quinta-feira, 13 de agosto de 2026

Transformar a Justiça contra a magistocracia -Conrado Hübner Mendes - FSP

 A Folha abriu série de seminários para discutir o sistema de Justiça brasileiro. Contribui para a reivindicação social por Estado de Direito íntegro e competente, imparcial e diverso, transparente e corajoso. Uma mudança tanto no hardware quanto no software institucional, tanto na mentalidade quanto no comportamento de juristas e servidores.

Desde a Constituição de 1988 e da Emenda 45, de 2004, a chamada "reforma do Judiciário", não temos tanta mobilização de fora contra a resistência conservadora de dentro, aquela que se reúne para jantar em encontros privados dentro e fora do país.

O presidente do STF, ministro Edson Fachin, durante seminário no auditório da Folha - Eduardo Knapp - 10.ago.26/Folhapress

Edson Fachin abriu com sua ousadia verbal. Disse que a "confiança, advém menos do que se diz, mais do que se faz", do valor não só da "legitimidade de entrada, mas da legitimidade da caminhada". Lembrou que o Judiciário precisa de "uso adequado do tempo e do espaço público", "resistência a conflito de interesses", "disposição a prestar contas" pois "integridade não é só questão de compliance".

Que "nenhuma instituição deve ser imune a controle externo" e "aparência de imparcialidade não é só estética", que devem "prestar contas de seus critérios decisórios e de gestão administrativa". E vislumbrou "oportunidade histórica de aperfeiçoamento republicano".

A tarefa de traduzir ousadia verbal em mudança real vai depender da maturidade e persistência desse movimento no qual a Folha se inscreve.

O desafio é produzir diagnóstico abrangente, empiricamente informado, teoricamente fundamentado. A partir daí, remédios coerentes. Essa não pode ser uma discussão entre juízes, muito menos entre magistocratas, mas da sociedade. Nem se deve cair na armadilha de esperar a "hora certa", ou de pensar que a mudança se reduz a um ato legislativo isolado. Não há janela cor-de-rosa prestes a se abrir na história.

Sugiro dez coordenadas para orientar esse processo. O Judiciário deve ser (1) mais forte para enfrentar o poder econômico e político num país programado para a desigualdade. Não basta ser contra-majoritário, é preciso ser contra-magistocrático.

Deve ser (2) mais rico em infraestrutura para levar a lei e o estado aos rincões do país, não ter juízes mais ricos por meio de supersalários e locupletamento ilícito. Deve ser (3) mais diverso e representativo da pluralidade social; (4) mais acessível segundo noções substantivas de acesso à Justiça; (5) mais controlado e independente, pois independência real depende de controle, incentiva imparcialidade e reduz lobby e captura.

Também (6) mais rápido e eficiente, sem confundir direito de defesa com direito a recurso infinito e a chicana advocatícia ou judicial; (7) mais jurisdicional, menos negocial; (8) mais jurisprudencial, menos casuístico, produtor de segurança jurídica, não de incerteza absoluta; (9) mais corajoso em funções humanitárias, como proteger direitos de vulneráveis, controlar a polícia, minimizar encarceramento, quebrar a cadeia reprodutora do crime organizado.

A mudança deve ser (10) não de baixo para cima, mas sobretudo de cima para baixo. Aplica-se pois não só ao juiz ou promotor de primeira instância, mas antes às instâncias superiores.

Não será numa canetada. Construir sistema de Justiça menos magistocrático depende de compromisso geracional.

A pirâmide virou pião, Ruy Castro _FSP

 O Brasil, quem diria, ficou de cabeça para baixo. "A pirâmide virou um pião", afirmou na semana passada, em conferência na Academia Brasileira de Letras, a pneumologista Margareth Dalcolmo. Referia-se à diferença entre 1970, quando éramos uma sociedade com alta taxa de nascimento, com expectativa de vida de 54 anos, e hoje, "em que deixamos de ser uma sociedade jovem para uma envelhecida, com expectativa de vida de 78 anos".


"Esse aumento", disse dra. Margareth, "se deveu a intervenções sanitárias, como vacinação em massa, sobretudo na primeira infância, saneamento básico, ainda que desigual, expansão do SUS (Sistema Único de Saúde) e avanços na medicina, mesmo em regiões remotas. Nas próximas duas décadas, seremos mais idosos acima de 60 anos do que jovens menores de 15".

A dúvida é se estaremos equipados para essa nova situação. Segundo o gerontólogo Alexandre Kalache, citado por ela, países desenvolvidos como o Japão e os europeus primeiro enriqueceram para depois envelhecer, e o Brasil envelhece marcado pela pobreza. "Ser velho e pobre no Brasil é o mais triste destino", disse dra. Margareth. "Numa sociedade tão excludente como a nossa, o velho e pobre se torna um fardo para a família, ainda que, com frequência, se veja o triste paradoxo de uma modesta pensão ou aposentadoria desse idoso ser a fonte de renda primordial para aquele núcleo familiar."

Dra. Margareth continuou: "Num país 90% urbanizado como o Brasil, o cenário urbano é hostil para as pessoas mais velhas. Precisamos de reformas públicas, de exercer grande pressão sobre os transportes, as cidades e as moradias, para adaptá-los a elas. Envelhecer em boas condições permite o acesso a cuidados de toda ordem, e até prazeres, que seguramente adoçam a perda de autonomia".

E concluiu: "A vida não precisa ser só exaustão e urgência —é travessia. É habitar o tempo com serenidade, justiça e autonomia. Como diz o acadêmico Ailton Krenak, ‘se não aprendermos a pisar suavemente na terra, o céu cai sobre a nossa cabeça’".

Alexandria Ocasio-Cortez decide congelar óvulos enquanto hesita sobre candidatura à Presidência, FSP

 "Ela vai ou não vai?" é uma pergunta que consome Washington. Uma nova pesquisa no estado de New Hampshire, terceiro no calendário de eleições primárias da campanha de 2028, colocou Alexandria Ocasio-Cortez no topo entre potenciais candidatos democratas a presidente.

Aos 36 anos, a deputada nova-iorquina do bairro do Bronx, que só perde para o senador Bernie Sanders em popularidade nacional entre os eleitores de esquerda, ultrapassou a barreira de idade mínima —35— para se candidatar à Presidência.

A deputada democrata Alexandria Ocasio-Cortez durante manifestação no Capitólio - Alex Wroblewski - 22.jan.26/AFP

Portanto, quando a deputada conhecida como AOC gravou o primeiro de uma série de anúncios, no domingo (9), a caminho de uma entrevista para um programa político, qual não foi a surpresa de seus 9,6 milhões de seguidores no Instagram quando ela entrou no estúdio da rede ABC, colocou uma bolsa térmica na mesa ainda não ocupada pelo âncora e retirou vários itens médicos.

Em seguida, ela levantou a blusa e começou a se injetar hormônios, explicando que estava no segundo dia do processo que espera levar à produção de óvulos para serem congelados.

Na publicação, AOC lembrou que, há apenas oito anos, estava trabalhando como garçonete e precisou economizar para iniciar todo o processo —não bancado pelo seguro de saúde— que pode levar a uma futura gravidez. A deputada informou que vai gastar inicialmente US$ 9.000 (R$ 46,4 mil) e mais US$ 1.200 (R$ 6,2 mil) em aluguel anual ao banco de óvulos congelados.

A imprensa política da capital, que, às vezes, mal se distingue da mídia de fofocas, começou a caçada febril para confirmar se AOC terminou o noivado que anunciou em 2022 com Riley Roberts, um taciturno desenvolvedor de websites. Eles se conheceram e começaram a namorar na faculdade há 17 anos. Primeira dica para os Sherlocks: a noiva não usa o anel que ganhou do pretendido há mais de dois anos.

À repórter de um tabloide que a seguiu na rua em Nova York, AOC respondeu apenas: "Não comento sobre a minha vida pessoal". Espera aí, o que é mais pessoal do que gravar um vídeo aplicando hormônios na região abdominal? Deixo a discussão sobre a fronteira do pessoal e do político para outra ocasião.

Mas a série de vídeos explicativos, que AOC continua a postar sobre o tratamento, depois de provocar o previsível ataque de nervos entre trolls habituais, está sendo elogiada como um exemplo de clareza didática sobre o desafio solitário enfrentado por tantas mulheres, com ou sem companheiros.

No domingo, AOC disse ao entrevistador da ABC apenas que o foco no momento é se reeleger deputada em novembro, mas não eliminou a chance de uma candidatura a presidente, em 2028, ou uma corrida para despachar Chuck Schumer, o geriátrico líder democrata no Senado, no mesmo ano.

No momento, ela passa parte do tempo desmontando propaganda que iguala social-democracia a comunismo e explicando que é afiliada apenas ao agrupamento nova-iorquino da organização Democratic Socialists of America —mas não é endossada pela ala nacional, que a rejeitou, entre outros motivos, por não ser contra Israel o bastante.

Observando a evolução da jovem cuja vitória estremeceu o establishment do Partido Democrata em 2018, arrisco apostar que o apetite legislativo de AOC, especialmente em saúde e ambiente, vai aproximá-la de uma corrida ao Senado, uma plataforma inicial melhor para saltar para a Casa Branca e mais estável para contemplar a maternidade.