segunda-feira, 8 de fevereiro de 2021

Doria faz ofensiva para unir PSDB, expulsar Aécio e receber parte do DEM, FSP

SÃO PAULO

Preocupado com o racha no PSDB apresentado na eleição da Câmara dos Deputados, quando boa parte do partido apoiou o candidato de Jair Bolsonaro à presidência da Casa, o governador João Doria (SP) decidiu apresentar um ultimato à cúpula tucana.

Em jantar na noite desta segunda (8) no Palácio dos Bandeirantes, Doria irá colocar na mesa a proposta de expurgar o partido do grupo de Aécio Neves (MG) e de absorver dissidentes do DEM ligados ao ex-presidente da Câmara, Rodrigo Maia.

O vice Rodrigo Garcia, o deputado Rodrigo Maia e João Doria durante encontro no Palácio dos Bandeirantes
O vice Rodrigo Garcia, o deputado Rodrigo Maia e João Doria durante encontro no Palácio dos Bandeirantes - Governo do Estado de São Paulo - 20.nov.2020

O deputado do PSDB mineiro é visto pelo entorno do governador como o motor do governismo latente no partido e principal obstáculo interno para a candidatura de Doria, hoje maior rival de Bolsonaro em cargo eletivo, à Presidência no ano que vem.

A proposta será servida de entrada no Bandeirantes, já que foi informada no convite aos comensais desta noite. Na prática, ela coloca o partido alinhado à tese da postulação de Doria em 2022, reforçando sua posição no momento em que até aqui aliado DEM rachou e assumiu ares neobolsonaristas.

A alternativa, pela lógica, seria a saída de Doria do PSDB. Mas seus aliados não consideram essa hipótese provável hoje.

A contrariedade com o mineiro é partilhada pela ala histórica do partido, a velha guarda liderada por Fernando Henrique Cardoso. O ex-presidente e outros integrantes do grupo, como o senador José Serra (SP) e o ex-senador Aloysio Nunes Ferreira (SP), foram convidados para o jantar.

Devem participar membros da cúpula tucana, como o presidente do partido, Bruno Araújo, e o líder do partido na Câmara, Rodrigo de Castro (MG), que é próximo de Aécio.

O plano de Doria havia sido delineado já na véspera da eleição no Congresso, ocorrida na segunda passada (1º), quando ficou clara a implosão do DEM.

O partido de Rodrigo Maia deixou naquele domingo (31) o apoio ao candidato dele à sua sucessão, Baleia Rossi (MDB), que também era o nome de Doria na disputa com Arthur Lira (PP-AL), o rei do centrão apoiado pelo Planalto.

A desistência do DEM, patrocinada pelo presidente da sigla, ACM Neto, quase levou o PSDB junto. Na noite de domingo, Bruno Araújo ligou para Doria e o informou que seria muito difícil segurar o partido no bloco de apoio a Baleia.

No começo da madrugada de segunda, os deputados Rodrigo de Castro, Carlos Sampaio (SP) e Eduardo Cury (SP) foram à casa de Lira anunciar que o partido deveria ficar independente —na prática, liberando os cerca de 15 ou 20 de 31 deputados que votariam de qualquer forma no líder do centrão.

Maia entrou em ação e contatou Aécio, visto como apoiador dos deputados. O mineiro argumentou que os deputados estavam votando porque a torneira de emendas parlamentares do Planalto havia secado para eles nos dois últimos anos, mas disse que trabalharia para o PSDB se manter nominalmente no bloco de Baleia.

Esse relato dá matizes à crise na segunda cedo, quando só transparecera que Doria e FHC haviam trabalhado para que o partido ficasse no bloco. Para seus interlocutores, foi uma prova de que Aécio não teria operado para Lira.

Mas, na visão dos aliados do governador paulista, o gesto de Aécio foi apenas um ato de respeito prestado a Maia na despedida do cargo.

No domingo (7), Doria recebeu o ex-presidente da Câmara e o seu vice-governador, Rodrigo Garcia, que também é do DEM. Ambos foram convidados para integrar o PSDB, algo que o tucano confirmou em entrevista coletiva nesta tarde de segunda.

"Ficaremos muito felizes se eles aceitarem", disse. No caso de Garcia, a possibilidade é bastante grande, já que o DEM deixou de ser um partido com o qual Doria conta para 2022.

O tucano tem um compromisso de deixar o cargo para que Garcia dispute a reeleição como governador. Apesar de estar no DEM/PFL desde 1994 e hoje comandar o partido no estado, sempre trabalhou com os tucanos.

De quebra, se ele estiver no PSDB, são tolhidas as eventuais pretensões de Geraldo Alckmin, com quem Doria almoçou recentemente, de voltar a disputar o Bandeirantes. A aliados, contudo, o ex-governador cita que considera quem estiver na cadeira e puder concorrer é o "candidato nato".

Garcia já foi sondado por Baleia para migrar para o MDB, mas esse movimento parece muito difícil. O partido já apoia o governo Doria e teve a vaga de vice da chapa vitoriosa de Bruno Covas (PSDB) na capital paulista ofertada pelo tucano em nome de um acerto em 2022.

ACM Neto ainda está tentando convencer Garcia a ficar no DEM, e pode visitá-lo nesta semana.

Já a realidade de Maia é algo diferente. Entrar no PSDB significaria dar o controle partido no Rio, seu estado, para o deputado. Mas ele colocou como condição para tal um processo que chamou de purificação da sigla.

Entre outros nomes que devem migrar para o PSDB está o de Luiz Henrique Mandetta, o ex-ministro da Saúde demitido por Bolsonaro devido a divergências no manejo da pandemia.

O embate entre Doria e Aécio, que quase foi eleito presidente no segundo turno em 2014 e caiu em desgraça após a divulgação do áudio em que pedia dinheiro para o empresário Joesley Batista, é antigo.

O governador considera o mineiro um fardo político incontornável em termos de imagem, além de rival na política interna da sigla.

O paulista buscou a expulsão do mineiro da sigla, mas foi derrotado na Executiva Nacional. Depois, viu o deputado quase emplacar um nome seu, Celso Sabino (PA), na liderança do partido na Câmara.

A força de Aécio na bancada, apesar de seu ostracismo público, é grande e transcende o PSDB. Mas ele sofreu reveses recentes: Sabino está com o pedido de expulsão da sigla em análise pela Comissão de Ética do partido.

Aí entra a confluência com a velha guarda do PSDB, tradicionalmente pouco afeita a Doria e que acalenta desde 2018 uma candidatura do apresentador Luciano Huck à Presidência.

Com o "embaixador" de Doria em Brasília Antonio Imbassahy de mediador, os dois grupos concordam que é preciso isolar Aécio e talvez mais seis deputados —preferencialmente os expulsando do PSDB.

O vácuo seria ocupado por nomes ligados a Maia e a Garcia egressos do DEM e que estão irritados com a condução de ACM Neto.

A guerra ficou escancarada em uma entrevista concedida por Maia ao jornal Valor Econômico nesta segunda, na qual disse que o ex-prefeito de Salvador entregou "a cabeça do partido para Bolsonaro".

O baiano retrucou nesta tarde, dizendo à Folha que o deputado "se encastelou no poder conquistado e, agora, demonstra surpreendente descontrole".

Doria namora o que seus aliados chamam de "DEM do bem", avessos à aproximação com o centrão e o Planalto.

Há resistências contra esse movimento na bancada federal. Um aliado de Aécio afirma que pelo metade do partido na Câmara não concorda com o que chama de "exibicionismo" do tucano paulista, ainda que reconheça seu peso relativo pela cadeira que ocupa e pelo protagonismo no combate à pandemia do novo coronavírus.

Esse deputado afirma, contudo, que prefere ver uma disputa interna no PSDB entre Doria e Eduardo Leite, o governador gaúcho que já foi especulado para tal missão pela velha guarda.

Com o racha instalado no partido, contudo, o tempo corre para que os tucanos se decidam. Na avaliação de seus aliados, a projeção nacional dada pelo patrocínio da vacinação contra a Covd-19 deu a Doria o carimbo que faltava para suas pretensões presidenciais.

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ACM Neto diz que Maia quer transferir seus ‘erros’ ao comando do DEM, OESP

 Redação, O Estado de S.Paulo

08 de fevereiro de 2021 | 16h44

O presidente nacional do DEM, ACM Neto, e o governador de Goiás, Ronaldo Caiado (DEM-GO), reagiram às declarações do deputado Rodrigo Maia (DEM-RJ), que acusou a cúpula do partido de traição na eleição que culminou com a vitória do candidato do Planalto, Arthur Lira (Progressistas-AL), à presidência da Câmara.

Em nota, ACM Neto disse que “lamenta muito” as declarações de Maia e afirma que o deputado quer transferir seus erros para o comando do partido. “Infelizmente, o deputado Rodrigo Maia tenta transferir para a presidência do Democratas a responsabilidade pelos erros que ele próprio cometeu durante a condução do processo de eleição da Mesa Diretora da Câmara”, disse o ex-prefeito de Salvador.

Para Caiado, Maia foi “acometido por uma síndrome que atinge com muita frequência as pessoas que não aceitam deixar o poder: ‘Síndrome da ansiedade de poder’”. Segundo o governador, “ganhar ou perder faz parte de todo o processo político”.

ACM Neto
O presidente nacional do DEM E ex-prefeito de Salvador, ACM Neto Foto: Werther Santana/Estadão

Em entrevista ao jornal Valor Econômico, Maia criticou o posicionamento de Caiado e de ACM Neto pela mudança de posicionamento do partido, que chegou a integrar bloco de apoio de Baleia Rossi (MDB-SP). “Foi um processo muito feito do Neto e do Caiado. Ficar contra é legítimo, falar uma coisa e fazer outra não. Falta caráter, né?.”

Caiado respondeu que “entrevista não deve ser considerada pela classe política porque é indicadora de internação hospitalar”. Segundo Caiado, Maia tentou “furar a Constituição” com a tentativa de reeleição e não havia trabalhado outro candidato para sua sucessão. Para o governador, com a negativa da Corte, o ex-presidente da Casa ensaiou então “um movimento desesperado, de imposição, sem qualquer unidade e coerência”.

“Depois de ter sido eleito por três vezes presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo achou que era proprietário das decisões de todos os deputados do Democratas e dos demais da Câmara. Ao reagir desta maneira, desrespeitou toda a bancada de um partido que sempre lhe deu apoio nos momentos mais difíceis. Agir da forma como Rodrigo agiu é o que, de fato, demonstra falta de caráter”, rebateu Caiado no texto.


Aulas de como escrever, Ruy Castro, FSP

 Um leitor ligou para a Redação da Playboy, identificou-se como coronel do Exército e protestou contra uma reportagem da revista sobre drogas. Sem razão, vira no texto um quê de favorável a elas. "É um crime defender o tóchico!", rugiu. O ano era 1981, ainda propício a ameaças de milicos, e o telefonema fora atendido pelo repórter Geraldo Mayrink. Geraldo tentou acalmá-lo: "Fique descansado, meu coronel. Aqui temos muito cuidado com matérias sobre tóchico, sécho e ideologias echóticas".

Era um privilégio trabalhar ao lado de Geraldo Mayrink e ouvi-lo dizer coisas assim. E melhor ainda vê-lo escrever com incrível velocidade os textos mais bem acabados da imprensa brasileira. Tive essa sorte durante dois anos em Playboy e, depois, fui seu colaborador na revista Goodyear, fora do comércio e tão sofisticada que seus leitores gostariam de nunca mais tomar um carro com pneus de outra marca.

Muito do material de Geraldo —perfis, entrevistas, reportagens—, produzido entre 1960 e 2009, quando ele morreu, era digno de Esquire ou The New Yorker, principais referências da nossa geração. A maioria dos veículos para os quais escreveu não existe mais, mas alguns dos melhores textos que ele publicou podem agora ser lidos num site criado por seu filho, o publicitário Gustavo Mayrink.

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Basta escrever geraldomayrink.com.br para descobrir o que era voar Paris-Rio no Concorde, viver para receber um fundo de garantia e ficar íntimo de Jorge Amado, Rita Lee, Joãosinho Trinta. E há o genial "Paulo Perdigão, o bangue-bangue da alma", sobre o homem que corrigiu o erro histórico do jogo Uruguai 2 x 1 Brasil em 1950 e destrinchou a filosofia de Jean-Paul Sartre usando um varal de roupas em sua casa, tudo isso enquanto decidia os filmes que você iria ver na Globo naquele dia —e só nós, seus amigos, o conhecíamos.

Cada texto de Geraldo é uma aula grátis de como escrever.

O jornalista Geraldo Mayrink (1942-2009) ri para a câmera
O jornalista Geraldo Mayrink (1942-2009) - Reprodução
Ruy Castro

Jornalista e escritor, autor das biografias de Carmen Miranda, Garrincha e Nelson Rodrigues.