sexta-feira, 3 de julho de 2026

Os brasileiros estão conciliando trabalho e estudos?, The News

 

Você provavelmente já deve ter ouvido falar sobre os “nem-nem”, que são as pessoas que nem estudam, nem trabalham. Acontece que a tendência oposta começou a surgir no Brasil.

Isso porque a fatia de trabalhadores brasileiros que também estudam subiu de 13% para 15% entre 2019 e 2025. O crescimento representa um avanço de 27% nesse grupo, mais que o dobro do ritmo de quem só trabalha. Já os “nem-nem” encolheram 25% no mesmo período.

Hoje são 15,5 milhões de brasileiros ocupados e estudando simultaneamente.

O movimento aparece mesmo entre quem já tem diploma. Entre os +25 mi de trabalhadores com ensino superior completo, a quantidade dos que seguem estudando subiu de 13,3% para 16,3%.

(Imagem: Valor Econômico)

Parte da explicação está na mudança do ensino superior brasileiro. Em 2024, pela primeira vez, as matrículas a distância (EaD) ultrapassaram as presenciais no país, o que ajuda a explicar como mais gente concilia diploma com carteira assinada.

A rotina dupla compensa? Na maioria dos casos, sim. Entre os maiores de 50 anos, quem segue fazendo os dois ganha em média 40% a mais que os que só trabalham. A exceção é a faixa de 18 a 24 anos, que rende 3,1% a menos.

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Luís Eulálio Vidigal manteve diálogo com o colunista no caso Cobrasma, Frederico Vasconcelos, FSP

 Editor do Painel Econômico (atual Painel S.A.) em 1986, revelei que a Cobrasma (Companhia Brasileira de Material Ferroviário) publicara na Gazeta Mercantil, no último dia do ano, uma pequena nota, sem a logomarca, confirmando o que o mercado temia.

A coluna informou que a empresa alterara a estimativa de resultado para o exercício de 1986: de um lucro estimado de aproximadamente R$ 50,4 milhões para um prejuízo equivalente a cerca de R$ 66 milhões (valores atualizados).

A Cobrasma fez projeções com base "na expectativa" de correção de preços de seus produtos, criadas "por fontes autorizadas do governo, ora por meio de insinuações ora por meio de informações verbais oficiosas".

Homem de cabelos grisalhos e óculos, vestindo suéter bege e camisa azul clara, encostado com o braço direito em uma parede branca dentro de um ambiente fechado. Ao fundo, placa com nomes e calendário na parede.
O ex-presidente da Fiesp Luis Eulálio Bueno Vidigal, em 1997 - José Maria da Silva - 14.ago.97/Folhapress

A economia trabalhava com preços congelados durante o Plano Cruzado.

Luís Eulálio de Bueno Vidigal Filho, então presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo e dirigente da Cobrasma, manteve diálogo cordial com este colunista. (*)

Vidigal morreu na segunda-feira (29), aos 87 anos. Estava em tratamento de doença renal crônica.

Seis meses antes da nota, a Cobrasma fizera a maior emissão de ações da história. Colocou à venda 25,5 bilhões de ações, com base em projeções otimistas (o governo era o principal cliente) e a garantia firme dos bancos Bradesco, Crefisul e BCN.

Além dos três bancos, perderam com a operação 124 instituições financeiras e milhares de pequenos e médios investidores.

A emissão ainda estava em andamento quando um leitor alertou: a cada dia o papel valia menos.

Era um "mico", no jargão do mercado.

No dia em que identifiquei a nota da Cobrasma, conversei por telefone com um técnico da CVM (Comissão de Valores Mobiliários), no Rio de Janeiro. Descrevi os fatos sem identificar a companhia.

É um caso de polícia, ele disse.

Ouvi, em São Paulo, o diretor financeiro da Cobrasma, Ércio Pinto Tavares. "Os aplicadores têm razão de achar ruim, de se sentirem frustrados. Mas a empresa tem patrimônio e tem tradição. Tivemos apenas um ano errado, um azar desgraçado", disse.

Nos dias seguintes, não consegui contato com Vidigal. Enviei ofício à Cobrasma, com timbre da Folha, informando que publicaríamos nova reportagem.

Meia hora depois, Vidigal telefonou-me. Propôs um acordo. Eu o procuraria diretamente, antes de publicar fatos sobre a empresa. Deu-me os telefones pessoais e o de sua fazenda.

Vidigal tornou-se uma boa fonte da coluna.

Em março de 1991, ele me ligou na hora do almoço. Avisou que entraria com pedido de concordata no final da tarde.

Os advogados sustentaram que a Cobrasma "foi engolida, atropelada pelo caos da economia nacional". Atribuíram as dificuldades da empresa aos "desmandos pela orientação vacilante e contraditória que vem sendo imposta à nação".

Em 1987, o Conselho de Recursos do Sistema Financeiro Nacional, órgão paritário, derrubou multas milionárias aplicadas pela CVM.

O então procurador da República Antônio Augusto César perdeu o prazo para recorrer de decisão do então juiz federal João Carlos da Rocha Mattos favorável ao empresário. César foi alvo de sindicância em 1989.

Vidigal havia sido denunciado sob acusação de crime contra o sistema financeiro nacional. Rocha Mattos rejeitou a denúncia. Considerou-a inepta, pois não alcançava os dirigentes dos bancos.

O procurador e o juiz foram investigados em 2003 na Operação Anaconda, que desbaratou quadrilha que negociava decisões da Justiça Federal. Rocha Mattos foi preso.

Depois da primeira reportagem, recebi telefonemas com provocações. Pedi a Ney Figueiredo, amigo de Vidigal e então consultor da Fiesp, para avisar o empresário.

"Diga ao Fred que eu posso não ser inteligente, mas burro eu não sou. Eu não faria isso."

Os telefonemas pararam.

Lembrei-me desse episódio ao ler, no Valor, comentário de Vidigal quando Mario Henrique Simonsen, então ministro do Planejamento, o indicou para o Conselho Monetário Nacional: "Mario, não sei se sou ilibado ou não. Mas notório saber econômico, definitivamente não tenho".

(*) "Anatomia da Reportagem" - Frederico Vasconcelos (Publifolha - 2007), págs. 30-34

O parasita que infecta um terço da humanidade, mas ainda é negligenciado, FSp

 Felipe Espinosa Wang

DW

Um parasita que muitas vezes associado apenas aos gatos, que são seus hospedeiros, pode representar um problema de saúde pública muito maior do que se imaginava. Trata-se do Toxoplasma gondii, causador da toxoplasmose, uma infecção que, segundo diferentes estimativas, afeta cerca de um terço da população mundial (aproximadamente 2,4 a 2,7 bilhões de pessoas).

Apesar dos números impactantes, a doença ocupa pouco espaço nas agendas internacionais de saúde pública. E é justamente isso que um grupo de pesquisadores pretende mudar.

Uma equipe internacional liderada pelos oftalmologistas Justine Smith, da Universidade de Flinders, da Austrália, e João Furtado, da USP (Universidade de São Paulo), defende que chegou o momento de deixar de perceber a toxoplasmose como um problema menor.

Toxoplasma gondii, an obligate intracellular human parasite, has a unique cytoskeletal apparatus that is probably used for invading host cells and for parasite replication. Shown here are images of T. gondii constructing daughter scaffolds within the mother cell.
Toxoplasma gondii é o causador da toxoplasmose - Ke Hu and John M. Murray

Em um artigo de opinião publicado na revista PLOS Neglected Tropical Diseases no final de junho, os cientistas pedem que a OMS (Organização Mundial da Saúde) reconheça oficialmente a toxoplasmose como uma DTN (Doença Tropical Negligenciada).

Segundo os autores, essa classificação costuma resultar em mais financiamento para pesquisas, campanhas de prevenção e programas de saúde pública, áreas que hoje praticamente não recebem atenção para uma infecção tão disseminada.

Como o parasita é transmitido

A toxoplasmose é transmitida pela exposição a fezes contaminadas de gatos, pela ingestão de alimentos mal cozidos, como carne crua ou mal passada, e água que contenham o quisto do parasita, ou ainda durante a gravidez se a gestante contrair o protozoário nesse período.

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Uma vez no organismo, o parasita geralmente permanece ali por toda a vida, na maioria dos casos latente, ou seja, sem causar sintomas da doença. No entanto, essa aparente discrição tem exceções importantes.

Quando a infecção ocorre durante a gravidez, o parasita pode atravessar a placenta e causar abortos espontâneos ou danos neurológicos e oculares permanentes ao feto. Segundo um estudo de 2013 citado pelo portal Science Alert, cerca de 190 mil bebês nascem todos os anos com toxoplasmose congênita.

A toxoplasmose pode ainda causar problemas de visão. O parasita também pode atingir a retina de infectados, provocando uma inflamação que, se evoluir, pode deixar sequelas permanentes. Essa manifestação da doença constitui a infecção intraocular mais comum do mundo e representa uma importante causa de perda de visão.

Embora as evidências continuem sendo debatidas, vários estudos sugerem que uma infecção latente pelo protozoário pode alterar de forma sutil o comportamento e a personalidade, tanto de animais quanto de seres humanos, podendo até estar associada a um maior risco de transtornos como a esquizofrenia.

Nos roedores, esse fenômeno está bem documentado: o parasita reduz o medo natural dos ratos em relação aos gatos e os torna mais ousados, uma manipulação biológica tão eficaz quanto impressionante, que pode favorecer a conclusão do ciclo de transmissão do parasita.

Uma carga desigual

O estudo também destaca que o impacto da doença está longe de ser distribuído de maneira equilibrada. Segundo o portal Gizmodo, estima-se que cerca de 10% da população dos Estados Unidos já tenha contraído o parasita. Em algumas áreas altamente endêmicas do Brasil, por outro lado, a prevalência pode chegar a 80% das comunidades mais pobres.

Essa desigualdade é um dos principais argumentos apresentados pelos pesquisadores. Para que uma doença seja classificada pela OMS como uma DTN, ela deve afetar de forma desproporcional as populações mais vulneráveis. E, segundo os autores, a toxoplasmose cumpre claramente esse requisito.

"A toxoplasmose é uma das principais infecções oculares e uma importante causa de perda de visão em todo o mundo, mas recebe atenção limitada nas agendas globais de saúde", afirmou Smith em um comunicado da Universidade de Flinders.

João Furtado, por sua vez, argumenta que a doença continua sendo amplamente mal compreendida. "Muitas vezes, a toxoplasmose é considerada inevitável, mas suas formas de transmissão são bem conhecidas e ela pode ser prevenida e controlada".

Mudança do cenário global

Outros critérios para que a OMS classifique uma doença como tropical negligenciada são estar concentrada em áreas de pobreza, ser amplamente disseminada em regiões tropicais e subtropicais, ser passível de prevenção e controle e, ao mesmo tempo, receber pouca atenção em pesquisas e políticas públicas.

Segundo os autores do artigo, a toxoplasmose atende a todos esses critérios. Ainda assim, atualmente, recebe menos financiamento do que outras doenças com impacto semelhante ou até menor. Além disso, não existe vacina nem tratamento capaz de eliminar completamente o parasita. Os medicamentos disponíveis apenas permitem controlar os surtos da doença.

Furtado enfatiza que o objetivo não é gerar pânico nem transformar os gatos em vilões. "Medidas simples são importantes: cozinhar bem a carne, lavar frutas e verduras, lavar as mãos após manusear carne crua, terra ou areia de gatos, evitar o consumo de água não potável e tomar cuidados especiais durante a gravidez".

Da mesma forma, ele ressalta que a responsabilidade não pode recair apenas sobre os indivíduos. Segurança alimentar, acesso à água potável, saneamento básico e assistência pré-natal são, em última análise, responsabilidades coletivas.

Os pesquisadores concluem que o reconhecimento da toxoplasmose como Doença Tropical Negligenciada poderia mudar esse cenário. Essa classificação abriria caminho para a incorporação de medidas preventivas no pré-natal e nos serviços básicos de saúde, além de favorecer o financiamento de pesquisas para vacinas, diagnósticos e tratamentos, áreas que ainda permanecem como desafios importantes.