sexta-feira, 12 de fevereiro de 2021

'Bolsonavírus-22' não mata, mas imbeciliza, afirma o artista Augusto de Campos, FSP

RIO DE JANEIRO

Na noite do último Natal, o poeta Augusto de Campos entrou no carro de Cid, seu filho, e percorreu o centro de São Paulo, deserto a tal hora. Numa parada em frente à Biblioteca Mário de Andrade, Campos olhou pela janela. “Cidade”, de 1963, passava num painel de LED de dez metros na fachada. O poema se acendia para celebrar os 90 anos que o poeta completa neste domingo.

Em São Paulo, um arco de homenagens festeja o aniversário do concretista. As exposições “Poema Cidadecitycité pela Cidade” e “Transletras”, esta última abrangendo trabalhos dos anos 1970 e 1980, com curadoria de Daniel Rangel, estão em cartaz na Mário de Andrade. Na avenida Paulista, a Casa das Rosas realiza um ciclo virtual de cursos, palestras, exibição de vídeos, show e sarau.

Há 70 anos, em 1951, Augusto de Campos lançava “O Rei Menos o Reino”, a sua estreia literária. Anterior ao movimento da poesia concreta, o livro revelava a sua força no leito dos versos. “Este é o rei e este é o reino e eu sou ambos./ Soberano de mim: O-que-fui-feito,/ Solitário sem sol ou solo em guerra/ Comigo e contra mim e entre os meus dedos.”

No ano seguinte, Augusto de Campos criou a revista Noigandres com seu irmão Haroldo e Décio Pignatari, o núcleo do grupo concretista. Nela, em 1955, ele publicaria a série de poemas em cores “Poetamenos”. O verso chegava ao reverso.

O movimento de poesia concreta explorou e radicalizou a sincronia entre elementos verbais, sonoros e visuais, confrontando a ideia de que a arte de vanguarda era um choque transitório, e não um fluxo duradouro de transformações formais.

Nos anos 1960, Campos criou os influentes poemas concretos “Greve”, “Cidade”, “Acaso”, “Luxo” e mais
ainda a série dos “popcretos”. Em 1972,surgiu o “Viva Vaia”, e na mesma década os poemas-objetos em colaboração com Julio Plaza.

Além de traduzir e introduzir no Brasil um repertório literário mundial —Pound, Maiakóvski, Joyce, e. e. cummings, Mallarmé, Valéry—, o poeta promoveu a obra de inovadores na tradição brasileira, como Oswald de Andrade, Pagu, Kilkerry e Sousândrade.

Campos marcou seguidas gerações de poetas e tradutores; sua influência extrapolou a literatura e chegou também à música, às artes plásticas e gráficas, ao ensaísmo, ao cinema e ao teatro.

“Você sempre encontra uma espécie de tirania que quer uma diminuição, um apagamento da linguagem. Augusto foi no contrafluxo disso. Ele avançou muito o nosso campo de cultura. Na minha vida de leitor, ele é um dos maiores poetas da língua portuguesa”, diz o cineasta Julio Bressane, seu amigo desde uma projeção de “O Anjo Nasceu”, de 1969, em Nova York.

Diretor do curta “Hi-Fi”, de 1999, cinepoema sobre o concretista, Ivan Cardoso assegura que “Augusto é o único sobrevivente de um mundo que não existe mais: a poesia”. Numa nova parceria, Cardoso mandou
imprimir postais com fotografias suas, dos túmulos dos poetas russos Maiakóvski e Khlébnikov, tal como fizera com Ezra Pound. Campos enviou dois poemas para o verso.

Em 1968, a ruptura da tropicália —liderada pela “revolucionária família baiana”, como Campos se referiu ao grupo baiano formado por Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa e Tom Zé— originou um dos diálogos artísticos mais férteis do concretista com a música popular. “Pelos anos 1970, mostrei meus álbuns inteiros a ele, em geral em minha casa. Quando não, mandava para ele em São Paulo. E ele sempre me mandava o que ia lançando. A partir de um ponto, o ritmo de mostrar tudo o que gravava a Augusto me pareceu demais”, conta o tropicalista Caetano Veloso.

“Não sou bom de telefone, mas foi por telefone que Augusto me disse que tinha gostado muito de ‘Verdade Tropical’. Quando apresentei [o filme] ‘O Cinema Falado’, Haroldo e Décio demonstraram entusiasmo, mas Augusto fez restrições. Tudo instrutivo.”

Caetano elogia a produção recente do poeta. “Amo todos os poemas de Augusto contra Bolsonaro e amo o concreto-conceitual contra a prisão de Lula em segunda instância. Nunca deixo de pensar em Augusto. Ele foi entusiasta do ‘Araçá Azul’. Depois, para minha surpresa, preferiu ‘Qualquer Coisa’ a ‘Joia’. As reações dele sempre contam. Considero-o o maior poeta brasileiro vivo.”

A atuação multimídia de Campos se manifesta na diversidade de artistas e intelectuais aglutinados em antologias comemorativas. A editora Galileu lança a edição especial “90 Anos de Augusto de Campos”, coordenada por Ronald Polito, com poemas inéditos, fotos e depoimentos de Marjorie Perloff, Gerald Thomas, Júlio Castanon, Dirce Waltrick do Amarante e Luiz Costa Lima, entre outros.

Organizado em parceria com Walter Silveira e Bené Fonteles, com projeto gráfico de André Vallias, dentro da série “Arte na Espreita e na Espera - Poéticas na Quarentena”, um catálogo também em homenagem aos 90 anos reúne cerca de 40 artistas, poetas e músicos, como Adriana Calcanhotto, Arnaldo Antunes, Caetano Veloso, Carlos Adriano, Gilberto Gil, Lenora de Barros, Péricles Cavalcanti e Tom Zé.

O poeta não concedeu entrevista, mas, num breve comunicado em que se declara “um trabalhador da poesia”, demonstra seu prazer com as plaquetes de “extraduções” publicadas pela editora Galileu e com o perfil @poetamenos, criado por seu amigo Alvaro Dutra no Instagram.

“Me ajudaram a sobreviver à decepção do retrocesso brasileiro. Mas considero que o mais importante para o Brasil hoje é livrar-se do coronavírus-19 e do bolsonavírus-22. O quanto antes, melhor. Um vírus mata. O outro imbeciliza”, afirma Augusto de Campos.

Seu vínculo com a editora Galileu, de Jardel Dias Cavalcanti, em Londrina, no Paraná, diz muito do antigo pendor pela independência. Em 2018, o editor traduziu um ensaio sobre o compositor austríaco Webern, escrito por Glenn Gould, e o publicou numa plaquete. Campos gostou do exemplar e foi convidado por Dias Cavalcanti a publicar o que desejasse, no limite de 40 páginas.

“Retrato de Sylvia Plath como Artista” abriu a série das “extraduções”. Até hoje, são 15 plaquetes, dentre elas “Rimbaud”, “Marianne Moore”, “Esses Russos” e “Franceses: de Nerval a Roussel”.

“O que o deixa satisfeito é o fato de que, diferentemente de uma editora tradicional, que leva anos para produzir e divulgar um livro, a Galileu Edições é ágil na produção e encontra nas redes sociais uma forma de divulgação rápida e sem custo”, afirma Dias Cavalcanti.

De vida discreta, Augusto de Campos reapareceu na quarentena com o músico Cid Campos em duas versões do projeto “Transblues” —“Amor em Vão”, de Robert Johnson, e “Visitante dos Céus”, de Jimi Hendrix. Em dois vídeos no YouTube, o poeta acompanha o filho com uma gaita. Antes de tudo, a música.

CICLO DE EVENTOS VIRTUAIS

Augusto 90 - 90 anos de Augusto de Campos
Casa das Rosas. Até 25/2. Programação e inscrições no site: casadasrosas.org.br

Exposições
Poema Cidadecitycité pela Cidade

Biblioteca Mário de Andrade. Tel. (11) 3775-0002. De seg. a sex., das 13h às 16h. Até 23/4. Grátis

Transletras
Biblioteca Mário de Andrade. Tel. (11) 3775-0002. De seg. a sex., das 13h às 16h. Até 11/6. Grátis

 

Falei com a Cassandra da Era da Internet, NYT

 Michael Goldhaber é o profeta da Internet de quem você nunca ouviu falar. Aqui está uma pequena lista de coisas que ele previu: o domínio completo da internet, maior falta de vergonha na política, terroristas cooptando a mídia social, a ascensão da televisão de realidade, sites pessoais, compartilhamento em excesso, ensaio pessoal, fandoms e cultura de influência online - junto com a quase destruição de nossa capacidade de foco. A maior parte disso veio a ele em meados da década de 1980, quando Goldhaber, um ex-físico teórico, teve uma revelação. Na época, ele estava obcecado pelo que considerava um excesso de informações - que simplesmente havia mais acesso a notícias, opiniões e formas de entretenimento do que alguém poderia suportar. Sua epifania foi esta: um dos recursos mais finitos do mundo é a atenção humana. Para descrever sua escassez, ele se agarrou ao que era então um termo obscuro, cunhado por um psicólogo, Herbert A. Simon: "a economia da atenção". Hoje em dia, o termo é abrangente para a Internet e para o panorama mais amplo de informação e entretenimento. A publicidade faz parte da economia da atenção. O mesmo ocorre com o jornalismo, a política, o negócio de streaming e todas as plataformas de mídia social. Mas para o Sr. Goldhaber, o termo era um pouco menos teórico: cada ação que realizamos - ligar para nossos avós, limpar a cozinha ou, hoje, folhear nossos telefones - é uma transação. Estamos pegando a pouca atenção que temos e desviando-a para algo. Esta é uma proposição de soma zero, ele percebeu. Quando você presta atenção em uma coisa, você ignora outra. A ideia mudou a maneira como ele via o mundo inteiro e o perturbou profundamente. “Fiquei pensando que a atenção é altamente desejável e que aqueles que a desejam tendem a querer o máximo que podem obter”, disse-me Goldhaber, 78, em uma ligação da Zoom no mês passado depois de localizá-lo em Berkeley, Califórnia. Ele não conseguia se livrar da ideia de que isso causaria um aprofundamento da desigualdade. “Quando você tem atenção, tem poder, e algumas pessoas tentarão e conseguirão obter uma grande quantidade de atenção, mas não a usariam de maneira igual ou positiva.” Michael Goldhaber Cayce Clifford para The New York Times Em 1997, o Sr. Goldhaber ajudou a popularizar o termo "economia da atenção" com um ensaio na revista Wired prevendo que a internet iria derrubar a indústria de publicidade e criar um "sistema estelar" no qual "quem quer que você seja, como você se expressa, você pode agora tem uma chance no público global. ” Ele descreveu as demandas de viver em uma economia de atenção, descrevendo um tédio que ainda não existia, mas agora parece familiar para qualquer pessoa que ganha a vida online. “A Internet também aumenta a aposta, aumentando a pressão implacável para obter uma fração desse recurso limitado”, escreveu ele. “Ao mesmo tempo, gera demandas cada vez maiores para cada um de nós prestarmos o mínimo de atenção que pudermos aos outros.” Em artigos de jornal obscuros subsequentes, o Sr. Goldhaber alertou sobre os efeitos desestabilizadores da economia da atenção, incluindo como ela tem benefícios desproporcionais para os mais desavergonhados entre nós. “Nossa capacidade de prestar atenção é limitada. Não é assim com nossa capacidade de recebê-lo ”, escreveu ele no jornal First Monday. “O valor da verdadeira modéstia ou humildade é difícil de sustentar em uma economia de atenção.” Em junho de 2006, quando o Facebook ainda estava a meses de lançar seu Feed de notícias, Goldhaber previu os efeitos pessoais fatigantes de uma vida mediada por tecnologias que se alimentam de nossa atenção e recompensam aqueles que são mais capazes de comandá-la. “Em uma economia de atenção, nunca se deixa de estar ligado, pelo menos quando está acordado, pois quase sempre se está prestando, recebendo ou buscando atenção.” Mais de uma década depois, o Sr. Goldhaber vive uma vida tranquila, principalmente aposentado. Ele quase não tem pegada online, exceto por uma conta no Twitter que ele usa principalmente para compartilhar postagens de políticos. Eu o encontrei ligando para seu telefone fixo. Mas vivemos no mundo que ele traçou há muito tempo. A atenção sempre foi uma moeda, mas como começamos a viver nossas vidas cada vez mais online, agora é a moeda. Qualquer discussão sobre poder é agora, em última análise, uma conversa sobre atenção e como a extraímos, manejamos, desperdiçamos, abusamos, vendemos, perdemos e lucramos com isso. Os debates da grande plataforma de tecnologia sobre censura online e moderação de conteúdo? Esses são, em última análise, debates sobre amplificação e atenção. O mesmo acontece com a crise de desinformação. É impossível entender a ascensão de Donald Trump e a ala MAGA da extrema direita ou, realmente, a política americana moderna sem entender o sequestro de atenção e como ele é usado para exercer o poder. Até mesmo a recente alta das ações da GameStop e as repercussões nas mídias sociais do Reddit compartilham esse tema, ilustrando uma verdade universal sobre a economia da atenção: aqueles que podem coletivamente exigir atenção suficiente podem acumular uma quantidade impressionante de poder rapidamente. E nunca foi mais fácil de fazer do que agora. O Sr. Goldhaber estava em conflito com tudo isso. “É incrível e perturbador ver isso se desenvolver na extensão que tem”, disse ele quando perguntei se ele se sentia como uma Cassandra da era da internet. Obviamente, ele viu o Sr. Trump - e os tweets, comícios e domínio das notícias a cabo que definiram sua presidência - como um produto quase perfeito de uma economia de atenção, uma verdade que o perturbou muito. Da mesma forma, ele disse que a tentativa de insurreição do Capitólio em janeiro foi o resultado de milhares de influenciadores e meios de comunicação que, em uma tentativa de ganhar fortuna, fama e atenção, propuseram teorias de conspiração cada vez mais perigosas em plataformas otimizadas para amplificar a indignação. “Dava para ver como havia tantas facções díspares de crentes lá”, disse ele, comentando sobre o excesso de selfies e vídeos de apoiadores do QAnon, membros da milícia, negadores do Covid-19 e outros. “Parecia a expressão de um mundo em que todos buscam desesperadamente seu próprio público e fragmentam a realidade no processo. Eu só vejo isso acelerando.”Embora Goldhaber tenha dito que queria permanecer esperançoso, ele estava profundamente preocupado se a economia da atenção e uma democracia saudável podem coexistir. Discussões políticas complexas, disse ele, quase certamente serão simplificadas em “slogans sem sentido” para viajar mais longe online, e os políticos continuarão a assumir posições mais extremas e ciclos de notícias comandantes. Ele disse que temia que, como no caso do Brexit, “a discussão racional sobre o que as pessoas têm a ganhar ou perder com as políticas seja abafada pelos mais barulhentos e ridículos”. Goldhaber disse que olhar para Trump através das lentes da atenção dá uma compreensão mais profunda de seu apelo aos apoiadores e, potencialmente, de como combater seu estilo de política. Ele disse que muitos dos fatores polarizadores do país são, em essência, atencionais. Não ter um diploma universitário, argumentou ele, significa menos atenção das empresas ou da economia em geral. Morar na zona rural, sugeriu, significa estar mais longe dos centros culturais e pode resultar em sentimento de alienação pela atenção que as cidades geram nas notícias e na cultura pop. Ele disse que, quase por acidente, Trump aproveitou essa frustração, pelo menos fingindo prestar atenção neles. “Seu racismo flagrante e misoginia foram um reconhecimento aos seus apoiadores, que sentem que merecem a atenção e não estão recebendo porque está indo para outras pessoas”, disse ele. Sua maior preocupação, porém, é que ainda não reconhecemos que vivemos em uma economia de atenção estrondosa. Em outras palavras, tendemos a ignorar sua máxima favorita, do escritor Howard Rheingold: “A atenção é um recurso limitado, então preste atenção a onde você presta atenção.” Por onde começamos? “Não é uma questão de sentar-se sozinho e não fazer nada”, disse-me o Sr. Goldhaber. “Mas, em vez de perguntar: 'Como você aloca a atenção que tem de maneira mais focada e intencional?'” Parte disso é pessoal - pensar criticamente sobre quem ampliamos e reavaliar nossos hábitos e hobbies. Outra parte é pensar sobre a atenção da sociedade. Ele argumentou que problemas urgentes como renda e desigualdade racial são, em parte, questões sobre para onde direcionamos nossa atenção e recursos e o que valorizamos. Como alguém que escreve sobre extremismo online, achei uma linha de sua estranhamente atraente. “Nós lutamos para nos sintonizar com grupos de pessoas que sentem que não estão recebendo a atenção que merecem, e devemos melhorar em sentir esse sentimento mais cedo”, disse ele. "Porque é um sentimento poderoso e perigoso." A atenção é um pouco como o ar que respiramos. É vital, mas amplamente invisível e, portanto, não pensamos muito sobre isso, a menos que, é claro, se torne escasso. Se for esse o caso - para estender uma metáfora torturada - parece que nossa atenção ficou poluída. Nós subsistimos disso, mas a qualidade diminuiu. Isso certamente é verdade em minha vida, onde me tornei tão dependente dos estímulos constantes de nosso mundo conectado que frequentemente me encontro fora do controle da minha atenção. Eu o dou a outras pessoas de boa vontade - muitas vezes àqueles que abusam do privilégio. Também me tornei dependente da atenção de outras pessoas, mesmo daqueles que a dão de má-fé. Eu me tornei uma versão da mesma pessoa que o Sr. Goldhaber descreveu em 1997, para quem "não ser capaz de compartilhar seus encontros com ninguém logo se tornaria uma tortura". Talvez você também se sinta assim. “O fundamental é que você não pode escapar da economia da atenção”, disse-me Goldhaber antes de desligarmos. Isso parece verdade. Mas podemos tentar seguir o conselho do Sr. Rheingold. Podemos explorar as maneiras pelas quais nossa atenção é gerada, manipulada, valorizada e degradada. Às vezes, a atenção pode ser simplesmente uma lente através da qual se lê os eventos do momento. Mas também pode nos forçar a compreender melhor como nossa mente funciona ou como valorizamos nosso tempo e o tempo dos outros. Talvez, apenas por reconhecer sua presença, possamos começar a direcioná-lo para pessoas, ideias e causas que são dignas de nosso precioso recurso. Em outras palavras, finalmente vou prestar atenção em onde prestamos atenção.  .

Bolsonaro diz que pedirá acesso a mensagens da Lava Jato e cita venda de informações do Coaf, OESP

 Redação, O Estado de S.Paulo

12 de fevereiro de 2021 | 14h22

BRASÍLIA – Em uma mudança de postura, o presidente Jair Bolsonaro afirmou nesta sexta-feira, 12, que pedirá para ter acesso a mensagens envolvendo o ex-juiz Sérgio Moro e procuradores da Lava Jato que foram vazadas por hackers. O presidente disse ter sido informado que seu nome aparece nas conversas e, por isso, também tem direito a conhecer o que foi tratado. Citando o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), Bolsonaro disse que quer "pegar o cara que vendia informações".

Foi com base em um relatório do Coaf, sobre movimentações atípicas do ex-assessor Fabrício Queiroz, que o Ministério Público iniciou a investigação em qual acusa o senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ), filho do presidente, de comandar um esquema de “rachadinha” quando era deputado estadual no Rio de Janeiro. O documento foi revelado pelo Estadão em dezembro de 2018.

“Mandei pedir aquela matéria hackeada que está na mão do PT, na mão do (ex-presidente) Lula. Tem meu nome lá. Alguma coisa já passaram para mim. Vocês vão cair para trás”, afirmou Bolsonaro a apoiadores pela manhã no Palácio da Alvorada.

“Você vê a perseguição ali, conversas de autoridades falando como é que entravam na minha vida financeira, da minha família. Você pode entrar, mas tem que ter uma ordem judicial. Respeita a lei? Não respeita. Eu quero pegar o cara que vendia informações. Dentro do Coaf, por exemplo. Eu já tenho alguma coisa, que tem chegado para mim, agora vou conseguir. Espero que o Supremo me dê”, disse o presidente, sem, no entanto, detalhar a acusação de venda de informações.

Bolsonaro
‘Mandei pedir aquela matéria hackeada que está na mão do PT, na mão do (ex-presidente) Lula. Tem meu nome lá’, afirmou Bolsonaro nesta sexta-feira, 12 Foto: REUTERS/Ueslei Marcelino

As mensagens hackeadas foram reveladas em junho de 2019 pelo site The Intercept Brasil. Pouco mais de dois meses depois, a Polícia Federal prendeu um grupo de hackers responsáveis pelo vazamento e descobriu que os ataques virtuais também tinham como alvo integrantes da cúpula da República, incluindo Bolsonaro. Nenhuma conversa do presidente, porém, chegou a ser divulgada. 

“O que conseguiram contra eu, Jair Bolsonaro? Não tem nada, pô. Agora ficam em cima de filho, em cima de esposa, de parente, amigo, advogado que advogava para mim”, afirmou o presidente, citando decisão do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1) que considerou irregular um relatório do Coaf sobre movimentações financeiras de Frederick Wasseff, ex-defensor do senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ). O tribunal também determinou que a Polícia Federal investigue desvios na elaboração do documento.

"Aquele advogado que advogava para mim, o TRF-1, arquivou o processo dele e mandou a Polícia Federal investigar o Coaf. Daí eu chego para os caras do Coaf, os caras, não. Quem manda lá em cima. ‘Você fez um levantamento do perfil dessas pessoas que estão aqui? Está tudo certo?’ Não quero falar muita coisa aqui. Porque algumas pessoas lá dentro fazem a coisa errada. Se não fizessem, o TRF-1 não teria anulado o processo contra aquele advogado. Agora, é o tempo todo isso. E não é só isso, pessoal, é porrada o dia todo. Fiquem tranquilos, já falei que sou imbrochável. Fique tranquilos. Vai continuar (inteligível). Não vou ceder."

A defesa de Flávio também suspeita que servidores da Receita Federal acessaram seus dados ilegalmente. Reportagem da revista Época mostrou que a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) encaminhou orientações por escrito a advogados do senador sobre como agir para tentar inocentá-lo no caso das rachadinhas. Um dos caminhos seria apontar irregularidades na obtenção de dados fiscais do filho do presidente.

Operação Lava Jato

As mensagens hackeadas de Moro e procuradores indicam possível interferência do então magistrado nas investigações da Lava Jato, orientando os procuradores sobre estratégias ao longo da operação que levou à prisão de Lula e outras dezenas de políticos e empresários. Os ex-juiz e os procuradores afirmam não reconhecer as conversas reveladas e argumentam que elas foram obtidas por meio de um crime, após hackers invadirem seus telefones.

Parte do conteúdo, que soma cerca de 7 terabytes de informação, está sob sigilo. Na terça-feira, a Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal garantiu à defesa de Lula o acesso às mensagens relacionadas à Lava Jato. O julgamento foi considerado uma espécie de "prévia" de outro julgamento que deve ocorrer ainda no primeiro semestre, de um recurso em que o ex-presidente acusa Moro de parcialidade ao condená-lo.

Em 2019, quando o conteúdo começou a ser divulgado e Moro ainda era seu ministro da Justiça, Bolsonaro chegou a colocar em dúvida a veracidade das mensagens, em apoio ao aliado. No ano passado, no entanto, os dois romperam. O ex-juiz pediu demissão em abril acusando o presidente de tentar interferir na Polícia Federal. Um inquérito no STF apura o caso.