quinta-feira, 14 de maio de 2026

Estados Unidos, rendam-se, Marcelo Rubens Paiva- FSP

 Trump, em maus lençóis, com a popularidade em baixa, apontou sua ira contra o Irã. Resultado: os EUA já torraram US$ 29 bilhões (sem contar a reforma das instalações destruídas) e sua inflação é a maior desde a pandemia.

Propaganda, deturpação e mentira exaltam o patriotismo. A massa vê seus rostos nos grandes desfiles, comícios, espetáculos esportivos e nas guerras, escreveu Walter Benjamin. Ela se junta como um cardume ou um coreografado voo de pássaros para iludir o predador.

No nazismo, grandes comícios em linhas retas, suásticas, estandartes, gestos, arquitetura e os uniformes produzidos pela empresa Hugo Boss eram parte do projeto de unir o dividido.

"Fiat ars, pereat mundus" era o lema dos fascistas (faça-se arte, ainda que o mundo pereça). Para isso, inventa-se um inimigo, o satã, o pagão, o Império do Mal, o "bad guy".

Figura mitológica com corpo de leão, asas coloridas e cabeça humana com touca, segurando uma bandeira dos EUA rasgada diante de um porta-aviões em fundo amarelo.
Carolina Daffara/Folhapress

Adiantou matar a cúpula do governo iraniano, incluindo o aiatolá Khamenei? Trump falou coisas como "farei voltarem à Idade da Pedra". Até seu partido se pergunta como sair desse atoleiro.

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O governo iraniano é uma ditadura impiedosa que interfere na geopolítica, financiando grupos terroristas, e nos costumes individuais. Além da Guarda Revolucionária, a polícia moral Gasht-e Ershad fiscaliza, pune com chibatas e prende quem não está de acordo com o padrão.

Em 1953, o país vivia sob uma experiência democrática até o primeiro-ministro, Mohammad Mossadegh, nacionalizar a indústria do petróleo, controlada pelos ingleses. O golpe de Estado tramado pela CIA e pelo MI-6 destronou Mossadegh e empoderou o xá Reza Pahlavi, que vivia num confortável exílio na Suíça.

Pahlavi foi derrubado por uma revolução que juntava esquerda, movimento estudantil, liberais e o clero xiita. No vácuo do poder, assumiu o aiatolá Khomeini, que articulava a oposição no exílio em Paris.

As mulheres e a cultura ocidental foram as principais vítimas. E o que desencadeou a ascensão desse regime foram as trapalhadas dos próprios Estados Unidos, numa aliança no passado com o Reino Unido e no presente com Israel.

A Casa Branca elegeu primeiro os iraquianos e agora os iranianos como inimigos. Para isso, induzem a uma xenofobia banhada na ignorância. Não, eles não são um agrupamento de beduínos e nômades que circulam por desertos em camelos e dormem em tendas.

Na Mesopotâmia, tudo começou. São de lá as primeiras cidades. Na Babilônia editou-se a Bíblia, pois religiosos não eram perseguidos —Nabucodonosor 2° levou o povo do Reino de Judá para colocar em papiros textos do Antigo Testamento, a começar pelo "Gênesis".

A sabedoria iraniana é milenar. O matemático Al-Khwarizmi (780-850) sistematizou a álgebra e equações de primeiro e segundo grau e popularizou os números que usamos até hoje, "aposentando" os números romanos.

O filósofo Al-Farabi (872-950) difundiu e integrou ao islã o pensamento grego, de Aristóteles, Sócrates a Platão, filósofos proibidos na Alta Idade Média. Graças aos persas, a filosofia grega foi preservada.

O iraniano Ibn Sina (980-1037) escreveu o livro de medicina referência por séculos, "O Cânone", e fez a distinção entre essência (o que algo é) e existência (o fato de algo existir), enquanto a Igreja Católica limitava a dissecação de cadáveres.

Al-Zahrawi (936-1013), islâmico, inventou instrumentos cirúrgicos e descreveu técnicas detalhadas. Escreveu uma enciclopédia médica de 30 volumes, "Kitab al-Tasrif". Antes da Renascença, operar era profanar os mortos.

Ibn al-Haytham (965–1040) foi um dos maiores cientistas da Idade Média e um pioneiro da ótica. Pesquisou a luz e a câmera escura. Defendia que ciência deve ser baseada em observação e experimento, não em livros sagrados.

Al-Biruni (973–1050) calculou o raio da Terra precisamente, enquanto o papado defendia o geocentrismo. Al-Razi (854–925) diferenciou a varíola do sarampo. Omar Khayyam (1048–1131) desvendou equações cúbicas, levando a matemática para outra dimensão.

O drone iraniano Shahed-136, com alcance de 2.400 quilômetros, destrói radares de US$ 1 bilhão e pode afundar navios. Custa US$ 35 mil. Coreografa como pássaros, engana a defesa inimiga. Contra ele, Israel e EUA usam os Patriots, US$ 4 milhões cada um.

Lanchas com mísseis são capazes de fechar o estreito de Hormuz e afetar a economia mundial. Como cardumes, iludem. O maior porta-aviões do mundo, USS Gerald S. Ford, que custou US$ 13 bilhões, acaba de se retirar de fininho do teatro da guerra, com danos estruturais.

Os persas estão em guerra desde antes de Alexandre, o Grande. O mundo islâmico medieval foi responsável pelo avanço da ciência e pela preservação da herança grega. Agora, a sabedoria iraniana e os embargos econômicos (e de armas) revolucionam o "fazer guerra".

Os luditas nunca foram trogloditas, Sergio Rodrigues, FSP

 e você tenta, como eu, manter uma postura mais crítica e menos oba-oba diante do avanço da IA sobre todas as esferas da vida, é provável que já tenha sido xingada(o) de ludita.

IA é o sabor do momento, mas faz tempo que a mera relutância em aderir a algum item do consumismo tecnológico –achar melhor ler no papel do que em telas, por exemplo– tem bastado para a pessoa ser rotulada de ludita.

A palavra é a tradução do inglês "luddite", termo surgido em 1811 como nome autodeclarado de uma organização de operários do norte da Inglaterra que, por cinco anos, se dedicou ao boicote e ao incêndio de instalações industriais.

Data do início dos anos 1960 o uso de "luddite" em sentido metafórico, termo depreciativo para qualquer um que resista, ainda que só por rabugice, a uma engenhoca qualquer que todo mundo de repente considere imprescindível. "Ainda não usa escova de dente elétrica? Que ludita!"

Charlie Chaplin em "Tempos Modernos", de 1936 - Reprodução

Os luditas propriamente ditos foram duramente reprimidos, primeiro pela polícia e depois pelo exército. Muitos morreram. Não eram o único grupo de operários a quebrar máquinas naquela Europa do início da Revolução Industrial em que máquinas aviltavam mão de obra em ritmo, bem, industrial, e em que o desemprego significava miséria e morte.

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Em todo caso, esse foi o nome que acabou ficando. Ludita. (Não convém dar bola às formas "luddita" e "luddista", esta considerada preferencial pelo Houaiss. Quase ninguém as usa.)

"Luddite" saiu, segundo a tese etimológica mais aceita, do nome de Ned Ludd, operário de Leicestershire meio lendário que três décadas antes, num surto de cólera, teria quebrado sozinho duas máquinas.

Isso faz de ludita uma palavra derivada de antropônimo, de nome de gente, como silhueta (de Étienne de Silhouette), linchamento (de William Lynch), boicote (de Charles Boycott) e baderna (de Maria Baderna).

No senso comum, os luditas passaram à história como uns trogloditas, selvagens atrasados ou tolos que tentaram se opor à inexorabilidade do progresso humano e foram atropelados.

Cena do filme; Chaplin e demais trabalhadores na linha de produção
Charles Chaplin em cena de "Tempos Modernos" - Reprodução

Eric Hobsbawm e outros historiadores apontaram neles algo bem diferente: a sabedoria política de negociar poder para os trabalhadores com a arma disponível, impondo prejuízos aos patrões, num momento em que os sindicatos estavam na ilegalidade.

Os luditas não tinham nada contra as máquinas em si, o "progresso", a "tecnologia". O problema deles era com os donos das máquinas. Com o modo como eles as usavam para esmagar gente, para tornar gente prescindível.

Ah, mas não é da essência das máquinas tornar gente prescindível? Digamos que seja. Isso quer dizer que elas não podem ser jogadas no mundo sem leis, sem regulação. Porque gente não é prescindível, e não se pode esperar que morra sem lutar. Dessa tensão tiravam os luditas sua beleza trágica.

Sim, sabemos que as máquinas nunca mais foram embora do mundo. Mas toda uma nova teia de relações de trabalho precisou ser tecida em torno delas, com leis que foram domando, em parte, sua voracidade inicial. Está parecendo que com a IA também vai ser assim?

Ruy Castro - Invista com moderação, FSP

 

Rio de Janeiro

Os jornais andam cheios de manchetes como estas: "Em queda no mundo, consumo de álcool entre jovens prevalece no Brasil"; "Família influencia uso de álcool por adolescentes"; "Adolescentes que bebem têm livre acesso ao álcool no país"; muitas mais. Por álcool, leia-se cerveja, a bebida a que, pela monstruosa oferta e pelo alcance de seus bolsos, os adolescentes têm mais acesso. Não satisfeitos, os fabricantes se garantem para o futuro. Segundo li, estão infiltrando toques de conteúdo em seus comerciais a fim de tornar a cerveja atraente para a turma dos sub-10, para garanti-los como clientes quando tiverem idade de pedi-la no botequim —ou seja, muito antes dos 18.

O Brasil tem um conceito próprio sobre bebidas alcoólicas. Elas incluem tudo que não seja cerveja. É proibido anunciar uísques, vodcas, cachaças, conhaques e licores em qualquer veículo, mas é como se cerveja não contivesse álcool. Sua propaganda toma as telas e ruas 24 horas do dia, sendo que, na Copa do Mundo, no Carnaval e no Réveillon, ela se torna a razão de viver do cidadão —não bebê-la equivale a ser um monge careta em retiro espiritual.

"Agora você investe no seu clube assim", diz Ronaldo Fenômeno num cínico comercial, e abre uma lata de cerveja. Em cena, seus espectadores, perplexos pela complexidade da proposta, perguntam: "Assim???", e, incrédulos, abrem suas latas. Fenômeno, eufórico, confirma: "Assim!". Abre mais latas e explica: "Peça a cerveja ‘xis’ pelo delivery ‘ípsilon’ e parte do valor vai para o seu time!". E, contrafeito, conclui: "Beba com moderação".

Embora não beba há 38 anos —e, quando bebia, adepto de uísque e vodca, só tomava cerveja para fins urinários—, pensei em aderir ao projeto para ajudar o Flamengo. Mas fui checar em que pé estava o investimento em cada clube e descobri que o Flamengo, disparado em primeiro lugar, já está em mais do dobro que o segundo colocado. Posso me dispensar da recaída.

Daí que, com a sabedoria dos sóbrios, eu recomendaria aos jovens: "Invistam com moderação".