terça-feira, 10 de março de 2026

Governo Lula teme impacto eleitoral e age para evitar que EUA designem CV e PCC como terroristas - FSP

 

Brasília

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) manifestou a aliados preocupação com os efeitos políticos e econômicos que uma possível designação do CV (Comando Vermelho) e do PCC (Primeiro Comando da Capital) como organizações terroristas pelos Estados Unidos pode causar. O Planalto age para ao menos postergar essa decisão pelos americanos.

Desde segunda-feira (9), o presidente se dedica a reuniões em busca de uma alternativa à proposta americana, que, segundo aliados do petista, abriria brecha legal para intervenções dos EUA em território brasileiro. O governo teme ainda a exploração política dos bolsonaristas e tenta traçar uma estratégia de comunicação para explicar por que resiste à ideia.

Colaboradores do presidente atribuem à controvérsia o cancelamento da viagem de Lula ao Chile. Apesar do incômodo com o convite ao senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), potencial adversário de Lula nas próximas eleições, o argumento desses auxiliares foi o de que a negociação com os EUA é emergencial.

Homem idoso com cabelo e barba branca, vestindo terno azul escuro e gravata, olha para trás com expressão neutra. Fundo desfocado com luzes amareladas.
O presidente Lula em evento no Palácio Itamaraty, em Brasília - Adriano Machado - 4.mar.26/Reuters

Pessoas que acompanham o tema falam em diversos riscos na mudança de classificação, entre eles o potencial de afetar a economia e a competitividade do Brasil no cenário internacional.

Uma das preocupações está no interesse do presidente dos EUA nas transações financeiras feitas por Pix. Há quem tema uma tentativa americana de controle dessas operações, sob o argumento de que são usadas pelo crime organizado.

Empresas de cartão de crédito dos EUA são críticas da ferramenta de pagamento desenvolvido pelo Banco Central.

Na noite de segunda-feira, o presidente do PT, Edinho Silva, divulgou um vídeo em que alertou para os perigos dessa proposta. Nele, Edinho disse que o Brasil não é um puxadinho de Trump. Afirmou ainda que o governo americano poderia invadir o país e aplicar sanções econômicas contra o Brasil. Segundo ele, seria uma agressão à soberania brasileira.

A discussão nos EUA sobre designar as duas organizações como terroristas ocorre desde o ano passado. Uma ala no Departamento de Estado, órgão análogo ao Ministério das Relações Exteriores, defende dar essa classificação às facções nos moldes do que fizeram com outros grupos da América Latina, como o Cartel de Jalisco, no México.

Esse debate foi impulsionado nos EUA com a atuação do ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL) em 2025. Desde então, o governo Lula tenta brecar essa iniciativa. Na última semana, como revelou o UOL, o governo americano bateu o martelo e preparou toda a documentação para encaminhar ao Congresso e designar as facções como organizações terroristas.

O governo Lula agiu de imediato. Ainda na noite de domingo (8), o ministro Mauro Vieira (Relações Exteriores) telefonou ao seu homólogo, Marco Rubio. Segundo relatos obtidos pela Folha, um dos argumentos usados por Vieira foi o de que os americanos deveriam aguardar o encontro presencial entre Lula e Donald Trump para tomar a decisão definitiva.

Outros ministros também entraram em campo para tentar contornar a situação. O governo brasileiro acreditava que essa designação ocorreria ainda nesta segunda e, por isso, montou uma força-tarefa para debelar a movimentação. Auxiliares do presidente, porém, avaliam que o fato de ainda não ter havido anúncio significa apenas que o Brasil conseguiu ganhar tempo, e será necessário manter as conversas.

Entre as opções oferecidas pelo Brasil está a criação de uma cooperação na área do crime organizado. Integrantes do governo Trump, porém, avaliam que isso não é suficiente e que Lula atua para proteger as facções, segundo um conselheiro do presidente americano disse à Folha.

Como a Folha mostrou em uma série de reportagens, o CV e o PCC já estão presentes em todos os estados brasileiros e exercem hegemonia em ao menos 13 deles. As facções também expandiram sua atuação para além das fronteiras: o CV mantém negócios com ao menos oito países da América Latina, enquanto o PCC tem presença em ao menos 16 nações.

Endividamento cresce e atinge 70% das famílias em fevereiro, diz FecomercioSP, FSP

 Impulsionadas pelos gastos de fim de ano e a longa lista de despesas de janeiro, 3,1 milhões de famílias paulistanas iniciaram o mês de fevereiro com algum tipo de dívida, segundo levantamento de endividamento e inadimplência da FecomercioSP. O valor equivale a 70% das famílias na capital.

O índice voltou a subir após fechar o ano com três quedas consecutivas e registrar, em janeiro, 68,9% —o menor patamar em quase 1 ano.

Vista superior de uma jovem estressada com as mãos segurando a cabeça preocupada em encontrar dinheiro para pagar dívidas de cartão de crédito e todas as contas de empréstimo.
Acúmulo com gastos do fim de ano e lista de pagamentos de janeiro ajudam a explicar aumento das contas em atraso - Kawee/Adobe Stock

Para a FecomercioSP, o aumento do endividamento pode ser considerado natural diante das contas típicas do início do ano (como IPTUIPVA e material escolar) que alteram a dinâmica de consumo das famílias na capital de São Paulo.

"É possível que alguns lares tenham enfrentado dificuldades pontuais na organização do orçamento doméstico, já que não se trata de uma alta expressiva", diz a FecomercioSP em nota.

Entre as faixas salariais, o público com maior comprometimento está entre as famílias com até dez salários mínimos, que subiu de 72,8%, em janeiro, para 73,5%, em fevereiro. Nas famílias que recebem mais de dez salários, o índice saiu de 57,6% para 59,8% no mês passado.

O cartão de crédito segue sendo o principal vilão das despesas, com 78,7% dos tipos de dívidas declaradas. Em seguida estão o financiamento imobiliário (16,6%), crédito pessoal (12,4%) e o financiamento de veículos (10,6%).

De acordo com a FecomercioSP, o porcentual da renda comprometida com dívidas ficou em 27,2% no mês passado, pouco abaixo dos 27,5% de janeiro. A organização avalia que o maior acesso ao crédito não tem sido utilizado como saída emergencial pelas famílias paulistanas, mas como complemento natural de renda que segue sustentada pelo emprego.

"Por outro lado, o tempo de comprometimento com dívidas permaneceu estável pelo terceiro mês consecutivo, com média de sete meses. Quase um terço das famílias está comprometida por até três meses —período mais característico de modalidades como o cartão de crédito— e pouco mais de um terço por prazo superior a um ano, perfil típico de financiamentos imobiliários e de veículos", afirma a federação em nota.

INADIMPLÊNCIA EM ALTA

A inadimplência registrou aumento moderado em fevereiro, chegando a 20,4% das famílias (era 19,9% em janeiro), o correspondente a 917 mil famílias na cidade de São Paulo.

Quando analisado por faixa de renda, para as famílias com renda até dez salários, o aumento foi de 24,6%, em janeiro, para 25,2%, em fevereiro, enquanto no grupo que recebe acima desse patamar a alta foi de 8,4% para 8,6%.

O perfil dessa inadimplência é maior entre aqueles que estão com as contas em atraso por mais de 90 dias, chegando a 53,5% das famílias. A FecomercioSP afirma que é preciso atenção com esse tempo médio, uma vez que são dívidas mais longas e, em tese, com juros mais elevados e que dificultam sua regularização.

Atualmente, 9% das famílias afirmam não ter condições de pagar as dívidas em atraso. Entre esse porcentual de famílias, 10,8% delas têm intenção de contrair crédito ou financiamento nos próximos três meses.

Apesar do aperto financeiro, 81,2% das famílias sem condições de cumprir com suas obrigações e que pretendem contratar crédito querem utilizar o dinheiro para fazer compras e somente 12,6% pretendem pagar dívidas.

"As condições econômicas permanecem favoráveis, com inflação mais baixa e mercado de trabalho aquecido, o que sugere que essa expansão da inadimplência seja pontual e sazonal. Assim, forma-se um ambiente relativamente saudável para a contratação e, ao mesmo tempo, para a quitação de dívidas", diz a FecomercioSP.

A pesquisa de endividamento e inadimplência ao consumidor é apurada mensalmente pela federação. São entrevistados aproximadamente 2.200 consumidores na capital paulista.