Um juiz do Tribunal de Justiça de São Paulo, que exerceu a carreira por 23 anos com o nome de Edward Albert Lancelot Dodd Canterbury Caterham Wickfield, foi denunciado pelo Ministério Público de São Paulo sob suspeita de usar documentos falsos e cometer crime de falsidade ideológica.
O registro britânico escondia a alcunha de José Eduardo Franco dos Reis, numa história que quase parece ter tintas de ficção, inclusive pelos nomes escolhidos.
Os nomes usados pelo magistrado têm relação direta com a literatura inglesa. Lancelot, por exemplo, foi um dos cavaleiros da Távola Redonda. Segundo a lenda, Lancelot foi um dos mais gloriosos cavaleiros da corte do Rei Arthur.
Sir Kenneth Arthur Dodd foi um comediante e ator britânico, mas ele só recebeu o título nobre de Oficial da Ordem do Império Britânico em 1982, dois anos depois de o futuro juiz se matricular no curso de direito com, segundo o MP, nome falso.
Albert Lancelot Hoops foi um médico que também recebeu uma honraria do império, o título de Comandante da Ordem do Império Britânico, em 1931.
Já Mr. Wickfield é um advogado em "David Copperfield", clássico de Charles Dickens. No livro, David conhece Mr. Wickfield quando criança, quando vai estudar na cidade britânica de Canterbury.
Canterbury também lembra "The Canterbury Tales" (os contos de Cantuária), coleção de histórias escritas no século 14 por Geoffrey Chaucer, tidas como pedras fundamentais da literatura da região.
Para Ana Luisa Lellis, crítica literária e mestre em literatura inglesa, o nome em questão parece uma mistura nomes de diferentes nobres com alcunhas aleatórias de personagens da ficção britânica. "Mr. Wickfield, por exemplo, é um personagem fraco, alcoólatra e que atormentava a filha, então não é alguém que qualquer um deveria almejar ser", afirma.
A identidade original de Reis, diz o MP, veio à tona após ele comparecer a uma unidade do Poupatempo em São Paulo para obter uma segunda via de seu RG com o sobrenome Wickfield, mas suas impressões digitais revelaram seu verdadeiro nome.
O Ministério Público de São Paulo o acusa de ter usado uma identidade falsa para se formar em Direito, ingressar no Tribunal de Justiça paulista por meio de concurso e até se aposentar.
A reportagem não conseguiu contato com o magistrado. Em depoimento à polícia, Reis declarou que Edward Wickfield é seu irmão gêmeo, que teria sido doado a outra família durante a infância.