segunda-feira, 31 de janeiro de 2022

MARIA PAULA 200 anos de Independência?, FSP

 Maria Paula

Atriz, psicanalista com mestrado em desenvolvimento humano e saúde (UnB) e embaixadora da paz

Ano de 2022: data simbólica para o nosso povo, que em 7 de setembro irá completar 200 anos de Independência. Momento de fazermos uma reflexão sobre nós mesmos, sobre nossa condição atual e quem sabe até de refletirmos sobre o que de fato aconteceu aqui desde que foi anunciado ao mundo que deixaríamos de ser uma colônia portuguesa.

Espanta-me perceber que o conteúdo que me foi ensinado na escola é o mesmo que continua sendo reproduzido na sala de aula dos meus filhos. Até quando iremos permitir que nossa história seja contada de fora para dentro? Fomos descobertos ou invadidos, afinal? Mas, principalmente, quando iremos nos apropriar de nós mesmos e encarar nossa diversidade étnica como vantagem estratégica em vez de continuarmos exibindo o tal complexo de vira-lata? Nossa fórmula primordial contém a genética dos povos indígenas, portugueses, africanos, japoneses, italianos, alemães, judeus, árabes, gente de todos os cantos.

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Sentir orgulho de quem somos é a base da atitude independente que merece prevalecer, uma vez que nossa realidade representa um movimento no contrafluxo das grandes vergonhas históricas. As guerras repetem a ideia equivocada de que em nome da soberania há que se excluir e, se possível, exterminar o diferente.

No entanto, por aqui, o destino permitiu que a mudança de paradigma acontecesse. Não há como separar de dentro do coração de um brasileiro os diversos sangues que em suas veias fluem.

Para comemorar os 200 anos da Independência, minha sugestão é oferecer nos postos de saúde, junto com as vacinas, testes de DNA para rastrearmos as etnias que compõem nosso ser. Quem sabe assim cada brasileiro possa se ocupar de entender suas raízes e traumas que vieram junto com o sangue de seus ancestrais. E, melhor que isso, para além dos traumas, acessar a força, a sabedoria que se manifesta neste emaranhado de raízes.

A convite da ONG Smile Train, que opera crianças com fissura labiopalatina ao redor do mundo, conduzi uma roda de conversa com pais de crianças que haviam feito a cirurgia recentemente em Manaus. Eram famílias indígenas, e levei um susto com a resposta de um pai que, ao ser questionado sobre o motivo de seu filho ter nascido assim, respondeu que devia ser castigo de Deus. Estarrecida, perguntei de novo ao intérprete que fazia a tradução da língua ticuna para o português se eu havia entendido direito, e este confirmou.

Naquele momento vi a colonização seguindo seu curso e senti vontade de estimular uma comemoração pelos 200 anos da Independência que se empenhe em valorizar as figuras históricas que se recusaram a deixar um legado predatório e destruidor.

Que meus filhos aprendam sobre gente como o marechal Rondon, que liderou o desbravamento do nosso Brasil profundo de forma pacífica, recusando-se a combater e dizimar os povos indígenas que cruzaram seu caminho. Sempre levantando uma bandeira: "Morrer se for preciso, matar jamais!". Ele sabia de onde vinham suas origens.

E você? Gostaria de saber das suas?


domingo, 30 de janeiro de 2022

Ruy Castro - Uma foto pffft, FSP

 29.jan.2022 às 15h00

O alvoroço causado pela série "Get Back", sobre os Beatles, me levou de volta a "Abbey Road", o LP que resultou das gravações mostradas no filme. É aquele com a famosa capa em que eles atravessam a rua —a Abbey Road, em Londres, esquina com a Alexandra Road, onde ficava o estúdio. Foi essa capa que me intrigou outro dia quando tirei o disco da estante para admirá-la, o que não fazia havia anos.

Em 1969, os Beatles ainda simbolizavam toda a rebeldia do mundo. Era como se tivessem inventado o Poder Jovem. Por causa deles, milhões de rapazes e moças em toda parte se deram conta de que eram diferentes de seus pais, pertenciam a outra geração. Os Beatles se diziam mais populares que Jesus e só isso já era um atrevimento. Não me pergunte por que, mas os próprios oclinhos de John Lennon pareciam uma contestação.

Estudando hoje a foto da capa, 52 anos depois de tirada, fiz pffft. Os Beatles estão atravessando civilizadamente na faixa de pedestres, como bons cidadãos que esperam o sinal abrir. Poderiam estar a caminho do chá das cinco. Três dos rapazes usam terno, como ainda faziam os artistas convencionais —o de John lembra um dandy de 1900, enquanto o de Ringo já ficaria bem num corretor da Bolsa. É verdade que Paul McCartney está descalço, mas o asfalto é o de Londres. Queria vê-lo encarar o de Ipanema no verão.

E o título "Abbey Road"? Era o endereço do estúdio da EMI e nos soava mágico, como se ali só se cozinhassem ousadas alquimias sonoras. Mas não era bem assim. Por Abbey Road passaram todos os artistas que gravaram para a EMI em Londres a partir dos anos 30, e isso incluiu o cantor francês Jean Sablon, o band-leader americano Glenn Miller e até a nossa Dalva de Oliveira. Abbey Road era só isso —um microfone.

Para completar, os Beatles não atravessaram no meio dos carros, como os Stones ou o The Doors talvez fizessem. O trânsito foi até interrompido para a foto.

Reprodução da capa do disco "Abbey Road" (1969), dos Beatles
Reprodução da capa do disco "Abbey Road" (1969), dos Beatles - Reprodução

Hélio Schwartsman - Para que serve a razão?, FSP

 29.jan.2022 às 14h00

Segundo uma concepção meio caricatural do Iluminismo, a razão levaria à emancipação do ser humano. Se fôssemos capazes de controlar as emoções e nos guiar apenas pela razão, descobriríamos mais verdades da ciência e encontraríamos as melhores soluções para nossos problemas sociais. Essa concepção está errada de várias formas. A razão não é o contraponto virtuoso das emoções e não leva automaticamente a respostas. Nossos raciocínios são marcados por tantos erros e vieses que fica uma suspeita no ar. Há um intenso debate entre cientistas cognitivos sobre o alcance e o papel da razão.

Um modelo de que gosto bastante é o proposto por Hugo Mercier e Dan Sperber. Para a dupla, a razão evoluiu para o propósito não muito enaltecedor de nos fazer vencer debates e justificar nossas próprias atitudes. É o que explica, por exemplo, a ubiquidade do viés de confirmação, que nos faz encontrar e abraçar rapidamente as evidências em favor de nossas teses e descartar sem exame as contrárias. Essa é uma péssima prática se o objetivo da razão é chegar à verdade, mas muito boa se a meta é só brilhar diante dos pares.

Isso significa que devemos abandonar todas as esperanças de progresso? No plano individual, talvez, mas não no coletivo. Há uma assimetria que nos favorece. Somos muito melhores em apontar erros nos raciocínios dos outros do que em encontrá-los nos nossos. Isso significa que, como sociedade, somos capazes de avançar. Grupos de pessoas suficientemente diversas até conseguem se livrar de teorias e ideias erradas. Fazê-lo individualmente, ainda que não impossível, é mais difícil, já que a tendência é que nos enamoremos de nossas teses mesmo que absurdas.

Se o modelo de Mercier e Sperber é correto, deveríamos ansiar pela publicação de artigos e livros que vão contra nossas ideias. Encontrar erros neles e criticá-los é a forma mais eficiente de fazer avançar nossa agenda.