sábado, 15 de agosto de 2026

Por que morremos, Helio Schwartsman, FSP

 A perspectiva da morte é tão aterradora para nossa espécie que aqueles que se põem a vender produtos para evitar ou adiar o desfecho final não precisam se esforçar muito para prosperar. É como se pedíssemos para ser enganados. De drogas milagrosas e rotinas saudáveis a propostas mais exóticas como congelar o corpo à espera de curas futuras ou fazer um download de consciência em disco rígido, sempre haverá alguém disposto a acreditar e comprar.

Um antídoto contra essas engabelações é "Por Que Morremos", de Venki Ramakrishnan. O autor é um cientista de primeira —ganhou um Nobel por desvendar segredos do ribossomo— e não está vendendo nada. Minto. Ele está vendendo o livro, mas a obra não traz promessas mirabolantes que exijam pagamentos continuados.

Ilustração para coluna de Hélio Schwartsman - Annette Schwartsman

Ramakrishnan começa com a biologia do envelhecimento. A morte não precisaria ser inevitável. Há espécies, como algumas águas-vivas, que podem ser descritas como imortais. Mas, quando olhamos para seres mais complexos de reprodução sexuada, o envelhecimento se torna quase universal. Um primeiro balde de água fria é que parece haver um limite máximo de tempo de vida para humanos, que estaria em torno dos 110 anos.

O autor vai além e mostra o que efetivamente funciona para prolongar a vida. E aí outra má notícia. É a restrição calórica. Bichos e pessoas que comem muito pouco, no limite da inanição, vivem mais. Muita gente, com muita razão, recusaria esse tipo de barganha envolvendo um dos grandes prazeres da vida.

Há drogas que também parecem funcionar. Mas seria uma temeridade recomendar a um humano saudável que as tomasse continuamente. Os efeitos adversos, que existem, não são ainda de todo conhecidos.

Ramakrishnan, que é didático sem deixar de ser técnico, também avança para as searas mais futuristas, como a criogenia e a transferência de consciência. Aborda ainda as questões éticas e econômicas relacionadas a uma putativa imortalidade.

Não deixe de ler o livro antes de comprar seu próximo suplemento alimentar infalível.

Justiça manda bloquear R$ 1 bilhão em bens por suspeita de fraude na iluminação pública de São Paulo, FSP

 O TJ-SP (Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo) determinou o bloqueio de R$ 1,02 bilhão em bens de três agentes e ex-agentes públicos e da empresa responsável pela iluminação pública de São Paulo, a Ilumina SP. A decisão é do desembargador Dimas Borelli Thomaz Júnior e foi expedida na noite de sexta-feira (14).

O valor do bloqueio é a soma dos R$ 513 milhões de suposto prejuízo ao erário, além de multa de igual valor.

A Prefeitura de São Paulo confirmou neste sábado (15) que foi oficialmente intimada e que apresentará à Justiça todos os esclarecimentos necessários.

Iluminação de LED na av. 23 de maio, em São Paulo - Avener Prado - 2.abr.14/Folhapress

A SP Regula, órgão regulador municipal, afirma que a execução do contrato de iluminação pública na cidade acontece de forma regular, com fiscalização e acompanhamento permanentes pelo TCM (Tribunal de Contas do Município).

"Desde 2018, o parque de iluminação pública da cidade passou por uma ampla modernização com a substituição das antigas lâmpadas de sódio por luminárias de LED, tecnologia mais eficiente e presente em praticamente 100% da rede. Até junho deste ano, foram remodelados 623.800 pontos de iluminação e ampliados 42.647", afirma.

A empresa diz que a retomada e as suspensões do processo licitatório seguiram rigorosamente os prazos e as determinações da Justiça, em conformidade com a legislação. Afirma, ainda, ter disponibilizado ao Ministério Público todas as informações solicitadas desde a retomada da licitação, colaborando de forma integral com os órgãos de controle.

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A Promotoria também pediu o afastamento imediato de João Manoel da Costa Neto, presidente da SP Regula, mas a medida não foi concedida.

A ação foi protocolada em 24 de julho, na 13ª Vara da Fazenda Pública. Além do presidente da SP Regula, os acusados são o ex-secretário Marcos Rodrigues Penido, a ex-diretora do Ilume (departamento de Iluminação) Denise Maria Ayres de Abreu e as empresas FM Rodrigues e CLD Construtora, que formaram a Ilumina SP.

O município de São Paulo e a SP Regula também foram incluídos na ação por serem partes dos contratos questionados, mas não são alvos do pedido de bloqueio patrimonial.

Procurados pela Folha em 28 de julho, a Ilumina SP, Abreu e Penido afirmaram não ter praticado atos irregulares e que as questões já foram elucidadas em investigações anteriores.

Segundo a ação dos promotores Silvio Marques e Karyna Mori, a licitação para a concessão da iluminação pública foi conduzida de modo a favorecer o consórcio formado por FM Rodrigues e CLD, que acabou como único concorrente após a exclusão irregular do Consórcio Walks.

A Promotoria afirma que a proposta do Walks era R$ 5,6 milhões mais barata por mês do que a apresentada pelo grupo vencedor. A diferença teria provocado um prejuízo acumulado de R$ 359 milhões aos cofres municipais até julho deste ano.

A ação também atribui prejuízo de R$ 154 milhões devido à inclusão, sem nova licitação, dos serviços de manutenção e modernização dos semáforos da cidade no contrato da iluminação.

Somados e atualizados, os danos materiais calculados pelo Ministério Público chegam a R$ 513,3 milhões.

A concorrência internacional foi aberta em 2015 para modernizar, expandir e manter a rede de iluminação da capital, com aproximadamente 600 mil pontos de luz.

O contrato, com duração prevista de 20 anos, foi assinado em março de 2018 pelo valor de R$ 6,9 bilhões, com pagamento mensal máximo de R$ 28,9 milhões. A escolha se deu em meio a uma controversa exclusão do consórcio concorrente, o Walks.

Entre os argumentos que embasaram a desclassificação do Walks estavam a recusa das garantias apresentadas e a existência entre os integrantes do consórcio da empresa Quaatro Participações, que, segundo a prefeitura, funcionava como casca jurídica de uma companhia implicada na Operação Lava Jato, a Alumini Engenharia.

Em 2017, a Controladoria-Geral da União declarou que a Alumini não era idônea para participar de licitações e contratos com a administração pública.

No final de 2018, porém, o TJ-SP (Tribunal de Justiça de São Paulo) considerou ilegal a extensão da inidoneidade aplicada à Alumini para a sua controlada, a Quaatro, e considerou que a Walks deveria ter tido amplo direito de defesa.

Todas as etapas do processo, da licitação à assinatura do contrato, foram consideradas nulas pelo tribunal. Para evitar que houvesse colapso na iluminação pública, o TJ-SP decidiu que apenas os serviços essenciais de manutenção poderiam ser provisoriamente executados.

Recursos julgados em 2023 e em 2024 pelo STJ (Superior Tribunal de Justiça) e pelo STF (Supremo Tribunal Federal) validaram a anulação do processo que desclassificou o Walks. O caso transitou em julgado em dezembro de 2024.

Na nova ação, a Promotoria reafirma que o Walks foi excluído da disputa sob argumentos posteriormente considerados ilegais pela Justiça. Diz ainda que o contrato original continuou em vigor e recebeu diversos aditivos durante a disputa judicial.

Uma Odisseia para estudar: quais lições sobre o colapso de uma era os Povos do Mar deixaram, Celso MIng, OESP

 Por Celso Ming

Atualização:

Ah, esses misteriosos Povos do Mar! Quanto estrago não produziram eles no fim da Idade do Bronze! O filme A Odisseia, de Christopher Nolan, faz várias referências a eles. Foram invasores de origem obscura que chegaram em embarcações para espalhar o terror. No filme, ameaçaram o reino de Ítaca, do herói Ulisses.

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Esses povos estiveram entre os agentes que produziram a catástrofe que destruiu a maior parte das civilizações do Mediterrâneo Oriental, no século 12 a.C. Foram então arrasados quase simultaneamente grandes impérios e cidades-estado antes prósperas: império minóico, na ilha de Creta; o miceno, no Peloponeso (Grécia); o hitita, na Anatólia (hoje, Turquia), o assírio, o babilônio e o cipriota.

A partir de então, instalou-se uma idade das trevas que durou séculos. Cidades foram abandonadas, culturas se extinguiram, a escrita desapareceu, e o comércio, em uma região antes interligada, desmilinguiu.

Livro de Eric Cline investiga as causas do colapso das civilizações no fim da Idade do Bronze
Livro de Eric Cline investiga as causas do colapso das civilizações no fim da Idade do Bronze  Foto: Divulgação/Faro Editorial

As hordas dos Povos do Mar só foram contidas pelas tropas do faraó Ramsés 3º, em batalha travada em 1175 a.C, no delta do Nilo.

No livro notável escrito pelo professor de História e Arqueologia da Universidade George Washington, Eric Cline narra a “tempestade perfeita” que produziu a derrocada. Trata-se da obra 1177 a.C, o ano em que a civilização entrou em colapso, editada em português pela Faro Editorial.

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O professor Cline argumenta que esses Povos foram mais consequência do que causa do apocalipse de então. Com uma profusão de dados arqueológicos e de outras ciências, Cline mostra que uma seca devastadora durou mais de um século, espalhou fome e epidemias, arruinou sociedades, antes fortemente organizadas, enfraqueceu governos – enfim, tornou grandes impérios altamente vulneráveis a ataques internos e externos.

Os Povos do Mar devem ser entendidos como aglomerações de refugiados que buscaram sobrevivência na pilhagem dos centros produtivos já enfraquecidos.

Faltam evidências de que esse fenômeno histórico tenha natureza cíclica e que, nessas condições, possa voltar a acontecer. No entanto, Cline sugere que algumas das características que ocorreram no fim da Idade do Bronze começam a se acentuar em nossos dias.

Ele se refere à atual migração dos povos, que fogem da fome e da pobreza, aos efeitos da crise climática que espalha catástrofes, como seca e incêndios, à pandemia do covid-19, que matou 22 milhões. Ele ainda não se refere aos estragos que a inteligência artificial pode produzir, porque seu livro foi escrito antes dessa novidade.

O autor não se limita a advertências. Avisa que, depois das trevas, surgiu o renascimento vivido pela civilização helênica e, depois, pelo Império Romano.

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No mais, a humanidade dispõe hoje de conhecimento e de tecnologia que não tinha antes. Mas seria isso suficiente para evitar o pior?