quarta-feira, 9 de setembro de 2026

Becky S. Korich - Aos inimigos a lei; aos amigos tudo, FSP

 Corruptissima republica plurimae leges —quanto mais corrupto o Estado, maior o número de leis. A máxima atribuída a Tácito ajuda a entender por que o país discute há tanto tempo a necessidade de um código de conduta para os ministros das Cortes Superiores.

É sintomático: quando a degradação institucional avança, a reação instintiva é legislativa. Multiplicam-se as leis que pretendem combatê-la, sem que isso necessariamente produza o efeito esperado. Por mais severas que possam ser as penas, o combate efetivo não depende apenas de sua dureza, mas da certeza da punição. A porta giratória do sistema prisional é um exemplo eloquente dessa incerteza.

Com uma infinidade de leis, decretos, portarias, medidas provisórias, resoluções, instruções normativas e outras engenharias jurídicas, o Brasil continua sendo um país travado, burocrático, inseguro e corrupto. O problema não é a falta de artigos e incisos, é falta de vergonha.

Escultura de pedra representando uma figura feminina abstrata com olhos cobertos por uma faixa, vista de baixo para cima, com céu nublado ao fundo.
Estátua "A Justiça", de autoria do escultor Alfredo Ceschiatti, em frente ao Supremo Tribunal Federal (STF), na Praça dos Três Poderes, em Brasília - Mateus Bonomi - 02.set.26/Folhapress

Quem escolhe ser juiz, pressupõe-se, o fez por amor à justiça. E todos sabem —mesmo quem nunca vestiu uma toga— que a justiça só acontece dentro de preceitos básicos, anteriores a qualquer código, a qualquer lei. Ter de explicitar que um juiz não pode favorecer amigos, servir a interesses privados, misturar relações pessoais com a função pública e colocar sua imparcialidade sob suspeita, é como dizer a uma criança que é feio colocar o dedo no nariz, mesmo quando ninguém está vendo.

Os Princípios de Bangalore de Conduta Judicial, concebidos como referência internacional para a magistratura, estabelecem valores basilares: independência, imparcialidade, integridade, idoneidade, igualdade, competência e diligência. Isso, por si só, já seria suficiente para dispensar códigos adicionais. Mas o Brasil, infelizmente, já se mostrou não ser exatamente um país de princípios.

Se um ministro encarregado de julgar desvio alheios não tem freio moral, não é a lei que conseguirá dar um freio jurídico. O poder, nesse caso, potencializa essa ética torta e ainda oferece instrumentos para contornar os limites criados justamente para contê-lo.

Nenhuma norma produz integridade. São os valores éticos sedimentados, capazes de resistir a tentações milionárias, favores, prestígio e honrarias, que faz as pessoas se comportarem de forma decente. Não dá para substituir moral por lei, nem para terceirizar a ética para a norma escrita.

É por isso que a ética importa mais onde a lei não consegue chegar. Não deixamos de furtar só porque existe um policial na esquina, não deixamos de cometer crimes porque existe um código prevendo sanções.

A mensagem é dura e direta: o povo brasileiro é obrigado a engolir a imoralidade pública alimentada pela crise moral e pelo escárnio com que o problema é tratado. Esperamos respostas, no mínimo um constrangimento; o que vem é uma gargalhada.

Há pouco mais de um ano, o Ministro Alexandre de Moraes, ao discursar em um painel sobre a regulação das plataformas digitais, disse que "o Brasil não é uma terra sem lei". A frase soou bonita, até nos deu esperança de algum controle sobre a anarquia das redes.

Mas por aqui, a lei só recai sobre quem não tem abrigo no poder: não importa o crime, e sim quem o cometeu. Quando a burocracia da lei é maior do que a verdade, cabe perguntar: para que —e para quem— serve a lei?

A velha máxima continua prevalecendo: Aos inimigos, a lei; aos amigos, tudo.

Fachin tira de Moraes inquérito das fake news e marca julgamento sobre mensagens com Daniel Vorcaro- OESP

 Notícia de presente

SÃO PAULO E BRASÍLIA — O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Edson Fachin, decidiu nesta quarta-feira, 9, retirar das mãos de Alexandre de Moraes a condução do inquérito das fake news, em tramitação há sete anos, e transferir o caso para a Presidência da Corte.

Em paralelo, Fachin determinou que a investigação sobre as mensagens trocadas entre Alexandre de Moraes e o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, reveladas pelo Estadão e relatadas pelo ministro André Mendonça, seja submetida ao plenário da Corte na próxima terça-feira, 15.

(Texto em atualização)

O Estatuto da Cidade fez 25 anos, e agora?, FSP

 Bruno Sindona

Presidente do Instituto das Cidades, fundador da incorporadora e construtora Sindona, voltada para moradias das classes C, D e E, e um dos vencedores da Escolha do Leitor do Prêmio Empreendedor Social 2023

O presidente do Brasil era Fernando Henrique Cardoso. O carro mais vendido ainda era o Gol, e a novidade era o Celta. A Apple lançava o iPod e ninguém imaginava o iPhone. Quem vendia mesmo era o Nokia 3310 com seu jogo da cobrinha, que só um em cada seis brasileiros tinha.

A música vinha em CD e os sucessos a gente conhecia pelo rádio. "O Clone" estreava na TV Globo, o país assistia todo junto: a mesma história, no mesmo canal, no mesmo horário. As correntes de email ainda circulavam em larga escala. A China era a sexta economia do mundo, atrás de França e Reino Unido.

As Torres Gêmeas do World Trade Center ainda estavam de pé. O ano era 2001, e foi nele que se sancionou a Lei 10.257, o Estatuto da Cidade, ferramenta que se propôs a reger o futuro das cidades brasileiras.

Nesse momento muito se sabia sobre o passado, mas dificilmente um legislador poderia prever o futuro. Talvez por isso o Estatuto tenha nascido da necessidade de firmar direitos e garantias, sobretudo as garantias da sociedade diante da propriedade.

O direito à moradia tinha acabado de entrar na Constituição, a Constituição cidadã ainda era uma criança, e as infindáveis emendas que moldariam o Brasil estavam apenas começando.

Bruno Sindona fundou a incorporadora Sindona, que repensa a moradia popular - Renato Stockler - 30.jun.2023/Folhapress

O futuro já caminhava feroz, mas ainda não era percebido. Naquele ano o brasileiro aprendeu a olhar o relógio de luz. Encurtou o banho, trocou a lâmpada, desligou o que dava.

Um país inteiro descobrindo a palavra watt. E mesmo assim a palavra energia não aparece nenhuma vez no Estatuto. Era um país ainda acertando as contas do século 20 quando os desafios do século 21 chegaram, sem aviso e sem tradução.

Cidades que cresciam e se favelizavam depressa demais, sufocadas por uma frota de carros que não parava de aumentar. Oito em cada dez brasileiros já moravam em cidades. A urbanização tinha acontecido, as cidades ainda não.

Hoje, 25 anos e mais de 40 milhões de habitantes depois, temos mais linhas telefônicas que os brasileiros. As redes sociais dominam as interações humanas. A música chega pela internet, e as produções televisivas mais famosas também.

A fibra ótica chegou a quase todo o território nacional e, onde ela não chega, a Starlink chega. A China é a segunda maior economia e está a caminho de tomar a liderança tecnológica. As Torres Gêmeas foram derrubadas, e o mundo que parecia previsível em 2001 nunca mais pareceu.

Um extraterrestre que lesse esses retratos concluiria que o futuro chegou e que estamos indo bem. Longe disso. Favelas que nunca diminuíram, pelo contrário, aumentaram, e muitas delas hoje são territórios dominados por milícias e facções. Nas cidades se vive mal, se perde a vida e o tempo no trânsito. A água e o esgoto não chegam para todos. E talvez a única coisa comum a todos seja a crescente sensação de insegurança.

Existe uma linha clara entre o que se desenvolveu rápido e o que não se desenvolveu. Onde a disrupção legal ou tecnológica chegou, o desenvolvimento aconteceu de maneira exponencial. O déficit habitacional ainda não acabou, mas o que o Minha Casa Minha Vida fez é de outra ordem: 7,7 milhões de moradias contratadas, com Estado, financiamento e mercado alinhados.

Ainda há um oceano a nadar nas tecnologias construtivas e no combate à burocracia, e vale dizer que o programa entregou casa e nem sempre entregou bairro. Mas o veículo funciona.

A energia elétrica hoje no Brasil sobra. Há problemas de preço causados por excesso de oferta. Mercado livre, produção sustentável ficando barata, entrante novo toda hora. E os gargalos de distribuição, que ainda existem, vão sendo resolvidos.

Esse mesmo modelo é o que falta no território, nas cidades. A implementação dos planos diretores se mostrou temerária na maioria dos municípios, e, por isso, a ausência de planejamento metropolitano eterniza o caos das grandes cidades.

Sem instrumento que funcione para trazer de volta o imóvel obsoleto e abandonado, o país acumula 11,4 milhões de domicílios vazios, quase o dobro do seu déficit habitacional. Não falta casa. Falta casa onde tem gente.

Toda lei é escrita na língua do seu tempo, e a de 2001 não tinha palavra para o mundo em que a gente vive. O cinema tinha eleito esse mesmo ano como o ano do futuro e o colocou no espaço. Esqueceu de dizer como ele seria aqui no chão.

A inteligência artificial promete a maior mudança tecnológica da era moderna. A medicina vai nos fazer viver e conviver por muito mais tempo, e gente vivendo mais muda calçada, transporte e moradia.

A eletrificação e a digitalização estão nas ruas das maiores cidades, com carro integrado ao sistema de trânsito e monitoramento contínuo. E as cidades que mais crescem no Brasil já não são as metrópoles, são as do interior. O clima não é previsão. É calendário.

Vinte cinco anos depois, não se trata de rasgar o que foi escrito. Trata-se de escrever a segunda parte. Um novo Estatuto da Cidade que valide o que a primeira versão conquistou, a função social da propriedade, o plano diretor, o direito de quem já mora, e que acrescente o que ela não tinha como nomear: o clima, a energia, a cidade construída para continuamente se transformar.

E, além disso, que traga a mecânica que sempre faltou, com método, recursos e alguém que responda.