terça-feira, 25 de janeiro de 2022

Desconhecidos ensinam que é possível fazer o bem mesmo em situações de risco, Juliana de Albuquerque, FSP

 

Em "O Livro dos Seres Imaginários" (1967), Jorge Luis Borges nos oferece uma série de textos sobre personagens e criaturas fantásticas presentes nas mais diversas culturas. Algumas dessas criaturas, ao exemplo dos dragões, encontram expressão em variados contextos humanos. Outras, como o demônio Keteh Meriri e os golems, pertencem a um folclore específico.

Em coluna de novembro passado, escrevi sobre os golems, os gigantes de argila do folclore judaico, cuja lenda inspirou alguns dos mais célebres super-heróis das histórias em quadrinhos, como Ben Grimm, O Coisa, e Bruce Banner, o Poderoso Hulk.

Na ocasião, comentei que as narrativas sobre esses seres imaginários poderiam nos dar elementos para uma reflexão política, alertando-nos sobre o risco de apostarmos em soluções mágicas para os nossos problemas. Hoje, volto a escrever sobre política em sentido amplo, literatura e folclore judaico, a partir do que Borges relata sobre o mito dos "lamed wufniks":

"Há na Terra, e sempre houve, trinta e seis homens retos cuja missão é justificar o mundo perante Deus. São os lamed wufniks. Não se conhecem entre si e são muito pobres. Se um homem chega a saber que é um lamed wufkinik, morre imediatamente, e um outro, talvez em outra região do planeta, toma seu lugar, sem suspeitar, esses homens são os pilares secretos do universo. Não fosse por eles, Deus aniquilaria o gênero humano. São nossos salvadores e não sabem".

A expressão "lamed wufniks" vem do iídiche. Ela se refere ao valor numérico das letras hebraicas "lamed" e "vav" que, somadas, formam o número 36. Existem várias interpretações para esse número específico, muitas das quais foram elencadas por Gershom Scholem, filósofo e historiador do misticismo judaico, em ensaio publicado no volume "The Messianic Idea in Judaism" (1971).

Há quem diga que o número 36 tenha origem em um cálculo feito a partir da palavra que traduzimos por "nele" em Isaías, 30:18: "Como são felizes todos os que nele esperam". Pois, em hebraico, a soma das letras que formam tal palavra resulta no número 36. De modo que a mesma passagem poderia ser lida da seguinte forma: "Como são felizes todos aqueles que esperam nos trinta e seis".

Cálculos e elucubrações exegéticas à parte, o que há de interessante na história dos trinta e seis homens retos é a ideia de que a justiça é muitas vezes garantida por pessoas simples, alheias à própria bondade e desconhecidas entre si, cujas virtudes geralmente são expressas de modo paradoxal, em desarmonia com a primeira impressão que possuímos desses indivíduos.

De modo a ilustrar tal paradoxo, Scholem remete-nos a uma narrativa talmúdica do século 3o em que Rabi Abbahu questiona o empregado de um bordel, responsável por contratar e administrar prostitutas, se ele já havia praticado o bem.

Retrato de Gershom Scholem em 1925
Retrato de Gershom Scholem em 1925 - Wikimedia Commons/Reprodução

Em resposta ao rabino, o homem, tido por "pentakaka" —​palavra de origem grega, a significar cinco más ações— comenta que, certa vez, chegou a vender a própria cama e as cobertas para ajudar a uma desconhecida a tirar o marido da prisão, evitando que ela tivesse de se prostituir para sobreviver.

Outra narrativa, dessa vez atribuída ao rabino Lawrence Kushner, nosso contemporâneo, se passa na cidade de Munique durante a ascensão do regime nazista. Uma senhora judia viajava de ônibus quando soldados da SS entram no veículo para conferir a identidade dos passageiros. Assustada, ela comenta a situação com o homem sentado ao seu lado. Este, alemão, levanta-se imediatamente e começa a ralhar com a mulher, chamando-a de tudo e mais um pouco.

Nisso, um dos soldados se aproxima, o homem entrega o documento de identificação e pede desculpas por protagonizar tamanha cena com a esposa, é que ela, uma cabeça de vento, sempre se esquecia de colocar os próprios documentos na bolsa. Resultado, o soldado sorri meio constrangido, confere a identidade do homem e deixa a mulher em paz.

Quem também parece explorar temas que podem remeter aos "lamed wufniks" é a filósofa Hannah Arendt. Em célebre entrevista de 1964 ao programa "Zur Person" apresentado pelo jornalista Günter Gauss, ela comenta quando, em 1933, foi presa em Berlim.

Na ocasião, Arendt havia aceitado o convite da Organização Sionista Alemã para colecionar declarações antissemitas publicadas em revistas especializadas por toda espécie de associação profissional. Esse material, conta-nos a biógrafa de Arendt, Samantha Rose Hill, seria enviado para agências internacionais de imprensa, em uma tentativa de conscientizar a comunidade internacional sobre o perigoso avanço do antissemitismo na Alemanha. Denunciada por um funcionário da Biblioteca do Estado, Arendt é presa —afinal, do que serviriam tantos jornais para uma jovem acadêmica.

Sobre a prisão, Arendt comenta com Gauss que fora poupada graças ao oficial encarregado do seu caso. Ele havia sido recentemente promovido da polícia criminal para uma divisão política e, segundo a filósofa, não sabia exatamente o que fazer com ela:

"Eu deixei a prisão depois de oito dias porque fiquei amiga do oficial que me prendeu [...]. Ele sempre comentava: ‘Normalmente sempre tenho alguém diante de mim e basta checar os arquivos para saber do que se trata. Mas o que faço com você?’ [...]. ‘Eu coloquei você aqui. Vou tirar você daqui’ [...]. O homem que havia me prendido tinha o semblante aberto e decente. Eu confiei nele e pensei que com ele eu teria maiores chances do que com um advogado que, por sua vez, estaria com medo".

Essas e outras histórias de coragem e protagonismo individual, fazem com que eu me questione se os "lamed wufniks" deveriam realmente integrar a lista de seres fantásticos idealizada por Borges. Afinal, entre as mais extraordinárias criações da nossa imaginação, os "lamed wufniks" talvez sejam uma das que mais encontram amparo na experiência.

Muitos de nós já contaram com a ajuda de desconhecidos ou conhecem pessoas comuns —quem sabe até mesmo um ou dois vizinhos— que não se deixam seduzir por abstrações intelectuais, preconceitos e fetiches ideológicos, optando por agir moralmente e fazer o bem mesmo em situações de risco.

Essas pessoas são os nossos "lamed wufniks" e estão aqui para lembrar-nos de que as coisas podem, sim, melhorar. Tudo só depende de sermos capazes de fazer a nossa parte. Pois, uma coisa é certa: "Quando passar o tufão, não mais se encontrará o ímpio, mas os justos continuarão sendo o sustentáculo do mundo" (Provérbios 10:25).

Paul Krugman - Ataque da polícia do pensamento de direita, FSP

 Os americanos gostam de pensar que seu país é um farol da liberdade. E apesar de termos falhado de várias maneiras em corresponder a essa imagem, acima de todas as enormes injustiças que brotaram do pecado original da escravidão, a liberdade —não apenas eleições livres, mas também liberdade de expressão e pensamento— é há muito tempo um elemento chave da ideia americana.

Hoje, porém, a liberdade está sendo atacada, e em mais frentes do que muitas pessoas percebem. Todo mundo sabe da Grande Mentira, a recusa da ampla maioria dos republicanos a aceitar a legitimidade de uma derrota eleitoral. Mas há muitas outras áreas em que a liberdade não apenas sofre ataques, como está retrocedendo.

Vamos falar, em particular, sobre o ataque à educação, especialmente, mas não apenas, na Flórida, que se tornou um dos principais laboratórios de erosão democrática nos Estados Unidos.

Livro pegando fogo - Adobe Stock

Os republicanos fizeram um avanço político considerável ao denunciar o ensino da TCR (teoria crítica da raça; a estratégia deu certo, apesar de a maioria dos eleitores não ter ideia do que é essa teoria, e na verdade ela não estar sendo ensinada nas escolas públicas. Mas os fatos nesse caso não importam, porque as denúncias sobre TCR são basicamente um disfarce para uma agenda muito maior: a tentativa de impedir as escolas de ensinar qualquer coisa que deixe as pessoas de direita incomodadas.

Eu uso essa última palavra com consideração: há um projeto de lei que corre no Senado da Flórida que declara que um indivíduo "não deve ser levado a sentir incômodo, culpa, nervosismo ou qualquer outra forma de aflição psicológica por causa de sua raça". Isto é, o critério para o que pode ser ensinado não é "Isso é verdade? É apoiado pelo consenso acadêmico?", mas sim "Isso causa incômodo em certos eleitorados?"

Qualquer pessoa tentada a fazer uma interpretação inofensiva desse dispositivo —talvez seja apenas questão de não atribuir uma culpa coletiva?— deveria ler o texto da lei. Entre outras coisas, ela cita como dois exemplos básicos de coisas que não devem acontecer nas escolas "a negação ou minimização do Holocausto e o ensino da teoria crítica da raça" —porque sugerir que "o racismo está inserido na sociedade americana" (a definição da teoria no projeto de lei) é simplesmente a mesma coisa que negar que Hitler matou seis milhões de judeus.

O que é realmente chocante, entretanto, é a ideia de que as escolas devem ser proibidas de ensinar qualquer coisa que cause "incômodo" [ou desconforto] entre os estudantes e seus pais. Se você imagina que as consequências de se aplicar esse princípio se limitariam ao ensino sobre relações raciais, está sendo totalmente ingênuo.

Por um lado, o racismo está longe de ser o único tema perturbador na história americana. Tenho a certeza de que alguns estudantes acharão que a história de como chegamos a invadir o Iraque —ou mesmo de como nos envolvemos no Vietnã— os deixa incomodados. Removam esses temas do currículo!

Depois há o ensino de ciência. A maioria dos colégios ensina a teoria da evolução, mas importantes políticos republicanos ou são evasivos ou negam ativamente o consenso científico, supostamente refletindo o incômodo da base do partido com esse conceito. Quando o padrão da Flórida predominar, por quanto tempo o ensino da evolução sobreviverá?

A geologia, aliás, tem o mesmo problema. Estive em excursões na natureza em que os guias se recusaram a falar sobre as origens das formações rochosas, dizendo que já tiveram problemas com alguns clientes religiosos.

Ah, e dada a crescente importância da posição antivacina como emblema da aliança conservadora, quanto tempo levará para que a epidemiologia básica —talvez até a teoria microbiana da doença— receba o mesmo tratamento que a teoria crítica da raça?

Depois temos a economia, que hoje em dia é amplamente ensinada no nível secundário. (Revelação: muitos colégios usam uma versão adaptada do texto sobre os princípios do qual sou coautor.) Diante da longa história de tentativas de viés político para impedir o ensino da economia keynesiana, o que você acha que o padrão da Flórida faria ao ensino em meu campo?

A questão é que a campanha de difamação contra a teoria crítica da raça é quase certamente o início de uma tentativa de submeter a educação em geral ao regime da polícia do pensamento da direita, o que terá consequências terríveis muito além do tema específico do racismo.

E quem vai aplicar as regras? Vigilantes pagos pelo estado! No mês passado, Ron DeSantis, o governador da Flórida, propôs uma "Lei Parem o WOKE" [WOKE é a sigla de "Wrongs Against Our Kids and Employees", ou "erros contra nossos filhos e empregados"], que daria aos pais o poder de processar distritos escolares que, segundo eles, ensinam a teoria crítica da raça —e cobrar honorários de advogados, um modelo parecido com a nova lei antiaborto do Texas. A mera perspectiva de tais processos jurídicos teria um efeito congelante no ensino.

Eu já falei que DeSantis também quer criar uma polícia especial para investigar a fraude nas eleições? Assim como os ataques à teoria crítica da raça, essa é obviamente uma tentativa de usar uma questão inventada —a fraude eleitoral é amplamente inexistente— como desculpa para intimidação.

Está bem, tenho certeza de que algumas pessoas dirão que estou dando demasiada importância a essas questões. Mas pergunte a si mesmo: houve algum ponto nos últimos cinco anos, digamos, em que as advertências sobre o extremismo de direita se mostraram exageradas e os que rejeitaram essas advertências como "alarmistas" estiveram certos?

Tradução de Luiz Roberto M. Gonçalves

Alesp restringe acesso ao Palácio 9 de Julho e suspende atividades presenciais até 4 de março por causa de avanço da ômicron, g1

 


Fachada da Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp) — Foto: José Antonio Teixeira/Alesp/Divulgação

Fachada da Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp) — Foto: José Antonio Teixeira/Alesp/Divulgação

A Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (Alesp) funcionará a partir desta quarta-feira (26) sob novas regras estabelecidas em razão do avanço da variante ômicron. Uma série de medidas sanitárias, que incluem o limite de acesso de quatro servidores por gabinete e a retomada das sessões virtuais, ficará em vigor até o dia 4 de março, segundo Ato da Mesa Diretora publicado no Diário Oficial desta quinta-feira (20).

O Ato da Mesa nº 2/2022 levou em conta o “aumento exponencial no número de contaminações e a necessidade de adoção de medidas de prevenção à infecção e propagação de vírus respiratórios relativos à Influenza e à Pandemia da COVID-19 no âmbito do Palácio 9 de Julho”.

O documento cita também “a necessidade de preservar a saúde dos deputados, dos servidores, colaboradores e visitantes, bem como da capacidade de operação e manutenção do funcionamento das atividades desta Casa”.

O Legislativo estadual é a primeira área do setor público que volta praticamente ao trabalho remoto em razão do avanço da variante ômicron na capital paulista. Por ora, não há nenhuma mudança nessa direção por parte da Câmara Municipal ou do Executivo, entre órgãos municipais ou do Estado.

As novas regras adotadas pela Alesp seguem a linha daquelas estabelecidas pelo presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (PP-AL), que, no dia 17, determinou a volta do modelo remoto de trabalho em razão do aumento no número de novos casos de Covid no país nas últimas semanas. A medida, a princípio, vai durar até o carnaval.

Veja, abaixo, algumas regras estabelecidas pela Alesp:

  • Reuniões deverão ser feitas por meio virtual, evitando-se aglomeração de pessoas;
  • Fica suspensa a realização de eventos;
  • A quantidade diária de servidores e estagiários em gabinetes ficará limitada a 4 pessoas;
  • Fica proibido o acesso de visitantes ao Palácio 9 de Julho.

Questionado sobre como será feito o trabalho legislativo neste domingo, o presidente da Casa, Carlão Pignatari (PSDB), respondeu por mensagens à GloboNews: “Virtual até depois do carnaval”.

Desde o início da pandemia, declarada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em março de 2020, o trabalho na Alesp se deu, em sua maior parte, de forma remota. Só em agosto de 2021 as sessões presenciais no Plenário foram retomadas.

Pós-recesso

O Palácio 9 de Julho é o edifício-sede da Alesp e fica na avenida Pedro Álvares Cabral, na região de Moema, Zona Sul de São Paulo.

Em recesso desde o fim de 2021, os parlamentares retomarão o trabalho legislativo no dia 1º de fevereiro. Apesar disso, o trabalho nos gabinetes segue sendo feito durante esse período em que não há sessões no plenário. Essa é a razão para essas regras sanitárias passarem a valer já a partir desta quarta-feira (26), um dia depois do feriado do aniversário de São Paulo.