quarta-feira, 3 de junho de 2026

NÃO EXISTE WI-FI GRÁTIS - THE INTERCEPT- Brasil

 Dados pessoais de quem se conecta em pontos de Wi-Fi público na cidade de São Paulo podem ser usados para o disparo em massa de mensagens, inclusive com fins eleitorais. É o que revelam documentos obtidos pelo Intercept Brasil sobre o contrato milionário firmado entre a prefeitura administrada por Ricardo Nunes, do MDB, e a ONG Instituto Conhecer Brasil, o ICB.

A organização, que venceu uma licitação em junho de 2024 sem experiência prévia com Wi-Fi, é comandada por Karina Ferreira da Gama, dona da Go Up Entertainment e produtora executiva do filme “Dark Horse”, a cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro.

O Intercept apurou que, após firmar um contrato de R$ 108 milhões com a Prefeitura de São Paulo, o ICB contratou uma empresa terceirizada chamada Talk Communications, por cerca de R$ 2,7 milhões, para realizar disparos em massa de mensagens e “marketing digital” visando a promoção do serviço. 

Embora o contrato não cite o termo “disparos em massa”, o acordo firmado pelo ICB com a Talk incluía a realização de 12 campanhas com volume estimado de 675.505 mensagens em cada uma delas, o que equivaleria a 8,1 milhões de disparos – a cidade de São Paulo tem 11,4 milhões de habitantes, segundo o Censo de 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o IBGE. 

A contratação de serviços adicionais como o envio de mensagens promocionais contraria os termos do edital de licitação, que veda o uso do dinheiro para uma finalidade diferente do objeto do contrato – a implantação e operação dos pontos de Wi-Fi. Também não há qualquer menção sobre envio de mensagens e ações de “marketing promocional” no plano de trabalho apresentado pelo ICB à prefeitura.

Além disso, o uso de dados pessoais de quem se conecta ao serviço de Wi-Fi público na capital paulista para fins como o envio de mensagens promocionais viola a Lei Geral de Proteção de Dados, a LGPD – uma vez que sequer há termo de consentimento sobre isso quando o usuário se conecta – e o próprio edital de licitação. Também configura um potencial descumprimento do Marco Civil da Internet e da própria legislação eleitoral, já que o contrato estava em vigor durante a eleição de 2024. 

ICB firmou contrato com Talk Communications para ‘envio de mensagens promocionais’ (Foto: Reprodução)

O possível disparo de mensagens pode ter sido usado para fins eleitorais porque, como é exigido do usuário o número do celular para se conectar ao Wi-Fi, isso significa que o ICB tinha acesso a este dado e, conforme o contrato firmado com a Talk Communications, a entidade se comprometeu a “fornecer os contatos” para o uso em campanhas de marketing via WhatsApp ou SMS para promover o serviço de Wi-Fi – uma iniciativa da gestão de Nunes, que concorria à reeleição. 

Ou seja, na prática a subcontratação da empresa terceirizada significa que dinheiro público do município de São Paulo não teria sido usado apenas para garantir a instalação dos pontos de Wi-Fi e o acesso à conexão de internet, mas também para fazer propaganda de uma ação da gestão do prefeito enquanto ele era candidato. 

Fazer propaganda eleitoral com o uso de disparos em massa de mensagens instantâneas sem o consentimento da pessoa destinatária é proibido por uma resolução de 2019 do Tribunal Superior Eleitoral, o TSE. Uma minirreforma eleitoral aprovada na Câmara em maio deste ano quer mudar este entendimento — mas ainda falta aval do Senado.

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O contrato entre a prefeitura e a ONG comandada por Karina Ferreira da Gama já vem sendo investigado pelas autoridades por outras razões. Na segunda-feira, 1º de junho, o ICB foi alvo de uma operação da Polícia Civil que apura possível fraude no contrato do Wi-Fi e se o dinheiro do contrato milionário foi desviado para a produção do filme “Dark Horse”. 

Em maio deste ano, o Intercept revelou com exclusividade que o senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro, do PL do Rio de Janeiro, negociou com Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, R$ 134 milhões para custear o filme sobre Jair Bolsonaro.

Vale destacar que a Talk Communications já havia sido contratada pelo governo federal na gestão do ex-presidente Bolsonaro para fazer monitoramento ativo de casos de Covid-19. O valor do contrato foi de R$ 46,8 milhões, dos quais R$ 22 milhões foram efetivamente pagos entre julho de 2020 e março de 2021, segundo dados do Portal da Transparência.

O Intercept procurou o ICB, de Karina Ferreira da Gama, mas não houve retorno até a publicação desta reportagem. Se houver resposta, o texto será atualizado. A Talk Communications informou, em nota, que não houve compartilhamento de dados do Wi-Fi e que o serviço prestado corresponde ao contrato firmado. Ainda acrescentou que desconhece os termos do edital por ter sido contratada diretamente pelo ICB.

Nós procuramos a Prefeitura de São Paulo, mas não houve resposta. Em nota enviada após a publicação da reportagem, a Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia, a Smit, disse que “desconhece qualquer compartilhamento de dados pessoais” dos usuários do Wi-Fi Livre para “finalidade externa à própria utilização do serviço” e que “eventuais análises sobre conformidade contratual dependem da apuração de fatos concretos”.

Também destacou que apontamentos ao edital feitos pelo Tribunal de Contas do Município, o TCMSP, “foram totalmente sanados à época” e que a gestão de Ricardo Nunes “vem exercendo a fiscalização do Termo de Cooperação assinado com a Organização da Sociedade Civil, zelando pelo adequado cumprimento”.

Compartilhamento ilegal de dados de usuários

A subcontratação da Talk para fins de marketing ocorreu em julho de 2024, um mês após o ICB firmar o contrato milionário para implantar o Wi-Fi Livre. Na época, a Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia, a Smit, pasta responsável pelo acordo com a ONG, era comandada pelo deputado federal Bruno Lima, do Podemos de São Paulo.

Procurado pelo Intercept, o deputado Bruno Lima disse que não teve “conhecimento de qualquer compartilhamento irregular de dados pessoais na execução do contrato” e informou que a orientação da Smit sempre foi que “os contratos fossem executados em estrita observância ao edital, ao contrato e à legislação aplicável”. Leia aqui a íntegra da resposta do ex-secretário.

Especialistas ouvidos pelo Intercept afirmam, entretanto, que a contratação de serviços como “marketing promocional” fere as regras do edital de licitação, que veda “a utilização dos recursos repassados pela PMSP/SMIT em finalidade diversa da estabelecida no(a) projeto/atividade a que se refere este instrumento”.

“É muito grave. É a prefeitura contratando uma empresa para fazer conexão à internet de forma gratuita, mas, na realidade, ao que tudo indica, para coletar dados de forma ilegal. Ainda há grande possibilidade de estar também violando a lei eleitoral no que diz respeito aos processos de propaganda eleitoral”, explica ao Intercept a advogada Flávia Lefèvre, especialista em direitos digitais e telecomunicações e membro do Conselho do Instituto Nupef.

‘Essa questão de marketing digital via WhatsApp é totalmente fora do escopo do contrato’.

“É evidente que o objeto do contrato com a Talk não tem nada a ver com o objeto do edital, que é para instalar pontos para fazer conexão de Wi-Fi. Essa questão de marketing digital via WhatsApp é totalmente fora do escopo do contrato e é proibido pelo próprio contrato”, acrescentou Lefèvre, que analisou o contrato e o edital. 

Em dezembro passado, o Intercept revelou em primeira mão que o ICB havia recebido R$ 108 milhões da Prefeitura de São Paulo, dos quais R$ 26 milhões foram transferidos sem que o serviço fosse prestado: dos 5 mil pontos acordados, só 3.200 foram instalados – a maioria durante a campanha eleitoral de 2024. 

O plano de trabalho original, celebrado entre prefeitura e ICB, previa que a instalação dos roteadores só começaria em janeiro de 2025. Mas o cronograma foi alterado. No segundo turno das eleições, no fim de outubro, 1.605 pontos já estavam ativos. Com Nunes reeleito, o ritmo de instalações desacelerou, atingindo 3,2 mil pontos em junho de 2025. 

Em troca da antecipação durante a campanha eleitoral, a gestão Nunes acordou com a ONG antecipar o pagamento do fornecimento de internet para antes do efetivo serviço e considerar o total de 3,2 mil pontos, estabelecendo junho de 2024 como data-base. 

ICB também subcontratou empresas para outros serviços

Sem experiência no ramo de telecomunicações, o ICB subcontratou sete empresas para executarem os serviços de implantação do Wi-Fi Livre. Os maiores contratos somam R$ 98 milhões. O mais caro, de R$ 36 milhões, foi assinado com uma empresa chamada Make One e é relacionado à locação de equipamentos – na prestação de contas, consta que R$ 18 milhões foram efetivamente pagos só em 2024.

Já o contrato com a Talk Communications, prestação de serviços de campanha de marketing digital via WhatsApp ou SMS “visando a promoção do programa WiFi Livre SP”, previa um pagamento total de cerca de R$ 2,7 milhões.

Extratos bancários do ICB, aos quais o Intercept teve acesso, mostram que ao menos R$ 798 mil foram transferidos pela ONG a empresas identificadas como Talk Communica ou Talk TC.

O acordo previa que caberia à Talk Communications fornecer contatos para campanhas com cidadãos e moradores. Mas, no contrato, o ICB também se comprometeu a fornecer os contatos de usuários do serviço para as campanhas – ou seja, de pessoas que usaram o Wi-Fi Livre.

Isso também indica que, a partir da operação do Wi-Fi, o ICB tem em seu poder uma base de dados massiva de números de celulares de moradores de São Paulo que poderia ser utilizada em campanhas. 

Em contrato com a Talk, ICB se compromete a “fornecer os contatos para as campanhas” (Foto: Reprodução)

Apesar disso, em nenhum momento o usuário que acessa a rede pública é informado ou questionado se dá consentimento para que seu número seja usado para esse ou qualquer outro fim – e isso viola expressamente o que prevê a Lei Geral de Proteção de Dados brasileira. 

Na avaliação da advogada Flávia Lefèvre, esse cenário é uma dupla violação: a empresa contratada pela prefeitura não só está indevidamente coletando dados como também está repassando esses dados a terceiros para uma finalidade que extrapola o contrato.

Além da Talk, há outra subcontratação firmada pelo ICB, em julho de 2024, que extrapola a finalidade do edital e prevê o compartilhamento indevido de dados de usuários. Por R$ 5 milhões, o ICB contratou um instituto de pesquisa chamado Orbis para serviços de pesquisa de satisfação com usuários. Extratos bancários mostram que ao menos R$ 1,5 milhão foram pagos. 

Segundo o contrato, ao qual o Intercept teve acesso, caberia ao ICB, na figura de contratante, fornecer os contatos dos usuários do serviço para a realização das entrevistas para a pesquisa de satisfação. 

No acordo com a Orbis, ICB também se compromete a “fornecer os contatos dos usuários” (Foto: Reprodução)

Nós procuramos a Orbis para comentar sobre o acordo firmado com a ONG comandada por Karina Ferreira da Gama, mas não houve resposta até a publicação desta reportagem. O espaço segue aberto.

Tribunal de Contas alertou sobre problemas no edital

Em um relatório preliminar de acompanhamento de edital datado de abril de 2024, o Tribunal de Contas do Município, o TCMSP, identificou ao menos 20 irregularidades no edital de contratação para a operação do sistema de Wi-Fi e recomendou pelo não-prosseguimento do processo.

Uma das irregularidades dizia respeito à “ausência de especificação de forma objetiva das disposições necessárias no tocante à proteção de dados pessoais exigidas” pela LGPD. 

Após as pontuações feitas pelo TCMSP, a Smit modificou o edital e incluiu menções aos dispositivos da LGPD, como a proibição de que os dados obtidos pudessem ser usados para outras finalidades que não as que justificaram seu acesso. 

Outra mudança no edital foi impedir o compartilhamento dos dados obtidos com terceiros “fora das hipóteses permitidas em lei”. As correções satisfizeram o TCMSP, que não fez mais observações.

Embora o edital tenha sido ajustado para seguir as recomendações do TCMSP, isso não foi cumprido na prática. Afinal, mesmo com a proibição expressa nas regras do acordo que firmou com a prefeitura, o ICB assinou contratos com ao menos duas empresas terceirizadas que previam o compartilhamento de dados de usuários.

Procurado pelo Intercept, o TCMSP confirmou que há um processo em tramitação no tribunal envolvendo o edital do Wi-Fi Livre, aberto antes da etapa de seleção da entidade que assumiu o contrato, e que existem “apontamentos” ainda “em tramitação” para “futura apreciação e decisão de mérito”.

O órgão ainda destacou que, diante das notícias sobre o caso veiculadas nos últimos dias, determinou que a prefeitura envie com urgência “informações sobre a execução do contrato, para instruir processo fiscalizatório que também será submetido ao Plenário”.

Atualização:
2 de junho, 18h14
O texto foi atualizado para incluir o posicionamento da Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia, a Smit, da Prefeitura de São Paulo, que foi enviado após a publicação da reportagem.

Na CVM, desmonte da agenda ESG e climática começou há um ano - UOL

 (Atualizada para corrigir a informação de que apenas sob o atual governo o ex-presidente da CVM, João Pedro Nascimento, encampou a transição verde da economia. Essa orientação existiu desde a sua posse, em 2022)


O mercado de capitais brasileiro foi ... - Leia mais em: https://capitalreset.uol.com.br/regulacao/na-cvm-desmonte-da-agenda-esg-e-climatica-comecou-ha-um-ano/?utm_source=substack&utm_medium=email



(Atualizada para corrigir a informação de que apenas sob o atual governo o ex-presidente da

CVM, João Pedro Nascimento, encampou a transição verde da economia. Essa orientação

existiu desde a sua posse, em 2022)



O mercado de capitais brasileiro foi surpreendido pela decisão da Comissão de Valores

Mobiliários (CVM), anunciada na noite de sexta-feira, de revogar a obrigatoriedade dos

reportes financeiros relacionados à sustentabilidade e ao clima, IFRS S1 e S2, que haviam

entrado em vigor este ano.

Considerada um retrocesso, a medida não é um fato isolado. Representa o ápice de um

desmonte da agenda ESG e climática na CVM, que começou a se desenhar há pelo menos

um ano, contrariando os desígnios do Ministério da Fazenda, ao qual a autarquia se vincula.

Pressão política, mudança de comando e troca de quadros pavimentaram o caminho dessa

volta atrás.

Ao menos publicamente, os sinais começaram a aparecer no dia 8 de julho do ano passado,

na Câmara dos Deputados.

Naquele dia, o então presidente da autarquia, João Pedro Barroso do Nascimento,

compareceu a uma audiência pública na Comissão de Relações Exteriores e de Defesa

Nacional para a qual foi convocado pelo deputado Filipe Barros (PL/PR), presidente da

comissão, para responder sobre “os riscos à soberania econômica decorrentes da atual

estrutura regulatória do mercado de capitais”.


Durante boa parte da uma hora e meia de audiência, Nascimento foi duramente pressionado

por conta de uma suposta agenda ESG ideológica e de origem estrangeira adotada por ele à

frente da CVM.


‘Submissão ideológica’


André Fernandes (PL/CE) quis saber, por exemplo, como a CVM respondia à crítica de que

impunha uma agenda identitária que estaria deslocando mérito e competência técnica em

favor de aspectos demográficos, chegando a se referir a uma “submissão ideológica”.

Fausto Pinato, do União Brasil, foi na mesma linha e questionou se o regulador considerava

“legítimo atuar como promotor indireto de critérios identitários e ideológicos para composição

de conselhos [de administração] sem base legal aprovada pelo Legislativo”.


Nascimento reiterou várias vezes que a CVM seria “agnóstica” em relação ao tema

diversidade e afirmou que a pressão de fundos estrangeiros para adoção de critérios ESG

pelas empresas era decisão do investidor, não da CVM.


Onze dias depois, em 19 de julho, Nascimento renunciou ao cargo dois anos antes do fim do

seu mandato, alegando motivos pessoais. Segundo reportagens, ele vinha sofrendo

intimidações por conta do caso do Banco Master.


Futuro verde para a CVM


Amigo de infância de Flávio Bolsonaro, João Pedro Nascimento havia sido indicado para

presidir a autarquia em 2022, no governo Bolsonaro, com respaldo do PL. Desde o início do

mandato, passou a afirmar que o futuro do mercado de capitais brasileiro era “verde e

digital”.

No seu mandato foi editada a resolução 193, que criou a obrigatoriedade do reporte

financeiro de sustentabilidade e clima.


Foi também sob sua gestão que a então responsável pela Superintendência de Proteção e

Orientação a Investidores (SOI), Nathalie Vidual, ganhou amplo espaço para estruturar a

agenda de finanças sustentáveis na CVM.


“Ele passou a ser acusado de ter traído os ideais liberais que o colocaram no cargo e perdeu

o apoio do PL, que havia bancado sua indicação. Ao mesmo tempo, nunca foi acolhido pela

esquerda, que o olhava com desconfiança”, diz uma pessoa que acompanhou todo o

processo de perto. “Depois da saída dele, a agenda foi ladeira abaixo.”

Otto Lobo, que acaba de ser indicado para presidir a CVM, na ocasião assumiu interinamente

a presidência da autarquia por ser o diretor mais antigo, deixando o órgão em dezembro,

quando terminou seu mandato como diretor. Foi substituído na presidência da autarquia por

João Acioly.

Liberalização

Tanto Lobo quanto Acioly também haviam sido nomeados diretores da CVM por Bolsonaro,

em 2021 e 2022, e sempre se posicionaram a favor da desregulamentação do mercado de

capitais e de forma contrária à agenda ESG, considerada ideológica por ambos. “O Otto Lobo

é devoto das novas posições da SEC americana, sob Trump, em relação a clima e

sustentabilidade”, diz um observador próximo de suas manifestações. Na sexta, enquanto a

CVM derrubava a 193 por aqui, o regulador do mercado de capitais americano oficializou a

proposta para acabar com a obrigatoriedade de reporte de riscos climáticos. “Acioly é

consistentemente contrário à agenda ESG”, diz outro interlocutor.

Depois da saída de João Pedro Nascimento da presidência, a vítima seguinte foi Nathalie

Vidual, que vinha trabalhando em sintonia com ele e com o Plano de Transição Ecológica do

Ministério da Fazenda.

Em dezembro, ela pediu para deixar a CVM e assumiu o posto de coordenadora-geral de

registro e infraestrutura de mercado na Secretaria Extraordinária do Mercado de Carbono,

comandada por Cristina Reis.

Em seu lugar, assumiu como superintendente da SOI José Alexandre Vasco, indicado por

Lobo.

No apagar das luzes de 2025 começou a se desenhar o golpe contra a resolução 193 que se

concretizou na última sexta.

Na reta final de dezembro, a Abrasca pediu o fim da obrigatoriedade dos novos reportes

de sustentabilidade. Na ocasião, organizações como Amec e Ibracon saíram em defesa da norma, dizendo que seu abandono seria um retrocesso.

Em fevereiro, a CVM reafirmou que a resolução seria mantida e não haveria mudança nos

prazos.

Reunião extraordinária

Mas o tema não foi esquecido. A reunião do colegiado da CVM ocorrida no dia 27 de maio e

que enterrou a obrigatoriedade dos reportes foi convocada de forma extraordinária pelo

presidente interino João Acioly no último dia 20, mesmo dia em que o nome de Otto Lobo foi

aprovado pelo Senado para presidir o órgão.

A área técnica da autarquia, a Superintendência de Normas Contábeis, já havia desenhado

uma proposta de faseamento para a entrada em vigor da norma, visando amenizar seu peso

para companhias abertas de menor porte e, com isso, contemplar parte dos pleitos de parte

do mercado.

Mas, na reunião da semana passada, uma outra proposta também foi colocada em votação e

terminou aprovada: aquela que revogou completamente a obrigatoriedade e tornou

voluntários os reportes climáticos e de sustentabilidade. O único voto contrário, num

colegiado desfalcado, foi da diretora Marina Copola.

A indicação do presidente Lula, em janeiro, para que Otto Lobo assumisse a presidência da

CVM foi vista como uma derrota para o então ministro da Fazenda, Fernando Haddad, e uma

vitória para forças do Senado, que o apoiavam. Enquanto liderou a autarquia interinamente

no segundo semestre do ano passado, sua atuação beneficiou o Banco Master em ao menos

duas ocasiões. Nos bastidores, especula-se que a derrubada da 193 tenha feito parte da

negociação para a aprovação do seu nome pelos senadores.

terça-feira, 2 de junho de 2026

Mentiras patriotas dos Bolsonaro tomam tiros na Segunda Guerra do Pix, FSP

 Os Bolsonaro acabaram do lado errado da Segunda Guerra do Pix, até por não terem escrúpulos, mentirem sem parar e não se importarem de explodir o que estiver no caminho deles até o poder ou na rota de fuga da polícia. Como jamais se sabe que tipo de informação sairá do filtro lunático, ignaro e odiento das redes sociais, é difícil dar chute informado sobre o efeito desta lambança dos Bolsonaro na eleição. Mas o risco aumentou.

Segunda Guerra: a direita propagandeava em janeiro de 2025 que Luiz Inácio Lula da Silva cobraria imposto sobre o pix, como se sabe. A campanha ajudou a ferir de modo duradouro a popularidade do presidente —inflação, bobagem fiscal e pânico financeiro ajudaram então a fazer o resto do serviço.

Lula viria a recuperar uns pontos de prestígio nas pesquisas a partir de julho de 2025, quando Eduardo Bolsonaro fez campanha para Donald Trump prejudicar empresas brasileiras, o "tarifaço", comemorado por Flávio. Pode dar errado de novo. Guerra do Pix serve de nome curto para uma disputa eleitoral que envolve ainda a bandeira verde-amarela: quem é patriota?

Flávio Bolsonaro, pré-candidato à presidência, durante evento em Curitiba - Rodolfo Buhrer - 29.mai.26/Reuters

Flávio foi aos EUA pegar carona em medidas antibrasileiras do governo Trump. Fantasiou-se de inimigo do terror das facções PCC e CV, agora "terroristas", segundo os americanos. Quando tentava fugir da cena da sabotagem com um butim de campanha eleitoral, foi pego no contrapé pela ameaça de novo "tarifaço". Pior, a queixa contra o pix está logo no início da exposição de motivos do Representante Comercial dos EUA (USTR), cínica, mas que em parte não está errada, o que no caso é irrelevante. Para juntar lambança à picaretagem, Flávio disse nesta terça que "é mentira que o pix está ameaçado. Não tem absolutamente nada a ver o meio de pagamento com isso tudo". Se está ameaçado, sabe-se lá. Tudo é possível no mundo de Trump, menos a decência. Mas o pix está lá, no alto do livro de reclamações, por obra do lobby de "big techs" e de parte da finança dos EUA.

Como se não bastasse, Marco Rubio, secretário de Estado dos EUA, chefe da política externa, disse ao Senado deles, também nesta terça, que o Brasil, assim como Cuba, Venezuela, Nicarágua e Colômbia, não é amigo dos EUA. De resto, Flávio veio a aparecer apenas agora naquela foto de papagaio de pirata com Trump, quando foi tratar de "terrorismo" e tentar disfarçar o escândalo de sua fraternidade com o Master Daniel Vorcaro.

O risco de danos para a economia brasileira e o sentido geral das ameaças americanas ficaram, neste primeiro momento, meio perdidos no tiroteio. Se substituir as tarifas vigentes, um tarifaço de 25% melhora a situação de empresas exportadoras, ora sujeitas a impostos maiores (40%, 50%), e o saldo comercial; se somado aos impostos de agora, é tiro na testa.

Ironias da situação também ficaram escondidas. Um dos pretextos da ameaça do USTR é a exportação brasileira de madeira, carne, soja e milho oriundos de área de desmatamento ilegal, queixa idêntica à da União Europeia. O agro se congratulou com a vitória de Bolsonaro Primeiro, o Golpista, e seu projeto de desmontar a legislação e a fiscalização ambientais. E então?

Por último, por ora, note-se que a ala trumpista liderada por Rubio, antiesquerdista ferrabrás, quer endurecer o jogo com o Brasil. Mostrou de novo que quer submissão, projeto geral de Trump; comércio é arma imperial explícita como não o era fazia um século.