Diante da atitude que normalmente se tem com os desamparados em geral, o esforço de expulsão das casas de repouso, chamadas tecnicamente de ILPIs (Instituições de Longa Permanência para Idosos), no bairro da Lapa, na zona oeste de São Paulo, não surpreende. Ele é um forte indicador de uma sociedade doente que perdeu a capacidade de se solidarizar com os mais frágeis em nome de questões mercantis como a desvalorização imobiliária ou da perturbação estética.
O que define esse jogo cruel é o dinheiro e o etarismo. Os argumentos para excluir os mais velhos do bairro, onde se concentram residências de alto padrão, são mesquinhos. É o mesmo que acontece com os albergues de moradores de rua de lugares como Cambuci ou Pinheiros, rejeitados pela vizinhança local por revelarem uma realidade que ninguém quer ver.
Os idosos não fazem barulho, embora alguns vizinhos próximos reclamem de gritos eventuais, são praticamente invisíveis e nem saem às ruas. Estão apenas vivendo seus últimos anos de vida reclusos, silenciosos e, em geral, tristes. Estão à espera da morte, e alguns moradores se incomodam com os carros funerários que vêm buscá-los na chegada desse dia.
Uma minoria ruidosa se manifestou abertamente reclamando desses carros que frequentam a região, conhecida como City Lapa, e dizendo que os idosos podem perfeitamente procurar outro lugar para viver. Há, porém, uma maioria silenciosa que ocupa a vizinhança e se divide diante da situação. É preciso dizer que nem todo mundo despreza os mais velhos.
As diversas associações de bairro que atuam na região, por exemplo, têm posições diferentes sobre a cassação empreendida pela prefeitura dos alvarás de funcionamento de todas as 40 ILPIs que existem no City Lapa. Seis deles, na rua Tomé de Souza, já foram cassados, mas há ações na justiça para reverter a situação.
Os moradores etaristas argumentam que a instalação de casas de repouso no bairro descumpre a lei de zoneamento, que classificou a região como "estritamente residencial". A questão é que a maioria das ILPIs do City Lapa funciona exatamente dessa forma, como moradia coletiva, e não oferece serviços médicos, por exemplo, o que as deixaria dentro das regras. São simplesmente casas onde moram vários idosos, portanto residências. Seus proprietários alegam que receberam autorização da prefeitura para instalar seus estabelecimentos.
Segundo reportagem da Folha, a prefeitura diz que atua dentro da legalidade e argumenta que as ILPIs foram licenciadas na categoria "serviço público social de pequeno porte", o que as obrigaria a firmar convênios com o poder público para se manter funcionando. A prefeitura diz também que o serviço de hospedagem tem sido particular e que as ILPIs estão atuando de maneira irregular ao exercer uma atividade comercial não permitida pelo zoneamento do bairro. Seria o caso, porém, de fazer uma abordagem mais seletiva e de se preocupar com o destino dos idosos.
Outros bairros aprazíveis da cidade, como Perdizes, Pacaembu ou Alto de Pinheiros, também abrigam diversas casas de repouso, e nem por isso há um movimento de expulsão. O poder público oferece pouquíssimas opções de abrigo para o pessoal da terceira idade. A iniciativa privada acaba ocupando esse precioso espaço. Frequentemente cobra caro por isso, mas presta um serviço essencial.
Nessa história do City Lapa, o problema maior é a falta de empatia. Quem reclama das casas de repouso pode num futuro não tão distante assim terminar amparado em uma delas. Fico pensando que todos vão envelhecer e, se for o caso de serem levados para um estabelecimento desse tipo, preferirão ficar em um lugar tranquilo e mais próximo de suas famílias. Mas a reação de algumas pessoas reforça o estigma de que os idosos são um estorvo, incomodando os mais jovens por sua mera existência. Nada justifica tanta raiva, como a demonstrada por alguns moradores, contra eles.




