quinta-feira, 1 de outubro de 2026

O Ronald McDonald está triste, The News

 

Se um lanche pudesse resumir o desempenho das ações do McDonald's neste ano, seria um pão com picles. Os papéis acumulam cerca de 31% de queda desde a máxima em fevereiro — o que coloca a rede de fast-food no caminho do pior retorno anual desde 2002.

Por que isso está acontecendo? Na prática, os consumidores estão evitando um cardápio que consideram caro demais em meio a um aumento de preços.

(Imagem: Google Stocks)

O CEO da companhia disse que eles enfrentam uma inflação persistente ao redor do mundo. Para se ter ideia, o custo da carne bovina praticamente dobrou nos últimos cinco anos nos principais mercados da empresa, com uma alta de cerca de 14% só no ano passado.

  • O resultado da inflação americana divulgado ontem, por exemplo, foi uma alta de 0,3% — levemente maior que o resultado de 0,1% em julho.

Do lado do consumidor… Nos EUA, maior mercado da companhia, com +13 mil unidades, a empresa projeta vendas levemente negativas neste tri. Isso depois de um crescimento de apenas 0,8% no tri anterior — o ritmo mais lento em mais de um ano.

Para o Mc Lanche voltar a ser feliz, a empresa apresentou um plano chamado Restaurant > NEXT. Entre as medidas estão corte de gastos administrativos com AI e colocar publicidade em telas de autoatendimento e drive-thru.

🍔 Um exemplo do aumento de preço: Entre 1998 e 2025, a inflação do Brasil saltou 385%, enquanto o preço do Big Mac saltou 778% no mesmo período. Nesse período, o preço do sanduíche saiu de R$ 2,95 para R$ 25,90.

quarta-feira, 30 de setembro de 2026

Eleitor deve estar atento às escolhas para o Senado - FSP

 

Fernando Haddad Moura e Matheus Miranda

Respectivamente, diretor-executivo e gerente de estratégia da Legisla Brasil

Historicamente, a atenção dos eleitores à disputa pelo Senado Federal é inversamente proporcional à responsabilidade que a Casa Alta tem para com o país.

Em 2018, último ano em que tivemos duas vagas em disputa por estado, mais de 63 milhões de votos para o Senado ficaram em branco ou foram anulados (quase metade do total). Estão aqui computados os casos de eleitores que chegaram às urnas sem saber que precisavam escolher duas candidaturas para o mesmo cargo, votando duas vezes no mesmo candidato ou não preenchendo o segundo voto. Para a Presidência da República, 11 milhões de pessoas anularam ou deixaram o voto em branco —número cinco vezes menor.

Vista do plenário do Senado Federal, em Brasília - Jonas Pereira - 21.nov.23/Agência Senado

Em 2026, é possível que esses números sigam a mesma tendência. Pesquisa da Quaest de agosto mostra que, próximo ao início das campanhas, 66% dos brasileiros não sabiam que poderiam votar em dois senadores. O desconhecimento vem de antes: 75% dos brasileiros não conseguiram citar espontaneamente o nome de nenhum senador em exercício, de acordo com pesquisa do Datafolha deste ano.

Há razões para esses números. O desenho para a escolha de senadores destoa de todos os cargos eletivos nas nossas eleições. Presidente e governador captam a atenção pelo peso que o Executivo tem no presidencialismo brasileiro. Deputados, por sua vez, estabelecem vínculos mais diretos com municípios e pautas, estando mais próximos do eleitor. No meio do caminho, estão os senadores. Eleitos para oito anos, disputam eleições majoritárias, mas não têm o poder da caneta do Executivo; representam seus estados, mas não estão próximos da realidade local. Na cabeça do eleitor, acabam em segundo plano.

Durante muito tempo, essa lógica também pareceu orientar os partidos. Em 2022, Marcos Pontes (PL), eleito senador por São Paulo, recebeu pouco mais de R$ 4 milhões do partido para sua campanha, menos de 60% do limite estabelecido pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Esse valor não é tão distante dos R$ 3 milhões que candidatos a deputado federal do mesmo partido receberam naquele ano.

Entretanto, em 2026, o comportamento partidário mudou. André do Prado, candidato do PL para o Senado de São Paulo, já recebeu R$ 6 milhões, valor 43% maior do que o destinado para o seu antecessor em 2022 e próximo do teto de gastos de R$ 7,1 milhões estabelecido pelo TSE. Sua opositora Simone Tebet recebeu um montante ainda maior do PSB: R$ 6,5 milhões.

Como nunca antes, o Senado está no centro da estratégia eleitoral dos partidos. Nacionalmente, o PL já destinou R$ 79 milhões para as candidaturas do Senado, valor cinco vezes maior do que no último ciclo eleitoral, enquanto o PT já aumentou o repasse em 36%. Governo e oposição escalaram lideranças de projeção nacional na disputa pelas 54 cadeiras. Em São Paulo, a base do governo reuniu duas ex-ministras, Simone Tebet e Marina Silva, na disputa pelas duas vagas do estado.

Essa mudança de peso parece vir do cálculo político. Os últimos anos mostraram como o Senado têm o potencial de mudar radicalmente os rumos do país. Em um intervalo de apenas uma década, os senadores derrubaram a primeira mulher presidente da República por crime de responsabilidade e, pela primeira vez desde 1894, não aprovaram a indicação de um presidente para o Supremo Tribunal Federal (STF).

Em meio ao maior escândalo financeiro de nossa história, com investigações que envolvem 6 dos 10 atuais ministros do STF, esse poder projeta dimensões ainda maiores. A nova legislatura pode definir não só eventuais processos de impeachment contra esses nomes como também votará pela aprovação da indicação de ao menos três novos integrantes da corte.

Neste ano, 54 das 81 cadeiras estarão em disputa. Os resultados que veremos nas urnas definirá a composição majoritária da Casa para os próximos oito anos e será uma das variáveis centrais da relação entre Executivo, Congresso e Supremo. Os partidos parecem já ter entendido isso. O eleitor, pelos dados disponíveis, ainda não.

O que a guerra cultural sobre Nossa Senhora pode ensinar ao mundo, Rui Tavares, FSP

 Em bom rigor, eu não queria escrever sobre as eleições no Brasil; mas escrevi um livrinho sobre guerras culturais ("Hipocritões e Olhigarcas: Passado e Futuro das Guerras Culturais", que saiu há uns meses no Brasil pela editora Tinta da China) e o que aconteceu esta semana no Brasil parecia quase um fim alternativo para ele.

Vocês sabem do que eu estou falando: Flávio Bolsonaro anunciando que iria decretar como primeiro ato da sua Presidência que "o Brasil é do senhor Jesus" e o incômodo que ela causou, em setores católicos e não só, pela plausibilidade de que isso pusesse em causa o estatuto de Nossa Senhora Aparecida como padroeira do Brasil.

Multidão de fiéis dentro da Basílica de Aparecida, iluminada por grandes janelas com padrões geométricos. Crucifixo central em destaque acima da congregação.
Multidão de fiéis participa das celebrações do dia de Nossa Senhora Aparecida, dentro da Basílica de Aparecida - Rubens Cavallari - 12.out.25/Folhapress

No livro eu deixei uma definição prática de guerra cultural que operava em três eixos: um acontecimento que polariza a sociedade; construído em torno de narrativas, identidades e valores; de grande intensidade emocional.

O que ficou de fora é verdadeiro impacto econômico e social do evento: ele pode ser nulo ou modesto, pode até não mudar nada na vida das pessoas que estão febrilmente empenhadas na guerra cultural, que isso não determina a importância da guerra cultural.

Do ponto de vista material, muito mais importante é a tecnologia associada à difusão da guerra cultural. Não por acaso, algumas das guerras culturais mais memoráveis estão associadas a revoluções comunicacionais que lhes ampliaram em muito o impacto.

O primeiro exemplo estudado é o de Lutero e da imprensa. Em si, o tópico que levou o jovem teólogo alemão a insurgir-se contra a igreja de Roma —a compra de indulgências por parte dos fiéis— não tinha uma dimensão econômica tão grande quanto isso; o protesto que Lutero lavrou nas suas 95 teses poderia ter passado despercebido não fosse a invenção recente da imprensa que o espalhou rapidamente em panfletos e cartazes aos milhares pela Europa fora.

Foi aliás quando vi uma imagem circulando nas redes que punha Lula e figuras do imaginário católicos ao lado de Nossa Senhora Aparecida contra um campo onde pontificavam Flávio Bolsonaro, Donald Trump, Javier Milei e outros, com Lutero acima deles, que decidi que esta coluna tinha de sair.

Na base de qualquer estratégia vencedora numa guerra cultural está a construção de maiorias: ao posicionar os interesses dos fiéis alemães contra os da Igreja de Roma, Lutero construiu maiorias identitárias no seu tempo.

Quando se diz uma frase aparentemente inócua como "o Brasil é do senhor Jesus", tenta criar-se uma maioria de cristãos contra não cristãos. O que aconteceu na desmontagem dessa frase foi a criação de outra maioria: católicos, sim, mas também fiéis de outras religiões, ateus e até evangélicos não autoritários defendendo a ideia de um Brasil mais festivo e convivial.

O conteúdo dessa última conflagração na guerra cultural brasileira é tão específico que não dei conta de que tenha sido muito falado no exterior. Mas o mundo teria muito a aprender se tivesse prestado atenção: cada guerra cultural é uma tentativa de construir maiorias, e vimos aqui como no mesmo povo, com o mesmo eleitorado e a mesmas identidades, basta uma mudança sutil na construção de narrativas para se formarem maiorias alternativas com valores por vezes opostos.