segunda-feira, 11 de maio de 2026

Dosimetria: foi o STF ou os militares de alta patente que evitaram o golpe?, Fabiano Lana, OESP

 Talvez não proceda a versão de que diminuir as penas, sobretudo para os que participaram do quebra-quebra do 8/1 de 2023, seja um risco para a democracia atual. Pela evidência, com base nos fatos conhecidos, de que, quando as depredações ocorreram, o Brasil não corria mais risco concreto de golpe de Estado. Foram atos de uma massa com intenções desde sempre golpistas, porém já derrotada, em um movimento violento de catarse. Mesmo o ex-presidente Jair Bolsonaro estava isolado naquelas circunstâncias.

Por outro lado, uma das versões semioficiais dos acontecimentos que levaram à prisão de Bolsonaro sustenta que o chamado inquérito da fake news, comandado pelo ministro Alexandre de Moraes, foi um elemento fundamental para salvar a democracia brasileira. Mesmo quem admite excessos como censura prévia ou eventuais decisões heterodoxas costuma concordar com a tese. Como se, paradoxalmente, foi necessário sair por um momento do Estado de Direito para salvar o... Estado de Direito.

Alexandre de Moraes suspendeu a chamada Lei da Dosimetria, que diminuiria as penas dos envolvidos com os movimentos golpistas
Alexandre de Moraes suspendeu a chamada Lei da Dosimetria, que diminuiria as penas dos envolvidos com os movimentos golpistas  Foto: Wilton Junior/Estadão

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Teria sido, portanto, uma decisão política do magistrado. Também por isso (entre tantas razões), neste momento, qualquer decisão proferida por Moraes – como a suspensão da chamada Lei da Dosimetria, que diminuiria as penas dos envolvidos com os movimentos golpistas – tem sido percebida não como obediência às leis, mas como algum movimento calculado.

Quando voltamos aos depoimentos dos integrantes da alta cúpula que embasaram a condenação de Bolsonaro, essa visão de um STF salvador da pátria pode ficar em xeque. Há contradições e ambiguidades, porém, teria sido uma recusa em participar do golpe pelo então chefe do Exército, general Freire Gomes, que frustrou os planos do ex-presidente em decretar estado de sítio ou uma Garantia de Lei e da Ordem (eufemismos jurídicos da ocasião para a tentativa de sufocar o Estado de Direito), em uma reunião ocorrida ao final de 2022, no Palácio da Alvorada. Segundo o depoimento do chefe da Aeronáutica, Carlos Baptista Júnior, “caso o comandante tivesse anuído, a possível tentativa de golpe de Estado teria se consumado”. Não sabemos as razões do general em agir dessa maneira. Achou tudo inviável, amor à democracia?

Apenas o chefe da Marinha teria apoiado a proposta que impediria a posse de Lula, o presidente eleito. Após as negativas da maioria dos representantes da cúpula das Forças, Bolsonaro parte para a Flórida, na aeronave presidencial. Levava um comprovante falso de vacina contra a covid para entrar nos EUA – o que, no desenrolar dos fios, acabou por se tornar sua ruína.

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Após a recusa do general, os militantes bolsonaristas na frente dos quartéis seguiram na sua cantilena em busca de uma intervenção militar. O general Freire Gomes se transforma em um vilão desta turma. Foi bastante ofendido nos grupos de aplicativos do pessoal. Finalmente, no dia 8/1 de 2023, os acampados caminham até a Praça dos Três Poderes em Brasília e iniciam a depredação às sedes das instituições.

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A questão é que, no momento da depredação, é provável que o risco de golpe de Estado já estivesse afastado. Ali estavam buchas de canhão que sofreram as consequências da manipulação política, do delírio e da loucura. Foram fortemente punidos, com penas, em alguns casos, consideradas extravagantes – pois eram apenas peões, massa de manobra de um jogo perdido.

A virtude, como costuma vir ao centro. A punição aos envolvidos é necessária, sobretudo dos líderes. O problema talvez tenha sido errar a dose, o que transforma autores de crimes e de abusos em vítimas ou mártires de uma causa. A discussão sobre a chamada dosimetria deveria envolver esse tipo de preocupação – com a justiça e as consequências do justiçamento.

Vila no Tatuapé que foi parcialmente demolida pode ser destombada em SP, FSP

 Priscila Mengue

São Paulo

Com a polêmica decisão sobre o "destombamento" da Escola Panamericana adiada e sem nova data oficial, o Conpresp (conselho municipal de patrimônio cultural) deve deliberar nesta segunda-feira (11) se vai revogar outro reconhecimento de um bem histórico da cidade de São Paulo: o da vila João Migliari, no Tatuapé, na zona leste.

O conjunto chamou a atenção em 2019, após ter sido quase totalmente demolido em meio à mobilização de uma parte dos antigos inquilinos e de outros apoiadores.

Prédio antigo de dois andares com janelas e portas desgastadas, algumas janelas sem vidro, localizado em área urbana. Fachada clara com sinais de desgaste. Ao redor, postes e fios elétricos visíveis, com semáforo vermelho. Ao fundo, prédios modernos altos de vidro e concreto.
Sobrados remanescentes da Vila João Migliari, no Tatuapé - Eduardo Knapp/Folhapress

O tombamento da vila é contestado pelos herdeiros do primeiro proprietário — Bruno Lembi, morto em 2015, aos 97 anos —, por meio da Voga Empreendimentos. A família chegou a contratar um arquiteto em 2019 para evitar o reconhecimento, mas não conseguiu, com decisão final do Conpresp em 2023.

A alegação é que o conjunto ficou descaracterizado após as demolições e não teria valor cultural tão significativo. A empresa foi procurada pela Folha, mas não quis comentar sobre o caso.

O recurso aberto pela Voga chegou a ser debatido em reunião do Conpresp em março de 2025, mas foi retirado de pauta após um dos integrantes pedir vista. Outra conselheira, representante da Secretaria Municipal de Urbanismo e Licenciamento, chegou a apresentar proposta de destombamento da vila, com o argumento baseado na demolição de 55 das 60 casas.

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A decisão do Conpresp também avaliará parecer elaborado em novembro de 2024 por técnica do Departamento do Patrimônio Histórico, da prefeitura. O relatório indica a continuidade do tombamento e o fim da "área envoltória", que restringe construções no entorno imediato a até oito metros de altura. Hoje, um estacionamento funciona no local, enquanto um supermercado foi construído na esquina oposta.

Os cinco sobrados remanescentes da vila seguem esvaziados e com ares de abandono. Antes cafeteria, salão e outros tipos de serviço, foram majoritariamente esvaziados para a demolição de 2019 — exceto a barbearia-bar do inquilino que barrou a derrubada na Justiça, que deixou o espaço em 2020, na pandemia.

A vila foi construída nos anos 1950 pelo empresário Bruno Lembi. Era caracterizada pelos sobrados em cor salmão, geminados de cinco em cinco, com quintal nos fundos e muros baixos.

O tombamento definitivo foi aprovado em 2023, com cinco votos favoráveis, um contrário e duas abstenções. No estudo que embasou a deliberação, é destacado que mantinha grande parte das características originais — diferentemente de outras vilas, alteradas ao longo das décadas conforme são vendidas pelos donos originais.

Autor do pedido de tombamento sugere liberar prédios perto da vila

Autor do pedido de tombamento, o arquiteto e urbanista Lucas Chiconi critica o estado dos sobrados, que estavam em bom estado de conservação até 2019. "É uma estratégia para fazer com que pessoas do bairro enxerguem o tombamento como algo ruim. Mas não foi o tombamento que fez isso: quem fez foi o proprietário", diz.

Chiconi apoia, contudo, a revogação da área envoltória da vila, como uma alternativa para tentar salvá-la. Ele considera que, mesmo com novos prédios no entorno, as características da construção e a localização em uma esquina movimentada a manteriam em destaque.

"A relação das casas com a rua estaria preservada. Seria bom para todo mundo", analisa. Como exemplo, o palacete do shopping Pátio Higienópolis, no centro, e a Casa das Rosas, na avenida Paulista, são construções tombadas incorporadas a novos empreendimentos.

Sobre a votação no Conpresp, Chiconi considera que eventuais destombamentos da vila e da Escola Panamericana podem dar início a uma onda de decisões semelhantes. "Se isso acontecer, não será apenas com os sobrados. Está virando moda pedir destombamento", argumenta ele, que é integrante do Núcleo de Patrimônio do IAB-SP (Instituto de Arquitetos do Brasil).

Folha procurou a Secretaria Municipal de Cultura, que confirmou a votação sobre a vila nesta segunda e afirmou que a deliberação a respeito da Panamericana não tem data marcada. A pasta não comentou, contudo, as tentativas de destombamentos e críticas ao conselho — formado majoritariamente por representantes da prefeitura, parte deles sem formação em áreas ligadas ao patrimônio cultural.

Já o ex-inquilino da vila e também arquiteto e urbanista Carlos Vaz tem apresentado uma proposta para o espaço a vizinhos. Ele defende a transformação de parte dos sobrados no Centro Bruno Lembi, um observatório do patrimônio cultural da zona leste, inclusive da memória das vilas.

Ele aponta que é necessário voltar a dar uso aos sobrados e restaurá-los. "No momento, se encontram em estado de abandono, que, se permanecer por mais algum tempo, levará ao colapso das estruturas e, por consequência, à inevitável queda", avalia.

Assim como Chiconi, Vaz também diz não ser contrário à intensa verticalização do Tatuapé. Ressalta, porém, que a vila tem um papel de preservar um pedaço do passado do bairro.