quarta-feira, 18 de março de 2026

Com produção recorde de carne, Brasil consolida liderança mundial, FSP

 Mauro Zafalon

São Paulo

A produção nacional de carne bovina atingiu 11,1 milhões de toneladas no ano passado, um aumento de 7,2% em relação a 2024, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Esses números, divulgados nesta quarta-feira (18), levam em consideração o quanto de carne bovina chegou ao mercado via abates fiscalizados por órgãos federais, estaduais ou municipais. Considerados os abates informais, feitos em fazendas e sítios para consumo próprio, o volume chega a 12,3 milhões de toneladas, segundo a consultoria Athenagro.

Ao atingir esse patamar, o Brasil, além de ser o maior exportador, se tornou também o principal produtor mundial de carne bovina no ano passado, segundo o Usda (Departamento de Agricultura dos Estados Unidos). O país chega à liderança mundial na produção antes do previsto, uma vez que o mercado só apostava nessa possibilidade em dois anos. Ganho de produtividade e demandas interna e externa deram suporte a essa evolução.

Açougueiro realiza cortes em peça de carne no Rio de Janeiro - Mauro Pimentel - 06.dez.24/AFP

Brasil passa a ocupar o lugar dos Estados Unidos, que têm uma série de gargalos na produção, principalmente devido à redução do rebanho para o menor patamar em 75 anos. Outros grandes produtores, como Austrália, também vêm tendo problemas na pecuária bovina.

Os brasileiros terminam 2025 com uma produção certificada de 31,1 milhões de toneladas de carnes bovina, suína e de frango, segundo o IBGE, 5,5% a mais do que no ano anterior. Considerando os abates informais, essa produção supera 33 milhões de toneladas.

A maior oferta dessas três proteínas ocorre tanto pelo aumento do consumo interno como pelas exportações. O consumidor nacional consome 45,5 kg de carne de frango por ano, e o consumo de carne suína subiu para 18,6 kg, segundo a ABPA (Associação Brasileira de Proteína Animal). O de carne bovina está em 30 kg, aponta a Abiec (Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes).

O salto dessa evolução da produção veio com um aumento de produtividade. Em 2020, o peso médio da carcaça bovina era de 262 kg por animal, segundo o IBGE. Em setembro, pela primeira vez, atingiu 303 kg, com a produção de carne bovina superando 1 milhão de toneladas em um mês, segundo a consultoria Athenagro. A produtividade da carcaça suína, que era de 90,7 kg em 2020, está em 94,2 kg, e a de frango subiu para 2,1 kg por ave no período, pelos dados do IBGE.

No mercado externo, o país ganhou força principalmente na China. Em 2015, o Brasil vendeu 406 mil toneladas de carnes bovina, suína e de frango para os chineses. No ano passado, foram 2,1 milhões. A carne de frango brasileira teve forte demanda na China no período mais agudo da gripe aviária, e a suína, no período da peste suína africana. A bovina, além de ajudar na retração da oferta das duas anteriores, foi se incorporando cada vez mais no hábito alimentar da população que ascendia de classe.

O abate de gado somou 42,9 milhões de cabeças no ano passado, 8,2% a mais do que em 2024. Esse resultado contrariou as previsões do início do ano passado, quando boa parte do mercado acreditava em queda na oferta. Com oferta maior, o Brasil exportou 3,5 milhões de toneladas de carne bovina, 21% a mais do que em 2024, de acordo com a Abiec.

O abate de suínos indica 60,7 milhões de animais, 4,3% acima do de 2024, o que permitiu ao país exportar 1,51 milhão de toneladas dessa proteína, 12% a mais. O abate de frango rendeu 14,3 milhões de toneladas de peso em carcaça e exportações de 5,3 milhões de toneladas, segundo a ABPA.

As receitas obtidas pelo setor no mercado externo com essas três proteínas atingiram o recorde de US$ 31,4 bilhões em 2025. A maior participação do Brasil no mercado externo, atualmente o país é responsável por 11% da produção mundial, trouxe os preços externos, em alta, para dentro do país. A inflação geral foi de 45,6% do início de 2019 ao final de 2025, e a de alimentação, de 76,4%, segundo a Fipe (Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas). Nesse mesmo período, a carne suína subiu 92%; a bovina, 93%, e a de frango, 94%, segundo o órgão de pesquisa.

O IBGE divulgou também a produção de leite, que subiu para o recorde de 27,5 bilhões de litros, 8,5% a mais do que em 2024. A aquisição de couro foi de 44 milhões de unidades, um volume 3% superior ao do número de animais abatidos com inspeção sanitária. A produção de ovos subiu para 54,4 bilhões de unidades, 5,7% a mais.

Um Nelson que volta da morte, Ruy Castro _ FSP

 Quando me falam da falta que Nelson Rodrigues, morto em 1980, está fazendo ao Brasil, sou levado a responder: "Nelson não morreu! Ainda mora ali no Leme e pode ser visto todo dia, tomando café no balcão do botequim!". E por que não? Suas expressões, como o "complexo de vira-lata", calcificaram-se na cultura de tal forma que já nem lhe pertencem mais. E rara a semana sem uma peça sua em cartaz. Mas, claro, é uma ilusão. Nelson morreu, sim, no dia 21 de dezembro de 1980, aos 68 anos.

A morte foi o centro de sua vida desde o assassinato do irmão Roberto, na Redação de Crítica, jornal de seu pai, em 1929. Suas peças são conduzidas por personagens mortos ou com fixação pela morte, como "Vestido de Noiva" (1943), "Anjo Negro" (1947), "Senhora dos Afogados" (1947), "A Falecida" (1953), "Perdoa-me por me Traíres" (1957), "Beijo no Asfalto" (1960). Seu romance "Asfalto Selvagem" (1959) começa num cemitério. E inúmeros contos de "A Vida Como Ela É..." se passam em velórios, com o alarido quase imoral dos pires e xícaras e os cafajestes que acendem o cigarro na chama do círio.

Fotonovelas, revistas populares, livros e LP baseados na obra de Nelson Rodrigues
Fotonovelas, revistas populares, livros e LP baseados na obra de Nelson Rodrigues - Heloisa Seixas

A intimidade com a morte não era privilégio de Nelson. Espalhou-se por sua família, como narro no meu livro "O Anjo Pornográfico", sua biografia. E não cessou com sua morte. Há dias (25/2), morreu seu filho Nelsinho, Nelson Rodrigues Filho, depois de dez anos aprisionado num AVC. A filha de Nelsinho, Crica, e o sobrinho Sacha, netos de Nelson, encarregaram-se dos papéis, velório e sepultamento no jazigo da família no São João Batista. A Sacha coube acompanhar a transferência das ossadas de Nelson, de Cris, mulher de Nelsinho, e de sua avó Elza, para acomodar Nelsinho.

Não era uma tarefa agradável. Mas Sacha é um Rodrigues. Ao ver as caixas com as ossadas, perguntou ao coveiro qual era de quem. Este teve de abri-las para ler a inscrição no verso das tampas.

E, com isso, Sacha (que tinha nove anos quando seu avô morreu) viu, a um palmo, o que ninguém, nem ele, um dia sonhara ver: o crânio de Nelson Rodrigues.

Martin Wolf- Trump quebrou. Agora é problema dele, FT FSP

 "A única coisa que está impedindo o trânsito no estreito agora é o Irã atirando em navios. Está aberto para passagem, desde que o Irã não faça isso." Essa declaração impressionante do "secretário de guerra" Pete Hegseth explica por que nenhum dos aliados dos Estados Unidos convidados a participar da luta para reabrir o estreito de Hormuz está disposto a fazê-lo: eles não foram consultados; esta não é uma operação da Otan; e, acima de tudo, as pessoas no comando são claramente negligentes.

É claro que o Irã está atacando os navios no estreito. Essa é a maneira mais óbvia de sua liderança se defender do ataque dos Estados Unidos e de Israel. A questão é, antes, o que os atacantes são capazes de fazer a respeito. Afinal, como observa Ray Dalio, fundador da Bridgewater, "no caso desta guerra com o Irã, há um consenso quase universal de que tudo se resume a quem controla o estreito de Hormuz". No momento, é o Irã. Enquanto isso for verdade, ele está vencendo.

Homem branco com cabelo loiro penteado para trás, vestindo terno azul escuro, camisa branca e gravata vermelha, sentado em ambiente interno com fundo desfocado onde se vê uma bandeira dos Estados Unidos.
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, na Casa Branca, em Washington, D.C. - Nathan Howard/REUTERS

De forma simples, como a Agência Internacional de Energia observou: "A guerra no Oriente Médio está criando a maior interrupção de fornecimento da história do mercado global de petróleo". No entanto, ela também estima que a oferta global de petróleo na verdade aumentará "em 1,1 milhão de barris por dia em 2026, em média, com os produtores fora da Opep+ respondendo por todo o aumento". Isso porque a AIE espera que os fluxos comerciais pelo estreito sejam retomados gradualmente a partir do final de março e depois se recuperem rapidamente ao longo de abril. Mas não é difícil imaginar um futuro muito mais sombrio.

Em seu excelente Substack, The Overshoot, Matthew Klein, ex-FT, argumenta que os preços do petróleo estão surpreendentemente baixos. Isso é verdade tanto em termos nominais quanto em termos reais de longo prazo. Assim como a AIE, os mercados presumem que as coisas logo voltarão ao normal. No entanto, não é nada óbvio por que isso acontecerá. Em particular, como Klein enfatiza, "a atual ameaça ao fornecimento não tem precedentes". Além disso, ele acrescenta, as "mudanças de preços anteriores necessárias para reduzir a demanda e/ou aumentar a oferta foram muito maiores do que o que vimos até agora, e os períodos de ajuste também levaram mais tempo, embora as mudanças nos volumes também fossem muito menores do que o que está acontecendo atualmente".

Crucialmente, as exportações de petróleo bruto do IrãIraque, Kuwait, Arábia Saudita, Catar e Emirados Árabes Unidos representavam cerca de 20% da oferta global e mais de 40% das exportações globais de petróleo bruto. Grande parte disso agora desapareceu. Se o tráfego pelo estreito permanecesse bloqueado porque os navios optam por evitar os mísseis, drones e minas do Irã, a perda de oferta global seria sem precedentes.

Desde o início dos anos 1970, observa Klein, tivemos três períodos em que os preços do petróleo mais que dobraram em relação aos níveis "normais" e depois permaneceram altos: o embargo árabe de petróleo de 1973; a revolução iraniana do final dos anos 1970; e a demanda crescente de 2003-08, especialmente da China. Para que demanda e oferta se equilibrem, seria necessário novamente preços muito mais altos, porque a demanda por petróleo é inelástica, especialmente no curto prazo. Para alcançar as reduções necessárias na demanda, os preços do petróleo poderiam ter que subir muito acima de US$ 200 por barril, o que suprimiria a demanda por petróleo tanto diretamente quanto indiretamente, por meio dos impactos macroeconômicos de inflação mais alta, taxas de juros e desemprego.

Além disso, não se trata apenas de petróleo. Trata-se também de gás, fertilizantes e petroquímicos, de forma mais ampla. Esses são insumos cruciais. Preços mais altos e escassez absoluta teriam efeitos prejudiciais, notadamente na produção de alimentos. Muitos desses efeitos seriam particularmente danosos na Ásia, para a qual o Golfo é o fornecedor dominante de petróleo, gás e produtos relacionados.

Em resumo, se o estreito não for reaberto em breve, o mundo corre o risco de disrupção econômica e política. Apenas uma grande potência, a Rússia, estará inequivocamente em melhor situação. Além disso, não apenas os importadores líquidos de petróleo e gás serão prejudicados. Os países podem precisar de alguns desses produtos porque atendem a propósitos específicos. Além disso, quase todos os países serão afetados pelo impacto na inflação, na demanda e na distribuição de renda.

Então, o que deve ser feito? No curto prazo, cabe aos Estados Unidos resolver o problema que criaram. Eles devem encontrar uma maneira de acabar com essa ameaça totalmente previsível (e prevista) do Irã. Não pode caber a outros salvá-los de sua falha em pensar nas consequências, particularmente após suas múltiplas ações e palavras hostis, notadamente sobre tarifas. Deveriam ter lembrado das palavras de Colin Powell, um líder militar mais sábio, que famosamente alertou George W. Bush de que "se você quebrar, é seu". Isso foi dito sobre a guerra no Iraque. Agora é verdade para o fornecimento global de petróleo. Os Estados Unidos são donos desse problema.

Sim, os Estados Unidos ameaçarão não vir em socorro de seus aliados da Otan em uma crise. Mas a triste verdade é que muito poucos de seus aliados esperam que isso aconteça de qualquer forma. Seu comportamento em relação a eles tem sido tão errático e ofensivo, sob Trump, que a confiança em grande parte evaporou. Pior, os Estados Unidos até pareceram hostis aos valores democráticos liberais que europeus e outros há muito acreditavam compartilhar com a potência hegemônica.

Existe então uma saída dessa confusão para um grau de estabilidade significativa nesta região crucial do mundo? Não sei. Se for uma saída militar, cabe àqueles que atacaram o Irã encontrá-la. Se for uma saída diplomática, então países de fora podem ser capazes de ajudar, embora a Índia ou a China provavelmente tenham muito mais influência sobre o Irã do que qualquer potência ocidental.

No longo prazo, o mundo precisa diminuir sua dependência de petróleo e gás. Mas isso não será amanhã. No curto prazo, o mundo tem que torcer para que os Estados Unidos recuperem o bom senso. Eu costumava pensar que o único ponto positivo de Trump era que ele não queria travar guerras. Agora, acontece que ele as adora, mas não se dá ao trabalho de pensar em como vai vencê-las —um problema que muitos de seus antecessores compartilharam. Talvez ele aprenda algo útil com esta guerra. Mas, antes de tudo, ele precisa encontrar uma maneira de acabar com ela.