terça-feira, 6 de janeiro de 2026

Ao atacar o jornalismo para defender Moraes, a esquerda erra muito feio, Wilson Gomes, FSP

 Sim, eu sei que esta semana deixamos de ser especialistas em jornalismo investigativo, conspirações da mídia e condutas inapropriadas de membros da Suprema Corte porque nos tornamos experts em direito internacional, democracia e geopolítica.

Mas gostaria de retomar aspectos de um debate ainda incompleto —e decisivo para o futuro da democracia brasileira— que gira em torno das denúncias publicadas por grandes jornais sobre condutas impróprias ou insuficientemente explicadas envolvendo ministros do STF e, sobretudo, do modo como a esquerda reagiu a elas: assumindo a defesa de Alexandre de Moraes por meio de ataques ao jornalismo e à reputação de uma jornalista em particular, Malu Gaspar.

Sobre um fundo em degradê rosa, duas mãos femininas aparecem em primeiro plano, vistas de perto. As mãos têm unhas pintadas de laranja e seguram uma granada. Uma das mãos segura o corpo da granada; a outra segura o anel da trava, no gesto exato que antecede sua ativação. A ilustração de Ariel Severino é estruturada como metáfora da Caixa de Pandora: ao invés de tradicional “caixa”, uma granada sendo acionada conscientemente. O desenho sugere que a ação de puxar o pino poderá libertar forças destrutivas difíceis de conter. A cena não mostra explosão, mas o instante anterior, quando o dano já se torna inevitável. O interior da granada não é metálico: ele é preenchido por uma massa verde brilhante, orgânica, mostrando cobras, fantasmas e lagartos em formas onduladas, criaturas, algo vivo e ameaçador prestes a escapar. O contraste entre a delicadeza das mãos, o gesto controlado e a energia caótica que emergirá da granada cria uma tensão visual clara.
Ilustração de Ariel Severino para coluna de Wilson Gomes - 7 de janeiro de 2026 - Ariel Severino/Folhapress

O primeiro ponto que chama a atenção é o empilhamento de fatos. Não se trata de um episódio isolado, de uma frase mal interpretada ou de um indício frágil. São contratos, contatos telefônicos, relações profissionais sensíveis e omissões explicativas que, mesmo considerados separadamente, já exigiriam esclarecimentos públicos. Tomados em conjunto, formam um quadro que, no mínimo, merece escrutínio rigoroso. Afinal, até o negacionismo mais arbitrário tem nos fatos um limite incontornável, e, quando eles são muitos e se acumulam, é difícil fingir que não existem.

O segundo ponto é a pobreza estratégica da defesa. Toda a reação se concentrou numa única tática: afirmar que Malu Gaspar mentiu, que é "lavajatista" e que opera com uma agenda política oculta, supostamente a serviço do golpismo. Trata-se de uma investida moralmente duvidosa e intelectualmente frágil. Não há demonstração de falsidade, não há contestação factual consistente, apenas rótulos e suspeitas projetadas. Fora do círculo militante, isso não se sustenta.

Malu Gaspar entra nesse episódio com um patrimônio reputacional elevado, construído ao longo do tempo, sem histórico de partidarização ou militância disfarçada. Se alguém se dispuser a fazer a pergunta elementar —quem teria mais a ganhar mentindo: a jornalista, os juízes ou os banqueiros envolvidos?—, a aposta racional reafirmaria a credibilidade da jornalista. Atacar essa credibilidade sem prova não a enfraquece, apenas expõe quem a ataca.

Há ainda um efeito perverso aparentemente não levado em conta. Ao mobilizar uma defesa agressivamente partidária de Moraes, a esquerda faz um desserviço ao próprio ministro. Um juiz constitucional depende não apenas da legalidade de seus atos, mas também da aparência de imparcialidade. A adoção repentina e feroz de Moraes pela esquerda só reforça a impressão —ainda que mal-intencionada— de que ele seria um juiz parcial e antidireita. Ser defendido dessa forma é péssimo para a sua reputação institucional.

O problema se agrava quando se adota o assassinato de reputação de jornalistas como tática política legítima. No caso de Malu Gaspar, isso se expressou por um repertório bem conhecido: acusá-la de mentir sem demonstrar em quê; rotular sua apuração como "lavajatista" para dispensar o exame dos fatos; atribuir-lhe uma agenda política oculta, supostamente a serviço do golpismo; tratar o uso de fontes protegidas como prova de má-fé; e reinterpretar reportagens independentes como parte de uma conspiração coordenada da mídia. Não se rebate a informação —tenta-se interditar quem a produziu.

Esse método não é apenas feio, é autodestrutivo. Primeiro, porque iguala moralmente esquerda e extrema direita: o bolsonarismo faz exatamente o mesmo. Segundo, porque jornalistas, como qualquer outro campo profissional, tendem a reagir solidariamente a ataques injustos. O resultado previsível não será o silenciamento, mas mais investigação.

Além disso, foi exatamente esse tipo de jornalismo investigativo —com fontes protegidas, apuração persistente e enfrentamento de poderosos— que expôs o orçamento secreto, a "rachadinha" do clã Bolsonaro, o gabinete do ódio, a interferência política na Polícia Federal, a Abin paralela e, antes disso, práticas graves no governo Temer. O mesmo método revelou fraudes empresariais monumentais e desmontou a Lava Jato a partir da Vaza Jato. Em todos esses casos, a imprensa também foi acusada de conspirar, de ter agenda, de querer "desestabilizar o país". Hoje, poucos duvidam de sua importância democrática.

No fim, a estratégia adotada consegue um feito notável: transformar um escândalo envolvendo banqueiro e relações impróprias de poder num problema da esquerda. É difícil imaginar algo mais estúpido e contraproducente —para a esquerda , para a credibilidade do STF e para a democracia.

Tentáculos do Master devem ser imensos diante de tantos ataques contra a liquidação, Marcos Lisboa, FSP

 A liquidação do Banco Master desnorteou setores da sociedade brasileira.

Um ministro do TCU (Tribunal de Contas da União) utilizou argumentos criativos e inéditos para questionar o processo de liquidação. Outros tentaram desqualificar as apurações de jornalistas sobre as ramificações do caso. Outro ministro, dessa vez do STF (Supremo Tribunal Federal), impôs decisões surpreendentes, na contramão, inclusive, da recomendação da Procuradoria-Geral da República.

Alguns fatos estão claros. Outros deveriam ser investigados com profundidade para entender o tamanho do problema e garantir o processo de apuração de responsabilidades de cada parte. O que não está claro, para começar, é qual a motivação para essa reação disfuncional de um ministro do TCU a um processo de liquidação de um banco.

Fachada de vidro de agência do Banco Master com logo azul e branco e nome em letras metálicas fixadas na parede externa.
Sede do Banco Master, localizada na Rua Elvira Ferraz, na Vila Olímpia, em São Paulo. - Rafaela Araújo - 29.dez.2025/Folhapress

Desde o Plano Real, algumas instituições financeiras enfrentaram dificuldades, e o Banco Central cumpriu com diligência seu papel regulador, liquidando alguns casos e evitando que o problema se alastrasse pelo restante do sistema financeiro.

O TCU é órgão auxiliar do Congresso Nacional para avaliar a execução do Orçamento federal. Cabe ao TCU, segundo decisão dos seus ministros e do STF, avaliar se houve ilegalidade nos atos de servidores públicos. Não lhe cabe, contudo, avaliar o mérito das decisões discricionárias das agências de Estado, como o Banco Central.

Foi assim que decidiram os ministros do TCU Benjamin Zimler, no acórdão 2138/2007, e Raimundo Carrero, no acórdão 1241/2010. Argumento semelhante foi proferido pelo STF (recurso extraordinário 1083955): "O dever de deferência do Judiciário às decisões técnicas adotadas por entidades reguladoras repousa na (i) falta de expertise e capacidade institucional de tribunais para decidir sobre intervenções regulatórias, que envolvem questões policêntricas e prognósticos especializados e (ii) possibilidade de a revisão judicial ensejar efeitos sistêmicos nocivos à coerência e dinâmica regulatória administrativa."

A decisão do ministro do TCU sobre o banco Master contraria a jurisprudência estabelecida pelo STF e do próprio TCU. Qual a razão para essa ruptura institucional surpreendente?

As regras e jurisprudência da regulação do sistema financeiro no Brasil permitiram a liquidação de instituições com problemas sem resultar em crise sistêmica para o restante da economia.

Esse tema é tecnicamente tão complexo que, em 2022, foi concedido o prêmio Nobel de economia a Douglas Diamond e Philip Dybvig pelos seus estudos sobre crises bancárias e possíveis mecanismos para reduzir a sua chance de ocorrência.

A liquidação do Banco Master não atordoou apenas o TCU. Um ministro do STF decretou sigilo absoluto sobre o caso, em meio a decisões que desrespeitavam o processo legal. Até a Procuradoria-Geral da República discordou da condução do processo pelo ministro do STF.

O Banco Master é irrelevante no cotidiano da maioria das pessoas. Mas esse banco tem interesses com fundos de servidores, organiza eventos com autoridades, tentou operações surpreendentes com bancos públicos e está associado a fundos investigados recentemente por crimes, como revelado pela Operação Carbono Oculto e documentado pelo Banco Central.

Os tentáculos do Master devem ser imensos para tamanha mobilização, propostas de alteração da jurisprudência e ataques contra a liquidação de um banco em meio a tantas dificuldades.

O bom jornalismo brasileiro levanta problemas e provoca o debate. Parte do compromisso é não ter medo da pressão.

Adriana FernandesAlexa Salomão, Alvaro Gribel e tantos outros exercem o jornalismo com maestria. Garantem o sigilo das fontes, investigam o tema por meio de documentos, e reportam o que apuram, revelando as nuances. Malu Gaspar é, na minha opinião, a maior jornalista investigativa da geração.

Pode-se medir um atacante de futebol por quantos gols fez, ou por quantos perdeu. Quantas matérias de Malu foram confirmadas? Quantas foram desmentidas? O que dizer de seu livro sobre a corrupção envolvendo empreiteiras e governo federal, "A Organização"?

Watergate foi reportado por Bob Woodward e Carl Bernstein com base em fonte anônima; Seymour Hersh revelou crimes, como o massacre de My Lai, na guerra do Vietnã, e as torturas em Abu Ghraib, depois da Guerra do Iraque. Muitas fontes anônimas.

No começo do século 20, a jornalista Ida Tarbell expôs as práticas de monopólio da Standard Oil Company, controlada por John Rockefeller.

Malu reportou o contrato de prestação de advocacia da esposa de ministro do STF para o Banco Master; R$ 3,6 milhões por mês. Ela também reportou conversas sobre o caso Master entre o ministro e o presidente do Banco Central.

A desonestidade das críticas a Malu superou o desatino. Jornalista não revela fonte. Jornalista apura os temas com base, muitas vezes, em documentos vazados e relatos anônimos, por temor de retaliações. Cabe ao Estado investigar, provar com base nas evidências. Assim funcionam as democracias.

Demétrio Magnoli, na sua coluna nesta Folha no dia 2 de janeiro, teve a paciência de explicar as diferenças entre o papel do jornalista e do investigador de Estado. Não saber a diferença revela ignorância preocupante ou desonestidade.

A denúncia parece valer apenas contra quem é considerado adversário. Os que estão do mesmo lado devem ser protegidos. Não importa o que fizeram.

Preocupa um ministro do TCU questionar a intervenção do BC em um banco imerso em denúncias de operações de crédito inexistentes, de associação com atividades criminosas ou de advogados relacionados com juízes das cortes supremas.

O STF poderia explicar suas regras de sigilo e deliberar publicamente sobre um código de ética, incluindo a relação com parentes que advogam no seu tribunal. A troca de ideias, sem censura prévia, auxilia a encontrar soluções para os desvios que prejudicam o país.

Não se trata de conversa fácil. Reconhecer caminhos errados pode constranger no curto prazo, mas fortalece as instituições.