sábado, 21 de março de 2026

Trem no Paraná recebe locomotiva reconstruída de US$ 1 mi, Marcelo Toledo ,FSP

 Marcelo Toledo

Curitiba

Principal rota ferroviária turística em operação no país, o trem da Serra do Mar paranaense recebeu uma nova locomotiva para atuar no trajeto entre Curitiba e Morretes.

O investimento, feito pela Serra Verde Express, que opera a rota há quase 30 anos, foi de US$ 1 milhão (R$ 5,31 milhões) para reconstruir a locomotiva, que, segundo a empresa, estava em estado de sucata.

Locomotiva pintada em verde e azul estacionada sobre trilhos dentro de galpão industrial com teto alto e iluminação artificial. Ao lado, tanque metálico grande com a palavra 'INFLAMÁVEL' visível.
Nova locomotiva apresentada pela Serra Verde Express, que vai atuar no trem da Serra do Mar paranaense - Divulgação/Serra Verde Express

A máquina, de 70 toneladas, foi transportada por rodovia entre Bauru e Curitiba numa viagem de seis dias. A intenção é que ela seja utilizada em percursos curtos e em novos projetos que a companhia deve lançar neste ano.

A locomotiva, entregue no último dia 4, é a segunda comprada pela empresa, a primeira para atuar no Paraná. A Serra Verde também administra o Trem da República, entre Itu e Salto, no interior de São Paulo.

Ela tem 11,4 m de comprimento, motor diesel, potência total de 1.200 HP e capacidade para tracionar até 11 vagões.

A rota entre Curitiba e Morretes é percorrida normalmente em quatro horas e 15 minutos, em meio a trechos de mata atlântica e cachoeiras e com vagões temáticos, como o que homenageia o Barão do Serro Azul, que foi morto durante a Revolução Federalista na ferrovia Paranaguá-Curitiba.

O trem utiliza em suas viagens locomotivas da Rumo, que é a concessionária responsável pela via férrea, mas a nova locomotiva ampliará a autonomia da empresa para criar outros produtos turísticos, como passeios curtos.

Além da nova máquina, os trilhos no Paraná ganharam também um novo carro de passageiros. No fim de dezembro, foi inaugurado o sétimo carro de passageiros da categoria boutique da rota, batizado de Família Arruda, em homenagem aos fundadores da empresa.

O casal Adonai Arruda e Ione Oliveira assumiu em 1997 a concessão da rota turística entre Curitiba e Morretes, ambos homenageados no único dos 28 carros de passageiros em operação na rota a possuir teto de vidro.

Desde o surgimento, foram transportados mais de 4,5 milhões de passageiros entre a capital paranaense e Morretes, dos quais 85 mil no verão, encerrado nesta sexta-feira (20). Até o final do ano, a marca de 5 milhões de turistas deve ser alcançada, conforme a companhia.

A intenção é que, no novo vagão, os passageiros tenham a sensação de verticalidade da mata atlântica. A previsão é que, até o final deste ano, sejam transportados 11 mil pessoas nele.

O vagão possui estofamento 100% em couro e comporta 29 passageiros. Ele tem dois banheiros e uma varanda de 5 metros quadrados.


Trem da Serra do Mar paranaense

  • Duração: quatro horas e 15 minutos, entre Curitiba e Morretes

  • Horários: saídas de Curitiba às 8h30; de Morretes, às 15h (consulte datas)

  • Trecho percorrido: 70 km

  • Preços: a partir de R$ 206; há opções com almoço típico em Morretes, city tour em Antonina e transfer

  • Atrações: trecho de mata atlântica e cachoeiras

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O legado de Haddad, Samuel Pessoa, FSP (dados inflação /PIB)

 O ministro Fernando Haddad deixou a Fazenda para concorrer ao governo do estado de São Paulo. Bom momento para um balanço dos quase três anos e um trimestre à frente do ministério.

Haddad estabeleceu a agenda do terceiro mandato de Lula. Convenceu o presidente de sua importância e foi bem-sucedido em negociá-la no Congresso Nacional. A agenda tinha três elementos. Primeiro, oferecer uma regra fiscal alternativa ao teto dos gastos que caíra com a emenda constitucional da transição. Segundo, aprovar a reforma tributária dos impostos indiretos. Terceiro, aprovar um conjunto de medidas tributárias que combatam a elisão fiscal, estimulem a justiça tributária e reequilibrem os litígios entre a Receita Federal e o setor privado.

Homem de meia-idade com cabelo grisalho e camisa preta segura microfone com a mão esquerda e toca a testa com a direita, sentado em ambiente com cortinas cinza ao fundo.
Fernando Haddad concede entrevista após deixar o Ministério da Fazenda - Zanone Fraissat - 20.mar.26/Folhapress

O arcabouço fiscal tem um bom desenho, combinando elementos do teto de gastos —uma meta de crescimento do gasto primário— com elementos da meta de superávit primário. É incoerente com a regra de valorização do salário mínimo real e com a indexação dos pisos constitucionais de saúde e educação à receita corrente líquida, tema tratado na coluna anterior. Essas duas medidas foram decisões exclusivas do presidente da República às quais Haddad teve de se ajustar.

A reforma tributária dos impostos indiretos é a reforma institucional mais importante desde o Plano Real. Tratei em detalhes dos seus impactos positivos nesta Folha em julho de 2023.

Na parte tributária, o ministro aprovou a tributação sobre os fundos fechados de investimentos; regularizou o preço de transferência das traders na exportação de commodities, o que gerava muito lucro transferido ao exterior; minimizou a perda de arrecadação com a contaminação dos incentivos de ICMS, que os governos estaduais praticam, sobre a base de cálculo do IRPF; conseguiu aprovar um cronograma de desmame da desoneração da folha de salários e do Perse e aprovou legislação de redução de 10% do gasto tributário, além de retornar para a Fazenda o voto de qualidade no Carf, entre outras medidas.

Em 2025, aprovou o imposto sobre as altas rendas, primeiro passo na busca de maior progressividade tributária. Apesar de ainda ser necessária uma reforma mais abrangente da tributação sobre a renda do capital, Haddad iniciou o processo.

Infelizmente, a recente aprovação na Câmara de regime de urgência para o aumento do limite do faturamento de uma empresa para o enquadramento para o regime tributário do Simples é um retrocesso à agenda de progressividade tributária. Espero que no próximo mandato a sociedade enfrente toda a regressividade dos regimes tributários especiais do Simples e do lucro presumido.

Na área monetária, como membro do Conselho Monetário Nacional, o ministro foi bem: contribuiu para manter a meta inflacionária em 3% e alterou o horizonte de cálculo da meta, de ano-calendário para um horizonte móvel.

A meta em 3% e a independência do BC foram essenciais para que a inflação no quadriênio do terceiro mandato de Lula fosse a menor das últimas décadas.

O que faltou foi construir as condições para que a economia brasileira consiga operar com juros baixos. Os juros são elevados em razão de escolhas da sociedade. Não é culpa deste ou daquele político. Talvez alguma liderança consiga entender esse fato e convença a sociedade de que as regras devem ser compatíveis com gasto público crescendo ligeiramente abaixo do crescimento da economia. Caso contrário, teremos de passar em algum momento por uma crise fiscal ou de crédito.