quinta-feira, 4 de junho de 2026

O prazer das pequenas incertezas da vida, Suzana Herculano-Houzel, FSP

 6 às 18h00

Quando eu era criança, os verões eram passados na aldeia de pescadores onde meus avós e tios-avós (aquela que me iniciou no carteado) construíram casas de frente para o mar, atraentes para os não iniciados, enquanto os locais, mais espertos, faziam suas casas nas ruas de trás, protegidas do vento por um declive.

Na minha visão de criança, o idílio tinha um problema grave: o mar aberto era incerto. Calmo feito as águas do Caribe num dia, no outro ele podia estar só "bravo" ou, pior, "de ressaca", as expressões divertidas do português que traduzo literalmente para meu marido, estrangeiro, e ele adota em inglês.

A criança que eu era queria mar de piscina todo santo dia. Ou pior: havia meses de janeiro escorchantes, e outros, como o famoso "Verão da Sucessora", quando só chovia o dia todo, todo dia.

Banhista observa o mar revolto em Ipanema, no Rio - Caio Guatelli - 16.out.11/Folhapress

Naquele verão, a família andava com barracas de praia e se reunia para assistir à tal novela e jogar cartas; nós crianças líamos gibis e desenhávamos o resto do dia. Quando terminavam as aulas, não havia como saber que tipo de verão teríamos. A única previsão era a imprevisibilidade.

Hoje, neurocientista, adulta e ciente do luxo de morar alguns meses do ano na mesma praia, acho maravilhoso ter na vida essas pequenas incertezas do clima e do mar.

Aqui, ao contrário de outros lugares onde morei, a meteorologia não acerta, porque não tem como acertar: são fatores demais tornando o jogo complexo. A previsão promete chuva já de manhã, mas o dia começa glorioso. Promete o sol, e cai um pé d’água. Às vezes, só para chatear, ela até acerta.

O mar também continua caprichoso, e hoje acho isso fantástico. Faz parte da rotina levantar e ir descobrir em que humor Iemanjá acordou.

As marés também não casam com as 24 horas do dia, então a gente, que não vive do mar e não presta atenção, não sabe prever a altura da água pela manhã.

O resultado dessas pequenas incertezas combinadas é que quando a chuva para, o sol pinta tudo de amarelo e o mar está um chão, a gente sabe que é para mostrar apreciação pela sorte que tem de estar vivo e ir tomar banho de mar.

Já fui presenteada com lagamar tão fundo que dava para nadar de braçada. Até meu pai, que não quer mais se arriscar na areia, botou a sunga e veio comigo. A gente acha que o prazer da vida está em antecipar e acertar, mas não está.

O cérebro age e se expõe aos acontecimentos decorrentes, e extrai informação quando uma coisa acontece junto com a outra, sim. Mas, depois de feita a conexão entre dois eventos, não há mais informação alguma se eles invariavelmente acontecem juntos.

Há todo um sistema de estruturas cerebrais interconectadas que a gente hoje sabe envolver as capacidades de associação e previsão do cerebelo..."

Há todo um sistema de estruturas cerebrais interconectadas que a gente hoje sabe que envolve as capacidades de associação e previsão do cerebelo, que toma nota quando algo foge do esperado. Esse sistema dito de recompensa libera a tal da dopamina, mas o que ela sinaliza é afinal não a promessa de prazer, mas sim aquilo que vale o esforço de partir para a ação.

O que é garantido perde a graça porque tanto faz a ação acontecer agora ou mais tarde, como ir a um mar que está sempre um chão.

Ter surpresas dignas de formar memórias faz parte da experiência de estar vivo, e não sobra qualquer chance de surpresa com o inesperado quando a previsão sempre acerta.

A única certeza que ajuda é a da morte no horizonte: com ela, descobrir-se vivo mais um dia se torna algo digno de nota e comemoração.

Cidades precisam substituir ruas por árvores, diz neurobiólogo italiano, FSP

 Mariana Grasso

São Paulo

Uma cidade inteira cabe em uma árvore?

A capa da edição italiana de "Fitopolis, la Città Vivente", livro mais recente de Stefano Mancuso, cientista, neurobiólogo e professor, usa a seguinte imagem: casas, prédios e calçadas estão em uma grande copa, parte superior da planta. A ilustração explica a ideia principal da obra, em que o asfalto e a natureza precisam ser mais integrados para enfrentarmos a crise climática.

Homem de meia-idade com cabelo curto grisalho e barba aparada, usando óculos finos e camisa branca listrada, posando com braços cruzados diante de parede com textura rústica.
O neurobiólogo italiano Stefano Mancuso. Diretor do Laboratório Internacional de Neurobiologia Vegetal e autor do livro Fitópolis (Editora Ubu), o cientista defende um redesenho radical das metrópoles inspirado na inteligência descentralizada das plantas - Editori Laterza

Na primeira visita ao Brasil, o cientista conversou com a Folha na quarta-feira (3), e apresentou um conjunto de ideias sobre o estilo de vida humano. O esgotamento urbano contemporâneo é uma incompatibilidade evolutiva, segundo ele. "Nossa biologia é a mesma há mais de 20 mil anos, quando éramos caçadores-coletores. Nosso corpo foi construído para viver nas árvores", explica.

Conforme o pesquisador, essa herança ancestral explica o porquê do contato com o verde ter efeitos terapêuticos, algo comprovado em seu laboratório por meio de sensores corporais. "Quando entramos em contato com as plantas, todos os nossos parâmetros de estresse diminuem em menos de 10 segundos. O batimento cardíaco, a pressão e o nível de cortisol despencam. Não há nenhuma razão lógica para isso, exceto que nosso corpo detecta que está voltando para casa."

Nascido na Itália, Stefano Mancuso é uma das maiores autoridades mundiais em neurobiologia vegetal, área que investiga a sinalização e a comunicação entre as plantas em todos os níveis de organização biológica. Pioneiro nesse campo e considerado pela revista The New Yorker como um dos transformadores do mundo da década.

No Brasil, o autor publicou cinco livros pela editora Ubu: "Revolução das Plantas" (2019), "A Planta do Mundo" (2021), "A Incrível Viagem das Plantas" (2022) e "A Nação das Plantas" (2024). Seu lançamento mais recente é "Fitópolis" (2026), livro em que discute como a organização do universo vegetal pode inspirar uma nova forma de conceber as cidades.

A defesa de Mancuso por cidades mais verdes não é um apelo estético ou romântico. Diante do ceticismo de setores políticos e imobiliários, o biólogo aponta os dados de mortes no verão europeu publicadas na revista Nature Medicine.

"É a primeira vez na história da humanidade que vivemos uma mudança climática tão rápida e forte", afirma ele. Mancuso aponta para milhares de mortes por calor na Europa durante o verão de 2023 e 2024.

O aquecimento global afeta diretamente a rotina do pesquisador na Itália, que tem um olival em Florença há dez anos. "O momento da colheita das azeitonas mudou para 20 dias mais cedo. Quando eu era jovem, colhíamos no final de novembro. Hoje, colhemos entre o meio e o fim de outubro. É algo incrivelmente veloz e impossível de não notar."

Questionado sobre qual seria a principal ação a ser tomada em uma metrópole como São Paulo, Mancuso propõe uma meta ousada: "Peguem o prefeito de São Paulo e digam a ele: nós precisamos fechar 20% das ruas da cidade. Precisamos apagar 20% das ruas, remover o asfalto e plantar árvores no lugar. O resultado seria incrível: transformar essas vias no que eu chamo de rios de árvores", afirma.

O escritor sabe que o plano parece utópico, mas diz que a história do urbanismo é feita de ousadias. Ele cita o exemplo de Curitiba, onde o ex-prefeito Jaime Lerner fechou o tráfego de automóveis na rua XV de Novembro e a transformou em um calçadão exclusivo para pedestres, chamado rua das Flores.

O cientista relata uma experiência semelhante com a ex-prefeita de Barcelona, Ada Colau. Ela decidiu fechar uma das avenidas mais importantes da cidade catalã, com cerca de 15 quilômetros de extensão. Substituiu o asfalto por árvores.

"No começo, moradores queriam matá-la. Ela precisou viver com escolta policial por um ano. Mas após seis meses, todos entenderam as vantagens". Ele diz que os comércios daquela rua dobraram o faturamento e hoje as ruas vizinhas pedem para o novo prefeito fazer o mesmo.

Para o neurobiólogo, o principal obstáculo para que o modelo de Fitópolis prospere é a falta de coragem política e o foco imediatista nos ciclos eleitorais. "O problema com os prefeitos é que eles olham apenas para os votos da próxima eleição, e a eleição está sempre perto demais para esse tipo de projeto".

Para ele, o mundo precisa de prefeitas jovens, mulheres e corajosas. "Hoje temos exatamente o oposto: homens, velhos e nada corajosos", diz.

Mancuso participará da "A Feira do Livro" na Praça Charles Miller, no Pacaembu, em São Paulo, na próxima quinta-feira (4), das 16h15 às 17h30.

A turnê de escritor no Brasil é uma realização da Ubu editora, Istituto Italiano di Sao Paolo, Sesc São Paulo, Sesc Rio de Janeiro, Escola da Cidade, Unesp (Universidade Estadual Paulista), Inhotim e Consulado-Geral da Itália em Belo Horizonte.


FITÓPOLIS – A CIDADE VIVA

  • Preço: R$ 69,90 (208 págs.)

  • Autor: Stefano Mancuso

  • Editora: Ubu Editora (Tradução: Samuel Titan Jr.)

Expulsar idosos do City Lapa é ato de crueldade, FSP

 

São Paulo

Diante da atitude que normalmente se tem com os desamparados em geral, o esforço de expulsão das casas de repouso, chamadas tecnicamente de ILPIs (Instituições de Longa Permanência para Idosos), no bairro da Lapa, na zona oeste de São Paulo, não surpreende. Ele é um forte indicador de uma sociedade doente que perdeu a capacidade de se solidarizar com os mais frágeis em nome de questões mercantis como a desvalorização imobiliária ou da perturbação estética.

O que define esse jogo cruel é o dinheiro e o etarismo. Os argumentos para excluir os mais velhos do bairro, onde se concentram residências de alto padrão, são mesquinhos. É o mesmo que acontece com os albergues de moradores de rua de lugares como Cambuci ou Pinheiros, rejeitados pela vizinhança local por revelarem uma realidade que ninguém quer ver.

Grupo de idosos sentados em cadeiras ao redor de uma mesa em sala iluminada pela luz natural de uma porta de vidro. Uma cadeira de rodas está posicionada próxima à mesa, e uma pessoa em pé observa o grupo.
Idosos do Lar Aconchego, uma das casas de repouso que incomodam a vizinhança do City Lapa - Rubens Cavallari/Folhapress

Os idosos não fazem barulho, embora alguns vizinhos próximos reclamem de gritos eventuais, são praticamente invisíveis e nem saem às ruas. Estão apenas vivendo seus últimos anos de vida reclusos, silenciosos e, em geral, tristes. Estão à espera da morte, e alguns moradores se incomodam com os carros funerários que vêm buscá-los na chegada desse dia.

Uma minoria ruidosa se manifestou abertamente reclamando desses carros que frequentam a região, conhecida como City Lapa, e dizendo que os idosos podem perfeitamente procurar outro lugar para viver. Há, porém, uma maioria silenciosa que ocupa a vizinhança e se divide diante da situação. É preciso dizer que nem todo mundo despreza os mais velhos.

As diversas associações de bairro que atuam na região, por exemplo, têm posições diferentes sobre a cassação empreendida pela prefeitura dos alvarás de funcionamento de todas as 40 ILPIs que existem no City Lapa. Seis deles, na rua Tomé de Souza, já foram cassados, mas há ações na justiça para reverter a situação.

Na rua Tomé de Souza, seis estabelecimentos tiveram seus alvarás cassados pela prefeitura
Na rua Tomé de Souza, seis estabelecimentos tiveram seus alvarás cassados pela prefeitura - Vicente Vilardaga

Os moradores etaristas argumentam que a instalação de casas de repouso no bairro descumpre a lei de zoneamento, que classificou a região como "estritamente residencial". A questão é que a maioria das ILPIs do City Lapa funciona exatamente dessa forma, como moradia coletiva, e não oferece serviços médicos, por exemplo, o que as deixaria dentro das regras. São simplesmente casas onde moram vários idosos, portanto residências. Seus proprietários alegam que receberam autorização da prefeitura para instalar seus estabelecimentos.

Segundo reportagem da Folha, a prefeitura diz que atua dentro da legalidade e argumenta que as ILPIs foram licenciadas na categoria "serviço público social de pequeno porte", o que as obrigaria a firmar convênios com o poder público para se manter funcionando. A prefeitura diz também que o serviço de hospedagem tem sido particular e que as ILPIs estão atuando de maneira irregular ao exercer uma atividade comercial não permitida pelo zoneamento do bairro. Seria o caso, porém, de fazer uma abordagem mais seletiva e de se preocupar com o destino dos idosos.

A Veneza é uma das 40 casas de repouso do City Lapa ameaçadas de expulsão do bairro
A Veneza é uma das 40 casas de repouso do City Lapa ameaçadas de expulsão do bairro - Vicente Vilardaga

Outros bairros aprazíveis da cidade, como Perdizes, Pacaembu ou Alto de Pinheiros, também abrigam diversas casas de repouso, e nem por isso há um movimento de expulsão. O poder público oferece pouquíssimas opções de abrigo para o pessoal da terceira idade. A iniciativa privada acaba ocupando esse precioso espaço. Frequentemente cobra caro por isso, mas presta um serviço essencial.

Nessa história do City Lapa, o problema maior é a falta de empatia. Quem reclama das casas de repouso pode num futuro não tão distante assim terminar amparado em uma delas. Fico pensando que todos vão envelhecer e, se for o caso de serem levados para um estabelecimento desse tipo, preferirão ficar em um lugar tranquilo e mais próximo de suas famílias. Mas a reação de algumas pessoas reforça o estigma de que os idosos são um estorvo, incomodando os mais jovens por sua mera existência. Nada justifica tanta raiva, como a demonstrada por alguns moradores, contra eles.