terça-feira, 18 de agosto de 2026

Ataque a Toffoli em ato de campanha pode virar revés para Lula no TSE-OESP

 

Atualização:

Não estava previsto no discurso inaugural da campanha de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) o trecho que o presidente deu uma estocada em Dias Toffoli. Do alto do palco montado no estádio Vila Euclides, em São Bernardo do Campo (SP), o petista lembrou da decisão tomada pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) que o impediu sair da prisão para comparecer ao enterro do irmão Genival Inácio da Silva, o Vavá, em 2019.

A declaração pode ter sido um tiro no pé. Toffoli também integra o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) – e, portanto, participará de julgamentos de interesse da campanha de Lula neste ano.

Lula discursou em ato inaugural da campanha, em São Bernardo do Campo
Lula discursou em ato inaugural da campanha, em São Bernardo do Campo Foto: Wilton Junior/Estadão

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Hoje, a Corte está dividida em três grupos: parte dos ministros têm tomado decisões favoráveis a Flávio Bolsonaro, o candidato do PL. Outros têm se posicionado de forma mais favorável ao petista. Um terceiro grupo funciona como “pêndulo”: a depender da situação, se alinha a uma ala ou a outra.

Até agora, Toffoli estava na ala do pêndulo. Em caráter reservado, ao menos dois integrantes do tribunal apostam que, depois do posicionamento público de Lula, o colega pense duas vezes antes de votar a favor da campanha do petista em julgamentos futuros.

Se essa suspeita se confirmar, sai fortalecido não apenas Flávio Bolsonaro, mas o grupo hoje composto por Kassio Nunes Marques e André Mendonça. Em um colegiado de sete ministros, qualquer mudança de posição tem peso. Com três votos alinhados em um sentido, restaria convencer apenas mais um dos ministros pendulares para garantir vitória em julgamentos importantes para os principais concorrentes ao Palácio do Planalto.

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Dois exemplos recentes ilustram como Nunes Marques e Mendonça estavam isolados. Em um deles, o plenário derrubou uma decisão do presidente da Corte e retirou do ar um vídeo em que o candidato do PL associava Lula a facções criminosas. Apenas Mendonça concordou com Nunes Marques.

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Em outro julgamento, o plenário derrubou uma decisão de Mendonça para que o PT entregasse ao tribunal, a pedido do PL, material probatório para verificar se houve uso irregular do fundo partidário. A maioria entendeu que Mendonça não poderia ser o relator do caso e determinou novo sorteio entre os ministros. A votação teve o mesmo placar, de cinco votos a dois.

Em junho, porém, Toffoli sinalizou que pode se alinhar a Nunes Marques na decisão que impediu a divulgação de uma pesquisa eleitoral que mostrava Flávio Bolsonaro em queda. O presidente da Corte argumentou que houve indução do instituto de pesquisa. Nos debates em plenário, o colega legitimou o argumento do relator, mas não chegou a votar.

O discurso de Lula pode provocar também uma mudança no equilíbrio de forças no STF. Depois de se ver citado no escândalo do Banco Master, Toffoli teria se ressentido com a falta de apoio dos colegas mais antigos e teria ensaiado se aproximar do grupo de Nunes Marques e Mendonça. Nos bastidores do Supremo, a avaliação é que o posicionamento do petista teria dado o empurrãozinho final para Toffoli se bandear para o grupo hoje minoritário.

Embora Toffoli tenha feito vários movimentos para se reaproximar de Lula depois da Lava Jato, o presidente deixou claro que não o perdoou. “Você veja a diferença. No tempo da ditadura militar, um delegado de polícia permitiu que eu saísse da cadeia para vir no enterro da minha mãe. Agora, no regime democrático, um juiz, um ministro que eu indiquei não permitiu que eu saísse da cadeia para vir no enterro do meu irmão Vavá”, disse o candidato à reeleição no domingo, 16.

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“Numa demonstração de que os homens não são medidos por épocas, os homens são medidos pelo caráter, pela dignidade, pela criação que ele teve de berço”, completou o presidente.

O discurso pode render revés não apenas a Lula, mas ao próprio Toffoli. Ao deixar claro que ainda se ressente, o presidente, se for reeleito, pode não tomar atitude alguma diante de eventual processo de impeachment contra Toffoli no Senado. Hoje, existem dezenas deles aguardando julgamento na Casa.

A figura do pai -Lorena Hakak, FSp

 18.ago.2026 às 17h00

A música "Rockabye", lançada pelo grupo britânico Clean Bandit em outubro de 2016, é uma das minhas favoritas não só pela melodia, mas também pela letra. A música, escrita por Jack Patterson e Ina Wroldsen, retrata a realidade de uma mãe solo que faz de tudo para sustentar e proteger seu filho. Ina, compositora norueguesa, também é mãe solo.

A realidade brasileira é muito diferente da norueguesa, mas tenho certeza de que ser mãe solo é difícil em qualquer lugar. O trabalho de cuidado é contínuo, muito demandante e, por vezes, exaustivo. No Brasil, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua para o 1º trimestre de 2026, realizada pelo IBGE, entre as mulheres com mais de 18 anos, aproximadamente 87% dos lares monoparentais são chefiados por mães. Quase 67% dessas mulheres são pretas ou pardas. Entre as mães solo, 63% estão ocupadas. No entanto, 45% estão na informalidade e a renda média corresponde a apenas 80% da renda das mulheres ocupadas com mais de 18 anos.

A imagem apresenta uma ilustração minimalista de uma mãe segurando um bebê. As figuras são formadas por linhas contínuas e simples, com um fundo claro. Elementos coloridos em tons de laranja e rosa estão presentes, criando formas ovais ao redor das figuras, que destacam a conexão entre mãe e filho.
Tanya Syrytsyna/Adobe Stock

Essa proporção de quase 90%, no entanto, não significa que todas essas mulheres criem seus filhos sem a participação dos pais. Dado o formato da pesquisa, não sabemos se o pai é presente, se contribui financeiramente, se está vivo ou sequer consta no registro da criança. Além disso, a pesquisa não fornece informações sobre o estado civil das pessoas. Assim, não sabemos se a mãe é solteira, divorciada ou viúva. A ausência dessas informações prejudica a elaboração de um retrato mais fiel da população, inclusive das diferentes realidades por trás da maternidade solo.

Uma dimensão da ausência paterna, no entanto, pode ser observada nos registros de nascimento. A Associação Nacional dos Registradores de Pessoas Naturais (Arpen-Brasil) disponibiliza, no Portal da Transparência, a lista de nascidos em cujos registros constam apenas o nome da mãe. Dos 27 milhões de nascimentos entre 2016 e 2025, 6% se enquadram nessa categoria. São famílias em que a criança sequer tem o reconhecimento do próprio genitor. Onde estão esses pais? A presença de ambos os genitores é relevante para a criação e a formação das crianças, exceto em casos de violência doméstica.

Há evidências de que crescer numa família monoparental pode estar associado a efeitos negativos no bem-estar emocional, no desenvolvimento cognitivo e no desempenho escolar das crianças. A sociedade culpabiliza frequentemente a mãe e pergunta o que ela fez ou deixou de fazer, mas raramente pergunta sobre o pai. Essas mulheres muitas vezes se ausentam por longas horas porque precisam trabalhar e, ao mesmo tempo, arcam com grande parte das responsabilidades de cuidado. Elas precisam de apoio.

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Diante disso, as políticas públicas são relevantes para apoiar essas mães e seus filhos, inclusive no acesso à saúde e à educação. A educação integral, em particular, pode apoiar mães com menos recursos na oferta de atividades complementares para seus filhos. Ao mesmo tempo, oferece um ambiente protegido por um período prolongado e pode contribuir para melhorar o desempenho escolar das crianças.

É importante alterar a percepção da sociedade sobre o papel do pai na criação dos filhos. A responsabilidade é de ambos. Políticas como mutirões para incluir o nome do pai na certidão de nascimento ou a extensão da licença-paternidade podem contribuir nesse sentido.

Dedico essa coluna a todas as mães solo que lutam para criar e proteger seus filhos, como Ina Wroldsen descreve em sua música.