quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Neurobiologia da maconha - Drauzio Varella- FSP

 Muitos dizem que maconha é uma erva natural, inofensiva. Dizem até que não causa dependência nem apresenta efeitos colaterais. Tal benevolência não encontra respaldo na neurobiologia, tema da coluna de hoje.

O princípio ativo da maconha, o THC, exerce suas ações ao se ligar a dois tipos de receptores celulares, denominados canabinoides. Um deles, CB1, está localizado predominantemente no cérebro; o outro, CB2, no sistema imunológico, fígado, coração, músculos, pele e órgãos reprodutores.

O THC exerce sua função psicoativa quando se liga aos receptores CB1, encontrados em circuitos de neurônios envolvidos na memória (hipocampo), nas respostas emocionais (amígdala), na cognição (córtex cerebral), na motivação (sistema límbico) e na coordenação motora (cerebelo).

Em laboratório, camundongos tornados dependentes, que aprenderam a acionar alavancas para receber doses adicionais de THC, perdem o interesse em pressioná-las depois de tratados com medicamentos que bloqueiam os receptores CB1. O mesmo bloqueio em seres humanos provoca efeito semelhante.

Em uma imagem toda Sépia, vemos, de perfil, um ancião fumando um grande baseado. Ele está de olhos fechados. De sua cabeça saem linhas espirais em todas as direções. Não é possível saber se medita ou se dorme…
Libero/Folhapress

Os circuitos neuronais responsáveis pelo mecanismo de recompensa contêm receptores CB1 que respondem ao estímulo do THC, aumentando a síntese e a liberação de dopamina, neurotransmissor ligado à sensação de prazer. As concentrações de dopamina obtidas com a maconha são mais baixas do que as da cocaína, da morfina e das anfetaminas, mas a liberação é mais rápida.

A dopamina tem papel decisivo no controle da cognição, da atenção, das emoções e da motivação.

A meia-vida do THC é de duas horas. Ou seja, o organismo leva duas horas para excretar 50% da droga presente na circulação sanguínea.

A atividade do THC nos centros da memória e do controle motor modifica a função psicomotora, o controle dos movimentos, a força muscular, a velocidade das reações e a percepção do tempo —o que explica por que o usuário tem a impressão de que se passaram minutos, quando na realidade foram horas.

Uma das consequências é o comprometimento da habilidade de dirigir automóveis e de operar máquinas, especialmente em usuários ocasionais. Ocorre aumento do risco de acidentes fatais e não fatais no trânsito. Quando associada ao álcool, à cocaína e a outras drogas psicoativas, o risco é potencializado.

Experiências em animais e em seres humanos demostraram que o impacto nas funções cognitivas e psicomotoras se manifesta logo após o uso, mas pode persistir por alguns dias.

O consumo por anos ou décadas consecutivas pode comprometer a memória e a cognição, especialmente quando foi iniciado na adolescência.

Exames de imagem que avaliam o fluxo sanguíneo no tecido cerebral mostram que usuários crônicos apresentam redução da perfusão.

A ressonância magnética cerebral dos que fumam por anos consecutivos revela alterações estruturais: redução do volume do hipocampo, da amígdala, do cerebelo e do córtex frontal. É provável que essas modificações guardem relação com deficiências de memória, do processamento de emoções, da motricidade e da tomada de decisões, respectivamente. Algumas dessas anormalidades persistem por períodos variáveis, mesmo depois da abstinência.

O uso crônico provoca redução do número de receptores CB1 nos neurônios cerebrais. Em animais expostos à droga desde a puberdade, a perda é mais acentuada. A diminuição do número desses receptores, provocada pela repetição dos impactos cerebrais do THC, explica a tolerância que o usuário desenvolve com o passar do tempo e é responsável pelo aumento progressivo das doses em busca do mesmo efeito.

É por essa razão que os maconheiros mais velhos se queixam da qualidade da maconha atual. Na realidade, os teores de THC na planta hoje vendida nas ruas são cada vez mais altos.

Em adolescentes que fazem uso frequente, a capacidade de sintetizar e liberar dopamina fica comprometida, efeito colateral que explica a incidência mais alta de emoções negativas e da síndrome amotivacional encontrada entre eles.

Maconha é a droga mais consumida entre nós. Décadas de repressão só serviram para criarmos a terceira população carcerária do mundo. É fundamental ensinarmos crianças e adolescentes de que se trata de uma droga psicoativa que pode levar à dependência e causar efeitos colaterais imediatos e a longo prazo, como vamos mostrar nas próximas colunas.

A Grande Ficha, ela tem que cair- Conrado Hübner Mendes- FSP

 Nunca foi fácil realizar debate eleitoral profundo nas democracias de massa. Ainda menos em sociedades tão desiguais e diversas. A competição por votos tende a convidar a demagogia e a mentira. Fair-play é para losers.

Por isso o ideal de eleições "livres e justas", em que cidadãos se informem e façam escolhas autônomas, sempre pareceu inflacionado. Nos contentamos com regulação de campanhas, com a contagem fidedigna dos votos, a regularidade formal do processo.

E ficou muito mais difícil na última década.

Laerte

A frustração com a insegurança material que a democracia tem entregado, somado a um ambiente informacional governado por plataformas pluto-algorítmicas, só fazem turbinar as dissonâncias cognitivas, o medo do futuro e a tentação por soluções messiânicas. O voto se descolou ainda mais de fatos, da análise comparativa de políticas públicas, das soluções para angústias reais.

Laerte, em meio aos protestos de junho de 2013, publicou uma tira: "A Grande Ficha. Em algum momento... ela vai cair". Em março de 2020, início da pandemia, Laerte gritou em caixa alta nas redes: "A Ficha caiu porraaaa!!!" A metáfora expressou nossa inabilidade para entender, senão tardiamente, as causas de nossas aflições e o tamanho dos desafios coletivos.

A Grande Ficha demora a cair. É mais fácil vê-la em retrospectiva. Foi mais fácil ver em 2022 o que se temia em 2018.

A Grande Ficha continua a mostrar que a continuidade da democracia está pressionada por muitas frentes. A desigualdade, a crise climática, o crime organizado, a tensão militar, a expansão do poder corporativo sobre o poder político, a apropriação privada do bem comum, o definhamento de capacidades estatais. Projetos autocráticos não saíram do vácuo.

Nesta eleição, nenhuma candidatura tem vocação ou capacidade para entregar um Brasil digno das promessas constitucionais ou à altura dos nossos problemas. Nenhuma salva a democracia dos seus múltiplos riscos existenciais que marcam a época histórica.

Mas apenas uma candidatura está inscrita oficialmente no projeto global de autocratização. Um projeto que combate nossa liberdade individual, profissional e econômica. E busca tirar do Estado até os meios para proteger a vida, a família e a propriedade. Até mesmo as competências para viabilizar o livre-mercado de ideias, bens e serviços.

A institucionalidade pública, afinal, dificulta o projeto. A ordem pública é adversária. O servidor público imparcial é adversário. O jornalista, o cientista, o professor, o juiz íntegro são inimigos.

Essa candidatura propõe um Brasil que renuncia a qualquer pretensão à soberania territorial, financeira ou tecnológica, à soberania alimentar, mineral ou ambiental. Uma autocratização de tipo subalterno. Nela não cabe sequer a ideia de interesse nacional.

Está comprometida com privatizar o futuro. Mais precisamente, sequestra qualquer projeto coletivo e contrata futuro oligárquico.

Essa Grande Ficha, ela tem que cair. Resta saber o quão tarde e o grau de destruição e sofrimento necessários para perceber a gravidade do erro. Ou se vamos dar conta de nossa cumplicidade e elaborar visão alternativa de futuro. Futuros nunca estão inteiramente abertos, nem inteiramente fechados.

Quem é Newton Ramos, ex-juiz auxiliar de Kassio que arrastou ministro do STF para crise do Master- FSP

 Isadora Albernaz

Brasília

Apontado como integrante da "Turma do KN", o juiz federal do TRF-1 (Tribunal Regional Federal da 1ª Região) Newton Pereira Ramos Neto, 51, arrastou o ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Kassio Nunes Marques para a crise do Banco Master após uma nova leva de mensagens de Daniel Vorcaro vir à tona.

Newton é natural de São Luís e foi juiz auxiliar de Kassio quando o hoje presidente do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) ocupou a vice-presidência do TRF-1, entre 2018 e 2020. Os dois têm uma relação de amizade. Kassio nega ter autorizado terceiros a falar em seu nome.

A Folha entrou em contato com a assessoria de imprensa do STF nesta quarta-feira (23) para pedir uma manifestação a respeito da relação entre o ministro do Supremo e Newton Ramos. A nota diz apenas que Kassio conhece o juiz federal devido ao período em que trabalharam juntos no TRF-1.

O juiz federal Newton Ramos - Mathilde Missioneiro - 10.fev.23/Folhapress

Newton Ramos chegou ao tribunal onde Kassio fez carreira e é influente em 2023, quando tomou posse e passou a fazer parte da 11ª Turma do TRF-1. No colegiado, ele deu dois votos que atenderam a interesses do Banco Master em uma ação ligada à Usina Cansanção de Sinimbu entre janeiro e junho de 2024, segundo o jornal O Estado de S. Paulo.

A esposa do juiz federal, a advogada Camilla Ramos, firmou um contrato com o banco de Vorcaro seis meses depois, em dezembro de 2024, que previa honorários de até R$ 427 milhões em caso de êxito em 12 processos relacionados a precatórios do setor sucroalcooleiro. O caso foi revelado pelo Metrópoles.

Newton nega irregularidades. Ele afirmou que o caso foi analisado em bloco, em sessão virtual com cerca de outros 300 processos e que, na época do julgamento, o Master não constava como habilitado nos autos em tramitação no TRF-1. Disse ainda que, depois que isso foi feito, ele se declarou impedido.

Formado em direito pela UFMA (Universidade Federal do Maranhão), o magistrado passou antes pela Justiça de seu estado. Foi juiz federal substituto em Caxias (MA) e São Luís entre 2005 e 2006. Em 2011, passou a exercer o cargo de juiz federal titular em Imperatriz (MA). Depois, em 2013, retornou à capital.

A última função de Newton Ramos como juiz de primeira instância foi na 25ª Vara Federal do DF. Também foi procurador e juiz de direito no Maranhão.

Na área acadêmica, Newton fez doutorado em direito processual civil pela PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo) e mestrado em direito, Estado e Constituição pela UnB (Universidade de Brasília). É professor adjunto na Universidade Federal do Maranhão desde 2011. Escreveu o livro "Poderes do juiz no Processo Civil e sua conformação constitucional" (2021).

O juiz do TRF-1 também exerce influência entre seus pares e circula no meio jurídico do país, participando de eventos acadêmicos e jantares. Em 2023, por exemplo, foi a uma homenagem ao coordenador do grupo Prerrogativas, Marco Aurélio de Carvalho, organizada pelo advogado Fábio Tofic Simantob, em São Paulo.

Newton Ramos também foi palestrante em ao menos três ocasiões do Fórum de Lisboa, evento capitaneado pelo decano do STF, Gilmar Mendes, e que ficou conhecido como "Gilmarpalooza".

Em 2023, ele participou do painel "Integridade, diversidade e governança ESG: Setor privado como instrumento de políticas públicas", em uma mesa com nomes como Vinícius Marques de Carvalho, chefe da CGU (Controladoria-Geral da União). No ano seguinte, falou ao lado do ministro do STF Dias Toffoli sobre jurisdição constitucional na revisão de políticas públicas.

O magistrado ainda foi vice-presidente e presidente da Ajufer (Associação dos Juízes Federais do Brasil da 1ª Região) de 2014 a 2018.

As mensagens extraídas pela Polícia Federal do celular de Vorcaro evidenciam a proximidade entre Newton Ramos e um ministro identificado nas conversas como "KN", em uma possível referência a Kassio Nunes Marques. Há diálogos sobre viagens, hospedagens, o "nível" das bebidas alcoólicas oferecidas a eles e até sobre o esquema de segurança do magistrado.

Em uma das conversas, Newton é citado diversas vezes em uma articulação do dono do Master para bancar a estadia de "KN" em uma mansão com aluguel de R$ 1,45 milhão, no Joá, bairro de luxo no Rio de Janeiro, para o Carnaval de 2025. A informação foi divulgada pelo Metrópoles.

A advogada Camilla Ramos confirmou a hospedagem com o marido na casa oferecida por Vorcaro "sem qualquer contrapartida, vínculo comercial ou interesse profissional". Ela disse ter prestado serviços para o Master e criado uma relação pessoal com o ex-banqueiro. A nota não cita a possível presença de Kassio.

O presidente do TSE afirma que nunca trocou mensagens com Daniel Vorcaro nem pediu nada a ele.

Outro documento indica que o ministro do Supremo pegou um avião da Prime Aviation, empresa que tinha o dono do Master como um dos sócios, para Maceió. A viagem para a capital alagoana foi organizada e paga pela esposa do juiz federal do TRF-1 para comemorar o aniversário da mulher, de acordo com Kassio.

A atuação de Camilla Ramos, que faz parte do escritório Queiroga, Vieira, Queiroz & Ramos Advocacia, também se tornou central nas últimas revelações sobre o Master. Além do contrato milionário, a advogada tem visitado Vorcaro com frequência na prisão, como mostrou a coluna Mônica Bergamo.

De acordo com os relatos, as visitas de Camilla a Vorcaro são diferentes das de outros advogados, com encontros privados entre eles. Outros defensores afirmam ser evidente que ela trata de informações sensíveis e sigilosas.

A assessoria da banca afirma que Camilla vai à prisão atualizar o ex-banqueiro do andamento de ações bilionárias movidas pelo Master contra a União. O banco foi liquidado e não está mais sob a administração dele.