terça-feira, 6 de outubro de 2026

Onde foi que a direita errou?, Joel Pinheiro da Fonseca- FSP

 Depois da avalanche bolsonarista de domingo, não faltarão análises esmiuçando cada um dos erros da esquerda. As célebres palavras de Mano Brown serão repetidas à exaustão. Não tenho como contribuir com essa empreitada. Quero, ao contrário, olhar para o meu lado, e me perguntar: onde foi que a direita errou?

Não falo, é claro, da direita bolsonarista. Essa está justificadamente eufórica, tendo não só batido a esquerda como também tirado um bom naco do poder do centrão. Os problemas só virão em 2027. Caso vençam em 25 de outubro, é claro.

Pessoa em cabine de votação da Justiça Eleitoral dentro de sala de aula. Cabine branca com aviso para desligar celular, quadro negro ao fundo e carteiras escolares ao lado.
Cabine de votação em escola na zona oeste de São Paulo neste domingo - Rafaela Araújo/Folhapress

Estou pensando na minha direita, a direita liberal, a centro-direita, que defendia economia moderna, instituições sólidas e independentes, e liberdade nos costumes. A esquerda está reduzida, mas aguerrida. Essa direita deixou de existir.

Uma sociedade em que todos sejam livres para viver segundo seus próprios valores, que premia o mérito e que fornece a todos as oportunidades para desenvolver seu potencial. Em que a ciência e o livre debate são valorizados, bem como a diversidade dos modos de vida e das crenças, vista como algo desejável em si. Era mais ou menos esse o ideal de sociedade de uma direita liberal que agora parece que se perdeu.

Ela se definia antes de tudo em oposição ao petismo. O petismo que aparelhava instituições, que fazia chantagem moral, que manipulava as massas com discurso populista e emocional, negando a primazia da argumentação racional.

Instituições independentes, democracia liberal, império da lei, igualdade de oportunidades, políticas públicas baseadas em evidências. Por incrível que pareça, esses valores abstratos —que para mim são traços centrais de uma sociedade justa e digna— não arrastam as multidões. Era um tipo de pensamento político, enfim, de uma parcela esclarecida da elite (ou que assim se via), representado principalmente pelo PSDB, e que, hoje sabemos, só conseguia o apoio de uma parcela expressiva da população enquanto a comunicação e as narrativas da sociedade eram determinadas pelas elites.

O que podemos aprender de domingo? A primeira lição é a centralidade das redes sociais. Disso, vem a primazia dos líderes personalistas sobre os partidos, algo que a própria dinâmica das redes favorece. Nelas, o posicionamento impessoal das instituições não chega longe; as pessoas se relacionam com outras pessoas. Grandes puxadores de voto fizeram bancadas. Nomes mais independentes ou apagados ficaram de fora.

A segunda é a opção pelo conflito. Nikolas Ferreira, Lucas Pavanato, Eduarda Campopiano, família Bolsonaro. Quando penso neles, a primeira coisa que me vem à mente não é responsabilidade fiscal, e sim o gosto pela guerra. Apoiar cada um deles, repetir suas frases polêmicas, é já um ato de enfrentamento. Eles próprios pintam a política como o palco de uma guerra espiritual.

Algumas dessas lições até são aplicáveis a uma direita moderada. Mas se, para você, o objetivo da política é uma sociedade que funcione para todos, quem será seu inimigo numa guerra santa? Se a impessoalidade é um valor das instituições, como encarná-la em influencers? Como celebrar a diversidade de modos de vida se o povo clama por uma verdade divina?

PL cresce de 98 para 121 deputados e avança sobre o centrão; esquerda terá 24% da Câmara- FSP

 Raphael Di Cunto

Brasília e São Paulo (SP)

O PL de Flávio Bolsonaro ganhou 23 deputados nas eleições deste domingo (4) e formou uma bancada de 121 integrantes na Câmara dos Deputados, a maior da Casa desde a eleição de 1986. Os parlamentares tomarão posse em 1º de fevereiro.

Ao todo, contando outros partidos como PP e Republicanos, a direita reunirá 303 deputados, ou 59% do total —índice próximo ao atual, de 57%.

O PT, do atual presidente Lula, foi de 65 para 70 deputados eleitos e, com a federação formada com PCdoB e PV, será a segunda maior força entre os partidos, mas estará em minoria na Casa.

Contando também PDT, PSOL, Rede e PSB, a esquerda continuará a representar 24% da Câmara —124 deputados, quase o mesmo número do PL sozinho.

O centro, por sua vez, terá 86 cadeiras (17%, ante os 19% atuais).

A classificação foi feita de acordo com o GPS Partidário, metodologia da Folha que situa os partidos brasileiros da esquerda à direita a partir de critérios como atuação no Congresso, doações eleitorais e frentes parlamentares.

Já o centrão diminuiu de tamanho, mas pode crescer com a adesão de deputados de partidos que não atingiram a cláusula de desempenho (regra que exige uma votação mínima pelo país para que a legenda continue a ter direito a propaganda eleitoral na TV e rádio e aos recursos do fundo partidário).

A federação entre União Brasil e PP, que hoje contabiliza 98 deputados federais, caiu para 87. O Republicanos do presidente da Câmara, Hugo Motta (PB), foi de 42 para 41. O PSD diminuiu de 48 para 43 e MDB de 38 para 36.

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Apesar disso, esse grupo de partidos continuará a ditar os rumos do país e a ser o fiel da balança nas votações. Sem eles, PT ou PL não serão capazes de formar maioria para aprovar projetos de lei.

A imagem mostra uma sessão na Câmara dos Deputados do Brasil, com muitos deputados reunidos em um ambiente legislativo. No centro, um grupo de deputados está posando para fotos, enquanto outros estão em pé e levantando as mãos. Há uma bandeira do Brasil visível ao fundo. A sala está cheia de pessoas, com algumas usando trajes formais e outras com roupas coloridas. O ambiente é de celebração e agitação.
O plenário da Câmara dos Deputados - Pedro Ladeira - 6.ago.2025/Folhapress

A adesão completa do grupo ao novo governo, por outro lado, poderia garantir com folga votos para alterar a Constituição —seriam 389 votos num governo Flávio Bolsonaro (PL) e 382 num novo governo Lula (PT). Para aprovar uma PEC (Proposta de Emenda à Constituição) são necessários 308 votos favoráveis.

Parte dos deputados eleitos por esses partidos, contudo, está mais alinhada à esquerda ou, principalmente, ao bolsonarismo. Por isso, uma fidelidade completa é improvável.

O resultado das eleições da Câmara ainda impacta a vitalidade dos partidos políticos: 95% do fundo partidário é repartido conforme o tamanho das bancadas, enquanto 83% do fundo eleitoral, que somou R$ 5 bilhões em 2026, também depende do desempenho nas eleições para a Casa.

A propaganda eleitoral na televisão e rádio também é proporcional ao número de deputados federais da sigla. O partido que não ultrapassar um número mínimo de votos para a Câmara ou de deputados eleitos, a chamada cláusula de desempenho, fica sem acesso ao fundo partidário e à propaganda eleitoral.

Os deputados ainda dominam a maior parte das emendas parlamentares ao Orçamento, que somaram R$ 50 bilhões neste ano. As comissões da Câmara tiveram R$ 8 bilhões para indicar (valor que é distribuído de forma diferente entre cada congressista, de acordo com suas relações políticas).

Além disso, cada deputado também alcançou R$ 40 milhões em emendas individuais ao Orçamento, que são de execução obrigatória pelo governo federal. Ainda há uma parcela de R$ 11,2 bilhões em emendas das bancadas estaduais que é definida pelos interesses dos deputados.

Para os próximos quatro anos, de acordo com estudo da organização apartidária Central das Emendas, cada deputado federal terá, em média, quase R$ 295 milhões para destinar ao longo do mandato.

Por que a eleição de deputados federais é tão importante para os partidos?

  1. Fundo partidário - Quase toda a verba (95%), em torno de R$ 1 bilhão ao ano, é dividida entre os partidos na proporção dos votos obtidos na última eleição para a Câmara dos Deputados
  2. Fundo Eleitoral - Dos cerca de R$ 5 bilhões reservados para a eleição atual, 35% são divididos conforme os votos de cada partido para a Câmara, e 48% seguem o número de deputados que o partido elegeu
  3. Tempo de propaganda na TV - 90% do espaço é dividido entre os candidatos proporcionalmente ao número de representantes que os partidos da coligação tenham na Câmara dos Deputados
  4. Cláusula de desempenho - Partidos que não obtiverem um desempenho mínimo na eleição para a Câmara (2,5% dos votos válidos em pelo menos nove estados, com mínimo de 1,5% dos votos válidos em cada um; ou eleger pelo menos 13 deputados federais, distribuídos em pelo menos nove estados) perdem recursos essenciais à sua existência, como as verbas dos fundos partidário e a propaganda na TV
  5. Emendas ao Orçamento - Cada deputado indicou R$ 40 milhões em emendas individuais em 2026, enquanto as comissões da Câmara tiveram mais R$ 8 bilhões em emendas; deputados ainda destinam parte dos R$ 11,1 bilhões reservados para as bancadas estaduais
  6. Governabilidade e votações - Bancadas fortes na Câmara também dão peso ao partido na relação com o governo, na definição das votações e em outros temas relativos ao Legislativo