terça-feira, 2 de junho de 2026

Alexandre Schneider - A fábrica de diplomas que forma quem ensina o Brasil, FSP

 Alexandre Schneider

Professor e pesquisador da FGV, foi secretário municipal da Educação de São Paulo e secretário estadual de Pernambuco

Decide-se agora, longe dos holofotes, uma das questões mais consequentes da educação brasileira: como será formado o professor que estará diante das crianças e jovens brasileiros. Tramita no CNE (Conselho Nacional de Educação) a regra que define quanto de uma licenciatura precisa ser presencial, e a disputa é dura: o próprio MEC (Ministério da Educação) chegou a propor rebaixar a exigência. Não é disputa de carga horária, e sim de autorizar, sob novo rótulo, um modelo que expandiu diplomas mais rápido do que garantiu qualidade.

A estreia do novo Enade (Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes) voltado à formação de professores desnudou o que os secretários de Educação vêm sentindo há anos: a precarização das licenciaturas. Entre os concluintes de cursos presenciais, 73,9% alcançaram proficiência; entre os de cursos a distância, menos da metade. Quase 9 em cada 10 vagas de licenciatura são a distância, segundo o Censo de 2024. Em uma década, o presencial virou exceção, e é o modelo dominante que vai pior na prova.

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Espaço de trabalho de aluna de educação a distância em São Paulo - Jardiel Carvalho - 22.fev.24/Folhapress

O mesmo exame ganhou uma segunda função: virou a Prova Nacional Docente, que estados e municípios podem usar para selecionar professores. Na primeira edição, o MEC declarou cerca de 500 mil pessoas aptas a lecionar e tratou o número como conquista. Convém olhar a régua antes de comemorar. O piso para ser "apto" é o que o próprio Inep chama de competências básicas, e "básicas" não é força de expressão: boa parte do que a prova cobra é conhecimento geral, não o saber especializado que a boa formação constrói. Uma prova que o MEC diz não ser certificação vira, na prática, o crivo das prefeituras para contratar. Mede pouco e decide muito.

A favor da EaD há um argumento legítimo: levou graduação a quem não teria acesso de outro modo. Mas o problema não é quem estudou a distância, muitas vezes a única opção que teve. É o curso que lhe vendeu menos do que prometeu. Um diploma que não forma não é inclusão, é vender gato por lebre com carimbo público, e a conta é paga pelo aluno da escola pública, que recebe um professor mal preparado.

Convém entender como a presencialidade quase caiu. Em maio de 2024, o CNE exigiu que metade da carga horária da licenciatura fosse presencial. Em 2025, um decreto federal vedou a licenciatura totalmente a distância, mas criou um formato "semipresencial" com piso de apenas 30%.

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As duas regras colidiram, e ao reescrevê-las o próprio MEC, que vinha apertando o cerco contra a EaD, propôs baixar a exigência de 50% para 40%. Sob pressão de secretários estaduais e municipais, a versão que voltou à mesa preserva os 50%. Mas a decisão ainda tramita, e a pressão para afrouxá-la não desapareceu. É fundamental que CNE e MEC resistam e adotem ao menos quatro medidas.

Primeiro: vincular reconhecimento e renovação de curso ao desempenho no Enade, com fechamento dos cursos nas faixas mais baixas que não melhorarem em duas edições. Avaliação sem consequência regulatória é diagnóstico que ninguém trata.

Segundo: elevar a régua. O exame que reprova a EaD e habilita meio milhão de docentes precisa exigir mais do que o básico, medindo o domínio do conteúdo a ensinar e o saber pedagógico, não conhecimento genérico.

Terceiro: blindar a presencialidade onde ela mais forma, no estágio supervisionado e no contato com os saberes da docência, com tempo mínimo dentro de escolas e convênios formais entre faculdade e rede.

Quarto: financiar a transição, não só proibir. Bolsas, financiamento estudantil e renúncias fiscais já existentes devem ser condicionados à qualidade da formação, não ao volume de matrículas.

O Brasil decidiu, com razão, medir a formação de quem ensina. O passo seguinte é mais difícil: agir sobre cursos, mantenedoras e diplomas, não sobre planilhas. Aceitar a precarização da formação de professores custa caro ao país. A conta chega depois, na aprendizagem que não veio, e não há decreto que a estorne.

Bernardo Guimarães - O Pix é eficiente; o cartão é um parasita, FSP

 Você paga R$ 100 no cartão de crédito e o vendedor recebe R$ 97. Você paga R$ 100 no Pix e o vendedor recebe R$ 100. Parece muito melhor, mas quem arca com o custo de processar a transação?

O Pix foi desenvolvido pelo Banco Central do Brasil, é oferecido gratuitamente como meio de pagamento e o custo de processamento de cada transação para o Banco Central é inferior a R$ 0,01.

O Pix é, portanto, um meio de pagamento extremamente eficiente. Como cartões de crédito, ineficientes e caros, sobrevivem cobrando taxas tão altas?

Quando uso o cartão de crédito, o dinheiro sai da minha conta no mês seguinte. No Pix, o dinheiro sai na hora. Se o preço é o mesmo, eu ganho um pouco com os juros, vale a pena.

Por que o preço é o mesmo? É caro vender no cartão de crédito, então faria sentido para o vendedor cobrar mais por isso, não?

Até bem pouco tempo atrás, uns dez anos, vendedores eram proibidos de cobrar mais pela venda no cartão de crédito. Clientes usavam o cartão para pagar depois e ganhar uns juros com isso, lojistas aceitavam para não perder vendas e, assim, pagavam um pedágio para as administradoras de cartão de crédito.

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Isso mudou com uma medida provisória de dezembro de 2016, que virou lei em 2017. Agora, lojas podem cobrar preços diferentes para meios de pagamentos diferentes desde que os valores estejam claros para o consumidor.

Lula na inauguração do Instituto Federal Goiano em Catalão - Ricardo Stuckert - 2.jun26/PR

O problema é que, na prática, isso é difícil. O pacote de figurinhas custa R$ 7. O vendedor pode cobrar R$ 7,30 no crédito? Vão reclamar, chamar o Procon, boicotar o estabelecimento? Melhor não arriscar. E cobrar R$ 6,75 no Pix comprime a margem, que é pequena. A dor de arcar com a taxa do cartão de crédito vem do desejo de não sentir a dor de contrariar expectativas de clientes.

Restaurantes também não querem colocar no menu dois preços. É chato, confunde. E a diferença seria só de 3%. Para que chatear os consumidores com isso?

Assim, apesar de muito mais caros e ineficientes que o Pix, cartões de crédito continuam sobrevivendo, como parasitas.

Aproveitando a necessidade de transparência, a vontade de não chatear o cliente com taxas de 3% e a cumplicidade involuntária dos Procons, cartões de crédito cobram altas taxas e recompensam clientes com pontinhos e uns trocos com juros.

Instituições financeiras privadas arcam com alguns dos custos das transações por Pix (custos que incluem integração da infraestrutura tecnológica e medidas para prevenir fraudes) e não cobram pelo Pix. Podem, porém, cobrar por seus serviços de outras maneiras —um banco pode, por exemplo, cobrar uma taxa mensal de seus correntistas.

Isso é comum. Leis estabelecem várias restrições ao que pode ser cobrado. Por exemplo, escolas precisam contratar pessoas para acompanhar estudantes com necessidades especiais e são proibidas de cobrar uma taxa extra dos pais por isso. Perto disso, o custo do Pix para as instituições é ínfimo.

Não há, portanto, motivo razoável para o governo de Trump reclamar sobre o Pix. Nós temos motivos para maldizer —e, infelizmente, continuar usando— os cartões de crédito.

A oposição à nota do governo dos Estados Unidos incluindo o Pix no rol de razões para tarifas comerciais deveria unir todos os campos políticos.