domingo, 25 de janeiro de 2026

Caso Master passou de fraude bancária a uma crua exposição de condutas impróprias, Elio Gaspari -FSP

 A intervenção do Banco Central em instituições de crédito sempre foi novela de um só capítulo. Nos casos dos bancos Econômico, Nacional e Bamerindus, os auditores iam lá, arrolavam os malfeitos e, aos poucos, o caso sumia.

quebra do Master e de Daniel Vorcaro inovou, como se fossem duas as histórias.

Uma é a das fraudes, que podem afetar 1,6 milhão de credores, num montante de R$ 41 bilhões. Segundo o ministro Fernando Haddad, o Master pode vir a ser "a maior fraude bancária" da História do país.

A outra é o que parece ser uma operação para abafar as conexões de Vorcaro e a balbúrdia que se estabeleceu no Judiciário. O ministro Dias Toffoli baixou uma ordem de sigilo nas investigações.

Fachada de vidro de agência do Banco Master com logo azul e branco e nome em letras metálicas fixadas na parede externa.
Fachada da sede do Banco Master em São Paulo - Rafaela Araújo - 29.dez.2025/Folhapress

Determinou que a Polícia Federal só avançasse nos seus trabalhos depois de obter sua autorização. Finalmente, resolveu que quatro peritos, por ele indicados, tivessem acesso às provas guardadas nos computadores e nos celulares dos investigados. Toffoli foi defendido pelo presidente do tribunal, que considerou "regular" sua atuação.

Somaram-se episódios girafescos. A mulher do ministro Alexandre de Moraes tinha um contrato milionário para serviços advocatícios. Noutra ponta, Toffoli foi ao Peru ver uma partida de futebol no jatinho de um empresário amigo, em companhia de um advogado de um diretor do Master.

O juiz Paulo Fernando de Britto Feitoza, do Tribunal de Justiça do Amazonas, mandou retirar do ar reportagem publicada pela Folha sobre processo de análise do Incra a respeito de projeto de crédito de estoque de carbono que tem como investidores parentes de Vorcaro.

O que era uma fraude bancária tornou-se uma crua exposição das condutas impróprias e erráticas de magistrados. No olho desse furacão, está a galeria de conexões do banqueiro Daniel Vorcaro.

O Banco Central interveio em 1995 nos bancos Econômico e Nacional. O Econômico era do ex-ministro da Indústria durante a Ditadura Ângelo Calmon de Sá, filho de uma família cujas conexões com o poder remontavam ao tempo do Império. Numa de suas salas, guardava numa pasta listas com doações a políticos.

O Nacional pertencia aos filhos de José de Magalhães Pinto, ex-governador de Minas e ex-ministro das Relações Exteriores. Um de seus diretores, José Luiz de Magalhães Lins (1929-2023), foi um arquivo vivo do poder em Pindorama. Nos dois casos, as investigações pararam ao chegar às conexões dos bancos com o andar de cima.

No caso do Master, a coisa foi diferente. Daniel Vorcaro é neto de um imigrante italiano, seu pai nunca foi ministro nem governador. Ele entrou para o mundo financeiro em 2018 e quebrou sete anos depois. Foi Vorcaro quem teceu a rede de conexões do Master.

Audacioso, oferecia eventos, parcerias, negócios e empréstimos a poderosos deste século. Na queda, viu-se amparado, mas teve contra ele as investigações da Polícia Federal, que foi mantida ao largo nos casos do Econômico e do Nacional.

Abafar o caso do Banco Master tornou-se um empreendimento arriscado: brigar com polícia pode ser um mau negócio e brigar com a Federal é certamente uma péssima ideia.

O caso do Master está ainda no meio do caminho. A primeira metade, a das fraudes, toca um disco velho. A do abafa toca um disco novo e ainda está na segunda faixa.

Madame Natasha

Madame Natasha coleciona discursos e votos do ministro Edson Fachin. A senhora resolveu conceder-lhe uma de suas bolsas de estudo pela seguinte frase: "É induvidoso que todos se submetem à lei, inclusive a própria Corte Constitucional; nada obstante, é preciso afirmar com clareza: o Supremo Tribunal Federal não se curva a ameaças ou intimidações".

Como o doutor não mencionou quem ameaça o Tribunal, poderia ter dito apenas o seguinte: "O Supremo não se curva".

Leia outros trechos da coluna

Álvaro Machado Dias - Intelectuais em declínio, FSP

 

Harvard cortou 60% das vagas de doutorado em ciências humanas. Chicago pausou admissões em história da arte, estudos de cinema, literatura comparada e mais de uma dúzia de outros programas. Brown suspendeu-as em seis departamentos de humanidades. Em Plymouth, a administração planeja fundir artes, literatura e áreas afins numa coisa só. A lista cresce a cada semana. A universidade americana está se sinificando rapidamente.

A referência é o 15º Plano Quinquenal, que faz da inovação científica e tecnológica o "elemento central" no projeto de tornar a China a principal economia do mundo até 2035 e posiciona a educação como meio a serviço desse fim. Mais de 20% dos programas acadêmicos foram reestruturados nos últimos dois anos, priorizando IA, semicondutores e ciências, gerando uma relação de 4-1 entre Stem e formação humanística, considerada ruim para o país por pesquisadores do banco central local.

A imagem mostra um edifício universitário de tijolos vermelhos com janelas circulares e uma entrada central. No topo do edifício, há uma cúpula branca com uma torre. À frente, há um gramado bem cuidado com árvores ao redor e postes de luz. O céu está parcialmente nublado, com algumas nuvens visíveis.
Campus da Universidade Harvard em Cambridge, Massachusetts, nos Estados Unidos - Faith Ninivaggi - 15.abr.25/Reuters

Trump, invocando Calígula, foi além. Cancelou 1.400 bolsas, demitiu 65% dos funcionários públicos federais ligados às humanas e redirecionou o dinheiro para um jardim de estátuas de heróis americanos. As duas grandes potências chegaram a mais um consenso: a universidade técnica é bem mais fácil de domesticar do que a universidade crítica.

Esses fatores institucionais, porém, não esgotam o diagnóstico. O intelectual não está apenas sob ataque, muitas vezes, na forma de fogo amigo. Está perdendo retorno. Plataformas digitais recompensam presença contínua e opinião rápida —não reflexão acumulada— e em ambientes governados pela atenção, profundidade vira desvantagem.

Tom Nichols chamou isso de morte social da expertise. Não é coincidência que 55% dos jovens obtenham notícias de TikTok e Instagram, não de fontes tradicionais, nem que livros de não-ficção tenham registrado em 2024 a pior venda da série histórica no Reino Unido.

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É nesse cenário que a IA atua como fator de transição. Sistemas conversacionais aprendem, sintetizam e argumentam. Para um jovem de 18 anos, apostar que quatro anos de formação intelectual produzirão vantagem analítica sobre algoritmos erigidos a prioridades nacionais, cujo QI cresce mais rápido do que o de uma criança, tornou-se objetivamente arriscado.

O cálculo é individual, não ideológico, e é reforçado tacitamente pelo fato de que a máquina responde a uma demanda clássica do pensamento humanístico: a curiosidade difusa sobre o mundo, a moral e o sentido das coisas.

Mais do que um psicólogo de bolso, o que se vê é a IA se desdobrar em verbetes ad hoc e filosofia simples sob demanda. Isso é poderoso em uma época em que não faltam livros, mas tempo social para as ideias que exigem duração.

Desde o século 18, o ocidente ancora seu diferencial na formação de intelectuais, isto é, de uma classe média improdutiva que reclama de tudo e vez ou outra tem uma ideia genial. Sua vitalidade sempre esteve atrelada ao apetite para investir em ideias antes da execução e é possível que a IA seja a última grande invenção dessa Era, ao deslocar a disputa pela hegemonia planetária para um terreno mais propício a sistemas capazes de alinhar esforço coletivo em torno de objetivos explícitos, com menor tolerância às idiossincrasias reflexivas.

Quando pensar deixa de gerar retorno, não é o pensamento que desaparece. É o intelectual.