terça-feira, 2 de junho de 2026

Rodovia federal brasileira é asfaltada com plástico reciclado pela primeira vez, FSP

 O primeiro trecho de rodovia federal pavimentado com plástico reciclado foi instalado na BR-459, em 968 metros entre os quilômetros 110 e 111, no munícipio mineiro de Pouso Alegre.

A obra foi realizada pela startup Eco Asfalto, do interior paulista, na rodovia que está sob concessão da EPR Sul de Minas e atravessa a Serra da Mantiqueira, drenando bacias que terminam nos litorais de São Paulo e Rio de Janeiro.

A iniciativa serve como teste para a concessionária adotar a tecnologia Caet (Concreto Asfáltico Ecológico Termoplástico) em sua malha, segundo as empresas envolvidas. O produto aplicado é uma mistura asfáltica que incorpora o ativo polimérico TM-250/A, formulado a partir de plástico reciclado pós-consumo e resíduos industriais beneficiados.

Estrada em Belo Horizonte (MG) - Amir Martins - 18.dez.2024/Prefeitura de Belo Horizonte

A tecnologia consiste no uso de matéria para melhorar as propriedades mecânicas do asfalto e substituir parcialmente o ligante derivado de petróleo por outro feito de material reciclado.

O pavimento recebeu o equivalente a 87.120 garrafas PET de 1,5 litro, o que resulta em cerca de 2,6 toneladas de plástico.

A tecnologia já havia sido aplicada pela startup em uma rota vicinal em Matão, interior paulista, na concessão da Rota das Bandeiras da CCR, em ruas de Cabreúva (SP) e em duas obras municipais em São Paulo. Esta é, no entanto, a primeira aplicação em uma via federal.

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A seguir, o trecho entra em monitoramento técnico programado em 30, 60 e 90 dias. Os resultados serão integrados ao dossiê que a Eco Asfalto vai protocolar junto ao Dnit (Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes) até 17 de agosto de 2026, etapa final para a homologação nacional.

A meta, segundo a empresa, é poder aplicar o Caet em rodovias federais e concessões de todo o país antes do fim de 2026 e exportar a tecnologia para a América Latina a partir de 2027.

Saturado, Expresso Aeroporto tem superlotação e gente sentada no chão e em malas, FSP

 Fábio Pescarini

São Paulo

Genilda de Oliveira, 46, é uma mulher precavida. Ao entrar no trem superlotado, dá um jeito de armar um banquinho dobrável e viaja sentada no meio da multidão espremida em pé.

Ela encara todos os dias o Expresso Aeroporto, serviço inaugurado em 2018 para ligar a região central de São Paulo ao aeroporto internacional de Guarulhos, na região metropolitana, mas que no decorrer dos anos tem recebido mais usuários comuns do que aqueles que entram nos vagões no caminho para embarcar em avião.

Apontado como serviço de excelência, segundo a CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos), ele conta com os trens mais modernos da frota da estatal do governo Tarcísio de Freitas (Republicanos). Mas nem assim escapa das críticas de passageiros.

Vagão de trem cheio com passageiros em pé segurando barras e outros sentados no chão e bancos laterais. Alguns usam mochilas e fones de ouvido, e vários estão concentrados em seus celulares. Ambiente interno com iluminação artificial e paredes claras.
Trem do Expresso Aeroporto lotado em horário de pico; serviço, que liga o centro de São Paulo ao aeroporto de Guarulhos, está saturado, segundo passageiros - Rafaela Araújo/Folhapress

O Expresso Aeroporto, da linha 13-jade, parte de hora em hora (entre às 5h e a 0h) da estação Barra Funda, que fica no limite entre o centro e a zona oeste da capital paulista. Tem só mais três paradas, nas estações da Luz (também no centro) e Cecap (já em Guarulhos), e a final, onde o passageiro precisa pegar um ônibus ou um trem em via elevada até os terminais do aeroporto. O percurso total é feito em cerca de 40 minutos.

Outra opção para se chegar de transporte público ao aeroporto internacional é embarcar na estação Engenheiro Goulart (na zona leste paulistana), da linha 12-jade, e seguir para a linha 13. O intrvalo das partidas varia de 10 minutos a 35 minutos, dependendo do horário. Mas usuários dizem que o tempo de viagem pode ser mais demorado em ao menos meia hora.

Nos dois casos, o preço da tarifa é R$ 5,40, como nas demais linhas do trem metropolitano.

Para pessoas ouvidas pela reportagem, o serviço está saturado. "É sempre cheio nos horários de pico", diz Gabriela Oliveira, 31, filha de dona Genilda e também funcionária de confecção.

As duas moram em Guarulhos e usam o trem para ir e voltar do trabalho na capital paulista. Embarcam e descem na estação Cecap, onde há interligação com um terminal de ônibus.

Em nota, a CPTM diz monitorar permanentemente a operação do Expresso Aeroporto e a demanda de passageiros, principalmente nos horários de pico.

A Folha viajou três vezes com o expresso até Guarulhos no último mês. Duas delas às 18h, quando o trem parte da Barra Funda já com passageiros em pé ou sentados no chão. Mas a superlotação ocorre mesmo quando ele faz a parada para embarque na Luz.

Numa dessas viagens havia um homem encolhido embaixo de um bagageiro para, segundo ele, evitar de ser pisoteado.

Um aviso sonoro pede, em vão, para que as pessoas não fiquem sentadas no chão.

A outra viagem foi às 15h de uma segunda-feira. Apesar de ser horário de movimento menor e não estar lotado, todos os assentos estavam ocupados e também havia passageiros em pé, sentados no chão ou que transformaram malas de viagem em "banquinhos",

"Pela manhã é ainda mais cheio", diz Bárbara Santos, 32, que igualmente trabalha em confecção em São Paulo. No último dia 21, ela diz ter perdido o trem das 7h na estação em Guarulhos, "por alguns segundos", e levou cerca de 30 minutos a mais para fazer o percurso até a Luz pela linha 12.

Para Keity Kelly Prado, 30, que há três anos trabalha na Barra Funda, melhoraria a vida dos passageiros se o intervalo entre os trens fosse reduzido para a cada 30 minutos, o que só ocorre aos domingos (quando não há obras).

A CPTM afirma que o serviço opera com partidas a cada hora em razão do compartilhamento de vias com as linhas 11-coral e 12-safira. "A programação das três linhas é definida considerando a capacidade operacional do trecho, de forma a preservar os intervalos, a regularidade e a segurança da circulação das composições."

Apesar de a empresa dizer que os trens contam com ar-condicionado, o calor é reclamação comum. Tanto que a passageira Bárbara Santos leva um ventilador portátil na bolsa.

A companhia diz que os aparelhos de ar-condicionado têm regulagem automática de temperatura, e passam regularmente por manutenção preventiva. "Diante dos relatos, a CPTM reforçará a verificação dos equipamentos nas composições que atendem o serviço."

A ligação entre São Paulo e o aeroporto de Guarulhos por trem foi prometido para 2004. A inauguração só ocorreu em outubro de 2018, com o complicador de a estação da CPTM ficar longe dos terminais de Cumbica.

Para chegar até eles, o usuário precisa atravesar a rodovia Helio Smidt por meio de uma passarela e pegar um ônibus ou o aeromóvel, serviço de trem em via elevada ainda em testes. Nos dois casos, não há cobrança de tarifa.

Especialistas dizem que superlotação do expresso indica que o serviço atrai passageiros de transporte regular e não apenas quem vai pegar avião. E que isso demonstra desequilíbrio com outros modais.

"Está faltando metrô entre São Paulo e Guarulhos, com grande capacidade e pequeno intervalo entre composições para deixar o Expresso Aeroporto livre aos usuários com malas", afirma o engenheiro e mestre em engenharia de transportes Sérgio Ejzenberg.

Para Rafael Calabria, pesquisador de mobilidade do BRCidades, a confiabilidade de um trem que sai com horário marcado, sem atrasos, atrai esses passageiros comuns. "É mais rápido que ir de carro no trânsito."

As linhas 11, 12 e 13 foram concedidas pela CPTM para a empresa Trivia Trens —atualmente, a operação está em fase de transição. No início do mês, um dos trens do expresso descarrilou e passageiros tiverm de andar nos trilhos.

O contrato prevê ampliação da linha 13-jade com mais cinco estações, sendo quatro elas a partir do aeroporto, até Bonsucesso, bairro da região norte de Guarulhos cortado pela rodovia Presidente Dutra.

"Os projetos das obras previstas em contrato de concessão estão em andamento e serão apresentados segundo cronograma pactuado com o poder concedente", diz a Trivia.

Em média, cerca de 550 mil pessoas usam o expresso todos os meses, segundo balanço da CPTM.

"Certamente vai aumentar a demanda e será preciso implantar intervalos de linha regular, de quatro a oito minutos", afirma Calabria.

Juliano Spyer - Renan Santos e a revolta dos lascados da direita, FSP

 Neste ano, um nome ainda desconhecido da maioria dos brasileiros roubou o protagonismo de Lula e Flávio Bolsonaro. Se sobreviver à campanha, Renan Santos, líder do partido Missão e do MBL, terá se tornado um político influente —e talvez presidente da República.

Renan defende causas impopulares, mas o caso Master abriu para ele uma avenida de oportunidades para se apresentar ao eleitor.

Um banqueiro vive como príncipe, tendo desviado R$ 60 bilhões e aliciado para a operação aliados nos três Poderes. Enquanto isso, o país se vê travado pela polarização, há uma sensação geral de insegurança e milhões de brasileiros recorrem a aplicativos de transporte e entrega para trabalhar.

Rosto desconhecido do brasileiro comum até o ano passado, Renan atingiu em maio 6,9% das intenções de voto no primeiro turno, isolado em terceiro lugar, segundo a pesquisa Atlas Intel/Bloomberg. Como?

Renan Santos em show de sua banda
Renan Santos em show de sua banda - Renan Santos no Instagram

Renan e seus aliados vêm sendo testados em ameaças, cancelamentos e ataques bolsonaristas, especialmente desde que o MBL defendeu o voto nulo na eleição de 2022. Essa experiência impulsionou a coleta de quase 600 mil assinaturas para a fundação do partido —e treinou o atual pré-candidato a se comunicar com clareza e contundência sobre seus planos para o Brasil.

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Outra arma do Missão é a coesão da militância. O movimento vende assinaturas da Valete —a segunda revista de cultura em número de assinaturas no país, depois da Piauí. Dali emergem diagnósticos e propostas do partido. Esse espaço de debate forma quadros articulados, que influenciam amigos e parentes.

Renan tem uma personalidade original: é músico competente, tem uma banda chamada Limão Rosa, é fã de Ayrton Senna e Bob Dylan e traz o DNA da nova direita de dizer o que pensa, doa a quem doer.

Sua campanha navega a favor dos algoritmos das redes. Oferece comentários políticos diários em lives, e a militância é estimulada a fazer cortes desse material —um esforço remunerado pelo YouTube.

Renan está viajando de carro pelo país, e o movimento transforma entrevistas em rádios e o registro de problemas locais em conteúdo que circula nacionalmente.

Ele tem propostas polêmicas. Prega medidas radicais de enfrentamento ao crime organizado, denuncia o balcão de negócios do centrão e defende a desobediência ao Supremo para resgatar as prerrogativas do Executivo.

Em live recente, Eduardo Bisotto, uma das vozes da pré-campanha, católico, fumante, desbocado e analista político experiente, apresentou o movimento como "a direita dos fodidos". Eles têm o perfil do antigo militante de esquerda: jovem, urbano, com formação universitária, movido pelo idealismo.

O Missão entende que seu caminho para a glória passa por participar dos debates na TV. E, se serve de paralelo o exemplo colombiano —que levou ao segundo turno o candidato sem experiência política e com propostas radicais de enfrentamento ao crime organizado—, a banda Limão Rosa, com o vocalista presidente, pode encabeçar o show de posse no Brasil. Depois disso, estaremos em águas inexploradas.