segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Projeto tira trecho do córrego do Sapateiro das sombras, FSP

 Vicente Vilardaga

São Paulo

O córrego do Sapateiro tem suas nascentes no bairro Vila Mariana, na zona sul de São Paulo, uma delas entre as ruas Lutfalla Salim Achoa e Rino Pieralini. Desce em direção ao parque Ibirapuera, onde forma os três lagos artificiais. Depois alcança a avenida Juscelino Kubitschek para desaguar no rio Pinheiros na altura da Vila Olímpia. Tem 6,6 km de extensão e é mais um córrego da cidade escondido pelo concreto.

Segundo mapeamento do Instituto Rios e Ruas, o município tem 800 rios, córregos e corpos d'água na sua área urbana, uma grande parte soterrada como o Sapateiro. Sempre para favorecer o transporte rodoviário, a cidade cresceu com ruas e avenidas construídas em cima dos rios, associados com enchentes, esgoto, mau cheiro e doenças. A primeira canalização em São Paulo foi a do córrego Anhangabaú, no começo do século 20.

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Ponte sobre um dos lagos formados pelo córrego do Sapateiro no parque Ibirapuera - Zanone Fraissat/Folhapress

Muitas pessoas ignoram ou desprezam os rios urbanos; são vistos apenas como algo sujo. Muitos moram em cima deles, mas não sabem de sua existência. Córregos que fizeram parte da cultura dos bairros e, inclusive, ajudaram a moldar seus perímetros correm hoje em obscuras galerias de águas pluviais.

"O que o Rio e Ruas faz é levar para a população o que foi sonegado, o que foi escondido", diz o arquiteto José Bueno, um dos idealizadores do Instituto, surgido em 2010. "Os rios são fios condutores da experiência, da reflexão e da conversa: são a plataforma para pensar a cidade. A gente poderia dividir em São Paulo em bairros hídricos, orientados pelas bacias hidrográficas."

Um dos objetivos do instituto é conseguir colocar sob a luz do sol pequenos trechos de rios da cidade e lembrar que eles existem. Um caso é o do Sapateiro, cuja nascente foi revitalizada. Há um estudo publicado pela Guajava Arquitetura nos cadernos de Drenagem da Secretaria de Infraestrutura Urbana e Obras que propõe a abertura de um trecho de cerca de 150 m do córrego na rua Astolfo de Araújo, na Vila Mariana. Na rua, há duas grades que permitem ver a galeria fluvial. Perto delas dá para sentir o péssimo odor.

Nascente do córrego do Sapateiro
Entrada da nascente do córrego do Sapateiro escondida no final de uma rua na Vila Mariana - Vicente Vilardaga/Folhapress

"O que propomos não é abrir o córrego como originalmente ele era porque isso é impossível, mas podemos trazer de volta uma vazão mínima com sua própria água, que a gente pega mais a montante", afirma Riciane Pombo, diretora da Guajava, parceira do Rios e Ruas. "É um fio d'água que a gente traz para cima do asfalto." A iniciativa tem um efeito simbólico.

Outro trecho que pode ser aberto na bacia do Sapateiro fica no canteiro central em frente ao portão 10 do parque Ibirapuera e perto do Obelisco. É um pedaço de 50 metros de um afluente, o córrego Boa Vista.

Embora ainda não haja nada de concreto, as propostas de abertura de rios estão sendo mais bem acolhidas pelo governo municipal pelos seus efeitos positivos para a drenagem e a paisagem. Alguns rios que podem voltar à tona em algum trecho são o Saracura Mirim, afluente do Anhangabaú também canalizado no começo do século 20, e o das Corujas e o do Bexiga.

Rua Astolfo de Araújo
Pequeno canal do córrego Saracura é projeto alternativo de drenagem na rua Astolfo de Araújo - Vicente Vilardaga

Para Bueno, é preciso gerar pequenos episódios para se aumentar a discussão sobre os rios paulistanos. "Não estou falando em botar o Itororó para correr na avenida 23 de Maio. Isso não vai rolar agora. O importante é mostrar quanto a São Paulo ganha com um rio aberto, saneado, uma área regenerada, um parque alagável ou um jardim de chuva", diz. "A gente está a passos lentos, mas é um caminho sem volta com a cidade mudando seu modelo de desenvolvimento e urbanização."

O Rio e Ruas começa neste mês um projeto de expedições aos rios ocultos da cidade bancado por uma emenda parlamentar do gabinete da vereadora Renata Falzoni (PSB) e aprovado pela Secretaria do Verde e do Meio Ambiente. Serão dez passeios, um por mês e aos fins de semana, incluindo Jardim Pantanal, Território do Jaraguá, Parque Guarapiranga e Bacia do Rio Saracura. O primeiro, dia 28 de fevereiro, será uma pedalada pela ciclovia do rio Pinheiros até o parque Jurubatuba. A participação é gratuita.

Hélio Schwartsman - A mágica de Kassab, FSP

 

São Paulo

PSD de Gilberto Kassab vai mesmo lançar candidato presidencial? Kassab é um operador político competente. Ele praticamente monopolizou o campo dos potenciais postulantes de direita e centro-direita. Estão sob as asas de sua agremiação Ratinho JúniorEduardo Leite e Ronaldo Caiado. Só Romeu Zema corre por fora pelo Novo.

O interessante é que qualquer um deles tem mais chance de derrotar Lula num eventual segundo turno do que Flávio Bolsonaro, o candidato da direita radical. O problema é justamente chegar ao segundo turno, já que há no eleitorado de 15% a 20% de bolsonaristas raiz que votam cegamente em qualquer coisa que o ex-presidente e atual presidiário indicar. Se o sobrenome proposto começar com B e terminar com O, o apelo fica irresistível. A moral da história, se é que essa história tem moral, é que é difícil para um postulante do campo conservador superar Flávio no primeiro turno. Mas difícil não é sinônimo de impossível. E o PSD não reclamaria se aparecesse uma chance de levar a Presidência com candidato próprio.

Homem de meia-idade com cabelo escuro penteado para trás, vestindo camisa polo preta, sentado em cadeira com estofado listrado em tons terrosos. Ao fundo, parede bege com dois quadros coloridos, um com padrão quadriculado multicolorido e outro em preto e branco.
O presidente nacional do PSD, Gilberto Kassab, durante entrevista em sua casa na zona oeste de São Paulo - Igor Gielow - 28.jan.26/Folhapress

Existem, contudo, limites ontológicos para a atuação dessa legenda. Ao fundar a sigla em 2011, Kassab foi profético ao dizer que ela não seria de esquerda, de direita nem de centro. O PSD é uma espécie de PaSsárgaDa partidária, onde todos podem ser felizes, independentemente da ideologia que abracem. É uma agremiação em que, respeitados os feudos, lulistas e bolsonaristas convivem em relativa harmonia. A agremiação tem ministros no Planalto e Kassab é ele próprio secretário do governador Tarcísio de Freitas, um bolsonarista nada enrustido.

O PSD é também um partido de cooptação. Ele vem crescendo nas urnas, mas em boa medida por atrair para suas fileiras, às vésperas de pleitos, políticos já estabelecidos, mas que estão insatisfeitos com suas legendas. Passárgada tem o seu apelo.

Minha impressão é que a legenda até poderá entrar na corrida presidencial, mas desde que isso não ameace seu DNA desideológico que é, no fim das contas, o segredo de seu sucesso.

Ambipar: movimento coordenado entre fundo e compra de ações por dono intriga mercado, FSP

 Stéfanie Rigamonti

São Paulo

Investidores estão intrigados com um movimento coordenado que envolve uma empresa de Tercio Borlenghi Junior, dono da Ambipar; o Fidc (Fundo de Investimento em Direitos Creditórios) Fênix, ligado à companhia de gestão ambiental; e uma compra massiva de ações por Borlenghi, tudo a partir junho de 2024.

O período bate com uma investigação na CVM (Comissão de Valores Mobiliários) sobre uma suposta manipulação do preço da ação da Ambipar. O órgão quer saber se fundos e operações ligados ao Banco Master, ao empresário Nelson Tanure e a Borlenghi contribuíram para uma alta irregular dos papéis da companhia.

De junho a agosto, as ações da Ambipar saltaram cerca de 780%. Segundo dados da empresa, nesse período, Borlenghi comprou sozinho R$ 334 milhões em ações da companhia. Nos meses anteriores, não há registro de compra de papéis da empresa pelo seu controlador.

A imagem mostra a fachada de um edifício moderno da Ambipar Group, com grandes janelas espelhadas e uma parede lateral em tom amarelo. Há um jardim bem cuidado na frente, com gramado verde e algumas árvores. No fundo, é possível ver caminhões da empresa estacionados e um céu claro. Uma pessoa está caminhando em direção à entrada do edifício.
Planta da Ambipar movida a energia fotovoltaica e biodigestor - Divulgação - 11.dez.2024

Se considerar o período de junho de 2024 a janeiro de 2025, foram R$ 375 milhões em ações adquiridas por Borlenghi.

Também a partir de junho de 2024, o Fidc (Fundo de Investimento em Direitos Creditórios) Fênix teve o registro de funcionamento aberto na CVM. O fundo tinha nessa época como cedentes de crédito, além de subsidiárias do grupo Ambipar, uma empresa chamada Everest Participações e Empreendimentos, que, segundo dados da Jucesp (Junta Comercial do Estado de São Paulo), tem Tercio Borlenghi Junior como sócio.

Desde julho daquele mesmo ano, porém, a Everest passa a constar como a principal cedente de recebíveis do Fidc. Em junho, o fundo possuía R$ 199,8 milhões em ativos. Em julho, esse montante saltou para R$ 554,8 milhões, uma elevação de 177,6%. Nos meses seguintes, os aportes para o Fênix diminuíram consideravelmente.

Consultada, a Ambipar disse que não comentaria.

Acionistas e credores que conversaram com a coluna sob condição de anonimato disseram suspeitar de que o Fidc foi usado para direcionar recursos da própria Ambipar, por meio de cessões de recebíveis simuladas, para a Everest e, depois, para seu controlador. Este, por sua vez, teria utilizado esses recursos para financiar a aquisição das ações da companhia de gestão ambiental.

sumiço de R$ 4,7 bilhões do caixa da companhia, que foram reportados no segundo trimestre do ano passado, pouco antes de a empresa pedir recuperação judicial, tem levantado suspeitas por parte de credores e acionistas sobre operações envolvendo a empresa e seu controlador.

O estopim para a crise da Ambipar foi uma cobrança de um valor bem inferior, de R$ 60 milhões, por parte do Deutsche Bank a título de "margem de garantia" de contratos de swap cambial, atrelados a dívidas da companhia no exterior.

Os investidores buscam entender, desde então, para onde foram esses R$ 4,7 bilhões reportados pela Ambipar. A companhia adiou por tempo indeterminado a divulgação de seu balanço do terceiro trimestre.

No site de relações com investidores da empresa de gestão ambiental não constam nem mais os resultados anteriores, que já haviam sido divulgados. O último balanço que aparece no portal é o do terceiro trimestre de 2024.