terça-feira, 7 de abril de 2026

Avenida Paulista ganha nova praça com jardim urbano aberto 24 horas, FSP

 Fernanda de Souza

São Paulo

A avenida Paulista passou a contar com uma nova área verde em meio ao fluxo intenso de pedestres. Após reforma, o Shopping Cidade São Paulo reabriu sua área externa, agora transformada em um jardim urbano de cerca de 4.800 metros quadrados.

A espaço tem espécies da mata atlântica e recebe públicos diversos ao longo do dia, como estudantes, trabalhadores e turistas. O local também pode abrigar ações de marcas e eventos pontuais.

Segundo o empreendimento, não há restrições de acesso, e a área permanece aberta 24 horas por dia. O local conta com conexão wi-fi disponível ao público.

O projeto preserva as árvores existentes e substitui o antigo revestimento de malha metálica por piso permeável - / Milena Camillo

O projeto é assinado pelo paisagista Benedito Abbud e teve investimento de R$ 5 milhões ao longo de sete meses. Segundo ele, a intervenção atualiza uma praça já existente e incorpora novos elementos ao espaço. "Na época, plantamos aproximadamente 100 novas árvores nativas para enriquecer a vegetação existente, da antiga mansão do Conde Matarazzo", afirmou.

De acordo com Abbud, o projeto busca manter uma área densa de vegetação em um ponto de grande circulação. "A ideia é criar um espaço envolto pelo verde em um trecho importantíssimo da avenida", disse. Ele também destaca a função de conexão urbana do espaço, que liga a avenida Paulista à rua São Carlos do Pinhal.

Entre as soluções adotadas, o paisagista menciona o uso de forração de tonalidade clara para aumentar a luminosidade do ambiente. O piso permeável, além de contribuir para a drenagem da água da chuva, também influencia o conforto térmico. "Por estar em contato com a terra, ele tende a manter o ambiente mais fresco."

O projeto também prevê a instalação futura de mobiliário, como mesas e cadeiras, além de possíveis quiosques voltados à alimentação e serviços. A intenção, segundo Abbud, é ampliar as formas de uso e permanência no espaço ao longo do dia.

A nova praça reforça uma tendência crescente de integração entre empreendimentos privados e o espaço público - Milena Camillo

A iluminação foi pensada para destacar elementos da vegetação e, ao mesmo tempo, evitar excesso de luminosidade. "À noite, enfatizamos determinados caules, trazendo uma iluminação de baixo para cima", afirmou.

Segundo o paisagista, a presença de vegetação densa também influencia o microclima da área. "A massa arbórea contribui para o sombreamento e a ventilação, além de ajudar na questão ambiental, já que as copas sombreiam o piso e reduzem a absorção de calor", afirmou. "Essas árvores ajudam a manter o ambiente mais fresco e a melhorar a qualidade ambiental da região."

O paisagismo interno foi desenvolvido por Renata Tilli, complementando a experiência do ambiente. A obra foi gerenciada pela Berton Engenharia e executada pela Innova TS. O projeto de acessibilidade é da Pimenta Associados, enquanto a iluminação leva a assinatura da Mingrone.

Na mesma região, outras áreas verdes incluem o Parque Prefeito Mário Covas, com cerca de 5.300 m², e o Parque Trianon, com mais de 36 mil m². Em comparação, o novo espaço é menor, mas se diferencia por estar diretamente integrado ao fluxo da avenida.

O populismo é o dr. Jekyll e o mr. Hyde da política, João Pereira Coutinho -FSP

 O populismo é o quinto cavaleiro do Apocalipse. Não deveria ser.

Recentemente, numa discussão acadêmica sobre o assunto, defendi e ataquei o conceito com unhas e dentes.

Defendi o populismo como uma febre necessária das democracias liberais. É um sintoma. Como a febre. Se o organismo não sinalizasse suas disfunções com a elevação da temperatura, nossa vida seria bem mais penosa. Em muitos casos, mais curta.

Com o populismo acontece o mesmo: a divisão entre povo e elite pode ser simplista e, no limite, inútil. Mas é preciso ler nas entrelinhas. Se o povo está descontente com a forma como é governado, é preciso saber o que alimenta esse descontentamento.

Laboratório de química com várias pipetas com líquidos e gases, sendo que uma delas, em ebulição
Angelo Abu/Folhapress

Há falhas de representação?

Há indiferença por parte de quem governa em relação aos problemas concretos das pessoas comuns?

A função de um bom político é medir esses sinais e ajustar a terapia. Se os sintomas são reais, é preciso atacar as causas da inflamação, tratando a doença (insegurança, serviços públicos precários, perda de renda etc.).

Se são imaginários, vale a mesma lógica de um hipocondríaco: ele pode não ter a doença que imagina, mas tem uma doença.

Também não embarco nas caricaturas habituais sobre o fenômeno. Um populista é necessariamente antidemocrático? Em geral não. Em geral, é o mais democrático dos seres: quer tudo decidido por plebiscito, dando voz direta à vontade popular.

O populista gosta de eleições. Só não gosta de perdê-las, razão pela qual quase nunca reconhece derrotas: se ele é o representante autêntico do povo, não pode ao mesmo tempo ser rejeitado por ele. Questão de lógica.

Além disso, como explica Benjamin Moffitt em "Populism" (o melhor ensaio que conheço sobre o tema), não há nada de intrinsecamente iliberal no populismo. Há inclusive casos de populismo de direita que defenderam liberdades civis (como a liberdade de expressão) e direitos individuais (como os direitos LGBT) contra religiões ou comunidades imigrantes intolerantes.

Pim Fortuyn, líder populista holandês assassinado em 2002, ficou célebre ao dizer: "Não tenho nada contra marroquinos. Já dormi com vários deles".

Pim Fortuyn, líder direitista holandês assassinado em 2002 - Juan Vrijdag - 19.fev.02/AFP

Por fim, como lembra o próprio Benjamin Moffitt: em contextos autoritários ou oligárquicos, o populismo pode até ser uma bênção. Foi assim na Polônia, com o movimento anticomunista Solidariedade, e até no México, com o Partido da Revolução Democrática.

Antes de condenar a divisão entre povo e elites, cabe perguntar: quem é o povo? E quem são as elites?

Infelizmente, as virtudes do populismo tendem a desaparecer quando o líder populista chega ao poder.

Diversos estudos –do projeto "The New Populism", do Guardian, ao relatório "Populists in Power around the World", do Tony Blair Institute– apontam a mesma dinâmica: no curto prazo, o populismo aumenta a participação eleitoral e pode até reduzir desigualdades por meio de políticas redistributivas. Aqui não há grandes diferenças entre os populismos de esquerda e de direita.

O problema vem depois: perseguição de opositores; captura das instituições (especialmente tribunais); clientelismo; pressão sobre a imprensa. Sem falar em fraude eleitoral e concentração de poder. Também aqui, esquerda e direita se equivalem em sua capacidade destrutiva.

Em muitos casos, a democracia não volta. Segundo o mais recente relatório da V-Dem, o número de autocracias no mundo (92) já supera o de democracias (87). É a primeira vez em décadas. O populismo teve sua parcela de responsabilidade.

E se alguém ainda acredita que o populismo pode funcionar como vacina, impedindo que o povo caia novamente no canto da sereia, os mesmos estudos não sustentam essa esperança: o mais comum é substituir um populista por outro, não retornar à normalidade democrática.

O escritor escocês Robert Louis Stevenson (1850 - 1894), autor de 'O Médico e o Monstro' - Reprodução

Moral da história?

O populismo é o dr. Jekyll e o mr. Hyde da política: a mesma coisa que o torna eficaz na oposição o torna destrutivo no poder.

Na oposição, a divisão entre povo e elite mobiliza, dá voz a quem não a tem, força o sistema a ouvir. É o dr. Jekyll –carismático, enérgico, aparentemente do lado certo.

Quando chega ao poder, essa mesma lógica binária vira um veneno. É mr. Hyde quem aparece: colérico e paranoico com quem pensa de forma diferente. E com poder real para causar estragos.

O ideal seria termos populismo antes do voto, nunca depois.

Quem encontrar essa fórmula, favor avisar.

Michael França Sua crença te limita?, FSP

 Aquela visão de mundo era como um caminho já traçado.

Era por meio de tal visão que a realidade se abria.

Antes mesmo da escolha. Antes mesmo de qualquer dúvida.

Era por meio dela que ele organizava o que via e aquilo que julgava possível. Ela não nasceu com ele. Ela foi sendo introjetada no percurso da vida. Veio dos pais, da escola, do ambiente, das conversas na infância e das frases repetidas sem muito exame. Ela foi sendo cuidadosamente lapidada a cada interação social.

Aquela visão de mundo também se alimentava do que ele consumia todos os dias. Quase tudo ao seu redor devolvia quase sempre o mesmo modus operandi. Algoritmos reforçando crenças. Opiniões semelhantes se reproduzindo. E, com o tempo, o mundo passou a parecer coeso. Organizado. E um tanto quanto previsível. Então, criou-se um lugar que parecia completo.

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Porém, só parecia...

Porque aquela visão de mundo permitia enxergar apenas uma parcela da realidade. Um recorte. Um ângulo específico. Tudo o que escapava desse enquadramento era descartado. Desqualificado. Ou simplesmente ignorado. Outras experiências. Outras formas de viver. E outras maneiras de interpretar a vida não entravam no campo de visão.

Jim Carrey em cena do filme 'Truman Show - O Show da Vida', de Peter Weir - Divulgação

E, pouco a pouco, isso limitava mais do que a sua opinião. Limitava o próprio ser.

Aquela visão de mundo estreitava as possibilidades. Definia o que era aceitável desejar e até onde era razoável sonhar. Limitava quem merecia se escutado e quem podia ser deixado de lado. Funcionava como uma espécie de configuração inicial... Configuração que a sociedade e a cultura entregam pronta. E ele, sem perceber, passou a viver dentro desses parâmetros.

Ia apenas até onde aquela visão permitia.

Pensava apenas o que cabia ali.

Sentia apenas o que havia sido configurado para sentir.

E havia ainda um efeito colateral raramente admitido. Aquela visão de mundo também definia quem ele ia ferir pelo caminho e quem ele diminuiria com palavras e atitudes. Definia também quem ele afastaria sem necessidade. E, assim, gradualmente, relações foram sendo rompidas pelo medo de confrontar aquilo que ameaçava suas certezas. Pessoas foram descartadas por pensarem diferente.

Aquela visão de mundo o antecedia nos encontros. Chegava antes dele. Organizava o modo como escutava. Como respondia. E como julgava. Aos poucos, ia moldando não apenas suas ideias, mas a forma como ele se relacionava com o outro e com o próprio mundo interno. O contato humano deixava de ser encontro e passava a ser confirmação. E toda relação que não confirmava aquela visão era subitamente evitada.

Ideologias... Elas operam como mapas mal desenhados. Elas oferecem sentido enquanto que, ao mesmo tempo, reduzem o conjunto de possibilidades. Quando não questionadas, passam a confundir o mapa com o mundo.

O problema surge quando a visão de mundo deixa de ser uma lente e passa a ser um limite. Quando deixa de organizar a realidade e começa a empobrecer a experiência humana. Quando bloqueia o encontro com o diferente e com aquilo que poderia expandir a própria existência.

É nesse ponto que se abre uma encruzilhada: se preservar na segurança de suas próprias perspectivas? Ou se abrir para o risco de rever aquilo que sempre pareceu evidente?

No final, amadurecer é também sobre desconfiar da própria visão de mundo. Reconhecer que ela foi aprendida e reforçada. E aceitar que nenhuma visão dá conta de explicar a complexidade que nos rodeia.

O texto é uma homenagem à música "Metamorfose Ambulante", de Raul Seixas