Morreu nesta terça-feira (22), aos 95 anos, Zuenir Ventura, um dos maiores jornalistas do Brasil, escritor e membro da Academia Brasileira de Letras. O autor de "1968 - O Ano que Não Terminou" estava em sua casa, no Rio de Janeiro, e não resistiu a uma pneumonia.
A informação foi confirmada pela ABL, onde o escritor será velado nesta quarta-feira (23) e enterrado no mausoléu dos imortais.
Zuenir foi uma voz importante na defesa dos direitos humanos, transmitindo numa escrita límpida os resultados de seus esforços de repórter em temas prementes da sociedade brasileira ao longo dos anos.
Em seu livro mais famoso, retratou a juventude dos anos 1960, um momento de ebulição de movimentos progressistas em todo o planeta e de combate à ditadura militar que recrudescia no Brasil.
O autor também ajudou a ampliar a compreensão sobre a exploração da Amazônia, com sua cobertura do caso Chico Mendes, nos anos 1980. E analisou a violência e a desigualdade no Rio de Janeiro com o livro "Cidade Partida", escrito após acompanhar a vida em Vigário Geral nos meses que se seguiram à chacina de 1993 na comunidade carioca —uma edição especial de 30 anos do livro acaba de ser publicada por sua editora, a Companhia das Letras.
Zuenir Carlos Ventura nasceu em 1º de junho de 1931 em Além Paraíba, no sul de Minas Gerais, e passou a infância na também mineira Ponte Nova, onde estudou num colégio religioso do qual sua mãe esperava que saísse padre.
Porém, tal qual o Bentinho de Machado de Assis, a vocação, como dizia Zuenir, era da mãe e não dele. "Não tenho religião, nem digo que sou católico", disse à Folha por ocasião de seus 90 anos, após tecer elogios ao papa Francisco.
Aos 11 anos, foi com a família para Nova Friburgo, onde passou a acompanhar o pai no ofício de pintor de paredes, foi contínuo em diferentes comércios e jogou basquetebol. Bolsista numa escola particular, passou a dar aulas para os mais novos e, então, descobriu sua vocação de professor.
Mudou-se para o Rio de Janeiro em busca de um diploma do magistério e cursou letras neolatinas na atual Universidade Federal do Rio de Janeiro, um curso que tinha entre seus professores Manuel Bandeira e Alceu Amoroso Lima.
Mestre Zu, como ficou conhecido entre seus ex-alunos e entre repórteres, acabou por formar uma legião de jornalistas, seja na universidade, seja nos diversos veículos de mídia em que atuou.
Começou no Tribuna da Imprensa, jornal de Carlos Lacerda, como arquivista, enquanto ainda cursava a faculdade. Passou por uma formação em jornalismo em Paris no começo dos anos 1960. Atuou, entre outros, no jornal Correio da Manhã, no Jornal do Brasil e nas revistas Cruzeiro, Fatos e Fotos, Visão, Veja e IstoÉ.
"Nunca tive medo de deixar um jornal e ficar desempregado. Quando ficava meio chateado, ia pra outro", disse ele à série "Depoimentos para Posteridade", do Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro.
Zuenir foi reconhecido por seu trabalho nas principais premiações do jornalismo. Ganhou os prêmios Esso e Vladimir Herzog em 1989 pela série de reportagens "O Acre de Chico Mendes", publicada no Jornal do Brasil, e levou o segundo lugar na categoria de reportagem do Jabuti de 1995 com "Cidade Partida".
Em 2008, dividiu com Caco Barcellos, Henfil, José Hamilton Ribeiro e Ricardo Kotscho o Troféu Especial de Imprensa da ONU, entregue àqueles que se destacaram na defesa dos direitos humanos na mídia.
Pouco antes, lançou "Minhas Histórias dos Outros", livro mais tarde ampliado, no qual escreveu sobre personalidades com as quais conviveu, como Glauber Rocha, Betinho e Carlos Drummond de Andrade, e narrou sua relação com Genésio Ferreira da Silva, a testemunha do assassinato de Chico Mendes que Zuenir conheceu no Acre e que acolheu em sua casa, no Rio, dos 13 aos 21 anos.
Ele também enveredou pela ficção em "Sagrada Família", de 2012, no qual romanceia suas memórias de infância e adolescência com ares de Nelson Rodrigues.
Em 2015, tornou-se imortal, sendo recebido na Academia Brasileira de Letras na cadeira que havia sido de Ariano Suassuna.
"De fora há essa imagem de que é uma chatice, são 40 velhinhos que se reúnem toda semana para tomar chá, mas é muito divertido", apontou ele aos 90 anos, confinado em seu apartamento por causa da pandemia de Covid-19, dizendo sentir falta das reuniões da ABL. "É agradável e tem muito humor. Nós velhinhos temos muito humor."
Em 1962, quando estava na Tribuna, Zuenir conheceu a também jornalista Mary Akiersztein, com quem se casou. A partir dali, ela seria sua parceira por toda a vida. Em 1968, os dois foram presos e enviados ao Departamento de Ordem Política e Social (Dops) do Rio. Ali, ela ficou presa por um mês e ele, por três, em parte com os escritores Ziraldo e Hélio Pellegrino.
"Eu e o Hélio jogávamos basquete na prisão durante os 15 minutos de banho de sol. Numa confusão do Hélio com o time de basquete dos militares, acabamos transferidos e isolados por desacato à autoridade", contou Zuenir sobre esse período na cadeia, no testemunho dado ao MIS em 2011.
À ocasião, ele também disse: "Tenho qualidades e defeitos, e uma coisa que hoje está fora de moda chamada otimismo. Espero que quando eu morrer o otimismo esteja na moda".
Em maio de 2022, a tendência ainda não voltara à voga e, em entrevista ao jornal O Globo, onde foi colunista, ele contou que fazia uma pausa na escrita: "Seja no Brasil, seja lá fora, só tem notícia ruim. Não dá para escrever sem vontade".
O otimista Zuenir deixa a mulher, Mary, dois filhos, Elisa e Mauro, e dois netos, Alice e Eric.
