quarta-feira, 6 de maio de 2026

Desequilíbrios voltam à pauta global, Martin Wolf - FT FSP

 "De novo? Não acabamos de ter esse debate?" É assim que começa o capítulo de abertura de uma coletânea de ensaios publicada pelo Centre for Economic Policy Research, sobre "Os Novos Desequilíbrios Globais". Sim, tivemos. Tivemos nos anos 1980, nos anos 2000 e agora, mais uma vez, nos anos 2020.

Aproximadamente a cada 20 anos, ao que parece, a questão vem à tona. Isso acontece por duas boas razões. Uma é que os desequilíbrios em conta corrente alimentam o sentimento protecionista. A outra é que são prenúncios de crise financeira.

Globo terrestre em primeiro plano mostra continentes coloridos. Ao fundo, desfocados, estão a bandeira dos Estados Unidos e o logo azul da FDA.
Globo terrestre à frente de uma bandeira dos Estados Unidos - Dado Ruvic - 13.mai.25/Reuters

Nos anos 1980, o sentimento protecionista cresceu contra o Japão, que também foi onde a crise financeira se abateu. Nos anos 2000, a era do "choque da China", o protecionismo começou a crescer contra a China e uma crise financeira atingiu o mundo ocidental. Nos anos 2020, o protecionismo já está aqui, nos Estados Unidos acima de tudo. Mas a crise financeira não —ou pelo menos ainda não.

A visão de muitos economistas hoje é que, se uma crise vier, provavelmente será deflagrada nos EUA. Assim, os autores do capítulo citado acima, Beatrice Weder di Mauro e Jeromin Zettelmeyer, afirmam que "o estoque de passivos externos do país central no sistema financeiro global já é alto e deve continuar crescendo. Ao mesmo tempo, gestores de ativos mantêm exposições cada vez mais concentradas, as avaliações de ações estão esticadas e sinais de nervosismo dos investidores estão surgindo, com maiores esforços para proteger riscos". Em outras palavras, tenha medo, tenha muito medo.

Então, quão semelhantes são as condições atuais às de duas décadas atrás? O que pode dar errado? O que deveria ser feito? Como a situação atual pode terminar?

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A resposta à primeira pergunta é que há semelhanças e diferenças.

Uma semelhança é que as principais economias superavitárias e deficitárias são as mesmas: China, países credores europeus (especialmente a Alemanha), Japão e produtores de petróleo são novamente os principais países superavitários, enquanto os EUA são o principal devedor.

Enquanto isso, o superávit reportado da China tem aproximadamente o mesmo tamanho agora em relação à economia mundial que tinha em 2008, embora represente uma parcela muito menor de seu próprio PIB porque o tamanho relativo de sua economia mais que dobrou.

Uma diferença é que os países europeus antes deficitários agora registram um pequeno superávit. Diferenças mais importantes são que os passivos líquidos dos EUA atingiram 24% do produto global em 2024, contra meros 6% em 2008, e que o setor privado americano entrou em equilíbrio. Portanto, a contrapartida doméstica de seus déficits externos hoje é o endividamento do governo dos EUA.

O que pode acabar dando errado?

Uma resposta é o protecionismo. Parte do que vemos hoje é o resultado defasado do primeiro choque da China na política americana atual, agora demonstrado na abordagem de tiro de canhão de Donald Trump em relação às tarifas. Outra é o impacto do sucesso chinês na manufatura avançada, particularmente contra a Europa.

Como Michael Pettis argumenta há muito tempo, comércio, protecionismo e finanças estão intimamente ligados. Se um país tem uma parcela extremamente baixa de consumo das famílias no PIB (40% no caso da China), também terá uma parcela enormemente alta de poupança no PIB. O excesso de poupança então precisa ser absorvido no exterior, especialmente depois que a alternativa de um boom imobiliário doméstico (como no Japão nos anos 1980 e na China nos anos 2010) colapsa.

Se um país vai exportar excesso de poupança, precisa produzir um superávit de bens comercializáveis. No caso da China, isso significa manufaturados. Em suma, o superávit comercial da China de US$ 1,2 trilhão no ano passado não é apenas produto de competitividade, mas também de seus desequilíbrios macroeconômicos.

Além disso, se a China tem enormes superávits de poupança, outros devem ter déficits compensatórios. Os EUA são o país mais digno de crédito do mundo e, portanto, naturalmente seu tomador mais seguro.

"Se algo não pode continuar para sempre, vai parar." Isso é conhecido como a lei de Stein (em homenagem ao falecido Herbert Stein). Mas se isso deve ser interrompido com sabedoria, os formuladores de políticas precisam livrar suas mentes de algumas tolices.

Uma dessas tolices é que os déficits comerciais dos EUA podem ser eliminados apenas por política comercial ou cambial. Também é necessário ajuste macroeconômico, notadamente uma redução no déficit fiscal do governo geral dos EUA, projetado pelo FMI (Fundo Monetário Internacional) em 7,5% do PIB em 2026.

Outra tolice, oposta, é a ideia de que o devedor é sempre o culpado: tudo o que é necessário é que ele reduza seus gastos, especialmente seus déficits fiscais. Esse é o credo do credor irresponsável. No caso de pequenos devedores, isso faz algum sentido. No caso dos EUA, não faz.

Se o único ajuste for o aperto fiscal dos EUA, teremos uma desaceleração global. A demanda agregada importa. Grandes economias como China e UE precisam gerar demanda doméstica suficiente para equilibrar suas próprias economias sem forçar estrangeiros a tomar empréstimos descontroladamente. Esses últimos acabarão em crises.

A última tolice é a falácia mercantilista de que o caminho para enriquecer é acumular superávits eternamente. Isso esbarra em dois perigos. O primeiro é que, mais cedo ou mais tarde, os devedores darão calote. O segundo é que, justa ou injustamente, eles também acabarão odiando os países superavitários por arruinarem suas indústrias domésticas. Isso será visto como criação de pobreza e insegurança, em múltiplas dimensões. Que a China esteja fazendo isso agora com a Alemanha é levemente divertido. Mas a diversão deve parar e a ação começar agora.

Então, o que deveria ser feito? A ação sensata seria seguir os conselhos de ajustes macroeconômicos e mudanças nas políticas comerciais e industriais oferecidos pelo FMI e por um excelente artigo recente para a cúpula do G7 em Paris. As chances de tal ação preventiva são próximas de zero. Qualquer capacidade que tínhamos de fazer isso desapareceu em uma era de populismo, nacionalismo e múltiplas loucuras. A segunda melhor opção é se preparar para uma crise. Agora é a hora de começar.

Crise global do petróleo impulsiona o setor de energia renovável, NYT FSP

 CHICO HARLAN

Roma | The New York Times

Com a rota de abastecimento de combustíveis fósseis mais importante do mundo quase paralisada, muitos defensores da energia eólica e solar afirmam que a transição para energias renováveis está prestes a acelerar significativamente.

O chefe de clima das Nações Unidas, Simon Stiell, descreveu recentemente uma "imensa ironia" na qual líderes que "lutaram para manter o mundo viciado em combustíveis fósseis estão inadvertidamente turbinando o boom global das renováveis".

Ele não citou o presidente Donald Trump, mas os Estados Unidos estão promovendo agressivamente o petróleo e o gás natural, e seu ataque ao Irã levou ao fechamento efetivo do estreito de Hormuz, rota de cerca de um quinto do comércio global de petróleo.

Diversas turbinas eólicas alinhadas em campo aberto sob céu azul claro com poucas nuvens. As pás das turbinas estão em movimento, indicando geração de energia eólica.
Parque de energia eólica em Roscoe, nos EUA - Ralph Lauer - 31.out.13 / Zumapress/Xinhua

Levará tempo para ver até que ponto a previsão de Stiell se concretizará. Mas um relatório divulgado nesta quarta-feira (6) destaca uma razão para esse sentimento: em um momento em que o fornecimento de petróleo e gás está vacilando, o custo da energia eólica e solar continua caindo.

E, quando combinadas com sistemas de baterias para armazenamento, as renováveis frequentemente podem fornecer eletricidade estável de forma mais barata que os combustíveis fósseis, mesmo quando o sol não brilha ou o vento não sopra.

Isso acontece enquanto as exportações chinesas de painéis solares bateram recorde em março, dobrando em relação ao mês anterior, com países como Nigéria, Índia e Austrália importando mais do que nunca. Analistas alertam que parte do aumento pode ter vindo de compras antecipadas antes de uma mudança na política chinesa que efetivamente elevaria os preços a partir de abril.

Mas há outras evidências de uma possível mudança, desde o aumento nas vendas de veículos elétricos na Europa e na Ásia até o crescimento nas vendas de bombas de calor na Europa.

O relatório desta quarta-feira, da Agência Internacional de Energia Renovável, uma organização intergovernamental sediada em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos, mostra como uma fraqueza tradicional da energia solar e eólica, a intermitência, está diminuindo em meio a avanços tecnológicos e baterias mais baratas. A capacidade de manter um fluxo de energia previsível é particularmente crucial para projetos como data centers, que exigem fornecimento constante.

"As renováveis estão entrando nesse novo território", disse Francesco La Camera, diretor-geral da agência de energia renovável, que promove energia limpa em todo o mundo. "Nesse caso, o armazenamento fará com que as renováveis se tornem dominantes no sistema energético. Não há dúvida."

Isso não significa que a energia renovável seja uma solução para todos os problemas de um mundo enfrentando um choque energético. Grandes projetos eólicos ou solares, mesmo no melhor cenário, levam vários anos para entrar em operação. Algumas indústrias cruciais, como aviação e cimento, não têm uma alternativa pronta para os combustíveis fósseis. E muitos países não têm dinheiro para realizar uma "mudança completa em seu sistema elétrico", disse Nat Bullard, analista de energia em Singapura e cofundador da Halcyon, uma empresa de dados energéticos.

Ainda assim, disse Bullard, "o sinal de longo prazo é bastante claro: faça tudo o que puder para reduzir sua dependência de petróleo importado".

O relatório da agência de energia renovável afirmou que os custos de armazenamento em baterias caíram 93% desde 2010, abrindo portas para projetos em partes do mundo com sol abundante ou ventos fortes. A China tem os custos solares mais baixos de qualquer país, com alguns projetos fornecendo eletricidade pela metade do custo do gás. Mesmo em um país com combustíveis fósseis abundantes e baratos, como a Arábia Saudita, a energia solar pode fornecer eletricidade quase contínua a um custo cada vez mais competitivo com os combustíveis fósseis, disse o relatório.

Os custos nos Estados Unidos para energia eólica e solar caíram nos últimos cinco anos, mas permanecem mais altos do que em muitos outros países. La Camera disse que isso se deve a questões estruturais na rede elétrica, bem como a tarifas impostas por Trump e lentidão nas licenças.

"O que está em jogo com os Estados Unidos é: eles querem permanecer competitivos ou não?", disse La Camera. "Porque se os outros produtores têm custos mais baixos que os EUA, então a economia dos EUA será penalizada."

Taylor Rogers, porta-voz da Casa Branca, disse em comunicado que "os americanos votaram esmagadoramente no presidente Trump para liberar fontes de energia confiáveis, acessíveis e seguras, porque a pressão dos democratas pela chamada energia verde ameaçou a segurança nacional dos Estados Unidos e elevou os preços".

"A realidade é que países que fizeram a transição para energia renovável são totalmente dependentes de outros países para petróleo e gás quando sua energia verde intermitente, cara e não confiável inevitavelmente falha", disse Rogers.

O governo Trump anunciou em janeiro que estava se retirando da Agência Internacional de Energia Renovável.

Dave Jones, cofundador da organização de pesquisa energética Ember, disse que os sistemas de baterias e armazenamento se transformaram tão rapidamente que "todo mundo está tentando acompanhar o quanto isso mudou fundamentalmente". Nos últimos anos, engenheiros fizeram mudanças para reduzir significativamente o risco de incêndio e estender a vida útil da tecnologia. E tudo isso está acontecendo enquanto o custo do petróleo e do gás natural liquefeito sobe.

"Então a economia da tecnologia limpa versus combustíveis fósseis recebeu um enorme impulso", disse Jones.

Um novo unicórnio brasileiro, The News

 

(Imagem: Enter | Divulgação)

A Enter, uma startup brasileira de AI do setor jurídico, acabou de triplicar seu valor de mercado para US$ 1,2 bilhão e tornou-se a primeira empresa de AI que atua na América Latina a valer mais de US$ 1 bi.

  • O aporte total na companhia foi de US$ 100 milhões e contou com a participação dos maiores fundos do mundo, como Sequoia e Founders Fund.

Mas o que ela faz? A Enter usa inteligência artificial para lidar de maneira automatizada com processos trabalhistas e de consumidores. Na prática, ela cria defesas, teses jurídicas e outras tarefas sem depender de um humano.

Eles têm dois principais benchmarks lá fora: nos EUA, a Harvey, avaliada em US$ 11 bilhões e, na Europa, a Legora, avaliada em US$ 5,5 bilhões. Usando elas de inspiração, a Enter quer dominar o mercado brasileiro…

Um oceano azul: O Brasil entrou em 2026 com cerca de 75 milhões de processos — quantia quase 60% maior do que o total de processos julgados no país em 2025. Isso sem falar que +90% das ações trabalhistas do mundo estão aqui.

Atualmente, eles possuem +45 clientes — incluindo Magalu, Latam e Itaú — e processam +300 mil casos/ano. Com o novo aporte, eles pretendem expandir operações para outras regiões e ampliar o número de funcionários de 100 para 150.

Zoom in: O Mateus Costa-Ribeiro, um dos fundadores, entrou na faculdade aos 14 anos, fez mestrado em Harvard e, com 20 anos, tornou-se a pessoa mais jovem aprovada na história da Ordem dos Advogados de Nova York.

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