Esses dias vi um vídeo de um certo apresentador de televisão falando sobre como os mais pobres precisam de um incentivo para saírem do Bolsa Família. Segundo ele, essas milhões de pessoas que hoje dependem dos R$ 600 oferecidos pelo programa não saem dele porque não querem. Pelo contrário, segundo o apresentador, essas famílias em estado de vulnerabilidade social criam "atalhos" justamente para não prosperarem e assim poderem permanecer no programa.
A fala do tal apresentador não surpreende. Afinal, ricos como ele costumam ter uma visão muito crítica a qualquer tipo de assistência social ou programa que de fato permita algum tipo de redistribuição de riquezas. O que esses abastados não costumam mencionar é que o Brasil vive uma verdadeira epidemia de assistencialismo aos ricos.
Vemos diante de nossos olhos uma classe inteira viciada em mamatas, atravancando o crescimento do Brasil. Governo sai, governo entra e tudo segue igual: empresários, banqueiros, herdeiros e demais abastados de todas as categorias mamam indiscriminadamente nas tetas do Estado, bolando todo tipo de estratégia para ganhar mais e pagar menos. Táticas populares incluem sonegar impostos, ocultar patrimônio, fraudar o sistema financeiro, cooptar agentes do Estado, enfim, fazer o que podem para ganhar mais e pagar menos, assistindo a si próprios, trabalhando em prol de seus próprios interesses. Uma vergonha.
"Ah, mas eles precisam!", dirão os defensores da classe. "Os impostos no Brasil são deveras altos. Se pagassem tudo que devem ao Estado brasileiro, ou pior, se tratassem de forma digna trabalhadores, lhes oferecendo minimamente o que a Constituição e a CLT lhes garantem (imagine que ousadia), não sobraria o suficiente para sustentar seus helicópteros, jatinhos, iates, vidas luxuosas, noivados em castelos, ilhas privativas e viagens de esqui pelos Alpes Suíços", alegam, justificando suas maracutaias.
"Ah, mas eles trabalharam muito pra conquistar tudo o que têm", dirá a ingênua classe média que se vê correndo sérios (e delirantes) riscos de pertencer a este grupo de abastados e acabar sofrendo destas mesmas mazelas, sendo obrigada a recorrer a estes subterfúgios para manter o mínimo de dignidade.
A verdade é que o governo brasileiro é e sempre foi uma mãe para essa finíssima fatia da população, seja legislando em seu favor (afinal, onde mais no mundo o consumo de uma diarista é proporcionalmente mais tributado do que os dividendos de um bilionário?), seja se mostrando aberto aos seus galanteios não necessariamente lícitos, seja fazendo vista grossa para seus desvios éticos e financeiros.
E aí o resultado é um grupo de ricos que não tem nenhum incentivo a contribuir com o mínimo, que está viciado em acumular renda em escala muito maior do que aquilo que efetivamente devolve à sociedade, vivendo às custas do trabalhador que sai todo dia para produzir e gastar seu ordenado contraindo dívida no carnê para manter a economia girando.
Antes que me apedrejem, deixo claro que sim, há exceções. Há boatos de que, embora raro, existe, sim, o rico com alguma consciência social. Mas trabalhemos aqui com a média, com a regra, que é o que conta no fim das contas.
Fica aqui então o meu apelo ao governo. Precisamos de incentivos para que esses ricos encostados em seus lucros e dividendos comecem a parte que lhes cabe.






