sexta-feira, 4 de setembro de 2026

Tarifa Zero deixa de ser tabu e se torna política pública, Mauro Calliari, FSP

 Em 1991, São Paulo poderia ter sido a primeira cidade brasileira a adotar a Tarifa Zero. Na época, o transporte público era caótico e irregular, com filas gigantescas, ônibus velhos e até veículos clandestinos.

A então prefeita Luiza Erundina reorganizou as linhas e alterou a forma dos contratos de concessão. E bancou a proposta da Tarifa Zero, feita pelo secretário de Transportes Lucio Gregori e sua equipe, que nunca havia sido discutida no Brasil até então.

Para financiar isso, a solução foi propor um aumento progressivo do IPTU. O projeto de lei não chegou nem a ser votado na Câmara dos Vereadores. No livro "Tarifa Zero, a cidade sem catracas", os autores do projeto contam que a ideia tinha muito apoio popular, mas não político, numa época em que nem se falava disso.

Dois ônibus azuis e brancos estão parados em uma rua. Ambos exibem adesivos grandes com a frase 'Tarifa Zero Transporte Para Todos'. Ao fundo, há placas de sinalização e postes de energia.
A mobilidade virou direito constitucional; no Brasil, já há mais de 170 cidades que implantaram a Tarifa Zero - Divulgação/Prefeitura de Vargem Grande Paulista

Talvez hoje a proposta tivesse mais chance de avançar. Trinta e cinco anos depois, o cenário mudou e o que era novidade já não causa furor.

No Brasil, já há mais de 170 cidades que implantaram a Tarifa Zero. Trata-se, na maioria, de pequenos municípios, mas, somados, já alcançam uma população equivalente à do Rio de Janeiro. Nove capitais já implantaram algum tipo de gratuidade parcial, além daquelas que já existem, para idosos e estudantes, por exemplo.

São Paulo zerou a tarifa aos domingos. Belo Horizonte tem um interessante programa de gratuidade nas linhas que circulam pelas favelas da cidade. O direito ao transporte foi incluído na Constituição em 2015 e o tema já é debatido no governo federal sem provocar reações de espanto.

Sabia-se que havia demanda reprimida, mas poucos imaginavam que algumas cidades veriam aumentos de até três vezes no número de passageiros. Em São Caetano do Sul, na Grande São Paulo, o sucesso foi tão grande que a prefeitura tomou recentemente a decisão de restringir o benefício apenas a moradores da cidade. Em São Paulo, o número de passageiros aos domingos aumentou 30%.

Pode ser que alguns estejam apenas experimentando a novidade, mas, se se confirmar no médio prazo, essa explosão de passageiros talvez exprima de fato a triste realidade: muita gente, principalmente nas regiões periféricas, deixa de sair para fazer atividades essenciais por falta de dinheiro para uma simples condução.

E o financiamento?

Uma coisa é Maricá (RJ), com receita garantida pelos royalties do petróleo, oferecer transporte gratuito. Outra é considerar as dificuldades de caixa dos municípios brasileiros. Nas metrópoles, a complexidade é ainda maior, com proximidade entre os municípios e desintegração tarifária, sem nem considerar o metrô.

Estudos sugerem que é possível misturar formas de financiamento, usando o vale-transporte e financiamento federal. Fora do Brasil, cidades como Paris dividem o custo entre empresas, governo e o usuário.

O interessante é que há benefícios indiretos da Tarifa Zero, medidos em um estudo da NTU (Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos). Em Caucaia (CE), o faturamento no comércio aumentou 25%. Em Paranaguá (PR), o número de acidentes no trânsito caiu 40%. Em São Caetano do Sul, comprovaram até que há menos cancelamentos nas consultas no SUS.

Talvez não seja possível nem desejável implantar a Tarifa Zero universal no curto prazo. Entretanto, vale lembrar que várias prefeituras já estão, na prática, arcando com o subsídio às tarifas há anos.

Em São Paulo, por exemplo, desde os movimentos de junho de 2013, o tema de aumento das tarifas virou um tabu tão grande que a prefeitura vem aumentando o subsídio, hoje na faixa dos R$ 6 bilhões anuais, pago diretamente às empresas de ônibus, para não ter que se desgastar com aumentos polêmicos no preço das passagens.

É melhor encarar o problema que escondê-lo. Nos últimos anos, aumentou o número de pessoas que se deslocam em motos ou automóveis em detrimento dos ônibus. Para desafogar as cidades e incluir as pessoas que hoje nem saem de casa, o transporte público, além de preço acessível, precisaria de novos modelos de contratos, qualidade e prioridade. Parece urgente permitir o acesso à cidade a quem não tem.


Ministério Público cita Farma Conde, Rumo e Cosan em investigação sobre ICMS em SP- FSP

 

Brasília

O presidente Lula (PT) avalia a possibilidade de indicar o nome do governador interino do Rio de Janeiro, o desembargador Ricardo Couto, para o STF (Supremo Tribunal Federal), no lugar do ministro Jorge Messias, na tentativa de debelar a crise que hoje assola a corte.

Apoiadores da ideia argumentam que a indicação de Couto seria uma demonstração de respeito institucional por parte de Lula, uma vez que, temporariamente, ele abriria a mão da indicação do ministro-chefe da AGU (Advocacia-Geral da União) em prol da pacificação do Judiciário.

Para dimensionar a magnitude do gesto, esses petistas lembram que o governador do RJ não compõe o círculo de amizades do presidente, enquanto Messias é um aliado leal.

Homem de terno escuro, camisa branca e gravata azul fala em microfone. Atrás dele, homem com barba branca usa chapéu claro e camisa branca, olhando para baixo.
O governador em exercício do Rio de Janeiro, Ricardo Couto, discursa em evento com Lula - Eduardo Anizelli - 28.jul.26/Folhapress

Mas a escolha de Couto poderia se converter em capital político no terceiro maior colégio eleitoral do país. Após quatro meses de gestão, o governador interino tem o seu trabalho aprovado por 47% dos eleitores fluminenses e reprovado por 31% de acordo com a mais recente pesquisa Datafolha.

Ainda segundo auxiliares do presidente, o nome de Couto vinha sendo cogitado há cerca de dois meses e voltou à mesa após a eclosão de novo confronto entre ministros. A informação sobre eventual indicação do governador em exercício ao STF foi publicada inicialmente pela CNN e confirmada pela Folha.

Lula tem elogiado, publicamente, a atuação do desembargador como interventor no estado. No mês passado, durante ato em Bangu, o presidente chegou a falar que o magistrado está fazendo uma limpa do Rio.

O petista disse que, caso chegue ao Palácio Guanabara, Eduardo Paes (PSD) terá de continuar a "limpeza" realizada por Couto. O desembargador assumiu o Executivo em março, após a renúncia de Cláudio Castro (PL), e determinou revisão em contratos e exonerações.

Apesar dos elogios, a retirada de Messias significaria amarga derrota para o presidente, que declarou a intenção de reapresentar seu nome para a vaga após rejeição no Senado. Por isso, entre aliados de Lula, há quem defenda que essa desistência seja acompanhada da demissão do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues.

Na avaliação de uma ala do governo, embora conte com a confiança do presidente, Andrei está perdendo as condições de liderar a corporação, que segundo esses aliados do presidente está contaminada pelo bolsonarismo. O alinhamento do diretor-geral com uma ala do STF —integrada pelos ministros Alexandre de Moraes e Gilmar Mendes— também tem sido alvo de críticas no Palácio do Planalto.

Na terça-feira (1º), essa afinidade foi evidenciada quando Gilmar procurou Lula para cobrar apoio do governo à cúpula da PF. A cobrança se deu em meio a uma queda de braço entre Andrei e o ministro André Mendonça, do STF, sobre a condução das investigações do Banco Master. O caso ganhou novos contornos após Mendonça determinar a elaboração pela PF de um relatório que expôs trocas de mensagens entre Moraes e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro.

Segundo relatos, na conversa com Lula, o decano do STF afirmou que existe uma disfuncionalidade nas relações entre PF e a Advocacia-Geral da União e o Ministério da Justiça, este chefiado por Wellington César Lima e Silva.

Integrantes da cúpula da Polícia Federal dizem ver omissão da AGU (Advocacia-Geral da União) nos atritos entre a corporação e Mendonça. O órgão comandado por Jorge Messias, por sua vez, tem apontado que a PF propõe medidas que poderiam resultar na anulação de investigações sobre o Banco Master.

A troca de acusações é o último capítulo da disputa que escalou entre a AGU e a PF nos últimos meses. O embate começou quando a Polícia Federal passou a demandar que a AGU atuasse perante o Supremo para tentar reduzir o controle do ministro Dias Toffoli sobre os inquéritos dos quais ele era relator.

Com aval de Lula, a AGU, responsável por representar juridicamente a União, tem se manifestado de forma contrária a esse tipo de demanda.

Como essa é apontada como uma atribuição do Ministério Público, o presidente poderia ser acusado de tentativa de interferência em outro poder se a AGU atuasse no caso. Prevalece o argumento de que o governo não pode ser arrastado para uma crise que não é sua.

Messias já tentou articular uma solução consensual para o conflito e marcou em agosto uma reunião entre Mendonça e o ministro Wellington Lima e Silva. Andrei Rodrigues não esteve no encontro.

Segundo aliados do presidente, a estratégia dessa ala do STF tem sido articulada em reuniões e cafés que contam com a participação do diretor-geral da PF. Sua presença numa articulação que inclui críticas a ministros de Lula tem sido encarada como um incentivo à crise no tribunal.

Na opinião de colaboradores de Lula, para dar um freio de arrumação, Lula seria obrigado a sacrificar dois aliados, hoje em lados opostos da contenda: Messias e Andrei.

Lula tentou se distanciar da crise, mais uma vez sob argumento de que não deve interferir em outro poder. Mas acabou se manifestando após conversas com o presidente do STF, Edson Fachin, e Gilmar Mendes.

A rixa entre ministros do STF se agravou após a rejeição do nome de Messias para o tribunal, em uma articulação atribuída, dentre outros, ao triunvirato composto por Gilmar, Moraes e Flávio Dino.

Incomodado com o que descrevia como uma usurpação da caneta presidencial, Lula reivindicou seu direito de indicar o ocupante da cadeira deixada por Luís Roberto Barroso.

Nas conversas, ele ressaltava ainda o preparo técnico do advogado-geral da União, que contava com o apoio explícito de Mendonça e do ministro Kassio Nunes Marques. Sua derrota acirrou o clima de desconfiança na corte.

A crise explodiu a um mês do primeiro turno. E Lula foi aconselhado a agir na tentativa de impedir que o conflito dite a agenda eleitoral.