quarta-feira, 4 de novembro de 2026

Livro de Heloisa Starling desvenda a engrenagem que desmontou a democracia em 1964 -Tom Farias, FSP


Em "A Máquina do Golpe: 1964, Como foi Desmontada a Democracia no Brasil", de autoria da historiadora Heloisa M. Starling e publicado pela Companhia das Letras, fica uma pergunta aterradora no ar: e se Flávio Bolsonaro, conservador e declaradamente de direita, ganhasse as eleições para a presidência da República? Onde estariam agora ele e as discussões sobre soberania e democracia?

Além da exibida arrogância e do descarado cinismo que contagiaram quase 60 milhões de eleitores, o candidato do PL defendeu abertamente a intervenção dos Estados Unidos no setor de segurança pública e na economia, dando apoio inclusive às sanções travestidas de "tarifaços" americanos, sugeriu reformar a Constituição para "redemocratizar o país", anistiar o próprio pai golpista e todos os condenados do 8/1 e, fechando a tampa, elogiou a ditadura militar e endeusou os mais notórios algozes da democracia.

Mulher de cabelos grisalhos curtos usa óculos redondos pretos e casaco escuro. Ela sorri olhando para o lado em ambiente interno com iluminação quente e estantes ao fundo.
Heloisa M. Starling durante o lançamento de "A Máquina do Golpe", em São Paulo - Ronny Santos - 20.out.26/Folhapress

Sua fragorosa derrota e a rejeição do seu mirabolante programa de governo deram no que até a Polícia Federal já esperava: sua fuga espetacular e planejada para os Estados Unidos, sob as vistas de Donald Trump, com aparato cinematográfico digno de Hollywood, na esteira da franquia "Missão Impossível", sobretudo no imperdível filme "Nação Secreta", lançado em 2015.

Deixando de parte as citações corriqueiras, o novo livro de Heloisa Starling apresenta, com uma excepcional competência ensaística, o passo a passo da engrenagem que resultou na ruptura institucional no Brasil, quando os militares, apoiados por parte significativa da sociedade civil, por empresários e por políticos, derrubaram na mão grande o governo democrático de João Goulart, sucessor de Jânio Quadros, que renunciou ao cargo em agosto de 1961, sete meses após tomar posse.

O elaborado diagnóstico escrito por Starling, além de preciso e bem documentado, tem o fulcro orgânico de uma biografia sobre o golpe militar de 1964, de certa forma inédita em nossa historiografia.

Com uma pesquisa que contextualiza fatos e versões, entremeada de sua visão experiente sobre o tema das ditaduras brasileiras, a historiadora mineira redimensiona o problema e dá amplitude ao que ela muito bem denomina "a máquina do golpe", um gigantesco aparato empresarial, militar, econômico e político, alinhado estrategicamente, à época, ao todo-poderoso embaixador americano no Brasil, Lincoln Gordon.

O livro de Starling narra os fatos a partir de uma divisão bastante interessante e didática. Abre com um capítulo intitulado "31 de Março", em que reconstitui os preparativos que culminaram na derrubada do governo João Goulart, com seus golpes e contragolpes; parte para uma narração praticamente diária dos acontecimentos até o denominado "15 de Abril", capítulo importante que abriga a fase de institucionalização e o cérebro do regime, e fecha no capítulo "13 de Junho", que marca uma espécie de desfecho do golpe: a criação do SNI (Serviço Nacional de Informações), que estava longe da propalada ideia de proteger o Estado de "ameaças externas" —o inimigo do órgão era outro.

A leitura desses oito episódios nos leva à compreensão de que, durante os 21 anos de duração da ditadura militar, esses foram os dias mais cruciais e tensos vividos pela sociedade brasileira desde "o golpe da República", em novembro de 1889, quando militares, chefiados pelo marechal Deodoro da Fonseca, derrubaram a monarquia e instituíram o primeiro governo militarizado da nação.

Ao fim e ao cabo "A Máquina do Golpe" nos traz lições amargas sobre a "vulnerabilidade" de nossa democracia, diante de ações orquestradas e criminosas. Em verdade, ela ainda não está totalmente pronta: precisa ser cuidada e protegida. Discursos de ódio, travestidos de patriotismo, tramam contra o Brasil e agem na surdina encobrindo traumas muitas vezes irreversíveis para a nação.

O homem que não quis ser ministro, Elio Gaspari, FSP

 A primeira surpresa foi a esquerda perder a timidez diante das redes sociais. A segunda foi a aceitação imediata do "Exército do Lula". Em dois dias foi de 50 mil para um milhão, e no dia do segundo turno eram 10 milhões. Obra do deputado federal André Janones, com mais uma surpresa. Ele não quer ser ministro. "Porque não desejo ser ministro? Porque não posso ter as amarras da liturgia de um cargo nem ficar preso em compromissos burocráticos!"

Janones quebrou a escrita segundo a qual o uso das redes sociais era um privilégio da direita. Ele e seu exército foram parar nas páginas do The New York Times, The Guardian e Le Monde. Seu modelo de ativismo está sendo replicado em vários países.

Ex-presidente Lula levanta o punho esquerdo e segura microfone com a mão direita em comício noturno. Ao lado, homem com camisa amarela da seleção brasileira acena com a mão direita, enquanto outros apoiadores aplaudem.
O presidente Lula (PT) celebra vitória na avenida Paulista, em São Paulo, ao lado do deputado André Janones (Rede-MG) e do vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) - Eduardo Knapp - 25.out.26/Folhapress

Quando Janones botou seu canal no ar, em abril passado, fazia-se pouca fé nele, mas a iniciativa juntou-se a um despertar do movimento estudantil. A garotada foi para a rua ecoando os caras-pintadas que ajudaram a derrubar Fernando Collor de Mello. (Vale registrar que Collor cumpre em casa uma pena de oito anos e dez meses de prisão domiciliar por corrupção.)

Combativos, jovens e mobilizados, os soldados do "Exército de Lula" ecoaram a garotada de 1968. Com uma diferença: em 1968 não existiam o celular nem a internet. A ação do "Exército do Lula" mobilizou os jovens. Desde o primeiro momento reconheceu-se a importância do exército de Janones na virada de Lula. Para surpresa geral, o deputado não quer ser ministro.

Sinal dos tempos: Ser ministro, que outrora foi o coroamento de uma carreira política, hoje, em muitos casos, é uma chatice. A Secretaria de Comunicação Social da Presidência, por exemplo. Serve para cevar caçadores de verbas publicitárias. Seu titular serve de para-raios. A educação vai mal? A Secom está trabalhando mal, como se uma coisa tivesse a ver com a outra. Se ele não promove um ministro, trabalha mal. Se promove, provoca ciúmes.

Os militantes de causas sociais perdem musculatura ao virarem ministros, veja-se o caso de Guilherme Boulos. De militante de causas populares, passou a ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência da República. Ele trabalha, mas a burocracia afoga-o.

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O senador Vitorino Freire (1908-1977) dizia que só aceitava o Ministério do Exército, pois os demais eram enfeites.

Janones ficará na Câmara e à frente de seu "Exército do Lula", a esta altura com 10 milhões de seguidores. É natural que esse número caia, mas numa emergência ele pode reaparecer. Indo-se aos primórdios, quando o PT ralava com patranhas como a do "kit gay" explorado à saciedade por Jair Bolsonaro. A quantidade de mentiras usadas na eleição de 2018 talvez nunca venha a ser superada.

O eleitorado ficou esperto e iniciativas como a do "Exército do Lula" inibem vigarices.

Janones tornou-se o símbolo da vitória de Lula 4.0. Ficaram para trás episódios nebulosos, como uma rachadinha com dois servidores. O deputado reconheceu o malfeito, fez um acordo, e devolveu R$ 131,5 mil. Sua carreira parlamentar foi bisonha. Contudo, ele mostrou que foi um inovador e que conhece o caminho das pedras.

Entre a voz e a saída - Creomar de Souza - MEIO

 

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Foto: Evaristo Sá / AFP

“Não fugi do Brasil, eu saí pelo Brasil.” A frase está na carta que Flávio Bolsonaro divulgou de Miami, três dias depois de ser derrotado por Lula no segundo turno da eleição presidencial, por 51,79% a 48,21% dos votos válidos. A primeira versão, depois reescrita, o apresentava como “verdadeiro presidente eleito”. Apesar dos reparos, permaneceu o gesto: diante de um resultado adverso, deixar o país e contestar do exterior as regras aceitas ao entrar na disputa.

O mercado reagiu de outro modo: não negou o resultado, desfez uma aposta. No pregão seguinte ao primeiro turno, com Flávio à frente, o Ibovespa subiu 7,7% e o dólar caiu 4,11%. Na segunda-feira após o segundo turno, o índice caiu 13,88%, com circuit breaker, e o dólar subiu 8,21%, a maior alta diária desde 1999. A queda mede a distância entre o que parte do mercado esperava e o que as urnas entregaram. Resta saber se a reação é pontual ou sinal de disposição de saída.

Albert Hirschman, em Saída, Voz e Lealdade, de 1970, oferece uma chave para esse comportamento, individual na origem e coletivo no impacto. Diante da deterioração de uma organização, seus membros podem sair ou exercer a voz, tentando corrigir o rumo. A lealdade e o pertencimento alimentam o esforço pela melhoria e retardam a fuga. Quando a saída é fácil, a voz se atrofia, e os primeiros a sair tendem a ser os membros mais exigentes, justamente os que mais poderiam pressionar por correção.

Diante do espetáculo de desistências, anônimas e célebres, proponho a categoria de futuropessimismo: a descrença, difundida em partes da sociedade, na capacidade de reformar coletivamente o futuro; entre os que têm meios, ela se combina à confiança de poder se proteger dele. Setores empresariais e financeiros que exibem entusiasmo com inovação e produtividade são céticos quanto a um futuro de oportunidades para parcelas amplas da sociedade. O futuropessimismo rejeita a premissa iluminista de que o progresso é um empreendimento compartilhado, sustentado por instituições que distribuem seus frutos. Para esses grupos, posições políticas viram instrumentos de proteção (diversificação de apostas, neutralidade calculada), e as instituições deixam de ser defendidas porque não parecem corrigíveis.

Esse pessimismo encontra uma sociedade descrente do pacto social, no topo e na base, e alimenta o crescimento de grupos antissistêmicos, sobretudo à direita. Segundo o Edelman Trust Barometer 2026, feito no fim de 2025 com cerca de 34 mil pessoas em 28 países, apenas 30% dos brasileiros acreditam que a próxima geração viverá melhor, e 72% hesitam em confiar em quem tem valores diferentes dos seus. A diferença de confiança nas instituições entre alta e baixa renda é de 9 pontos no Brasil; no plano global, mais que dobrou desde 2012 e chegou a 15. Na edição anterior, quatro em cada dez entrevistados no mundo aprovavam ao menos uma forma de ativismo hostil como meio de mudança; entre os jovens de 18 a 34 anos, 53%.

A maioria do empresariado exerceu a voz e perdeu; a minoria que podia lucrar com a saída financiou o lado vencedor

O Brexit mostra o que acontece quando a parcela da elite que ganha com a ruptura financia a saída. Em 2016, 80% dos membros da CBI, a principal confederação empresarial britânica, defendiam a permanência na União Europeia, e dirigentes de 36 empresas do FTSE 100 assinaram carta no mesmo sentido. Parte relevante do financiamento da campanha pela saída veio de investidores e gestores de fundos com capacidade de lucrar com a volatilidade. Peter Hargreaves doou £3,2 milhões. Crispin Odey doou £873 mil e teria ganho cerca de £220 milhões com operações ligadas ao resultado, segundo a imprensa britânica. A maioria do empresariado exerceu a voz e perdeu; a minoria que podia lucrar com a saída financiou o lado vencedor.

Nos Estados Unidos, em 2009, Peter Thiel escreveu que não acreditava na compatibilidade entre liberdade e democracia. Em uma década e meia, o que parecia excêntrico se materializou em investidores do Vale do Silício financiando o retorno de Donald Trump e do MAGA, hoje controlador do Partido Republicano, ao poder. Um elemento-chave do processo foi a cooptação ou a eliminação de republicanos de perfil institucionalista. No primeiro caso, Marco Rubio é o principal expoente e assumiu o Departamento de Estado; no segundo, Mitt Romney caiu em ostracismo partidário. No Brasil, João Amoêdo, ex-banqueiro e fundador do Partido Novo, talvez seja o caso mais emblemático: quem exerceu a voz foi empurrado para fora. Ele teve a filiação suspensa após declarar voto em Lula em 2022 e deixou o partido no mesmo ano. Em 2026, observou à distância o Novo usar recursos públicos na campanha e abraçar o discurso bolsonarista. Depois da eleição, o partido chegou a afirmar que o país “não é uma democracia”, e passou de 3 para 10 deputados federais.

Mais do que explicar o Brasil, a dinâmica de grupos com poder econômico que se tornam antissistêmicos revela uma ameaça global ao arranjo democrático: constroem-se partidos e bancadas e financiam-se representantes cujo projeto é contestar as regras do jogo democrático. A reação ao resultado expôs a clivagem entre quem precisa operar dentro das instituições e quem pode, ao menos verbalmente, prescindir delas. Gilberto Kassab, Antônio Rueda e Marcos Pereira cumprimentaram o presidente reeleito. Arthur Lira, eleito senador com apoio de Flávio, reconheceu a escolha dos eleitores. Até o PL, partido de Flávio, reconheceu formalmente o resultado.

A gradação dos reconhecimentos mostra o tamanho do dilema da direita. Tarcísio de Freitas afirmou que reconhecer o resultado não significa calar sobre os excessos, entre os quais citou o uso da máquina e a interferência do Judiciário. Nikolas Ferreira considerou “praticamente nula” a chance de anulação e pediu que apoiadores não fossem às ruas, mas questionou a prorrogação do horário de votação. Valdemar Costa Neto disse que ninguém no partido aprovou a carta de Flávio e resumiu: “O Flávio passou uma situação difícil, nós compreendemos, mas não aprovamos.” Em cada caso, o reconhecimento veio acompanhado de uma concessão ao ressentimento da base. A hesitação sugere que o campo ainda atribui à família Bolsonaro a capacidade de punir quem a renegar: um poder de veto que já não garante comando, mas impõe custos a quem tenta exercê-lo.

Grupos antissistêmicos crescem menos às custas dos adversários que juram combater do que dos vizinhos ideológicos

Aqui se desenha o dilema estrutural da direita democrática, entendida como os partidos e líderes à direita que reconhecem as regras do jogo e dependem delas para governar. De um lado, depende de uma base eleitoral sob veto familiar, sem a qual nenhum de seus nomes alcança viabilidade majoritária. De outro, conta com elites que, em vez de lhe oferecer contrapeso, se protegem, se autoexilam e silenciam. Sem voz aliada, a resposta predominante ao longo do ciclo 2023–2026 foi a acomodação, que reduz o custo imediato, preserva o acesso à base e evita o confronto com a família. Grupos antissistêmicos crescem menos às custas dos adversários que juram combater do que dos vizinhos ideológicos, e as urnas de 4 de outubro sugerem o preço. Em 2022, PP, União Brasil, PSD, Republicanos e MDB elegeram 230 deputados; em 2026, 207, com a perda concentrada em União-PP e MDB. No mesmo intervalo, o PL passou de 99 para 121, e PSDB e Cidadania, de 18 para 11. As 23 cadeiras perdidas pelo centro e pela centro-direita e as 22 ganhas pelo PL são da mesma ordem. A coincidência não prova causalidade, mas é compatível com a hipótese de que a acomodação ao discurso antissistema favorece quem pode viver fora das instituições, e não quem precisa governar dentro delas.

Sobreviver à direita fora do guarda-chuva Bolsonaro segue difícil. A família terá ao menos quatro mandatos em 2027, mesmo com Flávio e Eduardo fora do país: Michelle e Carlos no Senado; Jair Renan e Renato Bolsonaro, irmão de Jair, na Câmara. O quadro tende a se manter ao menos até a eleição municipal de 2028, primeiro teste do peso do sobrenome após a derrota. A família perde alguma capacidade de controle sobre a base militante, mas segue com poder de veto sobre nomes e posicionamentos sempre que lhe convém.

Exercer a voz, nos termos de Hirschman, é permanecer e negociar. Para a direita democrática e para os setores empresariais e financeiros que defenderam publicamente o resultado, isso significa abrir diálogo para uma coalizão democrática em torno das regras do jogo, e não de adesão ao governo. A troca vale para os dois lados. Seria ilusório crer em funcionalidade político-administrativa apenas com os votos de Lula e de sua coalizão eleitoral; a governabilidade exige que o governo também amplie a coalizão e faça concessões. Esse movimento, caso ocorra, depende da reversão de expectativas negativas e do abandono do aeroporto como solução. Vozes precisam se levantar para assumir os custos de aprimorar as regras e as instituições por dentro do jogo. Caso contrário, vale o aviso de John F. Kennedy às elites latino-americanas em 1962: quem torna impossível a revolução pacífica torna inevitável a revolução violenta.