quarta-feira, 8 de julho de 2026

Não há despedidas num mundo que dá voltas, Ilona Szabó de Carvalho -FSP

 Quando publiquei minha primeira coluna aqui, em dezembro de 2017, o mundo já vivia um período de mudanças aceleradas. Mas talvez não esperasse o grau de intensidade das transformações nos anos seguintes, quando definitivamente entramos numa era de crises sistêmicas e interconectadas.

Passamos por uma pandemia; guerras voltaram ao centro da geopolítica; a inteligência artificial deu um salto impressionante. Os eventos climáticos extremos, cada vez mais frequentes, fizeram a degradação ambiental deixar de ser tema de nicho e ocupar o centro das preocupações econômicas e políticas. Organizações criminosas se fortaleceram e se expandiram para além das fronteiras, e se conectaram ao ecossistema do crime ambiental.

Confluência de dois rios em meio a densa floresta tropical sob céu carregado de nuvens escuras, indicando tempestade iminente.
Vista aérea da localidade do Encruzo, que fica localizada no encontro dos rios Uaca e Curipi, na Terra Indígena Uaca, no Amapá - Lalo de Almeida - 12.ago.24/Folhapress

O Brasil também mudou. Em meio a uma montanha-russa de fatos políticos, vivemos um período de fechamento do espaço cívico. Sobrevivemos à mais séria ameaça à nossa democracia desde 1964 e caímos em sucessivas crises institucionais. Passamos por retrocessos e avanços na segurança pública; incentivamos e criamos instrumentos financeiros inovadores para impulsionar bioeconomias – e abraçamos a COP30 em Belém como estandarte do reposicionamento do país em temas internacionais.

Em um ambiente de tantas incertezas, tornou-se ainda mais difícil separar fatos de ruídos, urgências de prioridades. Mas nunca foi tão necessário.

Meus interesses acompanharam essa transformação. Permaneci fiel aos princípios que orientaram todas as minhas interações, mas meu olhar foi incorporando novas lentes.

Na semana passada, o Instituto Igarapé, do qual sou cofundadora, completou 15 anos de atuação do nível local ao global. Nosso foco, hoje, está na conexão entre as agendas de segurança, natureza e clima. Entendemos que ameaças como crime organizado, degradação ambiental e instabilidade climática não podem ser enfrentadas –e as soluções não podem ser construídas– isoladamente. É preciso trabalhar com todos os setores para enfrentar problemas que já não cabem em caixinhas separadas.

Nessa evolução, fomos além do trabalho tradicional de um think tank, e cofundei novas iniciativas voltadas à implementação. Uma delas é a Green Bridge Facility, que busca reduzir riscos territoriais para viabilizar investimentos responsáveis e empreendimentos sustentáveis no Brasil e em outros países da Bacia Amazônica. A outra é o Regenera BioLab, que ancora um corredor ecológico na Mata Atlântica para demonstrar, na prática, como conservação, restauração florestal, agroflorestas, turismo regenerativo e novas formas de financiamento da natureza podem caminhar juntos em um modelo capaz de transformar e inspirar outras regiões.

Este é meu último texto como colunista regular da Folha. Há momentos em que precisamos pausar, ouvir e repensar como melhor contribuir para um debate informado.

Encerro esse ciclo, do qual tenho muito orgulho, profundamente grata por ter mantido uma troca tão inspiradora por quase nove anos. Voltarei a outros espaços desta casa sempre que tiver boas provocações a trazer.

Sigo na vida cívica, nos meus canais institucionais e pessoais, por meio do Instituto Igarapé e das novas iniciativas, convencida de que, apesar das turbulências deste tempo, ainda é possível construir pontes e transformar conhecimento em ação. As perguntas evoluíram desde 2017. Minha disposição para buscar e construir as respostas – lado a lado com quem acredita no diálogo e na colaboração – continua a mesma.

Mulheres que me ensinaram a votar, Ruy Castro _FSP

 O blogueiro bolsonarista Paulo Figueiredo, condenado no Brasil por fraude financeira e foragido nos EUA, não saiu a seu avô, João Baptista de Figueiredo, o último feitor da ditadura (1979-85). A seu jeito cavalar, o velho Fig gostava das mulheres —até nomeou uma ministra. Já, para Paulo Figueiredo, elas não servem nem para votar. "Mulher vota mal pra c...", declarou. "Devia ser proibida de votar."

Paulo Figueiredo é cabo eleitoral de Flávio Bolsonaro. Antes de sua frase, o asco feminino por Flávio Bolsonaro já era de quase 60%. Agora, as 40% restantes vão pensar se ainda votarão nele, já que Paulo Figueiredo despreza o voto delas. Flávio Bolsonaro, assustado com o prejuízo, "repudiou" a fala de Paulo Figueiredo, mas não o demitiu do cargo de seu guru.

Paulo Figueiredo macaqueia um movimento da direita nos EUA que prega o fim do voto para as mulheres solteiras e, entre as casadas, que o voto fique a cargo do marido. Não por acaso, a rejeição a Trump entre elas é também de 65%. O que ele e os Bolsonaros têm que desperta tal repulsa feminina? Seja o que for, só contribui para aumentar minha admiração por mulheres que conheço ou conheci, que, nos últimos 60 anos, contribuíram para tornar os homens mais adultos e responsáveis e, posso garantir, melhores votantes. Algumas:

Fernanda Montenegro, Ana Maria Machado, Rosiska D’Arcy, Miriam Leitão, Lilia Schwarcz, Ana Maria Gonçalves, Heloisa Teixeira, Danuza Leão, Nara Leão, Clarice Lispector, Tonia Carrero, Elsie Lessa, Germana de Lamare, Tuca Magalhães, Thereza Cesario Alvim, Marina Colasanti, Marilia Kranz, Anna Letycia, Niomar Moniz Sodré, Aracy de Almeida, Odette Lara, Camila Amado, Vera Gertel, Itala Nandi, Rose Marie Muraro, Guguta Brandão, Ecila Grünewald, Zuzu Angel, Leila Diniz, Ana Maria Magalhães, Zezé Motta, Joyce Moreno, D. Ivone Lara, Isabel do vôlei.

Sim, faltam muitas. Aliás, faltam todas —todas as que encaram o mundo de frente, enxergam o próximo, respeitam-no e só querem de volta que ele também as enxergue e respeite.

Deirdre Nansen McCloskey - A evolução é imprevisível em detalhe- FSP

 Tanto a palavra inglesa "prediction" (predição) quanto o termo latino que lhe deu origem significam "dizer antes". A palavra portuguesa "previsão" é ainda mais vívida: significa "ver antes".

Quando a rainha Elizabeth 2ª visitou a Escola de Economia de Londres, após a crise de 2008, repreendeu os economistas: "Por que vocês não ‘previram’?". Ela imaginava a crise como uma colisão de carros. Se você conhece a posição e a velocidade dos carros, pode prever a colisão. Carros autônomos fazem isso.

Para conduzir o carro, você precisa de equações como y = 10 + 0,5x. Se você sabe que x é, digamos, 4, pode calcular y como 12. É uma entrada ("input") que prevê uma saída ("output"). Os computadores funcionam assim —são as "máquinas de Turing". Até a inteligência artificial não passa de uma máquina de entrada e saída. Mas há problemas.

Se a equação estiver errada, a previsão também estará. A colisão acontece. Não é questão banal.

Cientistas físicos e sociais buscam uma equação que esteja pelo menos aproximadamente correta.

Conceito de nota de 50 libras com a imagem de Alan Turing - Andrew Yates - 15.jul.19/Reuters


Mas alguns eventos físicos são extremamente sensíveis ao valor exato de x. Por isso a previsão do tempo jamais irá além de, digamos, duas semanas. Em eventos humanos, essa sensibilidade é maior. Pense como é difícil prever sua vida. A escolha de seu cônjuge dependeu de acasos minúsculos, que poderiam ter tido outro rumo.

PUBLICIDADE

Além disso, as previsões que a rainha esperava dos economistas não podem ser feitas. Se fosse possível, todos economistas poderiam ficar ricos como a rainha. Quer dizer que a ciência econômica deve acabar? Não. Quer dizer que muitas tentativas de formular políticas públicas são ruins.

Desde a década de 1920, os economistas são cada vez mais arrogantes sobre a condução do "carro" da economia. O comportamento econômico sempre se refere ao amanhã, mas conhecer as equações para essa condução é, muitas vezes, impossível. Explique então à rainha que os economistas não são previsores no sentido detalhado de entrada-saída que ela imaginava.

Qual é a função dos economistas, então? A principal —ética e científica— é a de historiadores. Nenhum biólogo evolucionista prevê a evolução, mas pode oferecer "pós-visões": a história dela, em detalhes.

É verdade que, se um grande meteoro atingir a Terra, os grandes dinossauros previsivelmente morrerão de fome. Da mesma forma, se um governo idiota duplicar a oferta de moeda, os preços inevitavelmente dobrarão. Esse tipo de previsão é possível, tanto para a evolução quanto para as economias. Mas é impossível prever que uma espécie de dinossauro —uma pequena, voadora, com bicos especializados em comer sementes e capaz de sobreviver por longos períodos— sobreviveria. São as aves. Da mesma forma, é impossível prever qual inovação terá sucesso. A "política industrial" é, portanto, uma loucura arrogante.

No entanto, ao estudar a história econômica, podemos conhecer as equações corretas, em detalhes. Os fatos já ocorreram. Podemos identificar em modo "pós-visão" as aves da economia. Podemos explicar, em retrospecto, por que a inovação do concreto armado, digamos, teve êxito.

Qual é a utilidade da história? Sabedoria. Especialmente sobre a imprevisibilidade.