Durante anos, moradores de uma ilha sujeita a inundações, ao norte de Manila, capital das Filipinas, elevaram suas casas sobre sucessivas camadas de concreto. A força das águas, porém, sempre voltava a ameaçá-las.
Os 3.000 habitantes da pequena ilha de Pamarawan são castigados por fortes marés de tempestade, pela subsidência do solo e pela elevação do nível do mar, agravados pelas mudanças climáticas. Agora, passaram a recorrer a estacas de bambu e conchas de ostras descartadas para construir uma barreira que enfraqueça as ondas e controle as inundações.
"Ficávamos apavorados sempre que havia tufões. Não conseguíamos dormir à noite", conta o pescador Edgar Javier, lembrando como ondas fortes chegaram a derrubar uma das paredes de concreto de sua casa. "Sempre que as ondas batem, a parede treme."
O projeto começou quando a prefeitura de Malolos, município ao qual pertence a ilha, iniciou um estudo com uma consultoria holandesa de engenharia. "Projetos de infraestrutura de concreto não serão suficientes", diz o prefeito Christian Natividad.
A abordagem faz parte da chamada adaptação climática a partir de soluções baseadas na natureza. O conceito é especialmente atraente para o país, que ainda enfrenta um escândalo bilionário relacionado a desvios de dinheiro em projetos de controle de enchentes feitos com concreto de baixa qualidade —e, em alguns casos, inexistentes.
O projeto é o o primeiro desse tipo no país. Inicialmente, enfrentou resistência de autoridades e moradores, mas Natividad explica que eles não tinham nada a perder.
"É como escolher entre aceitar inundações diárias ou fazer algo diferente, assumindo o risco", disse. "Eu escolhi o risco."
Reduzindo a força das ondas
Em maio do ano passado, trabalhadores, muitos deles moradores da ilha, começaram a instalar ao longo da costa estacas de bambu preenchidas com galhos e vegetação. As estruturas foram projetadas para reduzir a velocidade da água e reter sedimentos, com o objetivo de elevar gradualmente o leito marinho e favorecer o crescimento de manguezais.
No início deste mês, sob um calor escaldante, homens de boné fincavam estacas de madeira usadas para prender sacos de fibra de coco cheios de conchas em uma faixa litorânea artificial criada anteriormente com areia do mar, a cerca de 100 metros da costa
"O principal objetivo deste quebra-mar é reduzir o impacto das ondas antes que elas cheguem à comunidade", afirma a gerente do projeto, Lyana Galang. As barreiras funcionam em conjunto com as estruturas de bambu que retêm sedimentos.
O cientista filipino Antonio Contreras diz que o país há muito depende fortemente de diques e paredões de concreto, muitos deles construídos sem estudos adequados.
"Alteramos tanto o meio ambiente que tendemos a trabalhar contra a natureza, quando, na verdade, deveríamos trabalhar com ela", afirma, observando que algumas falhas de projeto ligadas à corrupção custaram vidas.
Ele alerta, porém, que as soluções baseadas na natureza não são uma resposta universal, sobretudo durante inundações catastróficas, e devem complementar a infraestrutura convencional.
A abordagem adotada em Pamarawan poderia ser reproduzida em outros lugares, desde que as condições ambientais locais fossem cuidadosamente consideradas. Além disso, é necessário levar consideração o modo de extração do bambu e das conchas, que precisam ser obtidos de forma sustentável.
As instalações baseadas na natureza, que cobrem cerca de 14 hectares ao longo da baía de Manila, custaram US$ 1,1 milhão (cerca de R$ 5,9 milhões), incluindo a manutenção. Um paredão de concreto custaria cerca de US$ 1,4 milhão (R$ 7,5 milhões), segundo o prefeito. Ele estima que o bambu precisará ser substituído a cada cinco anos.
Pés secos e inundações contidas
Com a primeira fase concluída no fim de 2025, a instalação já trouxe algum alívio aos moradores. O pescador Edgar Javier diz que os quebra-mares reduziram a força das ondas e ajudaram a conter as inundações durante os tufões e as chuvas de monção deste ano.
"Isso fez uma enorme diferença para nós. Ainda sentimos as ondas, mas elas enfraqueceram significativamente. Agora, quase não são nada", afirma.
Arsenia Cabigao, 58, disse que as inundações antes prejudicavam seu sustento ao alagar os locais onde seca peixes para vender. "Finalmente nossos pés estão secos", diz.
A eficácia do projeto no longo prazo continua incerta. Segundo Natividad, uma avaliação científica prevista para o próximo ano determinará se o plantio de manguezais poderá começar.
Ao longo da próxima década, os sedimentos acumulados devem estabilizar o leito marinho e permitir o crescimento dos manguezais, que formarão outra barreira natural, afirma ele.
"É difícil lutar contra a água. Agora estamos tentando conviver com ela", diz Natividad.