quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

O Congresso e o Banco Master, Elio Gaspari, FSP

 O caso do Banco Master tornou-se radioativo. O Banco Central teve mais de um ano para enquadrá-lo e frangou o tamanho da fraude. O ministro Dias Toffoli tomou as rédeas do inquérito e embrulhou-se. O Supremo Tribunal tirou-o do caso mas, no mesmo lance, solidarizou-se com ele. (Como isso é possível, só o tempo dirá.) Uma parte do Congresso quer uma CPI, outra prefere apenas interrogar Daniel Vorcaro, dono da encrenca e arquivo vivo de suas ramificações.

Nessa confusão, em Brasília atira-se para todos os lados, menos para o alvo: as conexões de Vorcaro. Não deixa de ser curioso que, enquanto o tiroteio toma conta da agenda, a única instituição que vem investigando com sucesso o material radioativo é mantida ao largo da agenda. Trata-se da Polícia Federal, a quem se devem as poucas novidades saídas da caixa preta do Master.

Homem de barba e cabelo escuro veste terno azul e gravata clara, falando ao microfone azul em ambiente interno com iluminação azul e público ao fundo.
O banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, em vídeo do grupo Lide, durante evento em São Paulo em 2024 - Reprodução TV Lide no YouTube

Por incrível que pareça, a criação de uma CPI traz mais riscos que esperanças. A CPI da fraude das Lojas Americanas ainda está na memória das pessoas. Aquela CPIzza terminou num vexame. Não responsabilizou viv'alma nem ouviu os grandes acionistas da empresa. Quando ela terminou, havia deputados denunciando deputados, e só.

Vorcaro quer um microfone para responsabilizar o Banco Central, o governo quer proteger sua tropa e parte da oposição quer manter as investigações longe de seus afortunados parlamentares. Com essas forças chocando-se na discussão do problema, só havia uma resultante possível: o sigilo. O ministro Dias Toffoli bem que tentou. Teve a má sorte de encrencar-se com a Polícia Federal e deu no que deu.

A saída de Toffoli da relatoria jogou na agenda o que seria o vazamento, a partir de um grampo, de uma reunião fechada do STF. Beleza, sorteia-se um novo relator e o crime estaria num provável grampo, que revelou com fidelidade o desfecho do problema. Ministros do Supremo querem identificar e punir os responsáveis pelo vazamento. Tudo bem, desde que prossigam as investigações da PF.

O estouro do Master começou com um banco fraudando operações e lesando fundos de pensão de servidores. Essa rede de tramoias vinha das conexões de Vorcaro azeitadas por negócios, eventos e festas. Uma parte dessas conexões está guardada nos 52 aparelhos celulares do banqueiro e de seus diretores. Esse material está com a PF, que até agora não o mostrou, nem ao STF.

É por aí que a maior fraude bancária de Pindorama poderá vir à luz. Nessa trama, Vorcaro é um detalhe, como detalhes foram os Magalhães Pinto do banco Nacional e Calmon de Sá do Econômico. Os banqueiros arruinados são a parte móvel de um elenco. Ora é um, ora é outro, até que chega o próximo. A trama é sempre a mesma e passa pelas conexões desses bancos com o andar de cima da política de Pindorama. (Na receita do Econômico e do Nacional, havia ex-ministros no pódio.)

Se as combinações de Brasília resultarem numa CPI para o Master, tudo bem, desde que não atrapalhe nem tente obstruir o trabalho da Polícia Federal. Tentou-se e não deu certo.

Fraude em bombas desvia R$ 248 milhões por ano em São Paulo, FSP

 

São Paulo

Fraudes volumétricas em bombas de combustíveis podem desviar R$ 248 milhões por ano em postos de gasolina no estado de São Paulo.

Equipamentos eletrônicos inseridos nas placas das bombas de combustíveis podem reduzir, em média, 10% do volume entregue para os clientes, segundo estimativa do ICL (Instituto Combustível Legal).

A imagem mostra uma bomba de combustível em um posto de gasolina. Uma mão está pressionando um botão na bomba, enquanto as mangueiras de abastecimento estão visíveis, com uma delas destacada em verde e outra em amarelo. Ao fundo, é possível ver um carro estacionado.
Posto Petrobras, José Maria Lisboa, na Av. Nove de Julho, Jardim Paulista - Rafaela Araújo/Folhapress

Se considerado o preço médio da gasolina C em torno de R$ 5,80 por litro na capital paulista, a perda direta seria de aproximadamente R$ 29 a cada abastecimento de 50 litros.

O estudo estima que cerca de 216 estabelecimentos, isto é, 2,5% dos postos do estado de São Paulo, adotam práticas do tipo. Com isso, volumes na ordem de 119 mil litros diários deixariam de ser entregues ao consumidor.

Além das fraudes, os consumidores enfrentam variações nos preços dos combustíveis.

Preços dos combustíveis

Na última semana de janeiro, a Petrobras anunciou o corte de 5,2% no preço da gasolina vendida por suas refinarias. O valor passou a R$ 2,57 por litro, uma queda de R$ 0,14 em relação ao preço anterior.

A medida chega aos poucos às bombas. O preço do combustível para o consumidor já estava pressionado desde o início do ano pelo aumento de R$ 0,10 por litro na alíquota do ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços), que foi integralmente repassado ao consumidor.

Desde 2022, o ICMS é unificado no país e reajustado uma vez por ano pelos estados. Em 2026, a alíquota subiu para R$ 1,57 por litro, apesar da queda do preço da gasolina nas refinarias.


Ruy Castro De Gardel a Montiel, Ruy Castro -FSP

 Correndo o risco de perder leitores pelo sincericídio, confesso que, até há 30 dias, se me falassem em Bad Bunny eu pensaria estar ouvindo uma referência a Bugs Bunny, o coelho dos gibis que, no Brasil, se chamava Pernalonga. Só então fiquei sabendo do cantor porto-riquenho que peitou para valer Donald Trump num jogo de futebol americano em defesa dos imigrantes e, embora sem ouvi-lo, fiquei seu fã. Leio agora que Bad Bunny cantou em São Paulo e, pelos comentários, fará com que nós, brasileiros, percamos nossa "histórica má vontade contra os artistas da América Latina".

Mas haveria essa má vontade e seria tão histórica? Pelo que sei, o argentino Carlos Gardel foi tão querido no Brasil quanto em todas as Américas, e seus tangos, como "Uno", "Mano a Mano" e "El Dia que me Quieras", continuaram a ser ouvidos aqui por décadas depois de sua morte, em 1935. Aliás, nas mesmas vitrolas em que rodava a orquestra de Francisco Canaro, e posso quase apostar que foi num
78 rpm de Canaro que Caetano Veloso aprendeu a letra do mortífero tango "Cambalache", que gravou em 1969.

E os boleros, coqueluche nacional com os mexicanos Agustín Lara, Pedro Vargas, Gregorio Barrios, Tito Guizar, Libertad Lamarque, Elvira Rios e o Trio Los Panchos, o cubano Bienvenido Granda e o chileno Lucho Gatica? E a rumba, com Xavier Cugat e os Lecuona Cuban Boys? E o mambo, com Perez Prado? E a incrível (pela extensão de voz) peruana Yma Sumac? E Sarita Montiel, que, como se não bastasse, cantava?

LPs nacionais de 10 polegadas dos anos 1950 com artistas latino-americanos
LPs nacionais de 10 polegadas dos anos 1950 com artistas latino-americanos - Heloisa Seixas

O próprio Brasil também produzia tudo isso, e bem. A Românticos de Cuba, sucesso internacional, era a Orquestra Tabajara de Severino Araújo sob pseudônimo. Nelson Gonçalves e Dalva de Oliveira gravaram dezenas de tangos em espanhol; o Trio Irakitan e Altemar Dutra idem, com os boleros; e até Elis Regina, recém-chegada do Sul e aspirando à capa da Revista do Rádio, estourou com o cha-cha-cha "Las Secretarias".

Dos anos 1920 a 1970, a América Latina fazia parte da cultura brasileira. Só não era chamada por esse nome.