segunda-feira, 30 de março de 2026

Papa Leão 14 nomeia cientista Carlos Nobre como conselheiro- FSP

 

São Paulo

papa Leão 14 anunciou, nesta segunda-feira (30), a nomeação do climatologista brasileiro Carlos Nobre, 75, como membro do Dicastério para a Promoção do Desenvolvimento Humano Integral, que funciona como um conselho do Vaticano. Além do cientista, também foram convidados bispos, padres e pesquisadores em teologia.

O dicastério foi criado em agosto de 2016 e tem a missão de fomentar o desenvolvimento humano em sintonia com a doutrina da Igreja Católica. Segundo o site oficial, o coletivo também se volta às necessidades das pessoas que são forçadas a abandonar seus países, incluindo as vítimas de desastres.

Nobre é referência global em estudos sobre mudanças climáticas e amazônia, sendo um dos autores do relatório do painel científico das Nações Unidas que recebeu o prêmio Nobel da Paz em 2007.

Homem com cabelo grisalho e expressão séria fala em microfone contra fundo neutro. Veste camisa xadrez azul.
O cientista brasileiro Carlos Nobre em entrevista coletiva durante a COP30, a conferência climática das Nações Unidas que aconteceu em Belém (PA), em 2025 - Pablo Porciuncula - 18.nov.25/AFP

Ele é pesquisador da USP (Universidade de São Paulo) e membro da Academia Brasileira de Ciências e da Royal Society, com formação em engenharia eletrônica pelo ITA (Instituto Tecnológico de Aeronáutica) e doutorado em meteorologia pelo MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts).

O cientista também ganhou projeção internacional por integrar o grupo dos Planetary Guardians (guardiões planetários), grupo criado pelo bilionário Richard Branson e que tem a missão de elaborar e divulgar pesquisas científicas sobre temas como o meio ambiente, a defesa de populações vulneráveis diante da crise climática e a transição energética.

A indicação de Nobre sinaliza um esforço para incluir a pauta ambiental nos debates da Igreja. Em 2015, o papa Francisco ajudou a inspirar o movimento global contra as mudanças climáticas com a encíclica "Laudato Si'". Em dezembro daquele ano, 195 países se comprometeram a adotar o Acordo de Paris, que segue até hoje como o principal tratado internacional para conter o aquecimento da Terra.

No aniversário de dez anos da encíclica, Leão 14 conclamou católicos e cidadãos do mundo todo a continuarem a defesa do meio ambiente e a não a tratarem como uma questão "divisiva".

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Em julho de 2025, o papa celebrou uma missa especial sobre a preservação ambiental e declarou: "Hoje vivemos em um mundo que está queimando, tanto por causa do aquecimento global quanto dos conflitos armados".

Veja a lista de indicações do papa Leão 14 para o Dicastério para a Promoção do Desenvolvimento Humano Integral:

  • Arcebispo Rogelio Cabrera López (México)
  • Arcebispo Fulgence Muteba Mugalu (República Democrática do Congo)
  • Bispo Lizardo Estrada Herrera (Peru)
  • Padre Daniel Gerard Groody, reitor associado de graduação da Universidade de Notre Dame (EUA)
  • Padre Rampeoane Hlobo, diretor da Rede Jesuíta de Justiça e Ecologia – África (Quênia)
  • Irmã Linah Siabana (Uganda)
  • Meghan J. Clark, vice-reitora do departamento de teologia e estudos religiosos da Universidade Saint John's (EUA)
  • Dylan Mason Corbett, diretor executivo do Hope Border Institute (EUA)
  • Léocadie Wabo Lushombo, professora de teologia ética na Universidade Santa Clara (EUA)
  • Christine Nathan, presidente da Comissão Católica Internacional de Migração em Genebra (Suíça)
  • Carlos Nobre, pesquisador do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (Brasil)

Torta certa, história torta, Ruy Castro -FSP

 Em junho de 1954, o país tremeu: Martha Rocha, 21 anos, baiana de olhos azuis e primeira Miss Brasil para valer, ficara em segundo lugar no Concurso Miss Universo, em Miami Beach, ele também uma novidade. Não se sabia ainda se um vice na Copa do Mundo da beleza era para ser considerado uma glória ou uma derrota para nossas cores. Dias depois, o povo se decidiu pela segunda hipótese. Segundo a revista O Cruzeiro, Martha perdera porque os juízes reprovaram suas duas polegadas a mais nos quadris do que a lambisgoia americana. Fosse hoje, diríamos que tinha sido derrotada pelo VAR.

De volta ao país, Martha foi recebida como heroína. Por sua grande classe, além da estampa, tornou-se um must dos salões da sociedade, amiga de Therezas e Didus. Cantou-se a sua história numa marchinha para o Carnaval de 1955 e que ela própria gravou: "Por duas polegadas a mais/ Passaram a baiana pra trás/ Por duas polegadas, e logo nos quadris/ Tem dó, tem dó, seu juiz!". Duas polegadas eram 5,8 cm, o que justificava o nosso protesto contra a descadeirada vencedora. Pena que, no futuro, Martha passaria por um triste perrengue: seu marido fez umas e outras e perdeu todo o dinheiro —que era dela.

Mas a grande homenagem a Martha já acontecera: a torta Martha Rocha, criada em sua homenagem por uma confeiteira de Curitiba. A receita —uma fórmula de pão de ló, creme de gemas, suspiro, baba de moça, frutas e crocante de nozes— atravessou as fronteiras e se tornou um clássico dos aniversários e casamentos.

E, com atraso, descobrira-se a verdade sobre a história das duas polegadas. Ela nunca aconteceu. Foi uma invenção do repórter João Martins, do Cruzeiro, que cobrira o concurso em Miami, para criar uma comoção nacional e vender revista. A confirmação está no livro "O Império de Papel", memórias de Accioly Neto, então diretor do Cruzeiro, editadas por Heloisa Seixas em 1998.

Há dias, a torta Martha Rocha foi declarada patrimônio cultural imaterial do Paraná. Sem limitação de polegadas para ser saboreada.

Miss Brasil Martha Rocha
A Miss Brasil 1954, Martha Rocha (esq.), e a torta criada em sua homenagem - Arquivo Nacional/Sóquindins

A aliança entre setores da esquerda e o islamismo radical, João Pereira Coutinho - FSP

 Cuidado com as companhias, dizem as mães aos filhos. E diz Tony Blair, ex-premiê britânico, a setores da sua esquerda trabalhista que mantêm uma "aliança problemática" (expressão dele) com o islamismo radical.

O artigo, corajoso e lúcido, vem publicado no Sunday Times e começa com um fato elementar: o antissemitismo cresce na Europa com ataques permanentes a judeus, instituições e símbolos judaicos. Como é óbvio, o fenômeno pode ser ampliado a outras geografias.

A reação política tem sido modesta –e, entre a esquerda britânica (e não só), modestíssima. Como se os judeus fossem coletivamente responsáveis pelos atos de Binyamin Netanyahu. Aplicar esse raciocínio a todos os israelenses já seria problemático. Aplicá-lo a todos os judeus é uma aberração.

Israel não está acima da crítica. Nenhum país está. Os atos do seu governo podem e devem ser criticados, desde que não se passe o pano para os crimes do Hamas.

Cubo branco com padrão de labirinto vermelho desenhado em suas três faces visíveis, formando caminhos intrincados e interligados.
Angelo Abu/Folhapress

É isto o que explica, concede Blair, a aproximação entre dois blocos aparentemente tão distintos –a oposição a Israel–, ainda que Blair não estabeleça a diferença entre oposição política (da esquerda) e oposição existencial (do islamismo radical). Nem ele nem a esquerda que critica, claro.

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Mas há um momento em que já não estamos a falar de críticas legítimas a Israel. Quando se atacam judeus, todos os judeus, quaisquer judeus, em qualquer país, apenas por serem judeus, estamos a ressuscitar uma velha besta que é difícil controlar.

Tony Blair tem razão. Os judeus, de fato, são um caso à parte. Seria absurdo perseguir muçulmanos ou hindus espalhados pelo mundo por causa dos comportamentos do Irã ou da Índia em matéria de direitos humanos. Seria até absurdo perseguir iranianos ou indianos pelos atos ou omissões dos aiatolás ou do nacionalismo de Narendra Modi. Razão pela qual não temos notícias de tais absurdos.

Com o antissionismo, as notícias abundam –e revelam o antissemitismo de sempre. É a primeira ironia histórica. A "aliança problemática" entre setores da esquerda e o islamismo radical tem conseguido o que a extrema direita, em larga medida, não conseguiu depois da Segunda Guerra Mundial: voltar a criar um ambiente tóxico de perseguição e medo que se julgava enterrado nas ruínas de Auschwitz.

Mas existe uma segunda ironia que escapou a Tony Blair: os setores da esquerda que ele denuncia, no seu limitado oportunismo, fazem lembrar os setores da direita tradicional que, nos últimos anos da República de Weimar, também viram uma aliança proveitosa com os nazistas. E por que não?

Como lembrava o satirista Karl Kraus, o antissemitismo era tão banal na "Mitteleuropa" que até os judeus o praticavam. Os nazistas só levavam esse ódio um pouco mais longe, mas seria possível controlá-los e, quem sabe, civilizá-los.

Foi isso que Franz von Papen comunicou a Hindenburg quando convenceu o presidente alemão a entregar a chancelaria a Hitler. Os nazistas eram infrequentáveis, sem dúvida, mas pelo menos eram anticomunistas e antissocialistas –e, pormenor fundamental, tinham os votos necessários para que a direita não perdesse poder, influência e negócios. Preciso mesmo contar o resto?

As escalas não são comparáveis, mas o mecanismo é familiar. A esquerda que Tony Blair critica comete o mesmo erro tático. Sim, herdou esquemas mentais que ajudam a compreender certas cegueiras. Por um lado, a velha associação do judeu ao capital, que Karl Marx tornou inesquecível, continua no subconsciente dos camaradas; por outro, a crítica ao "imperialismo israelense" nunca mais os abandonou depois da Guerra dos Seis Dias de 1967 e da aproximação entre Israel e os Estados Unidos.

Mas a aliança também se explica por cálculo eleitoral. Durante décadas, o voto muçulmano foi um dos pilares silenciosos dos trabalhistas. Mas, a partir de 2024, as coisas começaram a mudar com a perda de milhares de votos em áreas com forte presença muçulmana.

Para recuperá-los, uma parte da esquerda acredita que é possível forjar novas maiorias cortejando líderes islamitas radicais com as flores do antissionismo. É uma tentação que não se limita ao Reino Unido: a busca desesperada por um "novo proletariado" que não fuja para a direita populista atravessa meia Europa de esquerda.

Um erro. Para além de isso ser insultuoso para os muçulmanos moderados que não se reveem nos pregadores do ódio, é um negócio que está condenado à partida.

Nunca são os radicais que se moderam –é o preconceito que se normaliza. O antissemitismo não é um efeito colateral. É o preço. E alguém está disposto a pagá-lo.