terça-feira, 2 de junho de 2026

Gilberto Natalini e Ivo Patarra - JK, o resgate da verdade histórica, FSP

 O presidente Juscelino Kubitschek perdeu a vida num desastre de carro na Via Dutra, município de Resende (RJ), em 1976, durante a ditadura militar. O resultado da perícia, conduzida por autoridades da época, concluiu que JK e seu motorista, Geraldo Ribeiro, morreram num acidente de trânsito.

No início, culparam o motorista Josias Nunes de Oliveira, homem negro, que dirigia um ônibus da Viação Cometa. Ele teria sido o responsável pela batida contra o Opala em que estava JK, o que teria lançado o automóvel na pista da contramão e provocado a colisão com um caminhão que vinha em sentido contrário.

Depois ficou provado que o ônibus não abalroou o veículo de JK e seu motorista foi inocentado, mas a versão do "acidente" perdurou até hoje.

A imagem em preto e branco mostra um carro conversível gravemente danificado após um acidente. O veículo parece estar destruído, com a parte traseira completamente esmagada e a estrutura deformada. O local do acidente parece ser uma área rural ou uma estrada com vegetação ao redor. No fundo, há uma estrutura que pode ser um viaduto ou uma ponte. Um homem, possivelmente um policial ou investigador, observa a cena no interior do carro. A atmosfera da foto sugere um evento trágico ocorrido à noite
O Opala de JK destruído na colisão com carreta na via Dutra, em 1976 - Folhapress

Em 1996, após a morte de dona Sarah Kubitschek, pressionada enquanto viveu a não pedir uma investigação séria sobre a morte do marido, Serafim Jardim, que fora secretário-particular de JK, solicitou a reabertura do caso. Mas o reexame chegou à mesma conclusão, a de que houve um "acidente".

Ficou a dúvida sobre a versão do regime militar. Muitos acreditavam num atentado político contra JK. Ele fora perseguido, cassado e exilado. À época de sua morte, articulava nova candidatura à Presidência da República, mesmo que tivesse de enfrentar eleição indireta, pelo Colégio Eleitoral, em 1978. Aliado a João Goulart e Carlos Lacerda, havia criado a Frente Ampla. Os militares o temiam.

Em 2000, nova comissão reabriu investigações no âmbito do Congresso Nacional. Porém, uma vez mais, concluiu-se pela morte acidental. Como a de 1996, fez uso das "provas" do Instituto de Criminalística Carlos Éboli, do Rio de Janeiro, com suas fraudes e erros grosseiros forjados na ditadura.

Em 2013 e 2014, a Comissão Municipal da Verdade Vladimir Herzog, instalada na Câmara Municipal de São Paulo, presidida e assessorada por nós, reuniu, após exaustivo trabalho de investigação, 114 circunstâncias, evidências, indícios e provas para concluir: JK fora vítima de um atentado.

Não fomos só nós. A Comissão Estadual da Verdade Rubens Paiva, na Assembleia Legislativa de São Paulo, e a Comissão Estadual da Verdade de Minas Gerais, em Belo Horizonte, foram na mesma direção: JK havia sido eliminado por agentes da ditadura.

As conclusões das três comissões, no entanto, foram desconsideradas pela Comissão Nacional da Verdade em 2014, que se baseou nos mesmos argumentos falaciosos usados em 1976, 1996 e 2000.

Em 2019, a pedido do Ministério Público de Resende, o perito Sérgio Ejzenberg produziu um laudo cabal, com 200 páginas, demolindo a versão do "acidente" entre o ônibus e o Opala.

Com o laudo, oficiamos o Ministério dos Direitos Humanos e a Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos para que reabrissem o caso JK. Mais uma vez, buscávamos a verdade sobre a morte violenta de um ex-presidente do Brasil.

Agora, dois anos após uma investigação abrangente, a Comissão Especial acaba de divulgar relatório de mais de mil páginas e a conclusão de que JK foi assassinado num atentado perpetrado pelo regime militar.

Nosso sentimento é de alívio. Enfim, o resgate da verdade.

O momento é de dupla emoção. Em primeiro lugar, temos a verdade histórica reestabelecida. Nenhuma nação pode ser construída numa conjuntura histórica de mentiras.

Em segundo, porque JK era respeitado por grande parte dos brasileiros. Por sua personalidade e conduta ética, democrática, conciliadora, agregadora e empreendedora. Era um estadista e respeitava as forças políticas do país.

Por isso reverenciamos sua importância política e lamentamos o atentado vergonhoso que vitimou um homem de 74 anos e seu motorista, de 66. Dois senhores, desarmados, covardemente assassinados por agentes que sabotaram o carro, provavelmente envenenaram o motorista num hotel e ainda fizeram uma tocaia para que tentassem a fuga impossível, no veículo que já não dispunha de freios.

Faz falta JK, político que promovia a reconciliação. Principalmente no Brasil de hoje, dividido por uma polarização que tanto mal faz ao povo brasileiro.

José Marcelo Zacchi, Luciana Elmais e Selma Moreira - Em defesa do dissenso, FSP

 Sociedades florescem na diferença. Não concordo com o que dizes, mas defenderei até a morte o direito de dizeres. Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos; são dotados de razão e consciência e devem agir em relação uns aos outros com espírito de fraternidade.

É notável como essas passagens, singelas na expressão clássica do pensamento democrático, soam deslocadas em nosso tempo. De formas variadas, caminhamos no passado recente para a erosão das capacidades de convívio na diferença, substituindo-as pelo espírito de grupo, afirmação de certezas e satanização da divergência nos mais diversos espaços —do convívio familiar ao debate político, de escolas e universidades a ambientes de trabalho, de espaços públicos a meios de comunicação.

Sobre um fundo cor de laranja claro, ilustração de Martin Kovensky publicada na Folha de S.Paulo em 3 de dezembro de 2023 , mostra dois homens andando em direções opostas. Ambos aparecem no centro da cena e andam para as laterais. Eles são feitos com contorno preto e preenchimento branco deslocado. Os dois seguram um pedaço da bandeira do Brasil, que se partiu ao meio
Ilustração de Martin Kovensky

As razões são, sabidamente, muitas. Nos deparamos neste período com a emergência de múltiplas crises compartilhadas —econômicas, ambientais, sanitárias, de confiança e efetividade da representação política. E vivenciamos uma profunda transformação da arena pública, migrada para ambiente digital marcado pela contradição de fazer-nos muito mais próximos e somar incontáveis vozes ao debate, ao mesmo tempo que moldado para fomentar conflito e fragmentação em lugar de escuta, diálogo construtivo e compreensão mútua. É difícil afastar a hipótese de termos até aqui falhado coletivamente na resposta a essas dinâmicas.

Difícil igualmente dissociá-las de contextos coletivos, no Brasil e no mundo, crescentemente incapazes de afirmar coexistência, gerir conflitos de forma produtiva e construir soluções para os múltiplos desafios que se avolumam diante de nós: econômicos, sociais, ambientais, de paz e segurança, modos de convivência e produção de direitos, bem-estar e prosperidade na arena comum.

Diante disso, pode ser assim paradoxalmente valioso revisitar juntos os sentidos mais singelos do projeto democrático, como os evocados acima: em tempos de polaridades tóxicas, impossibilidades de convívio e percepção crescente de ameaças, lograr recordar que do livre debate de ideias e da soma de repertórios na sociedade emerge mais bem público no fim do dia do que se a qualquer de nós for dado apontar os caminhos individualmente.

Que sociedades dispostas a isso, abrigando com efetividade repertórios culturais, espirituais, econômicos, científicos e políticos diversos, são fontes de vitalidade e notavelmente mais aptas a vencer desafios e produzir avanços em todas as instâncias da vida coletiva. Que para isso ser possível é preciso saber cultivar tolerância, lembrar que o desafio da liberdade será sempre antes de tudo o de sua extensão ao outro, distinto de nós, que verdade é conceito fugidio, não apropriável por ninguém, e que a exposição à divergência, se por não raro causar desconforto ou indignação, é condição vital de crescimento individual e coletivo.

São lembranças simplórias, e podem naturalmente soar ingênuas no contexto. Mas sem as quais será ao mesmo tempo impossível refazer as bases para instituições democráticas sólidas e a substituição de conflagração por soluções na agenda pública.

Movidos por isso, iniciamos em abril último, ao lado de grupo inspirador de vozes na arena cidadã, a formação de espaço novo voltado à reafirmação desses princípios entre nós. Buscando acolher e reunir atores identificados com eles ao longo do espectro social e político, a Mesa Plural propõe-se a atuar como plataforma aberta ao diálogo franco, revalorização de práticas vocacionadas a ele e renovação do convívio democrático no cotidiano.

Neste ano eleitoral, e além dele, na vida política, mas não só nela, que possamos ser capazes de reavivar os sentidos de uma esfera pública aberta e generosa, definida não pela convergência ou unidade mas pelo dissenso virtuoso e enriquecedor, vocacionada a prover genuinamente reconhecimento e respeito plenos a todos os seus integrantes. E lembrar sempre que será dela, para além do que nos distingue e separa, que poderão emergir destinos comuns possíveis e duradouros, em tudo que nos desafia.