quinta-feira, 4 de junho de 2026

Enchentes já aparecem como principal problema ambiental nas dez maiores capitais, Jorge Abrahão ,FSP

 Uma pesquisa divulgada na última terça-feira pelo Instituto Cidades Sustentáveis e pela Ipsos-Ipec mostra uma mudança importante na percepção das pessoas sobre clima e meio ambiente, na comparação com o mesmo levantamento realizado no ano passado. Enchentes e alagamentos já são apontados como o principal problema ambiental pela população de cinco das dez capitais onde o trabalho foi feito. Considerando o total da amostra, a poluição do ar caiu para a segunda posição. Hoje, aparece em primeiro lugar apenas na cidade de São Paulo.

Ainda é cedo para afirmar que existe um maior nível de entendimento da sociedade sobre as mudanças do clima, mas é fato que as pessoas estão cada vez mais atentas –e preocupadas– com as consequências de eventos climáticos severos. Enchentes e alagamentos são cada vez mais fortes e frequentes, e geram impacto na vida das pessoas. Todo mundo sente na pele. Uns mais que outros, mas o impacto é geral. Todos são afetados.

Três pessoas em barco de resgate navegam por rua inundada. Edifícios e placas comerciais visíveis ao fundo em dia nublado.
Forças de segurança atuam no patrulhamento em Canoas, cidade alagada pelas enchentes no Rio Grande do Sul em 2024 - Pedro Ladeira - 16.mai.24/Folhapress

Para muitos, as questões relacionadas ao meio ambiente ainda são consideradas algo secundário, um problema distante, um assunto para ser resolvido pelas próximas gerações. Mas não é. Há décadas a ciência nos alerta para a importância de reduzirmos as emissões de carbono para evitarmos, ou mitigarmos, problemas que já se manifestam há anos e causam grandes estragos. Perdem-se vidas, casas, perde-se tudo. Não perdemos apenas horas no trânsito. E cada vez mais gente sabe disso.

Outra pergunta da pesquisa ajuda a reforçar a ideia de que talvez estejamos num momento de inflexão sobre o assunto. O calor excessivo aparece em primeiro lugar quando as pessoas são questionadas sobre os principais impactos das mudanças climáticas, com 33% das menções, seguido pela poluição do ar (22%). O mais curioso e menos esperado está no terceiro lugar: o aumento do preço dos alimentos, com 15% das respostas.

Isso mostra que uma parte importante dos entrevistados já começa a fazer relações que não são tão óbvias quanto o assunto sugere. Chegar a esta conclusão exige a compreensão de um ciclo logístico que envolve parte significativa da cadeia produtiva da agroindústria. Pode ser evidente para alguns, mas está longe do entendimento comum da maioria das pessoas. Em outras palavras, significa que uma parcela da população percebe o impacto econômico das mudanças do clima. Um impacto que afeta o próprio bolso.

O terceiro destaque da pesquisa vai para as ações que os governos devem adotar para enfrentar os problemas ambientais. O controle do desmatamento e da ocupação das áreas de manancial aparece na primeira posição; ampliar as áreas de preservação ambiental, em segundo; reduzir a utilização de combustíveis fósseis, em terceiro.

A diferença percentual entre as respostas é pequena, mas o desafio é enorme, porque nenhuma dessas ações deve ser encarada de forma isolada. Ao contrário, a saída está justamente na adoção conjunta de uma série de medidas que envolvem os três níveis de governo. Essa é a única forma de dar a devida prioridade a um tema tão importante para a vida das pessoas. Um tema que a própria população começa a perceber que não se trata de algo isolado, local ou sazonal.

No caso das enchentes, o problema é estrutural, histórico e cumulativo nos grandes centros urbanos. Os alagamentos recorrentes resultam de um modelo de urbanização que ignora a dinâmica natural dos rios, privilegia a impermeabilização do solo e subestima a importância da drenagem urbana, dos parques e arborização das ruas e da adaptação climática. Trata-se de um problema que exige mudanças profundas no planejamento urbano, na governança e na priorização dos investimentos públicos. Nestes casos, a responsabilidade é sobretudo dos governos municipais e estaduais.

Uma visão mais abrangente para a saída da crise climática foi dada pela ex-ministra do Meio Ambiente Marina Silva, que participou do evento de lançamento da pesquisa de forma remota. Ela defendeu a criação de um marco regulatório e a formação de uma governança composta por um comitê técnico, um conselho nacional e uma autoridade climática. E que isso se traduza de forma concreta na implementação e acompanhamento das ações para fortalecer a agenda do clima nas cidades, bem como em mudanças nos planos diretores municipais, com foco em prevenção.

Hoje, mais de 1.900 municípios brasileiros são vulneráveis do ponto de vista climático, boa parte deles no estado de São Paulo. O assunto pede urgência faz tempo e o problema vai muito além dos transtornos causados por enchentes numa tarde de verão. O tempo não está a nosso favor, é verdade, mas a opinião da população é o melhor caminho para influenciar a tomada de decisão na esfera pública.

Asfaltar ruas ainda dá muita visibilidade para os políticos na época das eleições, mas avenidas alagadas também podem tirar votos importantes. A maior conscientização em relação aos impactos ambientais, como mostra a pesquisa, pode provocar uma mudança de prioridades e investimentos serem direcionados para problemas estruturantes, antecipando-se aos impactos provocados pela mudança climática.

Melhor momento para emigrar para Portugal pode estar prestes a chegar, Rodrigo Tavares, FSP

 Depois da crise financeira de 2008, o Bank of America estava sob enorme pressão, com receios sobre perdas hipotecárias, capital, litígios e solvência. Muitos investidores venderam ações às pressas, tomados pelo pânico. Porém, em 2011, a Berkshire Hathaway de Warren Buffett decidiu investir US$ 5 bilhões. A tese era que o banco tinha problemas graves, mas também uma franquia bancária enorme, depósitos, escala e capacidade de normalizar resultados ao longo do tempo. Não faltam exemplos do que é conhecido no mercado como "contrarian investing", uma estratégia de investimento que procura oportunidades de lucro em operações que vão contra o sentimento predominante. Acredita-se que o preço pode cair mais depressa do que o valor.

Nas últimas semanas, em tom de alarme, as mídias portuguesa e brasileira têm difundido a ideia de que os brasileiros estão deixando Portugal em massa, como hebreus fugindo das pragas do Egito. São reportagens baseadas em consultas a associações de imigrantes e entidades trabalhistas. Nem mesmo o ecossistema de inovação e startups, que ajudou a transformar Lisboa num polo de atração para dezenas de milhares de estrangeiros qualificados, parece imune. As gigantes da tecnologia estão demitindo em massa, comprimidas por reestruturações globais e pela substituição de funções por inteligência artificial. A gigante Cloudflare, que escolheu Lisboa para instalar o escritório europeu, anunciou recentemente o corte de cerca de 20% da sua força de trabalho global.

Casas brancas com telhados vermelhos se espalham por colina sob céu azul claro. Ao fundo, destaca-se uma igreja com duas torres e uma cúpula.
Miradouro na região de Alfama, em Lisboa - Rafael Carvalho/Folhapress

Também não seria surpreendente que Portugal começasse a perder algum fôlego como destino turístico. Há um limite para a capacidade de atração de qualquer país, sobretudo quando a oferta não se renova, os preços sobem e a experiência se degrada. Certas zonas de Lisboa são condomínios fechados para visitantes –milhares de turistas visitando outros turistas em bairros cenográficos feitos para turistas. Sim, o setor turístico português continua forte, mas deixou de poder contar apenas com a inércia da sua própria reputação.

Ao longo da última década e meia, o crescimento expressivo de estrangeiros (imigrantes e turistas) agravou a pressão sobre serviços públicos que já eram frágeis. Educação, saúde, habitação, transportes e administração pública tiveram de suportar uma tonelagem demográfica muito maior sem que o Estado investisse, na mesma proporção, no reforço dos alicerces. Os resultados não são positivos. Hoje, o tempo de espera por uma consulta mede-se em meses no privado e em anos no público. O preço proibitivo da habitação empurrou a classe média para os bairros esquecidos da periferia e os pobres de quem ninguém se lembra para novas favelas. O aeroporto de Lisboa, se eu for comedido com as palavras, é uma vergonha nacional. O novo, se eu for otimista no léxico, só estará pronto quando os meus futuros netos forem avós. Em 2022, na Folha, alertei para a tempestade que se formava. A extrema direita agradece o presente eleitoral, servido no prato da insatisfação.

Mas o crescimento da imigração e do turismo também deixou ganhos materiais. Muitas cidades portuguesas renovaram milhares de edifícios e inverteram a tendência de abandono dos centros urbanos, há uma genuína sofisticação da hotelaria e da restauração, criaram-se padrões de serviço mais exigentes e inauguraram-se equipamentos culturais de qualidade. Na minha Lisboa ruralizada dos anos 80 e 90, comer uma pizza margherita ou um arroz chau chau era uma extravagância cosmopolita. Ainda virávamos orgulhosos a cabeça quando ouvíamos alguém falar inglês na rua. Os hotéis de luxo contavam-se pelos dedos de meia mão e havia quem vinha da província para afundar os sapatos na alcatifa escarlate do Altis, do Ritz e do Tivoli como quem visitava uma sucursal do Primeiro Mundo. Sim, só na última década é que a capital portuguesa se tornou uma capital europeia.

A saída de estrangeiros, se ocorrer em escala relevante, será um abalo econômico. Os imigrantes são essenciais para o funcionamento cotidiano e operacional das maiores cidades e do campo. Se começarem a sair, o país enfrentará uma perda de competências técnicas, capacidade laboral, energia social, empreendedorismo, receitas fiscais e qualidade de serviços, precisamente num momento em que a população portuguesa grisalha a um ritmo assustador e a base laboral do país mingua. Mas, como em todas as crises, haverá também quem encontre algo que reluza nos escombros. Quem ficar, ou quem chegar depois, poderá encontrar casas menos inflacionadas, equipamentos subutilizados e uma infraestrutura urbana montada para uma demanda que encolheu. Portugal passará da saturação ao reaproveitamento.

Se Warren Buffett analisasse Portugal como destino de imigração, talvez o visse como um ativo de qualidade negociado ainda a múltiplos excessivos. O país mantém bons fundamentos, segurança, clima, infraestrutura urbana renovada e qualidade de vida, mas enfrenta sobrevalorização imobiliária, saturação de serviços e pressão social. Portugal parece hoje um ativo mal precificado pelo excesso de euforia. Mas depois da correção, poderá tornar-se uma solução atrativa. No fim, alguns novos imigrantes talvez encontrem a melhor oportunidade em Portugal justamente porque muitos outros tiveram de ir embora. Até que o ciclo se repita.

Nossos ingratos amigos, Ruy Castro - FSP

 Marco Rubio, secretário de Estado americano, afirmou que o Brasil não faz parte da lista de "amigos dos EUA". Disse isso e continuou no emprego. Seu cargo exige tato diplomático e conhecimento de história, coisas que não se compram nas drugstores de Miami. Mas Rubio é um ministro de Donald Trump —só existe porque existe Trump. Se não fosse uma alimária, saberia que, em qualquer época, nenhum outro país foi tão amigo dos EUA.

Começou pela viagem do ex-presidente Theodore Roosevelt à Amazônia, em 1913. Escoltado pelo general Rondon, Roosevelt passou sete meses na floresta fazendo mapeamento estratégico, cartografando rios e coletando um mundo de plantas e animais para seus museus e instituições. Pegou diarreia, malária, infecções e quase levou a breca, mas voltou com um conhecimento dos recursos do Brasil de que até então ninguém por lá suspeitava.

Os americanos logo souberam que não éramos uma república de bananas. Um empreendedor chamado Percival Farquhar veio para cá no começo do século 20 e, pelos 30 anos seguintes, tomou nossos setores de energia elétrica, navegação, extração de minério, criação de gado, abertura de estradas e, por causa destas, derrubou milhões de acres de floresta nativa para explorar madeira. Aliás, o minério e a energia elétrica foram dois setores que os americanos levaram décadas para nos devolver. Era ou não era ser amigo dos EUA?

Minha geração foi tão amiga dos EUA que aprendemos tudo sobre Flecha Ligeira e nada sobre Arariboia. Apaixonamo-nos por Chaplin, Louis Armstrong, Duke Ellington, Bing Crosby, Fred Astaire, Billie Holiday, Ella Fitzgerald, os Irmãos Marx, Glenn Miller, Frank Sinatra, Humphrey Bogart, Ava Gardner, Marilyn Monroe, Doris Day, Gene Kelly, Hemingway, Faulkner, Fitzgerald, Dizzy Gillespie, Thelonious Monk etc. etc. etc. até Woody Allen.

Somos um país de jeans, tênis e boné ao contrário, comendo cheeseburger. Na verdade, de tanto amor pelos EUA, tudo que queremos é ser americanos. Flávio Bolsonaro, amigo do Rubio, já conseguiu.