quarta-feira, 24 de junho de 2026

'Vamos todo mundo para selva e vamos ter um ar maravilhoso', diz presidente da Petrobras, FSP

 Nicola Pamplona

Rio de Janeiro

A presidente da Petrobras, Magda Chambriard, afirmou nesta terça-feira (23) que o Brasil precisa decidir se quer gerar impostos e desenvolvimento com a produção de petróleo ou ir para a selva e ter um ar maravilhoso".

"O Brasil tem que entender e se decidir, afinal de contas, qual vai ser o seu futuro e o que ele quer desse futuro. 'Phase away' [políticas para reduzir a produção] de petróleo vai significar abrir mão de R$ 277 bilhões em tributos, porque foi o que nós pagamos no ano passado", disse Magda.

Mulher de cabelos castanhos e óculos escuros veste camisa preta e faz gesto com a mão esquerda apontando para o lado, sentada em frente a parede de vidro com estrutura de madeira.
A presidente da Petrobras, Magda Chambriard, em entrevista à Folha em dezembro de 2025 - Eduardo Anizelli - 15.dez.25/Folhapress

Na presidência da COP30, o governo brasileiro propôs ao mundo a discussão de um mapa do caminho para reduzir gradualmente a produção e o consumo de combustíveis fósseis. A proposta não foi aceita na conferência, mas Brasil e Turquia, sede da próxima COP, seguem trabalhando em um texto.

Após a COP, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) determinou a elaboração de um mapa do caminho brasileiro, para criar "diretrizes para uma transição energética justa e planejada, com vistas à redução da dependência de combustíveis fósseis no Brasil".

Magda disse que o Plano Clima do governo brasileiro tem que considerar "a construção do futuro do Rio de Janeiro, a construção do futuro do Brasil".

"Não tem Plano Clima se não tiver sociedade, né? Então é muito fácil, olha, fecha tudo, vamos todo mundo para selva e vamos ter um ar maravilhoso", afirmou.

O debate sobre a redução da produção de petróleo, porém, vai além da qualidade do ar. Combustíveis fósseis são apontados por cientistas como a principal causa da mudança climática pelo excesso de gases do efeito estufa na atmosfera.

Esse processo torna mais frequentes e intensos eventos climáticos extremos, como enchentes, secas ou queimadas florestais, e tem também impactos econômicos em diferentes setores industriais ou agrícolas.

Magda não citou especificamente os planos de "phase away" brasileiros. Disse em seu discurso que a transição energética "não pode destruir o que estamos construindo". "Não temos vergonha de produzir petróleo", repetiu.

A indústria do petróleo passou a tentar difundir o termo "adição energética" em vez da transição energética, para reforçar a ideia de que o mundo precisará de renováveis, mas em complemento —e não substituição— ao petróleo.

"Temos que falar em adição energética, em soma de esforços, de um país que progride com transição energética, mas aquela transição do nosso tempo. Quando se falava em etanol e em Pro-Álcool, se falava além de petróleo e gás."

Ela participou do lançamento do anuário de petróleo e gás do Rio de Janeiro, elaborado pela Firjan (Federação das Indústrias do Rio de Janeiro). O estado é responsável por quase 90% da produção nacional e altamente dependente das receitas desse setor.

No evento, a Firjan estreou outro slogan em defesa da indústria: "O petróleo está em tudo". "O Rio de Janeiro é petróleo, veste petróleo, se movimenta com petróleo, se alimenta, vive e constrói com petróleo", afirmou o presidente da Firjan, Luiz Cesio Caetano.

Robert J. Shiller - Precisamos parar de surtar com a IA - NYT FSP (definitivo)

 Robert J. Schiller

Economista vencedor do Nobel de Economia e professor emérito da Universidade Yale

The New York Times

O impacto econômico da inteligência artificial é menos preocupante do que as reações de medo dos consumidores a ela.

Momentos após o lançamento do ChatGPT em 2022, seu surgimento rapidamente desencadeou uma enxurrada de prognósticos alarmantes, incluindo a possibilidade de enormes perdas de empregos. Muitos desses alertas vinham dos próprios líderes da tecnologia.

Não é de admirar que os americanos estejam agora extremamente preocupados com o impacto que a IA terá em seus futuros, com uma pesquisa recente revelando que 70% acreditam que a tecnologia reduzirá as oportunidades de emprego.

Ilustração em vetor de um homem de perfil em frente ao computador. Na tela, imagem de uma cabeça com um cérebro artificial. Balões de fala saem do computador e do homem.
Apocalipse no mercado de trabalho causado pela IA é principal temor de consumidores - Artem/Adobe Stock

Como muitos outros, acredito que a IA pode reduzir o emprego. Mas, diferentemente da maioria, não culpo necessariamente a tecnologia em si. Em vez disso, me preocupo com a potência do medo que ela está gerando.

Nossos cérebros são programados para responder a histórias. Narrativas que circulam em uma população podem afetar as decisões econômicas dos indivíduos sobre comprar uma casa grande, enviar os filhos para uma escola particular cara ou até mesmo ter filhos. Quando milhões de pessoas tomam milhões e milhões de decisões baseadas em expectativas negativas, há o risco de que o medo possa realmente ajudar a dar vida à realidade temida.

A ideia de que algo como a IA substituirá muitos empregos humanos remonta a milhares de anos. Aristóteles imaginou um tear mecânico e uma lira que tocasse sozinha um dia substituindo os servos humanos. No século 19, grupos de trabalhadores têxteis (os luditas) destruíram as novas máquinas que acreditavam estar substituindo-os. Na década de 1920, a peça "R.U.R." —as letras significam "Robôs Universais de Rossum"— retratou uma guerra dos robôs contra os humanos.

Esse pessimismo estava presente na Grande Depressão, a década de ruína econômica que se seguiu à quebra da Bolsa de valores de 1929. Muitos fatores contribuíram para tornar aquele período tão difícil quanto foi.

A falta de regulamentação bancária e de política monetária levou a falências bancárias generalizadas, a resposta inicial do Federal Reserve foi fraca e ineficaz, e um regime tarifário punitivo reduziu o comércio global. Muitas dessas causas foram amplamente estudadas; o papel que acredito que as narrativas negativas, incluindo narrativas negativas sobre novas tecnologias, tiveram no clima econômico é menos compreendido.

Como aponta o estudo seminal da economista Christina D. Romer sobre a era, a quebra da Bolsa não causou a Depressão. Não poderia, dado que apenas cerca de 2% das famílias americanas possuíam ações naquela época. O golpe fatal foi um colapso massivo subsequente nos gastos do consumidor, um colapso que ela atribuiu a um início repentino de incerteza generalizada entre os consumidores sobre suas rendas futuras.

Durante a Depressão, a posse de rádios disparou, e a circulação das principais revistas e jornais aumentou à medida que os americanos buscavam os últimos acontecimentos. Algumas das histórias que começaram a circular logo após aquela quebra eram tão memoráveis que ainda ressoam hoje: investidores da Bolsa se suicidando; a letra da música "Brother, can you spare a dime?" (Irmão, pode me dar uma moedinha?); homens em trajes de negócios vendendo maçãs na rua.

Foi também um momento de tecnofobia elevada. O famoso "Admirável Mundo Novo" de Aldous Huxley, publicado em 1932, retrata uma sociedade distópica na qual a tecnologia avançada destrói o livre-arbítrio; a obra-prima de Charlie Chaplin, "Tempos Modernos", lançada em 1936, retratou o Vagabundo lutando contra um mundo cruel e industrializado. Telefones de disco tornariam as telefonistas desnecessárias. A televisão reduziria severamente os empregos para artistas ao vivo.

Uma liderança forte pode ajudar a combater a negatividade. Um artigo recente descobriu que a "conversa ao pé da lareira" de Franklin Roosevelt em abril de 1935 —uma de uma série de transmissões de rádio nas quais ele comunicava com confiança suas amplas soluções do New Deal para a crise— mudou o comportamento econômico dos consumidores. Aqueles que viviam em cidades com maior exposição ao discurso de rádio experimentaram um aumento significativo nos gastos.

A Grande Depressão havia terminado em 1939. No entanto, a ideia de desemprego tecnológico continuou circulando. Uma breve recessão que ocorreu entre 1957 e 1958 foi apelidada de "Recessão da Automação" por jornalistas e outros comentaristas. Conectando uma queda nos pedidos de equipamentos de manufatura com um interesse crescente em equipamentos automatizados, jornalistas da época novamente levantaram o espectro de perdas generalizadas de empregos. Anos depois, a queda seria amplamente descrita como uma desaceleração cíclica bastante comum.

Então, em 1965, o matemático britânico I.J. Good escreveu um ensaio que imaginava uma nova tecnologia que poderia continuar se aprimorando até que suas habilidades superassem as dos humanos. A ideia, que ficou conhecida como "singularidade", circularia discretamente até 2005. Foi quando o futurista Ray Kurzweil escreveu "A Singularidade Está Próxima", um livro argumentando que a IA em nível humano chegaria até 2029. Ou nos fundiríamos com as máquinas e transcenderíamos nossos limites biológicos, ou a máquina se tornaria tão poderosa que poderia acabar com toda a humanidade.

A teoria capturou a imaginação dos titãs da tecnologia, e até dos principais pesquisadores e executivos de IA, que alertaram sobre uma série de cenários alarmantes, desde perdas de empregos até desigualdade crescente ou até mesmo a erradicação da própria humanidade. Embora o mercado de trabalho tenha desacelerado por uma série de razões, há relatos de que o medo de um apocalipse da IA estaria piorando o congelamento e contribuindo para mínimas históricas na confiança do consumidor.

Há um limite para o que Washington pode fazer sobre essas narrativas. E, desnecessário dizer, Donald Trump não é nenhum Franklin Roosevelt.

Sendo assim, talvez o melhor que possamos fazer seja apelar diretamente aos líderes do Vale do Silício que têm promovido essas narrativas negativas com tanto vigor. Certamente a atenção da estratégia de divulgação, destacando o quão perigosamente poderoso é seu modelo de IA, pode ajudá-los a vender mais produtos, mas pode ser muito mais difícil fazê-lo em um período de recessão. Tentem não esquecer as lições críticas ensinadas pelo nosso passado.

Trilha clandestina de SP tem rapel em ponte desativada e é exibida como prova de coragem nas redes, FSP

 Priscila Mengue

São Paulo

"A vida é curta demais para não ser louco", "só se vive uma vez", "saímos vivos ou saímos no jornal", "viva o extraordinário" e outras frases de efeito estão nas postagens daqueles que percorrem a trilha do funicular de Paranapiacaba.

O caminho clandestino pela Serra do Mar é popular nas redes sociais, com dezenas de milhares de fotografias e vídeos exibidos como provas de coragem.

Nem mesmo relatos de multas têm impedido passeios irregulares pela trilha "proibidona", que liga a vila de Paranapiacaba, em Santo André, no ABC Paulista, a Cubatão, na Baixada Santista.

Com anúncios que partem de R$ 70, guias e grupos de internet divulgam atividades com opções também de pernoite em uma casa de máquinas e prática de rapel em viaduto ferroviário desativado.

Segundo a Fundação Florestal, vinculada ao governo do estado, a entrada sem autorização e eventuais danos ambientais estão sujeitos a penalidades de R$ 2.000 a R$ 100 mil, a depender da infração e da gravidade.

A instituição diz manter rotina permanente de fiscalização e controle de acessos, com apoio estratégico da Polícia Militar Ambiental e da Guarda Civil Municipal de Santo André.

Grupos compartilham vídeos em redes sociais de rapel e trilha noturna na Serra do Mar, em São Paulo - Reprodução

"O trabalho inclui patrulhamento constante, orientação a usuários, abordagens e a adoção imediata de medidas administrativas cabíveis diante de situações de uso irregular ou práticas esportivas não autorizadas na estrutura", apontou a fundação em nota.

A trilha do funicular é conhecida há anos como destino de aventura, mesmo com histórico de acidentes e até mesmo de morte. No último fim de semana, diferentes grupos passaram pelo caminho em 20 e 21 de junho.

A realização de atividades irregulares em estruturas ferroviárias ganhou repercussão após instrutores lançarem uma jovem sem equipamento de segurança em rope jump (salto com cordas) na ponte do Esqueleto, entre Limeira e Cordeirópolis, no interior paulista. A estrutura era uma obra inacabada da antiga Fepasa (Ferrovia Paulista S.A.).

Já a MRS Logística, responsável por área de concessão percorrida em parte pelas trilhas clandestinas, afirma investir em vigilância, vedação de acesso clandestino e rondas preventivas, entre outras medidas.

"Caminhar sobre os trilhos ou nas proximidades da ferrovia é extremamente perigoso e pode resultar em acidentes graves", destacou em nota.

Advertências feitas por outros trilheiros em redes sociais são chamadas de inveja e moralismo. Uma das principais páginas ligadas à prática no local admite a morte de um guia em 2020, mas trata o caso como exceção, assim como minimiza a aplicação de multas.

Torre de relógio antiga de estação ferroviária com trilhos e passarela metálica. Montanhas cobertas por vegetação aparecem ao fundo sob céu claro.
Vila de Paranapiacaba é localizada em Santo André, no ABC Paulista; local é ligado à história ferroviária de São Paulo - Karime Xavier - 13.maio.2026/Folhapress

Por outro lado, alguns trilheiros têm apontado arrependimento e problemas durante a experiência. Os relatos recentes incluem presença de cobras, neblina, estruturas ferroviárias em deterioração, acidentes de diferentes gravidades e necessidade de resgate por bombeiros.

Os anúncios classificam a experiência com dificuldade de moderada a difícil ou 6/10. Há registros de trilhas realizadas mesmo em dias chuvosos e à noite.

A grande exposição do caminho em redes sociais incomoda, contudo, uma parte dos trilheiros pelo receio de que possa gerar incremento na fiscalização e nas autuações, como relatado em grupos.

A trilha acompanha infraestruturas ferroviárias entregues a partir de 1867 pela antiga São Paulo Railway, que utilizou sistemas de cabos para transpor a altitude da serra. Desse modo, permitiu o escoamento da produção de café de Jundiaí, no interior, até o porto de Santos.

Até hoje, há remanescentes de túneis, viadutos, pontilhões e diversas outras estruturas, tombadas como patrimônio cultural paulista.

Na região, há trilhas e atividades de aventura regulares. O parque natural municipal Nascentes de Paranapiacaba permite visitas monitoradas em trilhas, por exemplo, como as da Pontinha e do Mirante, enquanto o parque estadual Serra do Mar tem opções tanto na área de concessão dos Caminhos do Mar (antiga Estrada Velha de Santos) quanto em núcleos sob gestão da Fundação Florestal.