sexta-feira, 5 de junho de 2026

Governos Bolsonaro e Lula fizeram pouco ou nada contra o crime organizado; a soberania se deteriorou, OESP

O movimento de repulsa à decisão do governo Trump de considerar o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas vem levando em conta apenas questões de soberania, como a eventual possibilidade de intervenção do governo dos Estados Unidos em negócios internos do Brasil.

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Não leva em conta que tanto o governo Bolsonaro como os três governos Lula nada ou quase nada fizeram para combater o crime organizado e, com isso, permitiram a deterioração da soberania do Brasil.

São organizações cuja atuação corrói as instituições; em seu lugar, implantam um Estado paralelo. Financiam-se com o narcotráfico, o tráfico de armas, a lavagem de dinheiro, o contrabando, a sonegação fiscal e a sujeição do cidadão comum a todo tipo de fraude e de extorsão.

As propostas de segurança pública do PT são vagas e não preveem mecanismos para rastrear o dinheiro ilícito que sustenta esses crimes
As propostas de segurança pública do PT são vagas e não preveem mecanismos para rastrear o dinheiro ilícito que sustenta esses crimes Foto: Werther Santana/Estadão

Arrebatam das instituições estatais o monopólio do uso da força e sujeitam comunidades inteiras a seu comando. Lá, o Estado não entra ou, quando entra, deixa meia dúzia de policiais por apenas um ou dois dias para, logo em seguida, deixar o campo livre para a volta dos que lá estavam.

Essas organizações se infiltram nas administrações municipais. Onde podem, por meio de chantagens, ameaças ou simplesmente por meio de suborno, assumem secretarias de governo, os serviços de polícia, o controle das prisões e solapam o Poder Judiciário.

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Não há correntista de banco ou possuidor de cartão de crédito que não tenha sido vítima de fraudes ou de tentativas de fraudes. O roubo de celulares é pandêmico. E, no entanto, os governos assistem a tudo inertes. Limitam-se a fazer alguma estatística sobre ocorrências e deixam tudo solto.

Os últimos documentos do PT que se propuseram a definir diretrizes de governo elegem como inimigos a combater as elites neoliberais; os rentistas financeiros que concorrem, segundo eles, para endividar o trabalhador; a burguesia exploradora, que captura o espaço público e contribui para a precarização do trabalho. Mas silenciam sobre as atividades do crime organizado que solapam a vida democrática.

As propostas sobre política de segurança pública do PT são propositalmente vagas. Falam em Sistema Único de Segurança Pública e em uso obrigatório das câmaras corporais pelas polícias, mas não falam sobre a criação de mecanismos destinados a seguir os rastros do dinheiro ilícito que sustenta esses crimes para eliminá-los.

Em outubro de 2025, o presidente Lula declarou que os traficantes são “vítimas dos usuários”. Depois, tentou remendar, como se tratasse de “frase mal colocada”. Mas atos falhos desse tipo dizem mais. Dizem que, no DNA do PT, a maioria dos bandidos deve ser considerada vítima do sistema, e não inimiga do Estado e da classe trabalhadora.

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Opinião por Celso Ming

Comentarista de Economia

quinta-feira, 4 de junho de 2026

Uber anuncia demissão em massa com foco em funcionários de RH e cultura, FSP

São Paulo

A empresa de mobilidade Uber anunciou, nesta quinta-feira (4), a demissão de 23% de seus funcionários das áreas de recursos humanos, recrutamento e cultura, que inclui também o relacionamento com os motoristas.

O gigante do transporte por aplicativo disse que os cortes devem afetar cerca de 1% de seus 35 mil empregados, segundo memorando interno visto pela emissora americana CNBC. A companhia ainda mobiliza o trabalho de cerca de 10 milhões de motoristas parceiros.

Procurada, a Uber não esclareceu se os cortes vão afetar a sede da empresa no Brasil.

Logotipo branco da Uber aplicado no vidro traseiro de um carro prata. Parte do teto e a terceira luz de freio do veículo são visíveis.
Logo da Uber em vidro traseiro de um carro, em Dublin na Irlanda - Clodagh Kilcoyne/Reuters

A demissão em massa, focada principalmente em cargos seniores, faz parte de uma reestruturação comandada por Jill Hazelbaker, diretora de assuntos corporativos recém-promovida a presidente da empresa de transporte por aplicativo. O objetivo é simplificar a gestão das equipes.

Diferentemente de grandes dispensas recentes em empresas de tecnologia, a Uber afirmou em entrevista à Bloomberg que os cortes não estão ligados ao uso de inteligência artificial generativa.

A empresa tem um centro de tecnologia na capital paulista, com cerca de 500 engenheiros. Em entrevista à Folha, o CEO da empresa Dara Khosrowshahi anunciou uma expansão para o Rio, investindo mais de R$ 2 bilhões em tecnologia.

Apenas no Brasil, são mais de 2 milhões de motoristas que trabalham com a Uber. "Estimamos que mais de 85% da população brasileira já usou a Uber de alguma forma", disse Khosrowshahi.

O prazer das pequenas incertezas da vida, Suzana Herculano-Houzel, FSP

 6 às 18h00

Quando eu era criança, os verões eram passados na aldeia de pescadores onde meus avós e tios-avós (aquela que me iniciou no carteado) construíram casas de frente para o mar, atraentes para os não iniciados, enquanto os locais, mais espertos, faziam suas casas nas ruas de trás, protegidas do vento por um declive.

Na minha visão de criança, o idílio tinha um problema grave: o mar aberto era incerto. Calmo feito as águas do Caribe num dia, no outro ele podia estar só "bravo" ou, pior, "de ressaca", as expressões divertidas do português que traduzo literalmente para meu marido, estrangeiro, e ele adota em inglês.

A criança que eu era queria mar de piscina todo santo dia. Ou pior: havia meses de janeiro escorchantes, e outros, como o famoso "Verão da Sucessora", quando só chovia o dia todo, todo dia.

Banhista observa o mar revolto em Ipanema, no Rio - Caio Guatelli - 16.out.11/Folhapress

Naquele verão, a família andava com barracas de praia e se reunia para assistir à tal novela e jogar cartas; nós crianças líamos gibis e desenhávamos o resto do dia. Quando terminavam as aulas, não havia como saber que tipo de verão teríamos. A única previsão era a imprevisibilidade.

Hoje, neurocientista, adulta e ciente do luxo de morar alguns meses do ano na mesma praia, acho maravilhoso ter na vida essas pequenas incertezas do clima e do mar.

Aqui, ao contrário de outros lugares onde morei, a meteorologia não acerta, porque não tem como acertar: são fatores demais tornando o jogo complexo. A previsão promete chuva já de manhã, mas o dia começa glorioso. Promete o sol, e cai um pé d’água. Às vezes, só para chatear, ela até acerta.

O mar também continua caprichoso, e hoje acho isso fantástico. Faz parte da rotina levantar e ir descobrir em que humor Iemanjá acordou.

As marés também não casam com as 24 horas do dia, então a gente, que não vive do mar e não presta atenção, não sabe prever a altura da água pela manhã.

O resultado dessas pequenas incertezas combinadas é que quando a chuva para, o sol pinta tudo de amarelo e o mar está um chão, a gente sabe que é para mostrar apreciação pela sorte que tem de estar vivo e ir tomar banho de mar.

Já fui presenteada com lagamar tão fundo que dava para nadar de braçada. Até meu pai, que não quer mais se arriscar na areia, botou a sunga e veio comigo. A gente acha que o prazer da vida está em antecipar e acertar, mas não está.

O cérebro age e se expõe aos acontecimentos decorrentes, e extrai informação quando uma coisa acontece junto com a outra, sim. Mas, depois de feita a conexão entre dois eventos, não há mais informação alguma se eles invariavelmente acontecem juntos.

Há todo um sistema de estruturas cerebrais interconectadas que a gente hoje sabe envolver as capacidades de associação e previsão do cerebelo..."

Há todo um sistema de estruturas cerebrais interconectadas que a gente hoje sabe que envolve as capacidades de associação e previsão do cerebelo, que toma nota quando algo foge do esperado. Esse sistema dito de recompensa libera a tal da dopamina, mas o que ela sinaliza é afinal não a promessa de prazer, mas sim aquilo que vale o esforço de partir para a ação.

O que é garantido perde a graça porque tanto faz a ação acontecer agora ou mais tarde, como ir a um mar que está sempre um chão.

Ter surpresas dignas de formar memórias faz parte da experiência de estar vivo, e não sobra qualquer chance de surpresa com o inesperado quando a previsão sempre acerta.

A única certeza que ajuda é a da morte no horizonte: com ela, descobrir-se vivo mais um dia se torna algo digno de nota e comemoração.