A última boa nova sobre o arquiteto Francisco de Paula Ramos de Azevedo (1851-1928) é a imediata restauração de um de seus prédios. Ele fica na rua Roberto Simonsen, 97, bem perto do Pateo do Collegio, no centro de São Paulo.
É uma esplêndida construção que ficou esquecida e abandonada por muitas décadas. Nem se tinha certeza de que se tratava de um projeto de sua lavra. Agora, o empresário Allan Ruiz, que o adquiriu recentemente, promete dar vida a ele e pretende transformá-lo em um espaço cultural.
O legado de Ramos de Azevedo é inestimável, não se esgota e ainda guarda esse tipo de surpresa. Seu escritório na rua Boa Vista, onde chegaram a atuar cerca de 500 funcionários, teve uma impressionante atividade justamente quando São Paulo começava a se transformar em uma metrópole. Esse trabalho arquitetônico foi decisivo para definir a paisagem da cidade cem anos atrás.
O incrível é que São Paulo passou por uma transformação devastadora de lá para cá, mas muitos de seus projetos sobreviveram e hoje compõem uma boa parte do patrimônio histórico da região central. Seguem de pé para serem admirados e cultuados.
Essa resistência deve-se à solidez, imponência e beleza de suas obras. Projetadas em estilo eclético com forte influência francesa e clássica, tinham escala palaciana e foram erguidas para durar, com técnicas construtivas avançadas, materiais de excelente qualidade e mão de obra qualificada, frequentemente formada no Liceu de Artes e Ofícios, dirigido por ele. Outra razão para essa permanência centenária é que muitas foram feitas para uso público, uma garantia de continuidade da utilização e ocupação ao longo do tempo.
Na sua época, Ramos de Azevedo foi uma espécie de arquiteto oficial da cidade. Todos queriam seus projetos. Sua lista de construções emblemáticas começa no Theatro Municipal, passa pelo próprio Liceu de Artes e Ofícios (atual Pinacoteca) e chega em construções como o Palácio das Indústrias, o Mercadão, o Arquivo Municipal (prédio que leva seu nome), o Palácio dos Correios, o Palácio da Justiça, o Batalhão Tobias de Aguiar, o colégio Caetano de Campos, o Hospital do Juquery e a Faculdade de Medicina da USP.
Entre 1886 e 1928, Ramos de Azevedo realizou mais de 30 grandes projetos no centro da São Paulo. Seu escritório ganhou inúmeras licitações e, inclusive, conquistou muitas obras em Campinas, terra de sua família onde ele cresceu e começou na profissão, depois de se formar em Gante, na Bélgica. Também fez alguns trabalhos em outras cidades, como Santos e Rio de Janeiro.
Seu escritório projetou dezenas de residências luxuosas para membros da elite cafeeira, sendo responsável por mais de dez mansões na avenida Paulista. A que restou foi a Casa das Rosas. Seu toque de gênio também pode ser admirado nos casarões Santos Dumont, na rua Cleveland, e da Don'Anna, na rua Guainases, ambos nos Campos Elíseos.
O palacete amarelo agora revelado na rua Roberto Simonsen foi projetado em 1916 para abrigar a Sociedade de Medicina e Cirurgia de São Paulo e a Policlínica, que ocuparam o local até 1939, quando uma crise financeira as abalou.
Desde então teve diversos proprietários, até deixar de ter uso contínuo. Passou por pelo menos uma restauração da fachada, mas precisa ser recuperado. O Conpresp (Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo) tombou o imóvel em 2015.
Prova do grande interesse que Ramos de Azevedo desperta na população foi uma visita guiada ao prédio promovida pelo canal @area.central.sp no último sábado (25). Mais de 500 pessoas participaram. E se maravilharam com o que viram.









