segunda-feira, 7 de setembro de 2026

Relatos de puro espanto, Muniz Sodré FSP

 Espanto ou estupefação: a escolha da palavra fica a cargo da parcela crítica do público disposto a avaliar uma notícia recente em alguns veículos de mídia. Trata-se da narrativa em que Ronnie Lessa, o matador de Marielle Franco e Anderson Gomes, explica friamente os detalhes da execução, mas, compungido, lamenta ter assassinado os dois únicos inocentes em sua carreira de crimes. E o público, nada menos que estupefato, ainda fica sabendo que ele não matou mil pessoas, como teriam insinuado. Foi menos, mas poderia ser muito mais, fosse feita a conta de ações conjuntas com a polícia.

Mural grande exibe retrato colorido de mulher negra com cabelo afro e sorriso largo em parede branca. Ao redor, cartazes repetidos com texto 'Marielle Presente' e pichações em janelas e muro. Mulher de costas, com blusa colorida e bolsa vermelha, observa o mural na calçada.
Mural com o rosto de Marielle Franco, vereadora assassinada em 2018 junto ao motorista Anderson Gomes - Getty Images

Horripilante, esse relato evoca Jean-Jacques Rousseau em "A Nova Heloísa" quando menciona um jeito de "negar o que é, e de explicar o que não é". A negação permite manipular a percepção plena de algo que existe, para naturalizar o lado obscuro dessa existência. É quando a explicação serve para confundir, como diz o compositor Tom Zé.

"Negar o que é" equivale a desconversar sobre uma estrutura sociopolítica criminosa emergente no território fluminense a partir da infiltração do velho caciquismo, com os vícios de políticas interioranas, nos aparelhos de Estado. São amostras o parentesco e o compadrio das alianças partidárias, mas igualmente a reconfiguração dos antigos capangas como matadores profissionais. A indiferença aos direitos humanos por parcelas expressivas da sociedade é fator de expansão desse fenômeno, com vezos de autonomia: o "escritório do crime", horror público.

Mas à estupefação com o relato do pistoleiro segue-se um espanto crítico ante o comportamento da mídia. Abordou o fato como fait-divers, isto é, notícia curiosa que rompe a normalidade cotidiana, e aí ficou, sem relacioná-la à estrutura criminosa que se mantém de pé. Ao mesmo tempo, entretanto, acendeu holofote continuado sobre um incidente universitário, em que alunos agrediram outro por suposto uso de insígnia nazista. Numa das matérias, chegou-se a comparar com o linchamento fatal de um ciclista em Copacabana.

O fato é condenável, não se discute, nem se justifica manifesto de docentes em apoio a agressores. Mas a atitude imediata do reitor Roberto Medronho, um dos melhores nesses tempos de carência por que passam as instituições públicas de ensino e pesquisa, foi exemplar: abriu sindicância, deu entrevista clara, os responsáveis serão avaliados. Não foi ato de uma "esquerda" imaginária encarnada: tratou-se mesmo de inaceitável violência por parte de adolescentes exaltados, no âmbito da UFRJ. Daí ser também espantoso o persistente foco da mídia carioca sobre o assunto, simultâneo e minimizador do relato do pistoleiro. Universidade pública pode ser alvo empresarial mais impactante.

Quando se pensa em "jornalismo do futuro", conviria ser incorporada a definição por Machado de Assis de jornal como "a verdadeira forma da república do pensamento" (em "O Jornal e o Livro"). Sim, diante da metástase eletrônica da informação desinformativa, o bom jornalismo ainda é "expressão, um sintoma de democracia". Nunca foi tão crucial a reflexão responsável sobre o que se ouve e publica.

Hélio Schwartsman - Economia moral ,FSP

 "Moral Economics", de Alvin Roth, é um livro delicioso que ilustra com perfeição esse tipo de dilema. Roth, Nobel de Economia de 2012, mostra que grande parte das controvérsias de nosso tempo é resultado do fato de que pessoas estão dispostas a praticar ações ou transações que são vistas como repugnantes (imorais) por uma parcela de seus conterrâneos. É o caso do aborto ou do uso de drogas para recreação.

Há uma categoria ainda mais intrigante de atividades que a maioria aceita bem, mas que se tornam controversas se envolverem trocas monetárias. É aí que entram prostituição, barriga de aluguel e comercialização de órgãos. Roth vai a fundo nesses e em outros problemas. Descreve implicações que nem imaginávamos existir. Como diferentes países têm diferentes tolerâncias e regulamentações, surgem alguns experimentos naturais que nos permitem ver essas questões com ao menos um fiapo de objetividade.

Legalizar a prostituição, por exemplo, protege as mulheres. Se os americanos não permitissem pagar por plasma, o mundo teria um sério problema de falta de hemoderivados.

Há brigas que valem a pena ser compradas, mas às vezes é melhor contemporizar. A repugnância à comercialização de órgãos é tão grande que parece bobagem insistir na criação de um mercado de rins, como o que existe no Irã. Roth conta sua experiência de ter ajudado a desenvolver um sistema de doações de rins pareadas (parentes sem histocompatibilidade encontram um par na mesma situação, mas com o qual tenham compatibilidade cruzada), que ajudou a reduzir ainda que muito modestamente a fila de transplantes.

Mottaina.i 勿体無い: uma qualidade a apreciar - Japan House Sp

 Com uma nova palavra, um novo coração. Juntamente com o budismo introduzido no século VI, concepções exteriores começaram a penetrar no Japão, primeiramente entre as gentes aristocráticas, e a se amalgamar a experiências nativas conforme se espraiaram, sempre permeando-se de mudanças no tempo.

Motta, substantivo composto dos ideogramas que denotam “negar” e “corpo”, veio com o sentido búdico de “o corpo [valor, caráter] verdadeiro das coisas”, a indicar a importância de todos os seres, animados ou inanimados, que compõem o mundo.

Com a conexão da partícula nai que indica negação, mottainai muda de categoria gramatical e se torna um qualificativo, a significar “perder o corpo [valor, caráter] verdadeiro das coisas”, e sua significação sofre mudanças culturais. A começar por “ser inconveniente para os kamis, budas e pessoas importantes, não entregar o devido” (em obra anônima Relatos da rebelião Meitoku, 1392-1396, primeira das narrativas de guerra, como pacificação de espíritos). Passa a ter o sentido de “ser inconveniente, ficar em dívida com alguém, ser demais” (exemplos em peças curtas cômicas kyōgen do século XVII. Encontram-se registros, por exemplo, com o sentido de “ter aparência de se dar ares de grande respeito; ser arrogante” (como em obras de Ihara Saikaku, 1642-1693); ou o de “ter a aparência, conhecer o peso das coisas” (no pincel de Chikamatsu Monzaemon, 1653-1724, em As batalhas de Coxinga, de 1715).

Finalmente, alcança o sentido mais conhecido atualmente de “sentir pena pelo resultado inútil de não se ter conseguido fazer brilhar o valor das coisas [desperdiçar]”. Se descartamos um objeto que ainda pode ser utilizado, isso é mottainai. Gastar o tempo tagarelando é mottainai. Assim também o grão de arroz abandonado na tigela. Saber quando ou o que é “desperdício”, entretanto, nem sempre é fácil.

Uma pessoa pode ser julgada mottainai caso pretenda se casar com outra (por lhe ser muito superior); podemos utilizar palavras mottainai em relação aos outros (elogiá-los em demasia). Conhecer o valor das coisas, apreciá-las, cultuá-las mas valorizá-las em excesso pode ser observado nos tsukumo-gami 付喪神 (objetos domésticos animados), um tipo de yōkai 妖怪 (demônio, fantasma, aparição, espectro, ser fantástico) que assombram existências apegadas. Uma reverência superlativa por objetos pode ser observada no culto a espadas, tigelas de chá, pincéis de caligrafia, caixas variadas, guarda-chuvas, quimonos, bonecas, trens e etc.

Em muitas formas, uma atitude mottainai se mostra como humildade ontológica para com os problemas ambientais. Depois do desastre de Fukushima, colocam-se de modo muito claro desafios como os de alimentação, ar, água e energia atômica. Daí que o movimento ambiental tenha surgido como resposta a uma industrialização excessiva e selvagem. Atitudes que consideram soluções que minimizem o uso mottainai se somam para combater a poluição, a destruição conectada com resíduos da indústria de metais pesados. O carma dos resíduos recai sobre nós, pois estamos fundamentalmente ligados numa rede interdependente de causalidade com tudo que existe fora de nosso corpo.

O qualificativo mottainai, portanto, traz à consciência contemporânea a necessidade de nos conectarmos ao ambiente de um modo humilde e respeitoso, sem desperdícios, atribuindo o devido valor a todas as matérias, numa interpretação animística de novas ecologias.

Madalena Natsuko Hashimoto Cordaro
Docente sênior do Programa de Poéticas Visuais da ECA/USP

Sobre a autora

Madalena Hashimoto Cordaro lecionou literatura japonesa na FFLCH-USP de 1990 a 2016. Atualmente está filiada ao Programa de Poéticas Visuais da ECA-USP. Entre as principais exposições encontram-se: Transpacific Borderlands – The Art of Japanese Diaspora in Lima, Los Angeles, Mexico City, and São Paulo (2017), Identidades e identificações (2016), Das dez mil faces (2008). É autora dos livros: A erótica japonesa na pintura e na escritura dos séculos XVII a XIX (São Paulo: Edusp, 2018, 2 vols) e Ukiyo-e pinturas do mundo flutuante (São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2008, 2 vols), além de assinar traduções, artigos e capítulos.