segunda-feira, 29 de junho de 2026

Primeira concessão de ferrovia do país chega ao fim após 30 anos, e governo prepara novo leilão, FSP

 André Borges

Brasília

A Malha Oeste, primeira ferrovia concedida à iniciativa privada no processo de privatização da antiga RFFSA (Rede Ferroviária Federal S.A.), chega ao fim do contrato nesta terça-feira (30), após 30 anos de concessão.

O governo trabalha agora na modelagem de uma nova licitação da malha de 1,9 mil quilômetros de extensão, com previsão de leilão no fim deste ano.

Passadas três décadas desde a inauguração da era das concessões ferroviárias no país, na gestão do então presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB), a Malha Oeste voltará ao mercado em busca de um novo operador, encerrando um ciclo que começou em 1996 e que, com os anos, acabou marcado pela concentração de tráfego de carga em poucos trechos, até a deterioração da maior parte de sua estrutura.

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Governo vai relicitar concessão que foi controlada nos últimos anos pela Rumo, que encerrou o contrato - Eduardo Anizelli 07.out.2021/Folhapress

"Hoje, a Malha Oeste está sem operação em todos os trechos, mas seu potencial é grande e será retomada, com uma nova modelagem de leilão que prevê investimentos ao longo de toda a concessão", disse à Folha o ministro dos Transportes, George Santoro.

Em maio, a ANTT (Agência Nacional de Transportes Terrestres) aprovou os estudos da nova modelagem de leilão e encaminhou o projeto para análise do TCU (Tribunal de Contas da União).

A estatal Infra S.A. contratou novos levantamentos para revisar o passivo que a atual concessionária Rumo tem com a União e calcular a indenização que deve ser acertada pela empresa. Uma rodada de inspeções de campo está em andamento, em diversos trechos da ferrovia, para fechar a conta. Há um processo na Justiça movido pela Rumo, que questiona as indenizações.

A concessionária Rumo disse que a ferrovia "apresentou um desequilíbrio econômico-financeiro estrutural, ocorrido meses após o início da concessão, situação formalmente reconhecida pelo Judiciário, o que comprometeu a sua viabilidade econômica e a capacidade operacional da linha".

Atualmente, afirmou a empresa, estão em andamento as "tratativas para a reversão dos ativos à União".

A Malha Oeste é a primeira ferrovia da antiga RFFSA que completa o ciclo de 30 anos de concessão e retorna ao mercado para uma nova licitação. Outras malhas tiveram seus contratos renovados antecipadamente.

Isadora Cohen, sócia da ICO Consultoria, lembra que houve tentativa de repactuar o contrato com a Rumo, mas as alterações pedidas no projeto eram tão grandes que o caminho foi a relicitação.

"O grande desafio continua sendo atrair investidores para um projeto que já foi visto pelo mercado como deficitário. O governo teve de reformular completamente o desenho da concessão para tentar torná-la viável", diz ela.

O traçado da Malha Oeste remonta a uma história de mais de um século, quando ainda era chamada de Estrada de Ferro Noroeste do Brasil. Foi um dos maiores projetos de integração do país, desenhado ainda no fim do século 19. As obras começaram em 1905, em Bauru (SP), numa época em que grande parte do Centro-Oeste ainda ficava isolada do restante do país.

O governo queria consolidar a ocupação do então Mato Grosso (que passaria a ser Mato Grosso do Sul apenas em 1977, com a divisão do estado), aumentar a presença na região e reduzir a dependência das rotas fluviais que ligavam o interior aos países da Bacia do Prata, na fronteira.

Durante décadas, a ferrovia foi a principal ligação entre o Centro-Oeste e o Sudeste, transportando pessoas e mercadorias para uma região onde as estradas eram escassas e as viagens podiam durar semanas.

Em vez de ferrovia de transporte de cargas, como ocorreu nos últimos anos, a Malha Oeste foi, durante a maior parte de sua história, uma rota de passageiros. Por quase 90 anos, seus trens carregaram milhares de pessoas entre São Paulo, o interior do país e a fronteira com a Bolívia. No auge, havia carros-leito e vagões-restaurante.

A partir da fronteira brasileira, era possível seguir viagem para a Bolívia pela linha que passou a ser conhecida como "Trem da Morte", entre Puerto Suárez e Santa Cruz de la Sierra. Os trilhos, que começavam em São Paulo, atravessavam o Pantanal e chegavam à Bolívia.

O protagonismo começou a desaparecer com a expansão das rodovias. A partir dos anos 1970, caminhões e ônibus passaram a disputar espaço com a ferrovia. Os investimentos federais minguaram e a infraestrutura envelheceu.

Nos anos 1980, a situação já era considerada crítica, e o transporte de passageiros entrou em declínio. Em 1993, três anos antes da privatização, o serviço de passageiros foi encerrado definitivamente. Desde então, passou a operar exclusivamente com cargas. No fim do ano passado, as cargas cessaram também.

Hoje, a maior parte dos 1.900 quilômetros de extensão da ferrovia está subutilizada. Os trechos com maior potencial podem ser usados para transporte de minério, na região de Corumbá (MS), e celulose, em Três Lagoas (MS). O plano do governo não inclui, até o momento, oferta de trem para passageiros.

"A Malha Oeste continua a ser uma ferrovia importante para o escoamento da produção de Mato Grosso do Sul e do porto de Santos, mas a geometria está um pouco ultrapassada, de menor velocidade. Em muitos trechos, a necessidade é praticamente de reconstrução da infraestrutura para que ela volte a operar com eficiência", diz Mauricio Portugal, advogado especialista em infraestrutura e colunista da Folha.

Para o ministro George Santoro, a malha também pagou o preço de um modelo de privatização em que os recursos do projeto não eram aplicados na própria ferrovia nem havia meta de investimentos.

"Ela perdeu competitividade, mesmo vivenciando, em sua área de influência, um boom econômico no agronegócio, na mineração e na celulose. O novo projeto valoriza o ativo, ao prever investimentos estruturais e a conexão com a malha da MRS por meio do Ferroanel de São Paulo. Isso vai evidenciar sua vocação original, trazendo a região do Centro-Oeste para dentro dos portos do Sudeste."

A previsão é realizar o leilão da nova concessão no quarto trimestre de 2026, entre outubro e dezembro. O modelo prevê cerca de R$ 29 bilhões em investimentos ao longo do contrato e aportes públicos de R$ 3,6 bilhões para recuperar trechos degradados.

Embora a malha histórica tenha cerca de 1.973 quilômetros de extensão, a nova concessão tem como eixo principal os 1.625 quilômetros entre Corumbá e Mairinque (SP).

O ramal entre Campo Grande e Ponta Porã, com 355 quilômetros, tinha ficado de fora dos planos, mas voltou a aparecer na modelagem a pedido do governo estadual. Sua operação dependerá da alternativa escolhida pelo vencedor do leilão. O trecho poderá ser recuperado e explorado comercialmente, mas não integra de forma obrigatória a nova concessão.

Soberania não se copia, Ronaldo Lemos, FSP

 A Europa nos últimos meses mudou radicalmente sua postura sobre tecnologia. Até então, o continente era conhecido por um elemento central: a regulação. Criou leis abrangentes e complexas aplicáveis ao mercado e empresas de tecnologia: o DSA (serviços digitais), DMA (mercados digitais), a Lei da IA e a GDPR (proteção de dados), dentre outras.

Só que percebeu que o efeito dessas leis não foi civilizar as empresas de tecnologia, mas sim atrasar o desenvolvimento tecnológico local. O resultado está aí: dependência de mais de 80% em produtos digitais de fornecedores não-europeus, e cerca de 70% da nuvem europeia nas mãos de gigantes americanas.

A percepção do continente agora é outra. Seu objetivo mudou para soberania. E para ser soberano a conta é simples: é fundamental desenvolver, dominar e controlar partes significativas da infraestrutura de hardware e de software. Países sem tecnologia própria mínima estão sujeitos a pressões geopolíticas e ataques, mesmo que sua regulação seja duríssima. Em outras palavras: em tecnologia, divorciar regulação de política industrial é um erro crasso (que o Brasil vem cometendo há anos).

Ilustração em estilo gráfico mostra uma grande mão rosada, com traços suaves e aparência quase clássica, estendendo o dedo indicador em direção a uma pequena mão em formato de cursor digital pixelado. A cena remete visualmente ao gesto de quase toque, com os dois indicadores apontando um para o outro sem se encostar. O fundo é composto por céu azul claro com nuvens brancas estilizadas, reforçando uma atmosfera etérea. O contraste entre a mão orgânica e o cursor digital sugere a conexão — ou tensão — entre o humano e o tecnológico.
Inteligência Artificial - Catarina Pignato


Para alcançar soberania, a Europa fez duas grandes guinadas. Primeiro, simplificou e alterou radicalmente sua regulação, percebida como um obstáculo para as empresas europeias se tornarem competitivas. Além disso, no dia 3 de junho de 2026, lançou o Pacote Europeu de Soberania Tecnológica.

Trata-se de um ambicioso conjunto de leis e políticas públicas para construir a independência europeia. O pacote inclui fomento à fabricação local de semicondutores, desenvolvimento próprio de inteligência artificial, criação de nuvens locais, aposta nos modelos open source (código aberto) e políticas energéticas.

A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, falou no lançamento: "Não dá mais para depender dos outros nas tecnologias que mantêm nossos hospitais funcionando, nossa rede elétrica e nossos serviços. Precisamos proteger nossos cidadãos, interesses e sermos capazes de fazer nossas próprias escolhas".

A Europa não está sozinha na busca de soberania. Países de economia média já perceberam isso há tempos. A Índia criou a doutrina Atmanirbhar de soberania local em chips, nuvem e software. O Vietnã criou seu próprio pacote de soberania digital, com capítulo inteiro dedicado a semicondutores e política industrial. O Vietnã já esteve em conflito armado com os EUA e com a China, e valoriza como poucos sua independência. Já a China há anos aplica a doutrina xinchuang (信创), de controlar a cadeia tecnológica completa.

E o Brasil? Não temos doutrina nem prática. Soberania virou assunto, mas mais como bravata. Na prática, estamos longe de qualquer decisão relevante sobre o tema.

A política "soberana" do Brasil tem sido copiar a Europa do passado. Seja a GDPR, que virou nossa Lei de Dados, ou o DSA, cuja lógica foi importada pelo Supremo. Ou a lei de inteligência artificial, que tramita no Congresso e é uma cópia da antiga lei europeia, hoje já modificada.

O Brasil é o país que criou o Marco Civil da Internet. Não copiamos ninguém. O mundo é que nos copiou. Podemos construir o caminho da nossa própria soberania.

Globo sentiu o impacto da concorrência na Copa, Mauricio Stycer, FSP

 Tradição na grade da Globo, o programa Central da Copa se propõe a resumir, de forma descontraída, os principais acontecimentos do dia no Mundial. Na versão de 2026, a atração é comandada por um trio formado pelo jornalista Tadeu Schmidt, o comediante Fabio Porchat e a jogadora Tamires.

O programa está especialmente estranho neste ano. Num estúdio gigantesco, quase inteiramente vazio, os três se mostram perdidos, abandonados, comentando e fazendo piadas protocolares sobre jogos, lances e gols. O espaço ocioso parece gritar que está faltando alguma coisa ali.

Essa desproporção entre o gigantismo aparente do estúdio e o conteúdo insosso do Central da Copa é exemplar dos problemas que a Globo está vivenciando neste Mundial. Pela primeira vez, a emissora enfrenta uma concorrência dura e não dispõe de armas adequadas para enfrentá-la.

Por economia, a Globo reviu em 2022 o acordo que tinha com a Fifa por todos os direitos da Copa até 2030. A emissora abriu mão da exclusividade em plataformas digitais e comprou os direitos de exibição de apenas a metade dos jogos do Mundial de 2026.

O corte de custos se revelou erro estratégico no médio prazo. Entre as consequências, abriu espaço para a agência LiveMode, que comprou as 104 partidas desta Copa para exibição na CazéTV, no YouTube.

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A cobertura que a Globo se orgulha de fazer desde 1970 sofreu um abalo significativo. Tanto pelo que expõe quanto pelo que esconde, a emissora está deixando claro que sentiu o golpe.

Ainda que exiba números bem robustos de audiência, a Globo empurrou milhões de espectadores, jovens e não tão jovens, para uma plataforma digital concorrente. Por outro lado, adotou a postura de minimizar a importância dos acontecimentos ocorridos fora do seu espectro de cobertura.

É sintomático que os telejornais da emissora divulguem diariamente uma "Agenda Globo" da Copa, e não a agenda completa dos jogos. Na quarta (24), dia de Brasil x Escócia, por exemplo, houve seis jogos no Mundial, mas a agenda do jornal Hoje só expôs os dois que a emissora exibiria.

Na partida, o narrador Everaldo Marques se viu obrigado a ler mensagens provocativas, típicas de criança chateada, sobre a concorrente CazéTV, cuja transmissão tem delay de quase 15 segundos: "No jogo do Brasil ninguém quer gritar gol atrasado. Fique antenado".

Evê, como é chamado pelos fãs, foi contratação acertada da Globo para modernizar as transmissões, dialogar com o espectador jovem e dar adeus a Galvão Bueno. Mas a emissora foi atropelada pela onda "cazeísta", que leva a informalidade ao extremo.

Na cobertura antes dos jogos da seleção, a Globo tem redobrado o esforço para parecer jovem e descontraída. A mistura de patriotada com palhaçadas expõe repórteres ao ridículo e constrange espectadores.

Na farra das bets, que ocupam todo espaço possíveis, a Globo adota postura péssima, como se o problema não lhe dissesse respeito. O grupo não apenas promove como é parceiro de empresas de apostas.

A Globo não quer enxergar que, hoje, se render ao que os concorrentes fazem de pior não é o caminho que vai mantê-la conectada com o espírito do tempo. O momento pede ousadia, transparência e criatividade.