quarta-feira, 7 de outubro de 2026

Maria Hermínia Tavares - A metamorfose das direitas- FSP

 O exercício da Presidência não assegurou a Lula a mesma porcentagem de eleitores que lhe entregou as chaves do Palácio do Planalto há quatro anos. A diferença entre o número de votos recebidos por Lula e Flávio Bolsonaro é muito próxima da que levou o presidente ao segundo turno contra o pai do candidato do PL. Apenas inverteram-se as posições de chegada.

Entre 2022 e agora, o líder petista perdeu eleitores em todo o país. Usando dados preliminares do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), o cientista político Marco Faganello (CPESP-FGV) mostrou que a sangria foi de 3,4 milhões de votos, espalhados por 98% dos municípios brasileiros. Praticamente todos, exceto as capitais dos estados.

Diante desse quadro, muitos passaram a falar numa avalanche da direita. Se ocorreu, porém, faltou combinar com o Congresso. Ali, o PT e os pequenos partidos de esquerda conservaram praticamente o mesmo total de cadeiras. Na Câmara de 2022, o PT tinha 65; na próxima legislatura passará a ocupar 70.

O PSOL ganhou um representante; o PSB perdeu dois; o PDT quatro; e o PCdoB ficou sem nada. No Senado, o PT continuará com nove, o PSB foi de seis para quatro, o PDT perdeu um senador e a Rede manteve seu único representante. Em suma, no Legislativo, as esquerdas, PT à frente, continuaram em minoria, como sempre.

A mudança significativa, embora não sendo uma avalanche, ocorreu no território das forças de direita. Especialmente nas duas casas, em virtude do notável crescimento do PL; por outro lado, minguaram tanto a centro direita (MDB e PSDB) quanto a direta pragmática (PSD, União Brasil, PP e Republicanos). A destra, aliás, sempre dominou o Congresso —mesmo quando, em seu segundo mandato, Lula quase alcançou a unanimidade junto à opinião pública. De fato, a composição do Legislativo espelha o Brasil real, conservador ou reacionário, mas sempre meio tosco; aquele país que a elite brasileira urbana e educada tem dificuldade de enxergar.

A ascensão do PL, transformado em legenda do bolsonarismo, vai consolidando a liderança da extrema direita. Ela não só expressa a vontade dos eleitores como resulta de uma escolha das elites partidárias.

Foi delas a decisão de aceitar, tacitamente, a imposição da candidatura do filho ungido pelo pai e de não apostar seriamente em alternativas promissoras —e mais moderadas. Houve cálculo político nessa escolha.

A vitória de Bolsonaro em 2018 deu aos partidos de direita a possibilidade de disputar eleições presidenciais com um candidato próprio, dotado de apelo popular e capacidade de mobilização de seguidores nas ruas e nas redes. Apelo popular forte o suficiente para indicar um sucessor, no caso de mesmo sobrenome. Esse o charme do populismo de extrema direita, que sempre faltou às raposas do centrão.

Em seu livro mais recente, "O País Dividido", o cientista político Jairo Nicolau sugere a possibilidade de o PL, ocupado pela ultradireita, tornar-se um partido com mais corpo e ideologia que as legendas que servem à ambição eleitoral dos políticos de direita. É uma possibilidade real, especialmente se o segundo turno presidencial consagrar o herdeiro do presidente golpista.

terça-feira, 6 de outubro de 2026

Onde foi que a direita errou?, Joel Pinheiro da Fonseca- FSP

 Depois da avalanche bolsonarista de domingo, não faltarão análises esmiuçando cada um dos erros da esquerda. As célebres palavras de Mano Brown serão repetidas à exaustão. Não tenho como contribuir com essa empreitada. Quero, ao contrário, olhar para o meu lado, e me perguntar: onde foi que a direita errou?

Não falo, é claro, da direita bolsonarista. Essa está justificadamente eufórica, tendo não só batido a esquerda como também tirado um bom naco do poder do centrão. Os problemas só virão em 2027. Caso vençam em 25 de outubro, é claro.

Pessoa em cabine de votação da Justiça Eleitoral dentro de sala de aula. Cabine branca com aviso para desligar celular, quadro negro ao fundo e carteiras escolares ao lado.
Cabine de votação em escola na zona oeste de São Paulo neste domingo - Rafaela Araújo/Folhapress

Estou pensando na minha direita, a direita liberal, a centro-direita, que defendia economia moderna, instituições sólidas e independentes, e liberdade nos costumes. A esquerda está reduzida, mas aguerrida. Essa direita deixou de existir.

Uma sociedade em que todos sejam livres para viver segundo seus próprios valores, que premia o mérito e que fornece a todos as oportunidades para desenvolver seu potencial. Em que a ciência e o livre debate são valorizados, bem como a diversidade dos modos de vida e das crenças, vista como algo desejável em si. Era mais ou menos esse o ideal de sociedade de uma direita liberal que agora parece que se perdeu.

Ela se definia antes de tudo em oposição ao petismo. O petismo que aparelhava instituições, que fazia chantagem moral, que manipulava as massas com discurso populista e emocional, negando a primazia da argumentação racional.

Instituições independentes, democracia liberal, império da lei, igualdade de oportunidades, políticas públicas baseadas em evidências. Por incrível que pareça, esses valores abstratos —que para mim são traços centrais de uma sociedade justa e digna— não arrastam as multidões. Era um tipo de pensamento político, enfim, de uma parcela esclarecida da elite (ou que assim se via), representado principalmente pelo PSDB, e que, hoje sabemos, só conseguia o apoio de uma parcela expressiva da população enquanto a comunicação e as narrativas da sociedade eram determinadas pelas elites.

O que podemos aprender de domingo? A primeira lição é a centralidade das redes sociais. Disso, vem a primazia dos líderes personalistas sobre os partidos, algo que a própria dinâmica das redes favorece. Nelas, o posicionamento impessoal das instituições não chega longe; as pessoas se relacionam com outras pessoas. Grandes puxadores de voto fizeram bancadas. Nomes mais independentes ou apagados ficaram de fora.

A segunda é a opção pelo conflito. Nikolas Ferreira, Lucas Pavanato, Eduarda Campopiano, família Bolsonaro. Quando penso neles, a primeira coisa que me vem à mente não é responsabilidade fiscal, e sim o gosto pela guerra. Apoiar cada um deles, repetir suas frases polêmicas, é já um ato de enfrentamento. Eles próprios pintam a política como o palco de uma guerra espiritual.

Algumas dessas lições até são aplicáveis a uma direita moderada. Mas se, para você, o objetivo da política é uma sociedade que funcione para todos, quem será seu inimigo numa guerra santa? Se a impessoalidade é um valor das instituições, como encarná-la em influencers? Como celebrar a diversidade de modos de vida se o povo clama por uma verdade divina?