terça-feira, 12 de maio de 2026

O avô rico que todo pobre diz ter – e o que isso revela, Por Christian Hunt - OESP

 Outro dia, enquanto cortava o cabelo com Fagner, meu cabeleireiro, ouvi uma frase curiosa. Em meio às brincadeiras do salão, ele comentou: “No Brasil, todo pobre tem um avô rico”. Fez uma pausa e completou: “Pelo menos na história que ele conta”.

A frase provocou risos. Mas Fagner, com a lucidez que às vezes só o humor permite, talvez tenha tocado em algo mais profundo do que a risada sugeria.

Parece-me que nesta brincadeira possa se esconder uma certa resignação coletiva. Uma aceitação silenciosa de que certas condições sociais são imutáveis. Como se a prosperidade pertencesse sempre a um passado distante, e não a algo que possa ser construído coletivamente no presente. Talvez haja também certa ironia cansada diante de um país que parece, aos olhos de muitos, não conseguir sair do lugar.

O mais perturbador é que, em certo sentido, os números dão razão à brincadeira. Entre 2000 e 2024, segundo o Banco Mundial, em dólares de 2021 ajustados por paridade de poder de compra, a renda média anual por pessoa no Brasil aumentou cerca de US$ 5,6 mil (+40%). Parece razoável, até que se olha ao redor. No mesmo período, a Coreia do Sul avançou US$ 28,7 mil por pessoa (+109%), a Polônia US$ 26,6 mil (+143%), a China quase US$ 20 mil (+486%), os Estados Unidos US$ 20,5 mil (+37%) e o Chile US$ 12,7 mil (+72%). E a média mundial? Cerca de US$ 8,6 mil (+68%). Quando até os Estados Unidos, partindo de um patamar muito superior, crescem quase tanto em porcentual, a gravidade da situação brasileira fica clara.

O Brasil não está apenas longe do topo. Está abaixo da média do planeta. Em relação à média mundial, o brasileiro de hoje está pior posicionado do que o brasileiro de 2000 estava. É uma divergência crescente: a cada ano, a distância em relação aos mais prósperos não diminui. Só aumenta. É difícil não se incomodar com isso. Na era das redes sociais, qualquer pessoa conectada percebe a distância crescente entre a vida nos países dinâmicos e a realidade brasileira.

E não existe motivo legítimo para isso. O Brasil foi extraordinariamente abençoado: escala continental, recursos naturais imensos, energia renovável abundante, biodiversidade ímpar, uma sociedade diversa e criativa, um mercado interno de mais de 210 milhões de pessoas. São ativos que deveriam colocar o País na série A da economia mundial. Hoje, está longe disso.

Muitos brasileiros cresceram com a ideia de viver no “país do futuro” – como se o destino brilhante fosse garantido. Mas há muitos candidatos a esse destino. O Brasil pode ter o DNA certo, mas DNA sozinho não garante pódio. Sem treino e disciplina, o talento mais promissor fica pelo caminho.

Convergir para os melhores não é abstração. Significa melhores escolas, melhor saúde, melhores salários, mais ciência, mais cultura, mais oportunidades para que cada brasileiro, independentemente de sua origem, possa realizar seu potencial. Outros países partiram de condições semelhantes ou piores e chegaram ao topo em poucas décadas. A Coreia do Sul, a Polônia, a China e até os Estados Unidos são provas vivas de que a transformação é possível, e cada um deles tem algo a ensinar. Para um país com as condições do Brasil, a prosperidade deveria ser consequência natural. Se não veio, é resultado de escolhas. E escolhas podem ser mudadas.

Não é produtivo procurar culpados, sejam partidos, governos, grupos sociais ou forças estrangeiras. Isso não muda a realidade. A responsabilidade sempre foi e sempre será do povo brasileiro. Quando o barco faz água, ninguém espera que outro comece. Todos agem. E cada brasileiro faz parte dessa resposta, por mais humilde que seja. São precisamente aqueles que mais lutam no dia a dia os que mais têm a ganhar quando o País avança, para si, para seus filhos e netos.

É o povo que escolhe seus representantes, suas prioridades, seu futuro. E os brasileiros sabem que, para fazer as escolhas certas, o caminho passa por se informar, estudar, compreender o que funciona e o que não funciona. Os partidos, o debate político, as instituições: tudo é reflexo das escolhas de uma nação.

O Brasil está diante de dois caminhos. Pode seguir na mesmice e constatar daqui a 25 anos que a distância virou um oceano. Ou pode se mobilizar, com a mesma energia com que defende sua seleção, e fazer acontecer. Como qualquer atleta que almeja o pódio, um país que quer convergir para os melhores precisa de inspiração, disciplina e persistência. Os brasileiros sabem, no fundo, que nenhuma salvação virá de fora. Que o esforço nasce de dentro. E que um país com esse potencial não pode se dar ao luxo da acomodação. O caminho é longo, mas é um caminho que, percorrido com determinação, pode colocar o Brasil num patamar que dará orgulho aos netos de todos os brasileiros.

Pois o verdadeiro sinal de vitalidade de uma nação não depende de quantos dizem ter tido um avô rico, e sim de quantos, pela própria energia e por um ambiente favorável, se tornam o avô bem-sucedido de um futuro neto.


Opinião por Christian Hunt

Empreendedor e investidor belga, radicado no Brasil desde 2004

Calor extremo e estresse climático: novos desafios para a saúde dos trabalhadores, OESP

 Por Ari Araújo e Victoriana Gonzaga

Nas cenas iniciais do filme do cineasta americano Spike Lee, Do the Right Thing (1989), o calor extremo de um dia de verão no Brooklyn não é mero pano de fundo: é o palco de conflitos pessoais e sociais que irão escalar ao longo do enredo. O calor se infiltra nas conversas dos vizinhos, encurta-lhes a paciência e amplifica ressentimentos em uma área pobre do bairro novaiorquino. A temperatura e a agressividade sobem ao longo da narrativa. E o que começa como pequenos atritos da vida cotidiana termina numa briga generalizada de rua, onde o calor é um importante gatilho para o agravamento da tensão entre os personagens.

Quase quatro décadas depois, a cena deixou de ser metáfora cinematográfica para se tornar experiência cotidiana em muitas cidades do mundo. A diferença é que, na década de 1980, aquele dia sufocante ainda podia ser visto como exceção. Em 2026, dias como aquele se repetem, se intensificam e consolidam-se como fator estrutural de adoecimento, desigualdade e conflito social.

Ondas de calor mais frequentes e intensas, hoje claramente associadas às mudanças climáticas, afetam não apenas o conforto, mas o comportamento, a saúde mental e a capacidade de trabalho das pessoas. O estresse térmico reduz a concentração, aumenta a irritabilidade, eleva o risco de acidentes e pode ainda agravar doenças crônicas e aumentar a incidência de doenças vetoriais, como dengue, zika e chikungunya. Mas esse risco não se distribui de forma homogênea. Ele se concentra mais sobre pessoas marginalizadas e trabalhadores precarizados, com menor margem de negociação sobre pausas, ritmo e jornada, ou que atuam ao ar livre ou em ambientes pouco climatizados, como agricultores, entregadores e operários da construção civil. Assim como no Brooklyn de Spike Lee, o calor atua como catalisador de tensões sociais pré-existentes, porém agora em escala global.

Segundo dados da Organização Internacional do Trabalho (OIT), mais de 2,4 bilhões de trabalhadores – cerca de 71% da força de trabalho global – enfrentam calor excessivo no local de trabalho, seja sob o sol direto, em áreas fechadas sem ventilação adequada ou em ambientes onde a própria atividade física aumenta o estresse térmico. Estima-se que, a cada ano, cerca de 23 milhões de lesões ocupacionais sejam atribuídas às temperaturas elevadas, o que pode resultar num aumento aproximado de 19 mil mortes adicionais.

Tais dados são reveladores não apenas pela urgência do diagnóstico, mas pelo que ele expõe de forma implícita: o trabalho é um dos principais pontos de contato entre o colapso climático e a vida cotidiana, com impactos diretos sobre a economia e a desigualdade. Num país tropical, marcado por alta informalidade e por milhões de trabalhadores expostos ao sol e a ambientes pouco climatizados, o calor extremo deixou de ser uma externalidade ambiental para se tornar um risco ocupacional central – embora ainda tratado como se fosse exceção.

Num mundo onde a justiça climática parece tema de filme de ficção científica, é urgente rediscutirmos nossas práticas de saúde e segurança, com novas políticas de saúde ocupacional adequadas às novas vulnerabilidades climáticas. Isso passa por ampliar a formação e a conscientização de profissionais de saúde, empregadores e dos próprios trabalhadores, com respostas integradas e novas estratégias de prevenção.

Ao final do filme americano, “fazer a coisa certa” permanece como uma pergunta em aberto. A narrativa termina deixando no ar questões sobre responsabilidade individual e ação coletiva diante de um contexto que empurra todos ao limite. Do lado de fora do cinema, as escolhas e respostas precisam ser claras e bem definidas, pois garantir que a proteção aos trabalhadores expostos evolua tão rápido quanto o termômetro é a nossa única opção.

Opinião por Ari Araújo

Médico, doutor pela Universidade de São Paulo, é professor da Faculdade Sírio-Libanês

Victoriana Gonzaga

Advogada em Direito Internacional e Direitos Humanos, doutoranda em Direito (USP), é mestre em Direito e Desenvolvimento Econômico e Social (FGV-SP)

Chefes de ‘departamentos’ e atuação em 14 setores da economia: veja quem manda no PCC, FSP

 Fazia 20 anos que o Primeiro Comando da Capital (PCC) existia quando, em 2013, o promotor Lincoln Gakiya entregou à Justiça o resultado da maior investigação criminal até então realizada pelo Ministério Público de São Paulo contra a facção. Com 876 páginas, a denúncia acusava de formação de quadrilha 175 integrantes da facção — o crime de organização criminosa só passaria a existir mais tarde, naquele mesmo ano de 2013. Centenas de horas de escutas telefônicas e milhares de documentos mostravam um grupo que se nacionalizava por meio de contatos com outras facções e aplicava o discurso de que “o crime ajudava o crime”.

Na época, os paulistas dirigiam um grupo com 7,6 mil integrantes, que faturava R$ 120 milhões por ano e estava presente em 22 Estados e três países. Era o começo da internacionalização da facção, desde que entrara, em 2007, no tráfico internacional de drogas.

Passados mais de dez anos, o PCC fatura R$ 10 bilhões por ano, alcançou todas as Unidades da Federação e está em 28 países, reunindo um exército de 40 mil homens e mulheres. Seu modelo de gestão do crime e proteção dos criminosos permanece organizado em torno de um colegiado liderado por Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola, preso desde 1999 e que atualmente cumpre pena na Penitenciária Federal de Brasília. Trata-se da chamada Sintonia Final Geral e de seu principal órgão de apoio, a Sintonia Final, conforme as informações reunidas pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco). A reportagem não localizou as defesas dos acusados.


Neste 12 de maio, completam 20 anos dos ataques do PCC contra as forças de segurança em São Paulo. Como o Estadão mostrou, o Estado reagiu e a onda de mortes violentas se estendeu até o dia 21 daquele mês. Conforme o Ministério Público de São Paulo (MPSP), 564 pessoas morreram e quatro desapareceram. Das vítimas fatais, 59 eram agentes de segurança, entre policiais militares, civis, agentes carcerários e guardas municipais, e 505 eram civis. Houve ainda quatro civis desaparecidos e 110 pessoas ficaram feridas por armas de fogo.

Desde aquele maio de 2006, o PCC só cresce e o Departamento de Inteligência da Polícia Civil de São Paulo (Dipol) identificou 12 sintonias do crime e um setor mantido pela facção. Dois deles mostram a evolução do PCC: a Sintonia da Internet e Redes Sociais e o Setor do Raio X, espécie de corregedoria ou “compliance” dos bandidos. Ao mesmo tempo, a facção atuaria em 14 setores da economia: postos de gasolina, agências de automóveis, construção civil, casas de câmbio, bancos digitais (fintechs), criptoativos, empresas de ônibus, igrejas, mineração ilegal, ONGs da saúde, coleta de lixo, bets, agrotóxicos e empresas ligadas ao futebol.

Os números envolvendo movimentações financeiras investigadas pelo Gaeco e pelas Polícias Civil e Federal tratam de evasão, ocultação de bens e lavagem de dinheiro repetidamente, de valores acima da cifra de R$ 100 milhões, e não raro ultrapassam a casa do bilhão, como no caso de operações como a Carbono Oculto (R$ 46 bilhões), Colossus (R$ 61 bilhões), Tai Pan (R$ 119 bilhões) e Alcaçaria (R$ 25 bilhões), quando o dinheiro do crime organizado se mistura com o de outras atividades ilícitas, como a corrupção, a sonegação de impostos e fraudes financeiras.


Reportagem: Marcelo Godoy; Editora de infografia: Regina Elisabeth Silva; Editores-assistentes de infografia: Adriano Araujo e William Mariotto; Editor de Metrópole: Victor Vieira; Editores-assistentes de Metrópole: Raphael Ramos e Juliana Prado