sexta-feira, 18 de setembro de 2026

As amizades interesseiras e prazerosas de Aristóteles no Supremo - Mario Sergio Conti, FSP

 Na medonha sessão de terça-feira (15) do Supremo, Edson Fachin e Flávio Dino terçaram tolices em torno de uma questiúncula. O presidente o orientou a pedir-lhe autorização quando quisesse interromper a fala de outro juiz. Dino não obedeceu. Alegou que apartes são concedidos por quem tem a palavra, não pelo chefe do STF.

Fachin veio a reconhecer seu erro e, mais para frente, Dino fez troça dele: pediu-lhe autorização para fazer um aparte. Com um risinho, Fachin notou que o pedido era irônico. Dino concordou e citou Aristóteles: "A ironia descontrai o ambiente".

Ocorre que o filósofo disse outra coisa: "A ironia é mais própria de um homem livre que o deboche, pois o irônico produz o riso para si, e o bufão o faz para os outros". Noutro livro, dá à ironia o significado de "autodepreciação" e diz que ela é inferior à franqueza porque o irônico faz uma simulação, em vez de dizer a verdade na lata.

"Ah, essa falça cultura!", diria Millôr Fernandes. Dino quis dar uma de sabido, um pecadilho na missa negra do Supremo. Mas poderia ter lembrado o que Aristóteles diz sobre a amizade: "Ninguém escolheria viver sem amigos, mesmo que tivesse todos os outros bens".

A ilustração mostra parte das costas de um homem de terno preto que está recebendo um tapinha de um braço vestindo terno azul escuro.
Bruna Barros/Folhapress

Para ele, a justiça é secundária quando há amizade, pois nela a pessoa age pelo bem dos amigos. O afeto mútuo barra o egoísmo, a ideia de que o proveito pessoal deve guiar a ação. Ao apontar para a concórdia, a amizade lubrifica a vida social. Nem tudo são flores, porque Aristóteles vê dois tipos de amizade falsa.

Uma é a utilitária. Seu alicerce é o interesse, sobretudo material. É uma amizade pervertida. É aí que entra o STF. Cinco de seus dez juízes cultivavam amizades interesseiras com Daniel Vorcaro, relações tingidas por trocas mercantis.

Alexandre de Moraes o atendia porque sua família tinha com ele um contrato de R$ 131 milhões. André Mendonça o recebeu na sua empresa e o convidava para conversas porque queria que o Banco Master a cacifasse. Dias Toffoli fez negócios com Vorcaro. O filho de Luiz Fux convivia com o bandidaço, que deu R$ 500 mil ao filho de Nunes Marques.

A segunda amizade pérfida, segundo Aristóteles, é marcada por prazeres juvenis. Seu vínculo são as emoções compartilhadas: diversão, entretenimento, o gozo da companhia agradável. É uma amizade efêmera, que pode durar uma viagem, uma degustação, uma orgia.

Mendonça, Moraes e Toffoli não são jovenzitos, mas cabem na categoria, chamados que foram pelo corruptor para desfrutar de prazeres. Eles e uma penca de mandachuvas, como o procurador-geral, Paulo Gonet. Hoje todos negam ter ido aos fuzuês. Acabou a amizade.

Ao contrário do que se diz, às vezes não é a política que orienta os juízes. Dino, Zanin e Gilmar Mendes são sabidamente unha e carne com Lula. Mas se aplicaram em proteger Moraes, o que prejudica a candidatura do presidente.

Se a política não explica sua atitude, optaram por fazer justiça doa a quem doer? Não parece, já que estava em pauta elucidar o que Moraes fez, não a sua condenação. Então por que embaraçaram Lula? Falta um Aristóteles para estudar a questão. Talvez inventasse outro tipo de amizade: a corporativa, tão fraudulenta quanto as por interesse e prazer.

Outro filósofo, Kant, merecia ter sido citado no furdunço do STF. Para ele, a amizade é assunto pessoal, não deve ser ligado à política nem à justiça. A amizade vai contra o imperativo de tratar todos com igualdade, diz, pois a tendência humana é priorizar os amigos.

Convém esperar sentado que o Judiciário adote o imperativo igualitário. Em 2016, o Conselho Nacional de Justiça liberou a remuneração de palestras de juízes, então proibida. Resultado: as esbórnias do amigo Vorcaro. Há empresas que pagam R$ 60 mil por conferências de juízes de tribunais superiores.

Nem todas aceitam isso. Na própria tarde da sinistra sessão suprema, a presidente do Superior Tribunal Militar, Maria Elizabeth Rocha, fez uma palestra na USP sobre a ameaça totalitária no mundo. Ela só vai a conferências acadêmicas —e desde que não seja remunerada.

Rocha foi a primeira juíza e presidente do STM em 206 anos. Na USP, recorreu a Adorno e Marx para dizer que a extrema direita só será barrada —e a democracia preservada— se houver empenho individual e coletivo.

Na semana passada, foi exposta aqui erradamente uma proposta de Armínio Fraga. Na verdade, o que ele defendeu foi congelar o salário mínimo em termos reais por seis anos, ou seja, corrigi-lo anualmente pela inflação.

Ministro do STJ disse estar 'sempre à disposição' de Vorcaro, indicam mensagens - FSP

 José Marques

Brasília

Conversas entre Daniel Vorcaro e um número de telefone de propriedade do ministro do STJ (Superior Tribunal de Justiça) Benedito Gonçalves, extraídas de celular do ex-banqueiro, indicam uma possível relação próxima entre os dois.

Benedito atualmente ocupa o cargo de corregedor do CNJ (Conselho Nacional de Justiça). O material obtido pela Folha mostra que ele e Vorcaro se tratavam como amigos, trocavam mensagens cordiais e combinavam encontros em Brasília.

A reportagem procurou o ministro por meio das assessorias do STJ e do CNJ às 13h15 de terça (15), por WhatsApp, mas ele não se pronunciou até a publicação este texto. No primeiro semestre deste ano, ele se declarou impedido de julgar causas relacionadas ao Banco Master no STJ.

Em 17 de maio de 2024, Benedito escreveu a Vorcaro após um encontro entre os dois: "Boa noite feliz em rever o amigo. Festa bonita! Parabéns! Ab Benedito". Vorcaro respondeu: "Caro amigo" e "Obrigado pelo carinho". Em seguida, ele sugeriu um novo encontro: "Vamos marcar o charuto em Brasília".

O ministro do STJ Benedito Gonçalves, atual corregedor do CNJ, em uma cerimônia na USP - Ronny Santos - 24.jun.2024/Folhapress

Em 2 de julho do mesmo ano, eles voltaram a trocar mensagens. Vorcaro chamou Benedito de "grande amigo" e propôs que se encontrassem na capital federal quando o ministro retornasse do Rio de Janeiro.

"Grande amigo tudo bem? Vamos marcar encontro em Brasília no seu retorno do Rio!", escreveu o ex-banqueiro. Benedito respondeu que chegaria no dia 29 e ligaria em seguida. "E aqui sempre à disposição", acrescentou.

No mesmo dia, Benedito enviou a Vorcaro uma figurinha com a imagem de um aperto de mãos e a frase "Tamo junto sempre".

Benedito participou de evento bancado por Vorcaro, em Londres, em abril de 2024. Ele também estava na degustação de uísque Macallan para autoridades, na mesma época, promovida pelo ex-banqueiro.

Na sessão do STF (Supremo Tribunal Federal) de terça-feira (15), que tratou da possibilidade de abrir investigação sobre o ministro Alexandre de Moraes por suas trocas de mensagens com Daniel Vorcaro, o ministro Flávio Dino sugeriu notificar todos os magistrados de todos os tribunais superiores citados em algum documento relativo ao Banco Master.

Benedito Gonçalves ficará à frente da Corregedoria até 2028. Ele substituiu Mauro Campbell Marques, que tomou posse como vice-presidente do STJ no mês passado.

O órgão no CNJ é responsável, por exemplo, por receber reclamações e denúncias de irregularidades por parte de juízes e também realizar sindicâncias, inspeções e correições, quando houver suspeitas de infrações graves.

Como mostrou o Painel, em seu discurso de posse Benedito Gonçalves evitou abordar temas considerados espinhosos para o Poder Judiciário, como desvios de condutas na magistratura, o pagamento de supersalários ou a proposta de criar regras para a participação de juízes em eventos.

Ele defendeu que "orientar antes de sancionar" e "prevenir antes de reprimir" não significa tolerar o descumprimento das regras da magistratura e afirmou que, no cargo, pretende unir rigor técnico com diálogo.

"Nosso CNJ foi criado após muitos debates sobre um controle de gestão do Judiciário. O exercício desta Corregedoria também deve estar orientado pela clareza e pela atenção à realidade concreta. Mais do que fiscalizar procedimentos, cabe à Corregedoria contribuir para que a Justiça seja acessível, eficiente e verdadeiramente comprometida com a sociedade", disse.

Mensagens extraídas pela Polícia Federal e publicadas pela Folha na terça revelam contatos de Daniel Vorcaro também com o instituto fundado pelo ministro André Mendonça e com filhos dos ministros Kassio Nunes Marques e Luiz Fux.

Os três magistrados atuam em conjunto em oposição à ala da corte que reúne Alexandre de Moraes, Cristiano Zanin, Flávio Dino e Gilmar Mendes. Dino e Zanin foram indicados ao Supremo pelo presidente Lula (PT) após terem sido ministro da Justiça e advogado pessoal do petista, respectivamente.

O conteúdo integral do celular de Vorcaro foi entregue nesta segunda (14) pela PF aos gabinetes de Zanin, Gilmar e Moraes. Eles pediram o conteúdo sob a justificativa de que era necessário para a análise que ocorre nesta terça (15) sobre a relação de Moraes com o ex-banqueiro.

Cármen Lúcia frustra quem previa uma atuação exemplar -Frederico Vasconcelos - FSP

 O pedido de desculpas de Cármen Lúcia na sessão da terça-feira (15) no Supremo Tribunal Federal sensibilizou os que defendem os direitos da mulher, mas frustrou os que esperavam dela uma intervenção firme para interromper o tumulto provocado pelos colegas ministros. Todos homens.

"Eu peço desculpa ao povo brasileiro por talvez ter esperado de mim uma postura diferente", ela disse.

As magistradas de todo o país se reconhecem na fala da ministra Cármen Lúcia, diz uma juíza membro de 1 dos 12 coletivos feministas que lhe enviaram flores.

Mulher idosa com cabelos grisalhos e expressão séria sentada em cadeira de couro marrom, vestindo roupa formal branca com detalhes pretos, em ambiente institucional com microfone ao fundo.
A ministra do STF Cármen Lúcia durante sessão do tribunal nesta terça-feira (15) - Rosinei Coutinho/AFP

A lei veda ao juiz se manifestar sobre processos pendentes de julgamento. Mas não o impede de sugerir leituras. Uma magistrada de outro coletivo diz que a newsletter Todas, na Folha, no dia 16, corresponde muito ao que as juízas pensam.

Na newsletter, a jornalista Angela Boldrini trata da revelação de que ministros do STF estavam entre os convidados para a festa de Daniel Vorcaro no Madame Satã.

Ministras e juízas não frequentam esse clubinho, diz a magistrada.

"Cármen Lúcia foi a voz de toda a sociedade", diz a advogada Maria Berenice Dias, primeira mulher magistrada no Rio Grande do Sul.

"O triste espetáculo que todos assistimos na mais alta corte do país apequenou a imagem da instituição que deve ser o esteio de um Estado Democrático de Direito", afirma Berenice.

"A ministra Cármen Lúcia, com a autoridade de quem já presidiu o Supremo e integra aquela corte há duas décadas, expressou mal-estar cívico não apenas como lamento, mas sobretudo como uma convocação à corte para que atue imediatamente para trazer paz e justiça ao país", diz Raquel Dodge, ex-procuradora geral da República.

"Cármen Lúcia é uma mulher digna e que entrou no Supremo querendo acertar. Não é fácil uma mulher sobreviver em uma corte de predominância masculina", diz Eliana Calmon.

"Na luta pelo reconhecimento de seus pares, aderiu aos mais fortes politicamente. Tornou-se um deles, guiada por um fiel escudeiro: Gilmar Mendes. Tornou-se refém. Votou com ele e seus adeptos durante os quase 20 anos em que está na corte."

"Promoveu-se como feminista. Esqueceu-se, ou não teve a força suficiente para lutar pela instituição à qual pertencia e que precisava de uma voz lúcida para defendê-la. Silenciou."

Eliana agradece a Cármen "por ter resistido e não ser cooptada pela insensatez dos colegas, o que se tornou possível diante da sua vida de moral ilibada".

"Por isso mesmo tem ela o meu perdão de cidadã brasileira, espectadora política e sobretudo mulher", diz.

Eliana, uma feminista, em 2023 combateu a instituição das cotas. Diz que foi convencida a mudar de posição ao ouvir "a verdadeira história de como foi aprovada a tese das listas de paridade".

Uma desembargadora do TJ-SP guarda a imagem da Cármen desafiadora, que assumiu o cargo de calças compridas. Ela fez o mesmo no tribunal paulista há 40 anos. Diziam que era proibido, mas não havia regra escrita.

Ela não aceita as desculpas de Cármen, um pedido tardio e ineficiente. Segundo ela, a ministra assistiu calada a uma encenação estrategicamente combinada para não julgar o caso, criando-se questões de ordem totalmente descabidas. Cármen poderia ter feito um aparte.

Ela lembra que Cármen presidiu sessões em que houve debates violentos e determinou a suspensão do julgamento.

Cármen Lúcia não foi a primeira a pedir desculpas por desacertos do Supremo.

Em 2019, a ministra Nancy Andrighi, do Superior Tribunal de Justiça, pediu desculpas às pessoas que moravam em barracos, depois da queda de imóveis em Pernambuco e Santa Catarina, e aguardavam a indenização do programa Minha Casa, Minha Vida.

Essas pessoas estavam morando em casas de madeirite e, por não terem local para morar, construíram seus barracos ao redor do prédio que está caindo.

"Há três anos estamos tentando julgar esses processos, mas não conseguimos. Eles merecem uma explicação, e a explicação é esta: nós estamos nos sujeitando à ordem que veio do Supremo, que mandou paralisar", disse Andrighi.

Em outubro de 2025, em culto ecumênico na Catedral da Sé, em memória do jornalista Vladimir Herzog, Maria Elisabeth Rocha, presidente do STM, pediu desculpas por mortes e torturas no regime militar.

O então presidente do TJ-SP Ricardo Sartori pediu desculpas, em nome do Judiciário, a advogados que denunciaram o desembargador Arthur Del Guércio. O juiz foi acusado de pedir dinheiro a advogados.

Sartori isentou de culpa os PMs da chacina do Carandiru. Anulou as condenações, alegando legítima defesa. "A imprensa fez uma clara defesa dos bandidos que se rebelaram. Por isso, foi necessária nossa ação para que os policiais fossem inocentados", disse.

A absolvição dos policiais antecedeu o indulto natalino aos PMs decretado pelo então presidente Jair Bolsonaro.

Nenhum PM saiu baleado, enquanto 90% dos mortos receberam tiros na cabeça. As vítimas foram eliminadas de cócoras, em posição de rendição.