quinta-feira, 5 de março de 2026

Valdinei Ferreira - Pastora Ana Paula Valadão e marido celebram os ataques ao Irã e justificam a guerra para defender a igreja e a família, FSP

  

Valdinei Ferreira
Valdinei Ferreira

É doutor em sociologia pela USP e fundador do Mapa Centrante

A pastora Ana Paula Valadão expressou grande emoção com a precisão dos ataques dirigidos ao Irã. A dramaticidade de suas declarações sobre o conflito, envolvendo Israel, os Estados Unidos e o Irã, foi acentuada pela maquiagem borrada ao redor dos olhos e pelo tom choroso de seus comentários no vídeo postado em sua conta do Instagram, que soma quase 4 milhões de seguidores.

Seus elogios à precisão dos mísseis de Israel e dos Estados Unidos foram confrontados com o ataque à escola que resultou na morte de pelo menos 50 meninas. Além disso, a pastora enfrenta críticas por conta da incoerência entre o ensinamento cristão do amor aos inimigos e a sua comemoração efusiva da morte do aiatolá Ali Khamenei.

O pastor Gustavo Bessa, cônjuge de Ana Paula Valadão, interveio na controvérsia, defendendo a ação militar que resultou na morte do líder supremo do Irã. Para fundamentar seu ponto de vista, Bessa citou o pastor luterano Dietrich Bonhoeffer, que se envolveu em uma conspiração para assassinar Adolf Hitler, e mencionou a difícil situação de cristãos que são alvos de extremistas islâmicos na Nigéria. Sua conclusão é que a guerra se torna legítima como meio de proteger a igreja e a família.

Mulher de pele clara, cabelos curtos e cacheados, usando batom vermelho vibrante. Ela está em ambiente interno com fundo desfocado.
A pastora Ana Paula Valadão durante o vídeo em que expressa grande emoção com a precisão dos ataques de Israel e EUA ao Irã - Ana Paula Valadão Bessa no Instagram

As opiniões do casal de pastores sobre o conflito em curso no Oriente Médio exemplificam o modo como uma parcela considerável, talvez a maior, dos evangélicos percebe a geopolítica global e o cenário político brasileiro.

É importante acentuar que as opiniões dos pastores sobre o conflito que ocorre a milhares de quilômetros do Brasil tem conexões diretas com a política nacional. Na segunda parte do vídeo, que celebra os ataques contra o Irã, a pastora Ana Paula se vale da linguagem bíblica para conclamar os brasileiros para que se levantem contra os poderes estabelecidos no país.

O alinhamento ideológico de Ana Paula e de seu marido é feito de um amontoado de termos teológicos cultivados durante décadas entre evangélicos brasileiros e estadunidenses. Esses termos funcionam como "senhas" para identificar quem está do lado de Deus, obviamente o deles, e quem está do lado do Diabo. Qualquer esforço para estabelecer nuances ou questionar pressupostos interpretativos é imediatamente classificado como ataque à fé.

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Termos como Israel, Trump, família, cristãos perseguidos, islamismo, guerras e a volta de Jesus são ingredientes políticos e religiosos misturados em um caldeirão. Depois de um breve período de fervura no caldeirão fundamentalista, idealmente com o acompanhamento de música gospel, como a cantada por Ana Paula, a bebida estará pronta. É só beber para alucinar e enxergar o mundo cindido numa guerra entre o bem e o mal.

Inegavelmente, a teocracia iraniana oprime mulheres, cristãos, gays e outras minorias. Mas e o regime da Arábia Saudita? Não faz o mesmo? Como a teologia de Valadão e companhia explica que Deus está usando Donald Trump para atacar o Irã e combater o mal enquanto faz negócios com Mohammed bin Salman, o ditador saudita?

Outro exemplo de embriaguez seletiva causada em quem bebe a poção fundamentalista é a aplicação do termo ditadura pela pastora Ana Paula. Emocionada, ela alerta no vídeo contra o perigo das ditaduras, mas não enxerga que o presidente Trump age como ditador ao não submeter o ataque ao Irã ao Congresso dos Estados Unidos, como manda a regra democrática constitucional.

No Irã, existem 35 igrejas ativas em Teerã (incluindo catedrais) e o Parlamento iraniano reserva duas cadeiras cativas para deputados cristãos (armênios e assírios). Como já ocorreu na Palestina, a ação dos Estados Unidos e de Israel tornarão a vida dos cristãos no Irã ainda mais difícil. Mas quem consegue explicar isso para quem bebe certezas no caldeirão fundamentalista?


O PSOL e o futuro da esquerda brasileira, FSP

 VÁRIOS AUTORES (nomes ao final do texto)

Em tempos de avanço da extrema direita no mundo e de reorganização das forças conservadoras no Brasil, a tarefa central da esquerda é combinar unidade política com nitidez programática. Não há contradição entre essas duas dimensões. Pelo contrário: a experiência brasileira recente mostra que é justamente quando caminham juntas que o campo popular se fortalece.

PSOL tem atuado com responsabilidade nesse sentido. Somos parte da base política e social que sustenta o governo do presidente Lula diante da ofensiva permanente da extrema direita e das pressões do centrão. Estivemos juntos nos momentos decisivos: contra o golpe da presidenta Dilma Rousseff, na defesa da democracia, no enfrentamento ao bolsonarismo, na disputa no Congresso Nacional por um sistema tributário mais justo, na luta para que os mais ricos paguem mais impostos e na defesa de direitos históricos do povo brasileiro.

A deputada federal Luiza Erundina (PSOL-SP) discursa na Câmara - Elaine Menke - 1º.mar.2023/Câmara do Deputados

Também fomos protagonistas de debates na defesa do fim da escala 6x1, recolocando na agenda nacional a dignidade da vida dos trabalhadores, no enfrentamento à PEC da Blindagem e na disputa orçamentária por investimentos sociais. Em diversos momentos o PSOL demonstrou que é possível combinar combatividade, responsabilidade política e capacidade de diálogo amplo.

Mesmo sendo um partido jovem, o PSOL consolidou lideranças nacionais capazes de dialogar com diferentes setores da sociedade e representar causas fundamentais do povo brasileiro, há muito invisibilizadas: o combate ao racismo, a ética pública, o cuidado ambiental, a luta das mulheres, os direitos da população LGBTQIA+, a defesa dos povos indígenas, dos trabalhadores, dos idosos, dos serviços públicos e das periferias.

Ao mesmo tempo, não ignoramos os desafios impostos pelo sistema político brasileiro. A cláusula de barreira e outras regras eleitorais têm buscado reduzir o espaço de partidos programáticos e fortalecer uma lógica baseada no fisiologismo e no conchavo. Apesar disso —ou talvez justamente por isso— o PSOL segue crescendo eleitoralmente.

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É com essa história e com esse capital político que o PSOL quer colocar todo o seu empenho para a reeleição do presidente Lula neste ano de 2026 e para ampliar uma bancada no Congresso que esteja em sintonia com uma agenda política, social e econômica unitária que articule temas urgentes e concretos em favor do povo trabalhador.

Nesse contexto, o PSOL foi recentemente instado a discutir a possibilidade de uma federação única que reunisse toda a esquerda sob liderança do PT. É um debate legítimo, e nosso partido o está fazendo com seriedade e transparência, afirmando o máximo de unidade que a conjuntura exige e preservando a autonomia que permitiu ao PSOL crescer, renovar agendas e ampliar a representação da esquerda na sociedade.

A manutenção de duas federações no campo da esquerda como existe hoje —Brasil da Esperança e PSOL-Rede— fortalece o campo progressista. Do ponto de vista político, amplia a diversidade de vozes e de representação social. Do ponto de vista eleitoral, contribui para ampliar a base de apoio ao projeto declarado pelo presidente Lula.

PSOL e PT cumprem, nesse cenário, papéis complementares. Há agendas que exigem a força de um grande partido de governo. E há disputas políticas, sociais, culturais e ambientais que apenas um partido com a identidade e a liberdade política do PSOL consegue impulsionar. No sentido de preservar essa independência política, participaremos da coligação presidencial, mas temos uma opinião contrária a federar com o PT.

Derrotar a extrema direita exige unidade e também combatividade, coerência programática e mobilização social. Nesse terreno, o PSOL tem muito a oferecer ao futuro da esquerda brasileira.

O desafio diante de nós não é apenas vencer eleições. É reconstruir o país, ampliar direitos e abrir caminhos para um projeto popular, democrático, soberano e ambientalmente sustentável. Para isso, o Brasil precisa de uma esquerda plural e forte. E o PSOL, com seu espírito crítico, seguirá trabalhando para ser uma das forças que mais crescem, mais mobilizam e mais inspiram esperança no povo brasileiro.

Luiza Erundina

Deputada federal - SP


Ivan Valente

Deputado federal - SP


Sâmia Bomfim

Deputada federal – SP


Glauber Braga

Deputado federal = RJ


Chico Alencar

Deputado federal - RJ


Talíria Petrone

Deputada federal - RJ


Tarcísio Motta

Deputado federal - RJ


Célia Xacriabá

Deputada federal - MG


Fernanda Melchionna

Deputada federal - RS


Edmilson Rodrigues

Ex-deputado federal - PA


Bancada Feminista

(Assembleia Legislativa de São Paulo)


Guilherme Cortez

Deputado estadual - SP


Mônica Seixas

Deputada estadual - SP


Flávio Serafini

Deputado estadual - RJ


Prof. Josemar

Deputado estadual - RJ


Luciana Genro

Deputada estadual - RS


Matheus Gomes

Deputado estadual - RS


Lívia Duarte

Deputada estadual - PA


Linda Brasil

Deputada estadual - SE


Hilton Coelho

Deputado estadual - BA


Renato Roseno

Deputado estadual - CE


Camila Valadão

Deputada estadual - ES


Fábio Félix

Deputado distrital - DF


Max Maciel

Deputado distrital - DF

Max Maciel
Deputado distrital - DF

A lavagem dos colarinhos brancos, Ruy Castro FSP

 Se você é homem, adulto e obrigado a se vestir formalmente, com certeza já dispensou alguns minutos a observar os formatos dos colarinhos. Existe o clássico colarinho francês, com pontas médias e mais fechadas; o italiano, mais curto e com pontas abertas; o americano, de pontas longas, abotoadas à camisa; o tipo padre, com a gola pequena e em pé, exigindo quilos de goma; e o asinha ou tico-tico, com as pontinhas dobradas para fora. Todos são colarinhos brancos. Não significa que seus usuários sejam criminosos. Só alguns.

Mas, embora se fale muito nos "crimes de colarinho branco", é raro ver pessoas com colarinhos dessa cor associados aos ditos crimes. Os criminosos mais presentes na mídia usam camiseta, sem colarinho. São os mais pobres da categoria, ladrões de carteira ou de celular. Como sua ação costuma ser muito rápida, tanto no trânsito quanto numa rua escura, não precisam se preocupar com a apresentação. Sabem que suas vítimas não terão tempo para analisar seus colarinhos, donde uma camiseta comum, mesmo regata, sem mangas, será socialmente aceitável.

Os bandidos mais graduados, que portam armas pesadas, preferem o colarinho mole e casual das camisas polo, estas quase sempre amarelas ou de riscas. Têm a vantagem de expor seus bíceps sarados, produto de horas de malhação em academias ou nas instalações militares a que até havia pouco pertenciam. Não significa que os criminosos de colarinho branco não tenham esses bíceps sarados —é que costumam escondê-los debaixo do paletó, embora isso não impeça que sejam detectados pela largura dos ombros. Recomenda-se atenção na presença de um deles.

E chegamos aos elegantes criminosos nos casos hoje em voga: dos escândalos do Banco Master, das fraudes no INSS, dos desvios de emendas parlamentares, do vazamento de dados no STF, dos mandantes do 8 de Janeiro. Esses, sim, são todos de colarinho branco. Vide Daniel Vorcaro, o Careca do INSS e outros.

Não se pode confiar na alvura de seus colarinhos. São lavados junto com o dinheiro.