terça-feira, 14 de agosto de 2012

Abaixo o diploma de jornalismo


Lúcia Guimarães - O Estado de S.Paulo
NOVA YORK - Faltei à formatura da minha faculdade. Fiquei pendurada porque tirei nota baixa em estatística, tive de fazer o crédito em recuperação e colei grau sozinha no meio do ano. Confesso que não me recuperei em estatística. Assim como não aprendi jornalismo na escola de jornalismo. Lembro dos professores complacentes, um lacaniano esquisito (pleonasmo?), um comunista feroz, uma preguiçosa que não preparava nada e flertava com alunos.
Só fui boa aluna até o fim do segundo grau. Faltava muito à aula na faculdade porque já trabalhava como repórter. Aprendi o ofício na redação.
Uma vez, não preparei o trabalho final de uma matéria e só me lembrei na manhã da última aula. Lavei um vidro de geleia, datilografei várias palavras e joguei o papel picado lá dentro. Sacudi e entreguei para o professor, dizendo que era um poema concreto. Tirei nota 8.
Obrigar o jornalista a ter diploma de jornalismo é como obrigar um cantor a tomar aula de voz antes de cantar no palco, uma violação da liberdade de expressão. Não que uma boa escola de jornalismo seja inútil, pelo contrário, a da Columbia University, aqui perto, é uma usina de grandes profissionais. Mas é uma escola de pós-graduação, você só é aceito se já escrever num nível cada vez mais raro na nossa imprensa.
As redações eram a lição de anatomia do jornalista da minha geração. Hoje é indispensável aprender técnicas do jornalismo digital. Jornalista deve estudar, acima de tudo, português e se educar em história, literatura, economia, ciência, filosofia e ciência política. Quem chega à redação passou pelo crivo de editores e competiu com seus pares, mesmo por um estágio.
Não compreendo por que um graduado em economia que escreve bem seria impedido de cobrir o Banco Central e substituído por um foca que pode ser facilmente enrolado, já que não decifra a informação financeira. Não fui capaz de questionar porta-vozes do governo quando tive que substituir colegas na cobertura da negociação da dívida externa em Nova York. Não entendia bulhufas dos comunicados.
O senador paraibano Cícero Lucena declarou, orgulhoso, pelo Twitter, que votou a favor da obrigatoriedade do diploma porque "democracia se faz com jornalismo ético, profissional e técnico". Sua excelência vai me desculpar, mas essa frase não passa pelo copidesque. O que tem a democracia a ver com a profissionalização do jornalista? E com sua capacidade técnica de fazer fotografia com foco? A ética começa ainda na primeira dentição, em casa, é aperfeiçoada durante a educação e é fundamental para qualquer profissão.
A democracia se faz com jornalismo, ponto. Quando Thomas Jefferson disse que era melhor ter um país sem governo do que um país sem jornais, a inspiração era o civismo, não o corporativismo. O baixo nível da maioria das escolas de comunicação é que erode a democracia porque joga milhares de jovens iletrados na vala comum do subemprego, fabrica profissionais despreparados para contestar o poder e investigar a corrupção num mundo cada vez mais sofisticado e falsificado pelo marketing. Não foi coincidência Charles Ferguson, ganhador do Oscar de 2011 por Inside Job, ter conduzido as entrevistas mais reveladoras já feitas sobre o crash de 2008. O homem se formou em matemática e fez PHD em ciência política, sabia o que perguntar.
A desculpa usada pelo senador sergipano Antonio Carlos Valadares - empresas de comunicação se opõem ao diploma porque querem contratar mão de obra barata - é absurda. A epidemia de cursos superiores de jornalismo alimenta a distorção de mercado que baixa os salários. Por que só o senador Aloysio Nunes Ferreira teve coragem de apontar a aberração constitucional do voto? Qual o motivo por trás da esmagadora maioria dos votos a favor?
E o que define para esses parlamentares a tal profissão, numa era em que qualquer um munido de smart phone pode narrar e fotografar um atentado no Afeganistão e apertar "enviar"? A diferença é editorial e o público vota no bom jornalismo selecionando onde deposita sua atenção. As empresas de comunicação que quiserem produzir seu conteúdo com mão de obra medíocre e barata terão na exigência do diploma sua maior aliada.
O jornalismo é um bem social importante demais para ficar nas mãos de jornalistas diplomados.

domingo, 12 de agosto de 2012

O corpo não mente


2/08/2012 - 03h18

Por Tostão, na FSP

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Termina hoje a Olimpíada. Mesmo que ganhe mais de 15 medalhas, será pouco para o Brasil, pelos enormes gastos. Em Pequim, foram 15. Os dirigentes dizem que, no Rio, em 2016, o Brasil deve chegar a 30 medalhas. Será? Sugiro a ida de especialistas à China para aprender como se transforma, rapidamente, investimentos em medalhas.
Ainda não aprendi as regras e os detalhes técnicos do badminton, do taekwondo e de outros esportes. Assim como Antônio Prata, que lamentou "ter ficado muito tempo peregrinando de prova em prova, sempre com a angustiante sensação de que o melhor acontecia justo onde não estava", eu não deveria ter trocado tanto de canal. Estou cansado. Ainda bem que terminou.
O comportamento das pessoas, diante da televisão, em uma Olimpíada, é bastante variável. Há os que assistem a tudo, mesmo se não gostarem ou compreenderem. Querem apenas passar o tempo.
Existem também os que gostam e entendem e que tiram férias para ver tudo. Os mais numerosos são os que veem apenas a tabela de medalhas.
Pelos noticiários, Londres ficou mais vazia que o habitual. O número de turistas foi menor do que se previa, e muitos londrinos saíram da cidade. O mesmo ocorreu em Paris, na Copa do Mundo de 1998. Na época, encontrei uma torcedora brasileira, desesperada, decepcionada e surpresa. Para ela, haveria carnaval todos os dias na Avenida Champs-Élysées.
Para o Barão Pierre de Coubertin, um homem romântico e idealista, os Jogos Olímpicos deveriam ter funções educativas, morais e de união dos povos. Ele era bastante otimista. A maioria das pessoas que assiste aos Jogos quer apenas se divertir e/ou torcer.
Os atletas quase só pensam nas medalhas. A confraternização dos atletas de vários países é muito mais uma obrigação simbólica e bem educada.
Se no cotidiano, com tempo para pensar e racionalizar, o cidadão, com frequência, tenta levar vantagem em tudo, imagine um atleta, na emoção de uma disputa e tendo de decidir, em uma fração de segundos, entre a postura ética e o orgulho e o desejo de ficar rico, famoso e de ser um herói. Por isso, alguns atletas ainda se dopam, mesmo com o enorme risco de serem flagrados.
Existe um preconceito com o esporte, de que seria algo menor, não intelectual, instintivo e corporal. Não é por aí. O esporte é uma disputa técnica, científica, criativa e rica de emoções.
Os sentimentos, antes de chegarem à consciência, passam pelo corpo, por meio de gestos e olhares. O corpo fala primeiro. O corpo não racionaliza nem mente.
"O corpo é a sombra da alma" (Clarice Lispector).
Tostão
Tostão, médico e ex-jogador, é um dos heróis da conquista da Copa do Mundo de 1970. Afastou-se dos campos devido ao agravamento de um problema de deslocamento da retina. Como comentarista esportivo, colaborou com a TV Bandeirantes e com a ESPN Brasil. Escreve às quartas e domingos na versão impressa de "Esporte".

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Etanol, urgente!, por Arnaldo Jardim




Nosso etanol perde competitividade e deixa de ser vantajoso em relação à gasolina, a qual vive um artificialismo no seu preço. O combustível “verde e amarelo” está em baixa por uma série de fatores, mas principalmente por falta de uma política estável de incentivo a sua produção.
A expectativa do combustível brasileiro ganhar outros mercados pela sua vantagem competitiva e diferencial ecológico fica cada mais distante. O etanol cede espaço na matriz de combustíveis e vemos aumentar o consumo de gasolina importada e o déficit de nossa conta combustíveis. Sob a alegação de que o congelamento de preço é necessário para manter o controle da inflação, o governo cava um buraco que vai custar caro!
Com o consumo de combustíveis em alta ampliação da frota e de outro lado a produção de petróleo estagnada, passamos de potencial exportador a bater recordes de importação de etanol. De acordo com dados da Secex (Secretaria de Comércio Exterior), o Brasil importou em 2011 um total de 1,1 bilhão de litros de etanol dos EUA produzidos a partir do milho.
A crescente importação de etanol e também de gasolina – segundo a ANP, até maio o volume cresceu 315% na comparação com o mesmo período do ano passado - está na contramão do discurso oficial de que o Brasil não pode e não deve abrir mão do uso de energias renováveis e limpas.
A solução para o setor sucroalcooleiro recuperar fôlego depende muito mais da ação do governo do que propriamente do mercado. Se isso não ocorrer, vamos assistir o desmantelamento do complexo sucroenergético, que colocou o Brasil na vanguarda mundial dos biocombustíveis.
Não podemos esmorecer na inovação tecnológica aplicada à cultura da cana de açúcar, que em grande parte é responsável pelo boom que a agricultura brasileira vive nos últimos anos. Parece-se esquecer que nos 37 anos de existência do Proálcool, o etanol combustível substituiu mais de 2,2 bilhões de barris de gasolina até junho desse ano, grande contribuição para a redução do chamado efeito estufa. 
Recentemente, o governo acenou com a possibilidade de zerar tributos que incidem sobre esta cadeia produtiva, como o PIS/Cofins, e aumentar a mistura de etanol à gasolina para 25%, mas a promessa ainda não se materializou, mesmo sendo sozinha insuficiente para dar novo alento ao setor.
Além da definição do papel que o etanol deve ter na nossa matriz energética, é preciso estabelecer regras duradouras e criar linhas de crédito para estimular o setor ainda abalado pela crise de 2008 e por fatores climáticos que reduziram a produtividade. Na safra 2011/2012, a produção do biocombustível recuou 17%, o que representa algo em torno de 5 bilhões de litros.
Neste sentido, a ampliação do parque de moagem e a renovação de canaviais são fundamentais para aumentarmos a oferta de etanol e estabilizarmos o preço do combustível. Nunca é demais lembrar que não fosse a crescente demanda internacional pelo açúcar, o setor sucroalcooleiro estaria em completa estagnação.
O Brasil possui a matriz de combustível mais limpa do mundo, um sucesso resultante da utilização do etanol. Temos também o biodiesel, mas é a vertente do etanol que difere o Brasil dos demais países, por ser um combustível limpo, renovável e de baixo custo.
Especialistas apontam que nos próximos 10 anos serão necessários a construção de aproximadamente 120 novas usinas sucroalcooleiras para atender a demanda de açúcar – interna e externa – e a produção de etanol anidro para a mistura à gasolina.
É preciso, então, um conjunto de medidas de curto, médio e longo prazo para ampliarmos e renovarmos os canaviais, aumentarmos a eficiência das unidades produtoras existentes e estimularmos a construção de novas plantas, e principalmente, criar condições para a utilização da biomassa residual (bagaço e palha) na produção de bioeletricidade, que também perdeu espaço e interesse na atual política adotada para os leilões de energia.
Mas a questão central é o preço! A garantia de rentabilidade, alterar a absurda correlação fixada entre a gasolina e etanol – quando se vincula um com preço politicamente conduzido com o outro cujo preço  flutua ao valor do mercado!
O governo precisa tomar decisão: quer o Etanol ? Deve-se pagar por isto! Garantir que, por medidas tributárias e/ou creditícias se garanta a rentabilidade do setor, chave para retomar e ampliar os canaviais, utilizar a capacidade instalada ociosa e até iniciarem-se novos projetos.
A sociedade já fez sua escolha: sabe dos benefícios de geração de emprego e renda, reconhece os enormes ganhos ambientais e sabe que ficará mais barato o nosso combustível se ele tiver, na mistura ou no uso direto, cada vez mais etanol !
É disso que o Brasil, é isto que o Governo tem que assegurar, Etanol urgente!


 
Arnaldo Jardim deputado Federal (PPS/SP) – membro da Comissão de Minas e Energia e presidente da Frente Parlamentar Mista em Defesa da Infraestrutura Nacional.
E-mail: arnaldojardim@arnaldojardim.com.br
Site oficial: www.arnaldojardim.com.br
@ArnaldoJardim