quarta-feira, 13 de maio de 2026

Gestão Nunes prevê usina para queima de lixo em Perus, e moradores protestam, FSP

 

São Paulo

A gestão do prefeito Ricardo Nunes (MDB) prevê a instalação de uma usina de combustão de lixo na área de um aterro sanitário desativado em Perus, na zona norte de São Paulo. O equipamento deve gerar energia a partir da queima de resíduos e mobilizou moradores contrários à iniciativa.

A combustão do lixo faz parte de um sistema de geração de energia elétrica a partir do calor da queima dos resíduos, conhecido como waste-to-energy, ou recuperação energética em português.

Vista aérea mostra área urbana densa com casas e prédios baixos à esquerda e área de antigo aterro árvores à direita, em São Paulo.
Terreno que irá abrigar novo sistema de tratamento de resíduos, onde funcionou o aterro sanitário Bandeirantes, em Perus, na zona norte de SP - Rafaela Araújo/Folhapress

O sistema está previsto para começar a funcionar em Perus a partir de 2029. Estrutura semelhante deve ser instalada em São Mateus, na zona leste da capital paulista, até 2035, e uma terceira em Santo Amaro, na zona sul, ainda sem data prevista.

O projeto deve ocupar terreno do antigo aterro sanitário Bandeirantes, que funcionou no bairro de 1979 a 2007. A retomada da região como ponto de tratamento de lixo tem reavivado memórias de moradores, que conviveram por décadas com mau cheiro e trânsito ininterrupto de caminhões.

"Convivemos 27 anos com muita poluição e ficamos sabendo no meio do ano passado sobre a construção de um incinerador de lixo em Perus, o que vai na contramão das medidas de preservação ambiental e de enfrentamento da crise climática", diz Mario Sergio Bortoto, 69, presidente da Associação dos Aposentados de Perus, uma das lideranças do movimento e habitante do bairro desde a infância.

O movimento de moradores reuniu cerca de 300 pessoas no sábado (9), na praça do Samba, em Perus, em manifestação contra a instalação do complexo de tratamento de resíduos. No manifesto, os integrantes relembraram a luta do bairro contra o funcionamento de uma fábrica de cimento nos anos 1970, que espalhava um pó branco e fino pela vizinhança.

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Os moradores citam também a proximidade do complexo de tratamento de resíduos da Terra Indígena do Jaraguá e do parque Anhanguera, o segundo maior na cidade, com vegetação remanescente da mata atlântica. Os gases gerados no processo aumentariam a poluição da região, alega o movimento.

Em nota, a gestão Nunes disse que os equipamentos previstos seguem parâmetros rigorosos e não oferecem riscos à saúde da população "quando operados em conformidade com as normas ambientais vigentes".

A instalação das usinas de combustão de lixo, que recebem o nome técnico Unidade de Recuperação Energética, constam no contrato de prorrogação da concessão com as empresas Loga e Ecourbis, responsáveis pela coleta e pelo tratamento de lixo na cidade, como parte das medidas de modernização do serviço.

No caso de Perus, a Loga será responsável pela instalação e operação dos equipamentos. O custo operacional previsto em contrato de cada Unidade de Recuperação Energética é de R$ 97 milhões por ano.

A prorrogação por mais 20 anos dos contratos de coleta e tratamento de lixo em São Paulo é investigada pela Promotoria desde 2024, sob questionamento de ter sido feita sem uma nova licitação.

O inquérito civil investiga problemas recorrentes na prestação do serviço e a inserção de equipamentos não previstos no contrato original, como as Unidades de Recuperação Energética.

Sobre isso, a gestão Nunes informou que a prorrogação dos contratos vigentes ocorreu conforme previsão legal, "com o objetivo de assegurar a continuidade da prestação dos serviços públicos e a execução de projetos de modernização e sustentabilidade ambiental", diz trecho da nota.

Segundo contrato, as Unidades de Recuperação Energética terão capacidade de tratar mil toneladas de resíduos por dia, o equivalente a cerca de 5% do total de resíduos produzidos diariamente na cidade.

Parte desse tratamento poderá ser convertido em renda pelas concessionárias por meio da venda de créditos de carbono com previsão de arrecadar, na primeira fase de operação, cerca de R$ 881,6 mil por ano, com preço previsto de R$ 11,02 por crédito.

Para Yuri Schmitke, presidente da Associação Brasileira de Energia de Resíduos (Abren), a venda de créditos de carbono a partir da energia gerada com a combustão de resíduos não representa uma receita significativa para as concessionárias. "As unidades de recuperação energética mais evitam a produção de gás carbônico do que geram", diz.

O executivo também rebate argumentos do movimento dos moradores de que o sistema contribui para a poluição do ar. "Pelo contrário, o tratamento de gases faz com que a cadeia de combustão opere sem vazamento", diz. "Há também filtros e mecanismos de lavagem, com isso o ar que sai de uma usina é mais limpo do que o ar que respiramos em São Paulo", continua.

Para o morador Bortoto, a preocupação é com a fiscalização e controle do tratamento de gases nas usinas de combustão de lixo.

Ainda inédita no país, a primeira usina de combustão de lixo para gerar energia deve começar a funcionar a partir de janeiro do próximo ano em Barueri, na Grande São Paulo. A estimativa é que a unidade gere energia suficiente para abastecer toda a cidade, equivalente ao consumo de 320 mil pessoas.

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Deirdre Nansen McCloskey - Lamento pelos liberais perdidos, FSP

 Um dos heróis dos EUA é Henry David Thoreau, nascido em Concord, Massachusetts, em 1817, e morto na mesma cidade em 1862.

Observe que sua vida foi curta, apenas 44 anos. Eu tenho 83 e fui salva muitas vezes, como a maioria das pessoas, pela medicina moderna, que um ministro de Trump quer abandonar. Hoje em dia, pego-me calculando a terrível brevidade da vida nos tempos antigos. Alguns dos grandes viveram muito —Sócrates, Milton, Euler, Goethe, Twain, Borges e o próprio Joaquim Maria Machado de Assis. Eles viveram o suficiente, em todo caso, para explorar plenamente a extensão de seu talento e habilidade surpreendentes.

Estátua de Henry Thoreau e réplica de sua cabana às margens do lago Walden

Mas choca qualquer pessoa que os conheça ouvir falar de John Keats, o poeta inglês (1795-1821), Franz Schubert, o compositor alemão (1797-1828), ou Srinivasa Ramanujan, o matemático indiano (1887-1920). As mortes de Mozart, aos 35, e de George Orwell, aos 49, me enlouquecem. Orwell estava se tornando um grande liberal. E Mozart era, bem, era Mozart. Meu maior lamento é por Jane Austen (1775-1817).

Quarenta e um anos não foram suficientes. Ela estava começando a ampliar seu foco para a vida urbana e comercial —em relação à qual não era automaticamente hostil, como tantas outras figuras literárias. Baudelaire.

John Hurt em cena do filme "1984", baseado na obra de George Orwell - Divulgação

Thoreau é geralmente considerado um ambientalista pioneiro. E era. Observe que ele nasceu e morreu em uma cidade pequena. Estudou em Harvard, perto da grande cidade de Boston, mas voltou e passou o resto da vida refletindo sobre como viver em harmonia com a natureza. Foi trabalhador braçal e agrimensor e em certo momento administrou a empresa de lápis do pai. Depois passou a dar palestras e escrever. Seu livro mais famoso, "Walden ou A Vida nos Bosques", de 1854, narra seus dois anos e meio de vida solitária numa cabana na margem de um pequeno lago em Concord.

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Durante toda a vida ele foi um naturalista, intensamente curioso e extremamente observador da vida em todos os seus detalhes. Teve tempo de ser um dos primeiros leitores americanos de "A Origem das Espécies", de Charles Darwin, que confirmou, contrariando a crença comum da geração espontânea de vida a partir de matéria inorgânica, sua tese de que toda a vida veio de sementes, desde a origem. "Walden" inspira os amantes da natureza desde então.

Mas a melhor razão para amar Thoreau, e lamentar que ele não teve tempo de elaborar esse lado de sua vida e seu pensamento para ter uma influência maior no mundo por meio dele, é o fato de ele ter sido um liberal convicto. Foi um abolicionista ferrenho, por exemplo, e atuante na chamada Ferrovia Subterrânea, que levava ao Canadá negros escravizados que fugiam.

Mas sua obra liberal mais importante é o longo ensaio "A Desobediência Civil" (1849). Ela serviu de inspiração para movimentos de libertação em todo o mundo, como o de Gandhi na Índia, o de Martin Luther King nos EUA e o de Nelson Mandela na África do Sul.

Mas a maioria das pessoas que pensam em Thoreau como um homem da esquerda estatista moderna não percebe a profundidade de seu liberalismo. O início de "A Desobediência Civil" é: "Aceito de todo o coração o lema ‘O melhor governo é o que menos governa’; e gostaria de vê-lo posto em prática de forma mais rápida e sistemática".