domingo, 10 de maio de 2026

Chico Lopes, a anatomia de uma queda, Candido Bracher,FSP

 Recebi no dia 8 de maio, em um grupo de WhatsApp, a notícia do falecimento de Chico Lopes. As matérias dos jornais falaram do economista brilhante, estudioso do fenômeno da hiperinflação, que teve participação destacada em todos os planos econômicos ditos heterodoxos, desde o Plano Cruzado até o Real, e que foi mais tarde o responsável pela implantação do Copom (Comitê de Política Monetária), instância fundamental da governança de nossa política monetária.

Fiquei muito triste.

Ilustração de Luciano Salles - Luciano Salles/Folhapress

Lembrei-me do homem tímido, de sorriso fácil, que conheci em 1985 em Brasília, em um jantar na casa de meu pai, Fernão Bracher, então presidente do Banco Central. Estavam ali outros jovens economistas brilhantes —Persio Arida, André Lara Resende, Edmar Bacha— envolvidos na condução do Plano Cruzado, a quem eu ouvia com fascínio e grande admiração, que só fez fortalecer-se desde então.

Alguns anos mais tarde, em 1988, eu apoiaria meu pai na fundação de um banco corporativo, o BBA Creditanstalt, que iniciaria suas atividades com apenas 20 funcionários. Eram tempos de enorme volatilidade; para atrair clientes corporativos e ajudá-los a navegar as incertezas, promovíamos semanalmente palestras abertas, nas quais um economista de renome procurava avaliar os cenários possíveis. Após a palestra, quase sempre havia um pequeno jantar com economistas na casa de meus pais, onde a discussão era expandida e aprofundada.

Chico Lopes, que tinha uma importante consultoria chamada Macrométrica, participou várias vezes como palestrante e como convidado para o jantar.

Sua timidez não escondia seu bom humor e o prazer que sentia naqueles jantares, onde se comia muito bem e as discussões tinham sempre o caráter construtivo, frequente entre pessoas de autêntico espírito público.

Com o advento e êxito do Plano Real em 1994, o interesse nas palestras foi-se reduzindo aos poucos e elas se foram espaçando. Também os palestrantes mudaram, uma vez que muitos dos economistas ocupavam agora posições no governo. A volatilidade dos mercados mostrou-se, porém, renitente. Após dois anos de relativa calma, os mercados foram abalados pela crise asiática de 1997, seguida da crise russa de 1998.

Àquela época, o Brasil ainda carregava grande dívida externa, de modo que crises internacionais de liquidez pressionavam imediatamente o câmbio e exigiam elevação das taxas de juros. Para proteger-se dessas flutuações de mercado, as empresas e o sistema financeiro contavam com os mercados futuros da BM&F (hoje B3), onde é possível a alguém que tenha uma dívida em dólares, por exemplo, assegurar antecipadamente a taxa de câmbio à qual liquidará a operação.

Naturalmente, não são apenas empresas que se servem desse mercado futuro; agentes financeiros dispostos a especular na elevação, ou queda das taxas de juros, ou de câmbio, conferem liquidez ao mercado em todos os momentos.

A BM&F cumpria então a função de "contraparte central", fundamental para o equilíbrio dos mercados. Para o Banco Central, responsável último pela manutenção desse equilíbrio, era conveniente que houvesse uma única contraparte central, pois isso facilitava sua supervisão: bastava garantir que os mecanismos de controle de risco da BM&F fossem robustos, de forma que todos os participantes tivessem garantias depositadas em valor suficiente para assegurar eventuais perdas em caso de movimentos adversos de mercado.

Em início de 1999, a taxa de câmbio no Brasil estava virtualmente congelada havia quatro anos e havia forte pressão pela desvalorização do real; por outro lado, opositores da medida preocupavam-se com seus impactos inflacionários, citando inclusive o exemplo argentino, cuja taxa de câmbio estava fixa há ainda mais tempo.

Foi nesse contexto que deu-se a desvalorização em meados de janeiro de 1999 e o ingresso de Chico Lopes na função de presidente do Banco Central. Ele assume, portanto, com o encargo de administrar a transição para o regime de câmbio flutuante.

Ao assumir, revela-se que dois pequenos bancos, Marka e FonteCindam, oriundos de corretoras de valores, haviam montado posições de tamanho desproporcional na BM&F, apostando contra a desvalorização do real. Diante da elevação ocorrida com a flutuação do câmbio, a incapacidade desses bancos de fazerem frente às suas perdas ameaçaria a liquidez da própria BM&F, comprometendo todo o sistema de liquidação e provocando uma crise sistêmica de proporções colossais, em um cenário já muito fragilizado pela flutuação do câmbio.

Para debelar esse risco, o Banco Central tomou a decisão extrema de liquidar compulsoriamente as posições dos dois bancos abaixo do preço de mercado (o que atenuou em muito o prejuízo dos dois bancos e acarretou perdas para o Banco Central).

Lembro-me de ter pensado à época que a decisão se justificava e foi essencial para preservar o equilíbrio do mercado; ainda penso assim. Como disse o próprio Chico Lopes, em depoimento de 2019: "não houve crise bancária, não houve recessão e a inflação ficou baixíssima". Vale lembrar que a Argentina, quando implementou o câmbio flutuante três anos mais tarde, provocou uma crise tão aguda que teve cinco presidentes da República em um espaço de duas semanas.

Ocorre que o controlador do Banco Marka buscou chantagear o Banco Central, alegando ter recebido —e pago— por informações privilegiadas de pessoas ligadas a Chico Lopes.

A situação é realmente kafkiana: como quebrar, dispondo-se de informação privilegiada? Há uma única resposta possível: dispor-se da informação privilegiada errada (uma demonstração didática e divertida dessa situação está no filme "Trocando as Bolas" com Eddie Murphy). Nesse caso, o Banco Marka teria comprado a informação de quem não a tinha, provando assim a inocência de Chico Lopes.

Apesar de terminar sendo absolvido, o escândalo que se seguiu abalou profundamente Chico Lopes. Lembro-me de cerca de um ano depois um amigo dizer-me ter ouvido que ele, Chico, "achava que estava até bem, considerando que havia sido atropelado por um ônibus". Ele, que já era naturalmente tímido, tornou-se recluso, reduziu sua consultoria a ponto de ter apenas uma secretária e impôs-se um certo ostracismo em relação ao mundo financeiro.

Ainda o encontrei algumas vezes, mas as oportunidades foram escasseando à medida que fiquei mais intensamente envolvido profissionalmente.

Claramente minha tristeza não foi apenas pela sua morte; foi por dar-me conta de ter perdido o contato como consequência da enorme injustiça de que ele foi vítima.

Ruy Castro -Palavras na ponta da língua, FSP

 Sabe aquela frase que você começa a dizer e, de repente, a palavra-chave lhe escapa e você não consegue se lembrar de jeito nenhum? Segundos antes, ela estava na ponta da língua, pronta para ser dita, e veio aquele bloqueio sem explicação. O poeta Antonio Carlos Secchin, meu amigo e colega da Academia Brasileira de Letras, descobriu o nome para isso: letologia —a incapacidade temporária de lembrar uma palavra. Vem do grego: lêthê, esquecimento, e logos, palavra. Letologia —grave bem para não esquecer.

Empolgado com o achado, Secchin está cogitando a criação de um "Grande Dicionário das Palavras na Ponta da Língua". Bem de acordo com o tema, seria um livro de 500 páginas em branco, contendo todas as palavras que nos fogem quando mais precisamos delas —no exato momento em que elas nos fogem e desaparecem. Sua ideia já teve o apoio de vários colegas. O escritor e diplomata Felipe Fortuna ofereceu-se para escrever o prefácio: duas páginas em branco, com agudas observações nas entrelinhas. Eu próprio prometi-lhe mandar o texto da contracapa: dez linhas com apenas os espaços entre as palavras.

Uma dificuldade será encontrar alguém para fazer a revisão. Sugeri a Secchin um revisor que conheço, com dez graus de astigmatismo. O lexicógrafo Ricardo Cavalieri, também da Academia, propôs uma versão em braille, com o que me ocorreu um vídeo do dicionário em libras. Os dicionários costumam ser um suplício para os consultores de vista cansada, mas este não terá esse problema. E, se editado em outros países, ninguém reclamará da tradução. Os chineses, inclusive, ficarão admirados com a semelhança entre o mandarim e o português.

Os críticos, ao resenhar o dicionário, se identificarão profundamente com ele, já que a maioria deles não tem nada a dizer. E os presenteados com o livro dirão que lhes faltam palavras para agradecer o mimo. Mais ainda se a dedicatória tiver sido escrita com tinta invisível.

Secchin planeja também uma edição eletrônica, para ser consultada em celulares sem memória.

Brasil está tomando surra do Paraguai em tecnologia, Ronaldo Lemos, FSP

 Enquanto o Brasil continua a se desindustrializar, o Paraguai vai pavimentando o caminho para se tornar o tigre da América do Sul. Especialmente em tecnologia.

O país tem dado um show nessa área. Seu maior ativo é a energia abundante, 100% limpa e barata gerada por Itaipu. Nos últimos anos, o Brasil comprava o excedente não consumido pelo Paraguai a preços módicos. Agora não mais. A partir de 2027 o Paraguai poderá vender a energia de Itaipu para quem quiser e no preço que quiser. E o comprador já apareceu: os Estados Unidos.

Vista das comportas da hidrelétrica de Itaipu Binacional, regida em igualdade entre Brasil e Paraguai. - Joédson Alves - 7.jan.25 /Agência Brasil

O secretário de Estado Marco Rubio confirmou o interesse na energia paraguaia para alimentar data centers de inteligência artificial. A instalação desses data centers no país não vem de hoje. O Paraguai seguiu a mesma estratégia da Islândia: atrair primeiro mineradores de criptomoeda e depois data centers.

Deu certo. Está agora atraindo projetos enormes. O anúncio mais recente foi da empresa norte-americana X8 Cloud de que irá construir um data center de US$ 50 bilhões (R$ 260 bilhões) no Paraguai. É mais do que o celebrado data center do TikTok no Ceará, cujo investimento estimado é de US$ 38 bilhões.

Em indústria o país também avança. Nesse quesito, adotou o modelo mexicano de industrialização, das chamadas "maquiladoras". Tornou-se um hub industrial com uma política fiscal agressiva de cobrar 1% sobre o valor agregado localmente. O resultado é visível. Enquanto a indústria de transformação no Brasil representa hoje 11% do PIB brasileiro (era 17% em 1994), no Paraguai são 19%.

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Outra comparação curiosa é a classificação de risco. O Paraguai tem grau de investimento por duas das três principais agências (Moody's e S&P), enquanto o Brasil não tem por nenhuma. O país adotou um regime tributário simples e ousado chamado de "Triplo 10", que limita as alíquotas de imposto em 10% para pessoas, empresas e valor agregado.

Para nós, brasileiros, é doloroso saber que a taxa de juros no Paraguai é de 5,5%, contrastando com os 14,5% no Brasil. Em termos de juros reais (descontada a meta de inflação) a discrepância é mais violenta: 11,5% no Brasil e 2% no Paraguai, sendo que a inflação lá é de 1,9%, e aqui é de 4,3% nos últimos 12 meses.

E por fim, o crescimento. O Paraguai cresceu 6,6% em 2025, em face dos 2,3% do Brasil. Nos últimos dez anos a média de crescimento tem sido 3%, com projeção de crescer 4,5% neste ano. Enquanto isso, nossa média decenal foi de 1,4% e a perspectiva é crescer 1,6% neste ano.

Já no índice que mede complexidade econômica (ECI), o Brasil tem caído continuamente desde 2000. O paraguaio está em ascensão e irá ultrapassar o Brasil nos próximos anos.

Por fim, o Brasil reduziu a pobreza em 27 pontos percentuais nos últimos 25 anos, o que é essencial. Já o Paraguai reduziu em 45 pontos percentuais no mesmo período.

É fato que o Paraguai tem 7 milhões de habitantes e o Brasil 215 milhões. Só que a questão não é escala, mas direção. Nós temos os mesmos ativos que o Paraguai em dimensões muito maiores, como energia renovável abundante. Só não temos rumo, planejamento de onde queremos chegar, e estabilidade econômica para fazer isso. O resultado é: quando se fala em tecnologia na América do Sul, é o Paraguai que aparece cada vez mais.