quarta-feira, 8 de julho de 2026

O governo divulgou as profissões mais bem pagas do país, The News

 

Pela primeira vez, a Receita Federal abriu ao público um painel com dados consolidados do Imposto de Renda, permitindo comparar patrimônio e renda por profissão.

De acordo com os dados, os titulares de cartório declararam o maior patrimônio médio do país, de R$ 3,3 milhões. Logo atrás, vêm membros do Poder Judiciário e do Ministério Público, ambos com cerca de R$ 2,9 milhões em bens declarados.

  • O patrimônio dos magistrados é quase o dobro do declarado por médicos e o triplo dos advogados — mesmo sendo profissões de formação equivalente e com alta remuneração no mercado privado.

(Imagem: Migalhas | Receita Federal)

A Receita recebeu +44 milhões de declarações de Imposto de Renda referentes a 2025 — o maior número já registrado. Eram obrigados a declarar qualquer pessoa que teve rendimentos tributáveis acima de R$ 35.584.

Para se ter uma ideia, a renda média anual de quem declarou o IR em 2026 foi de R$ 130,5 mil. Um magistrado ou membro do Ministério Público recebeu, em média, 19 vezes esse valor.

Zoom out: Apenas com impostos, o governo arrecadou R$ 2,1 trilhões neste ano. Ainda assim, a projeção oficial do governo é de um déficit primário de R$ 60,3 bilhões, já que as despesas seguem crescendo mais rápido que a receita.

Infraestrutura: desigualdade na arte e na vida, Mauricio Portugal Ribeiro, FSP

 As figuras dos "Retirantes", de Cândido Portinari, caminham sob um céu seco, com corpos ossudos, olhos vazios e crianças inertes nos braços. Não há heroísmo, apenas resistência. Em "Vidas Secas", de Graciliano Ramos, Fabiano, Sinhá Vitória e os meninos repetem a mesma marcha: não se deslocam em busca de fortuna, mas para fugir da falta de água, de trabalho, de comida, de Estado. Em ambos, a desigualdade aparece não como abstração estatística, mas como privação material e destino imposto.

Essas obras são manifestos contra a desigualdade em geral e, particularmente, contra a desigualdade brasileira. O país que Portinari pintou era um país em que menos da metade da população sabia ler e escrever, apenas 31,3% viviam em áreas urbanas e a expectativa de vida ao nascer era em torno de 45 anos. Era um Brasil em que a precariedade dos serviços básicos condenava milhões à imobilidade social antes mesmo de qualquer esforço individual.

Obra "Os Retirantes", de Cândido Portinari - Reprodução

Naquele Brasil dos anos 1940, a desigualdade tinha endereço físico: o lugar onde não havia trilho, estrada, rede de água, posto de saúde ou escola. A infraestrutura —ou a sua ausência— desenhava o mapa da pobreza com a mesma nitidez com que Portinari desenhava seus retirantes. E é justamente porque essa geografia da privação persiste, ainda que mais discreta, que vale comparar o país de então com o de agora.

O Brasil mudou muito, mas não o suficiente. Hoje, a alfabetização chegou a cerca de 93% e a expectativa de vida a 76,6 anos. Ainda assim, o país segue entre os mais desiguais: o Gini estava em 0,518 na Pnad/IBGE de 2023 (51,6 na escala do Banco Mundial, que multiplica o índice por 100), e o World Inequality Report 2026 indica que o topo de 10% apropria cerca de 60% da renda nacional. No mundo, a concentração também segue brutal: os 10% mais ricos ficam com 53% da renda global, enquanto a metade mais pobre fica com apenas 8%.

A desigualdade também se mede pela chance de escapar dela. Segundo a OCDE, no Brasil são necessárias nove gerações para que a família de alguém nascido entre os 10% mais pobres alcance a renda média do país —nos países nórdicos, essa travessia leva duas ou três. E a pesquisa recente confirmou o que Portinari intuiu: a oportunidade tem geografia. E a pesquisa recente confirmou o que Portinari intuiu: a oportunidade tem geografia.

O economista Raj Chetty, de Harvard, ao mapear a trajetória de 20 milhões de americanos, mostrou que crianças criadas a poucos quilômetros de distância têm destinos radicalmente diferentes —por causa da escola que frequentam, das redes sociais a que têm acesso, do tempo que se gasta até o trabalho. E isso num país onde água, esgoto e energia são universais. No Brasil, à desvantagem da escola e da rede soma-se uma camada anterior de privação: a da infraestrutura básica que ainda não chegou.

Aqui, segundo o Trata Brasil/SNIS (2022), quase 32 milhões de pessoas seguem sem água potável e cerca de 90 milhões sem coleta de esgoto. No mundo, 2,1 bilhões não têm acesso a água potável segura e 3,4 bilhões não dispõem de saneamento seguro. Sem água, esgoto, energia, transporte e conectividade, a desigualdade de renda se transforma em desigualdade de saúde, de acesso à informação e aprendizado, de produtividade e de tempo de vida. Não por acaso, estudos do Banco Mundial cobrindo mais de cem países concluíram que a expansão e a qualidade da infraestrutura estão entre as poucas políticas que, ao mesmo tempo, aceleram o crescimento e reduzem a desigualdade de renda.

É por isso que infraestrutura não é apenas obra: é política de igualdade. Nos contratos de concessão e PPP, isso exige metas de universalização, subsídios tarifários ou aportes públicos focalizados, tarifas sociais, obrigações de expansão para áreas pobres, indicadores de qualidade e mecanismos de reequilíbrio que preservem o investimento sem abandonar o usuário vulnerável. Bem desenhados, esses contratos não apenas mobilizam capital; levam dignidade aonde o mercado, sozinho, não levaria.

Os retirantes de Portinari não caminham apenas pelo sertão; caminham pela história brasileira. Cada rede de água que chega, cada sistema de esgoto implantado, cada linha de transporte expandida, cada conexão digital ampliada é, em alguma medida, uma tentativa de interromper essa marcha. O desafio do nosso tempo é fazer com que, finalmente, eles parem; não por exaustão, mas porque chegaram.


Trump para quem gosta de futebol, Elio Gaspari, FSP

 O presidente americano, Donald Trump, deu um jeito, arrumou uma encrenca com o árbitro brasileiro Raphael Claus e virou personagem da Copa do Mundo. Puro Trump. Afinal, ele continua dizendo que ganhou a eleição de 2020. É verdade que parou de falar que Barack Obama nasceu na África. (No seu primeiro mandato ele produziu 30.573 mentiras ou falsidades, 21 por dia). De volta à Casa Branca, seguiu na mesma toada, porque esse é seu estilo e a encrenca com Raphael Claus é um estudo de caso de sua essência.

Na quarta-feira, o centroavante Folarin Balogun pisou no tornozelo do zagueiro Muharemovic da seleção da Bósnia. Depois de ver o vídeo no VAR, o árbitro Claus expulsou-o do campo. (Balogun disse que aceitava a decisão.) Trump contou que até então não sabia o que significava a apresentação de um cartão vermelho, com a consequente suspensão para o jogo seguinte, contra a Bélgica.

Ex-presidente sentado na mesa do escritório oval segurando o troféu da Copa do Mundo, usando boné vermelho. Homem em pé ao lado fala gesticulando. Bandeiras americanas e decoração presidencial ao fundo.
Donald Trump e Gianni Infantino durante encontro na Casa Branca, em 2025 - Andrew Caballero-Reynolds - 22.ago.25/AFP

Até aí seria o jogo jogado, com um torcedor contestando um árbitro. No dia seguinte, o presidente dos Estados Unidos decidiu ligar para Gianni Infantino, presidente da Fifa, pedindo que anulasse a suspensão. Novamente, jogo jogado, pois cartolas adoram pressões de pessoas poderosas e Infantino deu a Trump um inédito prêmio da Paz depois que ele, com suas guerras, foi esquecido para o Nobel. Conseguiu. De lambuja estendeu a encrenca às federações de futebol europeias.

Na segunda-feira, na Casa Branca, Trump assumiu seu estilo. Avançou no tornozelo do árbitro. Sustentou que não houve falta e que, pelos seus antecedentes, Claus é "muito suspeito". Puro Trump, fez a acusação sem uma migalha de argumento.

Mais: mobilizou janízaros da Casa Branca para contestar a honorabilidade de Claus. Não se discute mais a falta de Balogun, nem se exibe o vídeo da falta.

Roy Cohn, o temível litigante dos tribunais americanos, mentor do jovem empresário Donald Trump, ensinava: "Não me diga o que diz a lei. Diga-me quem é o juiz". Os juízes, àquela altura, eram Infantino e alguns cartolas da Fifa. Bingo. (Em setembro chega às livrarias americanas uma biografia de Cohn, com o seguinte título: "Um Canalha Americano".)

A realidade paralela que Trump cultiva e manipula explica a encrenca. O mundo vive a festa de uma Copa. A cerimônia inaugural do certame teve mais audiência que a ida do presidente ao sopé do monte Rushmore, onde estão esculpidos na rocha os rostos de quatro de seus antecessores. Ele precisava entrar naquela festa.

Entrou defendendo um atleta negro e admirado, parte de uma seleção festejada. Com o Brasil eliminado, falou-se mais de Trump do que da malcriação de Neymar com o goleiro norueguês. Trump não sabia o que significava um cartão vermelho, não tem noção do que vem a ser um impedimento e talvez ache que a meia-lua da grande área seja um enfeite, onde poderiam pôr seu retrato. Conseguiu entrar na festa da Copa, por poucos dias.

Na noite de segunda-feira, sem telefonemas, os deuses do futebol decidiram. Com Balogun em campo, a seleção americana foi mandada para casa.

Futebol, jogado dentro das quatro linhas, ainda é coisa séria.