quarta-feira, 19 de agosto de 2026

Deirdre Nansen McCloskey - Glorioso amadorismo, FSP

 Eu me queixei dos amadores que pensam saber o suficiente sobre economia para dar suas opiniões amadorísticas.

Mas a palavra "amador", em ambas as nossas línguas, vem do latim amare, amar. Não tenho a menor reclamação sobre pessoas que amam economia ou qualquer outro estudo sério da economia, como sociologia econômica, história econômica ou economia política. Gosto disso desde os 19 anos. Naquela época, eu era socialista e acreditava que um Estado supervisor fosse o melhor caminho para ajudar os pobres. À medida que fui me profissionalizando e aprendendo sobre a economia e o Estado, mudei de opinião sobre o meio para ajudar os pobres. No entanto, continuo sendo uma amante do assunto.

Mas, assim como você, tenho muitos outros temas e atividades que amo, embora não os exerça profissionalmente. Quanto aos temas: quando criança, eu adorava astronomia —até perceber que a astronomia é física aplicada e a física é matemática aplicada. Contudo, muito mais tarde, li um livro acadêmico sobre astronomia e me interessei muito pela comparação com a ciência econômica, que eu já dominava razoavelmente bem. Eu era uma "mestre" em economia, mas apenas uma "amante" da astronomia. Recentemente, retomei o interesse e assisti fascinada às aulas da The Teaching Company sobre lentes gravitacionais causadas pela matéria escura e sobre a evolução do Universo.

Vista detalhada da superfície da Lua mostrando várias crateras de diferentes tamanhos, com sombras que destacam a textura irregular do terreno.
Lua vista da nave Orion durante a missão Artemis 2, em abril - Li Rui - 7.abr.26/Xinhua

Quanto às atividades, durante o ressurgimento da música folk dos anos 1960, fui uma violonista e cantora entusiástica, porém totalmente incompetente. Meu amigo da faculdade Hal era um violonista brilhante de Nova York, que conhecia pessoalmente profissionais como Joan Baez e Bob Dylan. Mas, profissionalmente, Hal tornou-se professor de direito.

E eu, durante décadas, fui corredora de longa distância. Mas era totalmente incompetente, a corredora mais lenta da história do mundo —ao contrário do meu amigo da vida acadêmica Gary, que figurou no ranking mundial de corredores de longa distância em todas as faixas etárias, dos 20 aos 80 anos. Mesmo Gary, porém, assim como Hal com o violão folk, é um amador —apenas um amante— em sua adorada corrida, sendo profissionalmente um economista e administrador acadêmico.

Fazemos ambas as coisas. O amadorismo é maravilhoso, parte de uma vida humana plena, possível em um mundo moderno e rico, onde tais interesses de amador —hobbies, atividades não profissionais— podem ser cultivados com tal dedicação, ainda que com certa incompetência. Meu amigo, o grande crítico literário Wayne Booth (1922-2005), escreveu um livro intitulado "For the Love of It: Amateuring and Its Rivals" (1999) (Apenas por amor: amadorismo e seus rivais, em tradução livre). Nele, Wayne defendia, por exemplo, sua própria execução incompetente do violoncelo. Ele começou a tocar já adulto, tarde demais para alcançar a excelência no instrumento. Wayne não estava sendo falsamente modesto; tenho outro amigo que costumava tocar com ele num quarteto e confirmava essa incompetência.

Por que, perguntava Wayne, as pessoas se dedicam ao amadorismo em um mundo que valoriza tanto o profissionalismo e paga quantias elevadas pelos melhores profissionais? A resposta dele —e a minha— está no título do livro: "Apenas por amor". Por amor ao jogo bonito e à bela pintura —mesmo que não sejamos Pelé ou Tarsila do Amaral—, chutamos uma bola ou empunhamos um pincel e, com amor, contemplamos o trabalho dos melhores, graças aos mercados na era da reprodução mecânica.

Viver nesta época é um privilégio e uma glória.


Brasil vê disparada na apreensão de 'maconha gourmet' produzida nos EUA, FSP

 Raquel Lopes

Brasília

A apreensão no Brasil de maconha procedente dos Estados Unidos cresceu e, nos primeiros sete meses de 2026, já supera o volume registrado durante todo o ano passado, segundo dados da Polícia Federal.

As apreensões de produtos vindos dos EUA passaram de 236,39 kg em 2024 para 664,74 kg em 2025. Entre janeiro e julho deste ano, o volume chegou a 897,66 kg, alta de 35% em relação a todo o ano passado.

Com o Canadá, que passou a aparecer com maior peso nas apreensões a partir de 2025, o volume procedente dos dois países chegou a 1,032 tonelada nos primeiros sete meses de 2026, ante 1,016 tonelada no total do ano passado.

Dois policiais federais, um com colete preto escrito 'Polícia Federal' e outro com colete marrom, estão de costas em plantação com centenas de vasos pretos organizados em fileiras sob estrutura metálica.
Polícia Federal durante operação no Brasil de combate ao tráfico de drogas - Polícia Federal - Divulgação

Segundo investigadores da Polícia Federal, o avanço da maconha com origem na América do Norte está ligado ao alto valor comercial devido a maior concentração de THC —principal componente psicoativo da droga— e à facilidade de transporte em cargas menores.

Conhecido como "maconha gourmet", o produto pode alcançar preço por quilo próximo ao da cocaína e, em alguns casos até o superar.

Enquanto a maconha prensada tradicionalmente vinda do Paraguai apresenta entre 2% e 8% de THC, flores produzidas na América do Norte podem chegar a 30%, ainda de acordo com investigadores. Em produtos concentrados, o teor pode superar 50%.

A maior concentração também muda a logística do tráfico. Em vez de transportar toneladas de maconha prensada, organizações criminosas podem movimentar cargas menores e de maior valor, com retorno financeiro semelhante e menor custo de transporte.

Investigadores atribuem essa diferença no THC ao desenvolvimento da indústria legal de Cannabis nos Estados Unidos e no Canadá, que impulsionou investimentos em melhoramento genético, seleção de sementes e técnicas mais sofisticadas de cultivo.

Segundo investigadores, organizações criminosas passaram a incorporar esses avanços tecnológicos ao mercado ilegal, tanto por meio do acesso a produtos de maior potência quanto a técnicas mais sofisticadas de cultivo.

A maconha produzida na América do Norte chega ao Brasil principalmente por remessas postais e passageiros usados como mulas. Nas encomendas, a droga costuma ser camuflada em embalagens de suplementos e outros produtos.

Os aeroportos de Guarulhos e Viracopos, em São Paulo, Confins, em Minas Gerais, e Galeão, no Rio de Janeiro, estão entre os principais pontos de entrada identificados.

Há também rotas indiretas, com o Paraguai —maior fornecedor de maconha prensada— funcionando como entreposto para cargas originárias de outros países, inclusive dos EUA.

Recentemente, autoridades paraguaias apreenderam 311 kg de maconha em uma carga procedente dos EUA que, segundo as investigações, tinha o Brasil como destino.

Além de EUA e Canadá, investigações já identificaram maconha com maior concentração de THC procedente do Uruguai e da Colômbia, países onde o desenvolvimento do cultivo legal também favoreceu avanços genéticos.

O Marrocos permanece como uma das principais origens do haxixe que chega ao Brasil. Segundo investigadores, parte desse comércio aproveita as próprias rotas internacionais da cocaína: barcos pesqueiros e veleiros levam a cocaína em direção à África e à Europa e podem retornar carregados com haxixe marroquino.

Mais recentemente, investigadores passaram a identificar em aeroportos brasileiros cargas procedentes da Tailândia com produtos de maior valor agregado.

Pacote retangular embalado em plástico transparente contendo maconha compactada. Rótulo colorido com folhas de cannabis e texto estilizado 'Indar Kalifa'. Indicação 'THC 30%' no canto superior esquerdo.
Pacote apreendido pela polícia indica na embalagem conter THC de 30% - Polícia Federal - Divulgação

No âmbito doméstico, a produção brasileira se expandiu e passou por transformações. O cultivo ilegal, historicamente concentrado no chamado Polígono da Maconha, no interior de Pernambuco e em áreas vizinhas, já é identificado pelas autoridades em uma faixa mais ampla do território, com indícios de plantações do Pará ao norte de Minas Gerais.

Não houve apenas uma expansão geográfica. Segundo investigadores, a maconha produzida no país passou por um salto de qualidade. Análises já identificaram plantas cultivadas no Brasil com concentrações de THC entre 11% e 15%, acima dos percentuais normalmente encontrados na substância prensada paraguaia.

Uma das hipóteses é que produtores brasileiros estejam incorporando material genético e técnicas desenvolvidas no exterior. Apurações já encontraram, por exemplo, sementes de origem colombiana em plantações no país.

A Polícia Federal busca combater essa produção por meio da erradicação das plantações e da investigação das estruturas financeiras que sustentam o cultivo. A estratégia procura alcançar financiadores e integrantes das organizações criminosas.

As ações, segundo investigadores, buscam reduzir a capacidade de abastecimento dos grupos criminosos e elevar os custos da produção.

A Polícia Federal atua em duas frentes de erradicação de plantações de maconha: a Operação Carcará, realizada no Brasil, e a Operação Nova Aliança, desenvolvida no Paraguai em parceria com as autoridades locais.

No Brasil, o uso recreativo da maconha não foi legalizado, mas o porte para consumo pessoal deixou de ser crime após decisão do STF (Supremo Tribunal Federal), que estabeleceu 40 gramas de Cannabis ou cultivo de seis plantas-fêmeas como parâmetro para presumir o uso próprio.

Isso não significa que essa quantidade esteja liberada: a droga pode ser apreendida e o usuário pode ficar sujeito a medidas administrativas.

O limite também não é absoluto, ou seja, quantidades menores podem ser consideradas tráfico se houver indícios de comercialização, enquanto portar mais de 40 gramas não caracteriza automaticamente o crime.

Já para fins medicinais, produtos à base de Cannabis podem ser prescritos e comercializados ou importados conforme as regras da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), e há casos em que pacientes obtêm autorização judicial para cultivar a planta para o próprio tratamento.

A Anvisa também regulamenta a produção de Cannabis com até 0,3% de THC para fins medicinais e farmacêuticos por pessoas jurídicas autorizadas, além de prever regras específicas para pesquisa.

O Brasil da castração química não quer saber do diesel caro ou dos juros nos EUA, VTF FSP

 

Em uma semana, o Brasil deve estar discutindo ideias brilhantes como castração química, "prendeu, matou", a lotação de prisões com adolescentes para alimentar tropas do PCC ou as maneiras pelas quais o governo federal vai impedir roubo de celular aí na sua calçada.

Vai começar a campanha eleitoral na TV; vai aumentar a torrente de mentiras e burrice nos grupos de zap e outras mídias atrozes. Ou melhor, apenas talvez as pessoas se ocupem disso já na semana que vem. Segundo marqueteiros políticos, está grande o desânimo de "nós, o povo", com a eleição.

Ainda que assim seja, é difícil que assuntos como altas de taxas de juros nos mercados do centro do mundo, superendividamento de governos ou superinvestimento no complexo de inteligência artificial possam concorrer com castração química ou com o próximo escândalo de corrupção que vai ser anunciado, vazado ou manipulado.

Bandeira dos EUA hasteada em frente a um posto de gasolina na Califórnia - Mario Tama - 11.mai.26/Getty Images via AFP

No entanto, há sinais de febres econômicas e financeiras, que vão e voltam faz uns cinco anos. São sintomas de doenças que talvez demorem para aparecer e causar dano maior. Mas convém prestar atenção, pois essas febres afetam nossa vidinha.

O preço do galão do diesel foi a US$ 5,47, na média dos Estados Unidos. A média do mês de abril foi de US$ 5,50, a mais alta desde a guerra de Donald Trump contra o Irã. A gente se esqueceu do diesel, até porque no Brasil o combustível é subsidiado pelo governo. Mas o diesel não se esqueceu de nós.

O preço aumenta mais rápido do que o do petróleo, dados estoques baixos e gargalos de refino. O barril do Brent subiu para uns US$ 90, por causa da guerra malparada ou sem fim pelo estreito de Hormuz. Diesel mais caro nos EUA é pressão sobre empresas ou preços aqui.

O repique do preço dos combustíveis deve ter ajudado a elevar as taxas de juros de financiamento de déficits e dívidas dos governos do mundo rico por estes dias —essas taxas costumam ser o piso do custo do dinheiro em uma economia.

Diz-se também que essa alta é facilitada pelos déficits enormes dos governos, pela dívida que cresce sem controle (como nos EUA), governos que de resto disputam dinheiros, financiamentos, com empresas do complexo de IA. E daí?

Para começar pelo problema mais caseirinho, juros mais altos nos Estados Unidos dificultam a queda das taxas por aqui, assim como pressionam o câmbio (o dólar fica mais caro), tudo mais constante. Para continuar, uma alta contínua de juros nos EUA pode causar acidentes financeiros: derrubar o preço das ações ora na estratosfera, encarecer ou cortar o financiamento e refinanciamento dos investimentos brutais em IA ou criar outros meios de detonar a euforia, que é o que tem levado adiante o PIB dos EUA.

Ninguém sabe quando os donos do dinheiro vão começar a cobrar muito mais para emprestar a governos com endividamento crescente.

Ninguém sabe quando esses ciclos de superinvestimento (ou, talvez, bolhas) em novas tecnologias murcham ou explodem. Pode ser em outubro. Pode levar anos. Depois dos primeiros alertas, a bolha "ponto.com", de internet, levou quase meia década para explodir, em 2000.

O que temos visto são ondas curtas de febres, sintomas de problemas ruins nas economias, no caso sintoma de dívidas enormes, que aumentaram muito no pós-crise de 2008 e na pandemia e não foram contidas. O que se vê nessa febrinha de agora é que o fenômeno tem afetado ao mesmo tempo EUA, Europa e Japão. O Brasil vai junto.