quarta-feira, 3 de junho de 2026

Na CVM, desmonte da agenda ESG e climática começou há um ano - UOL

 (Atualizada para corrigir a informação de que apenas sob o atual governo o ex-presidente da CVM, João Pedro Nascimento, encampou a transição verde da economia. Essa orientação existiu desde a sua posse, em 2022)


O mercado de capitais brasileiro foi ... - Leia mais em: https://capitalreset.uol.com.br/regulacao/na-cvm-desmonte-da-agenda-esg-e-climatica-comecou-ha-um-ano/?utm_source=substack&utm_medium=email



(Atualizada para corrigir a informação de que apenas sob o atual governo o ex-presidente da

CVM, João Pedro Nascimento, encampou a transição verde da economia. Essa orientação

existiu desde a sua posse, em 2022)



O mercado de capitais brasileiro foi surpreendido pela decisão da Comissão de Valores

Mobiliários (CVM), anunciada na noite de sexta-feira, de revogar a obrigatoriedade dos

reportes financeiros relacionados à sustentabilidade e ao clima, IFRS S1 e S2, que haviam

entrado em vigor este ano.

Considerada um retrocesso, a medida não é um fato isolado. Representa o ápice de um

desmonte da agenda ESG e climática na CVM, que começou a se desenhar há pelo menos

um ano, contrariando os desígnios do Ministério da Fazenda, ao qual a autarquia se vincula.

Pressão política, mudança de comando e troca de quadros pavimentaram o caminho dessa

volta atrás.

Ao menos publicamente, os sinais começaram a aparecer no dia 8 de julho do ano passado,

na Câmara dos Deputados.

Naquele dia, o então presidente da autarquia, João Pedro Barroso do Nascimento,

compareceu a uma audiência pública na Comissão de Relações Exteriores e de Defesa

Nacional para a qual foi convocado pelo deputado Filipe Barros (PL/PR), presidente da

comissão, para responder sobre “os riscos à soberania econômica decorrentes da atual

estrutura regulatória do mercado de capitais”.


Durante boa parte da uma hora e meia de audiência, Nascimento foi duramente pressionado

por conta de uma suposta agenda ESG ideológica e de origem estrangeira adotada por ele à

frente da CVM.


‘Submissão ideológica’


André Fernandes (PL/CE) quis saber, por exemplo, como a CVM respondia à crítica de que

impunha uma agenda identitária que estaria deslocando mérito e competência técnica em

favor de aspectos demográficos, chegando a se referir a uma “submissão ideológica”.

Fausto Pinato, do União Brasil, foi na mesma linha e questionou se o regulador considerava

“legítimo atuar como promotor indireto de critérios identitários e ideológicos para composição

de conselhos [de administração] sem base legal aprovada pelo Legislativo”.


Nascimento reiterou várias vezes que a CVM seria “agnóstica” em relação ao tema

diversidade e afirmou que a pressão de fundos estrangeiros para adoção de critérios ESG

pelas empresas era decisão do investidor, não da CVM.


Onze dias depois, em 19 de julho, Nascimento renunciou ao cargo dois anos antes do fim do

seu mandato, alegando motivos pessoais. Segundo reportagens, ele vinha sofrendo

intimidações por conta do caso do Banco Master.


Futuro verde para a CVM


Amigo de infância de Flávio Bolsonaro, João Pedro Nascimento havia sido indicado para

presidir a autarquia em 2022, no governo Bolsonaro, com respaldo do PL. Desde o início do

mandato, passou a afirmar que o futuro do mercado de capitais brasileiro era “verde e

digital”.

No seu mandato foi editada a resolução 193, que criou a obrigatoriedade do reporte

financeiro de sustentabilidade e clima.


Foi também sob sua gestão que a então responsável pela Superintendência de Proteção e

Orientação a Investidores (SOI), Nathalie Vidual, ganhou amplo espaço para estruturar a

agenda de finanças sustentáveis na CVM.


“Ele passou a ser acusado de ter traído os ideais liberais que o colocaram no cargo e perdeu

o apoio do PL, que havia bancado sua indicação. Ao mesmo tempo, nunca foi acolhido pela

esquerda, que o olhava com desconfiança”, diz uma pessoa que acompanhou todo o

processo de perto. “Depois da saída dele, a agenda foi ladeira abaixo.”

Otto Lobo, que acaba de ser indicado para presidir a CVM, na ocasião assumiu interinamente

a presidência da autarquia por ser o diretor mais antigo, deixando o órgão em dezembro,

quando terminou seu mandato como diretor. Foi substituído na presidência da autarquia por

João Acioly.

Liberalização

Tanto Lobo quanto Acioly também haviam sido nomeados diretores da CVM por Bolsonaro,

em 2021 e 2022, e sempre se posicionaram a favor da desregulamentação do mercado de

capitais e de forma contrária à agenda ESG, considerada ideológica por ambos. “O Otto Lobo

é devoto das novas posições da SEC americana, sob Trump, em relação a clima e

sustentabilidade”, diz um observador próximo de suas manifestações. Na sexta, enquanto a

CVM derrubava a 193 por aqui, o regulador do mercado de capitais americano oficializou a

proposta para acabar com a obrigatoriedade de reporte de riscos climáticos. “Acioly é

consistentemente contrário à agenda ESG”, diz outro interlocutor.

Depois da saída de João Pedro Nascimento da presidência, a vítima seguinte foi Nathalie

Vidual, que vinha trabalhando em sintonia com ele e com o Plano de Transição Ecológica do

Ministério da Fazenda.

Em dezembro, ela pediu para deixar a CVM e assumiu o posto de coordenadora-geral de

registro e infraestrutura de mercado na Secretaria Extraordinária do Mercado de Carbono,

comandada por Cristina Reis.

Em seu lugar, assumiu como superintendente da SOI José Alexandre Vasco, indicado por

Lobo.

No apagar das luzes de 2025 começou a se desenhar o golpe contra a resolução 193 que se

concretizou na última sexta.

Na reta final de dezembro, a Abrasca pediu o fim da obrigatoriedade dos novos reportes

de sustentabilidade. Na ocasião, organizações como Amec e Ibracon saíram em defesa da norma, dizendo que seu abandono seria um retrocesso.

Em fevereiro, a CVM reafirmou que a resolução seria mantida e não haveria mudança nos

prazos.

Reunião extraordinária

Mas o tema não foi esquecido. A reunião do colegiado da CVM ocorrida no dia 27 de maio e

que enterrou a obrigatoriedade dos reportes foi convocada de forma extraordinária pelo

presidente interino João Acioly no último dia 20, mesmo dia em que o nome de Otto Lobo foi

aprovado pelo Senado para presidir o órgão.

A área técnica da autarquia, a Superintendência de Normas Contábeis, já havia desenhado

uma proposta de faseamento para a entrada em vigor da norma, visando amenizar seu peso

para companhias abertas de menor porte e, com isso, contemplar parte dos pleitos de parte

do mercado.

Mas, na reunião da semana passada, uma outra proposta também foi colocada em votação e

terminou aprovada: aquela que revogou completamente a obrigatoriedade e tornou

voluntários os reportes climáticos e de sustentabilidade. O único voto contrário, num

colegiado desfalcado, foi da diretora Marina Copola.

A indicação do presidente Lula, em janeiro, para que Otto Lobo assumisse a presidência da

CVM foi vista como uma derrota para o então ministro da Fazenda, Fernando Haddad, e uma

vitória para forças do Senado, que o apoiavam. Enquanto liderou a autarquia interinamente

no segundo semestre do ano passado, sua atuação beneficiou o Banco Master em ao menos

duas ocasiões. Nos bastidores, especula-se que a derrubada da 193 tenha feito parte da

negociação para a aprovação do seu nome pelos senadores.

terça-feira, 2 de junho de 2026

Mentiras patriotas dos Bolsonaro tomam tiros na Segunda Guerra do Pix, FSP

 Os Bolsonaro acabaram do lado errado da Segunda Guerra do Pix, até por não terem escrúpulos, mentirem sem parar e não se importarem de explodir o que estiver no caminho deles até o poder ou na rota de fuga da polícia. Como jamais se sabe que tipo de informação sairá do filtro lunático, ignaro e odiento das redes sociais, é difícil dar chute informado sobre o efeito desta lambança dos Bolsonaro na eleição. Mas o risco aumentou.

Segunda Guerra: a direita propagandeava em janeiro de 2025 que Luiz Inácio Lula da Silva cobraria imposto sobre o pix, como se sabe. A campanha ajudou a ferir de modo duradouro a popularidade do presidente —inflação, bobagem fiscal e pânico financeiro ajudaram então a fazer o resto do serviço.

Lula viria a recuperar uns pontos de prestígio nas pesquisas a partir de julho de 2025, quando Eduardo Bolsonaro fez campanha para Donald Trump prejudicar empresas brasileiras, o "tarifaço", comemorado por Flávio. Pode dar errado de novo. Guerra do Pix serve de nome curto para uma disputa eleitoral que envolve ainda a bandeira verde-amarela: quem é patriota?

Flávio Bolsonaro, pré-candidato à presidência, durante evento em Curitiba - Rodolfo Buhrer - 29.mai.26/Reuters

Flávio foi aos EUA pegar carona em medidas antibrasileiras do governo Trump. Fantasiou-se de inimigo do terror das facções PCC e CV, agora "terroristas", segundo os americanos. Quando tentava fugir da cena da sabotagem com um butim de campanha eleitoral, foi pego no contrapé pela ameaça de novo "tarifaço". Pior, a queixa contra o pix está logo no início da exposição de motivos do Representante Comercial dos EUA (USTR), cínica, mas que em parte não está errada, o que no caso é irrelevante. Para juntar lambança à picaretagem, Flávio disse nesta terça que "é mentira que o pix está ameaçado. Não tem absolutamente nada a ver o meio de pagamento com isso tudo". Se está ameaçado, sabe-se lá. Tudo é possível no mundo de Trump, menos a decência. Mas o pix está lá, no alto do livro de reclamações, por obra do lobby de "big techs" e de parte da finança dos EUA.

Como se não bastasse, Marco Rubio, secretário de Estado dos EUA, chefe da política externa, disse ao Senado deles, também nesta terça, que o Brasil, assim como Cuba, Venezuela, Nicarágua e Colômbia, não é amigo dos EUA. De resto, Flávio veio a aparecer apenas agora naquela foto de papagaio de pirata com Trump, quando foi tratar de "terrorismo" e tentar disfarçar o escândalo de sua fraternidade com o Master Daniel Vorcaro.

O risco de danos para a economia brasileira e o sentido geral das ameaças americanas ficaram, neste primeiro momento, meio perdidos no tiroteio. Se substituir as tarifas vigentes, um tarifaço de 25% melhora a situação de empresas exportadoras, ora sujeitas a impostos maiores (40%, 50%), e o saldo comercial; se somado aos impostos de agora, é tiro na testa.

Ironias da situação também ficaram escondidas. Um dos pretextos da ameaça do USTR é a exportação brasileira de madeira, carne, soja e milho oriundos de área de desmatamento ilegal, queixa idêntica à da União Europeia. O agro se congratulou com a vitória de Bolsonaro Primeiro, o Golpista, e seu projeto de desmontar a legislação e a fiscalização ambientais. E então?

Por último, por ora, note-se que a ala trumpista liderada por Rubio, antiesquerdista ferrabrás, quer endurecer o jogo com o Brasil. Mostrou de novo que quer submissão, projeto geral de Trump; comércio é arma imperial explícita como não o era fazia um século.

Alexandre Schneider - A fábrica de diplomas que forma quem ensina o Brasil, FSP

 Alexandre Schneider

Professor e pesquisador da FGV, foi secretário municipal da Educação de São Paulo e secretário estadual de Pernambuco

Decide-se agora, longe dos holofotes, uma das questões mais consequentes da educação brasileira: como será formado o professor que estará diante das crianças e jovens brasileiros. Tramita no CNE (Conselho Nacional de Educação) a regra que define quanto de uma licenciatura precisa ser presencial, e a disputa é dura: o próprio MEC (Ministério da Educação) chegou a propor rebaixar a exigência. Não é disputa de carga horária, e sim de autorizar, sob novo rótulo, um modelo que expandiu diplomas mais rápido do que garantiu qualidade.

A estreia do novo Enade (Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes) voltado à formação de professores desnudou o que os secretários de Educação vêm sentindo há anos: a precarização das licenciaturas. Entre os concluintes de cursos presenciais, 73,9% alcançaram proficiência; entre os de cursos a distância, menos da metade. Quase 9 em cada 10 vagas de licenciatura são a distância, segundo o Censo de 2024. Em uma década, o presencial virou exceção, e é o modelo dominante que vai pior na prova.

0
Espaço de trabalho de aluna de educação a distância em São Paulo - Jardiel Carvalho - 22.fev.24/Folhapress

O mesmo exame ganhou uma segunda função: virou a Prova Nacional Docente, que estados e municípios podem usar para selecionar professores. Na primeira edição, o MEC declarou cerca de 500 mil pessoas aptas a lecionar e tratou o número como conquista. Convém olhar a régua antes de comemorar. O piso para ser "apto" é o que o próprio Inep chama de competências básicas, e "básicas" não é força de expressão: boa parte do que a prova cobra é conhecimento geral, não o saber especializado que a boa formação constrói. Uma prova que o MEC diz não ser certificação vira, na prática, o crivo das prefeituras para contratar. Mede pouco e decide muito.

A favor da EaD há um argumento legítimo: levou graduação a quem não teria acesso de outro modo. Mas o problema não é quem estudou a distância, muitas vezes a única opção que teve. É o curso que lhe vendeu menos do que prometeu. Um diploma que não forma não é inclusão, é vender gato por lebre com carimbo público, e a conta é paga pelo aluno da escola pública, que recebe um professor mal preparado.

Convém entender como a presencialidade quase caiu. Em maio de 2024, o CNE exigiu que metade da carga horária da licenciatura fosse presencial. Em 2025, um decreto federal vedou a licenciatura totalmente a distância, mas criou um formato "semipresencial" com piso de apenas 30%.

PUBLICIDADE

As duas regras colidiram, e ao reescrevê-las o próprio MEC, que vinha apertando o cerco contra a EaD, propôs baixar a exigência de 50% para 40%. Sob pressão de secretários estaduais e municipais, a versão que voltou à mesa preserva os 50%. Mas a decisão ainda tramita, e a pressão para afrouxá-la não desapareceu. É fundamental que CNE e MEC resistam e adotem ao menos quatro medidas.

Primeiro: vincular reconhecimento e renovação de curso ao desempenho no Enade, com fechamento dos cursos nas faixas mais baixas que não melhorarem em duas edições. Avaliação sem consequência regulatória é diagnóstico que ninguém trata.

Segundo: elevar a régua. O exame que reprova a EaD e habilita meio milhão de docentes precisa exigir mais do que o básico, medindo o domínio do conteúdo a ensinar e o saber pedagógico, não conhecimento genérico.

Terceiro: blindar a presencialidade onde ela mais forma, no estágio supervisionado e no contato com os saberes da docência, com tempo mínimo dentro de escolas e convênios formais entre faculdade e rede.

Quarto: financiar a transição, não só proibir. Bolsas, financiamento estudantil e renúncias fiscais já existentes devem ser condicionados à qualidade da formação, não ao volume de matrículas.

O Brasil decidiu, com razão, medir a formação de quem ensina. O passo seguinte é mais difícil: agir sobre cursos, mantenedoras e diplomas, não sobre planilhas. Aceitar a precarização da formação de professores custa caro ao país. A conta chega depois, na aprendizagem que não veio, e não há decreto que a estorne.