quinta-feira, 2 de julho de 2026

Urbia negocia devolver concessão de parque da Cantareira e Horto Florestal, em SP, FSP

 

São Paulo

Quatro anos depois, a Urbia discute com o governo do Estado a possibilidade de rompimento do contrato de concessão por 30 anos dos parques estaduais da Cantareira e Alberto Löfgren (Horto Florestal e áreas do entorno). Os espaços estão localizados na zona norte da cidade de São Paulo e em Mairiporã, na região metropolitana.

A negociação foi confirmada à Folha pelo secretário estadual de Parcerias em Investimentos, Rafael Benini. Segundo ele, a Urbia sinalizou insatisfação e vontade de romper a concessão.

Ele ainda afirmou que a concessionária permanecerá responsável pelos parques ao menos até a assinatura de eventual contrato com uma nova concessionária. Também disse que será feito cálculo sobre possível indenização.

Vista aérea mostra parque com lago cercado por árvores densas em área urbana. Casa branca com telhado vermelho está em primeiro plano, com prédios ao fundo.
Vista geral do Horto Florestal; parque integra contrato de concessão assinado em 2022 - Eduardo Knapp - 18.set.21/Folhapress

Em nota remetida à reportagem no fim da tarde, a Urbia respondeu que mantém diálogo com o governo sobre o futuro do contrato. Apontou que há tratativas que avaliam "diferentes possibilidades", entre elas eventual relicitação ou repactuação contratual.

"Neste momento, não há definição final sobre a solução que será adotada", destacou. Além disso, a concessionária apontou que cumpre integralmente suas obrigações contratuais, com a continuidade da operação e da prestação dos serviços aos visitantes.

Resolução no Diário Oficial desta quinta-feira (2) autoriza que "eventual relicitação" dos dois parques seja incluída no Programa de Parcerias e Investimentos do Estado. A decisão foi tomada em maio, durante reunião com o Conselho Diretor do Programa Estadual de Desestatização e o Conselho Gestor de Parcerias Público–Privadas.

Também no fim da tarde desta quinta, a Secretaria de Parcerias em Investimentos enviou nota na qual reforça a avaliação de eventual relicitação ou repactuação contratual. Além disso, afirmou que a prioridade do governo é a garantia da continuidade dos serviços, da preservação ambiental, da manutenção dos equipamentos e do uso público dos espaços.

Urbia tentou renegociar contrato em 2024

A insatisfação da concessionária com os resultados não é de agora. Em setembro de 2024, por exemplo, teve pedido de reequilíbrio econômico-financeiro do contrato negado pela Arsesp (Agência Reguladora de Serviços Públicos do Estado de São Paulo).

O argumento apresentado pela Urbia à época foi a necessidade de recompor a "frustração das expectativas" em relação à demanda de visitação e aos custos operacionais. Já a Arsesp considerou que os riscos da concessão estão previstos no contrato.

Desde que assumiu os espaços, em 2022, a concessionária recebe críticas de parte do público. A principal insatisfação envolve o valor dos ingressos do parque da Cantareira: a entrada hoje custa de R$ 30 (meia) a R$ 60.

Pela concessão, a Urbia precisou pagar R$ 851 mil, além de aceitar obrigações contratuais avaliadas em R$ 56,7 milhões. A receita então estimada pelo governo era de R$ 882,1 milhões, a partir de 2029.

O contrato abrange apenas as áreas de uso público, o que representa cerca de 3,6% do total dos dois parques. Os espaços integram reserva de mata atlântica, no "cinturão verde" de São Paulo.

Entre as obrigações, está a operação de sistema de transporte interno pago até o mirante da Pedra Grande, principal cartão-postal da Cantareira. Outras exigências incluem a entrega de novo mirante e do restauro do Palácio de Verão (antiga residência de veraneio de governadores, dos anos 1930) até 2027.

A Urbia é a mesma concessionária responsável pelo parque do Ibirapuera e outros cinco parques municipais (Jacintho Alberto, Eucaliptos, Tenente Brigadeiro Faria Lima, Lajeado e Jardim Felicidade).

Prefeitura inaugura praça em último endereço ocupado pela Cracolândia: ‘Não vão voltar mais’, OESP

 A Prefeitura de São Paulo inaugurou nesta terça-feira, 1.º, uma praça localizada entre as ruas dos Protestantes e General Couto Magalhães, último endereço ocupado pela Cracolândia, aglomeração de usuários de drogas cravada por três décadas no centro da capital. A cerimônia ocorreu pouco mais de um ano após o esvaziamento do chamado “fluxo” de dependentes químicos, que até maio do ano passado concentrava-se por ali.

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“Estamos hoje devolvendo para a cidade de São Paulo um espaço que era ocupado pelos traficantes e pela malandragem, que não vão voltar mais”, disse o prefeito Ricardo Nunes (MDB). A inauguração da chamada Praça do Triunfo, que conta inclusive com quadra e academia ao ar livre, recebeu investimento de cerca de R$ 2,5 milhões.

Além do prefeito, a cerimônia de inauguração contou ainda com a presença do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), que destacou as ações integradas para intensificar as internações e coibir o tráfico na região, incluindo as ações para acabar com uma espécie de “ecossistema” do Primeiro Comando da Capital (PCC) na região. “A Praça do Triunfo significa muito, significa a vitória sobre uma chaga de mais de 30 anos”, disse.

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Efeitos do 'fim' da Cracolândia

Capa do video - Efeitos do 'fim' da Cracolândia

Um ano após esvaziamento do fluxo, apreensão cai nas regiões de Campos Elíseos e Santa Ifigênia, mas sobe em bairros vizinhos em São Paulo. Crédito: Gráficos: Lucas Keske e William Brizola/Edição: Andressa Brito

Como mostrou levantamento recente do Estadão, as apreensões de crack caíram pela metade no centro após o esvaziamento da Cracolândia, em redução puxada pelas regiões de Campos Elíseos e Santa Ifigênia, últimos endereços do fluxo. Ao mesmo tempo, mais do que dobraram na Sé e na Consolação.

Prefeitura inaugura praça em último endereço ocupado pela Cracolândia, na Santa Ifigênia, centro de São Paulo.
Prefeitura inaugura praça em último endereço ocupado pela Cracolândia, na Santa Ifigênia, centro de São Paulo. Foto: Divulgação/Prefeitura de São Paulo

Pesquisadores afirmam que os dados reforçam a necessidade de um trabalho continuado e a percepção de uma possível migração de usuários para outros pontos, como a Praça 14 Bis, na Avenida Nove de Julho, e os arredores da Baixada do Glicério e do Parque Dom Pedro II, perto da Avenida do Estado. Moradores relatam novas aglomerações também em áreas como o entorno da Comunidade de Gato, perto da Marginal do Tietê, e a Avenida Roberto Marinho, na zona sul.

A gestão estadual nega que tenha havido dispersão e atribui as altas a esforços crescentes contra o tráfico, enquanto a Prefeitura fala em avanços “evidentes e incontestáveis” nos últimos meses. Balanço do governo do Estado aponta que mais de 34 mil encaminhamentos já foram feitos pelo Hub de Cuidados com Crack e Outras Drogas, “repaginação” do Centro de Referência de Álcool, Tabaco e Outras Drogas (Cratod).

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Aglomeração de usuários de droga na Rua General Rondon, nos arredores da Praça Princesa Isabel.
Aglomeração de usuários de droga na Rua General Rondon, nos arredores da Praça Princesa Isabel. Foto: Taba Benedicto/Estadão - 06/05/26

Segundo o governador, após o esvaziamento, as gestões estadual e municipal têm intensificado os “braços de assistência” de saúde e assistência social também em outras regiões. “Para que a gente não permita mais ter aglomeração de dependentes químicos sem que eles sejam encaminhados para um tratamento, sem que eles tenham uma porta”, disse.

Tarcísio ressaltou que a inauguração da praça se dá em um contexto de melhorias na região para receber o novo centro administrativo, com investimento estimado de cerca de R$ 5 bilhões. “A gente tinha que resgatar a autoestima dos comerciantes daqui”, afirmou durante a cerimônia. “Daqui a alguns anos, o centro de São Paulo vai ser absolutamente diferente.”

Como mostrou recentemente o Estadão, um ano após o esvaziamento do fluxo, os roubos e furtos caíram na região onde a aglomeração de dependentes químicos permaneceu por décadas, apontam dados da Secretaria da Segurança Pública do Estado (SSP). Comerciantes da região reconhecem que houve melhoras, mas queixam-se da falta de clientela.

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Dono de comércio mira lojas vizinhos com anúncios de "aluga-se" na região de Santa Ifigênia.
Dono de comércio mira lojas vizinhos com anúncios de "aluga-se" na região de Santa Ifigênia. Foto: Taba Benedicto/Estadão - 29/04/26

Moradora da Rua dos Gusmões, Mônica Macedo, de 48 anos, foi surpreendida com a inauguração da Praça do Triunfo quando passava por ali. O primeiro instinto foi tirar o celular do bolso e gravar um vídeo para mandar no grupo do condomínio. “No prédio tem muita criança, adolescente, e eles só ficam numa quadra menor, um pedacinho. Tenho um filho de 12 anos que vai adorar que agora tem quadra aqui”, disse à reportagem.

“Agora não tem mais essa de ficar pulando no prédio, discutindo com irmão. Vou falar: ‘vai para a quadra’”, comentou outra mãe, que assistia à movimentação intensa de crianças pela quadra. A única ponderação, disse ela, é que podiam ter mais equipamentos na academia ao ar livre para adultos.

Praça conta com quadra poliesportiva; investimento foi de R$ 2,5 milhões.
Praça conta com quadra poliesportiva; investimento foi de R$ 2,5 milhões. Foto: Divulgação/Prefeitura de São Paulo

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Conforme a Prefeitura, a praça foi implantada por meio da parceria público-privada (PPP) municipal da habitação para inaugurar um conjunto de intervenções destinadas a requalificar uma área estratégica da região central. A obra foi realizada pela Secretaria Municipal de Habitação (Sehab) e pela Companhia Metropolitana de Habitação de São Paulo (Cohab-SP).

A gestão municipal acrescentou que, na mesma quadra, que antes possuía instalações do Teatro de Contêiner, será construído também um empreendimento com 97 unidades habitacionais, três unidades comerciais e novos espaços públicos de lazer, desenvolvido em parceria entre município e Estado, com previsão de início das obras em novembro de 2026.

Musculação reprograma células do fígado e ajuda a reverter danos da obesidade, Agência Fapesp

 Maria Fernanda Ziegler | Agência FAPESP – Estudo desenvolvido na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) mostra que os benefícios da musculação vão além do ganho de músculos e da perda de gordura. Em experimentos com camundongos, os pesquisadores observaram que o treinamento de força induz uma verdadeira reprogramação molecular no fígado. A descoberta ajuda a entender como a prática modula o funcionamento do genoma para mitigar a doença hepática esteatótica – condição caracterizada pelo acúmulo de gordura no órgão e intimamente ligada ao surgimento do diabetes tipo 2.

“Queríamos entender como algo que ocorre nos músculos poderia interferir e beneficiar um problema no fígado. Para isso, fomos investigar o cerne do metabolismo, que é o nosso DNA. O objetivo foi compreender como a obesidade agride esse DNA e, depois, como a musculação consegue protegê-lo”, relata Leandro Pereira de Moura, professor da Faculdade de Ciências Aplicadas (FCA-Unicamp) e coordenador da pesquisa, em entrevista à Agência FAPESP.

Os resultados do estudo, apoiado pela FAPESP, foram divulgados em novembro na revista Life Sciences.

Para descobrir como o trabalho muscular impacta o fígado, a pesquisa focou na epigenética. Essa área da ciência avalia de que forma fatores externos – como hábitos de vida e condições ambientais – alteram o funcionamento dos genes sem modificar o código do DNA.

Um dos fenômenos epigenéticos mais estudados é a metilação do DNA. Ela consiste na adição de uma molécula química (o grupo metil) na chamada região promotora do gene, que funciona como o “botão de ligar”. Essa marcação química atua como uma barreira física que torna o gene menos acessível para as enzimas da célula, inibindo a sua atividade.

Nos experimentos com roedores, os pesquisadores verificaram que oito semanas de musculação foram suficientes para alterar a metilação do gene MTCH2 (homólogo 2 do transportador mitocondrial), que está fortemente envolvido na forma como o fígado processa e utiliza a energia.

Como explica Moura, a obesidade obriga o fígado a trabalhar em um ambiente tóxico. O excesso de gordura se acumula nos hepatócitos – as principais células do fígado –, desencadeando uma inflamação crônica e falhas nas mitocôndrias, que são as "usinas de energia" celulares. O fígado busca se regenerar, mas, sem energia suficiente, esse processo falha. O tecido sadio vai sendo substituído por tecido cicatricial (fibrose) em um processo que destrói aos poucos a função do órgão. É nesse cenário de estresse extremo que o corpo desregula o funcionamento do gene MTCH2, acelerando ainda mais a progressão da doença.

Nos experimentos com os camundongos treinados, os cientistas observaram algo intrigante: embora as células do fígado até emitissem o comando genético (RNA mensageiro) para ativar o MTCH2, a quantidade final da proteína ligada a esse gene diminuiu. Segundo Moura, isso ocorre porque a musculação devolveu a capacidade energética ao órgão e reduziu a inflamação. Ao perceber que o ambiente não era mais tóxico, o organismo desligou o "modo de emergência". Sem o estresse celular e os sinais de autodestruição, o próprio corpo bloqueou as etapas finais de formação dessa proteína.

Resistência à insulina

Um dos papéis do fígado é ajudar a manter estável o nível de açúcar no sangue (glicemia) para garantir o funcionamento de todos os órgãos, principalmente do cérebro. Sob o comando da insulina, o fígado armazena o açúcar excedente logo após as refeições na forma de glicogênio; já nos períodos de jejum, ele libera essa reserva de volta na corrente sanguínea. Em condições normais, a insulina funciona como um mensageiro que avisa o fígado para parar de liberar glicose quando o corpo já está abastecido. Mas quando o órgão está sufocado pela gordura e inflamado, ele desenvolve resistência à insulina, ou seja, fica “surdo” a esse aviso e continua mandando açúcar para a circulação. Um dos achados da pesquisa é que, nos roedores obesos que praticaram treinamento de força, o fígado recuperou a sensibilidade à insulina.

Os resultados também indicam que a atividade física inibiu a ação de enzimas que causam a fibrose e o crescimento celular desordenado. E impulsionou a produção de ATP5, proteína essencial para a geração de energia mitocondrial. “Com energia abundante, as células saem do estado de alerta e deixam de ativar o gene MTCH2, favorecendo a regeneração do tecido”, resume Moura. “Levantar pesos fortalece não só os músculos, mas também controla como o DNA do fígado funciona.”

O artigo Epigenetically modulated MTCH2 and regulated ATP5 in the liver of obese mice subjected to strength training pode ser lido em: sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0024320525007416.