O torneiro mecânico Fernand Iveton foi tirado da cama pelos guardas pouco antes das cinco horas da manhã e empurrado aos safanões para o pátio da prisão. Seus advogados lhe contaram que o presidente da República negara o indulto. Era segunda-feira, 11 de fevereiro de 1957.
O escrivão perguntou se tinha algo a declarar. "A vida de um homem, a minha, pouco importa", respondeu. "O que importa é a Argélia. Ela será livre amanhã". O capelão indagou se precisava de orações. Iveton ensaiou um sorriso e disse que não.
O carrasco o aguardava ao pé do cadafalso. Espantou-se ao saber que o condenado se chamava, como ele, Fernand. Verdugo e vítima também compartilhavam legados paternos. Um Fernand, o apelidado de Senhor de Argel, era filho de carrasco. O outro, o comunista com os braços amarrados às costas, filho de comunista.
Os advogados buscaram abrigo no corredor que levava ao patíbulo. Um se ajoelhou e levantou ao céu as mãos postas. O outro encostou a testa na parede e chorou.
"São cinco e dez quando a cabeça de Fernand Iveton, número de matrícula 6101, 30 anos,". Termina assim, numa vírgula, o romance "Amanhã Não Ousarão nos Assassinar", de Joseph Andras, recém-lançado pela Mundaréu. A frase abandonada ao meio insinua tanto continuidade quanto interrupção.
Sequência e bloqueio do quê? Fernand Iveton existiu, foi o único europeu decapitado na Guerra da Argélia, de 1954 a 1962 —enquanto os argelinos executados foram 217. Lido hoje, o pano de fundo do livro continua: o belicismo colonial segue firme e forte de Gaza à Venezuela.
O que o romance interrompe é a amnésia a que foi relegado uma das milhões de vítimas da violência imperial ontem e hoje, um pobre diabo chamado Fernand Iveton. Nem sempre foi assim; Sartre e Camus escreveram a seu respeito logo depois da execução.
No ensaio "Somos Todos Assassinos", Sartre disse: "Este homem declarou e provou que não queria a morte de ninguém, mas nós queríamos a sua e a obtivemos".
Em "Reflexões sobre a Guilhotina", Camus registrou: "É tarde demais e só resta se arrepender ou esquecer. Evidentemente, esquecemos. A sociedade, entretanto, não deixa de ser atingida."
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Joseph Andras, o escritor que fez com que Iveton voltasse a existir, não existe. É pseudônimo de um homem que não revela o nome nem aparece em público. Em 2016, "Amanhã Não Ousarão nos Assassinar" ganhou o Goncourt de primeiro romance, o prêmio literário mais prestigiado da França. Tinha 31 anos.
Ganhou, mas não levou. Causou pasmo ao recusar o Goncourt. Explicou que "um padeiro faz baguetes, um encanador desentope, um escritor escreve: é simples assim. Está tudo no livro, não vejo o que mais se poderia acrescentar."
"Amanhã Não Ousarão nos Assassinar" é um romance à antiga, com discurso indireto livre —aquele em que a escrita do autor se mescla à consciência dos personagens, a maioria pessoas reais. Sua força vem da concisão, da objetividade com que conta um caso melancólico— e a fraqueza está numa cena de sexo constrangedora, e em imagens de mau gosto do tipo "o rio Marne mostra a língua verde para a paz azul do céu".
Iveton aderiu à Frente de Libertação Nacional, a FLN, que dirigia a guerra contra a França e explodia bombas em cafés, estádios, cinemas e bares frequentados por colonizadores. Mas ele discordava do terrorismo, dos atentados indiscriminados a civis, e era a favor da sabotagem.
Foi para fazer propaganda da FLN e da independência, pois, que pôs uma bomba-relógio numa sala abandonada da usina de gás onde trabalhava, ajustando-a para explodir depois do expediente. Um chefete a encontrou e delatou Iveton. Tomou choques, chutes, pauladas e o afogaram até desfalecer.
Condenado à morte, seus advogados pediram ao presidente René Coty que o indultasse. Aconselhado pelo ministro François Mitterrand, da Justiça, o presidente recusou o perdão, fazendo com que o degolassem.
Passaram-se 24 anos e Mitterrand se elegeu presidente. Quando lhe perguntavam por que quis que Iveton fosse guilhotinado, ficava vexado. Segundo Roland Dumas, seu amigo e ministro, o fantasma do operário sem cabeça o atazanava.
O espectro, especula-se, contribuiu para que Mitterrand abolisse, em 1981, a pena de morte, e o enaltecessem por isso. Quanto a Iveton, ninguém o saúda. Quando muito, é um discreto herói literário.
Antes da lâmina oblíqua cair-lhe na nuca, disse que pouco importava a vida de um homem. A morte daqueles que os senhores do mundo massacram, também.