quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Pesquisa extrai compostos de alto valor de resíduos da laranja - Agência Fapesp

 

 

Parte significativa dos subprodutos da indústria citrícola ainda é pouco explorada em relação ao seu potencial químico, diz pesquisador da UFSCar (imagem: Pascal Bondis/Pixabay)


Nova técnica sustentável reduz impacto ambiental e isola substâncias bioativas como a hesperidina, com propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias

26 de agosto de 2026

Antonio Rodrigues da Silva Neto | Agência FAPESP * – Resíduos resultantes da produção industrial de suco de laranja podem ser fontes de compostos bioativos de alto valor agregado quando recuperados por métodos de extração mais eficientes e sustentáveis. É o que mostra um estudo conduzido no Departamento de Química da Universidade Federal de São Carlos (DQ-UFSCar) em que foram identificados e extraídos compostos com alto grau de pureza, como a hesperidina, um flavonoide com propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias. Outros bioativos importantes – como D-limoneno, valenceno e carboidratos solúveis – também foram identificados durante a pesquisa. Os resultados foram publicados em fevereiro no periódico Foods.

Durante o processamento do suco, vários subprodutos são gerados, como cascas, sementes, bagaço, óleos essenciais e águas residuais, que compõem uma matriz agroindustrial complexa. Esses resíduos têm grande potencial econômico e oferecem oportunidades para reduzir custos no processo e diminuir o impacto ambiental. Com isso em mente, Antonio Gilberto Ferreira e Maria Fátima das Graças Fernandes da Silva, docentes do DQ-UFSCar, investigaram como a química verde poderia contribuir para o melhor reaproveitamento dessa matriz. A pesquisa contou com a colaboração de Vânia G. Zuin Zeidler, do Institute of Sustainable Chemistry, em Lüneburg, na Alemanha. O grupo recebeu financiamento da FAPESP por meio de quatro projetos (14/50918-7, 17/25015-1, 18/11409-0 e 20/07806-4) e também do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

“Embora a indústria citrícola gere um grande volume de resíduos, parte significativa desses subprodutos ainda é pouco explorada em relação ao seu potencial químico”, explica Ferreira.

Alternativas aos processos tradicionais

Um dos desafios da pesquisa foi analisar a complexidade química dos resíduos gerados em diferentes etapas do processamento industrial da laranja. As amostras avaliadas reuniam substâncias de naturezas distintas, o que exigiu métodos capazes de oferecer precisão sem tornar o processo excessivamente longo, agressivo ou dependente de muitas etapas de preparo. Uma das técnicas utilizadas foi a ressonância magnética nuclear (RMN), que possibilitou analisar misturas complexas com preparo mínimo das amostras e sem destruí-las.

Associada a equipamentos de cromatografia – que funcionam como “filtros” potentes para separar e identificar substâncias químicas –, a ressonância permitiu monitorar compostos como hesperidina, D-limoneno e valenceno ao longo da cadeia produtiva e indicar frações com maior potencial de reaproveitamento.

A pesquisa também incorporou a extração assistida por micro-ondas, estratégia considerada mais eficiente e ambientalmente mais adequada para recuperar compostos bioativos. O método reduz etapas do processo e contribui para uma abordagem mais sustentável na obtenção de moléculas de interesse a partir da biomassa residual cítrica.

O valor dos resíduos

Com o uso de ressonância magnética nuclear, foi possível rastrear as substâncias de valor até mesmo no bagaço de laranja. De acordo com os pesquisadores, foi possível extrair hesperidina com alto grau de pureza com o método assistido por micro-ondas de forma eficiente e ambientalmente adequado. As análises confirmaram que a pureza da hesperidina isolada era de 87,66% por ressonância e de 84,30% por cromatografia.

A técnica de cromatografia usada para analisar compostos orgânicos voláteis e semivoláteis com alta precisão permitiu identificar outras substâncias valiosas, como alfa-pineno, sabineno, beta-mirceno e linalol, utilizadas em diversas aplicações industriais.

“A água amarela, resíduo líquido gerado no processamento final da produção do suco, tinha uma concentração alta de limoneno e, a partir desse resultado, foi possível diagnosticar que o fator principal que dificultava a sua fermentação, tão necessária para o tratamento dessa biomassa e para posteriormente ter o seu descarte adequado, era a presença desse terpeno”, relata Ferreira.

Para os pesquisadores, esse projeto representa para a indústria de produtos cítricos melhorias nas estratégias de sustentabilidade e circularidade, solucionando impasses no descarte e mitigando impactos ambientais. Além de melhorar a recuperação de compostos de interesse e tornar o processo ambientalmente mais eficiente, a pesquisa aponta soluções para transformar problemas em oportunidades econômicas. Ou seja, o resíduo que sobra do suco de laranja pode se tornar um produto de alto valor agregado.

O artigo Green extraction and NMR analysis of bioactives from orange juice waste pode ser lido em: mdpi.com/2304-8158/14/4/642.

Coluna do Broadcast Bastidores do mundo dos negócios Seguir Varejo descobre o custo de ser grande e fecha mais de 1,1 mil lojas desde 2022, OESP

 

Antigo prédio do Mappin, que foi ocupado pela Casas Bahia em tempos mais recentes; empresa deve chegar a 400 unidades fechadas em menos de quatro anos
Antigo prédio do Mappin, que foi ocupado pela Casas Bahia em tempos mais recentes; empresa deve chegar a 400 unidades fechadas em menos de quatro anos Foto: Tiago Queiroz/Estadão - 23/05/2023

O varejo tradicional se acostumou a crescer abrindo lojas, mas agora precisa aprender a disputar o consumidor nas telas. Desde o fim de 2022, cinco grandes redes - Casas Bahia, Americanas, Carrefour, Marisa e Magazine Luiza - reduziram em mais de 1,1 mil o número de unidades físicas, segundo levantamento realizado pela Coluna. Enquanto fechavam portas, os canais digitais e os marketplaces, inclusive internacionais, ganham peso na decisão de compra.

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A pesquisa da Coluna foi feita a partir dos balanços das empresas e compara o número de lojas informado no fim de 2022 com o dado mais recente disponível. O total representa a redução líquida das redes, já consideradas eventuais aberturas.

A Casas Bahia responde pela maior fatia do corte. No fim de 2022, quando ainda se chamava Via, a companhia tinha 1.133 lojas. Chegou a junho deste ano com 1.034 e anunciou, em agosto, o fechamento de 298 lojas como parte da segunda etapa de sua reestruturação. Se o plano for executado integralmente, a varejista terá reduzido a rede em cerca de 400 pontos em menos de quatro anos.

Mais do que uma revisão do mapa de lojas, o corte expõe a situação financeira da companhia. Com R$ 17,3 bilhões em dívidas submetidas à recuperação judicial, a Casas Bahia passou a privilegiar geração de caixa e rentabilidade. O presidente da empresa, Renato Franklin, já afirmou que não prevê uma retomada do crescimento nos próximos dois anos.

A Americanas percorreu um caminho semelhante depois que a crise contábil veio à tona, em janeiro de 2023. Entre o fim de 2022 e dezembro de 2025, a rede passou de 1.803 para 1.470 lojas. Foram 333 unidades a menos durante um período marcado pela recuperação judicial e pela tentativa de concentrar a operação nos pontos com maior potencial de retorno.

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No Carrefour, o enxugamento acompanhou a integração do Grupo BIG. A rede caiu de 1.203 lojas no fim de 2022 para mil em março de 2025, último dado detalhado antes do fechamento de capital. A diferença de 203 unidades reúne fechamentos, vendas e mudanças de bandeira. Dentro desse processo, 123 lojas foram definitivamente encerradas.

Na Marisa, a redução ganhou um símbolo. No início deste ano, a varejista fechou uma de suas principais vitrines, na Avenida Paulista, depois de 15 anos de funcionamento. A companhia ainda mantém outro ponto na avenida, mas terminou 2025 com 230 lojas, ante 334 três anos antes. O corte de 104 unidades faz parte da tentativa de construir uma operação menor e mais rentável.

O Magazine Luiza completa a conta. A companhia chegou a junho deste ano com 1.246 lojas, 93 abaixo das 1.339 registradas no fim de 2022. O movimento, porém, não representa um abandono do espaço físico. O Magalu já anunciou que vai retomar a expansão a partir do segundo semestre deste ano. No segundo trimestre deste ano, as vendas no físico cresceram 10,3%, enquanto o e-commerce recuou 11,9%.

Peso da rede

As cinco varejistas não encolheram pelo mesmo motivo, mas carregavam estruturas construídas para outro momento do consumo. Com juros altos, crédito restrito e rentabilidade pressionada, ficou mais difícil sustentar redes extensas e gastos elevados com aluguéis, pessoal e estoques ao mesmo tempo em que investiam no e-commerce.

Para Ana Paula Tozzi, especialista em varejo e CEO da AGR Consultores, o avanço das vendas online tornou mais visíveis problemas que essas empresas já carregavam. “O digital não matou a loja. Ele expôs mais rapidamente as fragilidades das cadeias com problemas”, afirma.

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Casas Bahia e Americanas foram pressionadas pelo endividamento e por crises de confiança. Na Marisa, lojas deficitárias pesaram sobre uma operação que já tentava recuperar vendas. O Carrefour aproveitou a integração do Grupo BIG para rever formatos e eliminar sobreposições, enquanto o Magalu reduziu a rede em um período de maior disciplina financeira.

Fechar unidades deficitárias reduz despesas com aluguel e pessoal, libera estoques e diminui a necessidade de capital de giro. “É uma medida de eficiência, não uma estratégia de recuperação por si só”, diz Tozzi, acrescentando que dívidas excessivas, margens baixas e problemas no modelo de negócio não desaparecem com o fechamento das lojas.

Disputa nas telas

As vendas online movimentaram R$ 423 bilhões em 2025, alta de 21%, e passaram a representar 14,4% do varejo brasileiro, segundo estimativas do UBS BB. Os quatro maiores participantes concentravam 82% desse mercado.

O Mercado Livre liderava, com 43%, seguido por Shopee (18%), Amazon (11%) e Magazine Luiza (10%). Enquanto os dois primeiros ganharam participação, o Magalu perdeu 2,7 pontos porcentuais e caiu para a quarta posição. Para este ano, o UBS BB projeta que as vendas online alcancem R$ 518 bilhões, equivalentes a 16,7% do varejo.

O BTG Pactual destaca ainda que a pressão das plataformas internacionais se intensificou em categorias nas quais as grandes redes nacionais tinham presença mais forte, como acessórios eletrônicos, beleza, decoração e artigos esportivos.

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Nem todos encolhem

Mesmo com o avanço do e-commerce, o espaço físico continua sustentando a expansão de algumas empresas. Desde o fim de 2022, Assaí e Grupo Mateus acrescentaram, juntos, 131 unidades às suas redes. C&A e Grupo Renner somaram outras 60 lojas, com avanços de nove e 51 unidades, respectivamente.

Isso não significa que essas empresas tenham ocupado os pontos deixados pelas redes que encolheram. A diferença está na seleção dos mercados e no retorno de cada unidade. “Uma companhia pode ficar melhor com 500 lojas excelentes do que com 800 unidades, sendo 300 delas destruidoras de valor”, disse Tozzi.

A dinâmica varia conforme o segmento. Alimentação e atacarejo se beneficiam da frequência e da proximidade, enquanto móveis, eletrodomésticos e lojas de departamento exigem mais espaço e estoque.

“As lojas físicas seguem sendo um diferencial competitivo relevante, especialmente em categorias onde a venda assistida e o crédito são essenciais para conversão”, afirmou o analista do BTG Pactual, Luiz Guanais.

A loja física, portanto, não desaparece, mas se torna mais seletiva. Mais do que o tamanho da rede, importam a produtividade das unidades e sua integração com os canais digitais.

terça-feira, 25 de agosto de 2026

Vontade de abandonar o mundo se repete na história de diferentes povos, Pondé FSP

 Hoje vamos manter uma certa distância desse mundo chato em que vivemos, um mundo histérico, em que todos querem aparecer como a pessoa mais legal de todas, com mais seguidores engajados para fazer melhores negócios ou, simplesmente, picaretas —é impressionante como o século 21, a partir das suas redes sociais, catapultou a prática da picaretagem profissional em níveis antes inimagináveis. Os psicanalistas que o digam —hoje, tem um em cada esquina.

Vamos falar um pouco da santidade e repousar, por algum tempo, na sua perenidade como fenômeno. Refiro-me à santidade, tal como a Igreja Católica e a Ortodoxa entendem, além de outras igrejas cristãs da bacia oriental do Mediterrâneo.

Ilustração de Ricardo Cammarota, realizada em técnica de aquarela sobre papel. A composição horizontal apresenta cinco formas de mãos sobrepostas, dispostas em sequência diagonal da esquerda para a direita. Ao longo da sequência, as mãos se transformam gradualmente, ou sugerem uma transformação, passando da forma reconhecível de uma mão para a de um pássaro estilizado. As formas apresentam diferentes tonalidades de vermelho e rosa, com áreas de transparência e sobreposição que reforçam a ideia de movimento e metamorfose. O fundo é branco, com a textura do papel aparente.
Ilustração de Ricardo Cammarota - Ricardo Cammarota/Folhapress

Muitas vezes, a vontade de abandonar o mundo se repete na história de diferentes povos. Na maioria das vezes, como parte de uma experiência religiosa que vê no mundo algo a ser, de alguma forma, evitado.

Essa tradição, conhecida como monástica —termo ligado à origem da fuga do mundo por parte de cristãos nos primeiros séculos da era comum— não é exclusiva do cristianismo, apesar de as tradições espirituais guardarem diferenças no seu modo de viver a renúncia do mundo ou de justificá-la.

No caso especificamente cristão, essa forma de vida se confunde com a de um dos primeiros indivíduos canonizados como santos pela igreja cristã nascente —que eram então múltiplas— nos primeiros séculos da era comum, não necessariamente a católica, como entendemos hoje.

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Trata-se de Santo Antão, que viveu entre 251 e 356 da era comum —ou era cristã—, aproximadamente. Este egípcio copta é considerado, pela tradição cristã, o fundador da vida monástica.

Filho de uma família de lavradores com algumas posses, Antão, após a morte de seus pais, ao ouvir no culto da igreja cristã copta da sua cidade —fundamental na história do surgimento do cristianismo— a passagem em que Jesus diz que quem quiser segui-lo, deve distribuir suas posses entre os pobres e viver na pobreza e na humildade, decide fazer o que Jesus disse. Leva sua irmã à casa de donzelas cristãs e parte para o deserto do Egito.

Santo Antão não queria apenas viver como Jesus, ele queria encontrar Deus —ou Cristo, como consagrará o Concílio de Niceia em 325 da era comum.

Aqui vale um pequeno reparo. Este Concílio de Niceia, instaurado pelo imperador Constantino, visava discutir duas teorias acerca da pessoa de Cristo. Ou ele seria da "mesma substância" do Pai ("homoousios", em grego), portanto, incriado e, também, Deus, ou ele seria, como queriam os arianos, os derrotados, mas, não extintos em Niceia, criados por Deus, como todos nós.

Importante ter em mente que o arianismo existe até hoje entre cristãos, ainda que não confessem o seu verdadeiro nome.

Santo Antão defenderá a posição de Niceia, de que Jesus continua vivo e é da "mesma substância" do Pai —na linguagem dos cultos se dizia assim porque Antão, analfabeto, dificilmente entraria em controvérsias ontológicas sofisticadas, conhecidas como fundadoras da cristologia.

Segundo a fonte mais antiga da vida de Santo Antão —Santo Atanásio de Alexandria, mais jovem, mas contemporâneo, em parte, do monge, e que foi, também, um forte defensor da posição de Niceia contra o arianismo—, ele, supostamente, quando questionado por arianos, teria respondido: "Eu O vi", ou seja, viu Jesus, vivo no deserto.

Santo Antão passou para a história da santidade como alguém que enfrentou o mal exteriormente —não que isso não o afetasse interiormente.

O grande demônio e seus pequenos demônios, na figura de animais ferozes, mulheres sedutoras, pessoas deformadas, insetos devoradores, tentaram duramente Antão, para que ele desistisse de Deus e do Cristo.

Sua experiência no deserto, inclusive, passará para a história da arte e da literatura como as famosas "tentações de Santo Antão". Entre muitos grandes que voltaram a essas tentações de Santo Antão, figura o grande Gustave Flaubert, que escreveu de 1848 a 1874 a sua "Tentação de Santo Antão", reescrita várias vezes neste período.

Segundo o historiador René Fulop-Miller, no seu "Os Santos que Abalaram o Mundo", da José Olympio Editora, vale comparar as experiências exteriores de desespero de Antão com o longo desespero interior, ou psicológico, como diríamos nós hoje, de Santo Agostinho.

Assim, os dois santos antigos repetem o perfil, muitas vezes desesperador, dos heróis do Velho Testamento. Viver com a mão de Deus sobre sua cabeça nunca foi coisa fácil.