domingo, 22 de fevereiro de 2026

Muniz Sodré O último dos bolsonaristas -Muniz Sodré FSP

 Num aprazível condomínio da região serrana do Rio vive o que me apontaram como "o último bolsonarista". Uma hipérbole, senão mero exagero; basta conferir as pesquisas eleitorais. Mas ele representa todo conjunto onde ninguém mais admite publicamente conexão com Bolsonaro, embora guarde ativo o fetiche do nome. Como um palavrão silencioso. "Último" também metaforiza aqui o inglês "ultimate", que designa atitude extrema, de ir até o fim.

O exemplo em pauta emergiu do silêncio de um adepto notório, pela violação de seu tabu condominial: o filho de 6 anos do zelador, residente no local, molhou os pés na piscina comum. Ele exige agora proibição formal, para constrangimento da maioria, pois o acesso é franqueado pela convenção. Mantidas as proporções, é fato análogo ao do ex-ministro da Fazenda bolsonarista, ultrajado por viagem de empregada doméstica à Disney. Hoje é guru do filho 01, viajante tão frequente que parece fazer campanha nos EUA pela presidência do Brasil.

O nome Bolsonaro, grife posta no mercado partidário, virou lubrificante para que a máquina neofascista persista nos corpos biopolíticos dos adeptos. Essa "máquina" não é um objeto técnico, mas um dispositivo sociopolítico que conecta fragmentos ideológicos da ultradireita contemporânea. Ela avança nos fenômenos de atração e repulsa sociais, cujos tópicos de insatisfação incidem sobre as mudanças nos costumes e a ascensão de minorias ao plano visível da sociabilidade.

Manifestação bolsonarista contra o ministro do STF Alexandre de Moraes, na avenida Paulista, em setembro de 2024 - Bruno Santos - 7.set.24/Folhapress

Séculos antes, no "Hamlet", Shakespeare concebia genialmente uma "destilação leprosa" na consciência. E ao falar do fascismo como "mutação antropológica", o cinepoeta Pasolini enxergou verdadeira transformação "genética". O que hoje faz a máquina neofascista é intensificar a coordenação psíquica dos indivíduos, liberando-os para seguir os próprios instintos por mais persecutórios e violentos que sejam. Todas as variações de uma região do mundo para outra podem se encaixar numa lista de repulsas em que figuram o pobre, o preto, o gênero divergente.

Daí uma incongruência na atitude do citado "último": a família visada tem pele clara, escolaridade superior e fino trato. Uma explicação provável é a inerência do sujeito a uma fantasia pessoal, uma identidade guardada no fundo de si mesmo, ao modo de uma igualdade de estirpe que o impediria, por secreta hierarquia, de reconhecer um zelador como socius. É a shakespeareana "destilação leprosa" que, entre nós, conduz à rejeição antipetista. Não tem a ver com realidade econômica (desemprego baixo, inflação controlada) nem política (estabilização democrática), mas com o temor ressentido de que a identidade pessoal esteja ameaçada.

O "último bolsonarista" não é uma ficção e vale como paradigma do homúnculo moral, cuja benignidade é apenas tempo de espera de carta branca para humilhar o zelador, a doméstica, o vulnerável. Enquanto isso, nas prospecções eleitorais, contam-se em 32% os eleitores independentes, ditos "pêndulos", dos quais pouco se sabe sobre o potencial de autonomia frente à máquina neofascista, sempre ativa. Para desgosto dos "últimos", entretanto, as pesquisas indicam que o retorno da marca Bolsonaro inspira aversão popular maior do que a dirigida ao petismo.

Gaudêncio Torquato - Quando o impoderável entra em cena, FSP

 

Gaudêncio Torquato

Escritor, jornalista, consultor político e professor emérito da Escola de Comunicações e Artes da USP

Na política, há um fator incontrolável que não pede licença para entrar no saguão eleitoral e mudar o mapa dos votos. É o imponderável. Pode ocorrer a qualquer momento, em qualquer lugar. Acidentes ou incidentes graves, eventos de grande impacto, borrascas inesperadas se escondem na caixa das coisas imponderáveis —prontas para saltar sobre campanhas que pareciam seguir, firmes, o roteiro previamente traçado pelos marqueteiros.

Conto uma historinha.

O prédio do Congresso Federal é visto como um brinquedo a ser manipulado.
Ilustração de Carvall - 1º.mar.2024/Folhapress - Carvall/Folhapress

Eleições de 1986. Comício de encerramento do candidato ao governo do Piauí Freitas Neto (antigo PFL), na praça do Marquês. Desde a manhã, carros de som cruzavam Teresina convidando o povo para o monumental show de Elba Ramalho. A promessa de música e festa atraía multidões. Às 18h, a praça já estava lotada. A massa urrava em coro: "Queremos Elba! Queremos Elba!".

Os caminhões com os equipamentos de som só chegaram em cima da hora. E então, como se convocado por alguma divindade caprichosa, começou a cair um toró. Pipocos e faíscas tomaram conta do palco improvisado. Os cabos, em curto-circuito, queimaram. Comício sem som?

Elba mostrou o contrato: "Sem som, não canto".

Sob insistente apelo do candidato, propôs cantar ao menos uma música. Arrumaram um banjo para acompanhá-la. Começando a entoar um de seus hits —"Bate, bate, bate, coração..."—, a cantora parou, de repente, e passou a vociferar: "Imbecis, ignorantes, malvados, não façam isso!". No meio da multidão, a cena constrangedora: populares abriam a boca de um jumento e despejavam nela uma garrafa de cachaça.

O comício terminou sob apupos. Três dias depois, o candidato perderia a eleição por uma diferença de 1,66% dos votos. Carlos Mateus, então dirigente do Instituto de Pesquisas Gallup, garantia que Freitas Neto ganharia o pleito por um índice em torno de 3% a mais. O episódio correu de boca em boca, transformando-se em anedota política —e, mais do que isso, em símbolo de um fenômeno que escapa às planilhas e aos modelos estatísticos.

Às vezes, em minhas palestras, perguntam-me: "Professor, não pode haver um imponderável na política?". Respondo: "Pode, sim. Por exemplo, um jumento embriagado no Piauí".

O imponderável é a variável que subverte tendências, desorganiza estratégias e desmonta narrativas. Está presente no tropeço de um candidato, no lapso de linguagem, na chuva que alaga o palanque, na falha técnica que impede a transmissão de um debate, no vídeo que viraliza na última semana de campanha, no escândalo que emerge às vésperas da votação. Jair Bolsonaro (PL) foi eleito presidente da República, em 2018, por um voto puxado pela facada. É o instante em que a realidade invade o script.

Campanhas são construídas com base em diagnósticos: pesquisas de intenção de voto, análise de clusters sociais, modelagens de comportamento eleitoral, leitura de humores difusos. O marketing político busca reduzir incertezas, antecipar cenários, simular reações. Mas há sempre um ponto cego, uma zona de indeterminação onde a lógica cede espaço ao acaso.

O imponderável não respeita cronogramas. Não consulta consultores. Não aguarda a próxima rodada de tracking. Ele irrompe.

Pode ser um evento climático, uma tragédia local, um incidente em comício, uma declaração atravessada, um gesto interpretado como desdém. Pode ser, ainda, a emergência súbita de um tema que reorganiza o debate público —segurança, inflação, corrupção, saúde— deslocando o eixo da disputa e, com ele, preferências eleitorais que pareciam consolidadas.

A história política brasileira está repleta desses momentos. De campanhas que naufragaram na calmaria aparente e de candidaturas que ganharam fôlego em meio à tempestade. O voto, afinal, é também uma reação emocional ao inesperado. O eleitor não decide apenas com base em programas e promessas; decide, muitas vezes, a partir de impressões formadas no calor de acontecimentos que ninguém previu.

Por isso, toda análise eleitoral deve ser acompanhada de uma dose de humildade. Entre a intenção de voto medida hoje e o resultado apurado amanhã, há um território instável, povoado por imprevistos. É ali que o imponderável arma suas emboscadas.

No fim das contas, a política não é apenas a arte do possível. É, também, a ciência do imprevisível.