O exercício da Presidência não assegurou a Lula a mesma porcentagem de eleitores que lhe entregou as chaves do Palácio do Planalto há quatro anos. A diferença entre o número de votos recebidos por Lula e Flávio Bolsonaro é muito próxima da que levou o presidente ao segundo turno contra o pai do candidato do PL. Apenas inverteram-se as posições de chegada.
Entre 2022 e agora, o líder petista perdeu eleitores em todo o país. Usando dados preliminares do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), o cientista político Marco Faganello (CPESP-FGV) mostrou que a sangria foi de 3,4 milhões de votos, espalhados por 98% dos municípios brasileiros. Praticamente todos, exceto as capitais dos estados.
Diante desse quadro, muitos passaram a falar numa avalanche da direita. Se ocorreu, porém, faltou combinar com o Congresso. Ali, o PT e os pequenos partidos de esquerda conservaram praticamente o mesmo total de cadeiras. Na Câmara de 2022, o PT tinha 65; na próxima legislatura passará a ocupar 70.
O PSOL ganhou um representante; o PSB perdeu dois; o PDT quatro; e o PCdoB ficou sem nada. No Senado, o PT continuará com nove, o PSB foi de seis para quatro, o PDT perdeu um senador e a Rede manteve seu único representante. Em suma, no Legislativo, as esquerdas, PT à frente, continuaram em minoria, como sempre.
A mudança significativa, embora não sendo uma avalanche, ocorreu no território das forças de direita. Especialmente nas duas casas, em virtude do notável crescimento do PL; por outro lado, minguaram tanto a centro direita (MDB e PSDB) quanto a direta pragmática (PSD, União Brasil, PP e Republicanos). A destra, aliás, sempre dominou o Congresso —mesmo quando, em seu segundo mandato, Lula quase alcançou a unanimidade junto à opinião pública. De fato, a composição do Legislativo espelha o Brasil real, conservador ou reacionário, mas sempre meio tosco; aquele país que a elite brasileira urbana e educada tem dificuldade de enxergar.
A ascensão do PL, transformado em legenda do bolsonarismo, vai consolidando a liderança da extrema direita. Ela não só expressa a vontade dos eleitores como resulta de uma escolha das elites partidárias.
Foi delas a decisão de aceitar, tacitamente, a imposição da candidatura do filho ungido pelo pai e de não apostar seriamente em alternativas promissoras —e mais moderadas. Houve cálculo político nessa escolha.
A vitória de Bolsonaro em 2018 deu aos partidos de direita a possibilidade de disputar eleições presidenciais com um candidato próprio, dotado de apelo popular e capacidade de mobilização de seguidores nas ruas e nas redes. Apelo popular forte o suficiente para indicar um sucessor, no caso de mesmo sobrenome. Esse o charme do populismo de extrema direita, que sempre faltou às raposas do centrão.
Em seu livro mais recente, "O País Dividido", o cientista político Jairo Nicolau sugere a possibilidade de o PL, ocupado pela ultradireita, tornar-se um partido com mais corpo e ideologia que as legendas que servem à ambição eleitoral dos políticos de direita. É uma possibilidade real, especialmente se o segundo turno presidencial consagrar o herdeiro do presidente golpista.
