quinta-feira, 18 de junho de 2026

Soberba é o motor da história, Hélio Schwartsman, FSP

 Apesar de não haver ainda nenhuma delação premiada envolvendo o caso Master, a PF vem avançando a passos largos nas investigações. O senador Jaques Wagner, petista de escol e ex-governador da Bahia, foi tragado para o centro do escândalo. Um pouco antes, descobrimos que Hugo Motta, o presidente da Câmara, também foi paparicado por Daniel Vorcaro, tendo usufruído de uma daquelas viagens nababescas bancadas pelo ex-banqueiro.

Sobrou até para a própria PF, pois ficamos sabendo que as organizações Master pagavam mesada de R$ 400 mil a um grupo de agentes e ex-agentes que se encarregavam de informar a família Vorcaro do andar das investigações. E essa é só uma versão muito sucinta de revelações dos últimos dias.

Diversas cédulas de dólares organizadas em fileiras sobre uma cama branca, acompanhadas por vários relógios de pulso e dois distintivos policiais no centro da disposição.
Polícia Federal encontrou cerca de R$ 441 mil, entre dólares e euros, nos endereços ligados a Jaques Wagner (BA), líder do PT no Senado - Polícia Federal

Antes disso, o caso Master já provocara abalos ainda mais profundos. A credibilidade do STF escoou pelo ralo com detalhes do relacionamento de Vorcaro com ministros da corte. Flávio Bolsonaro pode ter perdido de véspera a eleição com o áudio em que pede milhões de dólares ao mecênico ex-banqueiro para financiar o filme Dark Horse.

Como a PF avançou tanto se ninguém ainda recorreu à delação premiada? A resposta está nos celulares apreendidos. Esses aparelhinhos se tornaram a perdição de criminosos, que se encarregam eles próprios de produzir e armazenar as provas que irão mais tarde condená-los. E às vezes até se gabam de seus feitos.

Não dá para dizer que seja só ignorância. Ao menos em instantes críticos, os suspeitos recorreram a sistemas de criptografia e outros estratagemas para evitar a autoincriminação. Mas, por uma combinação de autoconfiança excessiva com falta de familiaridade com a tecnologia, não tiveram sucesso. Deixaram de observar até procedimentos básicos para delinquentes, como desabilitar o backup automático.

Qual é o motor da história? Para Hegel, era o Espírito Absoluto; para Marx, a luta de classes. Penso que a hýbris, a soberba, explica muito mais, do naufrágio do Titanic à campanha russa de Napoleão, passando pelas indiscrições de Daniel Vorcaro.

Por que evangélicos não adoram santos?, FSP

 Tradicionalmente, o mês de junho é marcado por quermesses e festas que celebram santos como Antônio, João e Pedro. Em geral, evangélicos não frequentam essas festas e também não celebram ou creem em santos.

O culto a esses personagens teve seu início no século 2, em tempos de perseguição romana, com o testemunho dos mártires –servos de Deus que pagaram com a vida a fidelidade ao Senhor Jesus.

Estátua de santo com hábito marrom segurando criança vestida de branco dentro de igreja. Fundo mostra altar, pintura religiosa e bancos de madeira.
Para os evangélicos, os santos são reconhecidos como exemplos de fé, mas não são alvos de orações ou devoções

Segundo Marcos de Almeida, coordenador Acadêmico de Curso na Faculdade Teológica Batista de São Paulo, os mártires passaram a ser vistos como aqueles que produziram em seus próprios corpos os sofrimentos e a morte de Cristo.

A história registra ainda que eles tinham seus restos mortais guardados e os dias de sua morte celebrados.

"Em uma escalada crescente, esse memorial se tornou ato de invocação intercessória, impulsionado pela ênfase na transcendência e divindade de Jesus Cristo. Sutilmente, isso fez certo distanciamento entre o fiel e Deus Altíssimo", explica Almeida, que também é doutorando em Teologia Canônica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.

A Festa de São João tem origem nos festivais pagãos de solstício de verão da Europa pré-cristã. Ressignificada pelo catolicismo medieval com o nome de João Batista, a festa chegou ao Brasil no século 16 pelos jesuítas. Assim, ganha elementos africanos (o forró), europeus (a quadrilha francesa) e rurais brasileiros.

Porém, a Reforma Protestante, no século 16, adotou a Sola Scriptura, segundo a qual somente a Bíblia é a palavra de Deus. Como não há na Palavra exemplos de cristãos orando aos santos falecidos ou celebrando festas em sua honra, os crentes, que agora têm acesso livre à Bíblia, passam a rejeitar essas práticas.

"Para os evangélicos, os santos são reconhecidos como exemplos de fé e testemunhas da história cristã, mas não são alvos de orações ou devoções", explica Roney de Carvalho, professor de Teologia e História no Centro Universitário Cidade Verde.

Ele lembra o que Paulo disse em uma de suas cartas a Timóteo: "Há um só Deus e um só mediador entre Deus e os homens, Cristo Jesus" (1 Timóteo 2:5).

Falando em Bíblia, o Antigo Testamento também traz a ordem explícita dada a Moisés em Êxodo 20:3-5: "Não terás outros deuses diante de mim. Não farás para ti imagem de escultura, nem alguma semelhança do que há em cima nos céus, nem embaixo na terra, nem nas águas debaixo da terra. Não te encurvarás a elas nem as servirás".

Marcos de Almeida lembra a oração do Pai-Nosso no Evangelho de Mateus 6:9. "A direção do ato é diretamente para o Pai, sem qualquer intermediário", destaca.

Ok, entendi que os crentes não rezam Ave Maria e não dançam quadrilha, mas por que alguns fazem festa caipira em julho, vestidos de xadrez, comendo milho e bebendo crentão (versão não alcoólica do quentão)?

Segundo Roney de Carvalho, ao longo da história, muitas práticas culturais do catolicismo popular foram ressignificadas pelas igrejas evangélicas. "Até porque o ser humano necessita de símbolos, ritos, celebrações e pertencimento comunitário", diz.

O uso de objetos devocionais como óleo, lenços, rosas e água ungida, usado por alguns grupos pentecostais, também entraria nesta lista de ressignificação.

"Esse fenômeno mostra que, embora os fiéis evangélicos rejeitem a devoção aos santos, muitas comunidades preservam elementos culturais ligados à convivência, à celebração e à identidade brasileira. Trata-se menos de uma continuidade da devoção religiosa e mais de uma adaptação cultural", afirma Carvalho.

Almeida diz que quando uma igreja evangélica assume a festa caipira, algo mais profundo é revelado. Trata-se de mais do que um simples empréstimo da cultura católica. "Tal prática mostra que a brasilidade está nos corredores do movimento evangélico brasileiro, num processo de inculturação. A igreja deixa de ser um ambiente de resistência à cultura popular brasileira para tornar-se parte dela", diz.

Carvalho, porém, observa que a festa junina não é o único evento com roupagem gospel e faz paralelos entre Marcha para Jesus e procissões, romarias com congressos e retiros evangélicos ou novenas com campanhas de oração.

Idolatria

Engana-se quem acha que a idolatria criticada pelos crentes se restringe a imagens e santos. A Bíblia relaciona esse ato com confiança, dependência e devoção excessivas. Jesus, inclusive, afirmou: "Ninguém pode servir a dois senhores... Não podeis servir a Deus e ao dinheiro (Mamom)", diz Mateus 6:24. Logo, você pode não adorar outros deuses, mas ter um trono em seu coração ocupado pelo trabalho, sua igreja, casa, ministério, pastor ou político favorito.

"Se o crente desmorona quando perde algo, emprego, carro, coisas, pessoas e entra em colapso existencial, tais coisas também se configuram como ídolos", diz Marcos de Almeida.

Da mesma forma, o professor cita "a idolatria da unção" como algo a ser combatido nas igrejas —quando um líder busca reconhecimento como sendo especial e beirando o divino, desejando ser visto como canal exclusivo de Deus.

"A fé cristã, longe de ser elemento imunizador contra a idolatria, é um confronto permanente com ela", conclui o teólogo.


Ilusão de liberdade na economia do vício, Conrado Hubner Mendes- FSP

 

Quando beneficiário de Bolsa Família, endividado, aposta em bets na ansiedade de saldar sua dívida, ele é livre? E quando aluno não consegue acompanhar a aula porque o magnetismo da tela o chama ao infinito? Ou quando o jovem jura que o vape refrescante é só hábito recreativo, mas entra em pânico quando o dispositivo descarrega? Esforços de regulação são sempre paternalistas e restritivos de liberdade? Ou o contrário?

A soberania do indivíduo é uma peça de ficção bem-sucedida na sociedade contemporânea. Sob o manto da "liberdade de escolha", mercados operam uma mutação radical: a estrutura cognitiva e emocional do sujeito é capturada para a venda de bens. A palavra liberdade, aqui, oferece verniz ideológico para exploração de vulnerabilidades biológicas e sociais. Um crime perfeito.

Aplicativos de aposta em celular - Pedro Affonso - 6.ago.24/Folhapress

Essa arquitetura da servidão abrange ao menos cinco engrenagens. A cada campo econômico corresponde uma ilusão de autonomia da vontade.

Na economia do medo e do ódio, o pânico moral se tornou vetor de monetização. As plataformas digitais descobriram que o engajamento máximo deriva do conflito, e estruturam algoritmos que premiam o extremismo. O cidadão acredita exercer liberdade de expressão quando é combustível involuntário de um modelo de negócios que converte o ódio em tráfego e o medo em receita.

Na economia da atenção, a dispersão do foco inviabiliza a reflexão densa e lenta. O brasileiro figura entre os povos que mais consomem horas em redes sociais. A distração gera uma democracia com déficit de atenção. Atrofia-se a capacidade de fiscalização e argumentação democrática. Os espasmos de engajamento superficial se confundem com acesso à informação.

A economia da exaustão do 6x1 criou mecanismos inéditos de autoexploração. O empreendedorismo de subsistência é vendido como autonomia. O sujeito exausto celebra a ausência de chefe e a flexibilidade de horários, sem perceber no que se transformou. O esgotamento é o preço voluntário da busca de sucesso.

Na economia da inteligência terceirizada, a "promptificação" do raciocínio transfere o esforço analítico e textual para a plataforma. Ao delegar a linguagem e o pensamento crítico, o indivíduo abre mão da própria ferramenta de emancipação, confundindo a velocidade do algoritmo com a profundidade do próprio pensamento.

Na economia do vício, temos a ilusão da satisfação. A engenharia da dependência química e financeira opera sob o álibi da responsabilidade individual. Dados do Banco Central revelam que as apostas online movimentam dezenas de bilhões de reais no sistema financeiro, catalisadas pela instantaneidade do Pix. Capturam renda e comprometem orçamento doméstico de famílias pobres.

Há exemplo importante hoje no STF. Ação judicial da CNI contesta a competência normativa da Anvisa para proibir aditivos de aroma e sabor em cigarros. O argumento da indústria invoca "livre iniciativa" e "direito de escolha" do consumidor para mascarar e blindar o design do vício e da iniciação de jovens. Ignora que o desejo foi desenhado no nível neuroquímico para neutralizar sua capacidade de recusa.

Importante é parecermos livres. Mesmo que nosso impulso decisório seja moldado por vício químico, ódio, distração e exaustão.

Paulo Leminski provocou: "Distraídos, venceremos". Era brincadeira. Viciados, distraídos, exaustos e embrutecidos, seremos vencidos.