sexta-feira, 12 de fevereiro de 2021

Bolsonaro nomeia deputado João Roma, do Republicanos, como novo ministro da Cidadania, OESP

 Felipe Frazão, O Estado de S.Paulo

12 de fevereiro de 2021 | 19h21
Atualizado 12 de fevereiro de 2021 | 19h46

BRASÍLIA – O deputado João Roma (Republicanos-BA) foi escolhido como novo ministro da Cidadania do governo Jair Bolsonaro. O parlamentar assume a vaga deixada por Onyx Lorenzoni (DEM-RS), que foi deslocado para a Secretaria Geral da Presidência, numa primeira fase da reforma ministerial. A nomeação foi publicada em edição extra do Diário Oficial da União nesta sexta-feira, 12.

Roma, de 48 anos, venceu uma espécie de corrida interna no partido, que também avaliava para o Ministério da Cidadania os deputados Márcio Marinho (RJ) e Jhonatan de Jesus (RR). Ele foi escolhido por ter maior experiência em gestão pública e pela capacidade de articulação nos bastidores. Nos anos 1990 e 2000, passou por cargos de confiança nos governos de Pernambuco, Ministério da Administração, Ministério da Cultura e Agência Nacional de Petróleo (ANP).

João Roma
João Roma é o novo ministro da Cidadania Foto: Luis Macedo/Câmara dos Deputados - 2/7/2020

Antes de ser deputado, João Roma foi chefe de gabinete na prefeitura de Salvador, durante a administração de ACM Neto, presidente do Democratas. Em cinco anos no cargo, era considerado um dos homens fortes da gestão de ACM Neto e teve seu apoio para disputar o primeiro mandato de deputado federal, eleito em 2018. Por causa da crise no DEM, o ex-prefeito apelou para que Roma não aceitasse a indicação, mas o deputado ponderou que tinha aspirações pessoais e que sua indicação fazia parte de um acordo partidário do Republicanos com o Palácio do Planalto.

Em uma conversa recente com a cúpula de seu partido, Roma foi aconselhado a “cortar o cordão umbilical” com ACM Neto. A direção do Republicanos estava incomodada e via na tentativa de barrar Roma uma questão de vaidade do ex-prefeito de Salvador, que veria o “pupilo” assumir um cargo que nunca ele mesmo ocupou e em voo próprio, sem ser pelas suas mãos. Bolsonaro já havia definido a escolha. O ministro da Secretaria de Governo, Luiz Eduardo Ramos, chegou a telefonar ao presidente do Republicanos, Marcos Pereira (SP), para relatar sobre a interferência do presidente do DEM.

Roma é católico, embora o partido seja um dos mais fortes na bancada evangélica e tenha vínculos com a Igreja Universal do Reino de Deus. O deputado é formado em Direito. Nascido em Recife (PE), é casado e tem dois filhos. Ele foi filiado ao antigo PFL, no qual militou na juventude. É neto do ex-deputado federal por três mandatos João Roma (PE), de quem herdou o nome. Nos anos 1960, o avô foi filiado ao PSD e à Arena, partido de sustentação do regime militar - ele deixaria a secretaria-geral da Arena em 1968, em discordância com o Ato Institucional Número 5 (AI-5). 

O ingresso do Republicanos no primeiro escalão de Bolsonaro é a primeira “entrega” a partidos do bloco do Centrão que apoiaram a eleição de Arthur Lira (Progressistas-AL) como presidente da Câmara dos Deputados. A costura foi realizada por Pereira, presidente nacional do Republicanos, que deixou o grupo do ex-presidente da Casa Rodrigo Maia (DEM-RJ), em que era um dos nomes cotados para a disputa, para aderir à campanha do candidato do Palácio do Planalto. 

O movimento do Republicanos e de outras siglas em favor de Lira ocorreu após o governo distribuir recursos e cargos para que deputados apoiassem seus candidatos ao comando do Congresso. O Estadão revelou que apenas do Ministério do Desenvolvimento Social foram repassados R$ 3 bilhões.

Pereira se reuniu com Bolsonaro na terça-feira, dia 9, para tratar da autonomia do Banco Central, pauta conduzida por outro deputado da bancada, Silvio Costa Filho (PE).

O acordo para dar mais espaço ao Republicanos, partido conservador, vinha sendo construído numa aproximação desde o ano passado. Dois filhos do presidente, o senador Flávio Bolsonaro (RJ) e o vereador no Rio Carlos Bolsonaro ingressaram no partido. O partido também indicou, no ano passado, o presidente da CONAB (Companhia Nacional de Abastecimento) José Samuel de Miranda Melo Júnior.

Fundado com apoio de bispos da Igreja Universal do Reino de Deus, o Republicanos nasceu durante o governo Luiz Inácio Lula da Silva e apoiou os governos Dilma Rousseff e Michel Temer. Políticos filiados ao partido foram ministros da Pesca, do Esporte e da Indústria, Comércio Exterior e Serviços.

Tia Eron

O licenciamento de Roma para assumir o ministério da Cidadania abrirá uma nova vaga ao Republicanos na Câmara. A suplente imediata é a ex-deputada Tia Eron (BA). Ela foi secretária nacional de Políticas para as Mulheres em 2019, tendo sido demitida pela ministra Damares Alves, da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos.

Tia Eron foi secretária de Promoção Social e Combate à Pobreza na prefeitura de Salvador, durante a gestão de ACM Neto. Na Câmara, notabilizou-se em 2016 por dar um voto, no Conselho de Ética, que abriu caminho para a cassação do ex-deputado Eduardo Cunha (MDB-RJ). O ex-presidente da Câmara foi preso e condenado na Operação Lava Jato.


Morre Paulo Egydio Martins, ex-governador de São Paulo, OESP

 Morreu nesta sexta-feira, 12, o ex-governador do Estado de São Paulo e ex-ministro Paulo Egydio Martins, aos 92 anos. A notícia do falecimento foi transmitida pelo governador de São Paulo, João Doria (PSDB). Paulo Egydio governou o Estado durante o período da ditadura militar, entre 1975 e 1979.

Paulo Egydio Martins
O ex-governador Paulo Egydio Martins, em foto de 2007 Foto: André Lessa/Estadão - 20/9/2007

“Meu amigo, transmito à viúva e aos seus filhos, parente e amigos a minha solidariedade. Paulo Egydio Martins foi um grande governador de São Paulo. Meu amigo, fiquei muito sentido e muito triste”, afirmou o governador João Doria (PSDB) durante entrevista coletiva nesta sexta-feira, 12.

Paulo Egydio Martins era aliado do então presidente Ernesto Geisel e opositor da chamada linha dura do governo quando enfrentou sua maior crise política: o assassinato do jornalista Vladimir Herzog nas dependências do DOI-Codi, no dia 25 de outubro de 1975.

Em depoimento à Comissão da Verdade de São Paulo em 2013, ele disse que o crime fazia parte de um plano para endurecer ainda mais o regime. “Queriam um regime mais forte, mais violento”, afirmou.  Filiado à época à Arena – partido do regime –, ele se opôs à estratégia do general Ednardo Dávila Melo, comandante do 2.º Exército, que queria “aprofundar” o combate aos que tentavam “subverter” o governo. Em janeiro de 1976, ele foi o primeiro a informar ao presidente sobre o assassinato do operário Manuel Fiel Filho. O crime levou Geisel a exonerar Ednardo do seu posto.

Secretário estadual de Logística e Transportes de São Paulo,  João Octaviano Machado Neto lamentou a morte do ex-governador. “Trata-se de uma perda para a infraestrutura paulista, já que Egydio tem capítulo de destaque na história da logística e transportes paulista. Como governador, inaugurou duas rodovias importantes para a então tímida matriz logística de SP, a Bandeirantes e a Imigrantes.”


I Talked to the Cassandra of the Internet Age, By Charlie Warzel, NYT (definitivo)

 Michael Goldhaber é o profeta da Internet de quem você nunca ouviu falar. Aqui está uma pequena lista de coisas que ele previu: o domínio completo da internet, maior falta de vergonha na política, terroristas cooptando a mídia social, a ascensão da televisão de realidade, sites pessoais, compartilhamento em excesso, ensaio pessoal, fandoms e cultura de influência online - junto com a quase destruição de nossa capacidade de foco. A maior parte disso veio a ele em meados da década de 1980, quando Goldhaber, um ex-físico teórico, teve uma revelação. Na época, ele estava obcecado pelo que considerava um excesso de informações - que simplesmente havia mais acesso a notícias, opiniões e formas de entretenimento do que alguém poderia suportar. Sua epifania foi esta: um dos recursos mais finitos do mundo é a atenção humana. Para descrever sua escassez, ele se agarrou ao que era então um termo obscuro, cunhado por um psicólogo, Herbert A. Simon: "a economia da atenção". Hoje em dia, o termo é abrangente para a Internet e para o panorama mais amplo de informação e entretenimento. A publicidade faz parte da economia da atenção. O mesmo ocorre com o jornalismo, a política, o negócio de streaming e todas as plataformas de mídia social. Mas para o Sr. Goldhaber, o termo era um pouco menos teórico: cada ação que realizamos - ligar para nossos avós, limpar a cozinha ou, hoje, folhear nossos telefones - é uma transação. Estamos pegando a pouca atenção que temos e desviando-a para algo. Esta é uma proposição de soma zero, ele percebeu. Quando você presta atenção em uma coisa, você ignora outra. A ideia mudou a maneira como ele via o mundo inteiro e o perturbou profundamente. “Fiquei pensando que a atenção é altamente desejável e que aqueles que a desejam tendem a querer o máximo que podem obter”, disse-me Goldhaber, 78, em uma ligação da Zoom no mês passado depois de localizá-lo em Berkeley, Califórnia. Ele não conseguia se livrar da ideia de que isso causaria um aprofundamento da desigualdade. “Quando você tem atenção, tem poder, e algumas pessoas tentarão e conseguirão obter uma grande quantidade de atenção, mas não a usariam de maneira igual ou positiva.”Em 1997, o Sr. Goldhaber ajudou a popularizar o termo "economia da atenção" com um ensaio na revista Wired prevendo que a internet iria virar de cabeça para baixo a indústria de publicidade e criar um "sistema de estrelas" em que "quem quer que você seja, como você se expressa, agora você pode ter uma chance na audiência global." Ele descreveu as demandas de viver em uma economia de atenção, descrevendo um tédio que ainda não existia, mas agora parece familiar para qualquer pessoa que ganha a vida online. “A Internet também aumenta a aposta, aumentando a pressão implacável para obter uma fração desse recurso limitado”, escreveu ele. “Ao mesmo tempo, gera demandas cada vez maiores para cada um de nós prestarmos o mínimo de atenção que pudermos aos outros.” Em artigos de jornal obscuros subsequentes, o Sr. Goldhaber alertou sobre os efeitos desestabilizadores da economia da atenção, incluindo como ela tem benefícios desproporcionais para os mais desavergonhados entre nós. “Nossa capacidade de prestar atenção é limitada. Não é assim com nossa capacidade de recebê-lo ”, escreveu ele no jornal First Monday. “O valor da verdadeira modéstia ou humildade é difícil de sustentar em uma economia de atenção.” Em junho de 2006, quando o Facebook ainda estava a meses de lançar seu Feed de notícias, Goldhaber previu os efeitos pessoais fatigantes de uma vida mediada por tecnologias que se alimentam de nossa atenção e recompensam aqueles que são mais capazes de comandá-la. “Em uma economia de atenção, nunca se deixa de estar ligado, pelo menos quando está acordado, pois quase sempre se está prestando, recebendo ou buscando atenção.” Mais de uma década depois, o Sr. Goldhaber vive uma vida tranquila, principalmente aposentado. Ele quase não tem pegada online, exceto por uma conta no Twitter que ele usa principalmente para compartilhar postagens de políticos. Eu o encontrei ligando para seu telefone fixo. Mas vivemos no mundo que ele traçou há muito tempo. Atenção sempre foi a moeda, mas como começamos a viver nossas vidas cada vez mais online, agora é a moeda. Qualquer discussão sobre poder é agora, em última análise, uma conversa sobre atenção e como extraímos, manejamos, desperdiçamos, abusamos, vendemos, perdemos e lucramos com isso. Escolhas dos editores Um escritor de nível internacional e um freeloader de nível internacional Ayaan Hirsi Ali sobre os homens muçulmanos e as mulheres ocidentais Essas pessoas realmente não queriam desistir de seu ioga quente Continue lendo a história principal PROPAGANDA Continue lendo a história principal A grande plataforma tecnológica debates sobre censura online e moderação de conteúdo? Esses são, em última análise, debates sobre amplificação e atenção. O mesmo acontece com a crise de desinformação. É impossível entender a ascensão de Donald Trump e a ala MAGA da extrema direita ou, realmente, a política americana moderna sem entender o sequestro de atenção e como ele é usado para exercer o poder. Até mesmo a recente alta das ações da GameStop e a mídia social do Reddit.

Os efeitos colaterais das mídias sociais do Reddit compartilham esse tema, ilustrando uma verdade universal sobre a economia da atenção: aqueles que podem coletivamente exigir atenção suficiente podem acumular uma quantidade impressionante de poder rapidamente. E nunca foi mais fácil de fazer do que agora. O Sr. Goldhaber estava em conflito com tudo isso. “É incrível e perturbador ver isso se desenvolver na medida em que se desenvolveu”, disse ele quando perguntei se ele se sentia como uma Cassandra da era da internet. Obviamente, ele viu o Sr. Trump - e os tweets, comícios e domínio das notícias a cabo que definiram sua presidência - como um produto quase perfeito de uma economia de atenção, uma verdade que o perturbou muito. Da mesma forma, ele disse que a tentativa de insurreição do Capitólio em janeiro foi o resultado de milhares de influenciadores e meios de comunicação que, em uma tentativa de ganhar fortuna, fama e atenção, propuseram teorias de conspiração cada vez mais perigosas em plataformas otimizadas para amplificar a indignação. “Dava para ver como havia tantas facções díspares de crentes lá”, disse ele, comentando sobre o excesso de selfies e vídeos de apoiadores do QAnon, membros da milícia, negadores do Covid-19 e outros. “Parecia a expressão de um mundo em que todos buscam desesperadamente seu próprio público e fragmentam a realidade no processo. Eu só vejo isso acelerando. ” Embora Goldhaber tenha dito que queria permanecer esperançoso, ele estava profundamente preocupado se a economia da atenção e uma democracia saudável podem coexistir. Discussões políticas complexas, disse ele, quase certamente serão simplificadas em “slogans sem sentido” para viajar mais longe online, e os políticos continuarão a assumir posições mais extremas e ciclos de notícias comandantes. Ele disse que temia que, como no caso do Brexit, “a discussão racional sobre o que as pessoas têm a ganhar ou perder com as políticas seja abafada pelos mais barulhentos e ridículos”. Goldhaber disse que olhar para Trump através das lentes da atenção dá uma compreensão mais profunda de seu apelo aos apoiadores e, potencialmente, de como combater seu estilo de política. Ele disse que muitos dos fatores polarizadores do país são, em essência, atencionais. Não ter um diploma universitário, argumentou ele, significa menos atenção das empresas ou da economia em geral. Morar na zona rural, sugeriu, significa estar mais longe dos centros culturais e pode resultar em sentimento de alienação pela atenção que as cidades geram nas notícias e na cultura pop. Ele disse que, quase por acidente, Trump aproveitou essa frustração, pelo menos fingindo prestar atenção neles. “Seu racismo flagrante e misoginia foram um reconhecimento aos seus apoiadores, que sentem que merecem a atenção e não estão recebendo porque está indo para outras pessoas”, disse ele. Sua maior preocupação, porém, é que ainda não reconhecemos que vivemos em uma economia de atenção estrondosa. Em outras palavras, tendemos a ignorar sua máxima favorita, do escritor Howard Rheingold: “A atenção é um recurso limitado, então preste atenção a onde você presta atenção.” Por onde começamos? “Não é uma questão de sentar-se sozinho e não fazer nada”, disse-me o Sr. Goldhaber. “Mas, em vez de perguntar: 'Como você aloca a atenção que tem de maneira mais focada e intencional?'” Parte disso é pessoal - pensar criticamente sobre quem ampliamos e reavaliar nossos hábitos e hobbies. Outra parte é pensar sobre a atenção da sociedade. Ele argumentou que problemas urgentes como renda e desigualdade racial são, em parte, questões sobre para onde direcionamos nossa atenção e recursos e o que valorizamos.

Como alguém que escreve sobre extremismo online, achei uma linha de sua estranhamente atraente. “Nós lutamos para nos sintonizar com grupos de pessoas que sentem que não estão recebendo a atenção que merecem, e devemos melhorar em sentir esse sentimento mais cedo”, disse ele. "Porque é um sentimento poderoso e perigoso." A atenção é um pouco como o ar que respiramos. É vital, mas amplamente invisível e, portanto, não pensamos muito sobre isso, a menos que, é claro, se torne escasso. Se for esse o caso - para estender uma metáfora torturada - parece que nossa atenção ficou poluída. Nós subsistimos disso, mas a qualidade diminuiu. Isso certamente é verdade em minha vida, onde me tornei tão dependente dos estímulos constantes de nosso mundo conectado que frequentemente me encontro fora do controle da minha atenção. Eu o dou a outras pessoas de boa vontade - muitas vezes àqueles que abusam do privilégio. Também me tornei dependente da atenção de outras pessoas, mesmo daqueles que a dão de má-fé. Eu me tornei uma versão da mesma pessoa que o Sr. Goldhaber descreveu em 1997, para quem "não ser capaz de compartilhar seus encontros com ninguém logo se tornaria uma tortura". Talvez você também se sinta assim. “O fundamental é que você não pode escapar da economia da atenção”, disse-me Goldhaber antes de desligarmos. Isso parece verdade. Mas podemos tentar seguir o conselho do Sr. Rheingold. Podemos explorar as maneiras pelas quais nossa atenção é gerada, manipulada, valorizada e degradada. Às vezes, a atenção pode ser simplesmente uma lente através da qual se lê os eventos do momento. Mas também pode nos forçar a compreender melhor como nossa mente funciona ou como valorizamos nosso tempo e o tempo dos outros. Talvez, apenas por reconhecer sua presença, possamos começar a direcioná-lo para pessoas, ideias e causas que são dignas de nosso precioso recurso. Em outras palavras, finalmente vou prestar atenção em onde prestamos atenção.