domingo, 17 de maio de 2026

Ação do MPF contra médico por fraude em pesquisa sobre Covid é um acerto de contas, FSP

 Uma das incontáveis hipóteses médicas levantadas durante a pandemia previa que a testosterona poderia influenciar a gravidade da Covid. A ideia partia da observação de que homens apresentavam quadros mais graves, enquanto meninos pré-púberes —com níveis mais baixos de hormônios androgênicos— pareciam menos suscetíveis à doença. Entusiastas da hipótese também viam na alta frequência de homens calvos em UTIs um possível sinal da participação dos andrógenos na gravidade da doença, já que a alopecia androgenética está associada à maior sensibilidade a esses hormônios.

Ainda em 2020, um adulto jovem infectado pelo coronavírus procurou a clínica privada do endocrinologista Flávio Cadegiani. O paciente fazia uso de esteroide anabolizante, o que teria agravado seu quadro. Recuperou-se com tratamento com droga que bloqueia a ação da testosterona: a proxalutamida.

Reabertura do comércio popular na região da 25 de Março, no centro da capital paulista, teve aglomeração em meio à pandemia do coronavírus - Rivaldo Gomes - 21.jul.20/Folhapress

Embalado pelo êxito, Cadegiani –voz ativa do "tratamento precoce"– avançou para um amplo ensaio clínico em 2021. Os achados foram extraordinários: redução de 92% na mortalidade no grupo que recebeu o medicamento em comparação ao placebo. Pela façanha, recebeu láurea de um grupo médico adepto de "terapias alternativas" contra a Covid e, das redes, a alcunha de "melhor cientista do mundo".

Mas a narrativa hollywoodiana de um obstinado cientista que desafia o "establishment" para salvar a humanidade de uma pandemia letal seria contaminada pelo odor enxofrento da fraude.

Da comunidade científica vieram os questionamentos iniciais, direcionados à mortalidade anormalmente alta no grupo placebo, falhas no desenho do estudo (inconsistências de protocolo, por exemplo), além de possíveis conflitos de interesses e falta de transparência, incluindo vínculos de autores com empresas que lucram com a droga e a recusa em disponibilizar os dados brutos da pesquisa. As críticas culminaram na retratação das publicações.

Investigações posteriores revelariam mais do que simples descuidos científicos. Segundo a Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep), os participantes teriam sido usados como "cobaias" em uma pesquisa "voltada ao lucro acionário".

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A Unesco classificou o estudo como "um dos episódios mais graves de infração à ética em pesquisa e violação dos direitos humanos dos participantes da história da América Latina, envolvendo a morte suspeita de 200 pessoas", e cobrou investigação aprofundada. A Anvisa suspendeu a importação e o uso da droga pelo pesquisador e acionou a PGR (Procuradoria-Geral da República). Já a CPI da Covid incluiu o médico entre os indiciados por crime contra a humanidade.

Eis que, finalmente, o MPF ajuizou ação civil pública contra Cadegiani, seu colaborador Daniel Nascimento da Fonseca, diretor-técnico da rede hospitalar Samel, que abrigou o braço amazônico do estudo, e a União, por falha no dever de supervisão. Reportagem de Carlos Madeiro (UOL) detalha as irregularidades apuradas pela Procuradoria, como o uso da nebulização de hidroxicloroquina fora do protocolo e a transferência da pesquisa de Brasília, com casos leves, para o Amazonas, com pacientes graves, sem anuência do comitê de ética. Para o órgão, o estudo configurou um "laboratório humano em regime de clandestinidade e desprezo pela vida".

A ação do MPF é um acerto de contas —tardio e acanhado— com aqueles que, em nome da ideologia ou do lucro, negaram ou desvirtuaram a ciência e, cada qual à sua maneira, contribuíram para um excedente de centenas de milhares de mortes. A União também pode figurar como ré, mas não foi ela que contrariou normas sanitárias, atrasou vacinas e oxigênio, fez troça de doentes ou ofereceu cloroquina a emas. Os artífices têm carne, osso e, alguns, até dispositivo eletrônico de geolocalização. Nada falta para que sejam responsabilizados.

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Cosan avalia vender toda participação na Raízen e deve dissolver holding em até 5 anos, FSP

 

Roberto Samora
São Paulo | Reuters

O presidente da Cosan, Marcelo Martins, afirmou que a empresa avalia a possibilidade de vender toda a sua participação na Raízen, após ter se tornado minoritária durante o processo de reestruturação financeira da endividada produtora de açúcar e etanol.

O executivo ainda declarou nesta sexta-feira (15) que a Cosan não acompanhará a Shell —sua sócia na Raízen— em um aporte de capital na empresa, que também é uma das maiores distribuidoras de combustíveis do Brasil.

Vista aérea de vários tanques cilíndricos brancos de armazenamento em terminal industrial da Raízen, com tubulações e passarelas amarelas conectando-os. Área cercada por vegetação ao fundo e caminhões estacionados à direita.
Terminal de distribuição da Raízen, em São Paulo - Amanda Perobelli - 20.ago.25/Reuters

Além disso, há negociações evoluindo com credores da dívida da Raízen para conversão do endividamento em ações da empresa, disse o CEO da Cosan, que também enfrenta alto endividamento.

"Significa (para a Cosan) que, considerando o tamanho da conversão, isso vai resultar em diluição substancial" da participação da empresa na Raízen, destacou Martins.

"A gente ainda não sabe o tamanho (da conversão), algumas questões importantes estão sendo discutidas", acrescentou o executivo, citando, por exemplo, o "preço da conversão".

De qualquer maneira, a Raízen deixará de ser um investimento importante da Cosan, uma vez que ela será minoritária ao final da reestruturação, destacou.

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"Estamos decidindo se teremos ações ordinárias ou preferenciais... (mas) a nossa participação na Raízen não deve ser expressiva", completou, acrescentando que "não é intenção da Cosan se manter em acordo de acionistas com a Shell", firmado inicialmente há cerca de 15 anos.

"A partir do momento em que haja a conversão e esse aporte de capital, deixaremos de ter esse acordo que existe na Raízen com a Shell", comentou o CEO da Cosan.

Martins disse que a Cosan deverá vender participação na Raízen, ainda que não se saiba ainda quando nem o tamanho da alienação.

"Isso posto, o que se pode esperar é que a gente tenha uma participação que pode ser vendida", disse o executivo, acrescentando que a Cosan não tem uma "decisão concreta" da participação que será vendida.

Com uma participação reduzida na Raízen, espera-se que a Cosan "vá buscar liquidez em algum momento", explicou Martins, falando sobre a venda das ações na companhia de açúcar e etanol.

DISSOLUÇÃO DA HOLDING

Questionado por analista sobre qual será o papel da holding Cosan —dona também de participações em empresas como Rumo e Compass Gás e Energia— como veículo de investimentos no futuro, após reestruturação de sua própria dívida, Martins disse que ela deverá ser dissolvida, em processo que pode começar em 2027.

Os acionistas da Cosan deverão então receber participações nas empresas investidas. "A premissa básica de todos nós aqui é que, com o objetivo de reduzir a alavancagem da empresa, obviamente não faz o menor sentido que a Cosan continue sendo um veículo de investimento de portfólio", afirmou.

Segundo ele, crescimento dos negócios será absolutamente de responsabilidade das empresas que fazem parte do grupo hoje. "Então, neste horizonte de três a cinco anos, é bastante razoável dizer que a Cosan deixará de existir nesse período", comentou.

"Ou seja, à medida que a gente tenha a conclusão do nosso processo de desinvestimento e redução da alavancagem, subsequentemente a gente vai entender efetivamente o que vamos ter de ativos e passivos dentro da companhia, e ato contínuo, provavelmente fazer distribuição direta das participações para os acionistas de Cosan", disse ele.

O executivo afirmou que a ideia é que o processo —já acordado com os novos e atuais acionistas -- aconteça "tão logo quanto factível".

sexta-feira, 15 de maio de 2026

Becky S. Korich - É difícil falar da Rádio Eldorado no passado, FSP

 Hoje a Rádio Eldorado fecha um ciclo. Depois de 68 anos acompanhando São Paulo, a frequência 107,3 FM se desliga. O que desaparece não é só um canal de áudio, mas uma forma de escutar o mundo.

Para quem ouviu a Eldorado por tanto tempo, como eu —minha relação com a rádio começou na infância, desde os tempos da 92,9—, a despedida soa como o fim forçado de uma amizade antiga, íntima. Como imaginar meus dias sem aquele som aveludado, sem aquelas vozes familiares ao fundo?

A Eldorado leva consigo mais do que um espaço no dial. Leva a sensação de que a cidade, tão poluída de sons, perdeu uma de suas vozes mais civilizadas. Uma voz com personalidade, que falava de arte e cultura com elegância, feita por gente curiosa, para gente curiosa. Por gente que gosta do que faz e entende que boa música não é a que toca mais, mas a que toca mais fundo.

Capa do álbum 'Selo Eldorado de Qualidade' apresenta uma fita cassete transparente centralizada sobre fundo preto. O texto 'SELO' aparece em letras grandes e claras acima da fita, com 'ELDORADO' logo abaixo em fonte menor, seguido por 'DE QUALIDADE' em letras menores na parte inferior.
Rádio Eldorado no Instagram

Muito além de uma rádio musical, a Eldorado construiu uma identidade rara no rádio brasileiro: jornalismo, repertório, inteligência, diversidade, autenticidade. Sua curadoria praticou o sentido mais profundo da palavra: cuidado, zelo. E, embora não haja nenhuma relação etimológica, essa curadoria também nos curava —de músicas fabricadas, de gritos no autofalante, das "dez mais", do mesmismo, da pressa, da banalidade.

Éramos os "melhores ouvintes" por causa desse respeito que a Eldorado tinha com quem estava do outro lado. Não éramos consumidores, mas interlocutores de uma conversa silenciosa: a rádio parecia nos conhecer sem que precisássemos usar uma palavra.

Ser ouvinte da Eldorado é como pertencer a um clube, feito de gente que não se rende à lógica do que "se ouve" por aí. Gente que ainda prefere a calma, a surpresa, a descoberta; que entende a música como quase sagrada, como um modo de vida.

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A Eldorado era o meu Spotify, quando a ideia do streaming, algoritmo e podcast parecia ficção. Um "streaming artesanal", com alma, feito por mãos sensíveis de escavadores, por artesãos de cultura e arte que, sem pressa, iam nos entregando pequenos tesouros lapidados. Uma infinidade de sons, de histórias, de mundos que eu jamais teria descoberto sozinha.

Hoje, liga-se o que se quer, pula-se o que se exige mais esforço, acelera-se o que parece "longo" e ouve-se pelo tempo exato que a ansiedade permite. Como se isso significasse domínio sobre as escolhas. A Eldorado propunha o movimento contrário: a liberdade de aceitar o que chegava, de se deixar surpreender, de se entregar e confiar. Ouvíamos o que não foi pedido, uma faixa inesperada, um comentário, uma entrevista, um silêncio entre as músicas. Há algo profundamente sofisticado nisso e até subversivo para estes tempos.

Ao desligar o microfone, a Eldorado deixa no ar um silêncio que não se cala. Um vazio que ocupa um lugar enorme. Perdi a minha melhor companheira das solidões escolhidas.

Não é apenas o fim de uma rádio; é um abalo na esperança de que a cultura ainda possa ser construída sem se curvar ao barulho do mundo, sem se dobrar à lógica dos algoritmos, sem abrir mão da sensibilidade. É também um alerta: em meio ao caos, não podemos desistir dos lugares onde a arte ainda respira.

A despedida tem, além do inconformismo, um agradecimento. Por tudo que a Eldorado construiu dentro de cada um de nós. O que tocou fundo e sintonizou na frequência certa, nunca sairá do ar.

Não vou dizer adeus, ainda prefiro acreditar no até já.