quinta-feira, 9 de março de 2023

A igualdade salarial. Ou: 'Eu também já fui brasileiro como vocês', Reinaldo Azevedo, FSP

Não mexa que estraga. A emenda sempre fica pior do que o soneto. Quando governos se metem a corrigir desigualdades, mais atrapalham do que ajudam. Tentando proteger os vulneráveis, vão marginalizá-los ainda mais.

Ao tomar conhecimento do conjunto de medidas anunciadas por Lula de proteção às mulheres, lembrei-me dessas considerações que se ouvem por aí, muito especialmente em ambientes em que se respira o ar do "liberalismo à brasileira". Não raro, este convive bem com desigualdades alarmantes e as transforma em fatos caídos da árvore da vida. Os missionários querem menos Estado também na assistência social, não só na economia. Não é maldade, é crença.

O presidente Lula, em cerimônia de celebração do Dia Internacional da Mulher e de anúncio de conjunto de ações na quarta-feira (8) - Gabriela Biló/Folhapress

Aguardo a reação desses fiéis ao pacote pró-mulheres. Não sei quantos entes abstratos, que habitam o "mundo como ideia", serão convocados para evidenciar que tudo vai dar errado porque verdades eternas da economia estariam sendo afrontadas. As mesmas evocadas, e as tenho vivas na memória, contra o SUS no século passado.

Lembro um poema de Carlos Drummond de Andrade. "Eu também já fui brasileiro como vocês" —no caso, os entusiastas do "liberalismo nada moreno". Faço aqui alusão espelhada ao "socialismo moreno", de que Leonel Brizola se tornou a expressão eleitoral, no esforço para adaptar certas ideias gerais sobre o bem e o justo às circunstâncias de cada país. Noto à margem: não procedo a um juízo de valor sobre aquelas escolhas políticas.

Se o "socialismo" —e tomo o vocábulo como emblema das várias correntes igualitaristas— se amansou no Brasil, substituindo, como vertente triunfante, a disrupção pela reforma, amalgamando-se ao que fizemos do que fizeram de nós, parece-me certo que aquilo a que chamam "liberalismo" andou em sentido contrário, não recusando, e buscando-a às vezes, proximidade com o reacionarismo mais abjeto. Na simbologia aqui empregada, foi se tornando mais branco e menos brando.

Jair Bolsonaro não devastou a direita democrática por acaso. Isso não se deveu apenas à sua truculência, mas também à vizinhança de certas ideias. E, por isso mesmo, tudo o mais constante, vai demorar muito tempo até que os ditos "conservadores" não bolsonaristas e não petistas tenham uma voz reconhecível. Deveriam ler Paulo: a cítara e a flauta hão de soar de modo distinto. Se o som for incerto, quem vai se organizar para a batalha?

Volto a Drummond, adaptando-o. "Eu também já fui poeta./ Bastava olhar para o mercado,/ pensava logo nas estrelas/ e outros substantivos celestes/ Mas eram tantas, o céu tamanho,/ minha poesia perturbou-se. (...) E meus amigos me queriam,/ meus inimigos me odiavam./ Eu irônico deslizava/ satisfeito de ter meu ritmo."

Sei fazer todos os panegíricos em favor do mercado. Mas, na democracia, ou ele é regulado pela política —em vez de controlá-las—, ou viveremos de lamentar, a cada pouco, que muitos sejam colhidos por tragédias. Ou, sem estas, que morram aos suspiros. A igualdade salarial encontrará enormes resistências. Todas as frases que abrem este texto serão tonitruadas. E se vai alertar, adicionalmente, para o desemprego das mulheres, que o projeto de lei busca proteger.

Os detratores, havendo quem perca seu tempo com isso, podem usar contra mim aquele Drummond, que termina assim: "Mas acabei confundindo tudo./ Hoje não deslizo mais não,/ não sou irônico mais não,/não tenho ritmo mais não." Não sinto nenhuma saudade de um tempo de muitas certezas e pouca perplexidade. Paulo de novo: há a hora de deixar de ser menino. Sabemos quão entediante é o entusiasmo de um viajante neófito com paisagens das quais já nos fartamos.

Temos convivido mal com a ideia de que as pessoas podem não ser assim tão virtuosas, mas que temos de lutar por instituições que o sejam, como me disse a ministra Marina Silva (Meio Ambiente) em entrevista recente. Não ignoro que elas nascem de consensos possíveis, mas defendo que também contribuem para criá-los. Se um conservador não busca aprimorar instituições para conservá-las (Chesterton), lutará pela conservação de quê? De iniquidades? Lula, por isso mesmo, é nosso mais notável conservador. E isso aqueles "liberais" a que me refiro ainda não entenderam. Talvez não entendam nunca. 

Em romance 'Boogie-Woogie', Boris Vian criou o 'pianoquetel', FSP

 


Tem aniversários que merecem um grito de ulalá todo ano, seguido de drinques expansivos. Como o de Boris Vian, nascido neste 10 de março, há 123 anos. Quando morreu, aos 39, houve uma queda inaudita dos níveis de energia criativa do planeta.

Trompetista, compositor, cantor, engenheiro, patafísico, dramaturgo, agitador cultural, crítico musical, pintor, romancista, era um furacão de testa alta e sorriso triste que reinava no bairro boêmio de Saint-Germain-des-Prés, em Paris. Adepto de salutares bagunças, "traduzia" livros eróticos e violentos que ele mesmo escrevia e assinava com pseudônimo. Primeiro dessa leva noir, "J'irai Cracher sur Vos Tombes", ou "Vou Cuspir em Suas Tumbas", foi o maior sucesso literário de 1947, causando furor e escândalo na mesma medida. Processado e ameaçado de prisão, Vian teve de provar que ele não era seu pseudônimo, invertendo o célebre julgamento de Flaubert.

Boris Vian no programa de TV 'A la recherche du jazz' - Philippe Bataillon/Ina via AFP

Entre as quase 500 canções que escreveu em cerca de 15 anos está o hino pacifista "Le Déserteur" (que também sofreu censura) e "Je Bois" (Eu Bebo), cuja letra é de sumo interesse para estudos lírico-etílicos. A filosofia é simples, mas eficaz: "Bebo sistematicamente para não dizer a mim mesmo que devo parar de beber". Prova de que a sofrência já era universal, o pessimista também "bebe sistematicamente para esquecer os amigos de sua mulher".

Mas Vian, ele mesmo, bebia por diversão —talvez sistematicamente. Criou até uma máquina para isso em que juntava a tão querida música, combustível das suas noitadas no cabaré Tabou, e elixires de todas as cores e sabores. É o "pianoquetel", assim descrito pelo personagem Colin, em seu romance "A Espuma dos Dias": "A cada nota faço corresponder uma bebida, um licor ou um aromatizante". Ou seja, o fremir das teclas funciona como as mãos de um bartender.

Não fica claro se, ao tocar clássicos como Bach ou "La Vie en Rose", o coquetel resultante seja também um clássico —um dry martini, por exemplo. Ou se, dedilhada uma melodia de Noel Rosa, saia pronta uma caipirinha gelada.

Mas a descrição continua, na ótima tradução de Paulo Werneck (a edição brasileira é da saudosa Cosac & Naify): "E, de acordo com a duração da peça, podemos, se quisermos, fazer variar o valor da dose (...) para obter uma bebida que leve em conta todas as harmonias".

Colin ajusta o pianoquetel para taças de 200 ml e seu amigo Chick senta-se na banqueta para tocar/coquetelar. No filme de mesmo nome, dirigido por Michel Gondry, a canção é "Caravan", de Duke Ellington, outro dos amigos geniais no panteão de Vian.

"Ao fim da peça, uma parte do painel da frente se abriu num golpe seco e apareceu uma fileira de vidros. Dois deles estavam cheios até a boca de uma mistura deliciosa."

Da sinestesia entre melodia e sabor, harmonia e dose etílica, temos a união do prazer com o prazer. Nada mais justo e necessário. A ideia se espalhou pela França e diferentes pianoquetéis foram de fato construídos —um dos afinadores da engenhoca entrou em coma alcoólico, mas sobreviveu.

Vian deixou algumas receitas —infelizmente não em partituras. A que segue é homenagem ao seu quadrado festivo, cujos habitantes teriam "uma capacidade estomacal quase ilimitada no que se refere aos líquidos.". Como ele não especifica bem as medidas, tive de improvisar a música.


LE SAINT-GERMAIN

60 ml de vodca

50 ml de vermute seco

10 ml de Cointreau

Mexa os ingredientes com gelo e coe para uma taça coupê gelada.

Justiça nega pedido de empresas contra imposto sobre exportação de petróleo, FSP

 

REUTERS

A 16ª Vara da Justiça Federal do Rio de Janeiro negou pedido conjunto de grandes companhias globais de energia, como Shell, Equinor e TotalEnergies, para que não fossem submetidas à incidência do novo imposto sobre exportação de petróleo do Brasil, anunciado na semana passada pelo governo federal.

Instituída por meio de medida provisória editada pelo governo para compensar a manutenção parcial da desoneração de impostos federais sobre combustíveis, a nova alíquota de 9,2% é questionada por representantes do setor de energia.

Logo da Shell; empresa recorreu à Justiça para suspender imposto sobre exportação de petróleo - May James/Reuters

"O tratamento dado pela Medida Provisória nº 1.163/2023 compatibiliza-se com os preceitos constitucionais, razão pela qual tenho por ausente fundamento relevante a amparar a pretensão contida na inicial", argumenta o juiz federal Wilney Magno de Azevedo Silva, na decisão que nega o pedido das petroleiras.

"Não há qualquer indicação de que o recolhimento da contribuição questionada inviabilizará o exercício da atividade negocial das impetrantes", acrescenta.

A Shell Brasil é uma das principais parceiras da Petrobras no pré-sal e a segunda maior produtora de petróleo do país, atrás da estatal. Repsol Sinopec e Petrogal, da Galp, também participam da ação ajuizada pelas empresas.

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Em outra frente, o Partido Liberal apresentou ação direta de inconstitucionalidade no Supremo Tribunal Federal (STF) com pedido de medida cautelar para a suspensão dos efeitos da MP que criou o imposto até uma decisão final. A ação foi distribuída para o ministro da corte Gilmar Mendes, que, como relator, ainda não proferiu decisão.