sexta-feira, 20 de março de 2026

Felipe Nunes, da Quaest, aponta cenário de alta polarização e eleição decidida pelo centro em encontro da Amcham

 

Felipe Nunes, da Quaest, aponta cenário de alta polarização e eleição decidida pelo centro em encontro da Amcham

Durante o jantar de posse do Conselho de Administração 2026 da Amcham Brasil, realizado no dia 17 de março, no Rosewood São Paulo, em reunião que reuniu cerca de 100 CEOs e lideranças empresariais, o cientista político Felipe Nunes, CEO da Quaest, apresentou uma análise sobre o cenário político e eleitoral do país.


O encontro marcou a transição da presidência do Conselho, com a chegada de José Fernandes, presidente e CEO da Honeywell América Latina, e o encerramento do mandato de Marcelo Marangon, do Citi. Na ocasião, a Amcham também lançou a agenda O Brasil que Queremos, com propostas empresariais para o desenvolvimento do país.



Economia cresce, mas percepção piora

Felipe Nunes destacou um dos principais paradoxos atuais do Brasil: a desconexão entre os indicadores econômicos e a percepção da população. Apesar de dados positivos — como crescimento do PIB, inflação sob controle e queda do desemprego — a maioria dos brasileiros avalia que sua situação piorou.


Segundo ele, esse fenômeno é explicado pelo conceito de affordability, que mede a relação entre renda e custo de vida. “A renda até cresce, mas cresce menos do que o custo de vida. Isso impede a sensação de bem-estar e impacta diretamente o humor da sociedade”, afirmou.


 

Fim da “gratidão automática” e mudança no efeito das políticas públicas

Outro ponto central da análise foi a redução do bônus político de algumas políticas públicas, quando a ampliação de programas sociais e benefícios não se traduz automaticamente em aumento de popularidade do governo.


Para Nunes, isso ocorre porque esses programas passam a ser percebidos como direitos consolidados — e não mais como concessões. “Quando algo vira direito, deixa de gerar gratidão automática. E isso muda completamente a lógica eleitoral”, explicou.



Brasil tem voto consolidado

A apresentação também destacou uma transformação relevante na sociedade brasileira: a calcificação do eleitor e da identificação ideológica.


Hoje, cerca de 70% do eleitorado está consolidado em dois grandes blocos, criando um ambiente de disputa com pouca mobilidade.


“É como um clássico. O eleitor veste a camisa e joga a eleição como se fosse Fla x Flu. Não importa tanto o desempenho — importa ganhar o jogo”, afirmou.

 


A eleição será decidida por uma minoria

Nesse cenário, o cientista político ressaltou que a eleição de 2026 deve ser definida por um grupo reduzido de eleitores independentes, de aproximadamente 10% do eleitorado, composto principalmente por liberais sociais, historicamente associados ao centro político, e por empreendedores individuais, que valorizam autonomia e mobilidade econômica.


“Se quiser entender quem vai ganhar a eleição, não é olhando para os extremos. É olhando para esse eleitor do meio”, destacou.

 


Risco sistêmico e espaço para outsider

Nunes também apontou que o cenário poderia abrir espaço para candidaturas fora do sistema político tradicional, especialmente diante do aumento da percepção de crise institucional e de temas como corrupção e segurança pública. Ainda assim, ressaltou que a estrutura atual segue altamente calcificada, com forte tendência de manutenção da polarização.


 

Agenda empresarial em um novo ciclo

A discussão ocorreu no contexto da apresentação da agenda da Amcham “O Brasil que Queremos”, que traz propostas construídas com a participação de empresas associadas para contribuir com o debate público sobre o futuro do país. Saiba mais sobre as propostas da Amcham!

Amcham Brasil
A Amcham Liga! E forma uma liga com os principais líderes e marcas. Se liga na Amcham e a ⅓ do PIB brasileiro.

Bolsonaro foi de ex-atleta imorrível a idoso frágil, Helio Schwartsman, FSp

 Se você se frustrou (ou ficou feliz) com a recuperação de Jair Bolsonaro, saiba que a situação ainda está longe de resolvida. Os números falam por si. Um estudo sul-coreano de 2019 com 550 pacientes de pneumonia aspirativa, a moléstia que levou o ex-presidente à UTI, mostra que a mortalidade um ano após o evento atinge 49% e vai a 76,9% após cinco anos.

O problema aqui é menos as bactérias, que, afinal, parecem estar sendo controladas pelos antibióticos, e mais o que a doença revela sobre o estado geral do paciente. A pneumonia aspirativa é hoje vista pelos médicos como um marcador inequívoco de vulnerabilidade, especialmente para idosos. Numa daquelas ironias da história, o sujeito com histórico de atleta que nada sofreria com a Covid-19 é agora oficialmente um idoso frágil. O fato de a infecção de Bolsonaro ter atingido os dois pulmões e as notícias de que ele não tem conseguido se alimentar direito tornam seu quadro ainda mais delicado.

Homem de meia-idade com cabelo grisalho e camisa polo amarela toca a testa com a mão direita, com expressão séria. Fundo desfocado mostra outra pessoa parcialmente visível.
O ex-presidente Jair Bolsonaro após realizar exames no hospital DF Star, em Brasília, em foto de agosto de 2025 - Evaristo Sá/AFP

A causa principal dos males que acometem Bolsonaro é conhecida: as várias cirurgias a que ele teve de ser submetido após a facada de 2018 provocaram complicações digestivas, como esofagite e refluxo, que têm se mostrado refratárias a controle. Ele pode voltar a aspirar conteúdo gástrico e desenvolver novas pneumonias.

Como já disse aqui, não é Bolsonaro quem vai me fazer desistir do humanismo penal que sempre defendi. Sua situação de saúde é compatível com a conversão da prisão em regime fechado em domiciliar. Mas, se o STF for por esse caminho, aí, em nome do princípio republicano, o ex-presidente precisaria se tornar "benchmark", isto é, idêntico tratamento teria de ser estendido a todos os enfermos graves que se encontrem no sistema. E não basta dizer que eles fariam jus aos mesmos benefícios. É preciso um esforço do Judiciário para identificar esses presos, que nem sempre contam com bons advogados e médicos que produzam laudos sombrios, e mandá-los para casa.

Seria até uma forma de o STF começar a resgatar a credibilidade perdida.

Ampliar acesso ao MEI é um erro, Marcos Mendes, FSP

 A Câmara aprovou urgência para votar o projeto de lei complementar 108/2021 (PLP 108/21), que aumenta de R$ 81 mil para R$ 130 mil por ano o limite de faturamento para enquadramento de profissionais como microempreendedor individual (MEI). Também aumenta de um para dois o número de empregados que um MEI pode contratar. Isso significa que mais empresas e empreendedores terão acesso a tributação menor.

Ao PLP 108/21 há outros 14 projetos apensados —alguns com custos bem maiores—, o que indica a popularidade do tema dentro do Congresso. Ainda não se decidiu qual redação será posta em votação, havendo o risco de serem feitas concessões adicionais.

Pouca importância foi dada à Lei de Responsabilidade Fiscal, que exige que se demonstre de onde virá o dinheiro para pagar a conta.

A proposta vai na direção errada.

A fotógrafa Tatiana, que em 2009 se tornou MEI, em Brasília - André Borges - 10.ago.12/Folhapress

O MEI foi criado para que trabalhadores informais muito pobres tivessem acesso a quase todos os benefícios da Previdência. O MEI não paga tributos sobre a renda devidos por pessoas jurídicas, faz contribuições simbólicas de ICMS e de ISS e recolhe apenas 5% do salário mínimo a título de contribuição previdenciária.

O subsídio é grande. Estudos de Rogério Nagamine, Gabriela Ansiliero e Otávio Sidone mostram que as contribuições cobrem pouco mais de 5% do fluxo futuro que um beneficiário típico receberá em aposentadoria. E ele ainda pode receber outros benefícios, como auxílio-doença, salário maternidade, pensão por morte ou aposentadoria por invalidez.

O MEI deve ficar restrito aos indivíduos de renda muito baixa, sob pena de gerar uma bomba fiscal para a Previdência no médio e longo prazo.

Com o atual limite de faturamento, houve migração de trabalhadores de planos menos desequilibrados para o MEI: 72% dos atuais MEIs tiveram experiência anterior no mercado formal de trabalho. Em vez de incluir os excluídos, o MEI está subsidiando quem já era incluído. Isso também pode ser visto no padrão de renda e escolaridade dos contribuintes do MEI: menos de 20% deles estão entre os 50% mais pobres e têm média de 12,3 anos de estudo.

Roupas na loja Fuá Ateliê, uma MEI localizada no bairro de Pinheiros, em São Paulo - Lucas Seixas - 25.mai.24/Folhapress

O número de inscritos no MEI já é de 16,6 milhões, quando temos não mais que 8 milhões de pessoas em pobreza extrema. De 2011 a 2014, o total de MEIs que efetivamente contribuem cresceu 18% ao ano, contra 1,4% a.a. do RGPS como um todo. Eles representam 12% dos contribuintes do RGPS, mas apenas 1% da receita.

Com esse inchaço do regime, a projeção de receitas e despesas futuras implica um déficit atuarial, trazido a valor presente, na casa de R$ 1 trilhão, decorrente de receita insignificante e um conjunto de benefícios apenas marginalmente menor que o dos demais contribuintes.

Facilitar o acesso ao MEI vai agravar o problema.

Há o argumento de que aumentar o MEI economiza gastos futuros com o Benefício de Prestação Continuada (BPC). Isso é falso. Primeiro porque o público do MEI tem renda e escolaridade mais altas que os candidatos ao BPC. Segundo, porque o MEI oferece benefícios adicionais, como 13º, pensão e auxílio-doença, podendo sair mais caro que o BPC.

As medidas corretas seriam: reduzir o limite de faturamento, estabelecer indicadores de pobreza para acesso, elevar a contribuição para 11% do salário mínimo (percentual que vigorava no início do programa) e instituir contribuição de 20% para empresas que contratam MEIs, para desestimular a pejotização de trabalhadores.

Decisões populistas, tomadas sem uma avaliação quantitativa séria de seus custos e benefícios, mantêm o país na armadilha do baixo crescimento.