sábado, 31 de outubro de 2026

Nem todo conservador, mas sempre um bolsonarista- Mariliz Pereira Jorge ,FSP

 

Rio de Janeiro

Em 1932, o Código Eleitoral criou a cabine indevassável para encerrar o voto de cabresto. Noventa e quatro anos depois, esse espaço segue intacto —quer dizer, mais ou menos, porque já temos vigias de gestual tentando adivinhar pelo movimento do braço ou do dedo se o sujeito digitou 13 ou 22. Ainda assim, o problema maior acontece do lado de fora.

Nem todo conservador, mas sempre um bolsonarista. Basta abrir o noticiário para ver de onde parte a chantagem do desemprego. É a mesma turma que bate no peito pela liberdade de recusar vacina, guardar fuzil em casa ou negociar direto com o patrão a jornada e o salário. Porém, essa autonomia toda some quando o subordinado resolve apertar o 13 na urna. Aí a escolha pessoal vira motivo de justa causa.

Mulher de cabelos longos e escuros, vestindo blazer branco, fala ao microfone em plenário com cadeiras e pessoas ao fundo.
Índia Armelau (PL), a deputada estadual mais votada do Rio nas eleições de 2026 - Octacílio Barbosa - 12.out.26/Divulgação Alerj

No Rio, a deputada estadual mais votada, Índia Armelau (PL), sugeriu que empresários vasculhassem as redes dos funcionários para conferir quem "fez o L" e agissem de acordo. Pelo Paraná, a campeã de votos Jessicão, do mesmo partido, desenhou a regra: doméstica petista, rua; amigo, adeus. Em Goiás, o dono de um frigorífico ofereceu viagem paga a Caldas Novas para mil eleitores de Lula, desde que ficassem longe da seção. No Maranhão, até prefeito avisou que servidor alinhado ao presidente seria demitido.

O Ministério Público do Trabalho somou quase quatro mil denúncias de assédio eleitoral até agora. O grupo de WhatsApp faz as vezes de curral, enquanto o capataz dá print em postagens e monta listas de padarias, restaurantes ou lojistas que precisam quebrar.

Há algo muito perverso em usar a fome como argumento de campanha. Demitir a faxineira ou o caixa de supermercado que precisa do pagamento para comprar arroz e feijão não é disputa política, mas simples covardia contra quem não tem como se defender. Na mesma toada, surgiram anúncios de cortes de doações a ONGs e projetos sociais —justamente aqueles que chegam onde a maioria dos governos jamais pisou— por vingança diante do resultado das urnas. Punir quem depende de marmita comunitária para dar lição ao eleitorado mostra bem o tamanho dessa gente.

Mas o bolsonarismo não detém o monopólio da patrulha. Enquanto uma trincheira persegue quem declarou o voto, uma ala barulhenta da esquerda caçou os que preferiram ficar calados. O cantor João Gomes é o retrato acabado desse cerco. Em 2022, após puxar coro contra Bolsonaro no Rock in Rio, viu o Sindicato Rural de Imperatriz barrar seu show no parque de exposições. Agora, quatro anos depois, apanhou do lado oposto por escolher o silêncio. Sua mulher, Ary Mirelle, contou que ele toma antidepressivos desde a disputa anterior por causa de ataques e ameaças mirando até os dois filhos pequenos do casal.

Acuado, o rapaz acabou lendo uma mensagem no palco para tentar acalmar a patrulha. Tinha as mãos e a voz trêmulas. Ao assistir àquela cena, fiquei pensando: o que existe de democrático em coagir alguém que, seja pelo motivo que for, preferiu se calar? Transformar um artista jovem, visivelmente assustado e medicado, em refém de um tribunal de internet para arrancar um manifesto sob pressão não tem nada de progressista; é pura tortura psicológica fantasiada de consciência social.

Um humorista ainda achou graça em publicar montagens de inteligência artificial estampando os rostos de João, Vini Jr., Gisele Bündchen e Selton Mello em caixas de leite, como pessoas desaparecidas. Do ator que viveu Rubens Paiva no cinema, que perdeu o pai, Dalton, em julho, cobraram pedágio: como ousava viver o luto quieto após ganhar dinheiro com aquele filme?

Quando fãs e colegas colocam celebridades contra a parede, não cometem delito trabalhista, mas recorrem a um método velho conhecido de regimes autoritários: a coação. A lei protege o cidadão na frente da urna e tenta salvar o emprego do operário, só que deixa qualquer pessoa desamparada diante da multidão. Como resumiu o sanfoneiro Mestrinho, parceiro de palco e eleitor declarado de Lula, quem mais exige posicionamento alheio costuma ser o primeiro a cancelar quem pensa diferente. Tem muita gente precisando lavar a boca com sabão antes de falar em democracia.

Muniz Sodré - Imagens fortes de uma campanha- FSP

 É possível que, na origem latina, imagem signifique apenas a aparência de alguma coisa. Com seu domínio no mundo atual, porém, ela tanto representa algo existente como permite uma compreensão da realidade. Isso vem a propósito de duas imagens destinadas a ficar na história crítica das campanhas pela última eleição presidencial. Uma, na passeata bolsonarista na Barra da Tijuca (RJ), mostrava um negro fantasiado de diabo, em cores vermelhas, tridente na mão, acorrentado por um branco, que invectivava contra satanás e o PT. A outra, na avenida Paulista (SP), coberta de bandeiras e roupas vermelhas, exaltava Lula.

Visibilizando muitas coisas de uma só vez, toda imagem é sintética. A cena carioca, em sua chocante sordidez, apreende o brutalismo do poder escravista remanescente na lembrança escrita, ainda quando condenatória. Depois, a atual hierarquização racial, subsistente na contratação de um negro para uma teatralização degradante. No todo, a concretização de um conceito: o fascismo da cor.

Já a cena paulista, talvez a maior manifestação urbana avaliada em termos numéricos (14 quarteirões), é também sinóptica por mostrar na enorme multidão diversidade etária, gestualidade expressiva e alegria nos rostos. Não era gente em busca de curtidas, mas uma imagem de povo politicamente ativo como subjetividade histórica. "Há política a partir do momento em que existe a esfera de aparecimento de um sujeito, o povo, cujo atributo particular é ser diferente de si mesmo, internamente dividido" (Jacques Rancière).

Milhares de pessoas ocupam a Avenida Paulista entre prédios altos em São Paulo, com bandeiras e faixas coloridas. A multidão se estende ao longo da via, que está completamente tomada pelos manifestantes.
Ato a favor de Lula na avenida Paulista - Eduardo Knapp - 24.out.26/Folhapress

É verdade que Marx desmontou, com a luta de classes, a mitologia liberal do povo. Mas qualquer que seja o nome atribuído a essa pretensa unidade ("povo" é o preferido pelo Estado democrático moderno, vocacionado a persistir em sua substância parlamentar), crucial é perceber que a política não prescinde de um sujeito coletivo.

Esse sujeito é uma forma dinâmica. Mais do que ser, povo é tornar-se, um processo que produz seu próprio sujeito. Foi o que sintetizou a imagem da avenida Paulista: o rompimento da anterior paralisia popular, evidenciado em cenas de igual intensidade no Rio de Janeiro, em Salvador, nas capitais nordestinas e em numerosas outras cidades. O povo produziu-se nas ruas e nas redes.

Vale refletir sobre por que isso só ocorreu no segundo turno eleitoral. Houve, certo, clara mudança de protagonismo, com o avassalador "exército do Lula", que inflamou em uníssono as redes e as ruas: os 10 milhões de "soldados" corresponderam ao número da diferença vitoriosa.

Mas um fato sensível despertou a massa de sua letargia. Antes, a consciência progressista estava tomada pelo cansaço de palavras gastas, que já não faziam mais efeito, inclusive a noção abstrata de luta contra a extrema direita ou o fascismo. De repente, porém, a presença concreta do perigo fascista, por lucidez plural, corporificou-se como imagem viva, mobilizando o medo. Jovens e idosos compreenderam. Então a massa, tornada povo por espontânea estratégia das ruas, pautou o Brasil, se não o mundo, contra a catástrofe de uma dinastia miliciana.