segunda-feira, 2 de novembro de 2026

Bancos viraram fazendeiros. Agora serão imobiliárias?, Marcos de Vasconcellos, FSP

 Os bancos brasileiros passaram os últimos meses aprendendo a ser fazendeiros. Com a inadimplência no agronegócio, a retomada de terras oferecidas em garantia ganhou espaço em seus patrimônios. Agora, perigam tornar-se verdadeiros "bancos imobiliários".

Bradesco, Itaú e Santander encareceram o financiamento da casa própria, mesmo com os recentes cortes da Selic. Eles se amparam nos juros futuros, que indicam quanto o mercado espera pagar pelo dinheiro nos próximos anos. Afinal, o banco empresta por décadas, não até a próxima reunião do Copom.

O mercado já cobra mais caro pelo futuro, diante da trajetória de gastos do governo Lula, agora reeleito, e do custo das bondades anunciadas na campanha.

Aplicações financeiras e consórcios podem ajudar na compra de casa ou carro - Wasan/Adobe Stock

Segundo reportagem da Folha, o Bradesco elevou uma de suas taxas de financiamento de 11,69% para 13,60% ao ano, um salto de quase dois pontos percentuais. No Santander, a taxa mínima subiu para 12,49%, enquanto o Itaú aumentou seus juros de 11,99% para 12,95% ao ano. Essas taxas ainda podem vir acompanhadas da TR (Taxa Referencial), que corrige o saldo devedor, além de seguros e despesas.

O aumento encontra famílias já sem espaço no orçamento. Em setembro, 81,7% estavam endividadas, segundo a Confederação Nacional do Comércio; quase 3 em cada 10 tinham contas em atraso.

Quem já contratou financiamento prefixado não verá a taxa mudar de uma hora para outra. Mas famílias atoladas que entrarem em um financiamento com taxas sufocantes estão propensas a, em caso de dor de barriga, perder o imóvel para o banco.

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Com a inadimplência imobiliária, a retomada de garantias pode aumentar, como no caso das fazendas. Mas vou contar um segredo: bancos detestam ter imóveis, pois são ativos que geram custos e se deterioram em suas mãos. Para quem tiver dinheiro no bolso e souber avaliar documentação, preço e risco, leilões de imóveis retomados podem ser um excelente investimento. É onde os bancos acabam "queimando o estoque".

Não se pode tratar dessa questão com leviandade, como se envolvesse apenas clientes, bancos e investidores. O aumento do preço do financiamento, da inadimplência e, possivelmente, da retomada de imóveis é uma doença para a economia do país.

Lula foi eleito presidente pela quarta vez. A meu ver, o fato de Flávio Bolsonaro ser intragável pesou mais do que a aprovação da política econômica. A eleição passou, mas a conta dos gastos públicos continua aberta e a mudança das taxas mostra que ela atrapalha a prosperidade.

Conversando sobre os possíveis ajustes com Tatiana Pinheiro, economista e pesquisadora da FGV-EESP, ela chamou a atenção para uma gordura que costuma sobreviver às reformas: os gastos tributários, benefícios e renúncias de impostos para apoiar setores específicos. O TCU estima que o governo deixará de arrecadar R$ 612,8 bilhões com isso em 2026.

Reduzir essa conta não significa sair aumentando impostos, mas perguntar se o tributo que deixamos de cobrar produziu emprego, investimento e produtividade. A conta pública pode ser ajustada com régua ou com incêndio. Quanto mais Brasília adia a conversa, mais se aproxima da segunda opção, com taxas exorbitantes afastando a população da casa própria.

Ricardo Viveiros - Quem pode mais, paga mais, FSP

 Ricardo Viveiros

Jornalista, professor e escritor, é membro da Academia Paulista de Educação (APE) e conselheiro da Associação Brasileira de Imprensa (ABI); autor, entre outros, de 'Um Inferno em Mianmar - Os Perigos da Escravidão Moderna' (ed. Reflexão)

Há um velho argumento repetido à exaustão por setores do neoliberalismo econômico: impostos elevados desestimulam investimentos, reduzem competitividade e travam crescimento.

No Reino Unido, surpreendente movimento desafia tal lógica. Um grupo de 120 milionários, entre eles o ex-jogador de futebol Gary Lineker, pediu ao governo o aumento dos impostos sobre as grandes fortunas.

Não é um gesto de culpa, mas a compreensão pragmática de que sociedades desiguais cobram um preço alto a todos, inclusive aos mais ricos.

Manifestante em protesto contra o Fórum Econômico Mundial, em Davos, exibe cartaz pedindo o aumento dos impostos sobre os ricos - Denis Balibouse - 14.jan.2024/Reuters

A proposta é criar uma tributação de 2% sobre patrimônios superiores a 10 milhões de libras. Para os signatários, quem acumulou riqueza dessa magnitude tem plenas condições de contribuir mais para financiar políticas públicas, reduzir desigualdades e fortalecer a economia. Não se trata de penalizar empreendedores, mas corrigir uma distorção que concentra renda e poder em parcela cada vez menor da população.

No Brasil, enquanto se discute a tributação sobre altas rendas e grandes patrimônios, parte da elite econômica busca mecanismos para reduzir a carga tributária com planejamentos fiscais agressivos, ou antecipando distribuição de lucros antes da incidência de novos impostos. E fazem críticas aos gastos públicos voltados aos programas sociais, tratados como despesas improdutivas quando representam investimentos em estabilidade social e desenvolvimento humano. Segundo o FMI, das dez maiores economias do mundo, o Brasil está em último lugar no tamanho da dívida pública, e com índice inferior ao seu PIB.

Desigualdades nunca foram terreno fértil para a prosperidade duradoura. Países que negligenciam saúde, educação, segurança, habitação e reais oportunidades para os mais pobres têm violência, instabilidade e baixo crescimento econômico. Não é difícil entender tal dinâmica. A criança que vende doces nos semáforos, sem acesso à educação de qualidade, assistência social ou perspectivas de futuro, pode ser recrutada pelo crime organizado. O custo da omissão recairá sobre toda a sociedade.

Tributos não são punição ao sucesso financeiro. Em democracias fortes, representam instrumento que viabiliza infraestrutura, justiça, segurança, inovação e serviços essenciais. Garantem desenvolvimento econômico sustentável a mais cidadãos. Não é ideia "radical" ou "de esquerda", mas algo que pode conviver com uma economia de mercado forte.

Dinamarca, Noruega e Suécia progrediram ao adotar o modelo que une forte crescimento econômico a baixa desigualdade, com impostos progressivos e boas redes de proteção social. Quanto a investimentos governamentais nas camadas de baixa renda, a França lidera o ranking global, com mais de 30% do PIB em suporte social. Áustria e Finlândia se igualam à França. Itália, Bélgica e Dinamarca destinam cerca de 25% do PIB para proteção social. Na Suíça, cada cantão (estado) tem sua regra: alguém com um patrimônio de 10 milhões de francos paga em Zurique, por exemplo, cerca de 0,55% ao ano. Esses países se tornaram sólidas economias.

Toda política tributária deve ser equilibrada, transparente e eficaz. Cobrar mais impostos sem responsabilidade na gestão dos recursos públicos alimenta desperdícios e desconfiança. Como aumentar a carga sobre a classe média e os trabalhadores não resolve a concentração de riqueza. O foco do debate está na real capacidade contributiva de cada segmento da sociedade —além de seriedade governamental no gasto dos recursos.

O gesto dos milionários britânicos rompe um paradigma. Quando parte dos maiores beneficiários do sistema reconhece a necessidade de contribuir um pouco mais para preservar a coesão social, o debate deixa de ser ideológico e leva à racionalidade econômica, à responsabilidade social. Uma curiosidade: Gary Lineker, em sua carreira futebolística com 500 partidas oficiais em clubes como Barcelona e Tottenham e pela seleção inglesa, nunca recebeu um só cartão amarelo ou vermelho.

Nenhuma sociedade se fortalece quando riqueza e oportunidades ficam restritas a poucos. O verdadeiro desenvolvimento ocorre quando crescimento econômico e justiça social caminham lado a lado. Afinal, a prosperidade de um país não pode ser medida apenas pelo patrimônio de sua elite, mas pelas condições de vida oferecidas ao conjunto de sua população.