quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Ruy Castro - Bzzzs e brrrs -FSP

 Há anos, contei aqui que, certa noite, tive de recorrer a meu dentista, dr. Americo, numa emergência. De repente, ouvi ruídos na sala ao lado. Eram sons de brocas, gargarejos, vozes abafadas e um ou outro gemido. Detalhe: estávamos sozinhos no consultório. Perguntei o que era e Americo não se abalou: "É um dentista que trabalhava aqui. Morreu faz tempo. Os clientes que ele atendia também já morreram, mas parece que alguns com o tratamento pelo meio. Devem ter vindo para terminar". Fiquei encantado com a naturalidade com que Americo se referia a um colega já defunto e sua clientela idem. "Não me incomoda", disse. "Ele só começa a trabalhar depois que vou embora."

Ao ler a coluna publicada, temi que ela prejudicasse Americo —quem vai querer frequentar um consultório assombrado? Mas, ao contrário, Americo se espantou com a quantidade de emergências noturnas que passou a atender. Só temia que seus clientes passassem a preferir o dentista fantasma.

Cena do filme 'A Estirpe dos Malditos' (1964), de Anton M. Leader
Cena do filme 'A Estirpe dos Malditos' (1964), de Anton M. Leader - Divulgação

Outro dia, fiquei sabendo que Leonardo, meu cabeleireiro, está passando pela mesma experiência em seu novo salão, numa casinha da velha Ipanema. Durante o dia, tudo corre sem novidades. Mas, nas noites de grandes acontecimentos sociais no Rio, em que as madames o solicitam poucas horas antes dos eventos, é possível escutar, vindo do segundo andar, a faina cortante das tesouras, a vibração dos secadores e o bzzz das maquininhas elétricas. Leonardo me explicou: é o seu falecido antecessor no salão, ainda sendo solicitado pelas clientes também já falecidas e cujo cabelo continua a crescer depois de elas terem feito a passagem.

É fácil entender por que as pessoas de quem se diz que foram desta para melhor insistam em se manter fieis aos profissionais que as atendiam em vida. Acham difícil desapegar de especialistas a quem se acostumaram. E, quando sabem que seu dentista ou cabeleireiro também morreu, retomam o contato. Com sorte, reencontram até a antiga secretária.

Talvez alguém faça brrr ao ler isto. Quem manda acreditar na vida eterna?

Que diferença faria se a Europa fosse uma federação?, Rui Tavares, FSP

 Pouca gente sabe, mas o primeiro autor a propor uma União Europeia foi alguém que acabara de chegar das Américas. Chamava-se William Penn, inglês e fundador da Pensilvânia. Em 1693, ele imaginou um Parlamento europeu para garantir a paz entre as nações do continente que deixara para trás.

Do outro lado do Atlântico, observando o estado de guerra permanente na Europa, Penn concebeu a ideia de uma federação. Ironicamente, seriam as Américas a adotar primeiro essa forma política, enquanto a Europa esperaria séculos para a redescobrir.

Quatro bandeiras da União Europeia em pedestal de madeira à direita, com estrelas amarelas sobre fundo azul. Ao fundo, várias bandeiras nacionais dos países membros alinhadas em arco, em salão com estrutura metálica e janelas amplas. Tapete vermelho no chão conduz ao centro da cena.
Bandeiras dos países europeus e da União Europeia em encontro de líderes, na Bélgica - Piroschka Van De Wouw/Reuters

Mas hoje, na própria Europa, o federalismo tornou-se quase uma palavra proibida —a famigerada "palavra começada por F". Muitos nacionalistas europeus acreditam que fazer uma federação significaria enterrar o Estado-nação. No entanto, os países europeus dividem-se, no fundo, em dois tipos: os pequenos e os que ainda não perceberam que são pequenos. Num mundo dominado por potências continentais como a China, a Índia ou os Estados Unidos, o mito da autossuficiência nacional tornou-se insustentável.

Foi essa constatação que inspirou Mário Draghi, ex-primeiro-ministro italiano e ex-presidente do Banco Central Europeu, a defender que a Europa só é respeitada onde aplica políticas federais —como na zona do euro ou no espaço Schengen— e que nunca o será se continuar a limitar-se ao método confederal.

Essas áreas, afinal, já ultrapassam as fronteiras da própria União: há países de dentro que não participam delas, e países de fora que nelas estão. Onde a União é forte —no mercado interno, por exemplo— age como federação; onde é fraca —na política externa, na defesa, na indústria— age como uma confederação e, portanto, hesita.

A diferença entre os dois métodos não é teórica, é prática. O método confederal exige sempre unanimidade e bloqueia o avanço comum; o federal estabelece decisão partilhada e responsabilidade conjunta.

Mas nada na história europeia é puro. Como sempre, o caminho será experimental, feito de transações e improvisos —como, aliás, sempre na Europa. A questão não está em abolir os Estados, mas em partilhar de modo inteligente aquilo que só juntos podem decidir.

A Europa não é um espaço de Estados-nação absolutos: as velhas potências foram cabeças de impérios, as do Leste recém-independentes foram partes deles. Nenhuma viveu isolada.

O seu funcionamento dependia sempre das relações que se estendiam para lá das fronteiras —muitas vezes ainda não desenhadas— das suas comunidades.

Por isso, a União Europeia é, de certo modo, a consequência natural do fim dos impérios e da descolonização. E é também um retorno às ideias americanas: foram as antigas colônias, do outro lado do Atlântico, quem primeiro escolheu a forma federativa.

Assim, não é a federação que ameaça as nações; é a sua ausência. A federação pode ser a jangada de pedra que as protege em tempos revoltos, garantindo-lhes escala, coesão e soberania compartilhada. A Europa chega tarde à sua própria ideia, mas talvez ainda a tempo de aprender, com a herança americana, que o federalismo não é o fim das nações —é a sua continuação possível.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Bruno Gualano - Máscaras, ciência e política, FSP

 Na pandemia, vacinas, distanciamento social e cloroquina converteram-se em bússolas ideológicas. Da lógica sectária não escaparam nem as máscaras: para alguns, símbolo de cuidado coletivo; para outros, cabrestos impostos por algozes da liberdade. À ciência, coube examinar sua utilidade.


As melhores evidências —que incluem alguns ensaios controlados e o uso adequado de respiradores de maior filtração— apontam para um modesto, porém consistente, efeito protetor. A heterogeneidade das máscaras (tecido, cirúrgicas, N95), seu uso adequado e a adoção simultânea de outras medidas protetivas dificultam conclusões mais robustas.

Pessoa com máscara azul e óculos escuros usa terminal de autoatendimento. Ela veste camiseta verde e tem tatuagem preta no braço direito.
Usuário do transporte pública usa máscara durante o surto da variante Ômicron do coronavírus - Rubens Cavallari - 26.nov.22/Folhapress

Não é novidade que intervenções eficazes em condições controladas podem perder desempenho no mundo real. Mas um estudo publicado em 2025 por dois pesquisadores da USP foi além: concluiu que o uso de máscaras durante a pandemia estaria associado ao aumento da mortalidade em países europeus. Grupos extremistas apressaram-se em difundir a publicação, como se esta revelasse a verdade ocultada pelo "mainstream".

Ao presumir a posição dos autores como da própria universidade, Bolsonaro tuitou: "USP: Mais que inúteis, as máscaras foram perigosas na Covid", e ironizou: "Só faltou a USP se desculpar com Jair Bolsonaro".

O problema é a fragilidade das novas evidências, assentadas no terreno movediço dos estudos ecológicos, cuja unidade de análise é o coletivo. Nesse tipo de desenho, correlações entre grupos não são diretamente extrapoláveis para indivíduos. A inobservância desse conceito é conhecida como falácia
ecológica.

Um caso paradigmático é o estudo de William Robinson, nos anos 1950. Ao analisar dados agregados dos estados norte-americanos, ele encontrou correlação positiva entre proporção de imigrantes e alfabetização média; no nível individual, porém, imigrantes eram menos escolarizados que nativos. A
aparente contradição se explica porque imigrantes tendiam a se concentrar em regiões mais desenvolvidas, com melhores indicadores educacionais.

O mesmo viés reaparece no estudo das máscaras: quem as usou com mais assiduidade não seria justamente quem corria mais risco, como idosos e doentes crônicos? A resposta se perde na média da população.

O estudo incorre em outro erro elementar: a inversão da ordem causal. A correlação, por si só, não distingue causa e efeito; cabe ao pesquisador reconstruir a sequência dos eventos. Em alguns contextos, isso é particularmente difícil, como nos estudos que associam adoçantes à obesidade: eles causam ganho de peso ou são mais usados por quem tenta emagrecer?

Em casos mais simples, porém, a solução emerge à luz da plausibilidade mecanística: uma associação causal precisa fazer sentido no mundo real. Pessoas que usam paraquedas morrem mais do que as que não usam. Mas o paraquedas, evidentemente, não mata; ele é acionado quando o risco já é extremo, como num salto de avião. Troquemos o paraquedas pela máscara.

Uma nova onda de Covid-19 eleva a mortalidade e, simultaneamente, o uso de máscaras. É mais plausível atribuir as mortes às máscaras ou o aumento de seu uso ao medo de morrer? Os autores optaram pela primeira leitura, ao sugerir que máscaras matariam por provocar a reinalação de partículas virais —hipótese destituída de qualquer respaldo factual. Essas críticas foram formuladas em artigo recente, assinado por epidemiologistas, analistas de dados e metodologistas.

Evidências de baixa qualidade alimentam políticas públicas e narrativas frágeis. Na pandemia, o custo do vilipêndio da ciência veio em vidas —faz bem lembrar que a mortalidade no Brasil foi muito maior do que a média mundial. Pelo feito, Bolsonaro não merece desculpas, mas responsabilização.