terça-feira, 25 de janeiro de 2022

O conflito de interesses no Congresso americano, The News

 

(Ilustração: POLITICO | Reprodução)

Estranho. Há alguns anos, um artigo mostrou um padrão suspeito: os membros do Congresso dos EUA tiveram retornos acima da média em seus investimentosO timing dos congressistas parece bem preciso, ou….

Com informações internas sobre mudanças políticas ou desenvolvimentos econômicos antes do resto do mercado, os membros podem comprar ações pouco antes de subirem, ou vendê-las logo antes de caírem.

Alguns exemplos:

Por que é relevante?

Essa situação é vista como um conflito de interesses. Se o caráter faltar, o que impediria legisladores de buscarem políticas que beneficiem suas carteiras?

Apesar de existir uma lei — a Stock Act — que busca impedir os legisladores de se aproveitarem de informações privilegiadas, houve vários casos suspeitos durante a COVID-19, o que mostra que a lei não parece suficiente.

Agora, um grupo de quase 27 membros do Congresso apresentou um pedido para que eles e seus companheiros sejam proibidos de negociar ações enquanto estiverem no cargoSerá que vai pra frente ou a lucratividade acima da média vai continuar?

SASSAFRÁS, A RAIZ DO AMOR, Marcello Dantas- Gama

 Sassafrás é uma árvore nativa da América e desempenhou um papel importante na colonização ocidental da parte mais ao norte deste continente pelos europeus. Sassafrás foi a primeira “descoberta” e exportação da América do Norte ao Velho Mundo, numa época em que a madeira e os objetos feitos a partir desta matéria prima eram fundamentais para a vida cotidiana.

Uma planta, que é usada como cura para vários males por sociedades ancestrais das Américas, tem outras características muito especiais. Ela possui uma substância que é capaz de potencializar nossa afeição por alguém. O chá feito com sua raiz ou sua folha gera uma sensação deliciosa de liberação de serotonina e dopamina, fazendo com que as pessoas que o tomam fiquem por horas (ou até dias corridos) com sua afetividade levemente alterada – se tornam doces, suaves e verdadeiramente sedutoras.

Ela tem um enorme potencial de ser usado em sessões terapêuticas, onde a empatia e a importância da sinceridade são essenciais para a verbalização e a diluição do trauma.

Até os anos 1960 ela era o principal ingrediente em um refrigerante comum nos EUA, a Root Beer; depois foi retirado e trocado por gengibre e canela. Sassafrás foi proibido nos EUA, mas não no Brasil, onde é fácil de ser encontrado. Foi proibido por que é um ingrediente do processo de produção do MDA, não confundir com o MDMA. MDA é uma substância sintética que se utiliza do óleo de sassafrás para catalisar a produção da molécula alucinógena.

Talvez, para uma sociedade como a americana, uma substância que seja capaz de gerar amor e afeto nas pessoas seja algo de fato muito subversivo. Assim como foi a descoberta do MDMA pela Merck em 1912, que, em busca de de um medicamento que reduzisse o sangramento, descobriu uma droga que geraria afeto entre as pessoas. A substância não foi entendida imediatamente e acabou sendo esquecida. Naquela época, eram buscadas substâncias que auxiliassem na guerra, e não no amor. A Alemanha nazista foi pródiga no uso de anfetaminas em seus soldados.

Foram necessários quase 50 anos para que essa substância voltasse a aparecer nos anos 1980, na forma de ecstasy. Mas, misturada à anfetamina, ficou contaminado o seu potencial de ser puro amor.

Uma substância que nos encaminhe para maior empatia entre opositores deveria inspirar os líderes do mundo. Mas o amor e a afetividade estão em falta

Voltando à sassafrás pura, ela era utilizada por nativos das primeiras nações na forma de um chá ou na forma de um pó cicatrizante. Não há referência sobre algum cunho psicológico, mas sabe-se que suas folhas podem ter sido usadas no que hoje chamamos de cachimbo da paz quando era alcançado um armistício.

A sabedoria de se usar uma substância que nos encaminhe para maior empatia entre opositores ao invés do confronto armado é algo que deveria inspirar os líderes do mundo neste momento de radicalismos. Mas o amor e a afetividade estão em falta por toda a parte. Muito além da politica, se os casais antes do jantar tomassem uma xícara desse chá, ele não apenas iria ajudar na digestão como faria com que os assuntos à mesa se tornassem mais leves e divertidos, que os sorrisos florescessem e que os não ditos fossem muito mais facilmente ditos. Pais e filhos poderiam vivenciar mais afeto, e baixar a guarda que os separa em um mundo cada vez mais mediado por uma espécie de metaverso terceirizado.

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Sassafrás tem o poder de baixar a guarda do ego, a doença que mais atrapalha a vida. Se isso não é curador, não sei mais o que pode ser

Meu caminho em experimentar sassafrás foi totalmente acidental, atraído por textos científicos e diários pessoais. Comprei um saquinho no Mercado Livre e me dediquei a fazer uma bela quantidade de dois litros de chá com os chips de madeira e gengibre. Tomei a bebida o dia inteiro e, de fato, ao final do dia estava permeável a todo tipos de ideia e expressão alheia com muito mais atenção e interesse legítimo. Sassafrás tem o poder de baixar a guarda do ego, a doença que mais atrapalha a vida. Se isso não é curador, não sei mais o que pode ser.

Aceitar que somos criaturas químicas – e que por isso mesmo imperfeitas – me faz pensar que devemos buscar em substancias alquímicas que a natureza nos oferece uma forma de compensar nossas arestas de imperfeições. Adoro a palavra AmorTecer. Assim como em outro texto anterior dessa coluna tratei do aspecto bacteriológico do amor, existe paralelamente um aspecto químico dele que é regulado pela liberação de certos hormônios, que, claro, tem a ver com as bactérias, mas que pode ser alterado em função da presença de certas substâncias psicotropicamente ativas. É nesse momento que existe o nosso livre arbítrio de tecer nosso afeto: podemos sim decidir alargar os caminhos da nossa afetividade por alguém de forma a nos fazer permitir amar mais facilmente. Sassafrás é uma dessas senhas que a natureza nos disponibilizou para fazê-lo.

MARCELLO DANTAS trabalha na fronteira entre a arte e a tecnologia em exposições, museus e projetos que enfatizam a experiência. É curador interdisciplinar premiado, com atividade no Brasil e no exterior

Joel Pinheiro da Fonseca - O jornalismo está envelhecendo mal?, FSP

 Descobri, surpreso, lendo o artigo de Marilene Felinto, que o público-alvo da Folha é a "plateia de direita". No meu tempo na Jovem Pan ouvia diariamente que a Folha era um jornal esquerdista, quando não comunista. Seja quem você for, a Folha é contra. Felinto opinou também que a Folha está envelhecendo mal.

Não é porque se está irritando os dois lados que se está fazendo algo certo. A pura cretinice também pode desagradar a todos. Mas, hoje em dia, um jornal que esteja cumprindo seu papel certamente irá irritar a todos os lados.

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Registro da redação da Folha durante período de pandemia - Adriano Vizoni - 1º.jul.21/Folhapress

Estamos mal acostumados pelas redes sociais. Elas são excelentes em nos dar aquilo que queremos: informação feita sob medida para nossos desejos. E, infelizmente, em nosso consumo de informação, o desejo de conhecer a realidade —doa a quem doer—, embora não seja zero, está longe de ser a única prioridade.

Sendo assim, a capacidade das redes de nos entregar estritamente o que queremos garante-nos uma dieta em que nossas convicções são sempre confirmadas e até tornadas mais radicais.

Antigamente, isso só valeria para quem vivia nos mais profundos antros de militância. Hoje, é a realidade cotidiana da maioria; pessoas que há dez anos jamais se interessariam por política hoje consomem conteúdo extremista da hora em que levantam até se deitar.

Já um veículo de imprensa sério buscará a objetividade, utopia nunca plenamente alcançável. Como a realidade não tem partido, ora sendo favorável a um, ora a outro, todo mundo encontrará muito o que o irrite.

No campo das opiniões, o cenário também se transformou. Antes, poucos tinham acesso aos megafones que mídia possuía. Com as redes sociais, todos têm. E, assim como nas notícias, nosso consumo de opiniões se guia mais pelo que reafirma nossas conclusões do que pelo que nos apresenta bons argumentos ou análise.

Nas redes não existe um processo para produzir e validar conhecimento. Também não importam o tempo de estudo ou a seriedade da obra. Ela é uma plataforma horizontal em que todo mundo está munido, igualmente, de sua opinião.

A imprensa é impactada por isso. Se antes ela exercia um verdadeiro poder de peneirar quem tinha ou não tinha acesso ao debate público, agora ela tem que expandir sua rede para captar o que aparece fora dela, mesmo que isso cause horror na opinião estabelecida.

A boa imprensa tem que ser capaz de filtrar o que há de bom e relevante no debate público, que hoje já não depende dela como antes. Neste momento de polarização, isso também irrita a todos os lados.

A evolução que Felinto ou qualquer partidário espera de um jornal é a adesão integral à sua ideologia, posto que é a única compatível com a democracia, a liberdade de expressão e o desejo pelo bem comum.

Uma das características principais da polarização é que o adversário no debate deixa de ser visto como um interlocutor legítimo, ainda que equivocado, e passa a ser defensor de interesses inconfessáveis.

É a coisa mais preguiçosa rotular um texto do qual se discorde com alguma intenção indefensável. Criticou o Estado de Israel? Antissemita. Criticou ortodoxias do movimento negro? Racista.

O mais pernicioso é que esse vício intelectual se instala na mente com a roupagem de virtude, de postura corajosa que não faz concessões ao mal.

A imprensa está envelhecendo mal? Não há dúvida de que a crise econômica do setor ocasionada pelas redes (é difícil competir com informação gratuita facilmente disponível e sob medida para o usuário) reduz as possibilidades de qualquer empresa que faça jornalismo. Ao mesmo tempo, não fosse por ela, estaríamos num caminho sem volta para tribalização total da sociedade.