quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Tarcísio exonera aliados de Derrite e deve mudar polícias de SP, FSP

 

São Paulo

O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), iniciou nesta terça-feira (3) um processo de exoneração de um grupo de pessoas ligadas ao ex-secretário da Segurança Pública Guilherme Derrite. Só na pasta da Segurança devem ser exonerados ao menos 14 aliados do deputado federal.

Os comandos da Polícia Civil e da Polícia Militar também devem sofrer alterações. Uma das prováveis saídas é a do delegado-geral Artur José Dian, que tem manifestado a amigos a intenção de concorrer a cargo eletivo. Há chances de ser retirado do posto antes do prazo obrigatório para o afastamento.

Na PM, devem ser exonerados o corregedor-geral, o coronel Fabio Sérgio do Amaral, e o chefe do Centro de Inteligência, coronel Pedro Luís de Souza Lopes, ambos tidos como ligados ao ex-secretário da Segurança. A Folha apurou que o comando da PM já teria recebido a ordem para os desligamentos.

Dois homens vestindo ternos escuros e gravatas posam lado a lado em evento ao ar livre. Ao fundo, faixa amarela com números 34 em preto.
O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, o e secretário da Segurança, Osvaldo Nico Gonçalves, durante evento em São Paulo no final de 2025 - Danilo Verpa - 1º.dez.25 /Folhapress

O expurgo dos aliados de Derrite, segundo integrantes da Segurança ouvidos pela reportagem, teria sido uma encomenda feita por Tarcísio ao coronel Henguel Ricardo Pereira, então secretário-Chefe da Casa Militar e coordenador da Defesa Civil, que assumiu a secretaria-executiva da Segurança nesta segunda (2).

O oficial deixou um cargo de maior relevância e prestígio no governo estadual para atender esse pedido pessoal de Tarcísio, irritado com o ex-secretário. O motivo seriam declarações feitas por dirigentes do partido dele, o PP, sobre a corrida ao Senado e ao próprio Governo de São Paulo neste ano.

Henguel foi escolhido por muitos fatores, entre eles o trabalho na Defesa Civil, mas também pesou o fato de ser inimigo declarado de Derrite. Segundo oficiais ouvidos pela Folha, os dois deixaram de conversar após desentendimentos provocados por tentativas de interferência na Casa Militar.

Um dos responsáveis por agravar os atritos entre as pastas seria o então ex-secretário-executivo, Paulo Maculevicius Ferreira, sucedido agora por Henguel.

No Diário Oficial desta terça-feira, alguns desligamentos já foram confirmados. Entre eles do ex-comandante-geral da PM, coronel Cássio Araújo de Freitas, atualmente um oficial na reserva, que vinha ocupando o cargo de chefe de gabinete da secretaria.

Na lista também dos aliados de Derrite a serem exonerados está a assessora Luana Humer Eid, que o deputado federal transferiu de Brasília quando assumiu a pasta e colocou no comando da comunicação da pasta. O deputado voltou para a Câmara, mas ela permaneceu na gestão Nico Gonçalves.

A expectativa é que o único aliado do deputado do PP a permanecer no cargo seja o tenente-coronel Rodrigo Vilardi, coordenador do Centro Integrado de Comando e Controle.

Sobre a mudança do delegado-geral, três nomes estão sendo cotados: os delegados Júlio Gustavo Vieira Guebert, Emygdio Machado Neto e Ivalda Aleixo, a chefe do DHPP (Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa).

A saída no comandante-geral da PM, José Augusto Coutinho, não é da como certa. Cresce, porém, o nome do coronel Carlos Henrique Lucena Folha, coordenador Operacional da PM. Henguel e Lucena teriam entrado juntos na escola preparatória de oficiais do Barro Branco, em 1989, e são próximos.

A gestão Tarcísio de Freitas também exonerou a diretora da Academia de Polícia Márcia Heloísa Mendonça Ruiz, após a crise provocada com a nomeação de delegada supostamente ligada ao PCC. A nova diretora, Fernanda Herbella, assumiu a função na última sexta-feira (30).

Folha procurou a Secretaria da Segurança na noite desta terça para falar das mudanças de aliados de Derrite, mas não houve resposta até a publicação.

Sobre a Academia, a pasta respondeu que "Todas as movimentações e promoções na gestão das forças de segurança de São Paulo seguem critérios estritamente técnicos e visam aprimorar a atuação policial no Estado, com foco no combate ao crime organizado e na proteção das pessoas."

Ruy Castro - Bzzzs e brrrs -FSP

 Há anos, contei aqui que, certa noite, tive de recorrer a meu dentista, dr. Americo, numa emergência. De repente, ouvi ruídos na sala ao lado. Eram sons de brocas, gargarejos, vozes abafadas e um ou outro gemido. Detalhe: estávamos sozinhos no consultório. Perguntei o que era e Americo não se abalou: "É um dentista que trabalhava aqui. Morreu faz tempo. Os clientes que ele atendia também já morreram, mas parece que alguns com o tratamento pelo meio. Devem ter vindo para terminar". Fiquei encantado com a naturalidade com que Americo se referia a um colega já defunto e sua clientela idem. "Não me incomoda", disse. "Ele só começa a trabalhar depois que vou embora."

Ao ler a coluna publicada, temi que ela prejudicasse Americo —quem vai querer frequentar um consultório assombrado? Mas, ao contrário, Americo se espantou com a quantidade de emergências noturnas que passou a atender. Só temia que seus clientes passassem a preferir o dentista fantasma.

Cena do filme 'A Estirpe dos Malditos' (1964), de Anton M. Leader
Cena do filme 'A Estirpe dos Malditos' (1964), de Anton M. Leader - Divulgação

Outro dia, fiquei sabendo que Leonardo, meu cabeleireiro, está passando pela mesma experiência em seu novo salão, numa casinha da velha Ipanema. Durante o dia, tudo corre sem novidades. Mas, nas noites de grandes acontecimentos sociais no Rio, em que as madames o solicitam poucas horas antes dos eventos, é possível escutar, vindo do segundo andar, a faina cortante das tesouras, a vibração dos secadores e o bzzz das maquininhas elétricas. Leonardo me explicou: é o seu falecido antecessor no salão, ainda sendo solicitado pelas clientes também já falecidas e cujo cabelo continua a crescer depois de elas terem feito a passagem.

É fácil entender por que as pessoas de quem se diz que foram desta para melhor insistam em se manter fieis aos profissionais que as atendiam em vida. Acham difícil desapegar de especialistas a quem se acostumaram. E, quando sabem que seu dentista ou cabeleireiro também morreu, retomam o contato. Com sorte, reencontram até a antiga secretária.

Talvez alguém faça brrr ao ler isto. Quem manda acreditar na vida eterna?

Que diferença faria se a Europa fosse uma federação?, Rui Tavares, FSP

 Pouca gente sabe, mas o primeiro autor a propor uma União Europeia foi alguém que acabara de chegar das Américas. Chamava-se William Penn, inglês e fundador da Pensilvânia. Em 1693, ele imaginou um Parlamento europeu para garantir a paz entre as nações do continente que deixara para trás.

Do outro lado do Atlântico, observando o estado de guerra permanente na Europa, Penn concebeu a ideia de uma federação. Ironicamente, seriam as Américas a adotar primeiro essa forma política, enquanto a Europa esperaria séculos para a redescobrir.

Quatro bandeiras da União Europeia em pedestal de madeira à direita, com estrelas amarelas sobre fundo azul. Ao fundo, várias bandeiras nacionais dos países membros alinhadas em arco, em salão com estrutura metálica e janelas amplas. Tapete vermelho no chão conduz ao centro da cena.
Bandeiras dos países europeus e da União Europeia em encontro de líderes, na Bélgica - Piroschka Van De Wouw/Reuters

Mas hoje, na própria Europa, o federalismo tornou-se quase uma palavra proibida —a famigerada "palavra começada por F". Muitos nacionalistas europeus acreditam que fazer uma federação significaria enterrar o Estado-nação. No entanto, os países europeus dividem-se, no fundo, em dois tipos: os pequenos e os que ainda não perceberam que são pequenos. Num mundo dominado por potências continentais como a China, a Índia ou os Estados Unidos, o mito da autossuficiência nacional tornou-se insustentável.

Foi essa constatação que inspirou Mário Draghi, ex-primeiro-ministro italiano e ex-presidente do Banco Central Europeu, a defender que a Europa só é respeitada onde aplica políticas federais —como na zona do euro ou no espaço Schengen— e que nunca o será se continuar a limitar-se ao método confederal.

Essas áreas, afinal, já ultrapassam as fronteiras da própria União: há países de dentro que não participam delas, e países de fora que nelas estão. Onde a União é forte —no mercado interno, por exemplo— age como federação; onde é fraca —na política externa, na defesa, na indústria— age como uma confederação e, portanto, hesita.

A diferença entre os dois métodos não é teórica, é prática. O método confederal exige sempre unanimidade e bloqueia o avanço comum; o federal estabelece decisão partilhada e responsabilidade conjunta.

Mas nada na história europeia é puro. Como sempre, o caminho será experimental, feito de transações e improvisos —como, aliás, sempre na Europa. A questão não está em abolir os Estados, mas em partilhar de modo inteligente aquilo que só juntos podem decidir.

A Europa não é um espaço de Estados-nação absolutos: as velhas potências foram cabeças de impérios, as do Leste recém-independentes foram partes deles. Nenhuma viveu isolada.

O seu funcionamento dependia sempre das relações que se estendiam para lá das fronteiras —muitas vezes ainda não desenhadas— das suas comunidades.

Por isso, a União Europeia é, de certo modo, a consequência natural do fim dos impérios e da descolonização. E é também um retorno às ideias americanas: foram as antigas colônias, do outro lado do Atlântico, quem primeiro escolheu a forma federativa.

Assim, não é a federação que ameaça as nações; é a sua ausência. A federação pode ser a jangada de pedra que as protege em tempos revoltos, garantindo-lhes escala, coesão e soberania compartilhada. A Europa chega tarde à sua própria ideia, mas talvez ainda a tempo de aprender, com a herança americana, que o federalismo não é o fim das nações —é a sua continuação possível.