Cresci entre mulheres. Femininas, fortes, emancipadas. Os homens da casa, coitados, tentavam acompanhar o ritmo. Eram os primeiros a levantar a bandeira branca, ofegantes e derrotados.
Agora que penso nelas, imagino que ficariam horrorizadas com certos discursos contemporâneos sobre as mulheres —muitos deles produzidos pelas próprias mulheres. Discursos que oscilam entre a rendição reacionária e o vitimismo mais absurdo. Exagero?
Não creio. A autora Zoe Strimpel também não. Ela escreveu um dos livros do ano, "Good Slut: How Money, Sex and Power Set Women Free", e está sendo crucificada dos dois lados da trincheira.
Strimpel não vive na Lua. A violência contra mulheres, a discriminação e a desigualdade existem e persistem.
Mas o ponto de Strimpel é outro: existe um fosso entre o discurso de desastre sobre a condição feminina e a realidade de oportunidades, direitos e justiça relativa que hoje se apresenta às mulheres em boa parte do Ocidente.
Alguns dirão: é precisamente porque as portas se abriram que os obstáculos que restam doem mais. É possível. Mas uma coisa é apontar os obstáculos; outra é jurar que a casa está pegando fogo até os alicerces.
Historicamente falando, houve algum outro período em que tantas mulheres tiveram mais direitos, mais educação, mais oportunidades profissionais e mais autonomia sexual?
Se houve, Strimpel não conhece. Eu também não. Mas a nova onda reacionária imagina que sim: lá atrás, em algum passado mítico, nossas avós e bisavós teriam vivido em plenitude, alcançando orgasmos múltiplos enquanto limpavam a casa e cuidavam dos filhos.
Há até uma tendência na internet —as "tradwives", encenações de uma domesticidade kitsch— que tenta recuperar esse passado. O "desempoderamento tornou-se empoderamento", escreve Strimpel, resumindo a contradição.
Sem surpresa, a revolução sexual é vista como a principal culpada pelo apocalipse feminino. A pílula e uma nova ética de disponibilidade e experimentação teriam beneficiado apenas os homens, promíscuos por natureza?
Eu diria que beneficiaram ambos, talvez com uma vantagem histórica para as mulheres. Afinal, quando uma noite terminava em gravidez, era quase sempre a mesma pessoa que pagava a conta inteira. Sozinha.
De resto, se existem abusos masculinos, a responsabilidade pertence aos homens que os cometem, não à liberdade adquirida pelas mulheres. Culpar a revolução sexual pelo comportamento abusivo de alguns homens é uma forma canhestra de desculpá-los.
Certas correntes do feminismo de esquerda repetem vícios de pensamento semelhantes. A ideia já não é fechar as mulheres na cozinha, mas esmagá-las sob o peso de um patriarcado onipotente e onipresente, como se os países ocidentais fossem teocracias islâmicas.
Bombardear as mulheres, sobretudo as mais jovens, com mensagens de vulnerabilidade, perigo e sofrimento generalizado é uma estranha forma de progressismo. Onde está a coragem? Onde está a ousadia?
Obviamente, não estão.
Algumas das autoras que Strimpel contesta culpam o próprio sistema capitalista, que teria seduzido as mulheres com promessas de emancipação econômica.
Segundo esse argumento, a "proletarização" das mulheres representa uma punição dupla: exploradas no trabalho, elas continuam sendo exploradas em casa, onde assumem o trabalho doméstico não reconhecido e não pago.
Posso concordar com a segunda parte. Não concordo com a primeira: a economia de mercado e a expansão do trabalho remunerado expandiram o horizonte de possibilidades das mulheres como nenhum outro processo histórico.
Não falo de teorias. Falo da prática: suspeito que uma das razões pelas quais, em média, minhas alunas têm notas melhores do que as dos rapazes na universidade é que muitas sabem, desde cedo, que o diploma e a profissão são passaportes para a independência econômica.
E sabem que, sem essa independência, dificilmente conseguirão exercer plenamente as demais liberdades.
O livro de Zoe Strimpel é, no fundo, um ensaio sobre a liberdade. Não sei, honestamente, se as mulheres do século 21 são mais felizes do que suas antecessoras. Também não sei se os homens de hoje são mais felizes do que seus pais e avós. Felicidade é conceito subjetivo e vago.
Mas sei que homens e mulheres são hoje mais livres para decidir que vida desejam levar: monogâmica ou promíscua, conjugal ou celibatária, com filhos ou gatos, ambiciosa ou nem tanto.
E, mesmo aceitando que liberdade não é sinônimo de felicidade, Zoe Strimpel formula a questão decisiva: é preferível ser livre e infeliz ou não ser livre e infeliz?
Se a resposta é óbvia quando falamos de escravizados, por que deixa de ser tão óbvia quando falamos de mulheres?

