quarta-feira, 8 de julho de 2026

Trump para quem gosta de futebol, Elio Gaspari, FSP

 O presidente americano, Donald Trump, deu um jeito, arrumou uma encrenca com o árbitro brasileiro Raphael Claus e virou personagem da Copa do Mundo. Puro Trump. Afinal, ele continua dizendo que ganhou a eleição de 2020. É verdade que parou de falar que Barack Obama nasceu na África. (No seu primeiro mandato ele produziu 30.573 mentiras ou falsidades, 21 por dia). De volta à Casa Branca, seguiu na mesma toada, porque esse é seu estilo e a encrenca com Raphael Claus é um estudo de caso de sua essência.

Na quarta-feira, o centroavante Folarin Balogun pisou no tornozelo do zagueiro Muharemovic da seleção da Bósnia. Depois de ver o vídeo no VAR, o árbitro Claus expulsou-o do campo. (Balogun disse que aceitava a decisão.) Trump contou que até então não sabia o que significava a apresentação de um cartão vermelho, com a consequente suspensão para o jogo seguinte, contra a Bélgica.

Ex-presidente sentado na mesa do escritório oval segurando o troféu da Copa do Mundo, usando boné vermelho. Homem em pé ao lado fala gesticulando. Bandeiras americanas e decoração presidencial ao fundo.
Donald Trump e Gianni Infantino durante encontro na Casa Branca, em 2025 - Andrew Caballero-Reynolds - 22.ago.25/AFP

Até aí seria o jogo jogado, com um torcedor contestando um árbitro. No dia seguinte, o presidente dos Estados Unidos decidiu ligar para Gianni Infantino, presidente da Fifa, pedindo que anulasse a suspensão. Novamente, jogo jogado, pois cartolas adoram pressões de pessoas poderosas e Infantino deu a Trump um inédito prêmio da Paz depois que ele, com suas guerras, foi esquecido para o Nobel. Conseguiu. De lambuja estendeu a encrenca às federações de futebol europeias.

Na segunda-feira, na Casa Branca, Trump assumiu seu estilo. Avançou no tornozelo do árbitro. Sustentou que não houve falta e que, pelos seus antecedentes, Claus é "muito suspeito". Puro Trump, fez a acusação sem uma migalha de argumento.

Mais: mobilizou janízaros da Casa Branca para contestar a honorabilidade de Claus. Não se discute mais a falta de Balogun, nem se exibe o vídeo da falta.

Roy Cohn, o temível litigante dos tribunais americanos, mentor do jovem empresário Donald Trump, ensinava: "Não me diga o que diz a lei. Diga-me quem é o juiz". Os juízes, àquela altura, eram Infantino e alguns cartolas da Fifa. Bingo. (Em setembro chega às livrarias americanas uma biografia de Cohn, com o seguinte título: "Um Canalha Americano".)

A realidade paralela que Trump cultiva e manipula explica a encrenca. O mundo vive a festa de uma Copa. A cerimônia inaugural do certame teve mais audiência que a ida do presidente ao sopé do monte Rushmore, onde estão esculpidos na rocha os rostos de quatro de seus antecessores. Ele precisava entrar naquela festa.

Entrou defendendo um atleta negro e admirado, parte de uma seleção festejada. Com o Brasil eliminado, falou-se mais de Trump do que da malcriação de Neymar com o goleiro norueguês. Trump não sabia o que significava um cartão vermelho, não tem noção do que vem a ser um impedimento e talvez ache que a meia-lua da grande área seja um enfeite, onde poderiam pôr seu retrato. Conseguiu entrar na festa da Copa, por poucos dias.

Na noite de segunda-feira, sem telefonemas, os deuses do futebol decidiram. Com Balogun em campo, a seleção americana foi mandada para casa.

Futebol, jogado dentro das quatro linhas, ainda é coisa séria.

Não há despedidas num mundo que dá voltas, Ilona Szabó de Carvalho -FSP

 Quando publiquei minha primeira coluna aqui, em dezembro de 2017, o mundo já vivia um período de mudanças aceleradas. Mas talvez não esperasse o grau de intensidade das transformações nos anos seguintes, quando definitivamente entramos numa era de crises sistêmicas e interconectadas.

Passamos por uma pandemia; guerras voltaram ao centro da geopolítica; a inteligência artificial deu um salto impressionante. Os eventos climáticos extremos, cada vez mais frequentes, fizeram a degradação ambiental deixar de ser tema de nicho e ocupar o centro das preocupações econômicas e políticas. Organizações criminosas se fortaleceram e se expandiram para além das fronteiras, e se conectaram ao ecossistema do crime ambiental.

Confluência de dois rios em meio a densa floresta tropical sob céu carregado de nuvens escuras, indicando tempestade iminente.
Vista aérea da localidade do Encruzo, que fica localizada no encontro dos rios Uaca e Curipi, na Terra Indígena Uaca, no Amapá - Lalo de Almeida - 12.ago.24/Folhapress

O Brasil também mudou. Em meio a uma montanha-russa de fatos políticos, vivemos um período de fechamento do espaço cívico. Sobrevivemos à mais séria ameaça à nossa democracia desde 1964 e caímos em sucessivas crises institucionais. Passamos por retrocessos e avanços na segurança pública; incentivamos e criamos instrumentos financeiros inovadores para impulsionar bioeconomias – e abraçamos a COP30 em Belém como estandarte do reposicionamento do país em temas internacionais.

Em um ambiente de tantas incertezas, tornou-se ainda mais difícil separar fatos de ruídos, urgências de prioridades. Mas nunca foi tão necessário.

Meus interesses acompanharam essa transformação. Permaneci fiel aos princípios que orientaram todas as minhas interações, mas meu olhar foi incorporando novas lentes.

Na semana passada, o Instituto Igarapé, do qual sou cofundadora, completou 15 anos de atuação do nível local ao global. Nosso foco, hoje, está na conexão entre as agendas de segurança, natureza e clima. Entendemos que ameaças como crime organizado, degradação ambiental e instabilidade climática não podem ser enfrentadas –e as soluções não podem ser construídas– isoladamente. É preciso trabalhar com todos os setores para enfrentar problemas que já não cabem em caixinhas separadas.

Nessa evolução, fomos além do trabalho tradicional de um think tank, e cofundei novas iniciativas voltadas à implementação. Uma delas é a Green Bridge Facility, que busca reduzir riscos territoriais para viabilizar investimentos responsáveis e empreendimentos sustentáveis no Brasil e em outros países da Bacia Amazônica. A outra é o Regenera BioLab, que ancora um corredor ecológico na Mata Atlântica para demonstrar, na prática, como conservação, restauração florestal, agroflorestas, turismo regenerativo e novas formas de financiamento da natureza podem caminhar juntos em um modelo capaz de transformar e inspirar outras regiões.

Este é meu último texto como colunista regular da Folha. Há momentos em que precisamos pausar, ouvir e repensar como melhor contribuir para um debate informado.

Encerro esse ciclo, do qual tenho muito orgulho, profundamente grata por ter mantido uma troca tão inspiradora por quase nove anos. Voltarei a outros espaços desta casa sempre que tiver boas provocações a trazer.

Sigo na vida cívica, nos meus canais institucionais e pessoais, por meio do Instituto Igarapé e das novas iniciativas, convencida de que, apesar das turbulências deste tempo, ainda é possível construir pontes e transformar conhecimento em ação. As perguntas evoluíram desde 2017. Minha disposição para buscar e construir as respostas – lado a lado com quem acredita no diálogo e na colaboração – continua a mesma.

Mulheres que me ensinaram a votar, Ruy Castro _FSP

 O blogueiro bolsonarista Paulo Figueiredo, condenado no Brasil por fraude financeira e foragido nos EUA, não saiu a seu avô, João Baptista de Figueiredo, o último feitor da ditadura (1979-85). A seu jeito cavalar, o velho Fig gostava das mulheres —até nomeou uma ministra. Já, para Paulo Figueiredo, elas não servem nem para votar. "Mulher vota mal pra c...", declarou. "Devia ser proibida de votar."

Paulo Figueiredo é cabo eleitoral de Flávio Bolsonaro. Antes de sua frase, o asco feminino por Flávio Bolsonaro já era de quase 60%. Agora, as 40% restantes vão pensar se ainda votarão nele, já que Paulo Figueiredo despreza o voto delas. Flávio Bolsonaro, assustado com o prejuízo, "repudiou" a fala de Paulo Figueiredo, mas não o demitiu do cargo de seu guru.

Paulo Figueiredo macaqueia um movimento da direita nos EUA que prega o fim do voto para as mulheres solteiras e, entre as casadas, que o voto fique a cargo do marido. Não por acaso, a rejeição a Trump entre elas é também de 65%. O que ele e os Bolsonaros têm que desperta tal repulsa feminina? Seja o que for, só contribui para aumentar minha admiração por mulheres que conheço ou conheci, que, nos últimos 60 anos, contribuíram para tornar os homens mais adultos e responsáveis e, posso garantir, melhores votantes. Algumas:

Fernanda Montenegro, Ana Maria Machado, Rosiska D’Arcy, Miriam Leitão, Lilia Schwarcz, Ana Maria Gonçalves, Heloisa Teixeira, Danuza Leão, Nara Leão, Clarice Lispector, Tonia Carrero, Elsie Lessa, Germana de Lamare, Tuca Magalhães, Thereza Cesario Alvim, Marina Colasanti, Marilia Kranz, Anna Letycia, Niomar Moniz Sodré, Aracy de Almeida, Odette Lara, Camila Amado, Vera Gertel, Itala Nandi, Rose Marie Muraro, Guguta Brandão, Ecila Grünewald, Zuzu Angel, Leila Diniz, Ana Maria Magalhães, Zezé Motta, Joyce Moreno, D. Ivone Lara, Isabel do vôlei.

Sim, faltam muitas. Aliás, faltam todas —todas as que encaram o mundo de frente, enxergam o próximo, respeitam-no e só querem de volta que ele também as enxergue e respeite.