segunda-feira, 22 de junho de 2026

Os 95 anos de FHC e a era da elegância perdida, Fabiano Lana, OESP

 Ex-presidente afirma no Fórum Estadão que o País não é composto 'só de mercado'. Crédito: TV Estadão

No dia 18 de junho último, os jornais e as redes brasileiras amanheceram com mais um desdobramento do escândalo do Banco Master, nessa história de horror cômico sem fim. Os novos fatos, sempre desairosos, acobertaram a efeméride dos 95 anos completados pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Não que sua era fosse imune a escândalos ou escolhas questionáveis, mas ficou para trás um período em que se percebia um rumo para o país, gostássemos ou não. Sobretudo, foi um momento de mais elegância e menos vulgaridade dos líderes, não só aqui, mas em todo o mundo.

O  ex-presidente Fernando Henrique Cardoso
O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso  Foto: Jonne Roriz / Estadão

PUBLICIDADE

Não se trata de nostalgia imaginar que o passado seja melhor do que o presente. Hoje, no embalo das redes, vivemos em sociedades mais horizontais, com mais espaço para todos os tipos de pensamento se manifestarem, sem filtros. Em contrapartida, também de mais atrito, mais exibicionismo, vulgaridade rotineira e menos direção. O que se tinha na gestão FHC era uma espécie de tríplice objetivo para o Brasil, que envolvia preocupação com a área social, responsabilidade fiscal e abertura para o mundo e para a iniciativa privada. Daí vieram políticas como Bolsa Escola, que em 2003 se transforma no Bolsa Família, o foco no ensino fundamental, as privatizações e os seguidos superávits fiscais.

O dramático é que toda vez que os governantes tentaram alterar essa rota, o País se perdeu. À despeito da enorme agressividade retórica com o antecessor, o primeiro governo do Partido dos Trabalhadores, comandado por Lula, não alterou a macroestrutura concebida por Fernando Henrique. Lula não é um reformista como foi FHC. Sua crença é de um estado forte que possa nos levar ao desenvolvimento econômico e avanços sociais, modelo que dá sinais de exaustão, mas que não foi criado por ele.

O caso de Dilma Rousseff é exemplar. Tentou, de fato, remodelar o Estado brasileiro. Determinou que o governo financiasse empresas escolhidas para serem os “campeões nacionais”. As decisões sobre como o país iria crescer seriam de cima para baixo. O gigantismo das ações abriu a porta para a entrada de esquemas corruptos. Com o lema “gasto é vida”, também descuidou da questão fiscal e o resultado foi uma recessão retumbante da qual até hoje ainda não nos recuperamos e ajudou a abrir a porta para opções mais extremas da política.

Tanto os presidentes Michel Temer como Jair Bolsonaro tentaram dar um passo a mais nas políticas liberais do tucano. Temer aprovou a reforma trabalhista. Bolsonaro, a da Previdência. Mas ambos tiveram os governos prejudicados por uma série de motivos, sejam os aliados políticos, acusações de corrupção, o atávico corporativismo brasileiro, a resistência de empresários em competir e mesmo traços de personalidade. Aliás, uma das críticas mais recorrentes ao governo do PSDB, as alianças com setores de direita, se repetiram com todos os sucessores. Governabilidade pressupõe realismo e FHC tentava tocar o paradoxo de modernizar o país em aliança com setores do atraso.

Publicidade

De certa forma, o Brasil que dá certo - apesar de tudo - tem o DNA do governo Fernando Henrique. Ainda não apareceu um formulador do que seja o pós-FHC. O trágico, em nossa história, é que o próprio foi abandonado pelos aliados logo ao deixar o poder, seja por interesses próprios ou por causa de crises circunstanciais, como a de 1999, quando o governo não conseguiu sustentar o controle cambial e a inflação teve um repique.

imagem newsletter
newsletter
Política
As principais notícias e colunas sobre o cenário político nacional, de segunda a sexta.
Ao se cadastrar nas newsletters, você concorda com os Termos de Uso e Política de Privacidade.

Sem continuidade, o Brasil pode ter perdido o fio da história e entrado no caminho pernicioso dos populistas. Em sua longa trajetória como congressista, é preciso lembrar, Jair Bolsonaro se juntava aos integrantes do Partido dos Trabalhadores nos momentos de ataques hostis a FHC. Em muitos temas, pensavam igual.

Com 95 anos e Alzheimer avançado, FHC parece não se lembrar de que foi presidente do Brasil. Pouco a pouco, o reconhecimento à sua gestão tem chegado e se consolidado. No Brasil e no mundo, tem sido cada vez mais impossível eleger figuras como ele – alguém que, após pensar seu País academicamente, teve a chance de comandá-lo.

O grito deu lugar ao argumento. As decisões eleitoreiras destroem as formulações de longo prazo. A defesa intransigente dos próprios valores tomou o lugar do diálogo entre os diferentes. E não temos, nos tempos atuais, alguém com a estatura de Fernando Henrique para se contrapor a tudo isso. FHC não deixou sucessor.

Alan Greenspan, ex-presidente do Fed, morre aos 100 anos, OESP

 lan Greenspan, ex-presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central americano), morreu nesta segunda-feira, 22, aos 100 anos. O falecimento foi comunicado por Andrea Mitchell, correspondente-chefe da NBC News em Washington, e esposa do economista.

PUBLICIDADE

“Alan faleceu em nossa casa esta manhã, aos 100 anos de idade, devido a complicações da doença de Parkinson”, disse ela em comunicado.

Em quase duas décadas como presidente do Federal Reserve, ele cultivou um longo período de prosperidade, navegou por crises e foi uma força poderosa e polarizadora na formulação de políticas favoráveis ​​ao mercado.

Considerado o mais importante formulador de políticas econômicas de sua época e, possivelmente, o economista mais reconhecido de todos os tempos, Greenspan liderou o banco central sob quatro presidentes, de ambos os partidos, de 1987 a 2006.

Publicidade

Considerado o mais importante formulador de políticas econômicas de sua época, Alan Greenspan morreu nesta segunda, aos cem anos.
Considerado o mais importante formulador de políticas econômicas de sua época, Alan Greenspan morreu nesta segunda, aos cem anos. Foto: Divulgação/Federal Reserve ima

Grande parte de seu mandato coincidiu com um período de prosperidade, no qual ele se destacou como a personificação de uma vertente triunfante do capitalismo americano pós-Guerra Fria: otimista, confiante no poder dos mercados para melhorar os padrões de vida, fascinado pelo poder da tecnologia e avesso à regulamentação.

Mas a marca ideológica que ele imprimiu na formulação de políticas também passou a ser associada às consequências destrutivas de forças que surgiram durante seu mandato, incluindo a desregulamentação do setor bancário e de Wall Street, a perda de empregos americanos devido ao livre comércio e as preocupações persistentes com bolhas nos preços das ações e dos imóveis./Com NYT

Seção Tendências / Debates completa 50 anos como arena de divergências, FSP

 Naief Haddad

São Paulo

No dia 4 de abril de 1983, a zona sul de São Paulo viveu um dia de fúria. Um protesto contra o desemprego no largo 13 de Maio, em Santo Amaro, deu lugar a uma explosão popular, com lojas e supermercados saqueados. Mais de 100 pessoas ficaram feridas, e cerca de 70 foram detidas.

"A dose não deve se repetir", disse o chefe do policiamento da capital paulista. Mas no dia seguinte foi ainda pior. Em torno de mil manifestantes tentaram invadir o Palácio dos Bandeirantes, sede do governo estadual. Não conseguiram ocupar o espaço, mas derrubaram parte das grades de proteção.

Grande grupo de manifestantes derruba grade metálica em calçada durante protesto ao ar livre. Pessoas seguram faixas com mensagens, e há árvores e postes ao fundo.
Manifestantes derrubam parte das grades de segurança do Palácio dos Bandeirantes no dia 5 de abril de 1983 - Matuiti Mayezo/Folhapress

Depredações aconteceram em outras regiões além da zona sul, e um homem morreu, baleado, durante um saque no Jardim São Luis. O aumento dos tumultos levou a mais de 300 prisões.

Franco Montoro, então governador de São Paulo, negociou com os líderes dos protestos e, aos poucos, a situação se tranquilizou.

Aqueles dias de cólera tiveram acompanhamento da reportagem da Folha, mas não só. A indignação popular foi discutida sob os mais diversos ângulos na seção Tendências / Debates, lançada pelo jornal havia quase sete anos.

Nascido em 22 de junho de 1976, o espaço se consolidava em meio à fervura como uma arena aberta às divergências, uma iniciativa incomum na imprensa brasileira.

Redação ampla com várias pessoas sentadas em longas mesas organizadas em formato retangular, manuseando papéis e documentos. O espaço tem piso e colunas revestidos por mosaico, iluminação fluorescente no teto e várias estações de trabalho com máquinas de escrever e telefones. Ao fundo, outras pessoas estão em pé conversando ou caminhando pelo ambiente.
Redação da Folha em 1976, quando o jornal lançou a seção Tendências / Debates - Folhapress

Nas edições seguintes aos protestos de 1983, Tendências / Debates publicou artigos do então vice-governador, Orestes Quércia, do presidente da Associação Comercial de São Paulo, Guilherme Afif Domingos, e do padre Paul-Eugène Charbonneau. E ainda do médico do Sindicato dos Metalúrgicos e ex-deputado federal David Lerer, e dos professores da USP José Pastore e Reginaldo Prandi, entre outros.

Cada leitor que tirasse suas conclusões a partir dos argumentos desfiados por líderes da política e da economia, além de expoentes da sociedade civil. O pluralismo exposto naquele momento em Tendências / Debates estaria no cerne do Projeto Folha, amadurecido ao longo dos anos 1980.

O parágrafo que abre a seção é praticamente o mesmo meio século depois: "Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo".

Essa introdução foi escrita por Cláudio Abramo, diretor de Redação naquela época.

"A seção nasceu em meados dos anos 1970, em plena ditadura. Hoje, a convivência de opiniões livres, divergentes e até contraditórias parece algo natural. Naquele contexto, porém, era uma ousadia. O princípio de ouvir diferentes vozes e expor mais de um lado de cada questão acabou por se espalhar pela imprensa brasileira, tornando-a menos engajada, mais plural e, por consequência, mais independente", afirma Luiz Frias, publisher da Folha.

Nestas cinco décadas de existência, Tendências / Debates publicou artigos de todos aqueles que estiveram à frente da Presidência da República no período da redemocratização.

No início de outubro de 1992, em meio ao processo de impeachment, Fernando Collor foi afastado das suas funções no Planalto. No final daquele ano, renunciou.

Um ano depois do afastamento, saiu na Folha o texto "Pois É, pra quê?", em que Collor concluía: "Com a consciência tranquila e a certeza do dever cumprido, aguardo pela justiça dos homens".

Em abril de 2019, quando estava preso em Curitiba, Luiz Inácio Lula da Silva escreveu um artigo intitulado "Por que têm tanto medo do Lula livre?" para o Tendências / Debates. "Tudo o que quero é que apontem uma prova sequer contra mim", afirmou.

Em novembro de 2024, duas semanas antes de ser indiciado pela Polícia Federal por crimes como tentativa de golpe de Estado, Jair Bolsonaro assinou um texto na seção cujo título era "Aceitem a democracia". Rendeu mais de 500 comentários no site da Folha, a maioria absoluta contrária à publicação.

Esses e outros artigos de Tendências / Debates foram reunidos no livro "A Palavra e o Poder - uma Travessia Crítica por 40 Anos de Democracia Brasileira", lançado no ano passado pela editora Civilização Brasileira.

O espaço também tem destacado pontos de vista de líderes do Legislativo e do Judiciário. Ao encerrar seu período de dois anos como presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), o então ministro Luís Roberto Barroso apresentou o balanço das suas iniciativas na seção.

"Considero Tendências / Debates, da Folha, um dos espaços mais importantes da imprensa brasileira, em termos de conteúdo e repercussão. Publicar ali é uma forma qualificada de participação no debate público, aberto tanto para integrantes da sociedade civil quanto para agentes políticos", afirma Barroso, que deixou o STF em outubro do ano passado e retornou à advocacia.

"Eu mesmo, sempre que há algum tema relevante em relação ao qual possa dar alguma contribuição, sou colaborador", complementa.

Entre os nomes da sociedade civil a que se refere Barroso, está José Vicente, advogado e reitor da Universidade Zumbi dos Palmares.

"Sou um dos homens negros que mais publicaram em Tendências / Debates e vi o negro sair da invisibilidade e chegar a matéria de capa na Folha. Plural, diverso, independente e disruptivo, é um espaço privilegiado de debate e um instrumento poderoso de transformação", afirma José Vicente.

Homem negro veste terno azul escuro, camisa azul clara e gravata amarela, posando contra fundo branco liso.
O reitor da Universidade Zumbi dos Palmares, José Vicente, durante o lançamento do livro "A Palavra e o Poder - Uma Travessia Crítica por 40 Anos da Democracia Brasileira" em outubro de 2025 - Ronny Santos/Folhapress

Entre os intelectuais que já publicaram na seção, estão Abdias Nascimento, Celso Furtado, Florestan Fernandes, Rose Marie Muraro e Sueli Carneiro –os artigos desses cinco autores também estão no livro "A Palavra e o Poder".

"Em tempos de polarização, um espaço como Tendências / Debates é de suma importância para a troca de ideias de forma plural, diversa e respeitosa, algo fundamental para a nossa democracia", afirma Patricia Blanco, presidente do Palavra Aberta, instituto dedicado à liberdade de imprensa e à educação midiática.

De acordo com ela, colaboradora da seção, "são 50 anos promovendo as mais importantes discussões para o Brasil, onde o respeito ao contraditório e as opiniões divergentes estimulam o diálogo, pensamento crítico e a liberdade de expressão".

Frei Betto é outro nome que contribui regularmente com a seção. "Louvo Tendências / Debates por ser um espaço democrático, de opiniões diferentes e divergentes, inclusive em relação à linha editorial do jornal", diz o escritor.

Controvérsias

Tendências / Debates tem se notabilizado ainda como um espaço aberto às controvérsias. As trocas de críticas –em tom às vezes duro, mas respeitoso– são constantes.

Em 1º de outubro de 2007, o apresentador Luciano Huck escreveu um texto considerado por ele como um "desabafo" em relação à insegurança na cidade de São Paulo.

"Passei um dia na cidade nesta semana —moro no Rio por motivos profissionais— e três assaltos passaram por mim. Meu irmão, uma funcionária e eu. Foi-se um relógio que acabara de ganhar da minha esposa em comemoração ao meu aniversário. Todos nos Jardins, com assaltantes armados, de motos e revólveres", afirmou.

Uma semana depois, o jornal publicou no mesmo espaço um artigo do escritor Ferréz em resposta a Huck. Fez um texto em primeira pessoa, como se fosse o motoboy que roubou o relógio do apresentador. "A hora estava se aproximando, tinha um braço ali vacilando. Se perguntava como alguém pode usar no braço algo que dá pra comprar várias casas na sua quebrada", escreveu.

Mais adiante, o jornalista Reinaldo Azevedo divergiu de Ferréz com veemência e, dias depois, o cantor e compositor Zeca Baleiro criticou Huck e Azevedo.

Naquele mês, o assunto dominou o Painel do Leitor. Os autores dos quatro artigos receberam "vaias e aplausos" dos leitores, como diz Sérgio Dávila, diretor de Redação da Folha.

"Se o jornal é a praça pública aberta que se contrapõe ao condomínio fechado das redes sociais, uma iniciativa como a de Tendências / Debates é o coreto da praça, em que as ideias se apresentam para seu público, para vaias e aplausos. A longevidade da seção mostra o acerto dela", afirma o jornalista.

Quase uma década depois, em março de 2016, ano em que Dilma Rousseff foi afastada da Presidência, Wagner Moura escreveu na seção o artigo "Pela legalidade". O ator considerava o processo de impeachment um "golpe clássico".

Dois dias depois, o jornalista André Barcinski respondeu ao ator com o texto "Coisa de Cinema". Dizia que, "a exemplo dos melhores cineastas e roteiristas, Moura criou uma narrativa fantástica que serve totalmente ao gosto de seu público-alvo".

Como havia ocorrido muitas vezes antes desse episódio e aconteceria tantas outras depois, vieram "vaias e aplausos" aos textos de Tendências / Debates. Erguido há meio século, com mais de 36 mil artigos publicados, o "coreto da praça" continua movimentado.