terça-feira, 9 de fevereiro de 2021

​ PAULO NOGUEIRA BATISTA JR. A Sibéria já não tem mais fronteiras, FSP (definitivo)

 O debate econômico nos principais órgãos de comunicação brasileiros quase desapareceu nos anos recentes. Com poucas exceções, lê-se e ouve-se um único ponto de vista.

Só recebe grande veiculação o que eu costumo chamar de “ortodoxia de galinheiro”, uma versão empobrecida da ortodoxia econômica ensinada (mas nem sempre praticada) nos EUA. Em geral, repete-se por aqui o que os ortodoxos de lá consideraram verdadeiro em décadas passadas.

Um debate pobre e unilateral, como o que temos, tem consequências perigosas para um país, pois é da contraposição de ideias que surge o progresso. Sem esse debate livre e aberto, sem as fricções que ele produz, não há avanços, e nem se pode falar propriamente em democracia.

A estagnação ou semiestagnação da economia nos últimos 40 anos é, em parte, resultado da estagnação do debate de ideias entre nós. Com um debate livre, dificilmente teriam prosperado políticas econômicas antinacionais, inconsistentes com os interesses da maioria da população. Dificilmente o Brasil teria importado “consensos” que nos levaram a seguir políticas temerárias em diversos períodos, tais como o excessivo de endividamento em moeda estrangeira, a liberalização prematura dos movimentos de capital, a apreciação exagerada do câmbio e o abandono do investimento público em infraestrutura.

A pregação de “reformas” é sempre muito seletiva. Quase nunca são lembradas reformas fundamentais como a do sistema financeiro, a “estatização” do Banco Central (para torná-lo independente de interesses privados) e a redistribuição ampla da renda, inclusive da tributação, para que ela possa ser socialmente justa.

Nos anos 1980 e 1990, vigorava um sistema de censura na Rede Globo, conduzido por um diretor de jornalismo chamado Evandro Carlos de Andrade. Quando um político, economista ou algum outro profissional atuava de forma, digamos, pouco construtiva do ponto de vista do establishment, caia nas más graças do tal Evandro e passava a ser sistematicamente excluído do noticiário. Não podia ser ouvido, entrevistado ou mesmo mencionado.

Uma curiosidade é que o responsável pela lista dos excluídos era um ex-stalinista, que reproduziu comportamento encontradiço em pessoas com esse passado político: usava, na defesa dos interesses do capital, os métodos e vícios aprendidos na escola do venerável Joseph Stalin, grande especialista em apagar o presente e o passado. O mais destacado dos integrantes da lista era Leonel Brizola, que foi quem lançou o mote que estou recuperando agora. Em entrevista à época, Brizola ironizou: “Mandaram-me para a Sibéria”. A alusão era ao passado stalinista do executivo da Globo.

Hoje, o quadro é pior. Na mídia brasileira, a Sibéria quase não tem mais fronteiras. As suas imensas e lívidas paisagens se alastraram por toda a parte —televisão, rádio, jornais, revistas e canais de internet. Além disso, a lista dos exilados inchou e passou a incluir, com exceções ocasionais, a centro-esquerda e a esquerda inteiras. A Sibéria está ficando “​crowdeada”.

Fora da mídia alternativa —basicamente sites, canais e blogs independentes—, quase não há mais espaço para visões críticas ao “consenso do mercado”. Esta Folha, com limitações, é uma das poucas exceções. O brasileiro desavisado haverá de pensar que não existem mais dúvidas sobre os pilares da ortodoxia de galinheiro.

É espantoso, leitor, o que passa por sabedoria econômica no Brasil! Um estágio de curta duração no FMI já faria bem aos economistas do mercado tupiniquim. É que o Fundo, desde a crise de 2008, empreendeu considerável revisão da sua macroeconomia. Hoje, por exemplo, é difícil encontrar na instituição uma defesa radical da austeridade fiscal, que não leve em conta seus efeitos sobre a atividade, o emprego e a distribuição da renda. É verdade que o braço operacional, mais conservador, ainda se mostra relutante em abandonar a abordagem fiscalista. Mas é difícil encontrar algum economista do FMI que elogie, com sinceridade, um teto que congela em termos reais a maior parte do gasto público primário por 20 anos —e ainda por cima inscrito na Constituição.

Como é sintomático do nosso atraso que se possa invocar até o FMI, velho de guerra, para criticar a ortodoxia brasileira!

TENDÊNCIAS / DEBATES
Os artigos publicados com assinatura não traduzem a 

A era da desinformação, Hélio Schwartsman, FSP

 Caro leitor, como você sabe que a Terra é redonda? Bem, você só sabe disso porque alguém lhe contou e você confia nessa pessoa.

Com efeito, nossa experiência do dia a dia é muito mais sugestiva de um planeta achatado do que de um arredondado. Não sentimos a esfericidade em nenhum de nossos deslocamentos ordinários. Só acreditamos na redondez porque foi o que nossos professores nos ensinaram, e essa é uma crença que a comunidade em geral sanciona.

Esse mecanismo de validação social se aplica não só ao formato do planeta mas também a quase todas as "verdades científicas". É um bônus (não precisamos refazer todas as descobertas de nossos antecessores) e um ônus (de vez em quando, ideias falsas, como a da existência de uma planta comestível com aspecto, cheiro e gosto de cordeiro, são aceitas como verdadeiras por séculos).

Os filósofos da ciência Cailin O'Connor e James Owen Weatherall exploram esse e outros aspectos da epistemologia em "The Misinformation Age" (a era da desinformação) para mostrar os riscos que corremos com as "fake news" e outras modalidades de fraude às quais se empresta credibilidade social. A realidade fática, afinal, existe e, cedo ou tarde, cobra seu preço. Não importa se você acredita ou não em mudança climática, o planeta está ficando mais quente e isso gera repercussões concretas.

É uma obra oportuna, gostosa de ler e cheia de curiosidades, como a história da planta-cordeiro. Igualmente interessante, a dupla não se limita a descrever os muitos meios pelos quais as coisas podem desandar. Também faz sugestões de medidas simples para minorar o problema.

Um exemplo afeito ao jornalismo: é preciso cuidado com o tratamento dado ao chamado "outro lado" em controvérsias científicas. Ao dar visibilidade a uma posição que talvez seja francamente minoritária entre cientistas, a imprensa pode estar contribuindo para as narrativas falsas.

Morre o neurocientista Iván Izquierdo, um dos maiores especialistas em memória do mundo, OESP

 Um dos mais renomados neurocientistas do Brasil e do mundo, o pesquisador Iván Izquierdo morreu nesta terça-feira, 9, aos 83 anos, em sua casa em Porto Alegre (RS), algumas semanas após ter desenvolvido um quadro grave de covid-19. De acordo com nota enviada pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), onde ele atuou por 30 anos, sua morte ocorreu devido ao agravamento de uma pneumonia que enfrentava havia seis meses.

Argentino naturalizado brasileiro, o pesquisador era uma das principais referências nos estudos sobre memória em todo o mundo e um dos cientistas do País mais citados no exterior. Trabalhando com ciência básica, ele desvendou os mecanismos bioquímicos e fisiológicos envolvidos na formação das memórias, em como elas são evocadas, como persistem e também como são esquecidas, no que é considerado um dos seus trabalhos seminais. 

Iván Izquierdo
Neurocientista argentino naturalizado brasileiro, Iván Izquierdo, morto nesta terça, 9, era uma das maiores autoridades em estudos sobre memória Foto: Camila Cunha/PUCRS

Essas pesquisas formaram a base de estudos sobre a doença de Alzheimer que são atualmente o foco principal do Instituto do Cérebro (InsCer) da PUC do Rio Grande do Sul, que ele ajudou a fundar em 2012.

“Ele mostrou como os organismos precisam esquecer para dar lugar a novas memórias. Essa identificação de que para a memória existir é preciso esquecer e que o esquecimento não é algo ruim, mas sim muito importante, foi fundamental”, disse ao Estadão o também neurocientista Roberto Lent, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro e amigo de longa data de Izquierdo.

Nos estudos que levaram à descoberta do mecanismo do esquecimento, Izquierdo e equipe conseguiram apagar a memória de ratos  por meio do bloqueio da ação da proteína BDNF (sigla em inglês fator neurotrófico derivado do cérebro), que atua justamente na persistência de uma memória.

"Esse sistema decide se a memória vai persistir por mais dois ou três dias, ou por mais uma semana, um mês ou a vida toda. Mas a verdade é que ainda não sabemos por que algumas memórias se mantêm mais que as outras nem como influenciar isso", afirmou Izquierdo ao Estadão em 2007, alguns meses após a publicação do artigo científico.

O trabalho na época se tornou famoso ao ser aventada a possibilidade de se criar uma droga do esquecimento. A descoberta evocava ao filme Brilho Eterno de Uma Mente sem Lembranças, em que os personagens tomam um remédio para esquecer de momentos sofridos, mas o pesquisador rejeitou a ideia.

"Seria impossível colocar uma cânula diretamente no cérebro, injetar uma droga por meio dela e apagar uma memória específica sem prejudicar outras funções vitais", afirmou em 2007 em uma entrevista à revista Piauí.

Seus trabalhos, porém, foram fundamentais para aumentar o entendimento sobre Alzheimer“Não seria possível estudarmos hoje essa doença de se não tivéssemos as bases, fornecidas por Izquierdo, de como funciona a memória e como esquecemos”, complementa Jaderson Costa da Costa, atual diretor do InsCer.

"Ele era um homem inspirador, culto, tinha uma dedicação e uma persistência para fazer pesquisa nesse País, que nunca foi muito fácil para a ciência. Ele não só conseguiu se dedicar e se aprofundar nas pesquisas de memória como colocou esse núcleo de pesquisa no Brasil em padrões internacionais", disse Costa ao Estadão.

Autor de capítulos e livros sobre o assunto, Izquierdo dedicou um especialmente a esse tema. A Arte de Esquecer revela por que o esquecimento é tão fundamental para o funcionamento das nossas memórias. O livro destaca que “a arte de não saturar os mecanismos da memória é algo inato, algo que nos beneficia de maneira anônima, pois nos impede de naufragar em meio às nossas próprias recordações”.

Ao longo dos mais de 60 anos de carreira, ele também se dedicou às memórias emotivas, especialmente às relacionadas ao medo, que, se por um lado são fundamentais à nossa sobrevivência, também são um dos mecanismos principais por trás do estresse pós-traumático. Izquierdo entendia que era possível lidar com elas, mas não apagá-las. 

Formado em medicina pela Universidade de Buenos Aires, na Argentina, Izquierdo veio para o Brasil em 1973. Logo no começo foi professor de Fisiologia na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), mas depois se instalou na UFRGS, onde ficou até se aposentar, em 2003, como professor de Bioquímica. Na instituição ele foi elevado a professor emérito em 2014. Em 2004, se mudou para a PUC-RS, onde atuou como professor de Neurologia e mentor do InsCer até falecer.

Em nota enviada pelo instituto, o reitor da PUC-RS, Evilázio Teixeira, definiu como “inquestionável” o legado de Izquierdo como pesquisador e formador de novas gerações de cientistas. “Os frutos de seu trabalho seguirão se multiplicando nas áreas do saber em que imprimiu seu nome e produção científica, especialmente na neurociência. A PUCRS se solidariza com sua família, amigos, colegas, alunos e orientandos”, diz.

A UFRGS, também em nota, lembrou que Izquierdo, ao se referir à sua chegada a Porto Alegre, dizia que ali havia descoberto que "correr atrás de um sonho não é suficiente; é necessário se agarrar a ele e montar em cima, pois ele é a própria vida".

A institutição destacou a lembrança de ex-alunos e colegas do neurocientistas, como o médico Diego Onofre de Souza, que foi orientado por Izquierdo em seu doutorado. Para ele, seu antigo mestre "mudou a neurociência internacionalmente enquanto estava na UFRGS”.  Com sua morte, disse, “a ciência perdeu um grande cientista, e a humanidade perdeu um grande benfeitor no que se refere a tratamento e prevenção de doenças neurocerebrais”.

O neurocientista Roberto Lent lembra também a capacidade de inspiração que Izquierdo tinha sobre seus alunos e colegas. “Em toda sua trajetória, da Argentina ao Brasil, ele deixou uma enormidade de discípulos, alunos que se tornaram professores em todas as universidades por onde ele passou. Ele continuava colaborando com os grupos da Argentina, da Unifesp. Por onde ele passou, deixou um rastro de colaboradores e novos cientistas”, diz.

A neurocientista Mellanie Fontes-Dutra, da UFRGs, conta que foi lendo um capítulo sobre memória escrito por Izquierdo em um livro-texto de neurociência que ela se inspirou a seguir nessa área. 

“Ele escrevia com paixão não só sobre as pesquisas que ele consolidou, mas do assunto como um todo. Dava para sentir isso lendo os textos dele e aquilo me fez querer também me tornar aquele tipo de profissional. Ele me mostrou que era possível falar de um assunto complexo de um modo acessível”, diz a pesquisadora, que atua também com divulgação científica.

O governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite (PSDB), lamentou a perda em seu perfil no twitter. “O mundo perdeu hoje um dos seus maiores neurocientistas. Iván Izquierdo, 84 anos, argentino de nascimento e, para nosso orgulho, radicado no RS, era referência mundial em pesquisas sobre memória. Que sua trajetória inspire as novas gerações e simbolize a valorização da ciência”, escreveu.

Premiações internacionais

Izquierdo era membro da Academia Brasileira de Ciências e um dos poucos estrangeiros a também compor a Academia de Ciências dos Estados Unidos. Ao longo da carreira, publicou cerca de 700 artigos em periódicos científicos com quase 23 mil citações. O neurocientista recebeu mais de 60 prêmios e distinções nacionais e internacionais, como a Grã-Cruz da Ordem do Mérito Científico (1996), o Prêmio Conrado Wessel (2007), o Prêmio Almirante Alvaro Alberto (2010), e o título Doutor Honoris Causa das universidades de Paraná e Córdoba. 

Em 2017,  foi o único brasileiro entre os três vencedores do Prêmio Internacional para Pesquisa em Ciências da Vida 2017, da Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (Unesco) por suas descobertas na elucidação de mecanismos dos processos de memória, incluindo consolidação, recuperação e aplicação clínica em envelhecimento. Em 2018 foi laureado com o prêmio Cientista do Ano, na área de neurociências, pelo Instituto Nanocell. Ele é também o pesquisador com o maior número de citações acadêmicas da América Latina. 

Izquierdo deixa a esposa, Ivone, filhos e netos. O velório será nesta quarta-feira, 10, das 8h às 11h no Crematório Metropolitano de Porto Alegre.