
Foto: Evaristo Sá / AFP
“Não fugi do Brasil, eu saí pelo Brasil.” A frase está na carta que Flávio Bolsonaro divulgou de Miami, três dias depois de ser derrotado por Lula no segundo turno da eleição presidencial, por 51,79% a 48,21% dos votos válidos. A primeira versão, depois reescrita, o apresentava como “verdadeiro presidente eleito”. Apesar dos reparos, permaneceu o gesto: diante de um resultado adverso, deixar o país e contestar do exterior as regras aceitas ao entrar na disputa.
O mercado reagiu de outro modo: não negou o resultado, desfez uma aposta. No pregão seguinte ao primeiro turno, com Flávio à frente, o Ibovespa subiu 7,7% e o dólar caiu 4,11%. Na segunda-feira após o segundo turno, o índice caiu 13,88%, com circuit breaker, e o dólar subiu 8,21%, a maior alta diária desde 1999. A queda mede a distância entre o que parte do mercado esperava e o que as urnas entregaram. Resta saber se a reação é pontual ou sinal de disposição de saída.
Albert Hirschman, em Saída, Voz e Lealdade, de 1970, oferece uma chave para esse comportamento, individual na origem e coletivo no impacto. Diante da deterioração de uma organização, seus membros podem sair ou exercer a voz, tentando corrigir o rumo. A lealdade e o pertencimento alimentam o esforço pela melhoria e retardam a fuga. Quando a saída é fácil, a voz se atrofia, e os primeiros a sair tendem a ser os membros mais exigentes, justamente os que mais poderiam pressionar por correção.
Diante do espetáculo de desistências, anônimas e célebres, proponho a categoria de futuropessimismo: a descrença, difundida em partes da sociedade, na capacidade de reformar coletivamente o futuro; entre os que têm meios, ela se combina à confiança de poder se proteger dele. Setores empresariais e financeiros que exibem entusiasmo com inovação e produtividade são céticos quanto a um futuro de oportunidades para parcelas amplas da sociedade. O futuropessimismo rejeita a premissa iluminista de que o progresso é um empreendimento compartilhado, sustentado por instituições que distribuem seus frutos. Para esses grupos, posições políticas viram instrumentos de proteção (diversificação de apostas, neutralidade calculada), e as instituições deixam de ser defendidas porque não parecem corrigíveis.
Esse pessimismo encontra uma sociedade descrente do pacto social, no topo e na base, e alimenta o crescimento de grupos antissistêmicos, sobretudo à direita. Segundo o Edelman Trust Barometer 2026, feito no fim de 2025 com cerca de 34 mil pessoas em 28 países, apenas 30% dos brasileiros acreditam que a próxima geração viverá melhor, e 72% hesitam em confiar em quem tem valores diferentes dos seus. A diferença de confiança nas instituições entre alta e baixa renda é de 9 pontos no Brasil; no plano global, mais que dobrou desde 2012 e chegou a 15. Na edição anterior, quatro em cada dez entrevistados no mundo aprovavam ao menos uma forma de ativismo hostil como meio de mudança; entre os jovens de 18 a 34 anos, 53%.
A maioria do empresariado exerceu a voz e perdeu; a minoria que podia lucrar com a saída financiou o lado vencedor
O Brexit mostra o que acontece quando a parcela da elite que ganha com a ruptura financia a saída. Em 2016, 80% dos membros da CBI, a principal confederação empresarial britânica, defendiam a permanência na União Europeia, e dirigentes de 36 empresas do FTSE 100 assinaram carta no mesmo sentido. Parte relevante do financiamento da campanha pela saída veio de investidores e gestores de fundos com capacidade de lucrar com a volatilidade. Peter Hargreaves doou £3,2 milhões. Crispin Odey doou £873 mil e teria ganho cerca de £220 milhões com operações ligadas ao resultado, segundo a imprensa britânica. A maioria do empresariado exerceu a voz e perdeu; a minoria que podia lucrar com a saída financiou o lado vencedor.
Nos Estados Unidos, em 2009, Peter Thiel escreveu que não acreditava na compatibilidade entre liberdade e democracia. Em uma década e meia, o que parecia excêntrico se materializou em investidores do Vale do Silício financiando o retorno de Donald Trump e do MAGA, hoje controlador do Partido Republicano, ao poder. Um elemento-chave do processo foi a cooptação ou a eliminação de republicanos de perfil institucionalista. No primeiro caso, Marco Rubio é o principal expoente e assumiu o Departamento de Estado; no segundo, Mitt Romney caiu em ostracismo partidário. No Brasil, João Amoêdo, ex-banqueiro e fundador do Partido Novo, talvez seja o caso mais emblemático: quem exerceu a voz foi empurrado para fora. Ele teve a filiação suspensa após declarar voto em Lula em 2022 e deixou o partido no mesmo ano. Em 2026, observou à distância o Novo usar recursos públicos na campanha e abraçar o discurso bolsonarista. Depois da eleição, o partido chegou a afirmar que o país “não é uma democracia”, e passou de 3 para 10 deputados federais.
Mais do que explicar o Brasil, a dinâmica de grupos com poder econômico que se tornam antissistêmicos revela uma ameaça global ao arranjo democrático: constroem-se partidos e bancadas e financiam-se representantes cujo projeto é contestar as regras do jogo democrático. A reação ao resultado expôs a clivagem entre quem precisa operar dentro das instituições e quem pode, ao menos verbalmente, prescindir delas. Gilberto Kassab, Antônio Rueda e Marcos Pereira cumprimentaram o presidente reeleito. Arthur Lira, eleito senador com apoio de Flávio, reconheceu a escolha dos eleitores. Até o PL, partido de Flávio, reconheceu formalmente o resultado.
A gradação dos reconhecimentos mostra o tamanho do dilema da direita. Tarcísio de Freitas afirmou que reconhecer o resultado não significa calar sobre os excessos, entre os quais citou o uso da máquina e a interferência do Judiciário. Nikolas Ferreira considerou “praticamente nula” a chance de anulação e pediu que apoiadores não fossem às ruas, mas questionou a prorrogação do horário de votação. Valdemar Costa Neto disse que ninguém no partido aprovou a carta de Flávio e resumiu: “O Flávio passou uma situação difícil, nós compreendemos, mas não aprovamos.” Em cada caso, o reconhecimento veio acompanhado de uma concessão ao ressentimento da base. A hesitação sugere que o campo ainda atribui à família Bolsonaro a capacidade de punir quem a renegar: um poder de veto que já não garante comando, mas impõe custos a quem tenta exercê-lo.
Grupos antissistêmicos crescem menos às custas dos adversários que juram combater do que dos vizinhos ideológicos
Aqui se desenha o dilema estrutural da direita democrática, entendida como os partidos e líderes à direita que reconhecem as regras do jogo e dependem delas para governar. De um lado, depende de uma base eleitoral sob veto familiar, sem a qual nenhum de seus nomes alcança viabilidade majoritária. De outro, conta com elites que, em vez de lhe oferecer contrapeso, se protegem, se autoexilam e silenciam. Sem voz aliada, a resposta predominante ao longo do ciclo 2023–2026 foi a acomodação, que reduz o custo imediato, preserva o acesso à base e evita o confronto com a família. Grupos antissistêmicos crescem menos às custas dos adversários que juram combater do que dos vizinhos ideológicos, e as urnas de 4 de outubro sugerem o preço. Em 2022, PP, União Brasil, PSD, Republicanos e MDB elegeram 230 deputados; em 2026, 207, com a perda concentrada em União-PP e MDB. No mesmo intervalo, o PL passou de 99 para 121, e PSDB e Cidadania, de 18 para 11. As 23 cadeiras perdidas pelo centro e pela centro-direita e as 22 ganhas pelo PL são da mesma ordem. A coincidência não prova causalidade, mas é compatível com a hipótese de que a acomodação ao discurso antissistema favorece quem pode viver fora das instituições, e não quem precisa governar dentro delas.
Sobreviver à direita fora do guarda-chuva Bolsonaro segue difícil. A família terá ao menos quatro mandatos em 2027, mesmo com Flávio e Eduardo fora do país: Michelle e Carlos no Senado; Jair Renan e Renato Bolsonaro, irmão de Jair, na Câmara. O quadro tende a se manter ao menos até a eleição municipal de 2028, primeiro teste do peso do sobrenome após a derrota. A família perde alguma capacidade de controle sobre a base militante, mas segue com poder de veto sobre nomes e posicionamentos sempre que lhe convém.
Exercer a voz, nos termos de Hirschman, é permanecer e negociar. Para a direita democrática e para os setores empresariais e financeiros que defenderam publicamente o resultado, isso significa abrir diálogo para uma coalizão democrática em torno das regras do jogo, e não de adesão ao governo. A troca vale para os dois lados. Seria ilusório crer em funcionalidade político-administrativa apenas com os votos de Lula e de sua coalizão eleitoral; a governabilidade exige que o governo também amplie a coalizão e faça concessões. Esse movimento, caso ocorra, depende da reversão de expectativas negativas e do abandono do aeroporto como solução. Vozes precisam se levantar para assumir os custos de aprimorar as regras e as instituições por dentro do jogo. Caso contrário, vale o aviso de John F. Kennedy às elites latino-americanas em 1962: quem torna impossível a revolução pacífica torna inevitável a revolução violenta.