As explicações meteorológicas que se seguem a um evento climático extremo não podem funcionar como desculpa ou álibi para a falta de prevenção aos desastres cada vez mais rotineiros e intensos.
O vendaval que atingiu o litoral de São Paulo e do Rio de Janeiro na semana passada, causando destruição e mortes, ganhou um nome chique: "bore ondular". O fenômeno se dá quando uma massa de ar frio avança sobre o ar excepcionalmente quente. Sua magnitude foi inédita para padrões brasileiros. Ok.
O que se pode afirmar, também, é que as autoridades não passaram no teste do Super El Niño, cujo pico de força é aguardado para ocorrer entre outubro e dezembro. A rede de estações e sensores se mostra insuficiente para prever mudanças rápidas no tempo, ocasionando falhas no sistema de informação. No Rio, a Defesa Civil demorou a avisar a população sobre a força das rajadas. Alertas de celular só foram enviados quando o caos já se instalara na cidade, com ventos de 105 km/h, um número espantoso de árvores caídas (quase 300) e 1,9 milhão de pessoas sem energia.
Entre as imagens que viralizaram, uma mostrava turistas no alto do Corcovado, agarrando-se às muretas e grades do Cristo Redentor. Apesar do desespero, não perderam a chance de registrar o momento pelo celular. Na Barra, três operários que trabalhavam num prédio de 23 andares ficaram suspensos num andaime, indo de um lado para o outro, como um pêndulo. O jaú bateu repetidas vezes na parede, com os homens a mais de 25 metros do chão. Um deles, Wedson Sales, depois do sufoco, ao chegar em casa, em Santa Cruz, deparou-se com o lugar onde mora destruído, o muro do quintal desabado e as telhas quebradas.
Quem se importa com Wedson? Não é o Congresso, insensível às tragédias que afligem o Brasil e o planeta. Deputados e senadores avançam na agenda antiambiental. Fora o que já tivemos de retrocesso, tramitam 13 propostas para reduzir áreas de conservação, tidas como entrave ao agronegócio. É um crime às claras, sem remorso ou necessidade de álibi.



