terça-feira, 2 de junho de 2026

Bernardo Guimarães - O Pix é eficiente; o cartão é um parasita, FSP

 Você paga R$ 100 no cartão de crédito e o vendedor recebe R$ 97. Você paga R$ 100 no Pix e o vendedor recebe R$ 100. Parece muito melhor, mas quem arca com o custo de processar a transação?

O Pix foi desenvolvido pelo Banco Central do Brasil, é oferecido gratuitamente como meio de pagamento e o custo de processamento de cada transação para o Banco Central é inferior a R$ 0,01.

O Pix é, portanto, um meio de pagamento extremamente eficiente. Como cartões de crédito, ineficientes e caros, sobrevivem cobrando taxas tão altas?

Quando uso o cartão de crédito, o dinheiro sai da minha conta no mês seguinte. No Pix, o dinheiro sai na hora. Se o preço é o mesmo, eu ganho um pouco com os juros, vale a pena.

Por que o preço é o mesmo? É caro vender no cartão de crédito, então faria sentido para o vendedor cobrar mais por isso, não?

Até bem pouco tempo atrás, uns dez anos, vendedores eram proibidos de cobrar mais pela venda no cartão de crédito. Clientes usavam o cartão para pagar depois e ganhar uns juros com isso, lojistas aceitavam para não perder vendas e, assim, pagavam um pedágio para as administradoras de cartão de crédito.

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Isso mudou com uma medida provisória de dezembro de 2016, que virou lei em 2017. Agora, lojas podem cobrar preços diferentes para meios de pagamentos diferentes desde que os valores estejam claros para o consumidor.

Lula na inauguração do Instituto Federal Goiano em Catalão - Ricardo Stuckert - 2.jun26/PR

O problema é que, na prática, isso é difícil. O pacote de figurinhas custa R$ 7. O vendedor pode cobrar R$ 7,30 no crédito? Vão reclamar, chamar o Procon, boicotar o estabelecimento? Melhor não arriscar. E cobrar R$ 6,75 no Pix comprime a margem, que é pequena. A dor de arcar com a taxa do cartão de crédito vem do desejo de não sentir a dor de contrariar expectativas de clientes.

Restaurantes também não querem colocar no menu dois preços. É chato, confunde. E a diferença seria só de 3%. Para que chatear os consumidores com isso?

Assim, apesar de muito mais caros e ineficientes que o Pix, cartões de crédito continuam sobrevivendo, como parasitas.

Aproveitando a necessidade de transparência, a vontade de não chatear o cliente com taxas de 3% e a cumplicidade involuntária dos Procons, cartões de crédito cobram altas taxas e recompensam clientes com pontinhos e uns trocos com juros.

Instituições financeiras privadas arcam com alguns dos custos das transações por Pix (custos que incluem integração da infraestrutura tecnológica e medidas para prevenir fraudes) e não cobram pelo Pix. Podem, porém, cobrar por seus serviços de outras maneiras —um banco pode, por exemplo, cobrar uma taxa mensal de seus correntistas.

Isso é comum. Leis estabelecem várias restrições ao que pode ser cobrado. Por exemplo, escolas precisam contratar pessoas para acompanhar estudantes com necessidades especiais e são proibidas de cobrar uma taxa extra dos pais por isso. Perto disso, o custo do Pix para as instituições é ínfimo.

Não há, portanto, motivo razoável para o governo de Trump reclamar sobre o Pix. Nós temos motivos para maldizer —e, infelizmente, continuar usando— os cartões de crédito.

A oposição à nota do governo dos Estados Unidos incluindo o Pix no rol de razões para tarifas comerciais deveria unir todos os campos políticos.

Gilberto Natalini e Ivo Patarra - JK, o resgate da verdade histórica, FSP

 O presidente Juscelino Kubitschek perdeu a vida num desastre de carro na Via Dutra, município de Resende (RJ), em 1976, durante a ditadura militar. O resultado da perícia, conduzida por autoridades da época, concluiu que JK e seu motorista, Geraldo Ribeiro, morreram num acidente de trânsito.

No início, culparam o motorista Josias Nunes de Oliveira, homem negro, que dirigia um ônibus da Viação Cometa. Ele teria sido o responsável pela batida contra o Opala em que estava JK, o que teria lançado o automóvel na pista da contramão e provocado a colisão com um caminhão que vinha em sentido contrário.

Depois ficou provado que o ônibus não abalroou o veículo de JK e seu motorista foi inocentado, mas a versão do "acidente" perdurou até hoje.

A imagem em preto e branco mostra um carro conversível gravemente danificado após um acidente. O veículo parece estar destruído, com a parte traseira completamente esmagada e a estrutura deformada. O local do acidente parece ser uma área rural ou uma estrada com vegetação ao redor. No fundo, há uma estrutura que pode ser um viaduto ou uma ponte. Um homem, possivelmente um policial ou investigador, observa a cena no interior do carro. A atmosfera da foto sugere um evento trágico ocorrido à noite
O Opala de JK destruído na colisão com carreta na via Dutra, em 1976 - Folhapress

Em 1996, após a morte de dona Sarah Kubitschek, pressionada enquanto viveu a não pedir uma investigação séria sobre a morte do marido, Serafim Jardim, que fora secretário-particular de JK, solicitou a reabertura do caso. Mas o reexame chegou à mesma conclusão, a de que houve um "acidente".

Ficou a dúvida sobre a versão do regime militar. Muitos acreditavam num atentado político contra JK. Ele fora perseguido, cassado e exilado. À época de sua morte, articulava nova candidatura à Presidência da República, mesmo que tivesse de enfrentar eleição indireta, pelo Colégio Eleitoral, em 1978. Aliado a João Goulart e Carlos Lacerda, havia criado a Frente Ampla. Os militares o temiam.

Em 2000, nova comissão reabriu investigações no âmbito do Congresso Nacional. Porém, uma vez mais, concluiu-se pela morte acidental. Como a de 1996, fez uso das "provas" do Instituto de Criminalística Carlos Éboli, do Rio de Janeiro, com suas fraudes e erros grosseiros forjados na ditadura.

Em 2013 e 2014, a Comissão Municipal da Verdade Vladimir Herzog, instalada na Câmara Municipal de São Paulo, presidida e assessorada por nós, reuniu, após exaustivo trabalho de investigação, 114 circunstâncias, evidências, indícios e provas para concluir: JK fora vítima de um atentado.

Não fomos só nós. A Comissão Estadual da Verdade Rubens Paiva, na Assembleia Legislativa de São Paulo, e a Comissão Estadual da Verdade de Minas Gerais, em Belo Horizonte, foram na mesma direção: JK havia sido eliminado por agentes da ditadura.

As conclusões das três comissões, no entanto, foram desconsideradas pela Comissão Nacional da Verdade em 2014, que se baseou nos mesmos argumentos falaciosos usados em 1976, 1996 e 2000.

Em 2019, a pedido do Ministério Público de Resende, o perito Sérgio Ejzenberg produziu um laudo cabal, com 200 páginas, demolindo a versão do "acidente" entre o ônibus e o Opala.

Com o laudo, oficiamos o Ministério dos Direitos Humanos e a Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos para que reabrissem o caso JK. Mais uma vez, buscávamos a verdade sobre a morte violenta de um ex-presidente do Brasil.

Agora, dois anos após uma investigação abrangente, a Comissão Especial acaba de divulgar relatório de mais de mil páginas e a conclusão de que JK foi assassinado num atentado perpetrado pelo regime militar.

Nosso sentimento é de alívio. Enfim, o resgate da verdade.

O momento é de dupla emoção. Em primeiro lugar, temos a verdade histórica reestabelecida. Nenhuma nação pode ser construída numa conjuntura histórica de mentiras.

Em segundo, porque JK era respeitado por grande parte dos brasileiros. Por sua personalidade e conduta ética, democrática, conciliadora, agregadora e empreendedora. Era um estadista e respeitava as forças políticas do país.

Por isso reverenciamos sua importância política e lamentamos o atentado vergonhoso que vitimou um homem de 74 anos e seu motorista, de 66. Dois senhores, desarmados, covardemente assassinados por agentes que sabotaram o carro, provavelmente envenenaram o motorista num hotel e ainda fizeram uma tocaia para que tentassem a fuga impossível, no veículo que já não dispunha de freios.

Faz falta JK, político que promovia a reconciliação. Principalmente no Brasil de hoje, dividido por uma polarização que tanto mal faz ao povo brasileiro.