sexta-feira, 2 de outubro de 2026

Hélio Schwartsman - O currículo de Flávio Bolsonaro -FSP

 O ponto forte da democracia é assegurar que governantes reprovados nas urnas entreguem o poder pacificamente, não favorecer a escolha de bons líderes —o que, infelizmente, ela não faz. A melhor prova disso é a possibilidade muito real de Flávio Bolsonaro (PL) ser eleito presidente da República.

O currículo do senador e candidato é uma longa sucessão de suspeitas. Começa com as rachadinhas, na Alerj, passa pela incrível loja de chocolates que, ao contrário de todo o mercado, não via suas vendas majoradas na Páscoa e pela compra de uma mansão em Brasília por valor incompatível com seus rendimentos e patrimônio conhecidos. A história de como as cortes superiores abortaram essas investigações está por ser contada. A escalada de desconfianças culmina no singelo pedido de R$ 134 milhões ao famigerado Daniel Vorcaro. Tirando as suspeitas, o que salta aos olhos no currículo de Flávio Bolsonaro são suas ligações com milicianos.

Homem de cabelos curtos e escuros veste camisa branca e está em ambiente interno com fundo escuro. Um grande círculo vermelho desfocado aparece em primeiro plano à direita.
O candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) - Brian Snyder - 29.set.26/Reuters - Brian Snyder/REUTERS

E quanto ao risco institucional? Um princípio elementar do Estado de Direito é o de que a culpa de um criminoso não se transfere para seus familiares. É Jair e não Flávio que foi, com seus corréus, condenado por tentativa de golpe. E é por isso que o senador está em pleno gozo de seus direitos políticos e pode concorrer à Presidência. Isso dito, é preocupante a ameaça de Flávio de subir a rampa ao lado do pai. Um indulto presidencial aos golpistas reverteria o que talvez seja o único avanço institucional que obtivemos na história no que diz respeito ao controle do Estado sobre militares.

O adversário de Flávio Bolsonaro, Lula, tem é claro sua própria lista de pecados, ainda que de outra ordem. Aludi a alguns deles numa coluna publicada poucos dias atrás. Nem deveria ser necessário dizê-lo, mas a tarefa do jornalismo de opinião é criticar, de preferência com propriedade, tudo o que pode ser criticado em qualquer campo político. Cabe ao jornalismo informar e subsidiar argumentações, não substituir a faculdade de julgar do eleitor, por mais imperfeita que seja.

O voto de quem não quer escolher- Priscilla Bacalhau FSP

 Quantas brigas por política ocorreram na sua família desde as eleições de 2018? Quantos relacionamentos foram rompidos, amigos de longa data que não se suportam mais? A polarização política se tornou parte da vida cotidiana brasileira. Nas últimas eleições, a situação culminou numa diferença de apenas 2 milhões de votos entre Lula e Bolsonaro. Ainda assim, há quem permaneça no meio.

De um lado, estão aqueles que não votam no bolsonarismo sob nenhuma circunstância. Não é uma rejeição a um único partido, até porque, se hoje a família está concentrada no PL, houve antes uma trajetória por diferentes legendas. Para esse eleitorado, a rejeição está associada ao conjunto de ideias e práticas identificadas com a extrema direita, às ameaças às instituições democráticas e às suas relações com milícias e crime organizado.

Do outro lado, estão os que não votam no PT de Lula sob nenhuma circunstância. No antipetismo, pesam as lembranças de escândalos de corrupção e as críticas à condução econômica e fiscal dos governos petistas. Há quem se sinta traído por Lula. Para estes, uma lista de políticas públicas bem-sucedidas dificilmente bastará para mudar sua posição.

Nesses polos, a escolha está mais baseada na rejeição a um lado que na identificação com o outro.
Mas há quem não se identifique com nenhum dos dois. São saudosos de uma terceira via viável, de uma alternativa às duas faces dessa polarização. São mães de família que enfrentam dificuldades concretas na criação dos filhos. São idosos que já ouviram muitas promessas não cumpridas. São jovens desesperançados que viram suas famílias se dividirem por causa de política e não veem sentido em tomar uma posição.

O que está em jogo para essas pessoas é como suas vidas serão afetadas pelo próximo governo. Saúde, educação, segurança, emprego, custo de vida. Na falta de esperança de que qualquer um dos principais candidatos possa trazer melhora na qualidade de vida, fica difícil escolher em quem votar. Na dúvida, a abstenção parece ser a saída.

É preciso reconhecer a dificuldade da tomada de decisão para esses eleitores. Nenhuma opção agrada, ou ambas desagradam fortemente, e é difícil comparar propostas quando as campanhas são majoritariamente compostas por ataques.

A abstenção pode ser a resposta mais fácil, mas também a mais ingênua. Um cidadão pode até abrir mão de exercer seu poder de escolha, mas sofrerá as consequências do resultado. Na nossa democracia, não existe ficar em cima do muro: todos serão afetados pela escolha alheia.

Por mais difícil que seja, vale a pena investir algum tempo para comparar o histórico dos candidatos. Quando nenhum nome convence, a decisão precisa ser feita por outros critérios. Quais evidências existem de que são qualificados para o cargo? Quais de seus projetos foram aprovados? Quem se beneficia de suas políticas e quem pode ser prejudicado? Quais são as denúncias que enfrentam?

Em uma eleição polarizada, votar não precisa significar ter o candidato dos sonhos. Pode significar comparar projetos, trajetórias, evidências e consequências. No fim, alguém precisa ser escolhido.

E o pior cenário para quem não gosta de nenhuma das opções pode ser deixar que os outros escolham por ele.

A arrecadação com as bets e o dinheiro do apostador que não chega ao consumo- FSP

 Guilherme Klein

Professor de economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e pesquisador do Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades da USP (Made-USP)

Na semana passada, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) assinou a medida provisória que proíbe as bets no Brasil. Desde então, o tema domina o debate público, sinal do peso que o setor ganhou em poucos anos. A discussão vai da saúde pública ao financiamento dos clubes de futebol, e o Congresso ainda terá de decidir se converte a MP em lei.

Mesmo quem reconhece os danos das bets costuma fazer uma ressalva: a proibição teria um custo econômico, sobretudo para as contas públicas. Vale, então, olharmos com atenção para esse argumento.

Mãos de pessoa seguram um celular branco com capa azul, exibindo um jogo colorido na tela. A pessoa veste suéter bege e calça preta, sentada com o aparelho próximo ao corpo.
Aplicativo de aposta online em celular - Allison Sales - 3.out.2024/Folhapress

Em análise de agosto, o Centro Celso Furtado e o Comitê Nacional de Secretários de Fazenda (Comsefaz) estimam que as famílias perderam R$ 62,5 bilhões com apostas online em 2025. Esse número é grande, mas ainda tende a subestimar o efeito total na economia.

Ao levarmos em conta que o dinheiro gasto em apostas deixa de ir para bens e serviços que movimentam mais a economia, esse efeito se multiplica. Um exemplo claro é o de alimentação fora de casa: ao pagar a conta em um restaurante, parte do valor é utilizada para remunerar os fornecedores dos ingredientes, outra para pagar os cozinheiros, uma terceira vira salário dos garçons e assim por diante.

Todos esses pagamentos geram uma nova rodada de consumo, o que faz com que a economia gire. É o que chamamos em economia de multiplicador. No caso das bets, esse encadeamento é mínimo, e só parte pequena do dinheiro gasto retorna à economia.

Em estudo do Made-USP (Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades da USP), levamos em conta esse efeito multiplicador do consumo e estimamos que, em 2025, as bets podem ter retirado até R$ 114 bilhões dos demais setores da economia. É importante notar que esses valores já descontam estimativas do que as bets gastam no país —salários, publicidade, patrocínios, outros serviços e o consumo gerado pelos lucros—, com base em estudos encomendados pelo próprio setor e em hipóteses favoráveis a ele. Ou seja, mesmo levando em conta a renda que as bets fazem circular na economia, o efeito sobre os outros setores da economia é muito negativo —equivalente a algo entre 30% e 40% de todo o crescimento de 2025.

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O argumento econômico que tem sido mais usado para criticar a MP é o de que o governo estaria abrindo mão de arrecadação com a proibição. É preciso ter clareza de que esse argumento não parece se sustentar.

Parte expressiva da arrecadação do governo vem de impostos sobre consumo. Ao reduzir de forma tão importante a atividade nos demais setores, nossos cálculos indicam que as bets geraram uma perda de arrecadação entre R$ 23 bilhões e R$ 44 bilhões em 2025. Mesmo descontados os cerca de R$ 9 bilhões arrecadados diretamente com a tributação das apostas, a perda líquida fica entre R$ 14 bilhões e R$ 35 bilhões. Para comparação, o custo total da isenção de Imposto de Renda aprovada em 2025 e que afeta 15 milhões de pessoas custa cerca de R$ 28 bilhões.

O custo para a sociedade é ainda maior quando se consideram os danos à saúde. Estimativas do Ieps (Instituto de Estudos para Políticas de Saúde) indicam que os danos associados a apostas e jogos de azar custam pelo menos R$ 30,6 bilhões por ano. Parte desses custos, como o tratamento, recai sobre o SUS e agrava o efeito sobre as contas públicas.

É importante mencionar também que, além desses efeitos negativos no PIB e no Orçamento público, há evidência de que as bets agravam o endividamento das famílias e podem aumentar a desigualdade.

Na linguagem econômica, custos que uma atividade impõe ao restante da sociedade são chamados de externalidades. A resposta usual é tributá-la: o imposto reduz o consumo e gera receita para compensar os danos. Em princípio, esse poderia ser o caminho para as bets.

Com as evidências disponíveis, porém, não está claro se há tributação alta o suficiente que permita o funcionamento das bets e, ao mesmo tempo, gere arrecadação que compense seus custos.

O que sabemos é que, tal como funcionava até agora, o setor impunha prejuízos enormes aos demais setores da economia e às contas do governo.