Na pandemia, vacinas, distanciamento social e cloroquina converteram-se em bússolas ideológicas. Da lógica sectária não escaparam nem as máscaras: para alguns, símbolo de cuidado coletivo; para outros, cabrestos impostos por algozes da liberdade. À ciência, coube examinar sua utilidade.
As melhores evidências —que incluem alguns ensaios controlados e o uso adequado de respiradores de maior filtração— apontam para um modesto, porém consistente, efeito protetor. A heterogeneidade das máscaras (tecido, cirúrgicas, N95), seu uso adequado e a adoção simultânea de outras medidas protetivas dificultam conclusões mais robustas.
Não é novidade que intervenções eficazes em condições controladas podem perder desempenho no mundo real. Mas um estudo publicado em 2025 por dois pesquisadores da USP foi além: concluiu que o uso de máscaras durante a pandemia estaria associado ao aumento da mortalidade em países europeus. Grupos extremistas apressaram-se em difundir a publicação, como se esta revelasse a verdade ocultada pelo "mainstream".
Ao presumir a posição dos autores como da própria universidade, Bolsonaro tuitou: "USP: Mais que inúteis, as máscaras foram perigosas na Covid", e ironizou: "Só faltou a USP se desculpar com Jair Bolsonaro".
O problema é a fragilidade das novas evidências, assentadas no terreno movediço dos estudos ecológicos, cuja unidade de análise é o coletivo. Nesse tipo de desenho, correlações entre grupos não são diretamente extrapoláveis para indivíduos. A inobservância desse conceito é conhecida como falácia
ecológica.
Um caso paradigmático é o estudo de William Robinson, nos anos 1950. Ao analisar dados agregados dos estados norte-americanos, ele encontrou correlação positiva entre proporção de imigrantes e alfabetização média; no nível individual, porém, imigrantes eram menos escolarizados que nativos. A
aparente contradição se explica porque imigrantes tendiam a se concentrar em regiões mais desenvolvidas, com melhores indicadores educacionais.
O mesmo viés reaparece no estudo das máscaras: quem as usou com mais assiduidade não seria justamente quem corria mais risco, como idosos e doentes crônicos? A resposta se perde na média da população.
O estudo incorre em outro erro elementar: a inversão da ordem causal. A correlação, por si só, não distingue causa e efeito; cabe ao pesquisador reconstruir a sequência dos eventos. Em alguns contextos, isso é particularmente difícil, como nos estudos que associam adoçantes à obesidade: eles causam ganho de peso ou são mais usados por quem tenta emagrecer?
Em casos mais simples, porém, a solução emerge à luz da plausibilidade mecanística: uma associação causal precisa fazer sentido no mundo real. Pessoas que usam paraquedas morrem mais do que as que não usam. Mas o paraquedas, evidentemente, não mata; ele é acionado quando o risco já é extremo, como num salto de avião. Troquemos o paraquedas pela máscara.
Uma nova onda de Covid-19 eleva a mortalidade e, simultaneamente, o uso de máscaras. É mais plausível atribuir as mortes às máscaras ou o aumento de seu uso ao medo de morrer? Os autores optaram pela primeira leitura, ao sugerir que máscaras matariam por provocar a reinalação de partículas virais —hipótese destituída de qualquer respaldo factual. Essas críticas foram formuladas em artigo recente, assinado por epidemiologistas, analistas de dados e metodologistas.
Evidências de baixa qualidade alimentam políticas públicas e narrativas frágeis. Na pandemia, o custo do vilipêndio da ciência veio em vidas —faz bem lembrar que a mortalidade no Brasil foi muito maior do que a média mundial. Pelo feito, Bolsonaro não merece desculpas, mas responsabilização.



