domingo, 28 de junho de 2026

Paulo Skaf - O populismo vem a cavalo, FSP

 Paulo Skaf

Presidente da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo)

A história nos ensina a desconfiar de presentes gregos. Na política, propostas de apelo fácil costumam desembarcar como o mitológico Cavalo de Troia e chegam embrulhadas em benfeitoria social, mas escondem, no fundo, malefícios que destroem a sociedade. É o que se vê PEC da 6x1 sem o debate que o tema exige.

Sob o pretexto de humanizar o trabalho, oferece-se uma ilusão. E, para sustentá-la, vozes que enganam o povo por votos recorrem ao desdém para ironizar a manifestação legítima de mais de 3.000 entidades produtivas de todo o Brasil, grupo que representa 90% do PIB e a esmagadora maioria dos setores que geram emprego e renda no país.

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Carteira de Trabalho e Previdência Socia 5.out.2023 - Gabriel Cabral/Folhapress

Ironizar quem alerta para os riscos econômicos não é só uma tentativa de vilanizar quem trabalha pelo Brasil, é fugir do debate técnico. Afinal, é mais fácil debochar da mobilização democrática do que apresentar um estudo de impacto –algo que a PEC, aliás, jamais teve.

Cada setor opera sob uma lógica própria: saúde, transporte, comércio, hotelaria, indústria, agricultura etc. O metalúrgico segue ao turno da fábrica; a enfermeira cobre plantões que não podem deixar um leito descoberto na madrugada; o garçom e o vendedor vivem dos dias de maior movimento, quando a gorjeta compensa.

Padronizar o funcionamento de uma nação por imposição equivale a exigir que todos calcem o mesmo sapato. E o Brasil real não cabe em tamanho único. Para alguns, o calçado número 38 fica apertado, para outros, sai do pé de tão folgado. É preciso abraçar a diversidade do mercado sem hipocrisia e ter empatia e maturidade para entender que o trabalhador deve ter a liberdade de negociar a sua rotina.

No fundo dessa discussão há uma confusão que trata jornada como se fosse escala. Nenhum país do mundo engessa escalas em sua Constituição, porque essa é matéria de negociação, ajustada às especificidades de cada atividade e região, como recomenda o consagrado princípio do acordado sobre o legislado.

A retórica demagógica vende o peixe da folga extra, mas esconde a fatura. O aumento dos custos será repassado aos preços, e a conta chega como inflação no supermercado, na tarifa do ônibus, no boleto do condomínio. Quem mais sente é o trabalhador, em nome de quem se diz fazer tudo isso.

O espelho do atraso está ao lado. Ao reduzir a sua jornada, o Chile colheu desemprego, inflação e mais informalidade. Engessar o emprego é um convite à precarização, ainda mais com 44 milhões de brasileiros na informalidade ou vivendo de bicos. É preciso deixar claro que 44 horas semanais é o teto da jornada no Brasil. Na realidade, a média do brasileiro é de 38 horas semanais.

O caminho da modernidade é outro e aponta para liberdade com proteção, o eixo da PEC 12, do trabalho flexível. Inspirada em países dinâmicos, ela preserva todos os direitos da CLT (13º, férias, FGTS, entre outros) e devolve a decisão ao trabalhador. Permite ao jovem conciliar emprego com a faculdade, a mãe solo ajustar os seus horários e quem deseja ganhar mais seja remunerado por isso.

O Brasil que acorda cedo não cabe numa única escala e não se reconhece na ironia de quem legisla pelos likes ou pelos "closes" e tenta maquiar a realidade. Desenvolvimento não se decreta por capricho ideológico. O Brasil precisa de soluções responsáveis, não de um cavalo de troia populista disfarçado de direito.

Trump fez Joesley falar espanhol para testá-lo, Elio Gaspari, FSP

 Chegou às livrarias nos Estados Unidos o novo livro da repórter Maggie Haberman, é "Regime Change" desta vez com seu colega Jonathan Swan. Destrincha o primeiro ano do governo de Donald Trump. Resulta um presidente vingativo, egocêntrico e mercurial. Na sua Casa Branca, o bilionário Elon Musk passou de gênio a doido.

Num de seus melhores momentos eles descrevem a subserviência pós-eleitoral de Mark Zuckerberg, que o havia banido de sua rede, e de Jeff Bezos. Bezos reclamou dos jornalistas do seu Washington Post e um dos filhos de Zuckerberg escreveu uma carta a Trump dizendo que ele levará os EUA a uma era de ouro.

Homem de cabelos grisalhos e pele bronzeada veste terno azul escuro, camisa branca e gravata azul com padrão. Ele está sentado, olhando diretamente para a frente, com expressão neutra. Ao fundo, pessoas em trajes formais aparecem desfocadas.
O presidente Donald Trump durante reunião no Salão Oval, na Casa Branca, em Washington (DC) - Ken Cedeno - 26.jun.26/Reuters

Puxa-saco é parte da vida, mas presidente tripudiando com a exibição das mensagens que eles lhe mandaram é novidade.

O último livro de Haberman foi uma biografia de Trump. Chama-se "Vigarista".

Trump e o Irã

Em outubro passado, o comentarista Tucker Carlson alertou-o para o risco de se meter com o Irã, tema da agenda de Benjamin Netanyahu.

"Não vamos fazer isso", respondeu Trump.

"Ótimo. Porque a única coisa que pode implodir seu governo é uma guerra com o Irã. Essa é uma armadilha de seus inimigos. Essa gente o odeia. Depois que você entra, é difícil sair. Estropia sua presidência."

Deu no que deu.

Maduro

Haberman e Swan contam que no dia 21 de novembro o bilionário brasileiro Joesley Batista esteve com Trump e Marco Rubio (seu canal seria Melania, a mulher do presidente). Eterno desconfiado, Trump conduziu a conversa em espanhol para testar a proficiência de Joesley com o idioma.

Batista foi a Caracas e sugeriu a Maduro que renunciasse. Nada feito.

Trump tentou de novo, mandando Tucker Carlson a Maduro. O ditador venezuelano ofereceu ao intermediário americano provas de que as urnas da eleição de 2020 nos Estados Unidos estavam viciadas. Não colou, o recado de Trump era claro: vamos tomar seu país e seu petróleo.

Com a frota americana ao largo, Maduro tentou negociar. Trump oferecia-lhe a carta do exílio. A essa altura o secretário de Estado, Marco Rubio, já tinha posto uma coleira na vice-presidente Delcy Rodríguez. O secretário de Estado diz que ela é séria, porém corrupta

Na véspera do Natal, Trump tinha três opções: Maduro seria mandado para o Qatar, para a Turquia ou para a cadeia. No dia 3 de janeiro Maduro e sua mulher foram sequestrados e estão presos nos Estados Unidos.

A prioridade de Rubio

Marco Rubio credenciou-se para ocupar a Secretaria de Estado com a ideia de que os Estados Unidos perdem muito tempo com a Europa e o Oriente Médio enquanto deveriam ser mais ativos na América Latina.

A encalacrada em que Trump se meteu com o Irã indica que Rubio não foi ouvido por seu chefe, mas já já ele arruma outra encrenca por aqui.