quinta-feira, 30 de abril de 2026

Esforço para ser melhor que os outros é satânico, afirma professor da Universidade Yale, FSP

 

Valdinei Ferreira
Valdinei Ferreira

É doutor em sociologia pela USP e fundador do Mapa Centrante

A ideia de que a competição desenfreada para superar o próximo carrega uma natureza diabólica pode parecer um exagero retórico, mas é exatamente essa a conclusão de Miroslav Volf, um dos teólogos mais respeitados da atualidade.

Volf observa que a satisfação dos alunos pelo ingresso na Universidade Yale, uma das mais importantes universidades estadunidenses, vai se desfazendo à medida que percebem que estão cercados por colegas igualmente brilhantes e terão de provar para si mesmos e para os outros que são melhores que eles.

A busca pela superioridade sobre os outros, não importa a área da vida, é um vício transformado em virtude pela sociedade. A cultura atual frequentemente disfarça essa ambição implacável, mas o objetivo de Volf no livro "O Custo da Ambição: Como o Esforço de Superar os Outros Pode nos Derrubar" (Mundo Cristão, 2025) é mostrar que se trata de um vício socialmente aceito e autodestrutivo, e não uma virtude.

Duas esculturas pretas em forma de cabeças humanas em perfil, uma com boca aberta e outra fechada, posicionadas frente a frente com o mar e o céu alaranjado ao fundo durante o pôr do sol.
Singha Bohrer (-Bender) por Pixabay

Para compreender o problema, é preciso entender a distinção central da obra. O esforço por excelência baseia-se em buscar um aprimoramento real diante de um padrão objetivo, por exemplo, tocar melhor um instrumento ou atingir metas de sustentabilidade. Já o esforço por superioridade é estritamente competitivo; seu alvo primário não é a qualidade do que se faz, mas simplesmente "ser melhor que outra pessoa".

Miroslav confessa como esse vício surge no cotidiano. No aeroporto, ao carregar sua mala, ele costuma usar as escadas convencionais em vez das escadas rolantes. Nesse momento, admite sentir-se superior aos outros, julgando-os intimamente por não se exercitarem e por gastarem energia elétrica em vez de calorias.

Logo, porém, ele percebe que esse sentimento é uma completa loucura. Afinal, ele não sabe nada sobre a vida dos outros viajantes, ignorando se eles possuem limitações físicas, problemas de saúde ou qual é o verdadeiro compromisso deles com a sustentabilidade.

Para piorar, o teólogo nota a própria hipocrisia: é contraditório orgulhar-se de poupar energia logo após voar de avião e enquanto ele próprio dirige um carro a combustão, ignorando que as pessoas ao redor podem ter hábitos de vida muito mais sustentáveis que ele.

A grande trapaça psicológica desse vício em superioridade é dar como certo que o fato de uma pessoa ser melhor em algo, defender as causas certas ou conquistar medalhas no esporte, a torna um indivíduo de valor humano superior às outras pessoas.

Segundo Volf, o estrago do vício em superioridade é ainda maior na política polarizada, pois corrói o respeito fundamental pela dignidade humana. Ao transformar a preferência ideológica na medida de valor de uma pessoa, a política deixa de ser um esforço para resolver problemas comuns e se transforma em uma mera competição por domínio.

O resultado é o que Volf chama de "deterioração da verdade": líderes são motivados a dizer qualquer coisa que mantenha seu público, criando suas próprias regras e obscurecendo fatos e análises apenas para manter a superioridade e o poder sobre os adversários.

O desfecho final desse esforço contínuo não é um mundo melhor, mas o inferno no qual estamos mergulhados. Não por acaso, o Satanás de John Milton, na obra "Paraíso Perdido", é apresentado por Volf como o arquétipo e o exemplo literário mais extremo e perfeito desse vício.

A ânsia de ser maior e melhor que os outros é inerentemente irracional, destrutiva e geradora de um sofrimento sem fim. Como o próprio Satanás lamenta em um solilóquio, consumido pelo ódio de si mesmo diante de sua ambição inútil: "sob que tormentos interiores gemo [...] eu mesmo sou o Inferno".

Família Setúbal cria praça pública em área disputada de Pinheiros, em São Paulo, FSP

 Fernanda Mena

São Paulo

Toda vez que um tapume sobe em Pinheiros, na zona oeste de São Paulo, os vizinhos dão como certo: aí vem mais um prédio.

Por isso, quando uma obra tomou um dos raros quarteirões ainda horizontais da rua Doutor Virgílio de Carvalho Pinto, a apreensão veio junto com um estranhamento porque faltava o habitual anúncio imobiliário. Até o dia em que o tapume amanheceu com a frase: "Não é prédio, é praça".

Desde então, o vigilante Ivanildo Ferreira, 33, virou uma espécie de porta-voz involuntário da obra. "Todo dia, um monte de gente me pergunta o que é isso. E eu digo: vai ser uma praça mesmo."

Nos últimos anos, Pinheiros se consolidou como um dos polos de adensamento de São Paulo. O resultado é visível: uma multiplicação de empreendimentos imobiliários que vão de estúdios compactos a edifícios de alto padrão, o que transformou rapidamente a paisagem e elevou a pressão sobre os terrenos locais.

Homem de camisa azul e calça jeans caminha à esquerda em frente a muro verde com a frase 'não é prédio, é praça.' em letras grandes. No primeiro plano, área de construção com entulho e materiais.
Frase em tapume alerta que ali não está sendo erguido um prédio; obra da futura praça Igarapé, na rua Virgílio de Carvalho, em Pinheiros, estão previstas para acabar em junho de 2027 - Danilo Verpa/Folhapress

"Ouvi que seria prédio, ouvi que seria praça, ouvi que seria um projeto cultural. Mas é tudo especulação", afirma Carol Eneas, dona de uma loja de donuts quase em frente ao terreno. "Tem subido prédios loucamente por aqui. Parece Nova York."

A comparação com a maior cidade dos EUA não é coincidência. Foi lá que o núcleo familiar de Alfredo Egydio Setúbal, CEO da Itaúsa, encontrou inspiração para o projeto em vias de se materializar no bairro paulistano, batizado de Praça Igarapé.

A ideia, segundo o filho, Alfredo Nugent Setúbal, remonta a parques como Paley Park e Greenacre Park, que misturam pequenas áreas verdes com a presença de água corrente e que trazem um respiro e mais qualidade de vida para a cidade.

"A ideia sempre foi criar um refúgio que servisse de contraponto ao ritmo frenético de São Paulo", explica ele, que é sócio-fundador da editora Todavia, à Folha.

A importação desse modelo começou de fato há cerca de dez anos e se intensificou a partir de 2017, quando a família iniciou a busca por terrenos.

O processo, porém, foi atravessado pela mesma lógica que hoje alimenta a desconfiança da vizinhança e escala os preços na região. "Começou uma disputa bem agressiva com incorporadoras, que queriam os mesmos terrenos, inclusive aqueles que já eram nossos", afirma Setúbal.

Entre o primeiro terreno adquirido pela família em 2019 e os demais negociados para compor a praça, o preço do metro quadrado mais do que quadruplicou, segundo ele. Encerrada essa etapa, o projeto ficou a cargo do Escritório FGMF junto com Ciça Pinheiro e Paula Pinto.

Foram quase dois anos para obter aprovação na prefeitura. "O ineditismo da proposta gerou alguma dificuldade, mas essa demora fez com que o projeto crescesse em tamanho, ambição e maturidade. Percebemos questões urbanísticas e de saúde mental que foram gradativamente incorporadas."

As informações que passaram a associar o projeto ao sobrenome Setúbal criaram outro ruído. "Tinha ouvido que seria um Itaú Cultural. Mas é uma obra grande, que teve um bate-estaca absurdo, e ficamos com muito medo de ser mais um prédio mesmo", conta a comerciante Mariane Barcellos, 40, aliviada ao saber que a afirmação do tapume é real.

O que está em construção é uma praça de cerca de 1.750 m² com abertura prevista para junho de 2027. A iniciativa é privada e sem fins lucrativos, e deve ter a manutenção financiada com receitas dos aluguéis de três espaços projetados para o local: um café, uma sala multiuso para eventos culturais e uma livraria que deve ser inaugurada já em novembro deste ano. Em vias de assinatura de contrato, o espaço deve abrigar uma nova unidade da Livraria da Travessa na região.

"Queríamos um lugar com vida de rua, comércio e proximidade de metrô, mas que oferecesse pausa, descompressão", diz ele. "Um refúgio urbano, um pequeno oásis." O projeto incorpora elementos recorrentes nos parques que o inspiraram, como a presença de água —um espelho que atravessa o terreno e deságua em uma cascata—, além de microambientes pensados para diferentes usos, como bancos e playground.

Antes mesmo do desenho arquitetônico da Praça Igarapé, a família encomendou uma pesquisa sobre a história hídrica do bairro, marcada por rios canalizados e enterrados. O nome, segundo Setúbal, "é, portanto um aceno a esses rios esquecidos".

Setúbal explica que a proposta é do casal Alfredo e Rose Setubal, dele e de sua irmã, Marina, tanto do ponto de vista financeiro como de governança. "Não tem nada de institucional, nada ligado à Itaúsa."

A iniciativa de criar um espaço privado de uso público não escapa a críticas ao mesmo tempo em que chama a atenção para o papel do poder público e para os limites da atuação privada numa cidade marcada pela desigualdade no acesso a áreas verdes.

"Tem tanta praça que não é frequentada porque está mal cuidada ou por questão de segurança. Por que não recuperar uma delas em vez de demolir construções para dar lugar a uma praça nova?", questiona Mônica Gimenez, profissional de RH e moradora do bairro.

Setúbal defende que a família sonhou com algo que vai além de uma praça usual e que congrega natureza e cultura. Mas a própria família reconhece o caráter limitado da intervenção. "É uma gota no oceano", afirma ele. "Não substitui o poder público, mas pode servir de exemplo." A ambição, admite, é inspirar iniciativas privadas semelhantes em benefício da cidade.

Por ora, a família não pretende replicar a experiência. "Este é um projeto de vida. E o verdadeiro trabalho começa quando a praça for inaugurada."

Em um dos bairros onde a especulação imobiliária mais avançou, a especulação sobre o destino daquele terreno acabou revelando o quanto a cidade se acostumou a esperar sempre o mesmo desfecho. Desta vez, no entanto, não é prédio, é praça.

Moraes faz jantar com Alcolumbre na véspera de derrota de Messias e Lula desconfia, FSP

 Mônica Bergamo

Um jantar na casa do ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Alexandre de Moraes com a presença do presidente do SenadoDavi Alcolumbre, reforçou as desconfianças de Lula de que ambos formaram uma dupla incontrastável para derrotar a indicação de Jorge Messias à Corte.

Dois homens apertam as mãos em um ambiente interno com parede de pedra ao fundo. Um deles está sentado, veste terno escuro e olha para o outro, que está em pé, veste toga preta e camisa branca, e sorri levemente.
O presidente do Senado, Davi Alcolumbre, cumprimenta o ministro Alexandre de Moraes em sessão de posse no STF - Pedro Ladeira/Folhapress

A reunião ocorreu na terça (28), véspera da fragorosa derrota imposta a Lula na quarta (29), em que Messias foi rejeitado com 42 votos contrários e 34 favoráveis.

O encontro deixou Lula indignado e possesso, segundo autoridades que estavam com ele no Palácio da Alvorada logo depois da derrota.

O jantar, no entanto, não foi marcado especialmente para discutir a votação da indicação de Messias.

Na verdade, Alexandre de Moraes ofereceu a recepção para homenagear um velho amigo, o procurador e ex-secretário Nacional de Justiça Mário Luiz Sarrubbo. Ambos fizeram carreira no Ministério Público de SP.

Além de promotores e procuradores, o magistrado convidou para o encontro pessoas que, amigas dele e de Sarrubo, são também próximas de Lula. Estiveram na casa dele o ministro do STF Cristiano Zanin, o superintendente da PF (Polícia Federal) Andrei Rodrigues e o ex-ministro da Justiça Ricardo Lewandowski.

Foram também ao evento o ministro Gilmar Mendes, que apoiou a indicação de Messias ao STF, e o senador Rodrigo Pacheco (PSB-MG).

Zanin e Mendes ficaram pouco tempo no local e não participaram do jantar.

De acordo com um dos presentes, Messias foi citado apenas em conversas paralelas, num encontro em que as pessoas falavam, na maioria das vezes, de amenidades.

O mesmo convidado afirma que não faria sentido convocar um evento com tantas pessoas, e inclusive com apoiadores de Lula e de Messias, para fazer qualquer tipo de conspiração.

Um interlocutor de Lula afirma, por outro lado, que chegou aos ouvidos do presidente que, neste jantar, Albolumbre teria afirmado, em pequenas rodas de conversa, que já tinha 50 votos para derrotar Messias no plenário.

Nessas conversas paralelas, o presidente do Senado teria sacramentado, e festejado, o destino do advogado-geral da União.

Um segundo convidado de Moraes, no entanto, afirma à coluna que a derrota de Messias já estava decidida de antemão e que a data do jantar foi uma mera coincidência.

Ele foi marcado na terça simplesmente porque Sarrubo estaria em Brasília, onde participaria, no dia seguinte, de uma reunião do Conselho Nacional de Segurança Pública e Defesa Social.