sexta-feira, 3 de abril de 2026

SPIW: ‘A mudança climática regional só depende da gente’, diz Ricardo Cardim

 O avanço das mudanças climáticas nas grandes cidades entrou de vez na pauta — e será um dos eixos do São Paulo Innovation Week, que acontece de 13 a 15 de maio no Pacaembu e na Fundação Armando Alvares Penteado (Faap).

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Quem puxa o tema é o urbanista Ricardo Cardim, que coloca a vegetação no centro do debate. “Uma urbanização sem verde e sem permeabilidade no solo leva às ilhas de calor, combustível dos eventos extremos”, diz à Coluna.

Entre as propostas que ele leva ao evento, realizado pelo Estadão, em parceria com a Base Eventos, está a chamada “floresta de bolso” — áreas de 50 a 100 metros quadrados espalhadas pela cidade, formando uma rede de biodiversidade.

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Outra frente é mais direta: ocupar o asfalto. Plantio de árvores entre vagas, jardins de chuva e pequenos recuos de 1 a 1,5 metro que, aos poucos, criam corredores sombreados. “Vai se formando um túnel verde”, explica. De quebra, o asfalto sofre menos com o calor.

O paradoxo é conhecido: um dos países mais biodiversos do mundo, o Brasil tem menos de 10% de cobertura vegetal nas cidades, segundo o MapBiomas.

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Para Cardim, isso tem história. “Quando o carro virou protagonista, a árvore passou a ser vista como obstáculo.”

E completa: enquanto a mudança climática global depende de gigantes como China e Estados Unidos, a escala local — essa, diz ele — “depende da gente”.

Confira a entrevista na íntegra:

Coluna Alice Ferraz: Qual será o tema abordado durante o São Paulo Innovation Week?

Ricardo Cardim: Eu vou levar uma agenda que eu acho importantíssima e que infelizmente é muito pouco falada no Brasil, que é a questão das cidades verdes no Brasil. Porque a gente está num País que de cada 10 brasileiros, 9 moram em cidades. Um país do nosso tamanho é um dos mais urbanizados do mundo, e o meio ambiente tem sempre estado relacionado aos assuntos fora desse cotidiano de quase 90% dos brasileiros. Muito se fala de Amazônia, de geleiras, de golfinhos, de energia renovável, crédito de carbono, mas pouquíssimo se fala da vida das pessoas na cidade com relação às questões ambientais, climáticas.

A ideia é a gente fazer uma apresentação sobre cidades verdes de terceira geração no Brasil. Mostrar que o Brasil é um País com características únicas, a gente é o País que tem a natureza mais extraordinária do mundo, a maior biodiversidade do planeta, e ao mesmo tempo cidades com cerca de 90% de vegetação estrangeira, o que é um super contrassenso, e que traz sérios problemas culturais e ecológicos.

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A gente também tem uma urbanização caótica nas nossas cidades. Essa urbanização caótica levou as cidades a ficarem áridas, impermeáveis, com ilhas de calor. A gente ouve muito sobre a questão das mudanças climáticas globais, mas quase nada das mudanças climáticas regionais. As mudanças climáticas regionais são causadas pela urbanização mal feita. Uma urbanização que não tem vegetação, que não tem permeabilidade no solo. Isso leva à formação das ilhas de calor, que são o combustível dos eventos climáticos extremos.

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São Paulo, por exemplo, até 50 anos atrás era a cidade da garoa, hoje é a cidade dos eventos climáticos extremos, a gente tem tempestades que arrancam janelas dos prédios. E isso é muito grave, e ninguém fala sobre isso. Porque a mudança climática global, a gente tem pouca capacidade de interferência, ela depende muito mais da China, dos Estados Unidos, do que da gente, para conseguir resolver.

Já a mudança climática regional só depende da gente, da gente cobrar do poder público o nosso direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, a ter uma cidade amplamente arborizada e com árvores bem cuidadas, com a fiação elétrica enterrada. É muito grave hoje a situação ambiental das cidades, onde moram quase todos os brasileiros, e ninguém está falando sobre isso.

C: É possível mudar esse cenário e tornar as cidades brasileiras mais verdes?

RC: Nessa apresentação eu vou mostrar os problemas, as questões, tudo, mas vou trazer soluções. Porque não adianta ficar todo mundo saindo deprimido do lugar. A ideia é trazer soluções viáveis para a realidade brasileira. Entre essas soluções que eu vou trazer, uma é a floresta de bolso, que é você restaurar essa biodiversidade da Mata Atlântica, por exemplo, ou do Cerrado, de maneira pulverizada dentro das cidades, com pequenas florestas a partir de 50 metros quadrados, como a gente já fez em Mutirão Voluntário várias vezes aqui em São Paulo.

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Isso cria uma rede de biodiversidade e de regulação do clima. Junto a isso, uma outra solução que seria super legal, por exemplo, é o que a gente chama de árvores entre vagas de veículos. Não tem espaço para colocar árvores na maior parte das calçadas de São Paulo, que são todas estreitas, não foram nem pensadas sequer no pedestre.

A única solução que a gente tem é o que Berlim, Londres e Paris já vêm fazendo, que é você colocar, entre as vagas de veículo. Você coloca ali uma árvore nativa de grande porte com jardim de chuva junto à calçada, mas no asfalto. E aí você tem a vaga de carro de sete metros, outra árvore, vaga de carro de sete metros, outra árvore.

Com isso, você vai construindo um túnel verde que sombreia o asfalto, porque o importante é uma arborização eficiente a ponto de sombrear a calçada e o asfalto. Que aí a gente vai conseguir resfriar a cidade para voltar a ser mais a cidade da garoa do que a cidade da tempestade.

C: Se tiver as árvores sombreando o asfalto, é possível mitigar o problema causado pelo próprio material das vias urbanas?

RC: A gente consegue minimizar muito o problema do asfalto, porque a gente precisa do asfalto para o transporte ainda. O asfalto é quase preto, ele é escuro e todo mundo sabe que coisas escuras acumulam muito mais calor do que coisas refletivas, brancas, elas absorvem o calor. Isso é uma máquina de mudança climática da ilha de calor. Se a gente conseguir criar uma arborização eficiente, ampla e bem cuidada, que é totalmente viável na cidade rica que São Paulo é, basta vontade política, a gente consegue sombrear o asfalto.

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E a ciência, inclusive, mostra que o asfalto sombreado dura muito mais tecnicamente do que o asfalto exposto ao sol, porque ele não contrai, não dilata todo dia e não racha tão fácil.

C: Onde as cidades e as pessoas estão errando em ver árvores como “inimigas”?

RC: Isso é um mecanismo que eu diria nefasto. O que acontece é que há mais de 50 anos que as árvores não são cuidadas quanto a sua saúde e acompanhamento na cidade de São Paulo e em muitas outras cidades brasileiras. Isso começou quando a gente começa a dar protagonismo exagerado para os carros na cidade e essas árvores passam a ser vistas muito mais como um empecilho do que como aliadas, e passa a não ter mais investimento na saúde delas.

Também não há fiscalização, as pessoas plantam qualquer coisa, a prefeitura não tira e aí as árvores começaram a ficar doentes, sem nenhum cuidado, com espécies erradas e começam a cair e isso leva as pessoas a odiarem árvores. Elas não percebem que a árvore é fundamental para a sobrevivência dentro de uma malha urbana como São Paulo. Não percebem que isso é culpa de não existir cuidado nesse ser vivo. Qualquer ser vivo precisa de atenção e cuidados, ainda mais dentro de uma cidade, porque é tudo hostil e isso leva a esse festival de quedas de árvores.

Isso não ocorre em Boston, não ocorre em Washington, não ocorre em Berlim, não ocorre em Londres, não ocorre em Roma, que tem muitas árvores. Em São Paulo ocorre direto. É péssimo porque existe hoje a pecha de que árvore não dá voto, então os políticos não falam de árvores e justamente árvores são uma das principais soluções para as mudanças climáticas urbanas.

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C: Levando em consideração que estamos em um ano eleitoral, os eleitores também devem procurar candidatos que tenham o meio ambiente como uma prioridade?

RC: Sem dúvida, mas hoje é raríssimo. Eu tenho brigado muito por a gente ter uma agência nacional de arborização urbana, uma agência federal que fiscalize, regule, instrumentalize os municípios para eles receberem e cuidarem da arborização. Em São Paulo, como é que a gente não tem nenhum departamento dedicado à arborização urbana? A gente precisava ter uma secretaria municipal de arborização urbana para plantar, cuidar. Hoje as árvores do viário são entregues à subprefeitura, que depois de pintar uma calçada, planta uma árvore. Então você precisa ter corpo técnico suficiente, um inventário suficiente de arborização.

Até hoje a gente não tem inventário das árvores da cidade. É um assunto que tem muito por fazer e o clima já começou a mudar. Achavam que ia demorar, mas ele já começou a mudar. Então é uma coisa complicada e que precisa ter investimento, precisa ter mudança política séria.

C: Você citou algumas cidades que não têm problemas com árvores como temos aqui no Brasil. O que fazem lá fora que conseguiríamos colocar em prática em território nacional?

RC: Além de fazer plantios técnicos científicos, ou seja, arborização feita de forma criteriosa, tem túneis verdes formados, uma árvore do lado da outra. Não tem aquela arborização banguela de São Paulo, que é uma árvore aqui, outra acolá e quando bate o vento isso tudo cai. Ali é uma arborização técnica científica.

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Não tem árvores plantadas pelas pessoas de forma errada na cidade, se alguém planta, eles retiram, tem fiscalização. Tem podas de acompanhamento, a poda é feita com os galhos ainda jovens, que a árvore consegue cicatrizar sem ficar doente. Se a árvore fica doente tem tratamento na árvore, ela é acompanhada. E tem inventário.

Eles sabem quantas árvores tem na cidade, quais são as espécies, em que estado elas estão e fazem acompanhamento periódico nelas. Eu vi isso em Paris no final do ano passado. É muito diferente do abandono que é a arborização urbana da cidade de São Paulo, a árvore é largada pela própria sorte. E aí a arborização cai, a cidade fica com eventos climáticos extremos. Essa é a principal fronteira hoje do meio ambiente para mim: a gente esqueceu completamente a agenda ambiental urbana, porque ela é muito mais complicada que outras agendas ambientais, só que é onde as pessoas moram.

C: Você costuma falar que as cidades brasileiras perderam a identidade ecológica. O que significa isso na prática?

RC: Cada lugar do mundo tem a sua flora característica, plantas que estão ali há milhões de anos antes da chegada dos humanos. Nós humanos existimos há pouco tempo comparado à natureza, 300 mil anos como espécie. Aqui no Brasil, estamos há 30 mil anos, e como Brasil, há 500, então é muito pouco tempo. Então cada lugar tem a sua identidade única dessa flora.

O que acontece é que hoje a grande indústria de plantas ornamentais, sediada na Europa, principalmente na Holanda, dita a moda de plantas para o mundo inteiro. O que acontece é que você tem uma homogeneização da flora em todas as cidades do mundo, ou seja, é como se o McDonald’s passasse a ser consumido em todas as cidades do mundo, e não mais as comidas típicas.

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Só que isso não tem só um impacto cultural de homogeneização da flora, mas principalmente ecológico, porque muitas dessas plantas estrangeiras, que são colocadas no mundo inteiro iguais, acabam se tornando invasoras e acabam destruindo a biodiversidade do local.

Sobre o São Paulo Innovation Week

São Paulo Innovation Week (SPIW) vai reunir mais de 1.000 palestrantes entre os dias 13 e 15 de maio na Mercado Livre Arena Pacaembu e na Fundação Armando Alvares Penteado (Faap).

Assinantes do Estadão podem comprar ingressos com 35% de desconto: clique aqui para adquirir o passaporte para os três dias de evento. Não assinantes podem acessar este link.

No Texas, Flávio Bolsonaro exibe sua vassalagem a Trump, Alvaro Costa e SIlva, FSP

 Aluno esforçado das lições marqueteiras, Flávio Bolsonaro desistiu da dancinha ao som do funk "Zero Um, Novo Capitão". Na avaliação de quem cuida de suas redes, imitar a postura tiktoker de Donald Trump não pegou bem. Um político moderado não pode rebolar descendo até o chão.

A ordem é abrir a boca o menos possível, evitar as entrevistas do tipo quebra-queixo, escapar das cascas de banana. Uma palavra sobre o escândalo Master? Nem pensar. A finalidade da estratégia low profile é reprimir a natureza golpista do filho 01.

Mas os ares do Texas bagunçaram o coreto da falsa moderação. Em sua quinta viagem internacional desde que foi ungido por Bolsonaro como candidato ao Planalto, Flávio caprichou na fantasia de Duas-Caras, o vilão do Batman, e só faltou pedir a anexação do Brasil pelos Estados Unidos, país que ele orgulhosamente chama de América.

Num convescote da extrema direita global, Flávio definiu as eleições presidenciais brasileiras como uma batalha decisiva para as pretensões imperialistas de Trump: "Esta é a encruzilhada que a América enfrenta", ensinou ele. "Ou vocês têm o aliado mais poderoso do continente ou um antagonista que se alinha com adversários e torna a política para a região impossível".

Homem de terno azul, camisa branca e gravata vermelha ergue os braços com punhos fechados diante de fundo dividido em azul e vermelho.
O senador Flávio Bolsonaro durante discurso no CPAC, maior evento conservador do mundo, que acontece no Texas (EUA) - Callaghan O'Hare - 28.mar.26/Reuters

Para sensibilizar os trumpistas, disse que o pai está preso por defender "nossos valores conservadores" e não por ter sido condenado por uma tentativa fracassada de golpe de Estado. Afirmou que Bolsonaro lutou contra a "tirania da Covid", esquecendo as 700 mil mortes e o desprezo na condução da pandemia. Sem provas, acusou o ex-presidente dos EUA Joe Biden de interferir nas eleições de 2022 a favor de Lula. Também sem provas, atacou o petista: "O presidente do meu país faz lobby para proteger organizações terroristas".

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No discurso em inglês, Flávio deu a entender que, se eleito com a mão grande de Trump, irá governar um quintal: "O Brasil é a solução da América para quebrar a dependência da China em minerais críticos, especialmente terras raras". Vibrai, patriotas.

Apequenando a América, Hélio Schwartsman, FSP

 Donald Trump procura "tornar a América grande de novo" exercitando o músculo militar do país, hostilizando imigrantes e impondo tarifas a outras nações, entre outras políticas erráticas. Na prática, o que ele está conseguindo é erodir três pilares a partir dos quais os EUA exerciam seu poder.

Recursos bélicos importam, mas o que realmente dava aos EUA um lugar único na ordem global era seu papel de liderança sobre o que os próprios americanos chamavam meio pretensiosamente de "mundo livre". Não era uma liderança que se impunha só pela força, mas principalmente pela adesão voluntária a um sistema internacional baseado em regras. O Agente Laranja já dinamitou esse sistema. Até os mais tradicionais aliados dos EUA já buscam alternativas. Mesmo que a Otan sobreviva a Trump, não será a mesma organização. Isso vale para todas as instituições multilaterais, da OMC à ONU.

A questão da imigração, ao lado do corte de verbas para pesquisa, vai na jugular do que, a meu ver, era a joia da coroa dos EUA: sua predominância científica. A capacidade da América de atrair estrangeiros para estudar e depois pesquisar no país era o grande trunfo. Dos 329 americanos que receberam prêmios Nobel em física, química ou medicina entre 1901 e 2025, 36% nasceram em outro país, isto é, eram imigrantes. O número vai a 40% se considerarmos as láureas científicas de 2000 até 2025. Com Trump, as matrículas internacionais em universidades americanas caíram 17% em 2025.

Se os EUA fossem um país normal, desvalorizar o câmbio poderia ser uma estratégia comercial apta. No caso americano, porém, ela embute um risco. O país goza da vantagem de emitir o dólar, que é a principal moeda de reserva global. É a divisa que todo mundo quer. Isso permite aos EUA financiar seus gigantescos déficits comerciais só imprimindo mais dólares sem causar inflação. Ao minar a confiança internacional nos EUA, sua moeda e títulos, Trump pode estar privando os americanos daquilo que já foi chamado de "exorbitante privilégio".