segunda-feira, 27 de julho de 2026

Casas projetadas para viver mais: por que a longevidade virou tendência na arquitetura- Fast Company Brasil

 

Conceito de "arquitetura da longevidade" ganha força entre clientes de alta renda e leva princípios da medicina preventiva para dentro de casa

por que a longevidade virou tendência na arquitetura
Crédito: master1305/ Getty Images

PATRICK SISSON 5 MINUTOS DE LEITURA

A arquitetura voltada à longevidade promete aos clientes a visão de uma vida mais longa, saudável e monitorada constantemente, em sintonia com a busca atual por otimizar a saúde.

À frente dessa tendência está Kas Bordier, fundadora da Mavi, um novo escritório de arquitetura e consultoria que oferece aos proprietários uma avaliação completa da residência.

A inspeção de 24 horas leva em conta 129 critérios e é capaz de analisar a casa "da mesma forma que uma clínica de longevidade interpreta seus exames de sangue". O diagnóstico inclui desde a qualidade da água até os níveis de ruído e as concentrações de dióxido de carbono.

"Os incorporadores querem mostrar que é possível construir prédios melhores", diz Bordier, que já trabalhou em projetos residenciais no Reino Unido e nos Estados Unidos. "Mas, acima de tudo, eles querem ganhar vantagem competitiva."

Desde sua primeira reforma residencial, em 2024, Bordier vem acumulando projetos em Londres e Los Angeles. Até agora, cinco casas foram concluídas e outras duas estão em desenvolvimento.

Seus clientes, em geral pessoas de alta renda que já contam com personal trainer, nutricionista e médicos particulares, buscam investir em longevidade ou procuram soluções após descobrir problemas como mofo e outros fatores que afetam a saúde dentro de casa.

Apenas a etapa inicial – uma análise de duas semanas para elaborar um plano de melhorias – custa US$ 18 mil.

LONGEVIDADE COMO UM BEM DE LUXO

Segundo Tammy Fahmi, vice-presidente sênior de atendimento global e estratégia da Sotheby's International Realty, o aumento da expectativa de vida, aliado ao desejo de compradores de alto padrão de ficar em suas casas quando envelhecerem, está transformando desde o design até a escolha da localização dos imóveis e a dinâmica do mercado imobiliário de luxo.

Os defensores dos chamados edifícios saudáveis afirmam que a pandemia ampliou a conscientização sobre como o ambiente doméstico influencia a saúde, ao mesmo tempo em que a ciência do bem-estar avançou consideravelmente.

Pesquisas do International WELL Building Institute (IWBI), organização dedicada à promoção de edifícios saudáveis, mostram que características como mais áreas verdes, melhor qualidade do ar e ventilação, design biofílico, ampliação dos espaços externos e uso de materiais naturais aumentam o valor dos imóveis para locação, reduzem afastamentos por doença e melhoram a concentração e o foco dos ocupantes.

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Edifício no número 262 da Quinta Avenida, em Nova York (Crédito: Hayes Davidson)

"Uma parte importante desse contexto é que a longevidade passou a ser vista como o novo bem de luxo", afirma Rachel Hodgdon, CEO e presidente do IWBI.

"Existe essa busca por viver para sempre, a ideia de que autocuidado, experiências de qualidade, atenção plena e bem-estar podem prolongar não apenas nossa expectativa de vida, mas também o período em que continuaremos saudáveis."

No mercado corporativo, cresce a pressão para incorporar o bem-estar como um diferencial de projeto. Grandes escritórios de arquitetura vêm adotando materiais como madeira engenheirada em larga escala, áreas voltadas à prática de exercícios e estratégias para atender aos padrões da certificação WELL.

A MODA DOS "EDIFÍCIOS SAUDÁVEIS" COMEÇA A GANHAR IMPULSO

O pesquisador Bill Browning transformou a consultoria Terrapin Bright Green, da qual é cofundador, em uma referência do setor. Hoje, a empresa presta serviços para clientes como o Bank of America.

Na Inglaterra, o Long Lane, um novo clube privado localizado na zona rural nos arredores de Londres, está convertendo uma antiga propriedade rural em um espaço voltado ao bem-estar, com inauguração prevista para este ano.

Jim Kersey, gerente de marketing da TGP, agência especializada em hospitalidade responsável pelo projeto, afirma que consumidores e incorporadores comerciais vêm demonstrando interesse crescente por iniciativas ligadas ao bem-estar e à longevidade.

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Long Lane Club (Crédito: Divulgação)

"As pessoas não procuram apenas estética ou uma sensação superficial de bem-estar. Elas querem entender como tudo isso funciona na infraestrutura, na operação e também na geração de receita", afirma.

Em nova York, os novos apartamentos do edifício de 52 andares localizado na Quinta Avenida acabam de chegar ao mercado e grande parte da estratégia de divulgação destaca amplos recursos voltados ao bem-estar, incluindo sistemas de filtragem de ar, piso aquecido, recirculação de ar fresco a cada hora e sistemas que permitem um controle preciso de fatores ambientais.

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Vista interna de apartamento no 262 da Quinta Avenida, em Nova York (Crédito: Hayes Davidson)

Em Coral Gables, na região de Miami, o Cora Merrick Park – um projeto residencial de alto padrão – vai contar com características voltadas à longevidade, incluindo sistemas de purificação de ar e eletrificação completa.

Segundo Eduardo Otaola, incorporador do projeto, isso vai elevar o custo de conclusão da obra em cerca de 10%. Mas, após a inauguração, em 2028, ele prevê uma valorização de 25% a 30% no preço em comparação com uma unidade equivalente que não ofereça esse foco na saúde.

ABORDAGEM CENTRADA NO INDIVÍDUO

Para Hodgdon, a arquitetura da longevidade representa uma evolução dos princípios da construção sustentável, mas com foco mais direto nos benefícios individuais.

Segundo ela, dizer às pessoas que precisam abrir mão de algo para ajudar o meio ambiente costuma ser menos convincente do que mostrar que mudanças na casa podem melhorar sua saúde, bem-estar e desempenho.

Ela lembra que os conceitos de construção sustentável começaram com iniciativas voltadas à eficiência energética e, hoje, se sobrepõem a esforços para melhorar a qualidade do ar interno.

arquitetura da longevidade
Cora Merrick Park, em Coral Gables, na Flórida (Crédito: Divulgação)

Para muitos proprietários, a arquitetura da longevidade representa uma forma de assumir o controle sobre a própria saúde. Se mudanças em escala social parecem difíceis de alcançar, resta ao indivíduo adaptar o ambiente onde vive.

Hodgdon acredita que esse movimento não deve ser reduzido à ideia de pessoas ricas pagando para morar em uma espécie de spa. Para ela, trata-se de uma abordagem baseada em evidências científicas, que aplica pesquisas para melhorar casas, escritórios e espaços de hospitalidade.

No fim das contas, é uma versão arquitetônica do "luxo discreto": um conceito em que o verdadeiro símbolo de status deixa de ser a ostentação e passa a ser a pontuação de saúde do ambiente onde se vive.

sábado, 25 de julho de 2026

Rede de serviços ilícitos conecta facções, corrupção e lavagem no Brasil -FSP

 André Fleury Moraes

São Paulo

Operações da polícia e do Ministério Público revelam uma rede de prestadores de serviços ilícitos que, embora atue de forma muitas vezes autônoma, cria conexões entre diferentes grupos criminosos.

Esses núcleos trabalham em segmentos variados do mercado ilegal e formam o elo de casos de corrupção na política com facções criminosas, ainda que indiretamente. É a chamada convergência criminal.

A lavagem de dinheiro é a principal conexão, mas oportunidades de negócios ilegais envolvem também serviços contábeis, mercadorias falsificadas, transporte de produtos e venda de empresas de prateleira.

Monumento de Duque de Caxias, no centro de São Paulo, com pichação do PCC - Rubens Cavallari - 28.jan.18/Folhapress

O exemplo mais recente abrange os contadores Meire Poza e Leonardo Meirelles, alvos na última semana de uma operação do Gaeco (Grupo de Atuação Especial no Combate ao Crime Organizado) do Ministério Público de São Paulo contra um esquema de movimentação de recursos em favor do PCC.

A defesa de Meire disse à Folha que ainda avalia a decisão que a deteve e desconhece qualquer fato que justifique a medida nesse momento. A reportagem não localizou a defesa de Meirelles, contra quem há dois mandados de prisão pendentes de cumprimento.

Segundo a Promotoria, Meirelles atuava na interlocução com clientes e Meire, por sua vez, dava aos investigados orientações de como ocultar rendimentos ilícitos.

Os dois são citados em esquemas de lavagem de dinheiro desde a época da Operação Lava Jato, que investigou desvios bilionários em uma série de contratos públicos.

Meire e Meirelles admitiram à época prestar serviços à estrutura financeira do doleiro Alberto Youssef, pivô de denúncias de corrupção, e chegaram a fechar acordos de delação premiada.

Dez anos depois, o cenário se repete. Além da operação envolvendo o PCC, ambos foram também alvo de uma outra investigação no início do ano, a Baazar, por um suposto esquema de evasão de divisas e corrupção na Polícia Civil de São Paulo.

"Com dinheiro, não tem essa coisa de separar e falar ‘aqui a gente só lida com contrabando de roupa', por exemplo. Para qualquer outro produto que tenha demanda, essas redes vão se mobilizar", diz Leandro Piquet, professor e coordenador da Esem (Escola de Segurança Multidimensional) da USP.


Tipos de serviço criminal

Lavagem de dinheiro

Há várias modalidades de lavagem de dinheiro, que são oferecidas de acordo com a especialização do operador: depósitos nas contas de empresas de fachada, uso de empresas formais que mesclam dinheiro lícito e ilícito em suas contas, aquisição de criptomoedas, disponibilização de itens de luxo (veículos em geral, imóveis) sem o registro formal de propriedade

Empresas 'de prateleira'

Profissionais especializam-se no registro de empresas que ficam disponíveis para uso em esquemas ilícitos, seja para a passagem rápida ao nome de terceiros, seja para o uso no fracionamento de pagamentos que passam por dezenas ou até centenas de contas bancárias vinculadas às firmas

Contabilidade

Manipulação de balanços financeiros e uso de notas fiscais sem lastro com o objetivo de ocultar patrimônio e negócios ilícitos. Pode ser realizado para empresas regulares que queiram esconder algum ato ilegal ou para empresas de fachada

Transporte e logística

Uso dos mesmos veículos e locais de armazenamento para o tráfico de drogas ou contrabando de produtos irregulares por mais de um grupo criminoso. Na Amazônia, por exemplo, investigações apontam que facções atuam em consórcio na contratação de embarcações que transportam drogas para vários grupos ao mesmo tempo

Falsificação

Grupos especializados na falsificação de embalagens prestam serviço para quem comercializa produtos adulterados (desde bebidas até insumos agrícolas) ou quer esconder drogas


O caso não é o único nem o mais emblemático.

Em 3 julho, uma operação da PF (Polícia Federal) mirou o empresário Victor Henrique de Oliveira Shimada, que dois dias antes havia sido alvo de sanções dos Estados Unidos por suposta ligação com o PCC em território americano. Ele está foragido.

Além da suspeita de lavagem de recursos do tráfico, investigações apontam que Shimada fez transações com empresas envolvidas nas fraudes do INSS, do banco Master e da operação Carbono Oculto, que investigou a infiltração do PCC no ramo de combustíveis. Ele também é investigado num caso que apura desvios no patrocínio da VaideBet ao Corinthians.

Não há uma relação direta entre os episódios. Segundo investigadores, os elos estão nas contas-bolsão, usadas para receber valores de qualquer atividade criminosa.

Para Piquet, importa cada vez menos se a oportunidade de negócio envolve produtos proibidos pela legislação ou permitidos e contrabandeados. Facções, sonegadores de impostos, terroristas e milícias podem se aproveitar do mesmo prestador de serviço –basta achar o contato certo.

Dois fatores impulsionam o fenômeno da convergência criminal, dizem pesquisadores.

O primeiro é o próprio avanço da tecnologia, que facilitou a comunicação entre diferentes tipos de criminosos. Outro está na tendência de que organizações invistam na expansão de seus negócios e compartilhem rotas e soluções de logística ou de serviços financeiros.

Investigações contra o crime organizado já falam no fenômeno da convergência criminal.

A representação da Polícia Civil que culminou na prisão do vereador de São Paulo Senival Moura (PT) por suposta ligação com o PCC —ele nega qualquer irregularidade— menciona elos do caso com outras investigações por uma teia de empresas que aparentam ser regulares, mas que são usadas para ocultar a origem de recursos ilegais.

Segundo a polícia, "a relevância investigativa reside não na identidade dessas estruturas, mas na constatação de zonas de interseção entre as organizações na medida em que podem convergir para o compartilhamento ou utilização de circuitos econômicos comuns".

Um estudo da Europol (Polícia da União Europeia) divulgado em junho trata do assunto.

A publicação diz que grupos criminosos tradicionais hoje terceirizam atividades que não dominam a atores especializados, algo perigoso, segundo a Europol, porque "reduz barreiras de entrada para redes criminosas que não têm a expertise ou a capacidades necessária".

"O crime como serviço atua tanto como um multiplicador de força para as redes criminosas quanto como uma vulnerabilidade estratégica dentro do ecossistema criminoso", afirma.

Há conexões, por exemplo, entre o caso que levou Senival à prisão e a operação que deu o mesmo destino à advogada e influenciadora Deolane Bezerra, suspeita de lavar recursos do PCC —sua defesa alega inocência.

As investigações dizem que Deolane usava empresas de publicidade para lavar dinheiro da família Herbas Camacho, de Marcola, e chegou a constituir 35 CNPJs num mesmo endereço para dificultar o rastreamento dos recursos.

Parte das empresas foi criada pelo mesmo contador, que também abria estabelecimentos a um dos envolvidos na operação contra Senival.

Fatores regulatórios facilitam isso. Como mostrou a Folha, vulnerabilidades no funcionamento das juntas comerciais têm aberto caminho à entrada do crime organizado no setor empresarial por deficiências em fiscalização, controle dos registros mercantis e integração dos órgãos

Um relatório da OEA (Organização dos Estados Americanos) deste mês diz que o fenômeno da convergência criminal exige compartilhamento de forças.

"Autoridades devem ter acesso a dados que conectem registros policiais, inteligência financeira, alfândega, imigração, sistemas judiciais e registros corporativos a fim de facilitar a relação interinstitucional", afirma.

No Brasil, porém, medidas nesse sentido são ainda incipientes.

"Falta coordenação e integração entre Receita, inteligência, polícias, Banco Central, Ministérios Públicos, Justiça e sistemas prisionais", disse à Folha no fim de maio o pesquisador Christian Vianna, que atua na ONU e é hoje subsecretário de Integração da Segurança Pública de Minas Gerais.