quinta-feira, 5 de novembro de 2026

Governo Lula quer levar etapa de mistura de biocombustíveis para refinarias- FSP

 O Palácio do Planalto quer que a mistura de biocombustíveis e derivados de petróleo passe a ser feita na etapa de refino, em vez da etapa de distribuição dos combustíveis.

A mudança, conforme informações obtidas pela Folha, tem previsão de ser debatida em reunião do CNPE (Conselho Nacional de Política Energética), prevista para acontecer nesta sexta-feira (6). Se confirmada, a alteração das etapas mexeria com a divisão de atividades na cadeia de abastecimento de combustíveis.

Refinaria Landulpho Alves-Mataripe (RLAM), da Petrobras, localizada no município de São Francisco do Conde (BA) - Saulo Cruz/MME

O assunto tem sido tratado com discrição dentro do governo. O objetivo é estabelecer diretrizes para que a ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis) regulamente a mistura na etapa de refino, em vez de deixar isso com as distribuidoras, como ocorre atualmente.

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Hoje, as refinarias produzem a chamada gasolina A, que ainda não contém etanol. As distribuidoras compram esse produto e adicionam etanol anidro, formando a gasolina C, que chega aos postos e aos tanques dos veículos.

Com a alteração pretendida, essa mistura poderia ocorrer antes, na refinaria. O combustível sairia dessa etapa já com o componente renovável incorporado.

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Na avaliação do governo, antecipar a mistura pode simplificar a logística e reduzir custos operacionais de transporte, armazenamento e movimentação dos produtos. Isso significa menos pressão sobre o preço do combustível, podendo até chegar à bomba dos postos, caso a vantagem seja repassada ao longo da cadeia, até o consumidor.

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Paralelamente, o governo também vê possíveis ganhos no controle de qualidade, na padronização dos combustíveis e na rastreabilidade das operações, facilitando a fiscalização.

A discussão tem antecedentes dentro do próprio governo. Em 2019, já se propunha permitir que produtores misturassem gasolina A com etanol nas plantas de refino.

No mês passado, a diretoria da ANP aprovou a retomada da restrição à comercialização de biodiesel entre distribuidoras de combustíveis líquidos por um período de 24 meses, em medida que busca ampliar a rastreabilidade do produto usado na mistura obrigatória ao diesel.

A ANP também determinou que sua área técnica apresente subsídios para uma decisão definitiva sobre o tema até o fim do prazo de 24 meses, com eventual alteração na resolução sobre o tema.

Segundo a agência, a restrição já havia vigorado entre maio de 2025 e junho de 2026 e contribuiu para reduzir inconsistências identificadas na movimentação de biodiesel. Antes da adoção da medida, a ANP registrou mais de 579 mil metros cúbicos de biodiesel sem correspondência direta com aquisições feitas junto a fornecedores entre março de 2024 e abril de 2025, volume equivalente a cerca de 5,9% do total adquirido no período.

O CNPE, caso mantenha sua reunião, deve votar outros temas, como o Plante (Plano Nacional de Transição Energética), que organiza ações para 2026–2029, e as diretrizes para elaborar o mapa de redução da dependência de combustíveis fósseis.

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A proposta prevê um grupo com Minas e Energia, Fazenda, Meio Ambiente e Casa Civil, com prazo de 270 dias, prorrogável por 90. Não há data definida para abandonar petróleo, gás ou carvão. Também está prevista a aprovação da estratégia nacional de dados energéticos para 2027–2031.

O conselho deve decidir ainda sobre a criação de grupos de trabalho para eletromobilidade e aproveitamento energético de resíduos. O primeiro discutirá infraestrutura de recarga, impactos na rede elétrica e cadeia de baterias. O segundo avaliará regras, financiamento e modelos de contratação para transformar resíduos em energia.

Nesse tema, há divergência. O Ministério do Meio Ambiente manifestou preocupação com a incineração, enquanto a Secretaria Nacional de Saneamento se posicionou contra excluir essa tecnologia dos estudos.

Também estão na pauta mudanças nas diretrizes do mercado de gás de cozinha, com reforço da rastreabilidade dos botijões, fiscalização e prevenção de fraudes e da atuação do crime organizado no contexto do Gás do Povo.

Outro item ajusta o parâmetro de uso de combustível renovável aplicado aos veículos flex no Mover (Programa Mobilidade Verde e Inovação). A área industrial pediu uma transição com índice de 24% nos dois primeiros períodos anuais de apuração e 28,7% nos três seguintes, em vez de 28,7% durante todo o período.

Alvo de operação, remédio falsificado contra o câncer tinha só sódio e cloro, mostra laudo, FSP

 Luiza Lopes

São Paulo

O Keytruda, medicamento de imunoterapia usado no tratamento de diferentes tipos de câncer, foi um dos produtos falsificados identificados pela Operação Laziosi.

Deflagrada nesta quinta-feira (5) pelo Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado) do Ministério Público do Estado de São Paulo em conjunto com a Polícia Civil, a ação investiga uma rede suspeita de comercializar medicamentos oncológicos falsificados e lavar dinheiro.

A suspeita começou no Hospital IGESP, em São Paulo, que procurou a MSD (Merck Sharp & Dohme), fabricante do remédio, para verificar a autenticidade de uma unidade comprada da distribuidora Nacionalfarma em maio de 2024.

O laboratório forense da farmacêutica recebeu o frasco em agosto daquele ano e concluiu o exame em 27 de setembro. A análise não encontrou pembrolizumabe, princípio ativo do Keytruda. No lugar dele, os testes identificaram sódio e cloro.

Embalagens do medicamento Keytruda apreendidas pelo Ministério Público de São Paulo - Ministério Público de São Paulo/Divulgação

O número de lote impresso na caixa era A101547, válido para o produto original, mas o rótulo do frasco apresentava uma sequência diferente, A1D1547. A data de validade também era inválida, com um algarismo a mais no ano: 22024.

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O frasco falsificado não tinha a tampa plástica presente no autêntico e apresentava formato diferente. A caixa era mais estreita e alta, tinha textura distinta e trazia um erro de impressão na indicação de uso adulto e pediátrico.

A bula também era diferente: em vez de dobrada, como no original, vinha em formato de livreto. Além disso, a área da embalagem que deveria revelar informações após ser raspada com um objeto metálico não apresentava nenhum dado.

À Folha a MSD lamenta o ocorrido, afirma que o uso de medicamentos falsificados coloca em risco a vida dos pacientes e diz que segue colaborando com as autoridades nas investigações e na adoção das medidas necessárias.

A reportagem procurou o IGESP por telefone e email para saber se os medicamentos suspeitos foram administrados a pacientes e quais providências foram tomadas após a identificação da falsificação.

A Nacionalfarma também foi procurada por telefone e email para explicar a origem dos produtos e as inconsistências nos registros de compra e estoque apontadas pela investigação.

Não houve retorno de nenhuma das duas instituições até a publicação deste texto.

A unidade analisada pela MSD também foi examinada posteriormente pela Polícia Científica de São Paulo. Os peritos avaliaram ainda um segundo frasco, recebido do Hospital Monte Sinai, em Juiz de Fora (MG) e também adquirido da Nacionalfarma.

As duas amostras, dos lotes A101547 e A102646, respectivamente, foram comparadas com uma unidade original, e os exames concluíram que ambas eram falsificadas —mas não afirmaram que estavam sem o princípio ativo.

A investigação também identificou 39 notas fiscais de venda de Keytruda emitidas pela Nacionalfarma entre janeiro e novembro de 2024. As operações somaram R$ 1,5 milhão e tiveram destinatários em sete estados.

Segundo a Polícia Civil, mais de 90% dos medicamentos vendidos pela empresa não tinham registro de compra correspondente nos documentos fiscais e nos controles de estoque analisados.

Como funciona o Keytruda

O pembrolizumabe bloqueia uma proteína chamada PD-1, presente nas células de defesa do organismo. Alguns tumores usam esse mecanismo para reduzir a resposta imunológica e escapar do ataque dessas células.

Ao bloquear essa interação, o medicamento ajuda o sistema imunológico a reconhecer e combater o câncer.

O remédio tem indicação para diferentes tipos de tumor, entre eles alguns casos de câncer de pulmão, mama, pele e colo do útero.

O papa Leão 14, por exemplo, passou por uma cirurgia para retirar um tumor no pulmão. Ele foi apontado como possível candidato a um tratamento com pembrolizumabe por pelo menos três anos, para reduzir o risco de a doença voltar.

O preço de fábrica no Brasil é de cerca de R$ 20,6 mil por frasco de 100 mg/4 ml, segundo a tabela da CMED (Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos). O valor efetivamente cobrado pode variar conforme as condições de compra e comercialização.

Na rede pública, o pembrolizumabe foi incorporado ao SUS (Sistema Único de Saúde) para o tratamento de pacientes com melanoma avançado não ressecável ou metastático. O acesso, portanto, não abrange automaticamente todos os tipos de câncer para os quais o medicamento tem indicação.

Em março de 2026, o Ministério da Saúde anunciou uma parceria com a MSD e o Instituto Butantan para transferência de tecnologia e produção do medicamento no país. O processo deve ocorrer gradualmente, ao longo de até dez anos.

A Conitec (Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS) também avalia a possibilidade de ampliar o acesso ao tratamento para outros tipos de câncer.