segunda-feira, 28 de setembro de 2026

Mais altos, prédios irregulares se espalham por bairros de São Paulo -FSP

 

São Paulo

O desabamento do prédio do distrito Penha, que deixou seis mortos há duas semanas, chamou a atenção para um problema em parte dos bairros de São Paulo: a profusão de prédios irregulares. Em versões mais altas, os empreendimentos estão perto de estações de metrô e são vendidos em um mercado quase formal.

Esses edifícios são erguidos por construtoras locais, porém sem seguir todas as normas construtivas e municipais. Em geral, têm características visíveis: são grandes blocos de alvenaria que ocupam terrenos estreitos praticamente por completo, sem áreas livres na frente ou nas laterais.

Parte desses imóveis "finge ser formal", como descreve Isadora Guerreiro, professora de Arquitetura e Urbanismo da USP (Universidade de São Paulo) e coordenadora do LabCidade (Laboratório Espaço Público e Direito à Cidade). "Agora, tem a verticalização da ilegalidade e da irregularidade", diz.

Prédio alto em construção com fachada parcialmente coberta por tela verde. Na lateral direita, pintura preta com a frase vertical 'CONTRA OS CORRUPTOS' em letras brancas. Céu azul ao fundo.
Prédio embargado na Vila Matilde foi recentemente pichado; obra é ligada à mesma construtora de edifício que desabou na Penha - Allison Sales/Folhapress

Nesses casos, não são puxadinhos ou predinhos construídos por moradores que querem complementar a renda, mas prédios com diversos pavimentos. Uma obra embargada da mesma construtora do edifício que colapsou, a New Home, tem cerca de 15 andares na Vila Matilde.

A reportagem não identificou a defesa da empresa depois de ter sido informada na última semana que o advogado que a representava deixou o caso.

Como no caso da Penha, há histórico de obras mantidas após o embargo. Mesmo naquelas paradas, vizinhos têm relatado temor de possível instabilidade das edificações.

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A gestão Ricardo Nunes (MDB) respondeu à reportagem que a Secretaria Municipal das Subprefeituras faz trabalho permanente e de rotina para fiscalização de imóveis com irregularidades, com 7.236 autuações em 2026. O total inclui intimações, interdições, embargos e outras penalizações, totalizando R$ 172,3 milhões em multas aplicadas.

As infrações mais comuns incluem falta de documentação no local da obra, construção sem certificado de conclusão, obra ou reforma sem alvará e desvirtuamento do projeto aprovado.

"A responsabilidade pela estabilidade, segurança e correta execução da obra cabe ao proprietário e aos responsáveis técnicos, que devem observar o projeto aprovado, as normas técnicas e a legislação aplicável", completou a prefeitura.

Espelho quadrado fixado em parede cinza reflete céu com nuvens, fios elétricos, placa amarela pendurada e prédios, incluindo um alto em construção com proteção verde.
Obra embargada na Vila Matilde é exemplo de como prédios irregulares estão mais verticalizados - Allison Sales/Folhapress

Vistos especialmente em bairros das zonas leste e norte, prédios do tipo também estão em mais regiões, inclusive a central, com casos recentes no Bixiga.

Além dos compradores, esse tipo de verticalização impacta a vizinhança. Na semana passada, a escola infantil Vivência e Convivência foi interditada na Penha diante de problemas ligados a obra vizinha da construtora do prédio que caiu.

Em geral, esses prédios irregulares são de alvenaria estrutural, opção mais barata e rápida. Nesse método construtivo, a parede é parte da sustentação e não há vigas e pilares. É considerado seguro se cumprir normas técnicas, com blocos adequados ao peso a ser suportado.

Morador afetado relata trauma: ‘Se escuto um estrondo na rua, eu congelo’

Caso semelhante ao da Penha havia ocorrido em fevereiro de 2025, quando obra do edifício Residencial Recanto caiu sobre casas no distrito Cachoeirinha, na zona norte.

A obra tinha cerca de quatro pavimentos a mais do que o autorizado, com problemas denunciados por vizinhos ao menos desde o ano anterior, como queda de materiais construtivos sobre telhados e quintais.

Um dos afetados foi o entregador Bruno Neri, 31, que ficou preso na cozinha no momento em que a casa que mantinha no terreno de um familiar foi atingida. Ele saiu pelo telhado, mas perdeu a maior parte dos móveis, dos eletrodomésticos e de outros pertences.

Para além do prejuízo financeiro de R$ 50 mil em bens, sem contar a casa, Bruno ficou com traumas e precisou buscar tratamento psicológico. "Até hoje, se escuto um estrondo na rua, alguém jogando um balde de entulho em caçamba, eu congelo, não consigo nem me mexer", relata.

Hoje, ele mora de aluguel em outro bairro, com a esposa e o filho e mais duas familiares que se juntaram para ajudar nas contas. Financeiramente, não retomou a estabilidade de antes.

Após o colapso do prédio, a prefeitura cassou licenças e disse que houve "grave desvirtuamento" do alvará concedido. Apuração policial foi aberta, com denúncia à Justiça em julho de 2026, tornando réus o dono da construtora, Robson Pereira de Souza, e o engenheiro responsável, Antonio Ricardo Ribeiro Júnior.

As tentativas de intimação foram frustradas. A reportagem procurou ambos por diferentes números de telefone e email, mas não obteve resposta. O advogado que se pronunciou em nome de um dos réus em 2025 respondeu ter deixado o caso.

Prédio cinza de vários andares em construção com janelas e varandas sem acabamento. Em frente, tapume metálico composto por chapas enferrujadas pintadas de vermelho e branco, com uma porta vermelha no centro. Três blocos de concreto pintados de azul e amarelo bloqueiam a entrada. Céu parcialmente nublado ao fundo.
Prédio da New Home na Vila Matilde está isolado e com obra embargada - Allison Sales/Folhapress

Cenário de irregularidades

A urbanista Isadora Guerreiro destaca que há diferentes níveis e tipos de irregularidades e ilegalidades construtivas em São Paulo. "Os agentes colocam na balança qual risco tem e o retorno que aquilo vai dar", diz.

Ela reforça que esse tipo de obra depende de pessoas que tenham conhecimento de construção e dos processos de licenciamento. "São feitos dentro dessa racionalidade mais produtiva possível, com tipologia que usa o lote como um todo."

Em geral, esses empreendimentos são em terrenos pequenos, formados pela compra de uma ou poucas casas, diferentemente do padrão do mercado regular, que precisa de lote maior para atender às normas de recuos, áreas permeáveis e volume construtivo.

"É algo mais acessível à população na medida em que incorre em ilegalidades", diz a professora. Apartamentos de 38 m² no prédio que caiu na Penha foram anunciados por valores a partir de R$ 169 mil em 2020. Há casos no setor em que sequer se exige pagamento de entrada.

Professor no Instituto das Cidades da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), o geógrafo Gustavo Prieto aponta que esse cenário ainda é pouco mapeado, tratando ocorrências de forma isolada. "O caso da Penha mostra que não é só na franja urbana da cidade", diz.

Em 2023, por exemplo, o Ministério Público abriu apurações sobre três obras na Parada Inglesa, na zona norte, e na Vila Matilde e na Vila Guilhermina, na leste.

Após a apuração, uma das empresas comprou uma casa vizinha para fazer a regularização, visto que não havia como demolir as partes construídas fora dos padrões sem comprometer a estrutura.

Prieto considera que uma atuação nesse campo precisa de fiscalização, monitoramento cotidiano e combate à corrupção, mas que continuará enquanto não houver redução significativa do déficit habitacional. "Essas construtoras se mobilizam com o sonho da casa própria."

Salles desiste de candidatura ao Senado de São Paulo e apoia Derrite e André do Prado - FSP

 

São Paulo

Ricardo Salles, deputado federal de São Paulo pelo Novo, desistiu da candidatura ao Senado pelo estado. O anúncio foi feito nesta segunda-feira (28), na reta final da campanha para as eleições de 2026, ao lado do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), de Guilherme Derrite (PP) e André do Prado (PL). O deputado agora apoia Derrite e Prado.

Homem de cabelos castanhos curtos veste terno azul e gravata cinza, falando em microfone em ambiente institucional. Ao fundo, bandeira do Brasil parcialmente visível ao lado de painéis verticais escuros.
Ricardo Salles, deputado federal pelo Novo-SP, em sessão da Câmara - Bruno Spada - 27.mar.2026/Divulgação Câmara dos Deputados

"Quando uma pessoa resolve abrir mão de uma posição, a gente tem que enaltecer. E hoje a gente tem o Ricardo Salles, que tinha toda a legitimidade para continuar na sua caminhada, tem trajetória, tem bagagem, tem história, dando um passo ao lado, para nos ajudar, para somar", disse Tarcísio. "É momento de pensar num objetivo maior, que é ter dois representantes no Senado."

O governador ressaltou o papel do Novo em sua campanha e disse que São Paulo agora sai na frente no que chamou de "grande movimento de união da direita". "Seria muito bom se a gente pudesse unir a direita nessa reta final. A nossa parte nós estamos fazendo", ele disse.

Salles afirmou, no anúncio de sua desistência, que "o momento é tão grave que diferenças tem que ser deixadas de lado". Ele afirmou que a reeleição de Lula seria "uma catástrofe".

O deputado diz que segue apoiando a candidatura do mineiro Romeu Zema (Novo) à presidência enquanto ele for candidato.

O deputado havia se candidatado ao Senado depois da decisão do Novo de apoiar a candidatura de Tarcísio ao governo. No anúncio, o governador disse que Salles desistiu de concorrer à vaga para fortalecer as outras candidaturas e defendeu o objetivo maior de conquistar as duas cadeiras.

Pesquisa Datafolha divulgada nesta quinta-feira (24) mostrava Salles com 4% das intenções de voto. No pelotão da frente, há empate técnico entre Marina Silva (Rede), com 15%, Simone Tebet (PSB), com 14%, André do Prado (PL) e Guilherme Derrite (PP) com 12% cada.

Salles havia atacado André do Prado há menos de duas semanas, durante o debate promovido pela Band. O deputado acusou o concorrente de ter apoiado o PT no passado.

"Qual credencial de direita você tem?", perguntou Salles. "Você quer enganar o eleitor da direita fingindo que é bolsonarista", disse posteriormente, quase no fim do debate.

Deputado estadual, André do Prado está há 32 anos na política, mas é o único entre os principais candidatos ao Senado por São Paulo que nunca exerceu um posto de nível nacional.

Obesidade + Envelhecimento: uma Bomba para o SUS, OESP

 

Foto do autor Franklin Weise
Atualização:

Entre os meses de maio e agosto deste ano, o Estadão promoveu quatro encontros públicos para discutir os grandes temas brasileiros com algumas das melhores cabeças do país, que resultaram no caderno de propostas Brasil Adiante, que será entregue ao presidente que assumirá o mandato a partir de 2027. Vou me ater ao eixo IV deste documento (Saúde), mais especificamente à proposta 2: prevenir doenças crônicas numa população que envelhece em ritmo acelerado.

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Vou ilustrar com alguns números históricos o quanto as projeções populacionais indicam um futuro muito preocupante.

O Vigitel é uma pesquisa anual do Ministério da Saúde que monitora a saúde da população brasileira. Entrevistadores ligam para telefones sorteados aleatoriamente para acompanhar índices de obesidade, consumo de álcool, tabagismo, alimentação e prática de exercícios, para ajudar o SUS a planejar ações de prevenção e melhoria da qualidade de vida.

Aqui temos a série histórica das estimativas de sobrepeso e obesidade do Vigitel. Notem que o sobrepeso atingia 31% dos adultos no início da série, em 2006, para chegar a quase 37% em 2024. Já o sobrepeso que é considerado obesidade (IMC ≥ 30) subiu mais: de 11,8% para 25,7% da população adulta.

Pense nisto: hoje, quase dois terços dos brasileiros adultos estão acima do peso - sendo que um a cada quatro já está na faixa de obesidade (com todas as consequências danosas que isto acaba trazendo à saúde e à qualidade de vida).

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Extrapolando a tendência histórica para 2040 (usando as projeções populacionais do IBGE), é possível que até lá já tenhamos passado de três quartos da população adulta acima do peso - cerca de 40% com IMC entre 25 e 30 e possivelmente mais de 35% com obesidade. Aliás, chama a atenção que no começo da série havia cerca de 3 adultos com sobrepeso entre IMC 25 e 30 para cada um com obesidade (IMC ≥30) - e possivelmente esta proporção caminhará para 1:1. Ou seja: não apenas haverá uma maior parcela da população acima do peso recomendado, mas, dentro dela, estão ganhando espaço os brasileiros considerados obesos.

Em números absolutos, tínhamos estimadas 100 milhões de pessoas acima do peso no Brasil em 2024 e tudo indica que caminharemos para quase 140 milhões em 2040 - o que significa um aumento de 40%, enquanto a população adulta como um todo deve crescer apenas 12% até então.

Mas o que isto significa concretamente para a saúde pública? Para ilustrar, vou considerar internações por infarto agudo do miocárdio. Segundo o Sistema de Informações Hospitalares, o SUS desembolsou em 2024 R$ 1,013 bilhão com internações (entre serviços hospitalares e de pessoal). Caso não alterássemos absolutamente nada na incidência de infartos, a conta chegaria a quase R$ 1,5 bilhão em 2040 - só pela mudança de perfil etário (pois haverá uma maior proporção de pessoas idosas que hoje - e idosos têm maior propensão a infarto). Mas, se considerarmos também os impactos do aumento da prevalência da obesidade, é realista considerar que a despesa chegue a R$ 2 bilhões por ano apenas por esta causa específica.

Algo similar acontecerá com outras enfermidades comuns, como hipertensão arterial, diabetes, AVCs e vários tipos de tumores - todas elas comprovadamente afetadas por sobrepeso e obesidade.

Estamos diante de dois fatos: o envelhecimento da população e o progressivo aumento de peso. Ambos têm impacto na saúde individual, gerando um importante aumento de custos para famílias, planos de saúde e para o Sistema Único de Saúde.

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Quanto ao envelhecimento em si, é um fato demográfico, não há muito o que fazer, já está “encomendado”, como os demógrafos costumam dizer. Já quanto à tendência de aumento de sobrepeso e principalmente obesidade, é possível agir. Claro, é um desafio tremendo, pois demanda mudanças drásticas de hábitos de vida (ou por via medicamentosa, que seria mais fácil, mas isto ainda é algo muito novo e não dá para bater o martelo). O caminho está na prevenção: alimentação adequada, atividade física, higiene, socialização, uso correto de medicamentos, sono e aprendizado contínuo sobre autocuidado. Os profissionais de saúde têm o desafio de ensinar a população a ter estes hábitos para prevenir os problemas (reduzindo a incidência, que por enquanto só aumenta).

Um ponto fundamental levantado pelo Brasil Adiante: o modelo atual remunera os procedimentos realizados e não o resultado final. Mudar isso exigiria renegociar contratos com prestadores, revisar instrumentos regulatórios e de incentivos e criar sistemas de monitoramento inexistentes no SUS atual. É difícil? Sim. Mas com vontade política dá para fazer. Seria um ganha-ganha: redução de custo do sistema e melhora de qualidade de vida da população.