quarta-feira, 4 de novembro de 2026

O homem que não quis ser ministro, Elio Gaspari, FSP

 A primeira surpresa foi a esquerda perder a timidez diante das redes sociais. A segunda foi a aceitação imediata do "Exército do Lula". Em dois dias foi de 50 mil para um milhão, e no dia do segundo turno eram 10 milhões. Obra do deputado federal André Janones, com mais uma surpresa. Ele não quer ser ministro. "Porque não desejo ser ministro? Porque não posso ter as amarras da liturgia de um cargo nem ficar preso em compromissos burocráticos!"

Janones quebrou a escrita segundo a qual o uso das redes sociais era um privilégio da direita. Ele e seu exército foram parar nas páginas do The New York Times, The Guardian e Le Monde. Seu modelo de ativismo está sendo replicado em vários países.

Ex-presidente Lula levanta o punho esquerdo e segura microfone com a mão direita em comício noturno. Ao lado, homem com camisa amarela da seleção brasileira acena com a mão direita, enquanto outros apoiadores aplaudem.
O presidente Lula (PT) celebra vitória na avenida Paulista, em São Paulo, ao lado do deputado André Janones (Rede-MG) e do vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) - Eduardo Knapp - 25.out.26/Folhapress

Quando Janones botou seu canal no ar, em abril passado, fazia-se pouca fé nele, mas a iniciativa juntou-se a um despertar do movimento estudantil. A garotada foi para a rua ecoando os caras-pintadas que ajudaram a derrubar Fernando Collor de Mello. (Vale registrar que Collor cumpre em casa uma pena de oito anos e dez meses de prisão domiciliar por corrupção.)

Combativos, jovens e mobilizados, os soldados do "Exército de Lula" ecoaram a garotada de 1968. Com uma diferença: em 1968 não existiam o celular nem a internet. A ação do "Exército do Lula" mobilizou os jovens. Desde o primeiro momento reconheceu-se a importância do exército de Janones na virada de Lula. Para surpresa geral, o deputado não quer ser ministro.

Sinal dos tempos: Ser ministro, que outrora foi o coroamento de uma carreira política, hoje, em muitos casos, é uma chatice. A Secretaria de Comunicação Social da Presidência, por exemplo. Serve para cevar caçadores de verbas publicitárias. Seu titular serve de para-raios. A educação vai mal? A Secom está trabalhando mal, como se uma coisa tivesse a ver com a outra. Se ele não promove um ministro, trabalha mal. Se promove, provoca ciúmes.

Os militantes de causas sociais perdem musculatura ao virarem ministros, veja-se o caso de Guilherme Boulos. De militante de causas populares, passou a ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência da República. Ele trabalha, mas a burocracia afoga-o.

PUBLICIDADE

O senador Vitorino Freire (1908-1977) dizia que só aceitava o Ministério do Exército, pois os demais eram enfeites.

Janones ficará na Câmara e à frente de seu "Exército do Lula", a esta altura com 10 milhões de seguidores. É natural que esse número caia, mas numa emergência ele pode reaparecer. Indo-se aos primórdios, quando o PT ralava com patranhas como a do "kit gay" explorado à saciedade por Jair Bolsonaro. A quantidade de mentiras usadas na eleição de 2018 talvez nunca venha a ser superada.

O eleitorado ficou esperto e iniciativas como a do "Exército do Lula" inibem vigarices.

Janones tornou-se o símbolo da vitória de Lula 4.0. Ficaram para trás episódios nebulosos, como uma rachadinha com dois servidores. O deputado reconheceu o malfeito, fez um acordo, e devolveu R$ 131,5 mil. Sua carreira parlamentar foi bisonha. Contudo, ele mostrou que foi um inovador e que conhece o caminho das pedras.

Entre a voz e a saída - Creomar de Souza - MEIO

 

featured image

Foto: Evaristo Sá / AFP

“Não fugi do Brasil, eu saí pelo Brasil.” A frase está na carta que Flávio Bolsonaro divulgou de Miami, três dias depois de ser derrotado por Lula no segundo turno da eleição presidencial, por 51,79% a 48,21% dos votos válidos. A primeira versão, depois reescrita, o apresentava como “verdadeiro presidente eleito”. Apesar dos reparos, permaneceu o gesto: diante de um resultado adverso, deixar o país e contestar do exterior as regras aceitas ao entrar na disputa.

O mercado reagiu de outro modo: não negou o resultado, desfez uma aposta. No pregão seguinte ao primeiro turno, com Flávio à frente, o Ibovespa subiu 7,7% e o dólar caiu 4,11%. Na segunda-feira após o segundo turno, o índice caiu 13,88%, com circuit breaker, e o dólar subiu 8,21%, a maior alta diária desde 1999. A queda mede a distância entre o que parte do mercado esperava e o que as urnas entregaram. Resta saber se a reação é pontual ou sinal de disposição de saída.

Albert Hirschman, em Saída, Voz e Lealdade, de 1970, oferece uma chave para esse comportamento, individual na origem e coletivo no impacto. Diante da deterioração de uma organização, seus membros podem sair ou exercer a voz, tentando corrigir o rumo. A lealdade e o pertencimento alimentam o esforço pela melhoria e retardam a fuga. Quando a saída é fácil, a voz se atrofia, e os primeiros a sair tendem a ser os membros mais exigentes, justamente os que mais poderiam pressionar por correção.

Diante do espetáculo de desistências, anônimas e célebres, proponho a categoria de futuropessimismo: a descrença, difundida em partes da sociedade, na capacidade de reformar coletivamente o futuro; entre os que têm meios, ela se combina à confiança de poder se proteger dele. Setores empresariais e financeiros que exibem entusiasmo com inovação e produtividade são céticos quanto a um futuro de oportunidades para parcelas amplas da sociedade. O futuropessimismo rejeita a premissa iluminista de que o progresso é um empreendimento compartilhado, sustentado por instituições que distribuem seus frutos. Para esses grupos, posições políticas viram instrumentos de proteção (diversificação de apostas, neutralidade calculada), e as instituições deixam de ser defendidas porque não parecem corrigíveis.

Esse pessimismo encontra uma sociedade descrente do pacto social, no topo e na base, e alimenta o crescimento de grupos antissistêmicos, sobretudo à direita. Segundo o Edelman Trust Barometer 2026, feito no fim de 2025 com cerca de 34 mil pessoas em 28 países, apenas 30% dos brasileiros acreditam que a próxima geração viverá melhor, e 72% hesitam em confiar em quem tem valores diferentes dos seus. A diferença de confiança nas instituições entre alta e baixa renda é de 9 pontos no Brasil; no plano global, mais que dobrou desde 2012 e chegou a 15. Na edição anterior, quatro em cada dez entrevistados no mundo aprovavam ao menos uma forma de ativismo hostil como meio de mudança; entre os jovens de 18 a 34 anos, 53%.

A maioria do empresariado exerceu a voz e perdeu; a minoria que podia lucrar com a saída financiou o lado vencedor

O Brexit mostra o que acontece quando a parcela da elite que ganha com a ruptura financia a saída. Em 2016, 80% dos membros da CBI, a principal confederação empresarial britânica, defendiam a permanência na União Europeia, e dirigentes de 36 empresas do FTSE 100 assinaram carta no mesmo sentido. Parte relevante do financiamento da campanha pela saída veio de investidores e gestores de fundos com capacidade de lucrar com a volatilidade. Peter Hargreaves doou £3,2 milhões. Crispin Odey doou £873 mil e teria ganho cerca de £220 milhões com operações ligadas ao resultado, segundo a imprensa britânica. A maioria do empresariado exerceu a voz e perdeu; a minoria que podia lucrar com a saída financiou o lado vencedor.

Nos Estados Unidos, em 2009, Peter Thiel escreveu que não acreditava na compatibilidade entre liberdade e democracia. Em uma década e meia, o que parecia excêntrico se materializou em investidores do Vale do Silício financiando o retorno de Donald Trump e do MAGA, hoje controlador do Partido Republicano, ao poder. Um elemento-chave do processo foi a cooptação ou a eliminação de republicanos de perfil institucionalista. No primeiro caso, Marco Rubio é o principal expoente e assumiu o Departamento de Estado; no segundo, Mitt Romney caiu em ostracismo partidário. No Brasil, João Amoêdo, ex-banqueiro e fundador do Partido Novo, talvez seja o caso mais emblemático: quem exerceu a voz foi empurrado para fora. Ele teve a filiação suspensa após declarar voto em Lula em 2022 e deixou o partido no mesmo ano. Em 2026, observou à distância o Novo usar recursos públicos na campanha e abraçar o discurso bolsonarista. Depois da eleição, o partido chegou a afirmar que o país “não é uma democracia”, e passou de 3 para 10 deputados federais.

Mais do que explicar o Brasil, a dinâmica de grupos com poder econômico que se tornam antissistêmicos revela uma ameaça global ao arranjo democrático: constroem-se partidos e bancadas e financiam-se representantes cujo projeto é contestar as regras do jogo democrático. A reação ao resultado expôs a clivagem entre quem precisa operar dentro das instituições e quem pode, ao menos verbalmente, prescindir delas. Gilberto Kassab, Antônio Rueda e Marcos Pereira cumprimentaram o presidente reeleito. Arthur Lira, eleito senador com apoio de Flávio, reconheceu a escolha dos eleitores. Até o PL, partido de Flávio, reconheceu formalmente o resultado.

A gradação dos reconhecimentos mostra o tamanho do dilema da direita. Tarcísio de Freitas afirmou que reconhecer o resultado não significa calar sobre os excessos, entre os quais citou o uso da máquina e a interferência do Judiciário. Nikolas Ferreira considerou “praticamente nula” a chance de anulação e pediu que apoiadores não fossem às ruas, mas questionou a prorrogação do horário de votação. Valdemar Costa Neto disse que ninguém no partido aprovou a carta de Flávio e resumiu: “O Flávio passou uma situação difícil, nós compreendemos, mas não aprovamos.” Em cada caso, o reconhecimento veio acompanhado de uma concessão ao ressentimento da base. A hesitação sugere que o campo ainda atribui à família Bolsonaro a capacidade de punir quem a renegar: um poder de veto que já não garante comando, mas impõe custos a quem tenta exercê-lo.

Grupos antissistêmicos crescem menos às custas dos adversários que juram combater do que dos vizinhos ideológicos

Aqui se desenha o dilema estrutural da direita democrática, entendida como os partidos e líderes à direita que reconhecem as regras do jogo e dependem delas para governar. De um lado, depende de uma base eleitoral sob veto familiar, sem a qual nenhum de seus nomes alcança viabilidade majoritária. De outro, conta com elites que, em vez de lhe oferecer contrapeso, se protegem, se autoexilam e silenciam. Sem voz aliada, a resposta predominante ao longo do ciclo 2023–2026 foi a acomodação, que reduz o custo imediato, preserva o acesso à base e evita o confronto com a família. Grupos antissistêmicos crescem menos às custas dos adversários que juram combater do que dos vizinhos ideológicos, e as urnas de 4 de outubro sugerem o preço. Em 2022, PP, União Brasil, PSD, Republicanos e MDB elegeram 230 deputados; em 2026, 207, com a perda concentrada em União-PP e MDB. No mesmo intervalo, o PL passou de 99 para 121, e PSDB e Cidadania, de 18 para 11. As 23 cadeiras perdidas pelo centro e pela centro-direita e as 22 ganhas pelo PL são da mesma ordem. A coincidência não prova causalidade, mas é compatível com a hipótese de que a acomodação ao discurso antissistema favorece quem pode viver fora das instituições, e não quem precisa governar dentro delas.

Sobreviver à direita fora do guarda-chuva Bolsonaro segue difícil. A família terá ao menos quatro mandatos em 2027, mesmo com Flávio e Eduardo fora do país: Michelle e Carlos no Senado; Jair Renan e Renato Bolsonaro, irmão de Jair, na Câmara. O quadro tende a se manter ao menos até a eleição municipal de 2028, primeiro teste do peso do sobrenome após a derrota. A família perde alguma capacidade de controle sobre a base militante, mas segue com poder de veto sobre nomes e posicionamentos sempre que lhe convém.

Exercer a voz, nos termos de Hirschman, é permanecer e negociar. Para a direita democrática e para os setores empresariais e financeiros que defenderam publicamente o resultado, isso significa abrir diálogo para uma coalizão democrática em torno das regras do jogo, e não de adesão ao governo. A troca vale para os dois lados. Seria ilusório crer em funcionalidade político-administrativa apenas com os votos de Lula e de sua coalizão eleitoral; a governabilidade exige que o governo também amplie a coalizão e faça concessões. Esse movimento, caso ocorra, depende da reversão de expectativas negativas e do abandono do aeroporto como solução. Vozes precisam se levantar para assumir os custos de aprimorar as regras e as instituições por dentro do jogo. Caso contrário, vale o aviso de John F. Kennedy às elites latino-americanas em 1962: quem torna impossível a revolução pacífica torna inevitável a revolução violenta.

A ‘vergonha diferente’ do general Tomás, que o expôs ao risco da vingança, e a sucessão no Exército, Marcelo Godoy, OESP

 Por Marcelo Godoy

Atualização:

A resposta do general Tomás que o bolsonarismo não perdoou

Capa do video - A resposta do general Tomás que o bolsonarismo não perdoou

Sessão da Comissão de Relações Exteriores e de Defesa da Câmara no qual o comandante do Exército defendeu o general Gustavo Dutra, difamado pela turma de Miami. Crédito: Reprodução / Câmara dos Deputados

A cena aconteceu em 17 de abril de 2024, no plenário da Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional da Câmara dos Deputados. Ali estavam os comandantes das três Forças e o ministro José Múcio para apresentar aos deputados suas prioridades para ano. Dois meses antes, a Polícia Federal deflagrara a Operação Tempus Veritatis, que teve como alvos de buscas Jair Bolsonaro e o general Walter Braga Netto.

O general Tomás Miguel Ribeiro de Paiva, comandante do Exército, durante a cerimônia do Dia do Soldado: a vida segue normal nos quartéis durante a crise apesar do desânimo
O general Tomás Miguel Ribeiro de Paiva, comandante do Exército, durante a cerimônia do Dia do Soldado: a vida segue normal nos quartéis durante a crise apesar do desânimo Foto: Exército Brasileiro

PUBLICIDADE

O bolsonarismo raiz, aquele homiziado em Miami, embora diga o contrário, nunca esqueceu o que se passou ali: a resposta do comandante do Exército, general Tomás Miguel Ribeiro Paiva, às diatribes lançadas por um expoente da tropa de choque bolsonarista. O então deputado e agora senador eleito Marcel van Hattem (Novo-RS) disse ter vergonha da atuação do Exército em relação ao destino dos presos por participação na tentativa de golpe de Bolsonaro.

Van Hattem dizia acreditar na inocência dos oficiais investigados e afirmava até a inocência do tenente-coronel Mauro Cid, que pouco depois firmaria um acordo de delação premiada, entregando os colegas. Pode-se discutir até hoje a verdadeira conduta de cada réu, mas não se nega mais nos quartéis a existência dos documentos, de mensagens e de depoimentos de chefes militares sobre a existência da operação psicológica contra o Alto Comando e do Plano Punhal Verde e Amarelo.

A resposta de Tomás naquele dia é dessas que entram para a história de uma instituição. Ele começou afirmando: “A gente tem vergonhas diferentes. A minha vergonha, por exemplo, é (quando) alguém não cumpre a ética militar. Estou aqui de cara lavada para falar para o senhor da ética militar: eu nunca falei uma mentira para minha tropa, meus soldados, meu pessoal, nunca falei. Nunca mudei de opinião.”

Bolsonaro foi condenado por um Conselho de Justificação do Exército justamente por mentir a respeito do plano de pôr bombas em quartéis, nos anos 1980. Foi quando Tomás chegou ao ponto alto da fala: a defesa do general Gustavo Henrique Dutra, alvo de uma operação infame. Com a ajuda do coronel Gerson Gomes, a ação buscava acusar Dutra de perfídia, como se ele tivesse entregado à PF os “patriotas” acampados em frente do QG do Exército, na noite do dia 8 para a madrugada de 9 de janeiro de 2023.

Publicidade

General Gustavo Henrique Dutra de Menezes
General Gustavo Henrique Dutra de Menezes Foto: Reprodução/Exército Brasileiro

Para lá refluíra a turma que arrasara horas antes as sedes dos Três Poderes na esperança de que o Exército viesse ao seu socorro para depor Luiz Inácio Lula da Silva e permitir a volta de Bolsonaro, então em Miami. Dutra era o comandante militar do Planalto. Nome certo para receber a quarta estrela, o general tomou a frente do dispositivo em frente ao quartel e impediu que a operação da PM para prender os “patriotas” fosse feita à noite. Evitou um banho de sangue. Os fatos daqueles dias encurtaram a carreira de Dutra, um oficial considerado brilhante pelos colegas.

imagem newsletter
newsletter
Política
As principais notícias e colunas sobre o cenário político nacional, de segunda a sexta.
Ao se cadastrar nas newsletters, você concorda com os Termos de Uso e Política de Privacidade.

E não só dele: outros pagaram o preço da ação bolsonarista, como o general Carlos Alberto Rodrigues Pimentel, então chefe do Comando de Operações Especiais, o COpEsp. Pimentel foi traído por subordinados que usaram viaturas e estrutura do comando para ações clandestinas do Plano Punhal Verde e Amarelo. Como um comandante é responsável por tudo o que acontece em sua unidade – pelo que sabe e pelo que não sabe –, Pimentel, outro oficial respeitado por todos – e amigo do governador Tarcísio de Freitas, que conhece essa história –, teve a carreira interrompida.

Tomás mostrou que era em respeito a Dutra e a Pimentel que se devia ter vergonha do que aconteceu. O comandante prosseguiu: “Sempre falei o que achava – e da maneira como achava – correto. Olhando nos olhos, eu teria vergonha de não defender o subordinado meu. Aqui, agora, foi ofendido um subordinado meu, que é o general Dutra. Parece que o general Dutra não tinha comandante; parece que ele não cumpria ordens?”

O general Carlos Alberto Rodrigues Pimentel recebe o cumprimento do general Costa neves, comandante da Amazônia, ao deixar, em 9 de dezembro de 2024, a  chefia do Centro de Coordenação de Operações (CCOp) do Comando Militar da Amazônia
O general Carlos Alberto Rodrigues Pimentel recebe o cumprimento do general Costa neves, comandante da Amazônia, ao deixar, em 9 de dezembro de 2024, a chefia do Centro de Coordenação de Operações (CCOp) do Comando Militar da Amazônia Foto: Exército Brasileiro

As diatribes bolsonaristas sempre pouparam de críticas o homem que, então, comandava o Exército naquele noite e madrugada, o general Julio César de Arruda, que chefiava Dutra e foi destituído do comando 20 dias depois por se recusar a afastar o tenente-coronel Mauro Cid. Tomás reafirmou que não sacrificaria um subordinado:

“General Dutra é um grande oficial. Agora ele tem comandante! Então, eu defendo ele, porque ele é um grande oficial, que cumpria ordens. Cumpriu a ordem: ele evitou que fosse derramado sangue naquela noite. Foi isso o que aconteceu. Eu teria vergonha de não defender o meu general”, desabafou.

Publicidade

Por fim, o comandante reafirmou a defesa da legalidade, da disciplina e da ordem. “Eu tenho vergonha de, buscando popularidade, não cumprir a lei. Disso eu tenho vergonha, de não cumprir decisão. Então, o senhor pode ficar tranquilo que, mesmo que seja impopular, mesmo que não seja o que o pessoal acha que deve ser feito, a gente vai fazer o que a gente acha que é o correto. O certo pelo certo.”

Eduardo Bolsonaro postou em sua rede social imagem com o irmão Flávio Bolsonaro com a seguinte mesangem: "Foto de hoje, após reecontrar meu irmão @flaviobolsonaro . Ontem foi um dia longo, talvez o mais longo da minha vida. Mas prevalecemos. Mesmo aqui de fora não desistiremos do Brasil. Como diria o Professor Olavo: não parar, não precipitar, não retroceder."
Eduardo Bolsonaro postou em sua rede social imagem com o irmão Flávio Bolsonaro com a seguinte mesangem: "Foto de hoje, após reecontrar meu irmão @flaviobolsonaro . Ontem foi um dia longo, talvez o mais longo da minha vida. Mas prevalecemos. Mesmo aqui de fora não desistiremos do Brasil. Como diria o Professor Olavo: não parar, não precipitar, não retroceder."  Foto: Reprodução/@bolsonarosp via Instagram

Aqui está o centro do debate. Van Hattem defendia os interesses de seu público, o bolsonarismo raiz. Seu partido é um dos dois únicos a não reconhecer o resultado da eleição que deu a Lula um quarto mandato. Eis a raiz do golpismo. Tomás defende não apenas o seu público, mas também a instituição. E, assim, sua fala é republicana, coloca todos sob o império da lei. Ser amigo de um líder político não dá imunidade a ninguém. Nem ser juiz, lição que o País espera que seja aprendida também pelo Supremo.

E como o debate daquele dia não saiu da memória da turma de Miami, Tomás foi procurado, recentemente, por um colega próximo que lhe fez um alerta: se Flávio Bolsonaro vencesse ia haver faxina no Exército. O amigo general tinha certeza de que os homiziados na Flórida não se esqueceram da vergonha que Tomás os fez passar. E ia fazer na Força Terrestre o mesmo que Eduardo Bolsonaro prometera fazer no Itamaraty, uma caça às bruxas, no estilo da promovida por Pete Hegseth nas forças americanas.

Hegseth, secretário da Guerra nomeado por Donald Trump, não passa um mês sem demitir um general, um almirante ou um brigadeiro. Submeteu os militares à humilhação de fazer testes de testosterona, afastou mulheres de postos de comando, mas foi incapaz de garantir o fornecimento de munições na guerra com o Irã. Tudo porque o general Mark Milley se recusou a não reconhecer a eleição de Joe Biden em 2020. Em nome de uma suposta ordem, desrespeita-se a lei; cria-se desordem.

Depois da derrota de Flávio, de sua fuga para os EUA e da carta em que se autoproclamou presidente eleito, o general que alertou Tomás não teve mais nenhuma dúvida sobre as perseguições futuras a militares. Em risco estariam pessoas como Richard Nunes, André Luiz Novaes, Guido Amin e Valério Stumpf. E Tomás seria afetado. Se Flávio, derrotado, foi capaz de assinar a carta que assinou, imagina – questiona o general –, se tivesse a caneta presidencial na mão?

Publicidade

Trecho do inquérito da PF no qual coronéis defendem a exoneração e a prisão de generais do Alto Comando do Exército a quem chamavam de 'melancias' por se operem ao golpe bolsonarista
Trecho do inquérito da PF no qual coronéis defendem a exoneração e a prisão de generais do Alto Comando do Exército a quem chamavam de 'melancias' por se operem ao golpe bolsonarista Foto: Reprodução / Estadão

O moço que se dizia moderado e aceitaria assessoramento, que, segundo o senador Hamilton Mourão disse à jornalista Bela Megale, não faria nenhuma vingança, despiu-se de qualquer moderação nas horas seguintes ao voto. Como se comportaria, então, diante da primeira crise de seu governo, após uma derrota no Congresso ou no STF? Ou como iria tratar o brigadeiro Carlos Baptista Junior ou o general Marco Antonio Freire Gomes, comandantes da Força Aérea e do Exército que se negaram a dar o golpe e prestaram depoimentos fundamentais para a condenação de Jair, o pai do candidato?

A imensa maioria dos generais apostava que não haveria vingança. Acreditava na “moderação” de Flávio, assim como Tarcísio. Minutos antes de Flávio divulgar sua carta, o governador foi questionado pelo Estadão: E se Flávio se autoproclamar presidente eleito? Sua resposta foi: “Isso não vai acontecer”. Aconteceu. Flávio lhe havia prometido que não questionaria o resultado das eleições. Questionou. Disse que não fugiria do país. Fugiu. Disse que Eduardo não mandaria no governo. E agora está abraçado ao 03.

A sucessão na Força

Passada a eleição, Tomás deve ser ouvido por Lula sobre sua sucessão. É o que contam dois integrantes do Alto Comando. O general adquiriu a confiança do presidente. Não está nem mesmo descartada a sua permanência no cargo, ainda que não seja por todo o quarto mandato de Lula.

Caso Tomás entenda que a sua missão – a de superar a crise que Bolsonaro criou para o Exército – foi cumprida, dois nomes despontam, nesse momento, como os principais candidatos para assumir o bastão: os generais Hertz Pires do Nascimento e Francisco Humberto Montenegro Júnior, a quem Tomás fez seu chefe do Estado-Maior mesmo não sendo o mais antigo entre os generais.

Há ainda quem lembre de Kleber Vasconcelos e de outros dois oficiais, que correm por fora. O que é certo mesmo é que todos os que se ligaram com Bolsonaro foram parar na prisão. Lá estão Augusto Heleno, Paulo Sérgio, Braga Netto e Almir Garnier. Eles não enxergaram os riscos que o “Cavalão” representava para a instituição e para si mesmos, riscos renovados pelo comportamento da turma, que vive, confortavelmente, em Miami, após receber milhões de dólares de Daniel Vorcaro, supostamente, para um filme.

Publicidade

Nesses dias, dirigentes petistas afirmaram à coluna que a vitória de Flávio seria pior do que a derrota de 1964, pois, desta vez, os “golpistas venceriam pelo voto”. Na noite de sábado, em São Paulo, dois bolsonaristas conversavam em alta voz em um supermercado, em Higienópolis, e afirmavam que “sabiam” que a “eleição foi roubada”. Inútil pedir provas... Este é o cenário de um País dividido. Tomás, permanecendo ou não, será lembrado pela defesa que fez do Exército e de seus homens em um momento difícil.