domingo, 15 de março de 2026

46 países têm algum plano para descarbonizar energia Caixa de entrada, EIXOS

 Quarenta e seis países têm algum tipo de plano de descarbonização do setor energético, mostra um estudo publicado nesta terça (10/3) por um grupo de think tanks e organizações ambientais internacionais.

 
O levantamento mostra que alguns passos já foram dados em direção ao mapa do caminho para a transição dos combustíveis fósseis, inclusive com 11 nações, como Reino Unido, Noruega e Colômbia, estudando limitar ou reduzir a oferta. O Brasil também aparece neste grupo, mas a realidade é que o governo Lula (PT) está mais interessado em garantir relevância no mercado de óleo e gás pelas próximas décadas.
 
O roteiro com caminhos para a transição, considerando as diferentes realidades locais, está sendo elaborado pela presidência brasileira da COP30.
 
No final de fevereiro, o embaixador André Corrêa do Lago lançou uma consulta aos países membros da convenção do clima. Mas logo em seguida estourou uma guerra no Oriente Médio, o que pode influenciar positiva ou negativamente as visões dos governos sobre o assunto.
 
Nos estudos de caso divulgados hoje (.pdf), IISD, E3G, Observatório do Clima e outras duas organizações analisam iniciativas e alianças que podem fornecer exemplos para o mapa do caminho da COP30, tanto com lições sobre o que funciona, quanto com lacunas que precisam ser fechadas.
 
Brasil, Colômbia e Turquia aparecem no documento com seus movimentos para elaboração de mapas do caminho nacionais. 
 
A Colômbia concluiu o seu em 2025, o brasileiro aguarda a definição de diretrizes e a Turquia, anfitriã da COP31, planeja apresentar sua Estratégia Nacional de Transição Justa até o final de 2026.
 
África do Sul, Indonésia, Vietnã e Senegal selecionados pelas Parcerias de Transição Energética Justa (JETPs) são estudos de caso sobre como vincular maior ambição ao financiamento internacional, mas também expõem lacunas quando o capital e os mecanismos de execução ficam aquém do esperado.
 
Já Alemanha, Chile, Canadá e Dinamarca fornecem exemplos sobre a eliminação gradual do carvão na matriz. 

  • Com quantos mapas do caminho se faz uma transição?
  • Embora o Brasil apareça no levantamento entre os países que estudam reduzir a oferta de petróleo, o planejamento energético indica outra prioridade.
     
    De um lado, o Ministério do Meio Ambiente, comandado por Marina Silva (Rede), defende que é preciso um cronograma para o país limitar a produção de óleo e gás, tendo em vista os compromissos climáticos assumidos no Acordo de Paris.
     
    Esta visão, no entanto, não é compartilhada com o restante do governo, que enxerga oportunidades na redução do consumo interno de derivados — conforme eletrificação e biocombustíveis avançam — para exportar petróleo com menor intensidade de carbono.  

    Transição para longe dos combustíveis fósseis

    Parece óbvio, mas não é. Um dos pontos centrais para o sucesso ou fracasso do roteiro em elaboração pela equipe de Côrrea do Lago é a definição do que significa uma transição para longe dos combustíveis fósseis.
     
    Para as organizações que trabalham com clima e meio ambiente, a transição exige uma transformação planejada e sistêmica dos sistemas de energia e das economias. 
     
    “Ela reestrutura a forma como a energia é produzida, transportada, consumida e governada em toda a cadeia de valor dos combustíveis fósseis e substitui os modelos econômicos ancorados nesses combustíveis”, define o relatório (.pdf). 
     
    Essa mudança precisa coordenar diferentes sistemas e garantir que ninguém fique para trás. E é aí que mora o perigo: a necessidade de garantir segurança energética é, em algumas ocasiões, usada como argumento para protelar o afastamento dos fósseis.
     
    No estudo, são indicados cinco princípios a serem observados nos mapas do caminho, para garantir justiça, ambição e consistência: 1) alinhamento com a melhor ciência disponível; 2) responsabilidades comuns, porém diferenciadas; 3) abordagem participativa, inclusiva e transparente; 4) direito à soberania; e 5) desenvolvimento baseado em direitos (humanos, indígenas, racial e de gênero, por exemplo).

Vespa parasita castra vítima, Fernando Reinach OESP

 

Formigas ‘médicas’: insetos fazem amputações entre si para curar feridas; veja vídeo

Capa do video - Formigas ‘médicas’: insetos fazem amputações entre si para curar feridas; veja vídeo

Em 90% dos casos analisados, as formigas sobreviveram ao procedimento. Medida pode evitar que infecções se espalhem pelo corpo do inseto.

“Pega pra capar” significa confusão e violência. Sua origem está na pecuária. Vaqueiros laçam o bezerro, o derrubam, e enquanto dois seguram a vítima, um terceiro corta o testículo castrando o animal. É violento mesmo quando feito por vaqueiros experientes, mas funciona. O bezerro castrado perde o desejo sexual e só pasta, engordando mais rápido e atingindo um peso maior. Mais carne, mais dinheiro no bolso do pecuarista.

A novidade é que uma vespa parasita incluiu essa prática na sua estratégia reprodutiva. O que um animal não faz para deixar descendentes…

Para você

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A vespa Cotesia vestalis é um parasita sexual, depende de outra espécie para reproduzir. Funciona assim. A vespa adulta pousa nas costas de uma lagarta de um lepidóptero da espécie Plutella xylotella, e, usando seu ovopositor, que funciona como uma espécie de seringa, deposita seus ovos no interior da lagarta. No início a lagarta continua a comer as folhas das quais se alimenta com a esperança de vir a se transformar em um adulto semelhante uma traça. Mas seu destino está traçado, os ovos da vespa eclodem e se transformam em larvas que devoram a lagarta por dentro enquanto ela come as folhas de couve ou dezenas de outros vegetais apetitosos. É claro que as larvas da vespa acabam matando a pobre coitada e novas vespas deixam o cadáver em busca de outras lagartas.

O que os cientistas descobriram faz algum tempo é que logo após a eclosão dos ovos da vespa, ocorre um fenômeno estranho na lagarta: as células reprodutivas da lagarta morrem. Ou seja, de algum modo a vespa castra a lagarta parasitada. E a lagarta castrada come mais, como um bezerro castrado, o que no fim resulta em mais comida para as larvas da vespa que estão devorando o interior da lagarta.

Ao investigar como a vespa induz a morte das células reprodutivas da lagarta os cientistas descobriram que é uma castração química: as larvas da vespa produzem uma proteína chamada CvBV_22-9 que se liga nas células reprodutivas e induzem seu suicídio (um processo chamado de apoptose). Mas ao investigar o genoma da vespa no intuito de achar o gene da CvBP os cientistas levaram um susto. Esse gene na verdade vem de um vírus que no passado infectava as vespas e foi incorporado no seu genoma. A proteína desse vírus se tornou uma segunda arma do arsenal da vespa.

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Ficou confuso? Deixe-me resumir. A vespa parasita deposita seus ovos na lagarta que parece uma taturana. Os ovos eclodem e os filhotes da vespa comem a lagarta por dentro ao mesmo tempo que produzem uma proteína que mata as células reprodutivas da lagarta. E o gene dessa proteína foi “roubado” pela vespa de um vírus. Ao matar as células reprodutivas da lagarta ela produz mais alimento para os filhotes da vespa. Cruel, mas funciona. É como castrar um bezerro.

Esse é um ótimo exemplo de quão complexa e sofisticada pode ser a estratégia reprodutiva de um animal.

Mas vale a pena voltar ao campo. Atualmente vespas parasitas de diferentes espécies são criadas em laboratório e soltas nas plantações para infectar as lagartas de espécies que devoram nossas plantações de soja, milho e algodão. É o que chamamos de controle biológico de pragas: usar um ser vivo para atacar e matar outro ser vivo que nos prejudica. Essa tecnologia reduz ou evita o uso de inseticidas nas lavouras.

Mais informações: Parasitic castration by a viral protein tyrosine phosphatase targeting the host cell cycle checkpoint protein Rad9A. Proc. Nat. Acad. Sci. https://doi.org/10.1073/pnas.2524949123 2026

Lula, Flávio e o 'Memento Mori', Mafalda Anjos - FSP

 Há dias, em visita ao Museu Reina Sofia, em Madri, um quadro de Gutiérrez-Solana prendeu a minha atenção, por causa da inscrição "Memento Mori ", a expressão latina que significa "lembra-te que és mortal".

Na Antiguidade Clássica, essa frase era sussurrada ao ouvido dos generais romanos vitoriosos nas paradas de glória. Foi a forma encontrada para controlar a húbris e fazer esses homens todo-poderosos "descer à terra".

Lembrei-me dessas duas palavrinhas (e que bem que elas ficariam num quadro em cima da mesa de todos os políticos da atualidade) a propósito da corrida presidencial no Brasil, que começa a esquentar. É que, olhando de uma distância que me resguarda do entrincheiramento, confesso que me causa estranheza as principais opções que surgem providencialmente nos dois grandes blocos do polarizado espectro político brasileiro.

Dois homens em trajes formais falam em microfones. O homem à esquerda tem cabelo branco, barba branca e usa terno escuro com gravata vermelha, sorrindo. O homem à direita tem cabelo escuro, usa óculos, terno azul e gravata azul clara, gesticulando com a mão direita.
Montagem com o presidente Lula e Flávio Bolsonaro (PL) - Pedro Ladeira e Danilo Verpa/Folhapress

De um lado, o carismático Lula da Silva. Meio homem, meio lenda hipnotizante, Lula é dos maiores animais políticos globais deste século. Sua história, tão complexa como intensa, parece trama de ficção do Kleber Mendonça Filho. Sim, estou bem ciente de que foi com Lula que o Brasil avançou na luta contra a desigualdade, a pobreza e a fome, no acesso à educação, na estabilização econômica. Foi lindo ver tantos milhões de brasileiros ascenderem a uma classe média e aspirarem a mais para suas vidas —sem ela, nenhum país é próspero e sustentável. Já não foi tão bom ver os escândalos de corrupção e algumas tomadas de posição em matéria de política externa alinhadas com os vilões da história…

Tal como Charles de Gaulle, Churchill e Péron, conseguiu voltar ao poder depois de um hiato. E se, contrariando o que anunciou em 2022, fosse reeleito, chegaria ao fim do quarto mandato com a idade avançada de 85 anos e 16 anos no cargo. É certo que Putin na Rússia e Orbán na Hungria já governam há mais tempo do que ele, mas são péssimos exemplos democráticos. E é inquestionável que, como escreveu a Economist, a meio dos 80, a falta de energia e o declínio cognitivo já se fazem notar na grande maioria das pessoas. Lula é enorme, mas não é uma entidade divina.

Do outro lado, emerge Flávio Bolsonaro, que já anunciou pré-candidatura e está bem colocado nas pesquisas. Sem pudor, confirmou que foi escolhido pelo pai, Jair, para representar o PL na disputa. Como se o Brasil fosse uma monarquia, é ele o abençoado pelo progenitor para espalhar a mensagem "Deus, Pátria, Família e Liberdade".

Flávio cresceu à sombra confortável do pai e, como todos os nepobabies, o sobrenome é seu principal capital político. Um filho predestinado ou marioneta, a quem o ex-presidente quer passar o testemunho para manter viva a chama incendiária do bolsonarismo. Se vende como moderado, mas tudo cheira a bafio, promete anistia e sonha com a volta do pai-herói ao Planalto em 2027. O "Memento Mori" não passa por ali.

Estreei-me na Folha escrevendo que o Brasil é exemplo para o mundo em muitas áreas. Acredito que esse país já mostrou grande maturidade democrática. E é exatamente por isso que digo agora —correndo o risco de ser xingada de lulista pelos bolsonaristas e de bolsonarista pelos lulistas— que o país merecia mais renovação e melhores opções.