Editor do Painel Econômico (atual Painel S.A.) em 1986, revelei que a Cobrasma (Companhia Brasileira de Material Ferroviário) publicara na Gazeta Mercantil, no último dia do ano, uma pequena nota, sem a logomarca, confirmando o que o mercado temia.
A coluna informou que a empresa alterara a estimativa de resultado para o exercício de 1986: de um lucro estimado de aproximadamente R$ 50,4 milhões para um prejuízo equivalente a cerca de R$ 66 milhões (valores atualizados).
A Cobrasma fez projeções com base "na expectativa" de correção de preços de seus produtos, criadas "por fontes autorizadas do governo, ora por meio de insinuações ora por meio de informações verbais oficiosas".
A economia trabalhava com preços congelados durante o Plano Cruzado.
Luís Eulálio de Bueno Vidigal Filho, então presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo e dirigente da Cobrasma, manteve diálogo cordial com este colunista. (*)
Vidigal morreu na segunda-feira (29), aos 87 anos. Estava em tratamento de doença renal crônica.
Seis meses antes da nota, a Cobrasma fizera a maior emissão de ações da história. Colocou à venda 25,5 bilhões de ações, com base em projeções otimistas (o governo era o principal cliente) e a garantia firme dos bancos Bradesco, Crefisul e BCN.
Além dos três bancos, perderam com a operação 124 instituições financeiras e milhares de pequenos e médios investidores.
A emissão ainda estava em andamento quando um leitor alertou: a cada dia o papel valia menos.
Era um "mico", no jargão do mercado.
No dia em que identifiquei a nota da Cobrasma, conversei por telefone com um técnico da CVM (Comissão de Valores Mobiliários), no Rio de Janeiro. Descrevi os fatos sem identificar a companhia.
É um caso de polícia, ele disse.
Ouvi, em São Paulo, o diretor financeiro da Cobrasma, Ércio Pinto Tavares. "Os aplicadores têm razão de achar ruim, de se sentirem frustrados. Mas a empresa tem patrimônio e tem tradição. Tivemos apenas um ano errado, um azar desgraçado", disse.
Nos dias seguintes, não consegui contato com Vidigal. Enviei ofício à Cobrasma, com timbre da Folha, informando que publicaríamos nova reportagem.
Meia hora depois, Vidigal telefonou-me. Propôs um acordo. Eu o procuraria diretamente, antes de publicar fatos sobre a empresa. Deu-me os telefones pessoais e o de sua fazenda.
Vidigal tornou-se uma boa fonte da coluna.
Em março de 1991, ele me ligou na hora do almoço. Avisou que entraria com pedido de concordata no final da tarde.
Os advogados sustentaram que a Cobrasma "foi engolida, atropelada pelo caos da economia nacional". Atribuíram as dificuldades da empresa aos "desmandos pela orientação vacilante e contraditória que vem sendo imposta à nação".
Em 1987, o Conselho de Recursos do Sistema Financeiro Nacional, órgão paritário, derrubou multas milionárias aplicadas pela CVM.
O então procurador da República Antônio Augusto César perdeu o prazo para recorrer de decisão do então juiz federal João Carlos da Rocha Mattos favorável ao empresário. César foi alvo de sindicância em 1989.
Vidigal havia sido denunciado sob acusação de crime contra o sistema financeiro nacional. Rocha Mattos rejeitou a denúncia. Considerou-a inepta, pois não alcançava os dirigentes dos bancos.
O procurador e o juiz foram investigados em 2003 na Operação Anaconda, que desbaratou quadrilha que negociava decisões da Justiça Federal. Rocha Mattos foi preso.
Depois da primeira reportagem, recebi telefonemas com provocações. Pedi a Ney Figueiredo, amigo de Vidigal e então consultor da Fiesp, para avisar o empresário.
"Diga ao Fred que eu posso não ser inteligente, mas burro eu não sou. Eu não faria isso."
Os telefonemas pararam.
Lembrei-me desse episódio ao ler, no Valor, comentário de Vidigal quando Mario Henrique Simonsen, então ministro do Planejamento, o indicou para o Conselho Monetário Nacional: "Mario, não sei se sou ilibado ou não. Mas notório saber econômico, definitivamente não tenho".
(*) "Anatomia da Reportagem" - Frederico Vasconcelos (Publifolha - 2007), págs. 30-34