segunda-feira, 26 de outubro de 2026

Ufa! - Helio Schwartsman - FSP

 Entre a sabedoria das massas e a loucura das multidões, o Brasil se pautou, talvez excepcionalmente, pela primeira. A população preferiu reentronizar um Lula enfraquecido a entregar as chaves do Planalto a um Flávio Bolsonaro com representação reforçada no Legislativo. É uma atitude inteligente, considerando o histórico antidemocrático do bolsonarismo. Prova-o a recusa de Flávio em reconhecer de imediato que sofreu uma derrota por mais de 4 milhões de votos de diferença.

A ideia básica por trás do sistema de freios e contrapesos é não deixar que nenhum agente concentre poderes demais. Normalmente essa é uma tarefa distribuída entre diferentes instituições, mas nada impede que o eleitorado cumpra a função. Cumpriu. E muito oportunamente, quando se leva em conta que a cúpula do Judiciário nacional, que deveria constituir a linha de frente nessa tarefa, vive um enorme déficit de credibilidade e não cessa de cometer erros em série. No próprio dia da eleição, cometeu mais dois.

Homem de cabelos grisalhos e barba segura microfone na mão esquerda e agita bandeira do Brasil com a direita, em estrutura metálica, contra fundo escuro.
Lula, já presidente reeleito, segura bandeira do Brasil na avenida Paulista, em São Paulo - Eduardo Knapp - 26.out.26/Folhapress

Em termos de votos, Lula deve um bom pedaço de sua histórica virada à redução, do primeiro para o segundo turno, do absenteísmo e dos brancos e nulos —um fenômeno raro. Basicamente, Lula foi reeleito porque pôde contar com os sufrágios de pessoas que ou se recusaram a apoiá-lo no primeiro escrutínio ou não consideraram importante fazê-lo. Não dá para confundir isso com um cheque em branco.

Se o resultado do pleito representa um grande alívio institucional, não tem efeitos tranquilizadores sobre os rumos da economia. Para reeleger-se, Lula deu rédeas ainda mais soltas à incontinência fiscal que caracterizou seu terceiro mandato. Enfrenta agora o duplo desafio de apresentar uma estratégia crível para lidar com o crescimento da dívida pública e tornar o inevitável estelionato eleitoral palatável para os que acreditaram em suas promessas.

Não sou muito otimista, mas, depois de domingo (25), não há como não reconhecer a extraordinária capacidade do presidente de dar a volta por cima quando tudo parece perdido.

PT quer filiar Janones e governo estuda dar a ele cargo com status de ministério- FSP

 Gabriela Echenique

Brasília e São Paulo

O PT pretende convidar André Janones (Rede-MG) para se filiar ao partido e integrantes do governo Lula defendem que ele ocupe algum cargo no quarto mandato do presidente.

O presidente reeleito Lula agradece ao público ao lado do deputado André Janones, e de seu vice Geraldo Alckmin, de cima do caminhão na avenida Paulista - Eduardo Knapp - 26.out.26/Folhapress

Ele foi eleito pela Rede, partido que não cumpriu cláusula de barreira. Nesse caso, uma migração para o PT poderia ser feita sem incorrer na cláusula de fidelidade partidária.

Após a mobilização digital feita por apoiadores entre o primeiro e segundo turno, aliados já vinham defendendo que, se Lula vencesse, Janones teria direito a um cargo no governo. Após a vitória, surgiram mais defensores da proposta.

A avaliação é que Janones, sozinho, não foi o responsável pela vitória neste domingo (25), mas foi um dos mais importantes, ao fazer nas redes o que a esquerda não tinha aprendido até então.

A criação do canal "Exército do Lula", que ultrapassou 10 milhões de seguidores, foi fundamental para a virada histórica, na visão de aliados.

Governistas dizem acreditar que Lula vai recompensar Janones de alguma forma. O primeiro recado foi dado após a vitória na avenida Paulista, quando o petista exaltou o aliado.

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Janones foi eleito deputado federal por Minas Gerais. Por isso, governistas defendem que ele ganhe o comando de uma secretaria, mas com status de ministério. Assim, poderia se licenciar da Câmara dos Deputados sem perder o mandato.

Uma opção aventada nos bastidores é criar uma Secretaria Especial de Comunicação Digital para fortalecer ações do governo nas redes sociais, por exemplo.

O que é o Brasil senão os brasileiros? Ronaldo Lemos, FSP (definitivo)

 Esta coluna está sendo escrita do passado. Hoje é sexta (23), faltam menos de 48 horas para o 2º turno. Quando o texto sair impresso na Folha de segunda (26), você saberá quem ganhou. Eu, que escrevo estas linhas agora, não.

Mas uma coisa eu sei. Para quase metade do país, a semana se inicia com a sensação de fim do mundo. A rejeição de cada metade pela outra é praticamente igual. Quem foi derrotado está prestes a ser governado por alguém em quem jamais votaria. O país está dividido ao meio, com possivelmente um quinto que não votou.

Teclado numérico de urna eletrônica com botões pretos numerados de 0 a 9, e botões coloridos: branco (BRANCO), laranja (CORRIGE) e verde (CONFIRMA). Etiqueta indica município São Paulo, zona 0001, seção 0001, patrimônio 51.309.455.
Urna eletrônica apresentada em cerimônia pública do TRE no centro de São Paulo - Zanone Fraissat - 23.set.26/Folhapress

Como mostram as pesquisas, cada metade acredita que a outra é feita de gente "pior". Para quem está entre os derrotados, vale lembrar que não é a primeira vez que o mundo "acabou". Um dos textos seminais do Ocidente foi escrito depois de um "fim do mundo".

No dia 24 de agosto de 410, Roma foi pilhada pelos visigodos depois de 800 anos sem ser tomada. São Jerônimo escreveu: "O mundo pereceu em uma cidade". A polarização estava lá. Os pagãos culpavam os cristãos pela pilhagem de Roma. Usualmente, a culpa dos "fins do mundo" é sempre do outro.

Foi nesse contexto que santo Agostinho escreveu seu "Sermão sobre a Queda de Roma", um dos textos mais potentes contra o derrotismo. Quando tudo parecia desesperador, ele lembra que quem confunde a própria cidade com o mundo vive as derrotas como se fossem o apocalipse. Em vez disso, Agostinho pediu a cada um que olhasse para si mesmo.

Ele começa reconhecendo a dor, o choro e o desconsolo. Mas logo em seguida lembra que o mundo continua no dia seguinte. Antes das instituições, a cidade está nas pessoas. "Roma enim quid est, nisi Romani"? O que é o Brasil senão os brasileiros?

A queda de Roma permitiu enxergar que toda cidade é sempre duas. Uma construída com base no amor egoísta, a si mesmo, e a outra construída com base no amor ao próximo e a Deus. Nesse contexto, impérios serão sempre frágeis, e as quedas também representam renovações. Nas suas palavras: "Entre os inimigos, escondem-se futuros concidadãos".

Há quem vá usar a derrota para romper ainda mais com o "outro". Pelas pesquisas, 52,7% afirmam já ter se afastado de alguém por razões políticas. E há quem vá usar a derrota para recomeçar e unir forças para trabalhar por sua cidade. "O homem fez, o homem desfez."

Como santo Agostinho nos lembra: "Vivamos bem e os tempos serão bons. Nós somos os tempos: como somos nós, assim são os tempos".

Essa frase costuma ser relembrada pelo papa Leão 14, que, aliás, é o primeiro papa agostiniano.

A responsabilidade aparece mesmo no que iremos fazer depois do "fim do mundo". Santo Agostinho nos lembra de Jó, que perdeu tudo que tinha e mesmo assim recusou o conselho de amaldiçoar e desistir.

Termino lembrando um outro Agostinho português, Agostinho da Silva, que viveu também na Bahia. Em meio à Segunda Guerra, ele pediu que buscássemos em cada pessoa, povo e crença "não o que existe de adverso, para que se levantem barreiras, mas o que existe de comum e de abordável, para que se lancem as estradas da paz". Para transformar um país de verdade, é preciso lembrar que um povo não se define pelo que odeia, mas pelo que ama. Ódio é coisa ruim, não dá certo.