quarta-feira, 9 de setembro de 2026

O gargalo da infraestrutura agora é gente- Mauricio Portugal Ribeiro -FSP

 O Brasil resolveu, em duas décadas, o problema que parecia insolúvel: como financiar infraestrutura. Em 2025, os leilões de concessões e PPPs (parcerias público-privadas) realizados na B3 contrataram R$ 183 bilhões em investimentos (capex), além de R$ 61 bilhões em obrigações de operação e manutenção —e o calendário de 2026 mantém o ritmo. O gargalo, porém, mudou de lugar: não está mais no capital, está nas pessoas que executam.

Os sinais vêm de todos os lados. Nas universidades, o país formou 128,9 mil engenheiros em 2018 e apenas 95,6 mil em 2023, segundo o Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira); as matrículas em engenharia civil caíram de 358 mil para 172 mil desde 2015.

No canteiro, a sondagem da FGV Ibre mostra 41,6% das empresas da construção apontando a falta de profissionais como obstáculo aos negócios —o maior índice desde 2011—, e levantamento apresentado pelo Senai (Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial) e pela CBIC (Câmara Brasileira da Indústria da Construção) vai além: 94% das construtoras relatam escassez e 76% já reveem cronogramas por falta de gente.

A imagem mostra dois homens em uma estação de higiene. Um deles, vestido com um uniforme vermelho e capacete, está à esquerda, enquanto o outro, usando uma camiseta cinza e capacete, está à direita. Eles estão interagindo com um equipamento de higiene, que parece ser um dispensador de água ou desinfetante. Ao fundo, há um painel com instruções e informações sobre higiene, além de um aviso em destaque com a palavra 'HIGIENE'.
Operários trabalhando em um empreendimento residencial no bairro Ipiranga, zona sul de São Paulo - Rubens Cavallari - 27.fev.25/Folhapress

A idade média do trabalhador da construção subiu de 37,4 anos em 2012 para 41,2 em 2023, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística): as aposentadorias não estão sendo repostas.

Os dados mais recentes confirmam a pressão. Em julho, o país criou apenas 58 mil empregos formais, o pior julho desde 2020 —mas um em cada cinco foi na construção civil, e as obras de infraestrutura já ampliaram seu quadro em 25% neste ano, segundo o Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados). E isso com o desemprego está em 5,3%, o menor da série.

Nos preços, o teste decisivo: o custo da mão de obra na construção subiu 9,94% em 12 meses, o dobro da inflação, e as vagas continuam abertas. Quando a remuneração sobe e o trabalhador não aparece, a escassez virou fato econômico. E a demografia agrava o quadro: a população em idade ativa atingirá o pico em 2033, segundo o IBGE, e passará a encolher —justamente no auge de execução das obras ora contratadas.

Não é a primeira vez. No ciclo do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) e das obras da Copa, o "apagão de mão de obra" foi manchete —e sumiu sem ser resolvido, porque quem o resolveu foi a recessão de 2015, eliminando a demanda.

Outros países enfrentaram a mesma colisão com métodos, não com recessões. A Austrália publica anualmente um relatório que cruza a carteira de obras públicas com a força de trabalho disponível —e o governo o usa para decidir o que licitar e quando. O Japão, historicamente fechado à imigração, criou em 2019 um visto de "habilidades específicas" para 14 setores em escassez, incluindo a construção. A lição comum: formar trabalhadores é variável lenta; sequenciar obras e atrair braços são as variáveis rápidas.

O que fazer no Brasil? Primeiro, industrializar a construção —pré-fabricação e produtividade— para erguer mais com menos gente. Segundo, desenhar uma política migratória laboral estruturada.

O país já tem os instrumentos —Lei de Migração moderna, Acordo de Mobilidade da CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa), logística da Operação Acolhida —e os candidatos: cerca de 680 mil venezuelanos e dezenas de milhares de haitianos e cubanos.

Falta transformar acolhimento humanitário em política de trabalho, o que exige que conversem os ministérios que hoje se ignoram, Justiça, Trabalho, Itamaraty e Transportes, sob a Casa Civil, que já coordena a Operação Acolhida e a carteira de concessões sem conectá-las.

Terceiro, revalidar por via expressa os diplomas de engenheiros imigrantes. Quarto, sequenciar: medir a capacidade de execução do mercado antes de fixar o calendário de leilões —licitar tudo ao mesmo tempo é fabricar o próprio risco de inexecução.

Por fim, a dimensão contratual. Nos contratos de concessão, custo e prazo das obras são riscos do concessionário: escassez de mão de obra não gera direito a reequilíbrio, e o atraso é punido com desconto tarifário e multa.

Isso não protege o Estado: os licitantes dos próximos leilões precificarão o risco de não encontrar braços, em tarifas mais altas ou outorgas menores, e a conta chegará ao usuário e ao Tesouro pela porta da frente. Medir a capacidade de execução antes de licitar é interesse fiscal do concedente. O país aprendeu a assinar contratos bilionários. Precisa agora aprender a contar mãos antes de assiná-los.

Fachin cancela sessão do STF após Dino reintegrar Andrei ao comando da PF - FSP

 O presidente do STF (Supremo Tribunal Federal) cancelou a sessão do plenário prevista para esta quarta-feira (9), após o novo capítulo da maior crise da história recente da corte.

Mais cedo nesta quarta, o ministro Flávio Dino determinou a recondução de Andrei Rodrigues ao cargo de diretor-geral da Polícia Federal (PF). Ele foi afastado do cargo pelo magistrado André Mendonça, na terça (8).

Homem idoso com cabelo grisalho e óculos fala em microfones, sentado em cadeira de couro marrom, veste toga preta e gravata azul.
O presidente do Supremo, Edson Fachin - Adriano Machado - 12.ago.2026/Reuters

Na ocasião, o ministro justificou a decisão em razão da produção de um relatório interno da PF usado pelo ministro Alexandre de Moraes, do STF, para pedir uma investigação contra o próprio Mendonça por abuso de autoridade, improbidade administrativa e crime de responsabilidade na condução do caso do Banco Master e do INSS (Instituto Nacional do Seguro Social).

A maioria da Segunda Turma do Supremo referendou o afastamento de Andrei. Já Dino, que tomou a decisão na investigação relacionada a suspeitas de irregularidades em emendas relacionadas à produção do filme "Dark Horse", sobre Jair Bolsonaro (PL), disse que sua decisão teria que ser exclusivamente ser referendada pelo plenário da corte, que hoje é composto por dez integrantes.

Fachin, então, cancelou a sessão que estava prevista para o início da tarde desta quarta.

O Supremo vive um momento de tensão e desgaste institucional desde a revelação das mensagens trocadas entre o ex-banqueiro Daniel Vorcaro e Moraes, nas quais o dono do Master pede informações sobre o andamento do processo contra seu banco, pede encontros com o ministro e inclusive questiona se deveria fugir do país.


Operação resgata 479 trabalhadores em condições análogas à escravidão, FSP

 Luany Galdeano

Brasília

Uma operação coordenada pelo Ministério do Trabalho e Emprego resgatou em agosto 479 trabalhadores que atuavam sob condições análogas à escravidão, em ações que ocorreram em todas as regiões do país. A estimativa dos órgãos envolvidos é que os empregadores paguem R$ 3,49 milhões em verbas rescisórias devidas às vítimas.

Entre os resgatados, 13 eram crianças e adolescentes e 66 eram migrantes vindos da Argentina, Uruguai, Paraguai, Bolívia, Venezuela, Burkina Faso, Senegal e Guiné-Bissau. A maioria dos casos ocorreu em Minas Gerais, onde 208 pessoas atuavam sob regime análogo à escravidão.

A Operação Resgate, que ocorre todo ano, realizou 231 ações fiscais no país. A força-tarefa contou com a participação do Ministério Público do Trabalho, do Ministério Público Federal, da Defensoria Pública da União e da Polícia Federal.

Pessoa agachada colhendo batatas em campo aberto sob céu azul. Sacos grandes cheios de batatas estão ao lado.
Trabalhador em fazenda na zona rural de Estrela do Sul (MG); estado teve maior número de vítimas resgatadas em operação de combate à escravidão - Divulgação/Operação Resgate VI

O trabalho análogo à escravidão inclui todo tipo de atividade feita sob condições degradantes e jornada excessiva. Na operação, os fiscais identificaram irregularidades trabalhistas e de segurança, como irregularidade nos contratos, alojamentos precários, condições inadequadas de higiene e falta de equipamentos de proteção.

O governo vai emitir 1.836 autos de infração, dentre eles de trabalho infantil, informalidade, descumprimento de normas de saúde e segurança no trabalho. Nas ações da Operação, foram encontrados 1.192 trabalhadores sem registro do contrato de trabalho.

O Ministério Público do Trabalho firmou três termos de ajuste de conduta, quando empresas aceitam corrigir irregularidades para se ajustar à lei, e ajuizou quatro ações civis públicas para responsabilizar os empregadores. Até agora, os valores de dano moral coletivo totalizaram R$ 455,5 mil e o de dano moral individual chegou a R$ 675,5 mil.

O maior número de casos foi no meio rural, que correspondeu a 57,5% das fiscalizações e 292 vítimas resgatadas. Havia trabalhadores em condições análogas à escravidão em cultivos de café, cebola e batata-inglesa. Já no meio urbano, a maioria foi identificada no ramo de construção civil, com 85 resgatados.

Em Minas Gerais, onde houve o maior número de casos, uma operação foi focada em trabalhadores que atuavam em uma fazenda na zona rural de Estrela do Sul, cidade no Triângulo Mineiro. A maioria era de senegaleses e de migrantes de Burkina Faso, na África. As vítimas trabalhavam na colheita de batatas sem registro em carteira, acesso a instalações sanitárias e água potável.

Em São Paulo, houve o resgate de uma trabalhadora doméstica de 51 anos, na Zona Leste da cidade, que atuava com uma mesma família desde os 11 anos. Ao longo de 40 anos, ela nunca foi registrada formalmente como empregada, nem recebeu salário de maneira regular.