulares de criação de peixes delimitados por cercas na água. Áreas de vegetação e canais circundam a região.
Armadilhas de sedimentos feitas de bambu reduzem a velocidade da água próximo às residências de Pamarawan e retêm sedimentos que irão abrigar manguezais - Ted Aljibe - 13.out.26/AFP

O cientista filipino Antonio Contreras diz que o país há muito depende fortemente de diques e paredões de concreto, muitos deles construídos sem estudos adequados.

"Alteramos tanto o meio ambiente que tendemos a trabalhar contra a natureza, quando, na verdade, deveríamos trabalhar com ela", afirma, observando que algumas falhas de projeto ligadas à corrupção custaram vidas.

Ele alerta, porém, que as soluções baseadas na natureza não são uma resposta universal, sobretudo durante inundações catastróficas, e devem complementar a infraestrutura convencional.

A abordagem adotada em Pamarawan poderia ser reproduzida em outros lugares, desde que as condições ambientais locais fossem cuidadosamente consideradas. Além disso, é necessário levar consideração o modo de extração do bambu e das conchas, que precisam ser obtidos de forma sustentável.

As instalações baseadas na natureza, que cobrem cerca de 14 hectares ao longo da baía de Manila, custaram US$ 1,1 milhão (cerca de R$ 5,9 milhões), incluindo a manutenção. Um paredão de concreto custaria cerca de US$ 1,4 milhão (R$ 7,5 milhões), segundo o prefeito. Ele estima que o bambu precisará ser substituído a cada cinco anos.

Pés secos e inundações contidas

Com a primeira fase concluída no fim de 2025, a instalação já trouxe algum alívio aos moradores. O pescador Edgar Javier diz que os quebra-mares reduziram a força das ondas e ajudaram a conter as inundações durante os tufões e as chuvas de monção deste ano.

"Isso fez uma enorme diferença para nós. Ainda sentimos as ondas, mas elas enfraqueceram significativamente. Agora, quase não são nada", afirma.

Arsenia Cabigao, 58, disse que as inundações antes prejudicavam seu sustento ao alagar os locais onde seca peixes para vender. "Finalmente nossos pés estão secos", diz.

Mulher em roupa clara com estampa floral seca peixes dispostos sobre uma estrutura de bambu em uma rua estreita de bairro residencial. Casas de alvenaria e madeira cercam a cena, com sombra parcial e céu azul ao fundo.
Arsenia Cabigao seca peixes ao sol na ilha de Pamarawan, na cidade de Malolos, Filipinas - Ted Aljibe - 13.out.26/AFP

A eficácia do projeto no longo prazo continua incerta. Segundo Natividad, uma avaliação científica prevista para o próximo ano determinará se o plantio de manguezais poderá começar.

Ao longo da próxima década, os sedimentos acumulados devem estabilizar o leito marinho e permitir o crescimento dos manguezais, que formarão outra barreira natural, afirma ele.

"É difícil lutar contra a água. Agora estamos tentando conviver com ela", diz Natividad.

domingo, 1 de novembro de 2026

Álvaro Machado Dias O segundo lulismo - FSP

 A virada de Lula (PT) no segundo turno das últimas eleições deve produzir consequências que vão muito além de um quarto mandato com as contas públicas em frangalhos e do abate do bolsonarismo, como se o indicador que faz o L tombasse para frente e lhe cuspisse bala. É a única em quase 40 anos de segundos turnos presidenciais e a esquerda a ganhou de lavada no celular, com uma estratégia de comando e controle que contraria o manual do marketing digital.

O janonismo foi imediatamente erigido a método: a cartilha de gamificação política, com missões diárias, obediência total e regra explícita para jamais interagir com posts adversários, já circula em espanhol entre os apoiadores do primeiro-ministro Pedro Sánchez, atrás nas pesquisas para a eleição de 29 de novembro, enquanto a presidente do México, Claudia Sheinbaum, convidou Janones para ajudá-la por lá e simpatizantes de Mélenchon fundaram na França a sua versão local, os Soldats Insoumis. Num passe de mágica, a esquerda converteu o que chamava de comportamento de gado em força de manada.

Dez pessoas em primeiro plano vibram e fazem gestos com as mãos, algumas segurando celulares para registrar o momento. Ao fundo, uma grande bandeira do Brasil amarela e azul é visível. O homem central veste camisa amarela da seleção brasileira.
André Janones comemora, ao lado de aliados em São Paulo, a vitória de Lula nas eleições - Danilo Verpa - 25.out.26/Folhapress

O L, por sua vez, saiu da campanha e entrou na vida: mais de uma dezena de estrelas de Hollywood e do cinema europeu, de Mark Ruffalo e Juliette Binoche a Pedro Almodóvar, gravaram um vídeo fazendo o L; a presidente do México o fez ao entrar na coletiva de imprensa; deputados chilenos o fizeram dentro do Congresso; o primeiro-ministro espanhol o colocou nas peças da própria propaganda.

Um gesto inventado em 1989 porque faltava dinheiro para cartaz chegou em três dias a governos e parlamentos de três continentes. Nenhum símbolo político brasileiro tinha saído do país antes.

Lula está na sua última eleição e muitos apostam que o lulismo entra em estertor com ele. Duas coisas sugerem o contrário: a conversão, por ora, do L, que aqui é de Lula, em Madri é de "lucha" e em Hollywood é de "love", em símbolo da esquerda no mundo e o avanço da inteligência artificial sobre o emprego num país que não a fabrica.

À medida que o token se fixa como unidade transnacional de trabalho, a desigualdade entre as nações cresce e os discursos anti-imperialistas rejuvenescem. Internamente, o funcionário de escritório ganha uma equipe de agentes, enquanto as fábricas e o agro se robotizam, o que reduz as contratações e, num primeiro momento, uberiza a sociedade.

As respostas a esse mundo tendem a combinar empreendedorismo e proteção social. A IA facilita abrir um negócio, assumindo contabilidade e marketing, mas também ameaça quem estudou e conquistou uma profissão. O lulismo pode encontrar aí uma nova base entre gente que nunca precisou de assistência pública e agora corre o risco de depender dela.

Se a hipótese estiver correta, isso tudo deve aparecer na cartilha de um novo movimento, o segundo lulismo, na linha do peronismo, que sobreviveu meio século a Perón porque virou um jeito de ser argentino. Trocando os sindicatos pelo celular, o movimento precisa de pouco: um gesto, a lembrança, mesmo que não inteiramente verdadeira, de Lula como pai do Bolsa Família e tropas de 10 milhões forjadas por anos de algoritmização do pensamento nas redes.

O brasileiro de esquerda das próximas décadas vai se dizer lulista como o argentino se diz peronista. E a esperança da direita de que o lulismo desaparecesse com Lula vai dar com os burros n'água.