terça-feira, 6 de outubro de 2026

Conheça o ‘tijolo verde’ que pode deixar a casa menos quente em ondas de calor- OESP

 Você já se imaginou morando em uma casa feita de plástico? Uma tecnologia criada pela empresa Fuplastic, especializada em soluções sustentáveis para a construção civil, permite erguer imóveis com tijolos feitos inteiramente de plástico reciclado. O recurso vem sendo utilizado na construção de casas emergenciais populares pela ONG TETO Brasil, mas também serve para construções definitivas.

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Segundo o CEO da Fuplastic e responsável pela criação, Bruno Frederico, é possível retirar cerca de 2,5 toneladas de plástico do meio ambiente a cada 50m² de construção com tijolos da marca e levantar casas mais fácil e rapidamente, pois os blocos funcionam com método de encaixe, sem necessidade de argamassa.

“Essa tecnologia nos permitiu unir ainda mais as funções sociais e ambientais nos projetos. E, por ser totalmente modular, também nos ajuda a construir nos espaços limitados em que trabalhamos, geralmente em favelas”, conta Camila Jordan, diretora executiva da TETO Brasil. A casa pode ser erguida em “L”, vagão ou quadrado, por exemplo, conforme o formato do espaço disponível.

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Estruturas das casas de plástico podem ser levantadas em algumas horas, segundo a TETO Brasil e a Fuplastic
Estruturas das casas de plástico podem ser levantadas em algumas horas, segundo a TETO Brasil e a Fuplastic Foto: Teto Brasil/Divulgação

Há também ganhos em conforto térmico no interior da construção, segundo Frederico – fator importante em um cenário de mudanças climáticas e ondas de calor cada vez mais frequentes. Isso acontece porque, diferentemente dos tijolos de argila, comumente utilizados no Brasil, os de plástico têm um “espaço vazio” em seu interior, permitindo circulação de ar.

“Os blocos têm um furo e esses furos servem para ‘respirar’. O ar quente sobe e tende a sair”, afirma o CEO, que é arquiteto. Segundo ele, já foram feitos estudos que comprovam esse maior conforto térmico nas construções.

O professor de Engenharia Civil da Fundação Educacional Inaciana (FEI) Mauricio Resende pondera, no entanto, que “o desempenho térmico vai além da escolha do material dos tijolos”. Essa condição está intrinsecamente associada com o projeto arquitetônico da edificação e não só à parede, “pois depende da cobertura, da existência de ventilação de ar e de beirais”.

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Cidades do futuro

Na semana passada, uma casa de plástico modelo ficou exposta na Praça do Patriarca, no centro histórico de São Paulo, durante o festival Cidade do Futuro 2024, que traz propostas sustentáveis e inovadoras para o setor de construção civil.

Casa ecológica feita de plástico reciclado foi exposta na Praça do Patriarca, no centro de São Paulo, entre os dias 14 de 16 de maio, durante o festival Cidade do Futuro
Casa ecológica feita de plástico reciclado foi exposta na Praça do Patriarca, no centro de São Paulo, entre os dias 14 de 16 de maio, durante o festival Cidade do Futuro Foto: Werther Santana/Estadão

O imóvel tinha 54m², contava com 4,9 mil blocos de tijolos de plástico e foi montado e desmontado com a mesma facilidade – em algumas horas. ”A tecnologia permite que a casa seja desmontada facilmente e sem gerar entulho. Os tijolos podem ser reutilizados em outra construção ou reciclados novamente, produzindo outros materiais”, diz Frederico. “O legal é que aquele plástico nunca mais volta a ser lixo.”

No interior da exposição, era possível ver que a casa de plástico pode ser revestida por chapas de drywall, deixando um aspecto idêntico ao de uma parede comum. O material é firme e viabiliza instalação de janelas, portas, fiação elétrica e tubulação hidráulica – todas as condições necessárias para uma moradia.

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Casa ecológica oferece condições idênticas às de casas feitas de tijolos de argila, segundo idealizadores do modelo
Casa ecológica oferece condições idênticas às de casas feitas de tijolos de argila, segundo idealizadores do modelo Foto: Werther Santana/Estadão

Segundo a Fuplastic, eles têm certificações da Falcão Bauer, Polibalbino e Instituto Lab System que atestam qualidade de peso, tamanho, resistência e propriedades da matéria-prima, além de resistência contrafogo e fio incandescente. Estas últimas, segundo Resende, são essenciais para validar a usabilidade do material em construções e definir que tipo de imóvel pode ser construído com os tijolos.

“Pelo fato de plástico ser material combustível, deve-se classificá-lo com relação a reação ao fogo – ignibilidade, densidade óptica de fumaça e propagação. Se esta classificação atender aos critérios da norma de desempenho de edifícios habitacionais para utilização como componente de parede, é necessário verificar a resistência ao fogo da parede construída com este tijolo”, explica o professor.

O tempo de resistência ao fogo da parede pode restringir o tipo, uso e altura do edifício, afirma Resende. Além disso, é preciso avaliar a resistência a impactos na estrutura e a vazamentos de água; a durabilidade do material e o desempenho acústico e térmico do sistema de vedação vertical.

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Morando em uma casa de plástico

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Regiane Alves da Silva, 46 anos, auxiliar de limpeza e moradora da comunidade Porto de Areia, em Carapicuíba (SP), foi a primeira a ser contemplada pela ação da TETO com casas de plástico e conta que ficou surpresa quando recebeu a proposta de receber uma casa “reciclada”. “Você fica com aquele ponto de interrogação na cabeça, né? Uma casa de plástico reciclado... Será que vai ser boa ou não?”

“Mas há oito meses estou aqui. Vejo que ela é bem arejada, tem bastantes janelas, e é confortável. É um projeto bem feito”, diz ela, que perdeu o emprego por motivos de doença e, sem conseguir pagar o aluguel, precisou morar com os dois filhos adolescentes em um barraco de madeira até receber a casa da TETO.

Moradia de Regiane Alves deixou de ser de madeira, vulnerável a tempestades e ondas de calor, e passou a ser de plástico, com tecnologia que garante maior conforto térmico e proteção contra chuva.
Moradia de Regiane Alves deixou de ser de madeira, vulnerável a tempestades e ondas de calor, e passou a ser de plástico, com tecnologia que garante maior conforto térmico e proteção contra chuva. Foto: Divulgação/Volutariado da TETO Brasil

De acordo com Frederico, além da parceria com a TETO, que constrói casas “transitórias” para garantir dignidade mínima a pessoas em situação de vulnerabilidade que vivem em moradias irregulares, a Fuplastic propôs parceria com a Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano (CDHU) de São Paulo para que a tecnologia seja utilizada nas construções de casas populares definitivas.

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segunda-feira, 5 de outubro de 2026

A democracia da repulsa - João Pereira Coutinho = FSP

 1.

Todos odeiam o adversário. Poucos amam seu candidato.

Assim está o Brasil, incapaz de encontrar uma terceira via para sossegar os espíritos. Sociedades polarizadas têm esse preço.

Entretanto existe outro, que pude comprovar em minhas conversas com brasileiros em Portugal. Muitos estariam dispostos a quebrar certas regras para impedir que o adversário chegue ao poder. Regras? A própria ideia é bizantina. Guerra é guerra.

Eis a democracia da repulsa, que está longe de ser exclusividade brasileira e que tem fascinado os cientistas políticos que estudam a polarização. Nas democracias saudáveis, queremos que nosso candidato vença por seus méritos —e que o adversário perca por seus deméritos.

Não é assim nas democracias doentes. Aqui, a derrota do inimigo é mais importante que a qualidade do candidato que apoio. Aliás, meu candidato pode ser mediano, medíocre ou potencialmente autoritário. Que importa? A alternativa é o demônio.

Como lembra Milan Svolik, um especialista em autoritarismo, quanto mais dividida está uma sociedade, mais custa mudar de lado; e quanto mais custa mudar de lado, mais dispostos estamos a fechar os olhos para os abusos do nosso lado.

As consequências dessa cegueira autoinfligida oscilam entre o indigesto e o catastrófico.

Podem ser indigestas quando esvaziam o centro moderado e impedem a renovação do próprio sistema político e partidário. No monopólio dos extremos, a racionalidade não tem vez.

Além disso, quando os eleitores se acomodam ao "mal menor", continuam elegendo um mal —políticos fracos, sem programa e sem responsabilização, que se limitaram a ser a negação do outro. O país inteiro paga a conta.

A catástrofe acontece quando a democracia da repulsa não poupa as instituições supostamente neutras. Cedo ou tarde, tribunais, justiça eleitoral, mídia ou institutos de pesquisa são sugados pelo mesmo vórtice.

Sem falar no óbvio: quando damos carta branca ao nosso candidato para esmagar a oposição, duas coisas podem acontecer.

Em caso de derrota, a recusa fatal em aceitar o resultado da eleição. Em caso de vitória, uma escalada autoritária sempre com a mesma justificativa: ou eu, ou o caos.

Não houve autocrata eleito na história moderna que não tenha legitimado seus abusos com esse expediente. No fundo, o mesmo expediente que presidiu à sua eleição.

Quando os eleitores de um país aceitam a lógica da repulsa, aceitam a lógica da guerra. E, nesse quesito, o clichê é verdadeiro: sabemos como as guerras começam, mas nunca como acabam.

Demônio sentado em um trono segurando tridente com auréola flutuando sobre seus chifres de bode. A imagem se repete invertida verticalmente, como carta de baralho
Angelo Abu/Folhapress

2.

A democracia da repulsa tem outra consequência: depois de algum tempo, já nem precisamos ouvir o adversário. Sabemos de antemão o que ele pensa. Ou julgamos saber.

Exemplo: Israel também vai às urnas em outubro —e, segundo as pesquisas, a maioria dos israelenses acredita que os palestinos não querem a paz, muito menos negociações com a "entidade sionista".

Ironicamente, os palestinos dizem o contrário. Três responsáveis pelo Arab Barometer —um dos principais institutos de pesquisas no mundo árabe— publicaram na Foreign Affairs alguns números surpreendentes que desmentem os radicais de ambos os lados.

Comecemos pelo básico. Em que ponto está a velha ideia dos dois Estados?

Morta e enterrada, dirão os apressados. Viva e ativa, na imaginação dos palestinos. Em Gaza e na Cisjordânia, o apoio cresceu quando comparado ao barômetro de 2023. É hoje majoritário.

A defesa de um único Estado "binacional" —um eufemismo para um Estado árabe do mar Mediterrâneo ao rio Jordão, muito apreciado pela "intelligentsia" ocidental— está reduzida ao mínimo (7% na Cisjordânia, 5% em Gaza). A opção pela luta armada também caiu na Cisjordânia —e caiu muitíssimo em Gaza, depois da destruição dos últimos anos. Hoje é minoritária.

Pormenores relevantes: o apoio à solução dos dois Estados e o abandono da violência são especialmente fortes entre os palestinos com menos de 30 anos.

Más notícias para quem, em Israel, jura que não há parceiro para a paz. Há, e até responde a pesquisas.

E os supostos representantes? Hamas e Fatah saem mal na foto. Em hipotéticas eleições legislativas, a maioria se abstém ou recusa qualquer um dos dois: só 19% apoiam o Hamas; só 16% o Fatah.

Se tivesse de apostar, diria que essa revelação seria um choque para muitos departamentos de "ciências sociais" na Europa ou nos Estados Unidos. É a diferença entre quem vive na pele o conflito —e quem sinaliza sua virtude à distância.

Por último, os palestinos em Gaza querem ficar no território e, para a fase transitória, a opção mais escolhida é o governo tecnocrático proposto por Donald Trump.

Moral da história?

Amigos e inimigos gostam de falar em nome dos palestinos. Entende-se: quando os palestinos falam, só atrapalham.