quinta-feira, 27 de janeiro de 2022

A Semana, um menos um, Ruy Castro ,FSP

 Leitores às vezes me criticam por "tentar desmerecer" a Semana de Arte Moderna de 1922. Na verdade, tenho apenas proposto que se aproveite seu centenário, a se comemorar em fevereiro, para examiná-la sem os antolhos de sempre. Além disso, seus participantes não eram intocáveis. Veja o que disse deles por escrito, 30 anos depois, um dos membros hoje mais amados da Semana.

Sobre Mario de Andrade: "Invertido [gay], mas fecundo"; "Miss Macunaíma"; "Suas únicas relações com o Estado foram através da Força Pública, seção de Cavalaria, no Jardim Público e em outros coretos noturnos". Menotti del Picchia: "Um caipira perdido na cidade". Villa-Lobos: "O músico mais barulhento e vazio do Brasil". Guilherme de Almeida: "Sórdido". Manuel Bandeira: "Salafra". Brecheret: "Escultor de túmulos" e "Peidava [durante a] sobremesa, dizendo 'Com licença'".

Blaise Cendrars: "Palhaço da burguesia". Paulo Prado: "Mulato aristocrata". René Thiollier: "Agressivo burro". Cassiano Ricardo: "Ratazana ao molho pardo". Candido Motta Filho: "Frouxo oportunista". Antonio de Alcantara Machado: "Cretino de ouro". Augusto Frederico Schmidt: "Tubarão gordo e boçal". Faculdade de Direito de São Paulo: "O cancro do Brasil". A de Filosofia, Ciências e Letras: "Um ninho de muares".

Ninguém foi poupado. Monteiro Lobato: "Um asno atrelado à carroça da reação". Jorge Amado, "Um cavalo". Graciliano Ramos: "Como se pode ter talento sendo burro?". Alvaro Lins: "Crítico branco ou professor mulato?". Caio Prado Jr.: "Que cavalgadura!". Julinho de Mesquita Filho: "Um bom filho da puta". Outros foram chamados de viadão, pederasta, cachorro, mentiroso, crápula, pústula, mongol, puta pública, turcada boçal, judiada, negro e tarado imundo.

O autor desses epítetos, Oswald de Andrade, tornou-se, de há muito, a voz incontestável da Semana de Arte Moderna. Talvez por ter desmerecido todos os outros que fizeram parte dela.

A ciência está se transformando em política, OESP

 J.R.Guzzo, O Estado de S.Paulo

26 de janeiro de 2022 | 14h47

De todos os desastres, alguns sem mais conserto, que a covid trouxe nestes dois últimos anos ao mundo e ao Brasil, um dos mais perversos, sem dúvida, é a degeneração universal da ideia básica de ciência. É inevitável que aconteça: o debate científico aberto, condição indispensável para se avançar na busca do conhecimento, está em grande parte proibido. É uma volta mortal aos tempos da treva, quando a verdade era estabelecida em decreto pelos reis, papas e seus amigos – e não pelo estudo e pelo entendimento das leis e fenômenos naturais. Hoje a ciência, pela ação cúmplice de cientistas de ocasião, funcionários da máquina estatal e oportunistas de todos os tipos, está se transformando em política – serve a ideias, interesses e desejos, e não mais aos fatos.

Todo o mecanismo mental que comanda a ação atual da máquina pública no trato da epidemia – basicamente, um sistema de repressão à liberdade e aos direitos individuais, com o apoio apaixonado da mídia – se baseia na guerra à ciência. Não é que haja dúvidas entre várias hipóteses e o Estado, através de algum processo democrático, tenha optado por uma ou por algumas. Não é isso. No Brasil, premiadas com poderes praticamente absolutos pelo Supremo Tribunal Federal, as “autoridades locais” atribuíram a si próprias o direito de definir o que é ou não é ciência. Ao mesmo tempo, e sem deixar espaço para nenhum questionamento, decretaram que é proibida a não-concordância com as suas decisões e “protocolos”; ou você engole o pacote como eles querem, ou estará se colocando “contra a ciência”. É um charlatão, um inimigo do interesse comum e um “negacionista” – mesmo que seja um cientista com 30 anos de experiência em pesquisas e tenha dito ao fiscal da prefeitura que seria bom estudar um pouco mais isso ou aquilo. É a ciência imposta através de portarias.

Imagem mostra pedestres na Avenida Paulista utilizando máscaras contra a covid-19; governo de São Paulo determinou uso obrigatório do item ao menos até fim de janeiro
Imagem mostra pedestres na Avenida Paulista utilizando máscaras contra a covid-19; governo de São Paulo determinou uso obrigatório do item ao menos até fim de março Foto: Tiago Queiroz/Estadão - 05/10/2021

Qual a condição, por mínima que seja, de um prefeito, juiz de direito ou procurador – ou mesmo de um ministro Barroso, ou coisa que o valha – discutirem de verdade alguma questão de ciência? Não sabem nada; o que podem dizer de útil sobre o tema? No que diz respeito à ciência, e no que se refere especificamente ao ministro Barroso, é um fato a sua devoção ao curandeiro João de Deus, hoje condenado por estupro e fraude. Que raio de credencial é essa, em matéria de relacionamento com a ciência? Alguém acha que os 6.000 prefeitos e 27 governadores que estão aí são melhores do que ele? Porque?

A ciência, para ser ciência de verdade, precisa não do ministro Barroso e na manada de pequenas autoridades que manda hoje na sua vida, e sim da investigação livre dos fenômenos que podem ser observados pelo ser humano – senão, não é ciência nenhuma. A ciência precisa, o tempo todo, do debate livre, da indagação permanente, do questionamento aberto, da prova objetiva. Isso está proibido hoje no debate sobre covid – a verdade é uma só, e ela vem numa portaria assinada por um analfabeto qualquer que se encontra num cargo público. Voltamos ao tempo de Galileu, quando era a Igreja que definia quantos graus tem o ângulo reto, ou garantia que o Sol girava em volta da Terra – com a desvantagem de que a Igreja, por pior que fosse, não era tão ruim quanto o sistema judiciário brasileiro, ou essa multidão de nulidades que se promoveram, do Oiapoque ao Chuí, ao emprego de Deus na Terra. Mas qual é o problema? É assim que se combate, hoje, pelas instituições democráticas e contra a onda direitista.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2022

Startup distribui filtros de água em programa piloto de cervejaria, FSP

 Daniela Arcanjo

SÃO PAULO

A startup Água Camelo, que distribui kits de filtro e armazenamento de água, ampliou a sua operação no final do ano passado para a Aldeia Mutum, no Acre, e o Morro da Providência, no Rio de Janeiro, em um projeto-piloto que ocorre na Aceleradora 100+ da Ambev.

A empresa de inovação foi uma das selecionadas no ano passado pelo programa da cervejaria, ao lado de Afroimpacto, Aterra, Diversidade.io, Inspectral, IQX, Recigases, TRC Sustentável e Via Floresta. Além de treinamento e mentoria, as startups participantes têm a chance de receber aportes ao longo do programa.

Criança indígena pega água em kit de filtro e armazenamento de água da startup Água Camelo na Aldeia Mutum, no Acre - Divulgação

As localidades foram escolhidas por causa de suas discrepâncias e estão passando por análises de metodologia. É a terceira turma contemplada pela iniciativa, em um momento em que a agenda ESG (sigla em inglês para os princípios ambiental, social e de governança) ganha força.

Fundada em agosto de 2020, a startup distribui kits que levam um filtro de água portátil, um suporte de parede e um manual de uso e manutenção para pessoas em situação de vulnerabilidade. Segundo os fundadores, o filtro tem validade de 10 anos: para limpar, basta passar a água pelo fluxo contrário.

"Muitas vezes, para trocar a vela do filtro a pessoa tem que fazer um deslocamento tão grande que ela acaba deixando de lado e bebendo uma água que não é própria para ser consumida", afirma um dos fundadores da startup, Rodrigo Belli.

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Cada kit é ofertado por R$ 500 —nos quais já está embutido o lucro da empresa—, mas o consumidor final sempre o recebe de graça. No início, pessoas físicas e jurídicas apadrinhavam beneficiários, mas hoje a startup mudou o seu modelo de negócio.

"Tem muitas empresas olhando para isso como um serviço que elas querem contratar", diz Belli. Por isso, o foco atualmente é oferecer essa solução a grandes companhias, normalmente as que querem promover algum impacto social.

Chegar à Amazônia era uma meta do grupo, especialmente de João Manuel Piedrafita, acreano que cresceu em contato com comunidades indígenas por influência de seus pais —sua mãe trabalha com extrativistas e seu pai é antropólogo.

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Entrega de filtros da startup Água Camelo no Morro da Providência, no Rio de Janeiro - Divulgação

A empresa tem remunerado parceiros estratégicos nos locais, como líderes e assistentes sociais, para garantir a chegada e o uso do kit.

"A gente entendeu que, para escalar o nosso negócio, precisaria contar com pessoas na ponta que já tivessem uma troca fixa com a comunidade", diz Piedrafita.

A ideia da startup começou na faculdade de design da PUC-Rio, onde os três amigos de infância se reencontraram, e tomou forma em 2020, quando distribuíram mais de 500 kits. Hoje o número passa de 800.

"Entendemos que poderia ser uma forma de mitigar os efeitos da pandemia. Muito se falava para lavar a mão, mas tinha gente que não tinha água em casa", diz Belli. O terceiro fundador da marca é Daniel Ilg Leite.

A escolha de estruturar uma empresa, e não uma ONG, também foi pensada.

"O lucro faz a gente conseguir colocar gasolina para dentro dessa engrenagem. Com dinheiro a gente consegue reverter ainda mais dinheiro para a empresa, crescer e gerar mais impacto. A gente não quer ficar dependendo de doações ou dinheiro externo, quer gerar o nosso próprio dinheiro", afirma o Belli.​

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A startup foi uma das escolhidas pelo Aceleradora 100+, programa da Ambev - Divulgação