terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Bruno Gualano - Máscaras, ciência e política, FSP

 Na pandemia, vacinas, distanciamento social e cloroquina converteram-se em bússolas ideológicas. Da lógica sectária não escaparam nem as máscaras: para alguns, símbolo de cuidado coletivo; para outros, cabrestos impostos por algozes da liberdade. À ciência, coube examinar sua utilidade.


As melhores evidências —que incluem alguns ensaios controlados e o uso adequado de respiradores de maior filtração— apontam para um modesto, porém consistente, efeito protetor. A heterogeneidade das máscaras (tecido, cirúrgicas, N95), seu uso adequado e a adoção simultânea de outras medidas protetivas dificultam conclusões mais robustas.

Pessoa com máscara azul e óculos escuros usa terminal de autoatendimento. Ela veste camiseta verde e tem tatuagem preta no braço direito.
Usuário do transporte pública usa máscara durante o surto da variante Ômicron do coronavírus - Rubens Cavallari - 26.nov.22/Folhapress

Não é novidade que intervenções eficazes em condições controladas podem perder desempenho no mundo real. Mas um estudo publicado em 2025 por dois pesquisadores da USP foi além: concluiu que o uso de máscaras durante a pandemia estaria associado ao aumento da mortalidade em países europeus. Grupos extremistas apressaram-se em difundir a publicação, como se esta revelasse a verdade ocultada pelo "mainstream".

Ao presumir a posição dos autores como da própria universidade, Bolsonaro tuitou: "USP: Mais que inúteis, as máscaras foram perigosas na Covid", e ironizou: "Só faltou a USP se desculpar com Jair Bolsonaro".

O problema é a fragilidade das novas evidências, assentadas no terreno movediço dos estudos ecológicos, cuja unidade de análise é o coletivo. Nesse tipo de desenho, correlações entre grupos não são diretamente extrapoláveis para indivíduos. A inobservância desse conceito é conhecida como falácia
ecológica.

Um caso paradigmático é o estudo de William Robinson, nos anos 1950. Ao analisar dados agregados dos estados norte-americanos, ele encontrou correlação positiva entre proporção de imigrantes e alfabetização média; no nível individual, porém, imigrantes eram menos escolarizados que nativos. A
aparente contradição se explica porque imigrantes tendiam a se concentrar em regiões mais desenvolvidas, com melhores indicadores educacionais.

O mesmo viés reaparece no estudo das máscaras: quem as usou com mais assiduidade não seria justamente quem corria mais risco, como idosos e doentes crônicos? A resposta se perde na média da população.

O estudo incorre em outro erro elementar: a inversão da ordem causal. A correlação, por si só, não distingue causa e efeito; cabe ao pesquisador reconstruir a sequência dos eventos. Em alguns contextos, isso é particularmente difícil, como nos estudos que associam adoçantes à obesidade: eles causam ganho de peso ou são mais usados por quem tenta emagrecer?

Em casos mais simples, porém, a solução emerge à luz da plausibilidade mecanística: uma associação causal precisa fazer sentido no mundo real. Pessoas que usam paraquedas morrem mais do que as que não usam. Mas o paraquedas, evidentemente, não mata; ele é acionado quando o risco já é extremo, como num salto de avião. Troquemos o paraquedas pela máscara.

Uma nova onda de Covid-19 eleva a mortalidade e, simultaneamente, o uso de máscaras. É mais plausível atribuir as mortes às máscaras ou o aumento de seu uso ao medo de morrer? Os autores optaram pela primeira leitura, ao sugerir que máscaras matariam por provocar a reinalação de partículas virais —hipótese destituída de qualquer respaldo factual. Essas críticas foram formuladas em artigo recente, assinado por epidemiologistas, analistas de dados e metodologistas.

Evidências de baixa qualidade alimentam políticas públicas e narrativas frágeis. Na pandemia, o custo do vilipêndio da ciência veio em vidas —faz bem lembrar que a mortalidade no Brasil foi muito maior do que a média mundial. Pelo feito, Bolsonaro não merece desculpas, mas responsabilização.

Falta homem no mercado?, Mirian Goldenberg, FSP

 

Na semana passada encontrei a primeira edição do meu livro "A Outra: um Estudo Antropológico sobre a Identidade da Amante do Homem Casado", de 1990. Escrevi "A Outra" um mês após a morte da minha mãe. Ela acreditava que havia tido um câncer por ter descoberto que meu pai tinha uma amante há mais de 20 anos: sua secretária.

Um dos conceitos centrais da minha análise sobre as amantes de homens casados é o de "pirâmide da solidão", de Elza Berquó. Para a demógrafa, o aumento de separações legais, de uniões consensuais (sem legitimação), do número de mães solteiras e de celibatários, leva à constatação de que a família brasileira já não é mais a mesma. Quando analisou a população com mais de 65 anos no censo de 1980, Berquó descobriu que 76% dos homens estavam casados, enquanto 32% das mulheres estavam casadas, 55% viúvas, 9,5% solteiras e 3,5% separadas.

Berquó revelou que os homens teriam muito mais possibilidades de escolha no mercado de casamento, pois poderiam se casar com mulheres de sua idade ou mais jovens, enquanto as mulheres, à medida que envelheciam, tinham diminuídas suas chances de casamento.

Três rostos femininos estilizados em arte abstrata com cores sólidas. À esquerda, perfil marrom com olho verde e vermelho. No centro, rosto oval com cabelo ruivo, olho verde com sombra azul. À direita, rosto oval com cabelo azul, olho vermelho com sombra rosa e colar de contas vermelhas. Fundo roxo escuro.
Claudia Liz

De acordo com Berquó, apenas em 9% dos casos a mulher era mais velha do que o homem. Ela destacou que a regra seria de que o homem deveria ser mais velho do que a mulher, uma diferença de dois ou três anos no primeiro casamento. Mais ainda, a tendência do homem separado era a de recasar com uma mulher ainda mais jovem do que a ex-esposa. Com isso, as mulheres teriam até os 30 anos, no máximo, chances iguais às dos homens no mercado de casamento.

Berquó afirmou que o mercado matrimonial era muito desfavorável para as mulheres maduras: para cada homem solteiro ou divorciado de 50 anos, havia cerca de 50 mulheres disponíveis, já que ele poderia escolher mulheres mais jovens (e cada vez mais jovens em seus recasamentos), mulheres da sua idade e até mesmo mulheres mais velhas. No Brasil, o celibato feminino, definido por Berquó como a chegada da mulher aos 50 anos sem ter casado, era muito mais elevado do que o masculino.

Berquó ainda assinalou que a maior mortalidade dos homens estaria gerando um superávit de mulheres e levantou a hipótese de que, no Brasil, poderia estar havendo uma espécie de poliginia disfarçada. O grande contingente de mulheres sem possibilidades de casamento daria margem a que elas se unissem a homens casados com outras mulheres.

Na época, o que eu mais escutava das mulheres era: "falta homem no mercado!". No entanto, como escrevi em "A Outra", a lógica do mercado matrimonial —excessiva oferta de mulheres versus escassez de homens— não justificaria a infidelidade masculina. Na minha pesquisa sobre infidelidade, encontrei, por exemplo, homens que disseram ser "monogâmicos sucessivos" (casavam, separavam, recasavam...) e outros que afirmaram ser "monogâmicos por preguiça".

Os monogâmicos preguiçosos disseram que uma única mulher já dava muito trabalho, e que não conseguem administrar as excessivas demandas de duas mulheres. Para eles, tudo era mais fácil no passado, quando as mulheres "faziam vista grossa" e achavam natural que "todo homem fosse machista, galinha e infiel".

Seria interessante analisar o conceito de "pirâmide de solidão" à luz das profundas transformações das relações amorosas e sexuais nas últimas décadas. Será que, para as mulheres de 2026, ainda falta homem no mercado?

Flávio pode não ir ao segundo turno e implodir o bolsonarismo?, Juliano Spyer. FSP

 A aposta da candidatura de Flávio Bolsonaro é seguir os passos do PT em 2018: chegar ao segundo turno e demonstrar que o clã segue como o principal rosto da direita no país. Mas e se ele falhar já no primeiro turno?

Na semana passada, aumentaram as chances de a direita ter ao menos dois candidatos presidenciais neste ciclo. O PSD escolherá o nome para 2026 entre o governador de Goiás, Ronaldo Caiado, Eduardo Leite, do Rio Grande do Sul, e Ratinho Jr., do Paraná.

Diante desse cenário, o que o grupo político de Flávio fez para capitalizar o sucesso da caminhada do deputado Nikolas Ferreira, que terminou com um evento público em Brasília? Aparentemente, nada —ao contrário.

Homem de óculos e jaqueta marrom usa quipá branca enquanto toca o Muro das Lamentações com a mão esquerda e segura um celular com a direita.
Flávio Bolsonaro posta em suas redes sociais vídeo de sua visita ao Muro das Lamentações, em Jerusalém - Flavio Bolsonaro no Facebook

Nikolas já declarou apoio a Flávio, mas não o promoveu. Em sua chegada, discursou e concedeu entrevistas descrevendo a marcha como uma ação idealizada por ele, apartidária, voltada a "acordar o país" para a corrupção.

Flávio, por sua vez, continua tensionando a relação com os dois principais interlocutores entre Bolsonaro e o campo evangélico: o pastor Silas Malafaia e a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro.

Michelle não declarou apoio ao filho 01, mas rasgou elogios e bênçãos a Nikolas, a quem chamou de "filho 06" do marido. "O povo de bem te ama, te honra e intercede pela sua vida. Você é GIGANTE!", escreveu, apontando-o como liderança legítima.

Multidão de torcedores brasileiros vestindo camisas amarelas e verdes celebra sob chuva. Um homem no centro usa capa de chuva preta e levanta os braços, enquanto outros seguram bandeira do Brasil e registram o momento com celulares.
Nikolas Ferreira na caminhada a Brasília - Sérgio Lima - 25.jan.26/AFP

Silas Malafaia defende que o eleitor de direita escolha livremente entre os vários candidatos no primeiro turno. Paralelamente, Flávio se aproxima de desafetos do pastor, como o influenciador Pablo Marçal. Filipe Sabará, apresentado pela mídia como articulador político da campanha de Flávio, coordenou a campanha de Marçal à Prefeitura de São Paulo em 2024.

Esse contexto levanta duas questões. Primeiro: Flávio conseguirá negociar uma trégua com Malafaia e Michelle ou convencê-los a abraçar sua campanha, tornando-se mais competitivo no primeiro turno? Segundo: qual é o efeito dessa disputa sobre o campo evangélico?

Além de não contar com Michelle e Malafaia, Flávio fará campanha em um campo evangélico desgastado pela exposição negativa provocada por episódios recentes. O Globo noticiou no domingo que o deputado Silas Câmara, acusado de traição pela esposa, aparece associado ao escândalo do INSS. Também recentemente, o pastor Fabiano Zettel foi detido pela Polícia Federal no caso do Banco Master, e o deputado Sóstenes Cavalcante foi flagrado com R$ 470 mil em dinheiro vivo.

Após retornar a Brasília, Nikolas divulgou o conteúdo de um sonho profético relatado por sua irmã. Segundo ela, Deus teria dito que "o problema do Brasil não é Lula, o PT ou a esquerda. O problema é o joio, os que estão entre vocês, os que crescem às suas custas". A mensagem ecoa a frustração com lideranças que passaram a envergonhar parte da igreja.

Em resumo, há um filão relevante do eleitorado evangélico aberto à disputa —e ele pode ser ocupado pelo candidato do PSD. Resta saber se algum deles troca uma eleição relativamente segura ao Senado por uma guerra direta contra o bolsonarismo.