quinta-feira, 9 de abril de 2026

Brasileiros desconfiam mais de notícias de veículos jornalísticos que de conteúdo de amigos em redes sociais e mensagens, FSP

 

São Paulo

Cerca de metade (48%) dos usuários de internet brasileiros desconfiam sempre ou na maioria das vezes de informações produzidas por veículos de jornalismo profissional —um número maior do que aqueles que não confiam em conteúdos de amigos ou familiares em redes sociais (39%) ou em aplicativos de mensagens (42%).

Ao mesmo tempo, apenas 36% dos usuários de internet afirmam checar sempre as informações que recebem por aplicativos de mensagens ou redes sociais, e 28% dizem verificar "na maioria das vezes". São 14% dos internautas que dizem checar "poucas vezes" ou "nunca" a veracidade dos conteúdos recebidos.

Os dados constam do painel TIC, pesquisa com usuários de internet no Brasil elaborada pelo Comitê Gestor da Internet, pelo Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR (NIC.br) e pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br) que será divulgada nesta sexta-feira (10). A Folha teve acesso com exclusividade aos dados do levantamento.

Para a pesquisa, foram feitas entrevistas online com 5.250 usuários de internet com 16 anos ou mais de idade em agosto e setembro de 2025. A margem de erro varia conforme a pergunta e o recorte.

Dedo indicador próximo ao ícone verde do WhatsApp em tela de smartphone, com ícones do Facebook e Twitter parcialmente visíveis ao lado.
Foto mostra ícone do aplicativo de mensagens WhatsApp na tela de um celular - Dado Ruvic/REUTERS

"Os resultados são muito preocupantes, mostram a fragilidade na construção da opinião pública; como já mostravam vários estudos, a confiança no interlocutor tem mais valor que a própria veracidade do conteúdo", diz Renata Mieli, coordenadora do Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br).

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Segundo ela, as pessoas preferem consumir um tipo de informação que não passa mais pelo crivo profissional da atividade jornalística e que não tem checagem. "Os veículos de imprensa são responsáveis pelos conteúdos, isso os faz manter mínimo de qualidade", diz.

É a primeira vez que o painel TIC faz uma pesquisa sobre práticas de acesso e verificação de informações, uso de redes sociais.

O levantamento mostra que a maioria das pessoas obtém informações sobre o que está acontecendo no mundo por meios digitais. A porcentagem de usuários que acessam notícias várias vezes por dia ou pelo menos uma vez por dia por aplicativos de mensagens é 60%; por feeds de vídeos curtos (como TikTok) é 52%; sites ou aplicativos de vídeos, 50%.

São percentuais maiores do que os de quem diz acessar frequentemente o noticiário por telejornais (45%), sites ou portais de notícias na internet ou podcasts (37%); canais de notícias 24 horas (34%), rádios (28%), jornais ou sites de jornais (26%) e revistas (22%).

Os números variam de acordo com a renda e escolaridade. O acesso diário por meio de sites ou portais de notícias na Internet, por exemplo, foi relatado por 58% dos entrevistados das classes A e B, diante de 33% da classe C e 27% das classes D e E.

A pesquisa mostra também que as pessoas estão familiarizadas com as ferramentas de IA generativa: 47% relataram já ter usado o ChatGPT, seguido pela IA do WhatsApp (42%), Gemini (30%) e Copilot (14%).

Os resultados indicam que 65% da população consome notícias diariamente, taxa que entre os jovens na faixa de 16 a 24 anos cai para 46%. O resultado está em linha com a chamada "news avoidance" , tendência de parte da população de evitar o noticiário por perceber que há um excesso de informações negativas ou por se sentir saturado com tanto conteúdo circulando.

A faixa dos 45 a 59 anos é a com maior porcentagem de consumo diário de noticiário, com 79%.

Muitos dos entrevistados se mostram apáticos em relação à possibilidade de receberem informações falsas. Entre aqueles que afirmam não checar a veracidade de conteúdos, 34% disseram concordar totalmente com a frase "não vale a pena pesquisar se as informações que eu recebo são verdadeiras" e 30% com a afirmação "Hoje em dia as informações são tão polarizadas que não vale a pena pesquisar se são falsas ou verdadeiras".

As motivações mais citadas pelos usuários de internet para deixar de verificar informações são: esquecer de checar (36%), não ter tempo (33%), não ter interesse (33%) e ter certeza de que a informação é verdadeira (31%) ou falsa (25%).

Cinco plataformas lideram em uso diário, independentemente da finalidade. Foram 54% dos entrevistados que afirmaram usar o WhatsApp "praticamente o tempo todo", com 91% dizendo utilizar o aplicativo de mensagens diariamente. As outras quatro plataformas mais usadas foram Instagram (73% de uso diário), YouTube (73%), Facebook (57%) e TikTok (50%).

Drauzio Varella A falta de atenção e a memória, Drauzio Varella, FSP

 Perguntei quantos achavam que a memória estava pior. Formada por cerca de 500 estudantes de medicina, mais da metade da plateia levantou a mão. Comentei que se tratava de uma epidemia de Alzheimer juvenil. Eles riram.

Perda de memória talvez seja a queixa mais frequente nas consultas médicas de hoje. No passado, esse fenômeno ficava restrito aos poucos que insistiam em viver mais do que 70 ou 80 anos. Todos encaravam com naturalidade os avós que repetiam cinco vezes a mesma pergunta e passavam o dia à procura de objetos deixados sabe Deus onde.

Consideravam esses esquecimentos "esclerose da idade". Diziam: "Minha avó é capaz de esquecer do que foi servido no almoço, mas tem uma memória prodigiosa, lembra de fatos que ocorreram quando tinha sete anos de idade".

Na parte inferior da ilustração vemos sombras e ramos espinhosos que vão até um celular na parte direita da ilustração, o celular ilumina o rosto de um jovem, de sua cabeça partem ramos e galhos retorcidos que, como em uma ventania de outono, perdem suas folhas ao vento. O jovem vê desconfiado essas folhas que se vão.
Libero /Folhapress

Em linhas gerais, existem dois grandes grupos de memórias: as de longa e as de curta duração, estas também chamadas de memória de trabalho.

As primeiras persistem por décadas ou pelo resto da vida, especialmente quando são gravadas em momentos de forte emoção. Razão pela qual não esquecemos o lugar em que estávamos ao receber a notícia da morte de um ente querido ou da queda das Torres Gêmeas, em Nova York, ou da rua em que nos roubaram o celular.

A memória de trabalho, ao contrário, é descartável, grava por pouco tempo os acontecimentos que nos ajudam a tocar a rotina diária. Por exemplo, lembro que deixei um copo de água na mesa ao lado ou que fiquei de telefonar para minha irmã ao meio-dia ou que preciso lavar a xícara do café que acabei de tomar. Depois de executadas essas tarefas, tais lembranças serão varridas do cérebro, de modo a deixar espaço livre para outras.

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No conto "Funes el memorioso", publicado em 1942, Jorge Luis Borges narra a vida de Ireneo Funes, jovem uruguaio que depois de um acidente desenvolve a capacidade de memorizar nos mínimos detalhes tudo o que acontece ao seu redor: o rosto de uma pessoa que acabou de conhecer e que nunca mais verá, o formato das nuvens no céu dia após dia, a disposição das folhas das árvores, as ações mais insignificantes executadas em casa.

Essas habilidades, no entanto, deixavam os circuitos neuronais de sua memória tão sobrecarregados que Funes se tornou incapaz de raciocínios elementares, de pensamentos abstratos, de fazer associação de fatos e generalizações. Seu cérebro passava os dias inundado de informações inúteis que o impediam de organizar as ideias para tomar decisões racionais.

Dizer que somos o que está arquivado em nossa memória é parte da verdade; não podemos esquecer que também somos as memórias que nosso cérebro decidiu desprezar.

Voltemos aos desmemoriados de hoje. No caso dos mais velhos, há várias causas: entre elas, o envelhecimento cerebral, o volume crescente de informações armazenadas no decorrer dos anos, a dificuldade de encontrar espaço livre no hardware para arquivá-las e o desgaste na produção de neurotransmissores essenciais.

Esses fenômenos, no entanto, não explicam a epidemia de desmemoriados jovens. Como em pessoas de 20 ou 30 anos são muito raras as degenerações neurológicas, é bem provável que a causa do problema esteja ligada à falta de atenção. São tantos os estímulos simultâneos a que estão submetidas, que esse requisito fundamental para a consolidação de memórias se perde.

Num trabalho conduzido anos atrás, pesquisadores submeteram jovens universitários a uma bateria de testes de atenção, em três situações distintas. Na primeira, eles deixavam o celular fora da sala em que os testes seriam aplicados; na segunda, entravam com o celular e os desligavam antes de começar a responder; na terceira, o celular permanecia ligado durante a realização dos testes.

Os maiores índices de acertos ocorreram quando os celulares ficavam do lado de fora. Os piores, quando permaneciam ligados. Os testes aplicados quando os aparelhos estavam ao alcance das mãos, mas desligados, apresentaram resultados intermediários. Quer dizer, a simples presença do celular já é capaz de desviar a atenção.

A seleção natural não moldou o cérebro humano para dar conta da infinidade de desafios cognitivos impostos pela vida online. Se lembrarmos que os mesmos fatores de risco estão por trás das crises de ansiedade e de depressão que afligem crianças e adultos de todas as idades, concluiremos que não está fácil preservar a sanidade mental no mundo de hoje.