sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

Malu, jornalista, Demetrio Magnoli, FSP

 Malu Gaspar, de O Globo, publicou os dois "furos" jornalísticos mais relevantes do crepúsculo de 2025.

Primeiro, o conteúdo do contrato do escritório de Viviane Barci, esposa de Alexandre de Moraes, com o Banco Master. Depois, os contatos telefônicos do ministro do STF com o BC dedicados à crise do Master.

O que seria apuração jornalística, em tempos menos anormais, tornou-se conspiração imperdoável, aos olhos do gabinete do ódio petista. O episódio solicita uma breve aula sobre as fontes da imprensa profissional.

Fonte é qualquer detentor de uma informação oculta de interesse público. As legislações democráticas protegem o sigilo da fonte, sem o que não existe jornalismo de verdade. No mais das vezes, a informação revelada atinge interesses de figuras poderosas e, portanto, a fonte só falará se tiver garantia de anonimato.

Quem mostraria o rosto para denunciar o policial que se dedica à chantagem ou o chefe do tráfico na comunidade?

Homem calvo veste terno azul escuro, camisa azul clara e gravata lilás, com capa preta sobre os ombros, em fundo neutro.
O ministro Alexandre de Moraes durante julgamento da trama golpista na Primeira Turma do STF - Rosinei Coutinho - 16.dez.25/Divulgação STF

Os capos da militância que ataca Malu reivindicam a "prova" —isto é, a identidade de suas fontes. Há, aí, dois erros graves. Eles simulam ignorar que o jornalismo não faz prova, um conceito pertencente ao sistema judicial, mas divulga informações. Ao mesmo tempo, evidenciam seu desprezo pela democracia: são regimes de força que exigem a exposição de fontes, a fim de calar a sociedade.

Fontes falam por motivos diversos: indignação cívica, interesse em incinerar a imagem de um personagem relevante, mero desejo de vingança. Escroques funcionam, às vezes, como fontes. O jornalista pode conhecer ou não as motivações de suas fontes —mas isso pouco importa.

O que importa são as respostas a duas perguntas singelas: 1) é verdade?; 2) é de interesse público? Se as respostas forem "sim" e "sim", o jornalista tem o dever de publicar.

Fontes podem mentir. Malu, anos atrás: "Você tem que saber aproveitar e não se submeter ao jogo de interesses das fontes. É legal estar ali sempre alerta, tentando descobrir onde está a verdade e onde estão tentando te enganar". O jornalista vive de credibilidade: deixar-se manipular por uma fonte e publicar informação incorreta atenta contra seu único tesouro.

São os detratores de Malu que precisariam evidenciar a hipotética falsidade de seus "furos" —mas eles nem tentam fazer isso.

Os capos organizam seu bombardeio em torno de suas próprias respostas à indagação "a quem serve?". Segundo eles, as informações serviriam à guerra do bolsonarismo contra Moraes. Equivocam-se: a exposição de eventuais desvios éticos ou tráfico de influência no STF serve para punir distorções, aperfeiçoando a instituição, algo negativo para o golpismo.

Contudo, no fim das contas, a indagação deles é estranha ao universo da imprensa profissional. O jornalista-militante só publica o que imagina servir aos interesses dos seus. O jornalista de verdade publica o que é de interesse público, deixando aos cidadãos a possibilidade de extrair conclusões políticas. Malu é da segunda família.

Os difamadores de Malu são, explicitamente, militantes políticos. Mas, paradoxalmente, dirigem à jornalista a acusação gratuita de que ela operaria segundo desígnios políticos. É igual ao que fazem as redes bolsonaristas, apenas com sinal invertido. Finalidade compartilhada: desacreditar a imprensa para proteger seus ídolos.


Bolsa Família e o mercado de trabalho brasileiro, Braulio Borges, FSP

 Vem repercutindo bastante nas redes sociais nos últimos dias o relato de um empresário do setor de comércio de Santa Catarina. Ele apontou que iria fechar seu negócio por conta da dificuldade de contratar mão de obra e associou isso ao programa Bolsa Família. Como quase tudo nos últimos tempos, esse episódio nasceu carregado de preconceitos e gerou forte polarização. E, quando isso acontece, geralmente um debate mais equilibrado costuma ser a primeira vítima.

De fato parece haver evidências empíricas de que a forte expansão do Bolsa Família, tanto em termos de cobertura como de valor médio do benefício, gerou algum efeito negativo sobre a oferta de trabalhadores e aumentou a informalidade, como argumentei em uma coluna anterior.

Duas mãos de manequim de madeira seguram um cartão amarelo com a inscrição 'BRASIL Bolsa Família' em fundo verde.
Cartão do benefício do Bolsa Família, com cerca de 20,5 milhões de usuários

Contudo, é importante destacar que esse efeito pode estar se reduzindo bastante mais recentemente, sobretudo desde meados de 2025. Isso porque o número de beneficiários vem recuando, seja por conta da melhoria do mercado de trabalho (que faz com que muitas pessoas deixem o programa), seja pelo aperto na fiscalização pelo governo.

Entre 2014 e o final de 2021, o número de beneficiários do programa oscilou de 14 milhões a 14,5 milhões (famílias). Com a alteração para o Auxílio Brasil no final de 2021, a cobertura foi ampliada para pouco mais de 18 milhões até meados de 2022. Às vésperas das eleições presidenciais de 2022, o governo anterior promoveu uma nova rodada de ampliação, de modo que o contingente de beneficiados se aproximou dos 22 milhões ao final daquele ano.

Entre o começo de 2023 e junho de 2025, esse número recuou um bom tanto, para perto de 20,5 milhões. Ao longo do segundo semestre de 2025, a queda foi mais expressiva, com a cobertura chegando a 18,7 milhões em dezembro de 2025. Portanto, em relação ao pico, observado na virada de 2022 para 2023, houve uma redução de mais de 3 milhões de famílias beneficiadas pelo programa.

Ademais, embora as estimativas empíricas –realizadas com dados que ainda não levaram em conta essa queda expressiva dos beneficiários no segundo semestre de 2025– apontassem para algum efeito negativo sobre a oferta de mão de obra, não necessariamente isso era de todo ruim, já que parte dessas pessoas, sobretudo os mais jovens, passaram a estudar mais (como apontou meu colega de Instituto Brasileiro de Economia, Daniel Duque, em um estudo publicado em agosto do ano passado), algo que tende a gerar efeitos favoráveis sobre o mercado de trabalho mais à frente.

No mais, uma política pública deve ser avaliada a partir da comparação entre os seus benefícios e seus custos (ou seja, o saldo líquido). Por mais que essa ampliação recente do Bolsa Família possa ter feito emergirem alguns efeitos contraproducentes sobre a oferta de mão de obra, os benefícios do programa ainda superaram largamente seus custos, como atestam diversos estudos. De todo modo, o ideal seria tentar aprimorar continuamente o programa, buscando potencializar os efeitos favoráveis e minimizar os efeitos desfavoráveis (até mesmo porque os recursos fiscais não são infinitos).

Voltando ao caso do empresário, outros fatores certamente estão afetando muito mais adversamente a oferta de mão de obra para as empresas além do Bolsa Família. Se entre 2016 e 2024 havia excesso de desemprego, hoje isso já não acontece, uma vez que estamos próximos do chamado "pleno emprego".

Por fim, empresários como ele estão cada vez mais sofrendo concorrência com a chamada "gig economy", o mundo dos trabalhadores por aplicativos, que são "conta própria". De acordo com estimativas do Banco Central, o número de pessoas nesse segmento saltou de 770 mil em 2015 para 2,1 milhões em 2025.

Bráulio Borges

Mestre em teoria econômica pela FEA-USP, é economista-sênior da LCA Consultores desde 2004 e pesquisador-associado do FGV IBRE desde 2015


Startup brasileira usa AI para salvar vidas em hospitais, The News

 

Quando se fala em inteligência artificial, talvez a primeira coisa que venha à sua mente seja BIG TECHs e Vale do Silício. Mas tem empresa brasileira que também tem crescido neste mercado.

Uma delas é a NoHarmstartup de AI criada por dois irmãos brasileiros para reduzir erros médicos. Atualmente, está presente em cerca de 200 hospitais e analisa milhões de prescrições por mês — além de funcionar gratuitamente no SUS.

Como funciona: A tecnologia cruza dados clínicos e identifica riscos em receitas médicas antes do medicamento chegar ao paciente. A AI não decide sozinha: alerta, e o farmacêutico avalia.

Em um hospital público de Minas Gerais, por exemplo, a taxa de prescrições analisadas saltou de 0,6% para 49%, enquanto os erros caíram de 13% para apenas 0,3%.

Por que isso importa? Erros de prescrição estão entre as principais causas de falhas evitáveis no cuidado médico no Brasil. Estimativas apontam que 829 pessoas morrem todos os dias por falhas desse tipo — cerca de 3 óbitos a cada 5 minutos.

Curiosidade: Mesmo reconhecida globalmente — a cofundadora Ana Helena Ulbrich entrou para a lista da TIME das 100 pessoas mais influentes do mundo em AI — a NoHarm recusou até R$ 10 milhões em investimentos para manter o acesso gratuito no sistema público.

O projeto é todo financiado por investimentos sociais e por contratos com hospitais privados.