domingo, 28 de junho de 2026

Investimento bilionário vai transformar lama vermelha em matéria-prima verde para indústria de aço, OESP

 O que fazer com 180 milhões de toneladas de rejeito do minério de bauxita geradas por ano no mundo na fabricação de alumina, que no final desta década poderão superar 210 milhões de toneladas? Esse é um dos grandes problemas ambientais da indústria do alumínio, que busca soluções para dar uma destinação sustentável à chamada lama vermelha.

PUBLICIDADE

Na Alunorte, maior refinaria de alumina do mundo, em Barcarena (PA), 40 quilômetros ao sul de Belém, projeto de separação de minerais contidos na lama vermelha poderá se transformar num grande negócio. Um produto de alto valor é o ferro metálico de baixo carbono, cobiçado por siderúrgicas; outro é a escória (silicato de alumina), para uso em fornos de cimenteiras.

O projeto é conduzido pela New Wave, empresa de tecnologia sustentável em mineração, criada em 2019 e que tem como acionistas o empresário Gustavo Emina e a gestora de ativos Lorinvest (controladora), além de fundos internacionais, como o Orion Resources e o Just Climate. A empresa desenvolveu a tecnologia, patenteada, de micro-ondas.

Publicidade

Por meio da Wave Aluminium, a empresa está em fase adiantada de instalação de uma unidade de demonstração no site industrial da Alunorte, fabricante do grupo norueguês Hydro, do setor de alumínio, em Barcarena (PA). Nessa fase, o investimento é de R$ 250 milhões para produção de 50 mil toneladas ao ano. A previsão é de entrar em operação em novembro.

A WA é especializada em transformar resíduos, como a lama vermelha do minério de bauxita processada, em matérias-primas de elevado valor comercial, caso do ferro metálico (mais conhecido como ferro-gusa), utilizado na fabricação de aço. O ferro metálico de baixo carbono, com alto teor ferrífero, é elemento relevante na descarbonização da siderurgia, que busca a redução de emissões de CO₂.

O plano da New Wave é, no passo seguinte, montar um complexo industrial capaz de processar 2,2 milhões de toneladas de rejeito por ano em cada módulo. Estão previstos três módulos no site da Alunorte. O investimento para instalar a primeira usina em escala industrial é de US$ 1,5 bilhão (R$ 7,5 bilhões). Emina informa que a empresa buscará sócios investidores, como fundos internacionais de impacto ambiental, e o apoio financeiro do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

Publicidade

Unidade semi-industrial de processamento de resíduos de alumina, da New Wave, está em fase de instalação em Barcarena (PA)
Unidade semi-industrial de processamento de resíduos de alumina, da New Wave, está em fase de instalação em Barcarena (PA) Foto: New Wave/Divulgação

Na produção de alumina — 6,3 milhões de toneladas por ano —, a Alunorte gera cerca de 5 milhões de toneladas de rejeitos. É esse material que será a matéria-prima da WA, de onde vai extrair, por meio da tecnologia de micro-ondas, cerca de 24% do ferro contido no rejeito e cerca de 40% de coprodutos (silicato de alumina) usados na indústria da construção civil, como cimenteiras.

De alguns anos para cá, a lama vermelha da Alunorte sai quase seca (21% de umidade) após passar por filtros-prensa na refinaria. “Essa solução tecnológica da New Wave muda o jogo da indústria do alumínio. Não será necessário construir novos depósitos para colocar o rejeito”, afirma Carlos Neves, Diretor de Operações (COO) da Hydro Bauxita & Alumina.

Emina, da New Wave, afirma: “É uma solução que se mostra viável e sustentável, que está atraindo a atenção de mineradoras de várias partes do mundo. É a mais inovadora do setor mineral”.

Publicidade

O executivo informa que o custo de produção do ferro-gusa, por esse processo, sai em torno de US$ 220 a US$ 250 a tonelada. No mercado brasileiro, o produto é comercializado entre US$ 375 e US$ 410 a tonelada. Nos EUA, entregue em portos locais, atinge até US$ 470 a tonelada.

O primeiro módulo com produção em escala industrial tem previsão de ser instalado na Alunorte e entrar em operação entre 2030 e 2032. Até lá, a empresa terá de obter o licenciamento ambiental e depois mais 28 meses de obras, informa o executivo.

Gustavo Emina é acionista e CEO da New Wave, que tem sociedade com a gestora de investimentos Lorinvest
Gustavo Emina é acionista e CEO da New Wave, que tem sociedade com a gestora de investimentos Lorinvest Foto: Divulgação/New Wave

Ele informa que a planta de demonstração visa gerar produtos para os futuros clientes e, ao mesmo tempo, parâmetros operacionais para a unidade industrial, que terá gestão de um consórcio de investidores a ser constituído após o início da unidade semi-industrial.

Publicidade

PUBLICIDADE

Segundo Emina, a empresa está discutindo acordos para seis projetos nos EUA e na Austrália, grande produtora de alumínio. E há outras frentes de negócios sendo desenvolvidas por duas empresas controladas: a New Wave Rare Earths (para processar rejeitos de terras raras) e a Wave Lithium (voltada ao refino de minério de lítio).

Recuperação de terras raras em rejeitos

Usando tecnologia desenvolvida no centro tecnológico da empresa em Duque de Caxias (RJ), a New Wave visa também o mercado de terras raras, a partir da recuperação de óxidos contidos em rejeitos (lama vermelha) gerada do beneficiamento da bauxita para fazer alumina.

Emina cita que o minério explorado em Poços de Caldas (MG) e na Jamaica, grande minerador de bauxita, são fontes ricas em elementos de terras raras.

Publicidade

A New Wave Rare Earths tem plano de montar uma planta-piloto em Duque de Caxias, que está na fase de engenharia, ao lado da New Wave Tech, onde são desenvolvidas as tecnologias que dão origem a novas empresas do grupo, depois de comprovadas.

O plano é trabalhar com fonte secundária (recuperação de rejeitos) e primária (minério de terras raras). A empresa tem uma área própria de minério de terras (argilas iônicas), em Goiás, onde pretende extrair e concentrar óxidos, como cério, escândio, lantânio, praseodímio e neodímio. “No longo prazo, a previsão de preços para Nd (Neodímio) e Pd (Praseodímio) é de US$ 230 o quilo”, afirma o executivo. Atualmente está em torno de US$ 110.

Laboratório de desenvolvimento de tecnologias da New Wave, empresa de tecnologia sustentável em mineração, em Duque de Caxias (RJ)
Laboratório de desenvolvimento de tecnologias da New Wave, empresa de tecnologia sustentável em mineração, em Duque de Caxias (RJ) Foto: New Wave/Divulgação

A empresa tem duas áreas com concessões para pesquisa. Segundo Emina, o maior problema na exploração de terras raras é o grau de radioatividade devido à presença de tório e urânio, mas observa que nas argilas iônicas há menor porcentagem desses dois elementos. “Nossa tecnologia vai concentrar e isolar óxidos de terras raras com uso de inteligência artificial e de robótica”.

Paulo Skaf - O populismo vem a cavalo, FSP

 Paulo Skaf

Presidente da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo)

A história nos ensina a desconfiar de presentes gregos. Na política, propostas de apelo fácil costumam desembarcar como o mitológico Cavalo de Troia e chegam embrulhadas em benfeitoria social, mas escondem, no fundo, malefícios que destroem a sociedade. É o que se vê PEC da 6x1 sem o debate que o tema exige.

Sob o pretexto de humanizar o trabalho, oferece-se uma ilusão. E, para sustentá-la, vozes que enganam o povo por votos recorrem ao desdém para ironizar a manifestação legítima de mais de 3.000 entidades produtivas de todo o Brasil, grupo que representa 90% do PIB e a esmagadora maioria dos setores que geram emprego e renda no país.

0
Carteira de Trabalho e Previdência Socia 5.out.2023 - Gabriel Cabral/Folhapress

Ironizar quem alerta para os riscos econômicos não é só uma tentativa de vilanizar quem trabalha pelo Brasil, é fugir do debate técnico. Afinal, é mais fácil debochar da mobilização democrática do que apresentar um estudo de impacto –algo que a PEC, aliás, jamais teve.

Cada setor opera sob uma lógica própria: saúde, transporte, comércio, hotelaria, indústria, agricultura etc. O metalúrgico segue ao turno da fábrica; a enfermeira cobre plantões que não podem deixar um leito descoberto na madrugada; o garçom e o vendedor vivem dos dias de maior movimento, quando a gorjeta compensa.

Padronizar o funcionamento de uma nação por imposição equivale a exigir que todos calcem o mesmo sapato. E o Brasil real não cabe em tamanho único. Para alguns, o calçado número 38 fica apertado, para outros, sai do pé de tão folgado. É preciso abraçar a diversidade do mercado sem hipocrisia e ter empatia e maturidade para entender que o trabalhador deve ter a liberdade de negociar a sua rotina.

No fundo dessa discussão há uma confusão que trata jornada como se fosse escala. Nenhum país do mundo engessa escalas em sua Constituição, porque essa é matéria de negociação, ajustada às especificidades de cada atividade e região, como recomenda o consagrado princípio do acordado sobre o legislado.

A retórica demagógica vende o peixe da folga extra, mas esconde a fatura. O aumento dos custos será repassado aos preços, e a conta chega como inflação no supermercado, na tarifa do ônibus, no boleto do condomínio. Quem mais sente é o trabalhador, em nome de quem se diz fazer tudo isso.

O espelho do atraso está ao lado. Ao reduzir a sua jornada, o Chile colheu desemprego, inflação e mais informalidade. Engessar o emprego é um convite à precarização, ainda mais com 44 milhões de brasileiros na informalidade ou vivendo de bicos. É preciso deixar claro que 44 horas semanais é o teto da jornada no Brasil. Na realidade, a média do brasileiro é de 38 horas semanais.

O caminho da modernidade é outro e aponta para liberdade com proteção, o eixo da PEC 12, do trabalho flexível. Inspirada em países dinâmicos, ela preserva todos os direitos da CLT (13º, férias, FGTS, entre outros) e devolve a decisão ao trabalhador. Permite ao jovem conciliar emprego com a faculdade, a mãe solo ajustar os seus horários e quem deseja ganhar mais seja remunerado por isso.

O Brasil que acorda cedo não cabe numa única escala e não se reconhece na ironia de quem legisla pelos likes ou pelos "closes" e tenta maquiar a realidade. Desenvolvimento não se decreta por capricho ideológico. O Brasil precisa de soluções responsáveis, não de um cavalo de troia populista disfarçado de direito.