quinta-feira, 2 de abril de 2026

O juiz e o cataclismo climático, José Renato Nalini - OESP

 O maior desafio já enfrentado pela humanidade é a não remota possibilidade de se inviabilizar a vida no planeta, em virtude do aquecimento global. A ciência se cansou de advertir, durante décadas, que a exagerada emissão de gases venenosos causadores do efeito estufa, cumulada com o desmatamento atroz, acarretaria grave mutação do clima. Tudo em vão. Poucos se preocuparam com o tema e hoje, quem está com a palavra, é a própria natureza. E ela está brava!

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A responsabilidade dos juízes acresce nos momentos críticos. É que tudo o que nos afeta é também afetado pelas mudanças climáticas, que passaram a se chamar emergências climáticas e hoje atendem pelo nome “cataclismo climático”.

O planeta inteiro sofre esses impactos. Ciclones, temporais, precipitações pluviométricas torrenciais, tudo seguido de seca inclemente e temperatura incompatível com a condição humana.

O sistema Justiça não ficou inerte. O protagonismo coube ao Ministério Público. Mas há muitas décadas existem as “Varas Ambientais” em alguns tribunais brasileiros e o TJSP criou Câmaras Reservadas ao Meio Ambiente.

Para você

É suficiente? Não. Embora condição necessária ao adequado trato do assunto, ela não é bastante.

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Primeiro, é preciso convencer o juiz de que a balança da Justiça nas infrações ambientais não pode ser a mesma de uma lide interindividual. A vítima das lesões ecológicas é uma comunidade difusa de prejudicados, com inclusão até das futuras gerações. Isso por vontade explícita do constituinte de 1988, ao redigir o artigo 225 da Constituição da República.

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Política
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Depois, o sistema sancionatório ainda é tíbio e ineficaz. Multas simbólicas, sequer são recolhidas ao Erário. A Fazenda não consegue executá-las no quinquênio. É uma perversa inversão do princípio “poluidor-pagador”.

A questão dos fenômenos extremos atinge todas as pessoas. É preciso não chamá-los “desastres naturais”. São provocados pela irracionalidade humana. Por isso, o sistema Justiça deve estar atento para cuidar de suas consequências de maneira holística.

Há vários exemplos a serem observados, para garantir uma conduta ética e ecologicamente responsável. Por exemplo: o adensamento das cidades implica continuidade da política de impermeabilização que é nociva à adaptação das cidades para o enfrentamento da crise.

As compensações por supressão arbórea devem ser revisitadas, porque o plantio de muda frágil para substituir árvores que levaram até séculos para prestar o serviço ecossistêmico essencial à saúde humana, é insuficiente para ressarcir a natureza por sua perda. Ainda assim, prefere-se pagar para Fundos em lugar de se exigir efetivo plantio.

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Convencer o poderoso setor da construção civil a adotar soluções de acordo com a natureza, em lugar de persistir em soluções de acordo com o concreto, o ferro, o aço e o vidro, é missão de que os operadores jurídicos podem se desincumbir de maneira superior ao da política partidária.

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Incentivar o plantio de árvores, das quais todos os municípios são carentes, é uma política a ser adotada pelos juízes como fórmula de se recompor a natureza vulnerada e, simultaneamente, de criar uma consciência ecológica hoje amortecida em virtude de inúmeras causas, das quais não é menor a drástica reversão geopolítica.

A dilatada prerrogativa do juiz sentenciante de impor sanções que não se restrinjam à prisão ou ao pagamento de multa poderia suscitar uma saudável originalidade na Justiça Criminal: obrigar o infrator a regenerar espaços degradados, a recompor mata ciliar, a proceder à limpeza de córregos e reservatórios.

Há uma série de providências benéficas a serem adotadas não só pelos órgãos de cúpula das Instituições do equipamento Justiça, mas também pelas Escolas de Formação e Preparo do pessoal das carreiras jurídicas e, principalmente, das Associações das categorias funcionais desse vasto universo.

A convivência associativa, o espírito de cooperação e o enfrentamento conjunto de questões nem sempre diretamente vinculadas aos objetivos específicos dessas entidades, confere a elas um papel relevante para colaborar na solução de questões gravíssimas, como essa do aquecimento global.

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Exatamente por vivenciarem as ciências jurídicas, xipófagas da ciência moral do comportamento do ser humano em sociedade, que se chama “ética”, os integrantes das profissões forenses, notadamente a Magistratura, são atores essenciais e imprescindíveis na indescritível missão de adaptar as cidades para os impactos da desestruturação climática. Eles serão cada vez mais frequentes e cada vez mais intensos. Não descuidemos do indeclinável mister de nos preparar para eles, com o intuito de salvar vidas, prioritárias em relação ao bem da vida que é o ambiente natural.

Convidado deste artigo


Magistrado aposentado, reitor da Uniregistral e docente da pós-graduação da Uninove. Autor de 'Ética Ambiental' e secretário executivo de Mudanças Climáticas de São Paulo. Foto: Felipe Rau/Estadão

Vorcaro para principiantes, Ruy Castro _FSP

 Daniel Vorcaro é um contêiner de surpresas. Não há dia em que não se abra um arquivo sem encontrar uma façanha de sua lavra. E, como todas, da ordem de milhões, bilhões de reais, capaz de quebrar bancos, envolver figurões da República e atolar os Poderes num lamaçal histórico. É um dos dois ou três nomes mais citados do noticiário, e o espantoso é que, até há pouco, ninguém ouvira falar dele. Mesmo hoje, não sei de ninguém que responda a perguntas simples, tipo: Como Vorcaro juntou tanto dinheiro e tão rápido? De onde tirou o know how? Quais foram seus mestres?

Para aprender o básico a seu respeito, fui à Wikipédia. Li que ele nasceu em Belo Horizonte, em outubro de 1983, tendo, portanto, 42 anos. O Brasil está cheio de rapazes dessa idade que ainda moram com a mãe, mas Vorcaro é um fenômeno —campeão de investimentos sem lastro, fraudes, simulações, concorrências ilegais, extorsões, coerções, difamações, ameaças físicas e chantagens, tudo isso a bordo de mansões, jatos, rolls-royces, resorts de luxo, salões medievais e pelelecas entre lençóis. Ninguém na sua geração tem tal currículo. Mas, como eu dizia, quem é o homem por trás desse mastersucesso?

Como foi sua infância? Usou chupeta até tarde? Terá jogado pelada, brincado de médico, matado aula? Levava a Playboy para o banheiro? Era religioso? (Devia ser, porque tem avô, irmã e cunhado pastores evangélicos ligados a uma igreja na capital mineira.) Na escola, qual seria sua especialidade? Matemática, contabilidade, prestidigitação, hipnotismo? Onde fez o pós-doc de sedução e burla? Com que capital começou seu fabuloso portfólio empresarial, composto de vento e papel pintado? Como se dava com seus colegas da Faria Lima? E até onde teria ido se não tivesse sido parado?

Só Deus sabe. Neste momento, seu império consiste de uma sala na Superintendência da Polícia Federal, em Brasília, reservada aos bacanas. É simples e sem luxos, mas decente. E, nela, Vorcaro dispõe na gaveta de um bom livro, que não lhe deve ser estranho.

A Bíblia.

quarta-feira, 1 de abril de 2026

Biografia conta como José Vicente fundou a Universidade Zumbi dos Palmares, FSp

 Isac Godinho

São Paulo

Zumbi dos Palmares é um dos principais símbolos da resistência do povo preto contra a escravidão no Brasil. Há mais de 20 anos, o herói nacional também nomeia uma instituição de ensino criada com o intuito de mudar a realidade dos negros por meio do acesso à educação formal.

Pioneira na América Latina, a Universidade Zumbi dos Palmares surgiu em 2004, em São Paulo, a partir de um desejo coletivo de ver mais pessoas negras conquistando espaços de destaque na sociedade.

Principal responsável pela criação da UniPalmares e atual reitor da instituição, o advogado e ativista José Vicente tem agora sua história contada no livro "O Sol Brilhou à Noite".

Homem negro, vestido com terno bege e gravata clara, sorri enquanto segura livro com capa preta e verde. Ao fundo, painel azul com texto 'O Clube dos Livros Lido' e estantes com livros.
O reitor da Universidade Zumbi dos Palmares José Vicente, que lança sua biografia 'O Sol Brilhou à Noite' - Antônio Silva/Divulgação

A obra, escrita pelo jornalista Ricardo Viveiros e publicada pela editora DisrupTalks, narra a trajetória do menino negro de família pobre do interior de São Paulo que se tornou uma das pessoas mais respeitadas no debate da inclusão racial no Brasil.

Reticente quanto à necessidade de transpor sua história de vida para um livro, José Vicente conta que foi convencido após insistência de Viveiros, seu amigo de longa data.

"Conversando com ele, entendi que minha trajetória traz algumas nuances muito curiosas, que poderiam não só permitir que as pessoas conhecessem como as coisas aconteceram nos bastidores, mas sobretudo até se apropriarem de algumas dessas dimensões em ações futuras", diz ele.

De acordo com ele, a importância do livro é motivar mais pessoas a pensar em alternativas para superar obstáculos criados pela estrutura social. "É como um estímulo para que as pessoas continuem otimistas e acreditando nas suas utopias."

O título da obra, "O Sol Brilhou à Noite", traduz bem essa ideia. O trabalho realizado por ele e pelas pessoas que o acompanharam nesse percurso possibilitou que algo muito improvável se tornasse realidade.

Nascido em novembro de 1959 e filho mais novo de seis irmãos, José Vicente perdeu o pai aos dois anos. Criado pela mãe, Izabel, ele cresceu no morro do Querosene, em Marília, interior de São Paulo. Trabalhou como boia-fria, engraxate e fez bicos como pintor de paredes, até virar soldado da Polícia Militar e se mudar para a capital.

Já em São Paulo, ingressou na faculdade de direito e percebeu que, na instituição em que estudava, apenas ele e outros três ou quatro eram negros. Começou ali a atuar no movimento estudantil.

Anos mais tarde, ao começar uma nova graduação na Escola de Sociologia e Política de São Paulo, notou que a realidade era quase a mesma, em termos raciais. Essa foi uma das principais motivações para o surgimento da ONG Afrobras, ainda nos anos 1990, que posteriormente serviria de pilar para a fundação da Universidade Zumbi dos Palmares.

Em mais de 20 anos, a instituição já formou cerca de 6.000 profissionais, sendo que 80% deles se declaram negros. "A gente estava falando de uma universidade negra antes mesmo de existirem cotas no país. Isso foi revolucionário e se tornou realidade", diz José Vicente.

Segundo Ricardo Viveiros, o biógrafo, o livro cumpre um papel de documentar todo o trabalho de José Vicente como um registro histórico para o movimento negro. O escritor diz esperar que a biografia também seja lida por pessoas brancas, para que elas conheçam um pouco mais das lutas da população preta.

Viveiros afirma que, mesmo conhecendo o biografado há cerca de 40 anos, o processo de escrita do livro o fez perceber que ainda tinha muito para descobrir sobre o amigo.

"Eu entrevistei muitas pessoas que conviveram com ele ao longo de todo esse tempo. Tem gente de todo tipo, de direita e de esquerda, que conhece e respeita a luta dele, porque o José é uma pessoa de muita esperança e que luta por uma sociedade mais respeitosa."

O livro também traz relatos de personalidades brasileiras sobre o trabalho de José Vicente. Entre as figuras ouvidas estão o presidente Lula e seu vice, Geraldo Alckmin, o ex-presidente Michel Temer, o ministro do STF Luiz Fux, os cantores Martinho da Vila e Netinho de Paula, o sociólogo Edson Santos e o banqueiro Pedro Moreira Salles.

O Sol Brilhou à Noite

  • Preço R$ 149,90 (236 págs.)
  • Autoria Ricardo Viveiros
  • Editora DisrupTalks