sábado, 17 de janeiro de 2026

Filme sobre irmãos Lumière mostra que o mundo pouco mudou, Mario Sergio Conti, FSP

 O passado não existe. O que existe são fragmentos do passado: textos, imagens, testemunhos. Os estilhaços não formam um todo, não recuperam o acontecido. Quatro versos de "Praia do Caju", de Ferreira Gullar, apagam a luz e dizem isso:

"O que passou passou.
Jamais acenderás de novo
o lume
do tempo que apagou."

Os filminhos dos inventores do cinema, os irmãos Auguste e Louis Lumière, são cacos do passado, momentos marcados pela morte: os seres humanos, vegetais e animais que aparecem na tela não existem mais.

O cinema não os traz de volta à vida, mas suas imagens fazem com que se imagine como eram. Como imagens fomentam a imaginação, o lume dos Lumière ilumina momentos para sempre perdidos.

Dos 1.428 filmes que os irmãos produziram em dez anos, 108 são mostrados no documentário "Lumière! A Aventura Continua", ora em cartaz. Desde que foram feitos, entre 1895 e 1905, nunca estiveram tão nítidos, pois que recuperados com tecnologia de ponta. E jamais foram tão pertinentes quanto agora, tanto no sentido estético quanto histórico.

Os filmetes têm forma fixa. A câmera, instalada num tripé, fica imóvel. A duração é de 50 segundos, o tempo máximo permitido pela tecnologia da época. Não há cortes nem montagem, apenas uma sequência contínua, em branco e preto e muda.

São balizas que levaram os Lumière a inventar o que o cinema tem de essencial até hoje. Há um assunto: cavalos galopando; um trem chegando à estação; ondas batendo na proa de um barco; acrobacias; um esquete; crianças brincando. Há um ponto de vista: a câmera está perto ou longe do que filma, de lado ou de frente, acima ou abaixo da ação.

Os irmãos Lumiére estão juntos e olham em direção ao lado direito da ilustração. Eles tem bigodes e usam terno, de seus olhos saem feixes de luz branca. 
Bruna Barros/Folhapress

Com esses poucos elementos, os filmetes flagram eventos cotidianos. Contemplam paisagens campestres e sobretudo urbanas. Encenam minidramas. Contam piadas visuais. Assinalam o que está próximo ou distante da plateia. O cinema mostra imagens em movimento desde que os irmãos franceses inventaram o cinematógrafo.

Seu primeiro filme foi feito há 130 anos. Ele mostra a saída da fábrica do pai deles, em Lyon, no dia 19 de março de 1895. O portão se abre e uma multidão caminha em direção à câmera, que os grava em celuloide, desviam-se, saem de cena. Banal? Longe disso.

Mulheres de chapéu e vestidos compridos dão-se os braços e riem. A pé ou de bicicleta, homens fingem não saber que estão sendo filmados, mas olham para a câmera. Um vira-lata perambula e um cavalo puxa charrete. São 50 segundos solares, misto de encenação fictícia e registro etnográfico.

Os Lumière compensam a fixidez da câmera com a mobilidade dos lugares onde são postas. De um vagão de trem captam a paisagem que passa. De uma barca, as margens do rio. Do alto de um ônibus –puxado por burros–, ruas e avenidas. De um balão, a Terra abaixo, como de um drone.

Há também movimentos geográficos. Os cineastas vão a Viena e Londres, a Nova York e Chicago. A Istambul, ao Cairo, à Indochina e ao Japão –o que altera o ponto de vista político. Se os europeus são tipos curiosos em trajes folclóricos, os asiáticos surgem como radicalmente estranhos, quando não inferiores: a França das Luzes, e do cinema, colonizava.

"Lumière! A Aventura Continua" tem o mesmo diretor, Thierry Frémaux, de "A Aventura Começa", de 2016. Mas não é uma sequência, pode ser visto isoladamente. Em ambos, a única cena atual é a da reencenação da saída da fábrica em Lyon. Ela é liderada por Martin Scorsese no primeiro, e agora por Francis Ford Coppola.

Cena de filme dos irmãos Lumière que compõe 'Lumière: A Aventura Continua!', dirigido por Thierry Frémaux
Cena de filme dos irmãos Lumière que compõe o documentário 'Lumière: A Aventura Continua!', dirigido por Thierry Frémaux - Divulgação

A interferência vital está na narração de Frémaux. Ela contextualiza as cenas e chama a atenção para figuras e ações ocultas. A palavra-chave é atenção. Num mundo saturado de telas, imagens violentas, simulacros, os 108 filminhos estão atentos às pessoas, seus afazeres e alegrias.

Contudo, o filme deixa ver que nem tudo era belo. São inúmeras as sequências com militares – treinamentos, paradas, uniformes. Involuntariamente, alude-se às guerras de então, a dos Bôeres, a Russo-Japonesa, a dos Boxers, a Hispano-Americana: disputas de territórios e mercados no auge do colonialismo e na aurora do imperialismo.

O belicismo chauvinista da Belle Époque confluiu para a Primeira Guerra Mundial, a carnificina que acabaria com todas as guerras. Nesse aspecto, o mundo pouco mudou.

As armas e petardos acionados na Ucrânia, em Gaza, no Irã, na Venezuela, quiçá na Groenlândia, apontam para um passado cada vez mais presente. Talvez os versos de Ferreira Gullar tenham de ser mudados: o que passou não passou.

Alto-mar, que compõe metade do planeta, deixa de ser 'terra de ninguém' com novo tratado, FSP

 Jéssica Maes

São Paulo

Entra em vigor neste sábado (17) o primeiro acordo global para proteção do alto-mar, que cobre cerca de metade da Terra. Ratificado por mais de 80 países, o texto tem o objetivo de conservar e usar de forma sustentável a biodiversidade marinha na região que está além dos domínios de cada país.

O alto-mar é caracterizado por toda a área que está mais do que 200 milhas náuticas (370 quilômetros) distante da costa, a chamada Zona Econômica Exclusiva. Dentro desta zona, cada nação tem soberania sobre os recursos naturais. Porém, o que fica além dela —cerca de 70% dos oceanos— estava numa espécie de limbo jurídico.

"Até então, podíamos considerar que o alto-mar era um mosaico de estruturas, de leis, de regras, e grande parte era terra de ninguém", diz a bióloga Janaína Bumbeer, gerente de projetos da Fundação Grupo Boticário.

Tubarão-baleia grande com corpo pontilhado nada em águas profundas azuis, acompanhado por um cardume de peixes menores ao seu redor.
Um tubarão-baleia, o maior peixe do oceano; novo tratado passa a proteger águas internacionais - Matthew Abbott - 6.mai.25/The New York Times

Um exemplo desse mosaico é o fundo do mar. Desde 1982, quando foi adotada a Convenção das Nações Unidas do Direito do Mar, a rocha que compõe o "solo" do oceano é considerada patrimônio da humanidade —ou seja, é de todo mundo. Assim, os recursos ali presentes só podem ser explorados em benefício da sociedade global.

"Mas a coluna d'água logo acima, que em alguns lugares do planeta pode chegar a 11 quilômetros de profundidade, não era de ninguém", conta o diretor de pesquisa e inovação do Inpo (Instituto Nacional de Pesquisas Oceânicas), Andrei Polejack, ressaltando a diferença conceitual.

"Se a água não era de ninguém, ela estava livre para ser explorada. Qualquer país que chegasse lá, fazia o que queria. Não tinha muita fiscalização e controle sobre isso", diz ele. "Agora isso muda".

Essa situação de descontrole foi exemplificada pelo vazamento de óleo que atingiu o litoral nordeste brasileiro em 2019. Vindo do alto-mar, o caso foi o maior derramamento de óleo já registrado em águas tropicais —mas a origem do material ainda é desconhecida e os responsáveis pela tragédia não foram punidos.

Regramento internacional

O BBNJ (sigla em inglês para Acordo de Biodiversidade Marinha Além da Jurisdição Nacional), conhecido também como Tratado do Alto-Mar, foi assinado após mais de duas décadas de negociações.

Ele aborda quatro questões principais: recursos genéticos marinhos, incluindo a partilha equitativa dos benefícios adquiridos a partir deles; ferramentas de gestão e áreas marinhas protegidas; avaliações de impacto ambiental; e capacitação e transferência de tecnologia.

Além disso, o texto trata de questões transversais, como financiamento, e cria um organograma institucional, incluindo COPs (sigla para Conferências das Partes, como são conhecidas as cúpulas da ONU) do oceano.

O modelo é semelhante ao adotado na diplomacia climática e prevê também um painel científico específico, para auxiliar no embasamento de decisões.

Conservação do oceano

"Apesar da crise do multilateralismo, o Tratado do Alto-Mar é uma conquista histórica e um sinal de unidade global", opina a bióloga Marinez Scherer, enviada especial para oceanos da COP30, conferência do clima das Nações Unidas realizada em Belém, em novembro.

O oceano, essencial para a manutenção da vida no planeta, é fortemente atingido pelas três grandes crises globais: mudança climática, poluição e perda de biodiversidade.

"As áreas marinhas protegidas criadas nas águas internacionais, por exemplo, poderão atenuar ameaças graves, como a mineração e as atividades de exploração de petróleo ou gás, que prejudicam a saúde do oceano e reduzem a sua resiliência às alterações climáticas", explica.

O Chile, que se candidatou a sediar o secretariado do BBNJ, propôs também o estabelecimento da primeira área protegida no alto-mar sob o tratado: as cadeias de montanhas subaquáticas de Salas y Gómez e de Nazca.

Segundo a ONG Oceana, que apoia a criação da reserva, expedições recentes descobriram 170 novas espécies marinhas na região. Assim, o local é considerado uma prioridade de conservação.

"Hoje em dia, só 1% do alto-mar está protegido com alguma legislação, mas a meta [da convenção de biodiversidade da ONU] é chegar a 30% até 2030", lembra Janaína Bumbeer, da Fundação Grupo Boticário.

Vale destacar, ainda, a importância do estabelecimento de estudos de impacto ambiental para essas áreas. Assim como acontece com o licenciamento ambiental em terra, essas análises deverão demonstrar cientificamente os riscos que atividades como certos tipos de pesca oferecem à biodiversidade marinha.

Scherer defende que o acordo é uma oportunidade para um "mutirão azul global". "Mas transformar essa promessa em resultados concretos exigirá ação política, cooperação internacional e forte embasamento científico", diz ela.

Na COP30, a pesquisadora esteve à frente de uma proposta lançada pela chefia brasileira do evento, um plano para acelerar soluções climáticas baseadas no oceano. O documento trata de diferentes eixos da economia e propõe ações a serem implementadas até 2030 e pede que sejam investidos ao menos US$ 116 bilhões (R$ 620,7 bilhões) nesse setor.

O oceano é um dos elementos mais importantes na manutenção do clima global. Ele absorve aproximadamente 30% do dióxido de carbono jogado na atmosfera e captura cerca de 90% do calor gerado por essas emissões.

O papel do Brasil

Para Polejack, do Inpo, o Brasil, que ratificou o acordo no final do ano passado, pode se beneficiar da novidade. "No Atlântico Sul, o Brasil tem liderança científica, junto com a África do Sul. Com o tratado, podemos melhorar nossas capacidades de pesquisa e acesso a tecnologias e dados importantes", afirma.

Ele lembra que a legislação brasileira em biodiversidade serviu de modelo para as discussões sobre repartição de benefícios e acesso aos recursos genéticos marinhos. Esses materiais podem ser usados para desenvolvimento de novos medicamentos, cosméticos e até na agricultura, em fertilizantes.

No próximo ano, o Brasil irá sediar, no Rio de Janeiro, a 3ª Conferência da Década do Oceano da ONU, em abril.

Apesar disso, Bumbeer avalia que o país também sofre do problema que acometia o planeta até agora: as regras e legislações relacionadas ao oceano são uma colcha de retalhos.

"Temos uma proposta que está tramitando há mais de dez anos para criar a Lei do Mar, que seria um grande guarda-chuva para ajudar a ligar todo esse regramento", diz a bióloga, destacando o fato de o texto ter sido criado a partir de mobilização da sociedade civil.

"Ano passado esse projeto de lei foi aprovado na Câmara, agora precisa passar no Senado. É uma oportunidade do Brasil pensar como vai se organizar internamente para entregar a sua parte na implementação do BBNJ."